Pessoa tropical
setembro 29, 2009 às 14:17 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Fernando Pessoa, literatura brasileira, lusofonia, nação, narrativas identitárias, Portugal

Lisboa, 27 Nov 2008 (Lusa)
Fernando Pessoa foi comparado a Homero e a sua influência reconhecida em poetas como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles e movimentos culturais como o Tropicalismo, por professores e ensaístas brasileiros, quarta-feira, em Lisboa.
“Heródoto diz que na `Ilíada` Homero, num certo sentido, criou a Grécia e criou os deuses da Grécia, quer dizer, na verdade, o grande feito do poeta não é o feito que ele está relatando, o grande feito é o próprio poema”, disse o poeta, ensaísta e letrista António Cícero, numa sessão do I Congresso Internacional Fernando Pessoa, que decorre até sexta-feira em Lisboa.
Nesse sentido – prosseguiu – “o poema `Mensagem`, de Fernando Pessoa, criou um Portugal diferente do que havia antes dele ser escrito, assim como fez Homero com a própria Grécia”.
Segundo António Cícero, em Homero como em Pessoa, “o próprio poema é mais importante que a realidade que o precede”, seja a Guerra de Tróia ou um país chamado Portugal.
O Tropicalismo, movimento surgido no Brasil, no final da década de 1960, que começou na música popular e no cinema “mas acabou tendo uma influência muito grande sobre todos os aspectos da cultura brasileira”, tem na base “um certo messianismo”, defendeu Cícero, cujas letras foram cantadas por Adriana Calcanhotto, Gal Costa, Zizi Possi e Caetano Veloso, entre outros.
Músico e compositor baiano que foi um dos nomes maiores do Tropicalismo, “Caetano conta que uma das principais influências que sofreu foi de Agostinho da Silva, um professor português, um intelectual, um pensador, que havia emigrado para o Brasil, onde deu aulas”, e em cujos ensaios ele reconhecia “um certo messianismo que derivava imediatamente de Fernando Pessoa”, referiu.
A Caetano, que lera “Mensagem” na faculdade, impressionara-o sobretudo o facto de Fernando Pessoa “ser capaz, ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou sua justificação última, de dar vida digna a esse mito”, citou o ensaísta.
“Como Eduardo Lourenço explicou brilhantemente – acrescentou – `Mensagem` não pode ser entendido como estritamente nacionalista”.
“Devemos pensar em `Mensagem` como o poema fundador da totalidade linguística lusófona”, frisou António Cicero, na mesa-redonda sobre a influência de Fernando Pessoa na cultura brasileira em que participaram também as professoras Leyla Perrone-Moisés e Maria Lúcia Dal Farra.
Para demonstrar “a clara influência de Pessoa” na poesia de Carlos Drummond de Andrade – “unanimemente considerado um dos dois maiores poetas brasileiros do século XX, a par de João Cabral de Melo Neto” – Leyla Perrone-Moisés leu dois poemas de Drummond, do livro “Claro Enigma” (1951), um dos quais intitulado “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”.
Em seguida, comparou dois poemas de Pessoa e Drummond, “Tabacaria” e “A Máquina do Mundo”, respectivamente, dizendo que “embora muito diversos, são ambos extensos, narrativos, e embora ambos reflictam sobre o universo, Pessoa `está na vida sentada`, é um espectador do mundo, e Drummond caminha `na estrada pedregosa`, é um caminhante no mundo”.
Por sua vez, a professora de Literatura Maria Lúcia Dal Farra (UFS) contou a história da admiração da poetisa brasileira Cecília Meireles por Fernando Pessoa, que a levou mesmo a combinar um encontro com o poeta em 1934, na Brasileira do Chiado, em Lisboa, onde viera para falar de literatura brasileira.
Esperou duas horas e ele não apareceu, mas enviou uma mensagem a justificar a sua ausência: “Culpa do horóscopo!”, relatou Maria Lúcia Dal Farra, provocando o riso na audiência.
“Em contrapartida – indicou – enviou-lhe um exemplar de `Mensagem`, que deve ter sido um dos primeiros, com autógrafo de 10 de Dezembro de 1934, a mesma data dos oferecidos a Ophélia e a Carlos Queiroz”, sobrinho de Ophélia e jovem poeta amigo de Pessoa.
Por isso, “Cecília Meireles deve ter sido a primeira leitora de `Mensagem` no Brasil”, observou.
A professora leu trechos de poemas dela influenciados por Pessoa e um comentário de um crítico literário brasileiro que afirmou que ela “passara a imitar simiescamente Fernando Pessoa”, ao que ela respondeu que era mais uma de suas “ruindades”.

TROPICALIA
voltando às apresentações
setembro 20, 2009 às 8:43 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: apresentações, África, cultura afrobrasileira, evento, identidade, pesquisa & extensão, racismo
Olá para tod@s. Nossa aula de quarta-feira, dia 23/09, está CONFIRMADA. Devem, portanto, se apresentar nesse dia as equipes 4 & 5 das turmas de LitPort1 e LitPort3.
O encontro de 25/9, sexta-feira, está suspenso devido a minha participação no II Congresso Baiano de Pesquisadores Negros (CBPN II), a realizar-se na Universidade Estadual de Feira de Santana.

a lógica do imperialismo: passado & presente
setembro 12, 2009 às 12:18 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioDa guerra
Entre 1495 e 1975, as Grandes Potências estiveram em guerra durante 75% do tempo, começando uma nova guerra a cada sete ou oito anos. As guerras foram a principal atividade dos estados nacionais europeus, durante seus cinco séculos de existência, e agora de novo, o século XXI já começou sob o signo das armas. Neste contexto, soa absolutamente cômica e desnecessária a justificativa de que as novas bases militares dos EUA, na Colômbia, tem a ver com o combate ao narcotráfico e a guerrilha local. O artigo é de José Luís Fiori.
Entre 1495 e 1975, as Grandes Potências estiveram em guerra durante 75% do tempo, começando uma nova guerra a cada sete ou oito anos. Mesmo nos anos mais pacíficos deste período, entre 1816 e 1913, estas potências fizeram cerca de 100 guerras coloniais. E ao contrário das expectativas, a cada novo século, as guerras foram mais intensas e violentas do que no século anterior (J. Levy, “War in the modern Great Power System”, Ky Lexington, 1983). Por isso, se poder dizer que as guerras foram a principal atividade dos estados nacionais europeus, durante seus cinco séculos de existência, e agora de novo, o século XXI já começou sob o signo das armas. Mas apesar disto, segue sendo um tabu falar e analisar objetivamente o papel das guerras na formação, na evolução e no futuro do sistema inter-estatal capitalista, que foi “inventado” pelos europeus, nos séculos XVI e XVII, e só se transformou num fenômeno universal, no século XX. Talvez, porque seja muito doloroso aceitar que as guerras não são um fenômeno excepcional, nem decorrem de uma “necessidade econômica”. Ou porque seja muito difícil de entender que elas seguirão existindo, mesmo que não ocorram enfrentamentos atômicos entre as Grandes Potências, porque elas não precisam ser travadas para cumprir seu “papel” dentro do sistema inter-estatal. Basta que sejam planejadas de forma complementar e competitiva.
A primeira vista, tudo isto parece meio absurdo e paradoxal. Mas tudo fica mais claro quando se olha para o começo desta história, e se entende que o sistema mundial em que vivemos, foi uma conquista progressiva dos primeiros estados nacionais europeus. E desde os seus primeiros passos, este sistema nunca mais deixou de se expandir, “liderado” pelo crescimento competitivo e imperial de suas Grandes Potências, que lutam permanentemente para manter ou avançar sua posição relativa dentro do sistema. Por isto, tem razão o cientista político norte-americano, John Mearsheimer, quando diz que “as Grandes Potências têm um comportamento agressivo não porque elas queiram, mas porque elas têm que buscar acumular mais poder se quiserem maximizar suas probabilidades de sobrevivência, porque o sistema internacional cria incentivos poderosos para que os estados estejam sempre procurando oportunidades de ganhar mais poder às custas dos seus rivais…”. (Mearsheimer, “The tragedy of the great powers”, 2001: 21).
Neste processo competitivo, a guerra, ou a ameaça da guerra, foi o principal instrumento estratégico utilizado pelos estados nacionais, para acumular poder e definir a hierarquia mundial. E as potências vencedoras – que se transformaram em “líderes” do sistema – foram as que conseguiram conquistar e manter o controle monopólico das “tecnologias sensíveis”, de uso militar. Por sua vez, esta competição pela ponta tecnológica, e pelo controle monopólico dos demais recursos bélicos, deu origem à uma dinâmica automática e progressiva, de preparação contínua para as guerras. Numa disputa que aponta todo o tempo, na direção de um império único e universal. Mas, paradoxalmente, este império não poderá ser alcançado sem que o sistema mundial perca sua capacidade conjunta de seguir se expandindo. Por que? Porque a vitória e a constituição de um império mundial seria sempre a vitória de um estado nacional específico. Daquele estado que fosse capaz de impor sua vontade e monopolizar o poder, até o limite do desaparecimento dos seus competidores. Se isto acontecesse, entretanto, acabaria a competição entre os estados, e neste caso, os estados não teriam como seguir aumentando o seu próprio poder.
Ou seja, neste sistema inter-estatal inventado pelos europeus, a existência de adversários é indispensável para que haja expansão e acumulação de poder, e a preparação contínua para a guerra é o fator que ordena o próprio sistema. Assim mesmo, como a “potência líder” também precisa seguir acumulando poder, para manter sua posição relativa, ela mesma acaba atropelando as instituições e os acordos internacionais que ajudou a criar num momento anterior. Ela é quem tem maior poder relativo dentro do sistema, e por isto, ela é que acaba sendo, quase sempre, a grande desestabilizadora de qualquer ordem internacional estabelecida.
Agora bem, a preparação para a guerra, e as próprias guerras, nunca impediram a complementaridade econômica e a integração comercial e financeira, entre todos os estados envolvidos nos conflitos. Pelo contrário, a mútua dependência econômica sempre foi uma peça essencial da própria competição. Às vezes, predominou o conflito, às vezes a complementaridade, mas foi esta “dialética” que se transformou no verdadeiro motor político-econômico do sistema inter-estatal capitalista, e no grande segredo da vitória européia, sobre o resto do mundo, a partir do século XVII.
Entre 1650 e 1950, a Inglaterra participou de 110 guerras aproximadamente, dentro e fora da Europa, ou seja, em média, uma à cada três anos E entre 1783 e 1991, os Estados Unidos participaram de cerca de 80 guerras, dentro e fora da América, ou seja, em média, também, uma a cada três anos. (M. Coldfelter, “Warfare and armed conflicts”, MacFarland, Londres, 2002). Como resultado, neste início do século XXI, os Estados Unidos tem acordos militares com cerca de 130 países, ao redor do mundo, e mantém mais de 700 bases militares, fora do seu território. E assim mesmo, devem seguir se expandindo – independente de qual seja o seu governo – sem precisar ferir necessariamente o Direito Internacional, e sem precisar dar explicações a ninguém. Por isto, soa absolutamente cômica e desnecessária a justificativa de que as novas bases militares dos EUA, na Colômbia, tem a ver com o combate ao narcotráfico e a guerrilha local, assim como os argumentos que associam a instalação do escudo anti-mísseis dos EUA, na fronteira com a Rússia, com o controle e bloqueio de foguetes iranianos. Como soa ridícula, neste contexto, a evocação do “princípio básico da não ingerência”, na defesa das decisões colombianas, polacas ou checas. Neste “jogo” não há limites e por mais lamentável que seja, os “neutros” são irrelevantes ou sucumbem, e só lhes restam duas alternativas, para os que não aceitam aliar-se ou submeter-se à potencia expansiva: no caso dos mais fracos, protestar; e no caso dos demais, defender-se.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
memórias & polêmicas da lusofonia
setembro 10, 2009 às 0:36 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: África, colonialismo, CPLP, cultura, identidade, língua portuguesa, lusofonia, nação, Portugal
A comunidade de países de língua portuguesa: A base lingüística e material
Diante de um mundo onde se registram fortes tendências à supranacionalidade, o uso do português em diferentes regiões do planeta, surge como um elemento unificador das posições de cada estado lusofalante nas suas inserções, não excludentes, em outros espaços regionais.
Entre as perspectivas de globalização e de regionalização – mormente de natureza econômica – surgem perspectivas culturais, em que o uso da língua tem um papel fundamental, levando-se em conta, como limite, a percepção catastrófica de Samuel Huntington de que o mundo de hoje, flutuante, tende, no futuro, para conflitos envolvendo civilizações ao contrário do que pensa Francis Fukuyama ao anunciar o fim da história, reanunciando a paz kantiana.
O ensino e uso da língua constituem, outrossim, um dos temas centrais da diplomacia cultural, instrumento de política externa e tema que tem sido aproveitado por vários países, como a França e a Turquia, ora como forma de resistência, ora como meio de preservar ou até de aumentar o prestígio internacional. No caso da França, é curioso assinalar que as literaturas africanas em língua francesa, que foram um fator de resistência por parte dos africanos no recém passado colonial, são hoje apresentadas como pertencentes ao conceito amplo da francofonia. Sabendo-se que os estados nacionais africanos são na maior parte dos casos, o resultado de uma divisão imperial consolidada na chamada Conferência ou Congresso de Berlim (1894-1895), e, realisticamente, prevista pela alínea 7 do preâmbulo da Carta da Organização da Unidade Africana (1963) numa clara opção pelo clássico princípio do uti possidetis juris, é natural que continuassem a utilizar a ex-língua imperial como língua oficial, tendo em vista vários motivos, entre eles, o da unidade nacional.
A França lança mão de vários mecanismos institucionais, entre eles, a Alliance Française, utilizando a língua não só como instrumento de cultura, mas também como instrumento político, consolidando um espaço importante. A Turquia, por sua vez, vem fazendo algo semelhante ao divulgar sua língua em todo o espaço turcófono que se estende até a fronteira com a China, “criando condições para transformar a Turquia num elo entre a Europa e a Ásia Central”.
As aproximações através do uso da língua portuguesa não excluem o estudo e ensino das línguas nacionais africanas em espaços plurinacionais que, possivelmente, ultrapassadas a fase do processo da paz e da transição democrática, estarão sensíveis ao tema do federalismo – mormente em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique – um tema universal, que, por razões históricas, não se registra no arcabouço institucional português. Este tema, que certamente surgirá no futuro, mas como desdobramento de situação substantiva, a ser tratado a curto prazo, poderá levar a fragmentações indesejáveis. A evolução desta temática tangencia o princípio da tolerância envolvendo não só os atores internos, como os atores externos.
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em boa hora impulsionada pelo Embaixador José Aparecido de Oliveira, encontra no patrimônio comum da língua portuguesa nas suas variantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique e São Tomé e Príncipe, uma base na diferença, mas, principalmente nas expectativas do futuro, permitindo através de um vocabulário de 300-400 mil palavras o acesso à sociedade industrial.
A dinâmica da língua portuguesa:
O português, a exemplo das línguas impostas no espaço colonial, foi também uma língua glotocida, sobretudo no espaço americano. Apresenta, ademais, uma característica fundamental: trata-se de um idioma que demonstrou e demonstra vitalidade, sendo capaz de incorporar as variantes do vocabulário africano e ameríndio. Vários autores registraram a influência de vocábulos africanos, entre eles Antônio Houaiss , Celso Cunha e Lindley Cintra ou ainda dicionaristas como Laudelino Freire. Em relação aos vocábulos ameríndios, podem-se citar mais especificamente Antenor Nascentes , Antônio Geraldo da Cunha e Joaquim Mattoso Câmara Jr.
O português, no passado, contribuiu para a formação da chamada língua de comércio, da qual Celso Cunha tratou ao estudar os crioulos de influência portuguesa. Este eminente filólogo demonstrou, também, o seu desenvolvimento nos séculos XVI, XVII e XVIII, a que ele chama de protocrioulos, seja na Ásia , seja na África , seja na América. Ao preparar glossários de escritores africanos de língua portuguesa, tarefa que em boa parte das vezes levei a cabo com a colaboração dos autores dessas obras, verifiquei que, em alguns casos, vocábulos em línguas africanas haviam sido aportuguesados por alguns autores e, em alguns outros, essa influência se estendia à sintaxe.
Além dessa plasticidade do português, registra-se, no Brasil, a persistência, em práticas religiosas, de línguas africanas dos espaços sudanês e bantu, como por exemplo, o candomblé. Nos quilombos, onde se aglutinaram escravos falantes de várias línguas africanas, a sintaxe portuguesa foi-lhes parcialmente incorporada. Influências africanas em relação ao português do Brasil foram objeto de estudo de vários autores, entre os quais podemos citar Renato Mendonça e Yeda Pessoa de Castro. O privilegiamento da contribuição sudanesa sobre a participação bantu na cultura brasileira – que se deve a vários fatores históricos de que já tratei em outras ocasiões – resulta numa aparente desproporção entre as duas línguas. O universo da contribuição bantu à cultura brasileira constitui um campo a ser estudado prioritariamente como elemento de investigação entre as relações do Brasil com a África Austral.
O estudo minucioso das línguas africanas e dos linguajares africanos no Brasil deverá constituir um alvo prioritário das ciências da linguagem. Não é mais aceitável apenas a pesquisa etimológica; urge uma investigação de fatos linguageiros mais amplos. Quanto aos linguajares africanos ou de origem africana, utilizando várias línguas africanas – o que é natural, uma vez que os escravos eram cuidadosamente divididos para se evitar uma potencial formação de grupos coesos –, alguns estudos têm destacado o processo de formação dessas línguas. Gerhard Kubik, etnólogo da Universidade de Viena, com experiência de campo tanto em países africanos como no Brasil, escreveu vários trabalhos sobre o tema , o qual ultimamente passou a ser tratado pela Professora Margarida Maria Taddoni Petter, com a colaboração do Professor Emílio Bonvini.
Numa época em que os países se dividem entre os que detêm o saber tecnológico e os que não têm acesso a esse saber; num mundo em que, portanto, a tecnologia é um divisor de águas – como o foram a religião e a civilização no passado –, convém realizar projetos de pesquisa sobre a influência africana no campo das técnicas agrícolas e mineralógicas, campo em que os africanos tiveram no Brasil uma contribuição digna de registro.
No que tange às influências técnicas do Brasil em relação à costa africana ocidental, pode-se lembrar a ressonância da arquitetura colonial portuguesa, já adaptada ao Brasil, presente no Brazilian Quarter, em Lagos, em Porto Novo e em outras cidades africanas. Constatam-se influências lingüísticas ligadas à tecnologia da construção, pela presença dos artesãos, ex-escravos que se tornaram o embrião da formação das burguesias locais no final do século passado.
Manifestando sua condição de língua dinâmica, o português não só incorporou, como já dissemos, centenas de vocábulos de origem africana e ameríndia, como serviu aparentemente de suporte sintático às línguas criadas nos quilombos do Brasil colonial, além da sua contribuição à formação do protocrioulo ou crioulos portugueses. O português, no plano horizontal, apresenta variantes na acentuação e no léxico (estas decorrentes não só os regionalismos, como ainda da persistência de arcaísmos). O processo da unificação da norma culta necessita tanto do Acordo Ortográfico, como de um amplo esforço no campo do ensino e aprendizado da língua portuguesa.
A importância da língua portuguesa:
Somente com uma língua de cultura, como diria o insigne filólogo e lexicógrafo Antônio Houaiss, se podem estudar disciplinas como Física, Química, História Natural e Filosofia. No planeta, hoje, contam-se cerca de 10 mil línguas; dessas, porém, classificam-se como língua de cultura ampla não mais de meia centena. Ou seja: apenas essas poucas línguas – que congregam um vocabulário de aproximadamente 400 mil palavras, com uma tradição literária e gráfica muitas vezes bimilenar – podem ensejar a transição de uma sociedade industrial para um estádio posterior, de sociedade pós-industrial. A transição para a Terceira Revolução Industrial acontecerá apenas nos países em que o nível educacional permite a seus nacionais a compreensão da complexidade do mundo moderno. O repto é considerável, e o combate ao analfabetismo é conditio sine qua non para a solução dos problemas dos países em desenvolvimento.
Nota-se, então, que o conhecimento do português – também uma língua de cultura, de importante cabedal vocabular – se mostra essencial, para o seu pleno desenvolvimento econômico. O bom conhecimento lingüístico permitirá, ademais, o incremento do intercâmbio comercial e científico entre os países lusofalantes. Este é, a propósito, um dos objetivos fulcrais da formação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
O português é hoje a sétima língua mais falada do mundo – o francês ocupa a oitava posição – e a terceira língua mais falada no Ocidente, além de ser a língua oficial de várias organizações internacionais. Cabe aos países lusofalantes empreender esforços para que a língua portuguesa seja adotada como língua de trabalho nas organizações internacionais, papel que a criação de uma Comunidade de Países de Língua Portuguesa poderá reforçar.
Entre as perspectivas de regionalização e de globalização – mormente de natureza econômica – surgem perspectivas culturais, em que o uso das línguas tem um papel fundamental, até porque os espaços regionais não são excludentes. A língua tem o papel de liame, aproximando culturas, algumas de natureza tridimensional, como é o caso da cultura brasileira, e dando substantividade a espaços localizados em três continentes, para não falar de presenças históricas.
As percepções relativas ao espaço de língua portuguesa, com exceção de situações limite como a da redução da importância do português no caso de uma opção exclusiva pela Europa – tese pessimista –, ou então a do recrudescimento da língua pela presença em novos espaços, como por exemplo, em Luxemburgo em que, no final do milênio, a população lusofalante tende a ultrapassar a população francófona – tese otimista –, incorporam várias vertentes em relação à norma culta do português europeu: português de Angola, do Brasil, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique e de São Tomé e Príncipe.
Como língua de cultura, com um vocabulário amplo, o português é falado e escrito como língua materna em Portugal e no Brasil, nos países africanos que conquistaram as suas independências nacionais nos anos 70. É em português que se exprimem expoentes das correntes literárias nacionalistas. Em África, o português, cujo ensino tem sido uma das preocupações dos governos pós-independências, pode ser considerado no futuro uma língua nacional, tal como as línguas africanas que, na medida em que passam a ser estudadas, certamente também irão ocupar o espaço que lhes é devido.
Para ler o texto completo no site da Casa das Áfricas, clique AQUI.
novas leituras brasileiras da subjetividade poética de Pessoa
setembro 9, 2009 às 10:34 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Fernando Pessoa, identidade, referências, subjetividade
Fernando Pessoa, por Madalena Vaz-Pinto
Poesia (1931-1935 e não datada), de Fernando PESSOA. Editora Companhia das Letras, 2009, 648 páginas.
A editora Companhia das Letras lançou há poucos meses o terceiro volume da poesia de Fernando Pessoa ortônimo a partir da edição portuguesa da Assírio & Alvim. Reúne-se aqui a poesia escrita entre 1931 e 1935, além da poesia não datada. A pesquisa realizada pelos integrantes do Espólio de Fernando Pessoa – em que se inclui a brasileira Cleonice Berardinelli, professora emérita de literatura portuguesa – tem sido da maior importância, não só por dar a conhecer uma quantidade significativa de novos textos, como pelas edições críticas e correções de versões anteriores dos textos de Pessoa. Trata-se de uma atividade que, além de um conhecimento profundo da obra do poeta exige dedicação e perseverança, dada a precariedade de muitos textos, escritos nos mais diferentes tipos de papéis e com uma caligrafia muitas vezes difícil de entender.
Só da poesia ortônima são mais se 350 poemas. Se somarmos a este número a poesia dos heterônimos e textos em prosa, fica-se diante de uma produção que impressiona, e que nos leva a concluir que Pessoa, nem sempre hábil para publicar seus textos, parecia não duvidar de seu valor, guardando na mítica arca tudo o que escrevia. Sobre a poesia que agora se publica, uma questão se coloca de início: é a presença de Pessoa na poesia ortônima distinta da dos heterônimos? Existiria aí um sujeito lírico diferente?
Os 123 inéditos incluídos neste volume fazem parte do grupo dos não datados e, como dizem as organizadoras no posfácio, “apresentam um grau de acabamento menor”, muitos apresentando lacunas, o que dificulta sua leitura e diminui o prazer da fruição. Entre os completos, na maioria poemas curtos, versos de cinco e sete sílabas, característico da poesia ortônima, destaca-se o poema dedicado a Baudelaire: “As podridões geram flores/ Bem o sei, ó alma doente/ Ó exilado dos amores/ Espírito do poente.” Outro poema sobressai, pelo tom anticlerical e jocoso: “Há um método infalível/ Conquanto pareça incrível/ De sempre ter a verdade/ É ouvir um padre ou frade./ O critério não é vário: É sempre certo – o contrário.” Em contraste com este tom leve temos num outro poema o aflorar de questões metafísicas que assombravam o ortônimo “novelo virado para dentro” como se definiu: “Se a ciência não nos pode consolar,/ Não busquemos consolo.// Não peçamos à fé que seja certa/ Mas só que seja nossa.” Por último destaca-se “O último cisne”, um dos mais extensos dados a conhecer nesta edição, e que lembra o poema Pauís, ainda muito próximo do tom simbolista, com suas imagens vagas e frases alongadas.
Uma observação deve ser feita sobre a dificuldade para a localização dos poemas inéditos: o leitor curioso tem de recorrer primeiro às notas finais para identificá-los e, só depois, a partir dos títulos ou primeiros versos, localizá-los no índice. No corpus do texto, apesar de notas com variantes textuais e datas, nada existe que os identifique, o que poderia ser acrescentado em uma próxima edição.
A novidade formal da poética de Pessoa, com a criação dos heterônimos, cada um deles com temas, estilo e dicção próprios, constitui um desafio para os estudos literários. Como ler estes textos? Separadamente, como se cada um constituísse um poema autônomo? Mas como ignorar que todos remetem para um mesmo autor? Uma subjetividade poética que se apresenta plural e descentrada, aponta indubitavelmente para a crise do sujeito cartesiano, uno e idêntico a si, certo da propriedade do seu pensamento. As diferenças virão por conta da forma como se ler essa crise, sintetizada nas palavras fragmentação e multiplicidade. São duas noções, dois conceitos, pode-se dizer, que determinam as principais interpretações da poética de Fernando Pessoa. Uma leitura a partir da fragmentação tende a ver a poesia de Pessoa como uma solução. Pessoa fragmentou-se em várias vozes pela impossibilidade de se manter uno, em um mundo dividido onde não existe mais lugar para narrativas absolutas. Já a leitura pelo viés da multiplicidade, vê nos heterônimos a concretização de uma possibilidade, a possibilidade do sujeito, finalmente, assumir a pluralidade que lhe é intrínseca. Estaríamos então diante de uma escrita de afirmação, uma das mais potentes do mundo ocidental moderno.
Em qualquer destas hipóteses, a poesia ortônima levanta problemas por ser aquela que o poeta assinou com o seu nome: Fernando Pessoa. A tentação é retirá-la do conjunto de que fazem parte os heterônimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, para citar os mais importantes – e entendê-la como uma subjetividade, senão una, pelo menos não tão mascarada. Entretanto, é justamente aí que encontramos dois poemas, verdadeiras artes poéticas, em que Pessoa expõe as bases em que assenta sua poesia. No poema “Autopsicografia”, pode ler-se na primeira estrofe: “O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.” No poema “Isto”, escrito depois, Pessoa parece responder aos que criticavam seu assumido fingimento, reiterando seu entendimento do que fosse escrever: “Dizem que finjo ou minto/ Tudo que escrevo. Não./ Eu simplesmente sinto com a imaginação./ Não uso o coração.” E, na última estrofe: “Por isso escrevo em meio/ Do que não está ao pé,/ Livre do meu enleio,/ Sério do que não é./ Sentir, sinta quem lê.”
O poeta é um fingidor, assume Pessoa, mas de que tipo de fingimento se trata? Trata-se de um fingimento estético, não ético, extra-moral, portanto, e que se realiza pelo uso da linguagem. Através dela opera-se uma alterização, um tornar-se outro, como dizia Rimbaud, o que no caso de Pessoa acontece tanto com o ortônimo como com os heterônimos. Por isso as sensações, noção central na poesia de Pessoa, são meta-físicas, formas de devir-outro, como se o poeta quisesse experimentar essa potência infinita de se outrar, pela linguagem. Separar a poesia ortônima do conjunto formado pelos heterônimos não nos leva a um lugar mais seguro, simplesmente porque ortônimo e heterônimos fazem parte do mesmo processo generalizado de ficcionalização.
Madalena Vaz-Pinto é diretora do Centro de Estudos do Real Gabinete Português de Leitura
FONTE: Suplemento Prosa & Verso, O Globo, 24/08/2009
leitura & identidade nacional
setembro 9, 2009 às 9:37 | Publicado em Uncategorized | 2 ComentáriosTags: cultura, educação, formação do professor, leitura, nação
| Brasileiro ainda lê pouco,
constata estudo da Câmara do Livro |
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Luiz Augusto Gollo Rio de Janeiro – Uma análise mais detalhada da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou aos membros da Câmara Brasileira do Livro (CBL), reunidos hoje (8) durante a 19ª Convenção Nacional, no Rio de Janeiro, que 40,7% das famílias adquirem algum tipo de material de leitura. É um percentual baixo, sobretudo se revistas e jornais estão incluídos na despesa, e mais grave ainda se for considerado outro dado revelador: gasta-se praticamente a mesma quantia em cópias e em originais de livros técnicos e didáticos. “O preço do livro no Brasil não justifica mais o baixo índice de consumo”, afirma Rosely Boschini, presidente da Câmara. “As editoras estão buscando muitas maneiras de oferecer um produto com a mesma qualidade e mais acessível. Seria interessante o Estado transmitir aos educadores a necessidade de despertar nos alunos o gosto pela leitura”. O estudo divulgado na convenção foi feito a pedido de oito entidades atuantes no mercado editorial, quase todas presentes à entrevista que se seguiu ao lançamento, a cargo do seu coordenador, Kaizô Iwakami Beltrão, pesquisador do IBGE e consultor. De início, ele destacou que os dados são os mais recentes disponíveis e que nova pesquisa, em andamento agora, poderá refletir uma nova realidade. “É uma coleta de informações em 50 mil domicílios e, a princípio, mostra que maior renda e maior escolaridade estão também ligadas a maior índice de leitura. Mas isso não quer dizer que quem ganha mais ou estudou mais lê mais livros, o consumo quase sempre se refere a livros didáticos, revistas e jornais, e não a literatura”. Na realidade, os índices mais altos de aquisição de material de leitura se relacionam a lares com estudantes, onde têm relativo destaque despesas com revistas, jornais, livros didáticos, fotocópias, livros técnicos e livros não didáticos. Mas o total não passou de 0,6% da renda familiar no ano, enquanto somaram quase 2% no período os gastos com TV, vídeo, som e microcomputador. “É preciso difundir nas crianças não o hábito da leitura, mas sim o gosto pela leitura”, defende João Carneiro, presidente da Câmara Riograndense do Livro, que põe por terra outro mito: o de que a professora é quem desperta a criança para a leitura. “Está comprovado, por diversos estudos, que é a mãe quem primeiro incentiva a leitura. É a cultura de ler, contar histórias para o filho, antes mesmo de ele ser alfabetizado. Isto é marcante no gosto futuro pela leitura”. O cruzamento de inúmeros indicadores da pesquisa do IBGE, na elaboração do estudo encomendado pela Câmara Brasileira do Livro, permite conclusões aparentemente óbvias, que, entretanto, traduzem realidades surpreendentes. É o caso, por exemplo, da comparação de gastos anuais da família média em 2002/2003 com vários itens contabilizados: material de leitura, R$ 110,00; tv/vídeo/som/micro, R$ 400,00; telefonia celular, R$ 180,00; e lazer fora de casa, R$ 125. “Na época, é importante lembrar, o salário mínimo era R$ 200,00”, ressalta Kaizô Iwakami Beltrão. Rosely Boschini aplaude ideias como o Vale Cultura, mas enfatiza a necessidade de muitas parcerias entre Estado, iniciativa privada e família como a maneira mais rápida e eficaz de recuperar o terreno perdido pelo mercado do livro. E exemplifica: “O Rio de Janeiro tem, talvez, três mil bancas de jornais, o mesmo número de livrarias que existem no país. É preciso resgatar o papel da livraria, o ambiente do livro. Sabe que as pessoas só frequentam bibliotecas enquanto são estudantes? Depois não vão mais”, lamenta. João Carneiro adianta a questão: “A leitura não é apresentada como uma coisa prazerosa, é uma obrigação escolar. Isso tem de mudar, para alcançarmos um nível como o da França, onde a literatura é agregador cultural do país, os escritores franceses são a própria França no mundo”. A pesquisa coordenada por Kaizô Iwakami Beltrão para a Câmara Brasileira do Livro foi encomendada pelas seguintes entidades: Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), Associação Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro (AEL-RJ), Associação Nacional de Livrarias (ANL), Câmara Riograndense do Livro (CRL), Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e Instituto Pró-Livro (IPL). Foi consultora do trabalho a médica Milena Piraccini, livreira da Livraria Leonardo da Vinci, diretora da ANL e da AEL-RJ. FONTE: O Educacionista
Giuseppe ARCIMBOLDO, “O bibliotecário”, 1566. |
modernidade & identidade no Portugal contemporâneo
setembro 3, 2009 às 21:47 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cultura, discriminação, identidade, modernidade, nação, política, Portugal
Sétimo da lista de candidatos a deputados socialistas por Lisboa, Miguel Vale de Almeida participou na última sessão do Campus da JS, na Praia de Santa Cruz, que antecede o comício de rentrèe política do PS.
Numa sessão em que também intervieram a comissária para a Igualdade e Cidadania, Elza Pais, e a actriz Inês Medeiros (terceira da lista do PS por Lisboa), Miguel Vale de Almeida fez várias críticas aos métodos de actuação política dos sectores radicais, embora sem nunca relacionar directamente essas mesmas críticas com a actuação do Bloco de Esquerda.
“Está na hora de fazermos uma mudança na vida política, que passe por acabar com a divisão histórica entre a revolução e a democracia liberal. É uma coisa de velhos, de outra geração e já não há pachorra. Esse tipo de complexos mina a nossa política de esquerda de uma forma terrível, porque afecta a forma como se lida com as questões da igualdade”, defendeu Miguel Vale de Almeida perante uma plateia de jovens socialistas.
Antropólogo, professor universitário e homossexual assumido, Miguel Vale de Almeida referiu-se ao seu passado político logo após o 25 de Abril na União de Estudantes Comunistas (UEC) – que abandonou pouco depois, discordando da primazia absoluta e quase exclusiva que o PCP concedia às questões da igualdade sócio económica, secundarizando as restantes -, mas também ao período mais recente quando, enquanto membro da Política XXI, fundou o Bloco de Esquerda.
Na sua intervenção, Miguel Vale de Almeida lamentou o atraso histórico que Portugal teve na defesa das questões identitárias de igualdade, que começaram a ser defendidas por sectores políticos mais radicais.
No entanto, segundo o docente universitário, estas questões da igualdade, para além das relacionadas com as desigualdades sócio económicas, “não se aguentaram com a força desejada nestes segmentos mais radicais, sendo também secundarizadas nos momentos de maior tensão política”.
“Quando as questões da igualdade começam a ser defendidas por outras pessoas que não as do costume, ou quando as pessoas que as defendem já não o fazem dentro de um determinado chapéu-de-chuva político, aí o caldo fica entornado. Começa a ver-se que, de facto, havia uma tentativa de apropriação de agendas por alguns sectores políticos”, acusou.
Miguel Vale de Almeida defendeu um ideal de modernidade cosmopolita, em que um canalizador se pode assumir “gay”, exemplo que a actriz Inês Medeiros depois pegou, mas para falar sobre um ideal de “liberdade para amar”.
Inês Medeiros relacionou a sua perspectiva de liberdade com a coragem (citando Péricles da Grécia Antiga), exortando os jovens socialistas a estarem vigilantes e a assumirem sempre as suas posições com clareza.
Elza Pais, candidata a deputada do PS pelo círculo de Viseu, defendeu que nas próximas eleições legislativas está em jogo “uma escolha entre o progresso ou o retrocesso”.
“Há que terminar com as discriminações que ainda persistem, não só ao nível da lei, mas também no plano prático. Ainda identificamos discriminações de género, de orientação sexual, com as minorias étnicas ou com os imigrantes”, apontou a comissária para as questões da Igualdade e da Cidadania.
Formação de professores
setembro 3, 2009 às 21:24 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: educação, formação do professor
Jornal da Ciência 3836, de 27 de Agosto de 2009
| Leitor comenta a matéria “Formação de professores, artigo de Ivonaldo Leite” | |
| “Os professores da educação básica estão sendo formados por pessoas que não atuam na educação básica e pouco ou nada conhecem do que acontece nesse nível de ensino”
Leia a mensagem enviada ao “JC e-mail” por Robson Felipe Viegas da Silva, da Universidade Federal de Mato Grosso:
“O professor Ivonaldo Leite, doutor em Ciências da Educação pela Universidade do Porto e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acerta em tudo o que diz a respeito da formação de professores nas terras tupiniquins.
Incontestável que existe uma falsa dicotomia entre bacharelado e licenciatura. Indubitável que se atribui maior status ao primeiro e, sim, é desinteligência considerar que há docência sem pesquisa.
Até este ponto poderia fazer citação direta, mas é a partir daqui que considero que há uma questão muito central que não foi abordada pelo colega. Realmente não há docência sem pesquisa, mas a formação de um professor é, no mínimo, diferente daquela do profissional de pesquisa. E não adianta dizer que a maioria esmagadora dos “pesquisadores” brasileiros são, também, docentes, porque não se tem notícia de um pesquisador que esteja atuando nas escolas de educação básica.
Aí que está nosso problema central: a formação de professores deve estar direcionada para a formação dos profissionais que atuarão na educação básica. A pretensa indissociação entre pesquisa e ensino não leva em consideração o ensino básico. Todos sabem que há cursos que formam professores sem que os mesmos tenham sequer realizado o estágio em escola de educação básica.
Por outro lado, verifica-se também que mesmo após as Resoluções do CNE terem estabelecido diretrizes próprias para as Licenciaturas, os cursos que se adequaram continuam sendo bacharelados disfarçados de licenciaturas: a prática existe apenas no papel, a pesquisa em ensino é uma quimera e as disciplinas “puras” continuam sendo oferecidas fingindo esquecer o mundo da escola básica.
E por que isso continua a acontecer mesmo numa época tão propícia, de discurso educacional tão claro?
A cada dia percebo mais claramente que o problema está no perfil dos formadores: os professores que atuam na Licenciatura formando professores. Vamos falar aqui apenas da experiência que temos há oito anos com o universo das IFES, em especial dos cursos de Licenciatura em História.
O corpo docente destes cursos vem sendo enriquecido nos últimos quatro anos com uma série de concursos, que tem trazido para dentro das instituições excelentes profissionais ligados à pesquisa. Via de regra, jovens doutores que ligaram a graduação no mestrado e este no doutorado, ou seja, dedicaram pelo menos 10 anos à pesquisa. Seu contato com a educação básica geralmente restringe-se ao Estágio que fizeram na graduação (quando o fizeram, claro).
Basta verificar que, há uns cinco anos, a exigência de prática docente em educação básica para concursos com área de Ensino de História era de cinco anos, já nos últimos concursos essa exigência caiu para dois anos.
Os professores da educação básica estão sendo formados por pessoas que não atuam na educação básica e pouco ou nada conhecem do que acontece nesse nível de ensino.
Se somarmos a isso o fato de que o restante do corpo docente já estava distante da educação básica há mais de 20 anos, tem-se um quadro no qual evidentemente a pesquisa prevalece sobre a docência (mesmo quando se finge formar professor alegando que a docência não prescinde da pesquisa).
Então, fica claro que se pretendemos desenvolver uma formação efetiva de professores para a educação básica precisamos com urgência repensar esse modelo de licenciatura, a começar pela constituição de seu corpo docente. Como está, perdem a pesquisa, a educação básica e por fim a sociedade, que investe milhões e é enganada.”
Leia o artigo de Ivonaldo Leite publicado no “JC e-mail” em http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=65543 |
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ERELINS
setembro 3, 2009 às 20:40 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: educação, evento, formação do professor, pesquisa & extensão

Para o segundo semestre letivo de 2009, mais precisamente entre 16 e 18 de setembro, por meio de uma ação integrada entre corpo docente e discente, o Núcleo de Letras da UFS-Itabaiana propõe a realização do I Encontro Regional Linguagem, Interação e Sociedade – ERELINS. Tal Encontro propõe a reflexão acerca de alguns dos novos sentidos e práticas que presentemente se desdobram do conceito de Linguagem, emergências estas que têm repercutido diretamente na definição tanto de competências e problemáticas pedagógicas, quanto de grupos identitários ou de interfaces disciplinares.
mujimbando: rotas luso-angolo-brasileiras para leituras das identidades
setembro 3, 2009 às 20:22 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Angola, base de dados, colonialismo, cultura, dicas, identidade, lusofonia, narrativas identitárias, referências

O blogue LUSOLEITURAS tem um irmão mais velho, o blogue MUJIMBO, que pus no ar no ano passado, para subsidiar cursos que ministrei nas universidades Federal e do Estado da Bahia. Tal como esclareço na Descrição desse blogue, pretende-se nele construir um ponto de vista africanista & angolanizado para as questões lusófonas. Principalmente para os estudantes da LitPort 1, o MUJIMBO oferece um conjunto diversificado de referências úteis para aprofundar os temas desta disciplina. Clicando nos links você será remetid@ para uma postagem do MUJIMBO na qual é possível acessar o texto “Você tem cultura?”, do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, leitura especialmente interessante para decidir até que ponto é sociologicamente correto falar em “baixa” & “alta” cultura, em culturas “primitivas” & “desenvolvidas”. Também recomendáveis & disponíveis são “Eu e o outro”, do escritor angolano Manuel Rui, & “O entrelugar do discurso latino-americano”, do crítico brasileiro Silviano Santiago, textos que, se valendo de perspectivas & expressões distintas, problematizam as relações entre cultura, identidade & memória colonial.
Para quem desejar ampliar a navegação no MUJIMBO, recomenda-se, como disse, a leitura da Descrição &, de seguida, acessar todas as postagens, que estão ordenadas de forma progressiva & remetem a percursos variados para o conhecimento das literaturas & culturas lusófonas. Fiel às suas matrizes africanas, há também muita música no MUJIMBO, muitas canções que confirmam o enorme poder de tradução da música popular para as significações & os problemas centrais dos imaginários tropicas.
identidades: o individual, o cultural, o nacional & Stuart Hall
setembro 3, 2009 às 18:56 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cultura, dicas, identidade, nação, narrativas identitárias, referências, subjetividade
Nas duas últimas postagens penduramos exemplos de textos midiáticos & literários que podem servir de apoio para as discussões relacionadas aos temas introdutórios de nossas apresentações. Tanto na abordagem neurofisiologista de Marcelo Gleiser quanto na leitura estético-documentarista de Roberta Franco, enfatiza-se a importância em compreender as identidades como sistemas simbólicos. Ao nível pessoal, esses sistemas constituem-se pelas memórias individuais; ao nível coletivo, pela partilha de valores culturais.
Cultura pode ser muito sintetica & genericamente entendida como todo tipo de ação & reflexão humana sobre a realidade; uma realidade, por sua vez, continuamente recriada pela própria cultura. Sob um ponto de vista social e evolucionista, as culturas são estratégias de adaptação, são as estruturas materiais & imaginárias a partir das quais as comunidades humanas se organizam, se especificam & se desenvolvem historicamente. Conforme discute Stuart Hall no capítulo 3 de A identidade cultural na pós-modernidade, uma das melhores maneiras para se enxergar essas estruturas imaginárias é pela leitura das narrativas identitárias nacionais, daquelas estórias circuladas e retransmitidas cujos significados conectam “nossas vidas cotidianas com um destino nacional que preexiste a nós e continua existindo após a nossa morte” (HALL , 2006, p. 53). Assim, em última instância, toda identidade se materializa como aquilo que Michel Foucault chamaria de uma “formação discursiva“. Para quem desejar saber mais sobre o livro de Hall, vale a pena conferir alguns bons exemplos de resenhas do mesmo, escritas por Dennis de Oliveira, Jacqueline Ramos & por um Autor Desconhecido que pendurou a sua no sítio da Usina das Letras. Uma quarta resenha, mais detalhada e composta com esmero, é assinada pela letreira Genny Xavier, & pode ser acessada em seu blogue Baú de Guardados. Uma leitura cuidadosa desse panorama de resenhas, além de oferecer mais nitidez para um conceito-chave em nossos cursos, proporciona uma valiosa experiência de familizarização com os diversos estilos que compõem a escrita acadêmica. Com qual deles você mais se identifica?
Abaixo, uma bela foto de Stuart Hall:

“Diversidade – Identidade”, por Roberta Franco
setembro 3, 2009 às 1:30 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cultura, diferença, identidade, nação, subjetividade, vídeo
“O eu no cérebro”, por Marcelo Gleiser, & pensamentos à deriva, em Fernando Pessoa
setembro 2, 2009 às 16:34 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Fernando Pessoa, identidade, subjetividade

“No caso de cérebros humanos, de longe os mais sofisticados do reino animal, uma outra função essencial é exercida: o senso de individualidade”
Marcelo Gleiser é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA). Artigo publicado na “Folha de SP”, 30/8:
Nosso cérebro, tal qual o de tantos outros animais, exerce funções bem corriqueiras, como a de manter o funcionamento do corpo, as batidas cardíacas, a digestão, e a respiração, atividades que não precisam de concentração para serem feitas. Podemos dizer que são executadas pela parte do cérebro que trabalha como uma espécie de piloto automático, o “cruise control” da mente.
No caso de cérebros humanos, de longe os mais sofisticados do reino animal, uma outra função essencial é exercida: o senso de individualidade, de você saber quem você é, de como você se encaixa na sociedade e no mundo.Os cientistas estão aprendendo cada vez mais sobre como o cérebro humano mantêm o senso individual de ser ele mesmo – um senso misterioso desde os primórdios da humanidade, às vezes chamado de alma.
Neurocientistas estudam corriqueiramente a atividade cerebral, com a ajuda de instrumentos sofisticados como a PET (tomografia por emissão de pósitrons) e a fMRI (imagem por ressonância magnética funcional), que medem o fluxo sanguíneo: quanto maior o número de neurônios ativos, mais oxigenação é necessária e maior é o sinal registrado.
O que surpreendeu os cientistas foi o nível de atividade quando os cérebros dos pacientes estavam em “repouso”, ou seja, quando não estavam focados em alguma tarefa explícita, como fazer um cálculo, escrever ou ouvir música. É nesses momentos que temos nossos devaneios diurnos, quando o pensamento parece ir à deriva, comandado por si mesmo.
Quem já tentou meditar sabe o quanto é difícil “calar a mente”, acalmar a atividade incessante do cérebro. Esse estado, uma espécie de modo de atividade cerebral de fundo (ACF, para simplificar do inglês “default mode network”), parece ter características semelhantes em todos os indivíduos saudáveis, mesmo que individualmente existam diferenças.
O foco de ação ocorre principalmente na região divisória entre os dois hemisférios cerebrais e no córtex frontal e posterior. O interessante é que, quando o indivíduo exerce uma atividade intelectual, como memorizar uma lista de palavras, essa atividade de fundo diminui.
Mas, quando o indivíduo relembra memórias pessoais, ou tenta decidir entre escolhas alternativas de procedimento, o nível de ACF aumenta acima dos valores em repouso.
Juntas, as regiões de córtex frontal e posterior, engajadas em manter a ACF, parecem criar o nosso senso de quem somos, de como nos colocamos no mundo e de como procedemos como indivíduos diante de diversos desafios e escolhas alternativas. Possivelmente, esse modo de funcionamento representa o centro de operações da mente humana.
Neurocientistas vêm investigando conexões entre a ACF e patologias psiquiátricas, da esquizofrenia à síndrome de estresse pós-traumático. Em um estudo com 115 esquizofrênicos e 130 pessoas saudáveis, realizado por Vince Calhoun e seus colaboradores da Universidade do Novo México, alguns dos processos relativos à ACF jamais “desligavam”, dificultando que eles conseguissem se concentrar em tarefas comuns.
Outro estudo, com mulheres que sofreram traumas na infância, indicou falhas na conectividade entre os vários subprocessos da ACF. É sabido que pacientes com esse tipo de síndrome traumática podem perder o senso de identidade por um certo período de tempo.
Aparentemente, a ACF vai criando ligações e desconectando outras conforme a criança vai crescendo. Nosso senso de quem somos vai mudando até a idade adulta, quando fica mais rígido. Ao menos para a maioria das pessoas.
(Fonte: Jornal da Ciência)

Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
Fernando Pessoa (4-8-1930)
| JC e-mail 3838, de 31 de Agosto de 2009. | ||||||||
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hipernavegar é preciso
setembro 2, 2009 às 16:21 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: base de dados, dicas, Fernando Pessoa, lusofonia
A lista das ligações, na margem direita do blogue, tende a estar sempre em expansão. Alguns sítios, desde já, merecem uma visita demorada: a Biblioteca Digital Camões & os textos de Fernando Pessoa disponibilizados no Arquivo Pessoa, especialmente os textos não-literários. Visite estes & outros sítios buscando tanto os textos que atendam ao seu tema como familiarizar-se brevemente com o material disponível sobre os outros temas.
sobre as apresentações
setembro 2, 2009 às 15:54 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: apresentações, dicas
Cada equipe deve organizar sua exposição oral buscando cumprir 3 objetivos básicos: informar sobre o tema, indicar manifestações sociais e contemporâneas do tema, discutir representações literárias do tema. A seleção e desenvolvimento dos textos precisa ser sintonizada com esses objetivos.
O texto teórico ideal é aquele que apresente um panorama relativamente amplo do tema, sem perder de vista o destaque para o contexto português. Agregar textos complementares sempre é uma boa estratégia para atingir esse ideal.
A utilização de recursos audiovisuais é estimulada, em combinação equilibrada com a citação de passagens e a exposição direta dos estudantes sobre o tema.

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