a mestiçagem na MPB: conciliações e contestações

maio 24, 2011 às 14:12 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A partir de nossas leituras de O ano em que Zumbi tomou o Rio e da bibliografia teórica do curso da LitPort 4, pudemos caracterizar elementos centrais para uma compreensão da complexa questão racial brasileira, bem como estabelecer relações entre essa temática, a da “cultura da violência” e o problema da colonialidade, mais especificamente da colonialidade do poder, se entendemos o racismo como um sistema simbólico que perpetua nas sociedades nacionais as divisões e desigualdades que estruturam as sociedades coloniais. No caso brasileiro, o preconceito racial, sobretudo quando exercido como inferiorização dos sujeitos não-brancos, manifesta-se de forma dissimulada, assumindo formulações frequentemente paradoxais, marcadas por uma sobrecarga de afetividade ou de paternalismo, ainda que essas formas se sustentem nos ideias e nos discursos derivados de uma noção de mestiçagem explícita ou implicitamente branqueadora e eurocêntrica. A este projeto alienante e assimilacionista podemos contrapor uma concepção contestadora e sincretizante da mestiçagem, a partir da qual se desenvolve um olhar crítico para as contradições nos convívios interraciais brasileiros e para os nossos mitos identitários “fusionistas”, crítica que propõe a renovação das relações interculturais no Brasil como saída para nossos impasses e conflitos, bem como uma incorporação efetiva das matrizes civilizacionais africanas e ameríndias à construção nacional brasileira.

De maneira a aprofundar essa reflexãao de forma dialógica, desenvolveremos até o final do curso leituras centradas em letras de canções da música popular, buscando identificar e discutir representações do imaginário da mestiçagem e os projetos identitários a que essas representações remetem. Além do corpus relacionado e “entubado” a seguir, recomendamos uma vista a esta postagem do MUJIMBO, que dá acesso ao download das canções aqui listadas e mais algumas.

   

AQUARELA DO BRASIL

Ary Barroso

Brasil, meu Brasil Brasileiro,
Meu mulato inzoneiro,
Vou cantar-te nos meus versos:
O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar;
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil!… Brasil!… Prá mim!… Prá mim!…

Ô, abre a cortina do passado;
Tira a mãe preta do cerrado;
Bota o rei congo no congado.
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória à luz da lua
Toda canção do meu amor.
Quero ver essa Dona caminhando
Pelos salões, arrastando
O seu vestido rendado.
Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Brasil, terra boa e gostosa
Da moreninha sestrosa
De olhar indiferente.
O Brasil, verde que dá
Para o mundo admirar.
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Esse coqueiro que dá coco,
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar.
Ô! Estas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar.
Ô! Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro,
Terra de samba e pandeiro.
Brasil!… Brasil!

***

 

MULATA ASSANHADA

Ataulfo Alves

Ô, mulata assanhada
Que passa com graça
Fazendo pirraça
Fingindo inocente
Tirando o sossego da gente!
Ah! Mulata se eu pudesse
E se meu dinheiro desse
Eu te dava sem pensar
Esta terra, este céu, este mar
E ela finge que não sabe
Que tem feitiço no olhar!
Ai, meu Deus, que bom seria
Se voltasse a escravidão
Eu pegava a escurinha
E prendia no meu coração!…
E depois a pretoria
Resolvia a questão!

***

 

CANTO DAS TRÊS RAÇAS

Mauro Duarte & Paulo César Pinheiro

Ninguém ouviu um soluçar de dor
No canto do Brasil.
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro e de lá cantou.
Negro entoou um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.
Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes.
Nada adiantou.
E de guerra em paz, de paz em guerra,
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar,
Canta de dor.
E ecoa noite e dia: é ensurdecedor.
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador…
Esse canto que devia ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor

***

 

A MÃO DA LIMPEZA

Gilberto Gil & Chico Buarque

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Que mentira danada, ê
Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o negro penava, ê
Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza

Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza
Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
Eta branco sujão

***

 

IDENTIDADE

Jorge Aragão

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai…

Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade

***

 

SOU NEGRO

Getúlio Côrtes & Ed Wilson

dessa vida
nada cinema
não sei porque vocês têm tanto orgulho assim
você sempre me despreza
sei que sou negro
mas ninguém vai rir de mim
vê se entende
vê se ajuda
o meu caráter não está na minha cor
o que eu quero
não se iluda
o meu futuro é conseguir o seu amor.

***

 

BLACK IS BEAUTIFUL

Marcos Valle & Paulo Sergio Valle

Hoje cedo, na rua do Ouvidor
Quantos brancos horríveis eu vi
Eu quero um homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui
Que se integre no meu sangue europeu
Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful
Hoje a noite amante negro eu vou
Vou enfeitar o meu corpo no seu
Eu quero este homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui
Que se integre no meu sangue europeu
Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful

***

 

combat - mundo livre s.a

O AFRICANO E O ARIANO

Fred 04, Apolo 9 & Mundo Livre S/A

Há quatro séculos a alma africana tem sido um motor
da inquietação, da resistência, da transgressão
O negro sempre quis sair do gueto,
fugir da opressão fazendo história,
ganhando o mundo com estilo!
E é assim que a alma africana sobrevive
com brilho e vigor em todo o "novo continente".
O africano foi levado pra sofrer no norte e gerou,
entre outras coisas, o jazz, o blues, Gospel, soul,
R & B, funk, rock and roll, rap, hip hop
No centro, o suor africano fomentou o mambo, o ska ,
o calypso, a rumba, o reggae, dub, ragga,
o merengue e a lambada, dancehall e muito mais
Mas é o ariano que ignora o africano
ou é o africano que ignora o ariano?
E ao sul, a inquietude negra fez nascer,
entre outros beats, o bumba, o maracatu,
o afoxé, o xote, o choro, o samba,
o baião, o coco, a embolada.
Entre outros, os Jacksons e os Ferreiras,
os Gonzagas e os Pixinguinhas,
as Lias, os Silvas e os Moreiras
A alma africana sempre esteve no olho do furacão
Dendê no bacalhau, legítima e generosa transgressão
É Dr. Dre e é maracatu
É hip hop e é mestre Salú
Mas é o ariano que ignora o africano
ou é o africano que ignora o ariano?

***

 

MINHA ALMA (A PAZ QUE EU NÂO QUERO)

Marcelo Yuka (O Rappa)

A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
(Sêgo! Sêgo! Sêgo! Sêgo!)
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
(Medo! Medo! Medo! Medo!)

As vezes eu falo com a vida,
As vezes é ela quem diz:

"Qual a paz que eu não quero conservar,
Prá tentar ser feliz?"

As grades do condomínio
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão

Me abrace e me dê um beijo,
Faça um filho comigo!
Mas não me deixe sentar na poltrona
No dia de domingo, domingo!

Procurando novas drogas de aluguel
Neste vídeo coagido…
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

***

 

DECLARAÇÂO DE GUERRA

MV Bill

Hei mãe, acorda que o terror vai começar
Coloca a janta, pode ser a última sopa
Se eu não voltar, sorria
Vou em busca da alegria
Vou incentivando o ódio (quem diria)

É tudo pela salvação
Em nome da razão
Acenda a vela
É o código da rebelião

Os generais nem imaginam nosso plano
Pensam que é mais um engano
Jesus está voltando

Os pretos estão do lado de cá
São soldados mascarados aliados ao pppomar
Os diretores forjam as fugas
Tensão nas celas, bueiros, são verdadeiros sangue sugas

Libere a fuga diretor! solte os detentos
Pelados pelas rua escura, sem lamentos
A nossa tropa só tem doido,
Resto, lixo, bicho, praga
Vou jogar mais vinho na sua área

São pessoas que vivem na amargura
Não nos resta mais ternura
A batalha vai ser dura

Eu avisei que a guerra era inevitável
Pra quem tá na condição desfavorável

Subestimaram, pagaram pra ver, e tão vendo
Ignoraram a nossa coragem, tão morrendo

A violência não fui eu que inventei
Somos condenados a serviços de um rei

Chega de ouvir esse discurso social
Chega de ouvir a lenga lenga racial

Sou animal sou (sou), sou canibal sou (sou), eu sou letal
O verbo que populariza o mal

Vão tirando a fantasia de artista
Não tem mais carnaval
Acabou o show pra turista
Que venham vários pagodeiros e sambistas
A luta é o coração de um guerreiro ativista

Convoque os índios, convoque os canibais
Convoque os sonhos, dos nossos ancestrais

Vou invadir mais um hospício
Vivemos bem no precipício (que que isso)
Quero mais guerrilheiros pra esta noite
Vida longa para os pretos, fim do açoite
Vou maquinar mais homicídio para esse dia

Fim de vida aos brancos, da covardia
São Benedito por favor nos proteja
Tragam todos os fiéis que estão orando da igreja
Sem terra, sem teto, sem nada nos dentes
Sem fama, sem grana, sem luz, sem parentes

Se foi torturado – siga-me
Se tá rebelado – siga-me
Se tiver bolado – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me
Se cair seus dentes – siga-me
Se for estuprada – siga-me
Se o nome for maria – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me

Eu vou pedir mais orações aos crentes
A guerra é turva, e deus necessita estar com a gente
São meia noite o black-out é geral
Sirenes, apitos, breu total

Ficou pra trás a nossa dor
Lá no passado que restava todo amor
Uma criança pede o fim da guerra
Entre vermelhos e terceiros

Me lembra que somos brasileiros
Mais ideologia, menos conflitos
Não façam de nós mais um grupo de risco

O alemão não apita na favela
Confira você mesmo, e olhe pela sua janela
Fale seu partido preciso saber !
Pmdb, pt , satã ou tc ?

Se for de esquerda, não me contemplou
Se for de direita, me ignorou
Se for de bandido é um caso a pensar
Vou me filiar preciso arriscar

Adestrador prepare os cães, não dê comida,
Avise aos lobos que a pele é branca e a carne é viva

Fazendeiro não há mais tempo pra remorso
Vamos transformar seu paraíso em destroços

A luta é racial
A luta é social
Mais ninguém se espanta
Porque a guerra é santa

É preta, marrom, mestiça e branca
E quem não decidir em que lado está, vira planta

Eu sou ateu, protestante, sou judeu
Eu sou maçon, rosa cruz, e fariseu zulu

Eu sou a luz do universo em desencanto
Não sou mais nada só a voz do catalão

Levei 500 anos para entender esse país
Se querem me entender eu só queria ser feliz!

Maria dê veneno pra rainha sua patroa
Volte pro QG com as jóias da coroa
Agora cai por terra toda arrogância
Vamos celebrar viva a voz da ignorância

Deus vai perdoar , deus vai entender
Deus vai lhe ajudar, chega de padecer
De um lado humanos, do outro, humanos
Todos armados então são desumanos

Falam que a briga não nos leva a nada
O mar não tem cabelo, quem se afoga nada
Não dá pra exigir de quem não come nada
Aqui o seu diploma não vale de nada

Nós não somos nada
Nós não temos nada
Branco camarada, largue a espada

Acabou o desafio, não pode pensar
Imagino deve ser difícil aceitar
Essa guerra que já foi vencida
Solte suas armas e comece a despedida
Abaixe a cabeça, faça o último pedido
Peça qualquer coisa menos ser meu amigo
Não, não faz sentido
Sou herói, e o bandido?
A sirene tá gritando
Perigo

Os pretos que vão te julgar
Você tá na bola
E então comece a chorar
Devolva meu samba, a nossa cultura
A capoeira, o axé e a vida das pessoas que moram na rua
A história foi queimada ofendida
A morte é o fim, a guerra é a vida
Durante muito tempo eu vi o mundo girar
De braços cruzados esperando a morte chegar
Foi o despertar comece a sua prece
Dessa vez é vai ou racha
Ou dá ou desce

Se perdeu o juízo – siga-me
Tá no prejuízo – siga-me
Não quer ser escravo – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me
Já matou tarado – siga-me
Se perdeu o seu emprego – siga-me
Se foi derrotado – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me

 

branconegro

antologia de poesia romântica portuguesa

maio 24, 2011 às 10:11 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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castelo pena

Parecendo, à primeira vista, uma versão modernizada de um castelo medieval, o exuberante Palácio da Pena, retratado na imagem acima, mistura de maneira ousada vários estilos arquitetônicos da antiguidade, formando assim uma admirável síntese de passados no presente que pode ser considerada como uma forte representação da nostalgia romântica em Portugal. Também nos poemas transcritos a seguir podemos observar a idealização do passado como procedimento estético de crítica às formas de degradação moral, de destruição de valores tradicionais e de desilusão que se articulam à consolidação da modernidade capitalista na Europa, idealização que, segundo Michel Lowy e Robert Sayre, serve de bandeira comum para as diversificadas manifestações da revolta romântica, especialmente no âmbito da produção literária.

garrett

  • Almeida GARRETT

QUANDO EU SONHAVA

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar…
Para quê? – Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava – mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia …

***

ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n’alma … quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho-
Em que paz tão serena a dormi!
Oh!, que doce era aquele sonhar …
Quem me veio, ai de mim!, despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela?, eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei …

***

BELA D’AMOR

Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o ‘splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na Primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai!, vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.

***

CASCAIS

Acabava ali a Terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
O mar que incessante brama…
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.

Aí, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Ervas e matos queimados,
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um Céu na Terra.

Ali sós no mundo, sós,
Santo Deus!, como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim,
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim,
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!

Os anjos aqueles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.

Ai!, sim, foi a trapos largos,
Longos, fundos que a bebi
Do prazer a taça – amargos
Depois… depois os senti
Os travos que ela deixou…
Mas como eu ninguém gozou.

Ninguém: que é preciso amar
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.

Ai, ai!, que pesados anos
Tardios depois vieram!
Oh!, que fatais desenganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a Terra!

Se o visse… não quero vê-lo
Aquele sítio encantado.
Certo estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado,
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!

Inda ali acaba a Terra,
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.

***

ESTES SÍTIOS!

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro…
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos …
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade…
Ai!, não, não… nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos…
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!

***

VOZ E AROMA

A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.

***

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  • António de CABEDO

CARTA A UM REGEDOR

Cidadão indispensável,
que regeis com tacto fino
o duvidoso destino
desta famosa nação: –
saúde a paz vos envio,
como fez Narciso a Eco
e depois mercê depreco
nesta humilde petição.

Vós que, sem ser estadista,
resolveis coisas do Estado,
e sois, em lance apertado,
dos governos assessor;
que desprezais por modéstia
a carta de conselheiro,
e persistis em… tendeiro…
algibebe… ou cortador;

Vós, que fazeis deputados
ao sabor do ministério –
e, quando o caso é mais sério,
até mesmo os inventais;
enchendo enfim esse templo
das cortes beneditinas,
que, ao menos, nas oficinas
dão que fazer aos jornais:

Ouvi-me, e sede benigno,
magistrado venerando,
que o tal posso, quero e mando
já lá vos chegou também.
E, sem mais palavreado,
vou tratar do meu assunto,
prometendo um bom presunto
se o negócio sair bem.

Tenho um filho, já crescido,
dum talento desmarcado!
O rapaz há-de dar brado,
se bom caminho seguir.
É pacato e mui sisudo
sem palrar de papagaio,
sempre, sempre, quando eu saio,
fica ele em casa… a dormir.

Abre um livro, e fecha-o logo,
pregando os olhos no tecto –
que o rapaz, como discreto,
medita mais do que lê.
A leitura, só, não basta:
o ler muito nada prova:
olhe esta geração nova!
olhe-se mesmo você!

Sim: você, da sua loja,
analfabeto chapado,
pode escolher a seu grado
um varão legislador;
você, do pobre cantinho
em que de sábio não timbra,
pode mais que uma Coimbra,
faz de repente um doutor!

Hoje custa achar emprego
para um moço bem-nascido:
o comércio está perdido;
a marinha nada vale;
no exército de terra
são bandas por toda a banda;
e qualquer arte demanda
jeito e gosto especial.

Por essas secretarias
reina justiça de moiro;
aos néscios oiro e mais oiro;
os outros… ouvem-lhe o som.
Além disso a inteligência
em breve lá se atrofia:
quem fez uma portaria
nunca mais faz nada bom!

Médicos ganharam muito;
mas esse ganho fez termo:
quando um homem jaz enfermo
é quando menos os quer.
Depois dos vários sistemas,
que todos por fim têm pata,
fica a morte mais barata
quando ela por si vier.

A mina da advocacia
teve bons exploradores,
que antigamente os doutores
não assinavam de cruz.
Mas agora a velha escola
tem dado tanto camelo!
bicho de borla e capelo
quase sempre foge à luz.

Feito rápido bosquejo
em que ‘inda tudo não digo,
há-de ser o meu amigo
não só patrono, juiz:
ajuíze, que isto é claro,
se acaso há mor embaraço
que um homem, sem ser ricaço,
ver-se pai neste pais!

Lá marcho direito ao ponto.
A gente às vezes acerta;
eu fiz uma descoberta,
que me não parece má:
para um moço delicado,
que põe mira no orçamento,
uma cadeira em S. Bento –
arranjo melhor… não há.

Levanta-se ao meio-dia;
vai almoçar ao Chiado;
vem às Cortes repimpado
em traquitana veloz:
chega à sala – traça a perna,
endireita o colarinho,
e escreve o seu bilhetinho
à menina dos bandós.

Nos interesses da Pátria,
sua filha em bom direito,
quando vota, diz: «Rejeito»,
ou diz: «Aprovo» também.
Não entrega o voto à sorte,
vai alternando as respostas;
e se acaso volta as costas,
é que não entendeu bem.

Tem sarau em certas noites
nas altas secretarias,
onde há chá, doces, fatias,
e até neve, de Verão.
Faz quase um conto por ano;
emprega quatro parentes;
e as damas, por entre dentes,
perguntam: «Já é barão?»

Eis aqui para meu filho
brilhantíssimo futuro;
e o negócio está seguro,
se aprouver ao regedor:
um gesto de tal potência
torna maus fados propícios,
pode mais que dez comícios
a trabalhar por vapor.

Ponho em vós minha esperança,
ponde em mim vosso cuidado;
criai-me este deputado,
e então mostrarei quem sou.
Esta empresa, em que martelo,
deixa-me a cabeça calva,
se a Pátria não fica salva,
fica salvo… um seu avô.

Acedereis, como espero,
ao meu instante pedido;
e por mim ficareis tido
grande herói entre os heróis.
Basta já d’impertinência;
não pouco tenho abusado.
Sou – vosso amigo e criado –
João Fernandes d’Anzóis.

***

revoluçaão (1)

  • Eduardo VIDAL

A IDEIA NOVA, É BOA!… EM QUE CONSISTE A IDEIA?…
Nova; mas nova em quê?… Na insânia que alardeia,
Na forma sem primor, no rasgo desonesto,
Na feia exposição, na chufa, no doesto,
No delírio falaz que pinta a humanidade
Em latíbulos vis de infame ebriedade,
Bebendo a corrupção nas taças sacrossantas?…
Ideia nova, em quê?… Se a perversão nos cantas,
Sagrando a lira d’ouro às saturnais lascivas;
Se no teu ideal só pairam essas divas
Que a miséria lançou nos antros enlodados,
Que novidade és tu? Que mundos ignorados
Pretendes cimentar repletos d’abundância? –
O que farás do amor – o que farás da infância?…
O que dirás às mães num límpido conselho?…
Onde tens o respeito às cãs do pobre velho
Que é pai, que é bom, que é triste, e em Deus inda confia?…
És noite e escuridão; negas a luz e o dia,
És o velho farsante, a deusa descambada.
Não ascendes ao belo; andas de escada em escada
A farejar o crime, e a delatar o vício.
Que sacerdócio é o teu? – Serves o baixo oficio
Do polícia que espreita, e agarra o que mal usa:
Votaste a Boa Hora em templo à tua musa.
Eu, que persisto há muito em crer no bem florente,
Que sou da reacção protervo impenitente,
Que adoro o Céu, a flor, a pálida beleza,
Os lírios da inocência, a vasta natureza,
E que sinto em minha alma uns estos de lirismo
Quando me agita, ó Deus, um vago panteísmo
Que me afaga, me enleva, e brando me sorri,
Mas que, em íntimo ardor, me leva a crer em ti;
Eu deixo caminhar a procissão judenga,
E adormeço de ouvir-lhe a chocha lengalenga

***

Antero_MANTA2

  • Antero de QUENTAL

POBRES

(a João de Deus)

I

Eu quisera saber, ricos, se quando
Sobre esses montes de ouro estais subidos,
Vedes mais perto o céu, ou mais um astro
Vos aparece, ou a fronte se vos banha
Com a luz do luar em mor dilúvio?
Se vos percebe o ouvido as harmonias
Vagas do espaço, à noite, mais distintas?
Se quando andais subidos nas grandezas

Sentis as brancas asas de algum anjo
Dar-vos sombra, ou vos roça pelos lábios
De outro mundo ideal místico beijo?
Se, através do prisma de brilhantes,
Vedes maior o Empíreo, e as grandes palmas
Sobre as mãos que as sustem mais luminosas,
E as legiões fantásticas mais belas?
E, se quando passais por entre as glórias,
O carro de triunfo de ouro e sândalo,
Na carreira que o leva não sei onde
Sobre as urzes da terra, borrifadas
Com o orvalho de sangue, ó homens fortes!
Corre mais do que o vôo dos espíritos?

Ah! vós vedes o mundo todo baço…
Pálido, estreito e triste… o vosso prisma
Não é vivo cristal, que o brilho aumenta,
É o metal mais denso! e tão escuro,
Que ainda a luz que vê um pobre cego
Luzir-lhe em sua noite, e a fantasia
Em mundos ideais lhe anda acendendo…
Esse sol de quem já não espera dia…

Ah! vós nem tendes essa luz de cegos!
Que! subir tanto… e estar cheio de frio!
Erguer-se… e cada vez trevas maiores!
Homens! que monte é esse que não deixa
Ver a aurora nos céus? qual é a altura
Que vela o sol em vez de ir-lhe ao encontro?
Que asas são essas, com que andais voando,
Que só às nuvens negras vos levantam?
Certo que deve ser o vosso monte
Algum poço bem fundo… ou vossos olhos
Têm então bem estranha catarata!

II

Há às vezes no céu, caindo a tarde,
Certas nuvens que segue o olhar do triste
Vagamente a cismar… há nuvens d’estas
Que o vestem de poesia e de esperança,
E lhe tiram o frio d’este inverno
E o enchem de esplendor e majestade…
Mais do que as vossas túnicas de púrpura!

Eu, às vezes, nas naves das igrejas
Lá quando desce a luz a alma sobe…
E entre as sombras perpassam as saudades…
E no seio de pedra tem o triste
Mil seios maternais… eu tenho visto
Branquejar, nos desvãos da nave obscura,
Como as nuvens da tarde desmaiadas,

Uns brancos véus de linho em frontes belas
De umas pálidas virgens cismadoras,
Que, em verdade, não há para cobrir-nos
A alma de mistério e de saudade
Gaze nenhuma assim! Vede, opulentos,
Como Deus, com olhar de amor, as veste
A elas, de uma luz de aurora mística,
De poesia, de unção e mais beleza
Que o véu tecido com o velo de ouro!

Os vossos cofres têm tesouros, certo,
Que um rei os invejara… Mas eu tenho
Às vezes visto o infante, em seio amado
De mãe, dormir coberto de um sorriso,
Tão guardado do mundo como a pérola
No fundo do seu golfo… e sei, ó ricos,
Que aquele abrigo aonde a mãe o fecha
 Entre braços e seio  é precioso,
Cerra um tesouro de mais alto preço
Que os tesouros que encerram vossos cofres!

III

Levitas do MILHÃO! o vosso culto
Pode ter brilhos e esplendor de pompas…
Arrastar-se nas ruas da cidade
Como um manto de rei… e sob os arcos
De mármore passar, como em triunfo…
Ter colunas de pórfido luzente…
E ser o altar do vosso santuário
Como o templo Sol… cegar de luzes…
O vosso deus pode ser grande e altivo
Como Baal… o Deus que bebe sangue…
Mas o que nunca o vosso culto esplêndido
Há-de ter, como um véu para o sacrário,
A velar-lhe mistérios… é a poesia…

Esse mimo de amor… esses segredos…
O ingênuo sorriso da criança…
O olhar das mães, espelho de pureza…
A flor que medra na soidão das almas…
O branco lírio que, manhã e tarde,
Aos pés da Virgem, no oratório humilde,
Rega a donzela, em vaso pobrezinho!
Nunca a vossa cruz-de-ouro há-de dar sombra
Como a outra da Gólgota  o alívio,
Sombra que buscam almas magoadas 
Onde os citisos pálidos rebentam…
Consolações… saudade… e inda esperanças…

Podeis cavar… as minas são bem fundas…
Cavai mais fundo ainda… e já é o centro
Da terra, aí! Mas, onde, ó vós mineiros,
Por mais que profundeis não heis-de uma hora
Chegar mais… é ao coração…
E, entanto,
É lá a única mina de ouro puro!

IV

O coração! Potosi misterioso!
O grande rio de areais auríferos,
Que vem de umas nascentes ignoradas
Arrastando safiras em cada onda,
E depondo no leito finas pérolas!

O coração! É aí, ricos, a mina
Única digna de enterrar-se a vida,
Cavando sempre ali… sem ver mais nada…
Foi lá, como na areia o diamante,
Que Deus deixou cair da mão paterna
As esmeraldas do diadema humano…

O Sentimento vivo… a Ação radiante…
E a Idéia, o brilhante de mil faces!
Foi lá que esse Mineiro dos futuros
Encobertos andou co’os braços ambos
Metidos a buscar  mas quando um dia
Do fundo as mãos ergueu… o mundo, em pasmo,
Viu-lhe brilhar nas mãos… o Evangelho!
(1863)

***

locomotiva

  • GIRÃO (António Luís Ferreira)

VIVA O PROGRESSO!

Quando nas noites de cruéis insónias,
Papoilas colho pela nossa história
Nos feitos nunca feitos dos antigos,
Patetas tais lamento. – De que serve
O puro amor da Pátria não movido
Por luzente metal, mas alto, e grátis?
Que lucraram Cabrais, e os Albuquerques,
Em Diu os Castros, no Oriente os Gamas,
Senão morrer de fome, e andar às moscas?
Felizmente vai longe o tempo estulto
De ideias carunchosas d’honra e brio,
Que faziam girar estes e outros
Por solidões de nunca vistos mundos.
E houve quem louvasse estas carreiras,
Quem cantasse os heróis, e os descrevesse?
E há, oh, caso raro!, inda hoje em dia
Quem Andrade e Barros saboreie?
Eu por mim quando os leio o sono é certo.
De que livra saber que o Sol nascendo
No berço viu as lusitanas quinas;
Ou que iroso Neptuno escoucinhando
No mar se divertiu cos Palinuros?
Sempre nossos avós eram bem asnos
Em achar graça a ninharias destas!
Que delírio fatal deu causa a tanto?
Que modo de julgar o mundo e homens
Tão outros do que são como hoje os vemos
À luz etérea do imortal progresso!
O tal Gama que fez (haja franqueza)
Para ser cantado por Camões, o torto,
Num poema sem fim de insulsas trovas?
Fez ele porventura à pátria amada
Presente dalgum gás de novo invento?
Roubou por lá dinheiro aos Hotentotes?
Vendeu porção de terra aos estrangeiros
Pra melhor se arranjar quando voltasse?
Mas nada!… qual história!… o caso é outro,
Fez… (modernos barões, morrei de riso!)
Fez conhecido o lusitano nome!
Em vez de tanta glória, o barbas-d’alho
Dentuças d’elefante antes trouxesse,
Que servem pra marfim, pimenta, e cravo,
Como fazem por aí nos nossos dias.
Estes, sim, são heróis, pintos arranjam
Por finos estampados papelinhos,
Ou inocentes traficando em negros .
A honra, a probidade, a fama, a glória,
E que tais palavrões é fumo, é nada.
Quem troca por loureiros pão d’Avintes,
Ou tostados biscoitos? – E inda há parvos
Pregando sabichões que ter virtudes
É melhor capital do que ter loiras!
Viu-se sandice igual?! – O rumo é outro,
É pé-leve, mão pilha, e ser maroto,
Que esperto quer dizer, pois são sinónimos,
Na do progresso singular linguagem.
Que tempo tão feliz – que século d’oiro!

Salve, progresso tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
Do val que foi de pranto, e hoje é de rosas!

Nem tu, sexo gentil, ficaste isento
Desta moda seguir. – (Pasmai, vindouros,
Do lume vivo das modernas luzes!)
As Marílias cruéis têm vindo ao rego
A honra desprezando, inútil freio
Não posto às más paixões, posto à fortuna.
Isto, sim, que é pensar, ah! que inocência,
Que formosura ingénua e recatada
Ganhou por isso a vida! Avante, belas!
Que o viver é gozar, e os fins são tudo.
Teatros, o vestido, o baile e a festa,
Dinheiro custam, não se dão de graça.

Amor, essa paixão que aos próprios deuses
Faria tresloucar, e andar em brasa,
Está posta em leilão, a lanço em praça.
Ó tempos, ó costumes semibárbaros,
Em que amar era andar atrás das moças
A chorar, a grunhir e a fazer versos;
Ou ir de ponto em branco, mata-moiros,
Deixar-se esquartejar por dama ingrata!
As nossas vestais hoje, em vendo as c’roas,
Rendido o coração, dão corpo e alma.
Os tolos Quixotões desconheceram
Que a mulher é mulher; e o oiro é tudo.
Mas isto é pouco ainda, ‘inda devemos
Mais ao progresso que eu adoro, e sigo.
Era dantes mulher traste de luxo
Sem valer um ceitil, cinco réis cegos;
Hoje há pai que põe preço à própria filha,
Marido que hipoteca a linda esposa,
E quem por um cavalo ou por dez libras
A ditoso rival a amada entregue.
Que moda tão feliz, se o preço abaixa!
Progresso, salve, tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
De vai que foi de pranto, e hoje é de rosas!

***

the_smoke_at_widnes_the_midlands

  • João de LEMOS

A LUA DE LONDRES

É noite. O astro saudoso
rompe a custo um plúmbeo céu,
tolda-lhe o rosto formoso
alvacento, húmido véu,
traz perdida a cor de prata,
nas águas não se retrata,
não beija no campo a flor,
não traz cortejo de estrelas,
não fala de amor às belas,
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos
onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
das praias de além do mar?
Foi na terra tua amada,
nessa terra tão banhada
por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
na pátria dos meus amores,
pátria do meu coração!

Oh! que foi!… Deixaste o brilho
nos montes de Portugal,
lá onde nasce o tomilho,
onde há fontes de cristal;
lá onde viceja a rosa,
onde a leve mariposa
se espaneja à luz do Sol;
lá onde Deus concedera
que em noite de Primavera
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas
talvez há pouco o país
onde do bosque as madeixas
já têm um flóreo matiz;
amaste do ar a doçura,
do azul e formosura,
das águas o suspirar.
Como hás-de agora entre gelos
dardejar teus raios belos,
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
do Mondego os salgueirais;
quem andou por Tejo acima,
por cima dos seus cristais;
quem foi ao meu pátrio Douro
sobre fina areia de ouro
raios de prata esparzir
não pode amar outra terra
nem sob o céu de Inglaterra
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
tens aqui; mas Deus igual
não quis dar-lhe essa lindeza
do teu e meu Portugal.
Aqui, a indústria e as artes;
além, de todas as partes,
a natureza sem véu;
aqui, ouro e pedrarias,
ruas mil, mil arcarias;
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
estátuas, praças sem fim
retalham, cobrem o solo,
mas não me encantam a mim.
Na minha pátria, uma aldeia,
por noites de lua cheia,
é tão bela e tão feliz!…
Amo as casinhas da serra
coa Lua da minha terra,
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
padecemos igual dor;
temos a mesma saudade,
sentimos o mesmo amor.
Em Portugal, o teu rosto
de riso e luz é composto;
aqui, triste e sem clarão.
Eu, lá, sinto-me contente;
aqui, lembrança pungente
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
voltemos aos puros céus.
Leva-me, ó Lua, contigo,
preso num raio dos teus.
Voltemos ambos, voltemos,
que nem eu nem tu podemos
aqui ser quais Deus nos fez;
terás brilho, eu terei vida,
eu já livre e tu despida
das nuvens do céu inglês.

PENA1

questionário sobre “O ano em que Zumbi tomou o Rio”

maio 5, 2011 às 9:42 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Seguem abaixo os slides dos exercícios preparatórios para nossa avaliação na LitPort 4.

questionario AZRT 1

questionario AZRT 2

questionario AZRT 3

agudezas antológicas

maio 5, 2011 às 2:04 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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trança cabelos_JERONIMO                um peito cruel_BACELAR

Bons exemplos da aplicação do procedimento cultista da “disseminação e recolha”, de acordo com a terminologia proposta pelo crítico Dâmaso Alonso (cf. SALTARELLI, p.96), os recortes poéticos acima destacados integram a coletânea Poesia seiscentista: Fênix renascida & Postilhão de Apolo, organizada por Alcir Pécora, e que pode ser folheada online no Google Livros, dando também acesso à instrutiva “Introdução” que João Hansen elaborou para esta obra. Na sequência, seguem transcrições de outros poemas trabalhados em classe e mais alguns de leitura sugerida, tendo em vista a avaliação que realizaremos semana que vem. No final desta postagem, apreciem uma reprodução de “Fogo”, mais uma das perturbantes agudezas visuais criadas pelo grande pintor barroco Giuseppe Arcimboldo.

Mil anos há que busco a minha estrela
E os Fados dizem que ma têm guardada;
Levantei-me de noite e madrugada,
Por mais que madruguei, não pude vê-la.

Já não espero haver alcance dela
Senão depois da vida rematada,
Que deve estar nos céus tão remontada
Que só lá poderei gozá-la e tê-la.

Pensamentos, desejos, esperança,
Não vos canseis em vão, não movais guerra,
Façamos entre os mais üa mudança:

Para me procurar vida segura
Deixemos tudo aquilo que há na terra,
Vamos para onde temos a ventura.

[Francisco Rodrigues Lobo]

**********************************************

Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.

[Francisco Rodrigues Lobo]

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Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano deus Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para quem de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.

[Sóror Violante do Céu]

**********************************************

Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.

[Sóror Violante do Céu]

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Estou a ser triste tão acostumado,
O prazer de tal sorte me enfastia,
Que só quem me entristece me alivia,
Quem me quer divertir me dá cuidado.

Assim o largo mal me tem mudado,
Que se não fosse triste morreria,
Fujo como da morte da alegria,
Entre penas só me acho descansado.

A vida em tanto mal tenho segura,
Pois na minha tristeza só consiste,
Que não pode faltar-me eternamente:

Ninguém teve em ser triste maior ventura!
Que hei de viver eterno de ser triste,
E só posso morrer de ser contente.

[António Barbosa Bacelar]

**********************************************

Glória do amor, que breve que feneces!
Pena do amor, que larga te dilatas!
Que largamente um coração maltratas!
Com quanta brevidade desvaneces!

Gosto fingido no melhor pereces,
Verdadeiro tormento sempre matas,
Se te concedes, logo te recatas,
Se te apoderas, nunca te enterneces!

Pena cruel, que a alma me traspassas!
Glória caduca, que tão pouco aturas!
Quem poderá emendar tantas desgraças!

Quem tivera num ser sempre as venturas!
És doce de passar, por isso passas;
És dura de sofrer, por isso duras.

[Francisco de Vasconcelos]

**********************************************

“Triste Bahia”

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

[Gregório de Matos]

**********************************************

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.

[Gregório de Matos]

**********************************************

“Falando com Deus”

Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce;
Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.

[Jerônimo Baía]

**********************************************

Se sois riqueza, como estais despido?
Se Omnipotente, como desprezado?
Se rei, como de espinhos coroado?
Se forte, como estais enfraquecido?

Se luz, como a luz tendes perdida?
Se sol divino, como eclipsado?
Se Verbo, como é que estais calado?
Se vida, como estais amortecido?

Se Deus? estais como homem nessa Cruz?
Se homem? como dais a um ladrão,
Com tão grande poder, posse dos céus?

Ah, que sois Deus e Homem, bom Jesus!
Morrendo por Adão enquanto Adão,
E redimindo Adão enquanto Deus.

[Frei António das Chagas]

**********************************************

“Cidra, Ciúme”

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.

[Sóror Maria do Céu]

**********************************************

“Mortal doença”

Na febre do amor-próprio estou ardendo,
No frio da tibieza tiritando,
No fastio ao bem desfalecendo,
Na sezão do meu mal delirando,
Na fraqueza do ser, vou falecendo,
Na inchação da soberba arrebentado,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Na dureza do peito atormentada,
Na sede dos alívios consumida,
No sono da preguiça amadornada,
No desmaio à razão amortecida,
Nos temores da morte trespassada,
No soluço do pranto esmorecida,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Na dor de ver-me assim, vou desfazendo,
Nos sintomas do mal descoroçoando,
Na sezão de meu dano estou tremendo
No ris como da doença imaginando,
No fervor de querer-me enardecendo,
Na tristeza de ver-me sufocando,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.
Vou ao pasmo do mal emudecendo,
À sombra da vontade vou cegando,
Aos gritos do delito emouquecendo,
No tempo sobre tempo caducando,
Nos erros do caminho entorpecendo,
Na maligna da culpa agonizando,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

[Sóror Maria do Céu]

**********************************************

“À fragilidade da vida humana”

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em vesúvios incendido
Foi zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que é rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

[Francisco de Vasconcelos]

**********************************************

 

(“Fogo”, ARCIMBOLDO)arcimboldo10

a escrita barroca de Antônio Vieira: algumas sínteses

maio 4, 2011 às 23:49 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Publicada três anos atrás, a entrevista reproduzida abaixo mantém-se bastante atual no panorama que traça acerca das caracterísiticas marcantes da estética barroca, particularmente na obra do padre luso-brasileiro Antônio Vieira, e dos diálogos entre a literatura contemporânea e a literatura engenhosa. Bom material para recapitular e ampliar algumas das questões discutidas nas últimas aulas da LitPort 2. Logo a seguir, à direita da foto do entrevistado, uma reprodução do belo retrato de Vieira criado por Cândido Portinari.

                                                                  Antonio_Vieira_PORTINARI

Antônio Vieira: um dos autores mais densos e complexos da literatura brasileira. Entrevista especial com Claudio Daniel

Hoje, 6 de fevereiro de 2008, são comemorados os 440 anos do nascimento de Antônio Vieira (1608-1697). A revista IHU On-Line 244, intitulada Antônio Vieira: imperador da língua portuguesa, de 19-11-2007, fez uma homenagem ao jesuíta, debatendo sua obra com diversos especialistas. O poeta Claudio Daniel, por sua vez, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, realiza uma análise sobre a importância de Vieira para a literatura moderna e para o barroco contemporâneo.

Claudio destaca um elemento por vezes esquecido, atualmente: a literariedade de Vieira, que “construiu seus textos com recursos da arquitetura poética barroca, como a metáfora, a alegoria, a analogia, o paradoxo, o paralelismo, entre outros, além das relações intertextuais que estabeleceu com os textos bíblicos e de autores clássicos greco-latinos”. Claudio destaca ainda que Vieira realizou uma “literatura sofisticada, que não pode ser reduzida ao aspecto referencial, sem dúvida importante, dentro de sua estratégia missionária, mas que não é o único que pode ser apreciado pelo leitor moderno”. De passagem, avalia que “a exclusão do barroco de nossa literatura, realizada por Antonio Candido em sua Formação da Literatura Brasileira, é injustificável”, chamando atenção para sua influência na obra de Haroldo de Campos. E também fala da importância do barroco hoje, comentando sobre a antologia que produziu, Jardim de camaleões: a poesia neobarroca na América Latina (São Paulo: Iluminuras, 2004), com muitos poetas do assim chamado neobarroco, como Victor Sosa, Severo Sarduy e Coral Bracho.

Claudio Daniel é formado em Jornalismo, pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Libero, e mestrando em Literatura Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP). É autor de Sutra (1992), Yumê (1999) e A sombra do leopardo (2001), reunidos em Figuras metálicas (São Paulo: Perspectiva, 2005), que traz sua obra escrita entre 1983 e 2003. Também publicou a prosa experimental Romanceiro de Dona Virgo (Rio de Janeiro: Lamparina, 2004) e traduziu poetas como Victor Sosa, em Sunyata & outros poemas (São Paulo: Lumme Editor, 2005), e José Kozer, em Íbis amarelo sobre fundo negro (Curitiba: Travessa dos Editores, 2006).

Confira e entrevista.

IHU On-Line – Há uma tendência, por parte de alguns estudiosos, em tentar enxergar Vieira separado da literatura. Ou seja, antes de tudo, para alguns, ele foi um padre jesuíta que escreveu sermões especificamente religiosos, como se esses fossem afastados dos ganhos lingüísticos e literários. Como percebe essa separação?

Claudio Daniel - Vieira (1) escreveu cartas e sermões de caráter moral e teológico. Porém, ele construiu seus textos com recursos da arquitetura poética barroca, como a metáfora, a alegoria, a analogia, o paradoxo, o paralelismo, entre outros, além das relações intertextuais que estabeleceu com os textos bíblicos e de autores clássicos greco-latinos. É uma literatura sofisticada, que não pode ser reduzida ao aspecto referencial, sem dúvida importante, dentro de sua estratégia missionária, mas que não é o único que pode ser apreciado pelo leitor moderno. Exilar Vieira da literatura de língua portuguesa apenas por causa do caráter religioso de seus escritos me parece tão absurdo quanto excluir John Donne (2) da literatura de língua inglesa ou Sóror Juana Inés de la Cruz (3) da literatura de língua espanhola. Por outro lado, a obra de Vieira não se resume a questões éticas e espirituais; ele foi também um pensador político, como podemos verificar lendo sua História do futuro, ou o “Sermão do Bom Ladrão”, e abordou até a metalinguagem, no “Sermão da Sexagésima”.  É um dos autores mais densos e complexos de nossa literatura, que merece contínua releitura e reflexão. 

IHU On-Line – Quais são os sermões aos quais você sempre volta? Eles ainda constituem uma peça fundamental para entender o barroco brasileiro, assim como, por exemplo, os poemas de Gregório de Mattos (4)?

Claudio Daniel – Gosto de ler a História do futuro, as cartas e vários sermões, como o “Sermão de Santo Antônio”, um dos mais alegóricos, e que permite comparações com a poesia mística de Sóror Maria do Céu e com a pintura de Josefa d’Óbidos (5), pela representação simbólica que faz dos vícios e virtudes, relacionando-os com diferentes espécies de peixes e com as atitudes egoístas de membros de sua própria paróquia. Esse simbolismo, de humor corrosivo, permite inclusive outra aproximação, com o escritor inglês Jonathan Swift (6), e mesmo com George Orwell (7) (todos os três utilizaram formas alegóricas como instrumentos para a sátira política). Vieira é mais moderno do que se imagina, assim como Gregório de Mattos, que fez um retrato da vida colonial brasileira que permanece tristemente atual, por exemplo quando ele toca na corrupção de funcionários públicos. A exclusão do barroco de nossa literatura, realizada por Antonio Candido (8) em sua Formação da Literatura Brasileira, é injustificável; podemos verificar a brasilidade de Gregório, por exemplo, não apenas em seus temas, mas até na sua linguagem, que inclui termos de origem indígena e africana, que aliás não se encontram em Góngora (9) ou Quevedo (10), autores que ele foi acusado de imitar. Podemos notar, sim, um diálogo criativo de Gregório com os mestres do Século de Ouro espanhol, que merece análise a partir dos conceitos de intertextualidade de Julia Kristeva (11), mas falar em imitação é uma miopia que oblitera a contribuição original e específica do poeta baiano. Esta acusação simplista é outra tentativa de negar a riqueza do barroco brasileiro, um dos pontos altos de nossa cultura. Haroldo de Campos realizou um trabalho importante para o resgate dessa tradição, que ainda precisa ser plenamente recuperada, inclusive com a reedição crítica das obras de autores quase esquecidos do período, como Botelho de Oliveira (12).
IHU On-Line – De que modo analisa a decisão de Vieira de se afastar da visão gongórica do barroco?

Claudio Daniel – No “Sermão da sexagésima”, Vieira escreveu uma autêntica “arte de pregar”, quase um manifesto estético, polemizando com os oradores dominicanos, seus rivais, que praticavam um cultismo exacerbado, em detrimento de um sentido espiritual mais profundo. Conforme Antonio Candido, o cultismo “repousa sobretudo no som e na forma, tendendo para uma verdadeira exaltação sensorial, enquanto favorece a fantasia na busca de imagens e sensações que ultrapassam as sugestões da realidade”. Vieira era partidário de outra tendência do barroco, o conceptismo, que, nas palavras de Candido, “apóia-se no significado da palavra, tendendo para o abusivo jogo de vocábulos e de raciocínio, para as agudezas ou sutilezas de pensamento, com transições bruscas ou associações inesperadas, além de seu misticismo ideológico”. Essa divisão entre as duas facetas do barroco nem sempre é estanque; ao contrário, é uma fronteira porosa, que permite intersecções. Em várias passagens dos sermões de Vieira, podemos encontrar também recursos cultistas, mas sempre com um propósito religioso ou moral; o que ele condenava em seus adversários era a retórica artificial e oca.

IHU On-Line – Aceita a observação de Haroldo de Campos (13), para quem Vieira era um "syntaxier", como Mallarmé? Faria aproximações entre o barroco de Vieira, mais prolixo, e o de Haroldo, mais sintético, mas com um trabalho experimental com a sintaxe?

Claudio Daniel - A sintaxe de Vieira nem sempre é labiríntica ou obscura como a de Mallarmé; muitas vezes é clara e direta, já que ele escreveu textos para atingirem um público, com objetivo de proselitismo religioso. O jesuíta não buscava uma linguagem pura próxima da abstração. No entanto, a construção estrutural de seus sermões, a maneira como ele faz o encadeamento discursivo, pode autorizar um paralelo com o autor francês, com parêntesis e ressalvas. O diálogo de Haroldo de Campos com Vieira vem desde a década de 1950; a própria expressão “xadrez de estrelas”, que nomeia a antologia poética de Haroldo publicada em 1976, foi retirada de um sermão do jesuíta (14). Seria interessante um estudo comparativo entre a produção mais barroquizante — e logo, menos sintética — do poeta paulista (o Auto do possesso e Galáxias) e as construções sonoras e imagéticas do jesuíta.

IHU On-Line – Muitos textos fundamentais de Haroldo de Campos estabelecem um contato entre barroco e poesia concreta. Existiria um ponto de aproximação sobretudo na questão do luxo/lixo da linguagem, para utilizar uma expressar do poema de Augusto de Campos?

Claudio Daniel - O barroco é uma arte de mesclas, de miscigenação, de quebra de fronteiras entre códigos e repertórios culturais: não por acaso, na arquitetura das igrejas barrocas no Nordeste brasileiro, por exemplo, você encontra estátuas de anjos com feições africanas. Há uma quebra de hierarquias entre o popular e o erudito, o sublime e o terrível, para a conquista dos sentidos do espectador: o barroco utiliza todos os recursos disponíveis de som e imagem para ameaçar e seduzir. A própria missa barroca nada mais é do que a “obra de arte total” que une a arquitetura, as artes visuais, a recitação e o canto. A poesia concreta também realizou a quebra de fronteiras entre as diversas artes, e ainda entre a cultura de alto repertório e a cultura de massa, como em seu diálogo com a música popular, a publicidade e agora com os recursos eletrônicos. Neste sentido, podemos identificar pontos de convergência entre o barroco e a poesia concreta. Não por acaso, Augusto de Campos traduziu dois importantes poetas barrocos, o inglês John Donne e o alemão Quirinus Kuhlmann (15).

IHU On-Line – O seu trabalho poético tem influência do barroco e você já traduziu muitos poetas do neobarroco. Quais os trabalhos que mais têm seu interesse? Há uma influência de Vieira ainda no barroco contemporâneo?

Claudio Daniel - No livro Romanceiro de Dona Virgo, que publiquei em 2004, há um conto chamado "Agnus Dei", que é um diálogo intertextual com Gregório e Vieira, citados nas epígrafes e também no interior do texto, na forma de alusões, citações e paródia. O conto é ambientado num mosteiro beneditino no sul da Bahia, na época do regime militar, e faz um cruzamento temático entre a questão política, o misticismo e a sexualidade. De todos os meus escritos, creio que este é o que conversa de modo mais explícito com a estética barroca (presente, em maior ou menor grau, em meus poemas, sobretudo naqueles incluídos no livro Yumê, de 1999). Atualmente, tenho lido muito os ensaios de Ana Hatherly (16), como “O ladrão cristalino” e “A experiência do prodígio”, em que faz estudos comparativos entre a poesia e a pintura do barroco português. Também leio, com certa freqüência, a edição crítica dos poemas de Gregório de Mattos, em dois volumes, organizada por James Amado, e o Primero Sueño, de Sóror Juana Inés de la Cruz. Não sou um especialista, mas um apaixonado pelo barroco, que me encanta com seus labirintos sintáticos e semânticos. Já o neobarroco (ou neobarroso, como dizia Nestor Perlongher) não é uma retomada epigonal da arte do Século de Ouro, com a sua métrica e a sua metafísica, impregnada pelo espírito da Contra-Reforma.

Conforme diz Roberto Echavarren (17), “a poesia barroca e a neobarroca não partilham necessariamente os mesmos procedimentos, ainda que certos traços possam ser considerados, por seus efeitos, equivalentes. O que partilham é uma tendência ao conceito singular, não geral, a admissão da dúvida e de uma necessidade de ir além das adequações preconcebidas entre a linguagem do poema e as expectativas supostas do leitor, o desdobrar de experiências além de qualquer limite”. Podemos identificar pontos convergentes como a ênfase na imagem, na metáfora; a construção labiríntica da sintaxe; a riqueza semântica; o conflito entre o significante e o significado; o uso de recursos como a anáfora e a hipérbole; porém, estamos diante de uma escritura ainda mais movediça, lodosa, que não propõe uma poética, mas uma pluralidade de poéticas, deslizando “de um estilo a outro sem tornar-se prisioneiros de uma posição ou procedimento”, no dizer do poeta uruguaio.

Notas:

(1) Antônio Vieira foi um religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus. Um dos mais influentes personagens do século XVII em termos de política, destacou-se como missionário em terras brasileiras. Nesta qualidade, defendeu infatigavelmente os direitos humanos dos povos indígenas combatendo a sua exploração e escravização. Era por eles chamado de "Paiaçu" (Grande Padre/Pai, em tupi). Defendeu também os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos, perseguidos à época pela Inquisição) e cristãos-velhos (os católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição. Na literatura, seus sermões possuem considerável importância no barroco brasileiro e as universidades freqüentemente exigem sua leitura. Segundo Massaud Moisés (In: A literatura portuguesa. 28. ed. São Paulo: Cultrix, 1995, p. 75), Vieira “é mais alta personalidade, humana e cultural, dessa época (o Barroco), à qual sua estatura invulgar deu nível e serviu de símbolo perfeito. Nele, se encontram reunidas, em estranho compósito, as linhas de força que norteiam o complexo quadro do Barroco Português”.

(2) John Donne foi um poeta inglês e clérigo anglicano.

(3) Sóror Juana Inés de la Cruz ou, simplesmente, Sóror Juana, foi uma religiosa católica, poetisa e dramaturga nova-espanhola (pelo que se a considere mexicana, também se pode tomá-la como espanhola), nascida em data incerta (estima-se que foi entre 1648 e 1651), em San Miguel Nepantla, perto de Amecameca e falecida na Cidade do México em 1695. Foi a última dos grandes escritores do Século de Ouro.

(4) Gregório de Mattos e Guerra, alcunhado de Boca do Inferno ou Boca de Brasa, foi um advogado e poeta brasileiro da época colonial. É considerado o maior poeta barroco do Brasil e um dos maiores poetas de Portugal.

(5) Josefa d’Óbidos foi uma pintora nascida na Espanha que viveu e produziu em Portugal. Era filha de Baltazar Gomes Figueira, pintor português natural de Óbidos, com obra em Évora, que fora trabalhar em Sevilha, onde veio a desposar D. Catarina de Ayala Camacho Cabrera Romero, natural da Andaluzia.

(6) Jonathan Swift foi um escritor irlandês. 

(7) George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, (Bengala, 25 de Junho de 1903 — Londres, 21 de Janeiro de 1950) foi um escritor britânico, mais conhecido pelas suas duas obras maiores, A revolução dos bichos e 1984. Poucas pessoas, mesmo entre as que lhe eram próximas, conheciam o seu verdadeiro nome, de tal forma o pseudónimo se tornou a sua segunda natureza. A adopção deste "nom de plume" correspondeu a uma profunda alteração na vida e nos ideais do homem – de uma figura do sistema no Império Britânico, ele se tornará num rebelde, constantemente crítico. Morreu de tuberculose, na miséria.

(8) Antonio Candido nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu desde a primeira infância em Minas Gerais. Entrou em 1939 para a Faculdade de Direito e para a de Filosofia (Seção de Ciências Sociais), na qual recebeu no começo de 1942 os graus de bacharel e licenciado. De 1958 a 1960 foi professor de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia de Assis. Aposentando-se em 1978, continuou a trabalhar em nível de pós-graduação como orientador de teses. Fora da vida acadêmica, foi crítico da revista Clima (1941-4) e dos jornais Folha da Manhã (1943-5) e Diário de São Paulo (1945-7). Na vida política, participou de 1943 a 1945 na luta contra a ditadura do Estado Novo no grupo clandestino Frente de Resistência. Atualmente, é vice-presidente da TV do Trabalhador e membro do Conselho editorial da revista Teoria e Prática.

(9) Carlos de Sigüenza y Góngora foi um dos primeiros grandes intelectuais nascidos no vice-reino de Nova Espanha. Polímata e escritor, galgou na colônia vários cargos políticos e acadêmicos.

(10) Francisco Gómez de Quevedo y Santibáñez Villegas foi um escritor do século de ouro espanhol.

(11) Julia Kristeva é uma psicanalista búlgara, professora de Lingüística na Universidade de Paris e autora de mais de trinta livros consagrados. Aluna de Roland Barthes, é uma das mais respeitadas intelectuais da atualidade. Seus pensamentos envolvem teoria literária, semiologia, filosofia e psicologia. Escreveu também quatro romances. Entre suas obras, estão As novas doenças da alma (Rio de Janeiro: Rocco), Estrangeiros para nós mesmos (Rio de Janeiro: Rocco) e O velho e os lobos (Rio de Janeiro: Rocco). O jornal francês Le Monde publicou um artigo de Roger-Pol Droit sobre Kristeva, em 18 de novembro de 2005, que a IHU On-Line na edição 166, de 28 de novembro de 2005, republicou sob o título "Eu vivo com esse desejo de sair de mim". 

(12) Manuel Botelho de Oliveira foi um advogado, político e um poeta barroco brasileiro. Foi o primeiro autor nascido no Brasil a ter um livro publicado. Manuel Botelho de Oliveira conviveu com Gregório de Mattos e versou sobre os temas correntes da poesia de seu tempo.

(13) Haroldo de Campos foi um poeta, tradutor e ensaísta brasileira, autor de obras como Xadrez de estrelas, Crisantempo e Metalinguagem & outras metas.

(14) Em Depoimentos de oficina (São Paulo: Marco, 2003, p. 25-26), Haroldo de Campos escreve: “Um verdadeiro manifesto da estética neobarroca que na época começava a ganhar corpo em minha poesia é ‘Teoria e prática do poema’ (1952), que glosa uma citação do padre Antônio Vieira, do célebre Sermão da sexagésima (1655). (O trecho do poema é o seguinte: “O Poema propõe-se: sistema / de premissas rancorosas / evolução de figuras contra o vento / xadrez de estrelas. Salamandra de incêndios / que provoca, ileso dura, / Sol posto em seu centro”)”. Haroldo prossegue: “‘Não fez Deus o céu como xadrez de estrelas’ – afirmava Vieira e recomendava aos pregadores: ‘Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras’. No entanto, o seu sermão está estruturado como um engenho de enxadrista, como notou com muita sagacidade o crítico português António José Saraiva. Como no caso do artifício retórico chamado litotes, Vieira afirmava uma coisa e fazia outra. A poesia, mundo autônomo organizado pela razão permeada de emoção, pende em equilíbrio instável sobre o abismo do azar, por um ato de luciferina (de Lusbel) arrogância; a poesia pode ser descrita como um virtual xadrez sensível, de estrelas”. Haroldo de Campos se contrapôs a Antonio Candido, que exclui o Barroco de sua Formação da Literatura Brasileira, em O seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o caso Gregório de Mattos (2. ed. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1989), comentando que Vieira e Mattos eram conhecidos não por livros, mas pelo público, ao escutá-los, e por isso fizeram parte também do cenário literário brasileiro inicial.

(15) Quirinus Kuhlmann foi um poeta alemão barroco, traduzido no Brasil por Augusto de Campos em Poesia da recusa.

(16) Ana Hatherly é uma poeta, ensaísta, investigadora, tradutora, professora universitária e artista plástica portuguesa. Membro destacado do grupo da Poesia Experimental Portuguesa nos anos 60 e 70, tem uma extensa bibliografia poética e ensaística. Dedicou-se também à investigação e divulgação da literatura portuguesa do período barroco tendo fundado as revistas Claro-Escuro e Incidências.

(17) Roberto Echavarren é um poeta uruguaio, estudioso do neobarroco.

 

 

 

FONTE: IHU Online

cartografias das literaturas africanas

abril 27, 2011 às 10:57 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ipotesi n14 grifo

A recentemente lançada edição 14 da Revista Ipotesi, conceituada publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora, reúne uma série de artigos voltados para discussão teórica e crítica acerca da ficção africana, destacadamente dos textos produzidos por autor@s de língua portuguesa. Nesse conjunto encontra-se um artigo meu, intitulado O sexo da “raça”: identidade, escravidão e patriarcalismo em A gloriosa família, de Pepetela, texto no qual discuto as articulações históricas e simbólicas constituídas entre racismo e sexismo no âmbito das sociedades escravocratas lusófonas, articulações que se convertem numa “economia política da sexualidade”, conforme os termos de Osmundo Pinho, que desempenha um papel central na regulação de conflitos e diferenças nas sociedades lusófonas pós-coloniais. O processo de construção cultural dessa economia pode ser visibilizado através de um estudo genealógico do excelente romance de Pepetela A gloriosa família, tal como me propus a fazer no artigo em causa.

pobreza e racismo no Brasil: dados recentes

abril 20, 2011 às 12:10 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Desigualdade racial se agrava no Brasil, diz relatório da UFRJ

Por outro lado, trabalho constata que pretos e pardos foram os mais beneficiados pelo estabelecimento do SUS

Wilson Tosta

O Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010, lançado ontem na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta a persistência e o agravamento da desigualdade entre pretos e pardos, de um lado, e brancos. O trabalho, produzido pelo Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser) da UFRJ, mostra, por exemplo, que em 2008 quase metade das crianças afrodescendentes de 6 a 10 anos estava fora da série adequada, contra 40,4% das brancas. Na faixa de 11 a 14 anos, o porcentual de pretos e pardos atrasados subia para 62,3%.

Os resultados contrastam com avanços nos últimos 20 anos. A média de anos de estudo de afrodescendentes foi de 3,6 anos para 6,5 entre 1988 e 2008, e a taxa de crianças pretas e pardas na escola chegou a 97,7%. Mesmo assim, o avanço entre pretos e pardos foi menor. Na saúde, subiu a proporção de afrodescendentes mortas por causa da gravidez ou consequências. “Não quer dizer que as coisas estejam às mil maravilhas para os brancos, mas os pretos e pardos são os mais atingidos”, diz um dos coordenadores, o economista Marcelo Paixão.

Com 292 páginas, o trabalho é focado nas consequências da Constituição de 1988 e seus desdobramentos para os afrodescendentes. Para produzir o texto, os pesquisadores do Laeser recorreram a bases de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos Ministérios da Saúde e da Educação e do Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros. Foram abordados temas como Previdência, acesso ao sistema de saúde, assistência social e ensino.

O estudo constata que o estabelecimento do SUS beneficiou mais pretos e pardos (66,9% da sua população atendida em 2008) do que brancos (47,7%), mas a taxa de não cobertura (proporção dos que não conseguem atendimento) dos afrodescendentes foi de 27%, para 14% dos brancos. “A Constituição de 1988 não foi negativa para os afrodescendentes, mas, do ponto de vista de seu ideário, ainda é algo a ser realizado”, diz Paixão, reconhecendo que há brancos prejudicados, em menor proporção.

Em 2008

40,9%
das mulheres pretas e pardas nunca haviam feito mamografia, contra 22,9% das brancas

18,1%
das mulheres pretas e pardas nunca haviam feito papanicolau (13,2% entre as brancas)

Fonte: Portal Áfricas / Estadao.com.br

+++++ poesia barroca portuguesa

abril 19, 2011 às 0:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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vercial barroco

Clique na imagem e embriague-se de agudezas seiscentistas com certeza portuguesas!

poesia portuguesa de agudeza: antologia

abril 19, 2011 às 0:08 | Publicado em Uncategorized | 1 comentário
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perola barroca lilas

Na imagem acima podem ser apreciadas algumas fieiras de pérolas barrocas lilases, também usadas na joalheria. A beleza estranha dessas jóias encontra sua correspondente textual na  intricada poesia barroca, arte feita de palavras retorcidas, sintaxes tortuosas e significações agudas, como pode ser conferido na breve antologia que segue abaixo, reunindo alguns textos de referência para nosso curso e nossas avaliações. A coletânea inicia-se com um famoso soneto maneirista de Luís de Camões, a sinalizar, tanto a nível temático quanto formal, a crise que abala os padrões de equilíbrio estético e intelectual do Renascimento, crise que desemboca na literatura diversificadamente engenhosa que, desde o trabalho sistematizador de Heinrich Wölfflin, tem sido demarcada e definida como barroca.

Se desejar conhecer mais detidamente questões teóricas e estéticas relativas ao “procedimento retórico-poético da agudeza como efeito que especifica a poesia lírica seiscentista de  Portugal”, além da excelente dissertação de Thiago Saltarelli, As poéticas seiscentistas e a obra de Dom Francisco Manuel de Melo, que estamos discutindo em classe, você também pode conferir a tese de doutoramento de Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, intitulada Poesia de Agudeza em Portugal, trabalho defendido na UNICAMP, em 2004, e que contou na banca de arguição com o eminente professor e pesquisador da arte engenhosa,  João Adolfo Hansen.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

[Luís Vaz de Camões]

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Vede-me de si mesmo o tempo conta
E para dar-se pede a conta tempo,
que quem gastou sem conta tanto tempo;
como o dar sem tempo tanta conta.

Não quer louvar o tempo, tempo em conta,
Porque conta não faz de dar ao tempo,
Em que só para conta havia tempo,
Se na conta do tempo, houvesse conta.

Mas que conta dar a quem não tem tempo
em que tempo [andava] quem não tem conta
a quem sem conta vive falta tempo.

Vejo-me sem ter tempo e sem ter conta
Sabendo que ei de dar conta do tempo
E que se há de chegar tempo da conta.

[Anônimo, Códice 13.217, in: Cancioneiros do século XVI e XVIII]

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Será brando o rigor, firme a mudança,
humilde a presunção, vária a firmeza,
fraco o valor, cobarde a fortaleza,
triste o prazer, discreta a confiança;

Terá a ingratidão firme lembrança,
será rude o saber, sábia a rudeza,
lhana a ficção, sofística a lhaneza,
áspero o amor, benigna a esquivança;

Será merecimento a indignidade,
defeito a perfeição, culpa a defensa,
intrépido o temor, dura a piedade,

Delito a obrigação, favor a ofensa,
verdadeira a traição, falsa a verdade
antes que vosso amor meu peito vença.

[Sóror Violante do Céu]

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“A uma ausência”

Vida que não acaba de acabar-se,
Chegando já de vós a despedir-se,
Ou deixa, por sentida, de sentir-se,
Ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
Pois chega já de vós a dividir-se,
Ou procura, vivendo, consumir-se,
Ou pretende, matando, eternizar-se.

O certo é, Senhor, que não fenece,
Antes no que padece se reporta,
Por que não se limite o que padece.

Mas viver entre lágrimas, que importa
Se vida que entre ausência permanece
É só viva ao pesar, ao gosto morta?

[Sóror Violante do Céu]

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“Ao Padre António Vieira, pregando do nascimento de N. Senhora no Convento da Rosa”

(Silva)

Aspirar a louvar o incompreensível,
E fundar o desejo no impossível;
Reduzir a palavras os espantos,
Detrimento será de excessos tantos;
Dizer, do muito, pouco,
Dar o juízo a créditos de louco;
Querer encarecer-vos,
Eleger os caminhos de ofender-vos;
Louvar diminuindo,
Subir louvando e abaixar subindo;
Deixar também, cobarde, de louvar-vos,
Será mui claro indício de ignorar-vos;
Fazer a tanto impulso resistência,
Por o conhecimento em contingência;

Delirar por louvar o mais perfeito,
Achar a perfeição no que é defeito;
Empreender aplaudir tal subtileza,
Livrar todo o valor na mesma empresa.
Errar exagerando,
Ganhar perdendo e acertar errando.
Siga pois o melhor indigna Musa
E deponha os excessos de confusa,
Que, para acreditar-se,
Basta, basta o valor de aventurar-se;
E para vos livrar de detrimento,
Ser vossa a obra e meu o pensamento.
Pois não fica o valor aniquilado,
Sendo meu o louvor, vós o louvado,
Porque somos os dois, no inteligível,
Eu ignorante e vós incompreensível.

[Sóror Violante do Céu]

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“A umas saudades”

Saudades de meu bem, que noite e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabardes-me a vida com tormento,
Mais lisonja será que tirania.

Mas, quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria.

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo.

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

[António Barbosa Bacelar]

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“A uma ausência”

Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem, que me entretém, me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado;
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio;
No mor risco me anima á confiança;
Do que menos se espera estou mais certo.

Mas se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.

[António Barbosa Bacelar]

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“À variedade do mundo”

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c’o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C’o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora…
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

[António Barbosa Bacelar]

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Esse jasmim, que arminhos desacata,
Essa aurora, que nácares aviva,
Essa fonte, que aljôfares deriva,
Essa rosa, que púrpuras desata:

Troca em cinza voraz lustrosa prata,
Brota em pranto cruel púrpura viva,
Profana em turvo pez prata nativa,
Muda em luto infeliz tersa escarlata.

Jasmim na alvura foi, na luz Aurora,
Fonte na graça, rosa no atributo,
Essa heróica deidade, que em luz repousa.

Porém fora melhor que assim não fora,
Pois a ser cinza, pranto, barro e luto,
Nasceu jasmim, Aurora, fonte, rosa.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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“A fonte das lágrimas”

De essa pura fonte, fonte aceita
Digna de vista ser por ser vistosa,
Que quando mais murmura mais deleita
De muda penha filha sonorosa.

Que o gosto enfeitiça, o prado enfeita,
E quando branda mais, mais poderosa,
Contrários vence, oposições sujeita,
Pois ferve fria, pois se ri chorosa.

Vês tanta prata, vês aljofar tanto!
Pois sabe Bela, doce, e linda es bela
Do ouvido suspensão, da vida encanto,

Que ou ela vive em mim, ou vivo eu nela,
Ela é lagrimas toda, eu tudo pranto
Eu de amor fonte, fonte de amor ela.

[Anônimo, Códice 13.219, in: Biblioteca Nacional de Lisboa]

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Saudades de meu bem, que noite, e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabares-me a vida com tormento,
Mais lisonja será, que tirania:

Mas quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria:

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo;

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto, com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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Copiar todo o esplendor da natureza
É o que atrevidamente a arte procura!
Em vão se cansa a idea, a mão se apura
Que impossíveis não cabem na destreza.

[Vira-se] já com menos estranheza
O poder dividir-se a fermosura
Que corpo há se imite na pintura
Aonde é toda espírito a beleza.

Que importa que se empenhe o entendimento
Para uma perfeição quase infinita
Impossível será que ache igualdade.

Ceda o pincel de tão ousado intento
Pois se o que se compreende só se imita,
[Que] nega a semelhança a Divindade.

[Anônimo, Códice 13.219, in: Cancioneiros do século XVI e XVIII]

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Baixel de confusão em mares de ânsia,
Edifício caduco em vil terreno,
Rosa murchada já no campo ameno,
Berço trocado em tumba desd’a infância;

Fraqueza sustentada em arrogância,
Néctar suave em campo de veneno,
Escura noite em lúcido sereno,
Sereia alegre em triste consonância,

Viração lisonjeira em vento forte,
Riqueza falsa em venturosa mina,
Estrela errante em fementido norte;

Verdade que o engano contamina,
Triunfo no temor, troféu da morte
É nossa vida vã, nossa ruína.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. 

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

[Gregório de Matos]

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Anjo no nome, Angélica na cara
Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

[Gregório de Matos]

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“Buscando a Cristo”

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos;
Que, para receber-me, estais abertos
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados,
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me.
A vós, sangue vertido para ungir-me.
A vós, cabeça baixa p´ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me.
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

[Gregório de Matos]

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“A Jesus Cristo Nosso Senhor”

Pequei, Senhor; mas não por que hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido:
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a ; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

[Gregório de Matos]

espelho barroco

agudeza e plurissignificação: interfaces estéticas

abril 18, 2011 às 23:21 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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alegoria velho-jovem

Quantas narrativas e quantos sentidos se entrecruzam na imagem acima? Nela, encontram-se habilmente reinscritos o excesso semântico e a poder de articulação entre elementos heterogêneos que caracterizam a estética seiscentista da agudeza, e suas diversificadas expressões barrocas. Interessante notar que as principais tendências da pintura barroca, no século XVII, preferiam investir numa figuração realista, cujo polimorfismo derivava de engenhosas sutilezas pictóricas, engendradas especialmente por composições entre tons claros e escuros, como se pode observar no famoso quadro “Davi e Golias”, de Caravaggio, reproduzido a seguir:

davi   Nas artes verbais, por sua vez, fonemas, palavras e sintaxes são embaralhadas de maneira caprichosa, forçando a conjugação entre significantes desproporcionais e descontínuos, de maneira a gerar efeitos de significação surpreendentes e imagens multifacetadas, como bem se lê num dos poemas do poeta barroco luso-brasileiro Bernardo Vieira Ravasco, irmão do Padre Antonio Vieira, texto também analisado por João Adolfo Hansen, no ensaio Agudezas seiscentistas, disponível AQUI:

Iris parlero, abril organizado
Ramillete de plumas con sentido,
Hybla con habla, irracional florido
Primavera con pies, jardín alado

E aí? Dá para dizer que este poema, ou esta representação barroca, “retrata” um papagaio?

papagaio

Toda linguagem literária produz imagens altamente dinâmicas, imagens moldáveis e remontáveis pela ação direta dos nossos processos imaginativos. É interessante notar que mesmo uma imagem cinematográfica, ou uma pintura, acabam se mostrando representações mais fixas e impositivas do que as figurações com que visualizamos intimamente os personagens de um romance, as paisagens de um conto, as emoções traduzidas num soneto. No caso da literatura barroca, o leitor é sempre conduzido a experiências intensivas de decodificação estética e de construção polifônica dos sentidos.

9 passos para o ensino da história negra nas escolas

abril 13, 2011 às 22:50 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ensino_afro

A História do Brasil finalmente incluiu a história de nossas negras raízes no currículo escolar. Sem deixar para trás, claro, a origem portuguesa e a indígena, o conteúdo tem de abordar a vinda involuntária dos africanos. Isso por que, em 2003, o que já deveria ser um direito virou lei. A obrigatoriedade do tema "História e Cultura Afro-brasileira e Africana" existe desde que foi aprovada a lei 10.639. A partir da sanção dessa lei, as instituições de ensino brasileiras passaram a ter de implementar o ensino da cultura africana, da luta do povo negro no país e de toda a história afro-brasileira nas áreas social, econômica e política. O conteúdo deve ser ministrado nas aulas de história e, claro, em todo o currículo escolar, como nas disciplinas de artes plásticas, literatura e música. E isso em TODAS as escolas de Ensino Fundamental e Médio das redes pública e privada.

Para se adequar à lei, cabe às escolas encontrar um modo de redesenhar as aulas para encaixar os conteúdos exigidos. Um exemplo de que isso é possível acontece no Colégio Friburgo, em São paulo. A coordenadora do Ensino Fundamental, Eni Spimpolo, conta que os resultados vão além do simples aprendizado da matéria. "Mostrando que a mistura do povo brasileiro foi feita por vários povos através dos tempos, conseguimos comparar diversas culturas, valorizá-las, promover o respeito a elas e derrubar preconceitos", conta.

Veja a seguir como as instituições de ensino podem superar as dificuldades para implantar – de verdade! – as exigências da lei em seus currículos e como você, pai, pode, e deve, contribuir nesse processo:

1. Qual o objetivo da lei 10.639?

"Para qualquer pessoa se afirmar como ser humano ela tem de conhecer um pouco da sua identidade, das suas origens, da sua história", diz Kabengele Munanga, professor de Sociologia da USP e vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da instituição. No Brasil, os afro-brasileiros representam 51% da população, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2009. A intenção da lei 10.639 é contribuir para a superação dos preconceitos e atitudes discriminatórias por meio de práticas pedagógicas de qualidade, que incluam o estudo da influência africana na cultura nacional.
2. Quais são as dificuldades de aplicação da lei 10.639?
Segundo o professor Eduardo de Assis Duarte, a não adequação à lei está relacionada, basicamente, a três fatores: despreparo e desconhecimento dos professores com relação ao tema; pouco material de estudos produzido sobre a história e cultura dos afro-brasileiros no Brasil; preconceito de algumas instituições. "Quando a escola quer fazer, ela faz, inventa formas de suprir as carências", afirma o coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para facilitar a implementação da lei 10.639, o Ministério da Educação (MEC) está criando políticas e programas voltados para ações de reconhecimento e valorização da diversidade sociocultural.
3. O material didático brasileiro já está de acordo com a lei?
Para Kabenguele Munanga, professor de sociologia da USP e vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da instituição, os livros didáticos, no Brasil, ainda não têm uma orientação que realmente contemple as raízes africanas do país. A professora de língua portuguesa Débora Adão, da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Vila Ursolina, de São Paulo, concorda: "Alguns livros até mencionam piadas preconceituosas (leia acima medidas do MEC para combater esse tipo de abordagem), o que merece toda a atenção dos pais. Ainda assim, a vice-diretora do Colégio Sidarta, Maria Aparecida Schleier acredita que é possível encontrar materiais didáticos de qualidade e aproveitá-los em benefício dos alunos. "Os conteúdos sobre cultura e história afro-brasileira de alguns livros são bons, mas servem apenas como pontos de apoio". Ela conta que os alunos aprendem muito com atividades que vão além do conteúdo dos livros. "A música é uma ótima forma de memorizar conteúdos e, nestas aulas, passamos cantos afro-brasileiros e indígenas para os alunos".

4. De quem é a responsabilidade pelo cumprimento da lei?
Segundo o MEC (Ministério da Educação), em 2004, o CNE (Conselho Nacional de Educação) estabeleceu que a responsabilidade de regulamentar e desenvolver as diretrizes previstas pela lei 10.639 é dos Conselhos de Educação Municipais, Estaduais e do Distrito Federal. Além disso, cada sistema deve fazer o controle das unidades da sua rede de ensino encaminhando um relatório de atividades ao MEC, à SEPPIR (Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial) e ao CNE (Conselho Nacional de Educação) anualmente. Os gestores de ensino nas escolas devem incentivar pais e professores a discutir as bases curriculares dos projetos pedagógicos das escolas levando em conta as temáticas previstas pela lei. Também é recomendado que as escolas procurem formas de pedir financiamento para Ministério da Educação, prevendo, por exemplo, a disponibilidade de obras para qualificar os projetos pedagógicos da instituição de ensino.

5. Como exigir a aplicação da lei na escola do seu filho?
A lei 10.639 não estabelece prazo para a implementação de suas diretrizes em 100% dos municípios brasileiros. Mas fique atento, pois existe, sim, uma determinação prevista no Plano Nacional de Implementação para que certas metas sejam cumpridas até 2015.O Texto do Plano está disponível no Portal MEC . Uma forma de exigir que a lei seja cumprida é participar do Conselho Escolar – a representação dos pais nesse espaço é garantida pela legislação Educacional do Brasil – e elaborar, junto com os professores e gestores de ensino, o projeto pedagógico da escola. "O pai precisa ter ciência do que a escola está ensinando para o seu filho. Hoje em dia, os meios de comunicação, como e-mail e sites, ajudam a fazer isso", afirma a diretora pedagógica do Colégio Vértice, Ana Maria Gouveia Bertoni.
6. Como preparar os professores para cumprir a lei 10.639?
Uma das estratégias do MEC (Ministério da Educação) é a formação presencial e à distância de professores sobre o tema, através de cursos. Segundo Débora Adão, professora da Escola Estadual Vila Ursolina, de São Paulo, os professores precisam estar abertos para buscar informação em vários lugares, não apenas nos livros. "Uma dica muito importante é partir de questões que estão próximas dos alunos. Os professores devem conhecer a realidade dos estudantes para trabalhar o tema. O aluno precisa voltar para casa e ter o que contar, tem que levar essas questões para a família naturalmente", diz. Foi o que fez Adriana Santos da Silva, diretora da Escola Estadual Doutor Victor de Britto, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ela procurou por conta própria cursos de especialização sobre a história e cultura afro-brasileira oferecidos pelo MEC. "Fiz dois cursos a distância que foram maravilhosos. O MEC oportuniza, mas os professores também têm que ir atrás". Com o conteúdo aprendido, Adriana desenvolveu projetos na escola onde trabalha. "Comecei a abordar o tema pela identidade cultural local, tentando quebrar aquele tabu de que no Rio Grande do Sul só tem loiros", conta a diretora.Com a visibilidade nacional que a escola ganhou pela boa implantação da lei 10.639, foi possível garantir um tempo específico à carga horária na instituição de ensino para a produção de estudos e atividades sobre o tema. "A Secretaria da Educação do Estado permitiu isso facilmente porque viu o trabalho que estamos fazendo na escola", comemora Adriana Santos da Silva.
7. Como os alunos podem participar?
No processo de aprendizado, vale pedir para os alunos trazerem suas dúvidas sobre as diferenças étnicas e culturais que os cercam. As perguntas podem ser elaboradas com os pais, em casa, e trazidas para a sala de aula depois. "Se queremos trabalhar a arte da cultura negra nas aulas, pedimos para os alunos trazerem informações a respeito", diz Eni Spimpolo, coordenadora do Ensino Fundamental do Colégio Friburgo. Eni conta que o Colégio tem muitos alunos negros e que, também por isso, a intenção é fazer com que os preconceitos com relação às diferenças sejam derrubados através de estudos, de pesquisas, da convivência e do respeito.
8. Como você pode colaborar?
           A família tem muito a contribuir com o principal objetivo da lei 10.639: a superação dos preconceitos e atitudes discriminatórias entre os brasileiros. Afinal, o aluno deve ser estimulado em casa a conversar sobre o que foi aprendido na escola. Comentar e valorizar os temas estudados facilita o aprendizado e é por isso que a participação dos pais é fundamental. A especialista em relações raciais na educação na Universidade de Santa Cruz, em Ilhéus, Bahia, Rachel de Oliveira, recomenda que os pais colaborem, inclusive, com sugestões de conteúdo para as aulas. "Se o pai tiver conteúdo sobre o tema, deve passá-lo à escola para incentivar a abordagem dentro do currículo da instituição".

9. Para vivenciar e aprender

        Experiências fora da sala de aula são formas diferentes de abordar a cultura e história afro-brasileira. Confira os museus recomendados pelos especialistas para fazer parte deste aprendizado.

- Museu Afro Brasil: além de exposições itinerantes, o público pode ter verdadeiras aulas de história e cultura afro-brasileira e africana em um acervo permanente que conta com mais de quatro mil obras. "A maioria do público atendido aqui é de escolas públicas. As visitas monitoradas são temáticas para agregar a teoria à prática em sala de aula", diz Tainá Carvalho, membro do Núcleo de Educação do museu. "Esse é um museu de história e memória, então toda mediação é feita com intuito de quebra de estereótipos para o aluno perceber a real influencia do negro na formação Brasil". As escolas que quiserem levar seus alunos ao museu podem agendar visitas monitoradas. A entrada é gratuita. Museu Afro Brasil – Av. Pedro Álvares Cabral, s/n – Parque Ibirapuera , Portão 10 , São Paulo/SP – Telefone: (11) 3320-8900 | Terça-feira a Domingo das 10h às 17h | Entrada gratuita. museu@museudalinguaportuguesa.org.br

- Museu da Língua Portuguesa: a influência africana na formação do povo brasileiro é mostrada de uma maneira didática e curiosa: através da origem das palavras da nossa língua. Bumbum, batuque, banguela, berimbau, dengo, chuchu, canjica, tanga são algumas das palavras que usamos no nosso cotidiano e têm origem nas línguas africanas trazidas ao Brasil pelos escravos negros nos século 16. A entrada é gratuita aos sábados e as escolas podem agendar visitas monitoradas Museu da Língua Portuguesa – Estação da Luz Praça da Luz, s/nºCentro, São Paulo/SP Telefone: (11) 3326-0775 | Terça-feira a Domingo das 10h às 17h | Ingresso: R$ 6 (inteira adulto); R$ 3 (meia estudante) – crianças até 10 anos não pagam. Entrada gratuita aos sábados. http://www.museudalinguaportuguesa.org.br

Fonte: Educar para crescer / Portal Geledés

 

lendo Monteiro Lobato com atenção…

março 25, 2011 às 12:04 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Segue abaixo um bom artigo para aprofundar questões levantadas numa das aulas recentes da LitPort IV.

caçadas pedrinho

A propósito de Caçadas de Pedrinho (1)

Edson Cardoso

O narrador de Caçadas de Pedrinho (2), quando se refere a Tia Nastácia, o faz preferencialmente destacando-lhe a cor (preta ou negra), a qual muitas vezes vem antecedida do adjetivo pobre, no sentido de digno de lástima, ou no sentido de pessoa simplória, parva, tola, pobre de espírito.

Tia Nastácia se expressa invariavelmente por meio de esconjurações e pelos-sinais (imersa que está em temores, superstições e misticismos), tem dificuldades para pronunciar algumas palavras e acaba estropiando-as (felómeno por fenômeno) ou recusando-se, por incapacidade, a pronunciá-las (rinoceronte).

Os bichos, todos bem falantes, argumentam e pronunciam com correção as palavras. Num contexto em que os animais pensam, comunicam o que pensam e se expressam num registro culto, as dificuldades de Tia Nastácia reservam-lhe um lugar bastante diferenciado entre os personagens. As analogias entre bichos e humanos acabam por reduzir ainda mais Tia Nastácia. Na hierarquização sugerida, os negros situam-se abaixo mesmo dos animais.

Não sendo bicho (embora tenha beiço, como as onças), Tia Nastácia é pouco provida da capacidade de pensar e de se expressar que os bichos dominam na narrativa. Na escala utilizada por Lobato, os bichos são mais sagazes e articulados.

Tia Nastácia protagoniza, ou por ser mais desastrada do que os demais, ou por não compreender os expedientes e artifícios impostos pelas circunstâncias, as cenas de quedas e de exposição ao perigo, nas quais o objetivo é provocar risos e confirmar o quanto ela é desajeitada e inepta.

Tia Nastácia apresenta-se também distinta dos humanos, distinção centrada na cor, seu principal atributo identificador (a preta, a negra…), mas distingue-se também na ignorância, nas superstições de fundo religioso.

Mas é a "carne preta" que determina tudo o mais, a marca indelével de sua inferioridade biológica.

Na cena final, o narrador refere-se a ela com condescendência: ‘boa criatura’. Condescendência que é o reconhecimento da inferioridade do outro, visto de cima. Para passear no carrinho puxado pelo rinoceronte, como os demais personagens, Tia Nastácia alega que "Negro também é gente, Sinhá…".

Tia Nastácia precisa alegar sua condição humana, lembrar que os negros compartilham com os demais essa mesma condição, para também poder sentar-se no carrinho. É igual, não inferior como foi representada no decorrer da narrativa. A igualdade reivindicada contrasta com a desigualdade dos fatos narrados, os quais destacaram o suporte biológico de uma inferioridade intrínseca.

No final do relato, concede-se a uma criatura inferior, bondosa, a participação em uma atividade que envolve a todos. Mas isso a torna igual aos demais, aos olhos do leitor? Depois de marcar a personagem, de estigmatizá-la, de mostrá-la tão diferente de humanos e de animais em razão de sua cor, será isso possível?

A fala de Tia Nastácia parece questionar a hierarquização racial que a narrativa acentuou com tanta ênfase. Mas a questão é: diante das evidências de inferioridade registradas na narrativa, inferioridade sempre associada à cor da pele, por que a mera declaração desse ser parvo alegando sua igualdade nos faria duvidar da pertinência daquela outra caracterização tão enfática e duradoura?

Caçadas de Pedrinho nos ensina que se você é negro ou preto, é inferior. A inferioridade dos negros não é só cultural, mas principalmente biológica. Isto é o que significa a palavra que está numa extremidade da frase de Tia Nastácia, no fecho do livro (‘Negro’). Foi esse o sentido apreendido pelo leitor, que agora chega ao final da narrativa. Na outra, está a palavra ‘sinhá’, que o dicionário define como "tratamento dado pelos escravos a sua senhora". Portanto, se é negro ou preto, e, além disso, tem sinhá, não é igual.

Antônio Risério, em entrevista (3), após seu rompimento com Gilberto Gil, que o demitira do ministério da Cultura, tornou público o apelido do ministro: Tia Nastácia. Risério já deixou a escola há muito tempo, e suponho que há muito deixou de ler Lobato. No entanto, não só considera o apelido atual e pertinente, como sabe que seu conteúdo injurioso será perfeitamente compreendido por aqueles que tiverem acesso à entrevista.

Quando se trata de racismo no Brasil, de representações desumanizadoras da população negra, é quase impossível segmentar o tempo, separando o passado do presente. O que temos é um presente de longa duração (4), no qual a defesa de hierarquizações rigidamente estabelecidas pode se travestir em proteção de obras literárias consideradas "clássicas".

As contradições são muito evidentes: no jornal Folha de S. Paulo, depois de afirmar que há na obra "patente preconceito", o editorialista recua do manifesto para o hipotético, subordinando o debate à condição de que haja racismo em Lobato -– "Se há racismo em Lobato, melhor discuti-lo em classe do que evitar sua leitura" (5). Preconceito é certo (tomado geralmente como um delito menor, uma crença compartilhada com outros), mas é necessário acautelar-se contra a acusação de racismo.

Se o parecer do CNE não estimula na grande imprensa o debate sobre racismo, por que isso aconteceria na escola? Desde quando a escola passou a se insurgir contra a cultura e as relações de poder dominantes? Segundo João Ubaldo, ninguém sabe o que é certo e o que é errado e indaga: "Existirá um racistômetro?". Para Ubaldo, é preciso considerar também que "os defeitos" que se apontam em Caçadas de Pedrinho estejam não na obra "mas na mente e na percepção de quem os aponta" (6).

Ou seja, racista é quem diz que Lobato é racista. Numa sociedade em que racista é o negro que reivindica direitos humanos, econômicos, políticos, etc., não atentar para o racismo de Lobato não é uma simples questão de preparo intelectual.

O deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), radical ao revés, consegue a proeza de enxergar na figura da Tia Nastácia em Caçadas de Pedrinho a projeção da "igualdade do ser humano a partir da consciência da cor" e aproveita para criticar rispidamente o movimento negro, por importar racismo dos Estados Unidos para nosso país "mestiço por excelência". Risério, na leitura enviesada de Rebelo, estaria na verdade elogiando Gilberto Gil quando o chamou de Tia Nastácia.

João Ubaldo, no artigo citado, afirma que Caçadas de Pedrinho é "somente um livro" que transporta as crianças "para a fantasia, a aventura e o encantamento inocentes". Não preciso me reportar aqui aos estudos sobre ideologia para refutar o encantamento e a inocência de textos que negam ao negro a condição de pessoa humana. Os leitores de Lobato aprenderam a distinguir pessoas de não-pessoas, numa fantasia em que seguramente aprendem a amar porcos , bonecas de pano e sabugos de milho.

As advertências que se preconizam para serem antepostas ao livro de Lobato são de todo inúteis. O racismo não é o detalhe supérfluo e descartável de uma obra, cujo "conteúdo (…) é insubstituível para a infância brasileira" (7). Em Caçadas de Pedrinho, a representação desumanizadora do negro é dimensão essencial na estratégia de dominação que torna possível o conforto de nossas elites, de ontem e de hoje.

Conforme ainda o editorial da Folha, criar obstáculos à circulação de Caçadas de Pedrinho é "quase como um insulto pessoal". Para a Folha, "trata-se de um dos livros mais carinhosamente guardados na memória do público brasileiro". Esses são os ofendidos que contam. Se a liberdade de expressão de Lobato ofende a dignidade das pessoas negras, qual é mesmo o problema? Quem se preocupa mesmo com a dignidade de seres inferiores? O ofendido a ser considerado é o leitor de Lobato, não o negro.

Segundo João Ubaldo, os leitores de Lobato "não vieram mais tarde a abrigar preconceitos e idéias nocivas, instilados solertemente na consciência indefesa de crianças". Acompanhando o noticiário sobre o parecer do Conselho Nacional de Educação, o que presenciamos é exatamente o contrário do que afirma Ubaldo. A cegueira, a resistência em admitir o racismo, as inversões delirantes, a indiferença e o cinismo tornam perfeitamente possível a hipótese de que Lobato cumpriu e cumpre um papel decisivo na formação dessa insensibilidade de intelectuais, jornalistas e professores, leitores confessos, emocionados e muitíssimo ofendidos.

Eles se sentem pessoalmente atingidos quando você critica e ameaça investir contra a hierarquização racista da humanidade que os coloca no topo de uma presumida evolução da espécie, com direitos a todos os privilégios. Sim, Lobato é um clássico do racismo brasileiro. Por isso eles dizem: "Mexeu com ele, mexeu comigo –- com meus interesses, com meus privilégios".

Para concluir, precisamos refletir sobre a imagem da capa da edição mais recente de Caçadas de Pedrinho que tem circulado como ilustração sem o logotipo da editora (Editora Globo). Nem no Jornal Nacional, nem no Estado de S. Paulo, nem em O Globo aparece a identificação editorial. Até mesmo no Parecer CNE/CEB nº 15/2010 evita-se citar a editora e, quando o fazem, citam-na com erro: Editora Global.

Não se pode deixar de lado o fato de que a maior parte dos recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) destina-se à compra de livros didáticos e paradidáticos. A editora Globo, ao assumir os direitos sobre a obra de Lobato, quer alcançar uma fatia maior dos bilhões de reais à disposição do FNDE. É preciso colocar a apropriação do dinheiro público também na roda de debates. Para compreendermos todas as dimensões do escândalo midiático que se seguiu ao Parecer do CNE, precisamos seguir o dinheiro.

 

NOTAS

1. Texto-base para discussão com participantes da oficina "Racismo e relações sociais", realizada durante a Semana de Extensão da Universidade de Brasília, em 11/11/2010.

2.Lobato, Monteiro. 2ª Ed. São Paulo: Globo, 2008.

3. http://www.metropoletv.com.br. Memorabilia, 28/04/2009.

4. Ver Arendt , Hannah. Entre o passado e o futuro. 6ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

5. Folha de S. Paulo, edição de 30 de outubro de 2010, p. A2.

6. Ribeiro, João Ubaldo. "Por que não reescrevem tudo?". O Estado de S. Paulo, edição de 7 de novembro de 2010, p. D4.

7. Carta de Yolanda (Danda) C. S. Prado à Folha de S. Paulo, 07/11/2010, p. A3.

FONTE: Portal Geledés

alguns preceitos para enfrentar o preconceito racial

março 23, 2011 às 11:18 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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VOCÊ SABE O QUE É DISCRIMINAÇÃO RACIAL? (ONU)

A Convenção Internacional para a Eliminação de todas as Normas de Discriminação Racial da ONU, ratificada pelo Brasil, diz que:

"Discriminação Racial significa qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor, ascendência, origem étnica ou nacional com a finalidade ou o efeito de impedir ou dificultar o reconhecimento e/ou exercício, em bases de igualdade, aos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou qualquer outra área da vida pública" Art. 1.

VOCÊ SABE COMO COMBATER O RACISMO?

Conheça as 10 maneiras de combater o racismo (ONU/UNICEF, 2010 – adaptação)

1. Eduque a sociedade para o respeito à diferença. Ela está nos tipos de brinquedos, nas línguas faladas, nos vários costumes entre os amigos e pessoas de diferentes culturas, raças e etnias. As diferenças enriquecem nosso conhecimento e nossa convivência cotidiana.

2. Textos, histórias, olhares, piadas e expressões podem ser estigmatizantes com outras pessoas, culturas e tradições. Indigne-se e esteja alerta se isso acontecer – contextualize e sensibilize!

3. Não classifique o outro pela cor da pele ou simplesmente pelo seu fenótipo. Quando você age assim, é porque o essencial na outra pessoa você ainda não viu. Lembre-se: racismo é crime.

4. Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é algo natural, pois faz parte da diversidade do mundo, e que cada um pode ser diferente e usufruir de seus direitos igualmente. Todo mundo tem o direito de conviver sem ser discriminado.

5. Não deixe de denunciar. Em todos os casos de discriminação, você deve buscar defesa no conselho tutelar, nas ouvidorias dos serviços públicos, na OAB e nas delegacias. A discriminação é uma violação de direitos. Portanto, assim que você for abordado de forma racista, ou presenciar uma atitude racista, reaja prontamente: ligue de imediato para o 190 e registre uma ocorrência policial.

6. Proporcione e estimule a convivência de crianças, adolescentes, jovens e adultos de diferentes raças e etnias nas brincadeiras, nas salas de aula, em casa ou em qualquer outro lugar ou ambiente.

7. Valorize e incentive o comportamento respeitoso e sem preconceito em relação à diversidade étnico-racial.

8. Muitas empresas estão revendo sua política de seleção e de pessoal com base na multiculturalidade e na igualdade racial. Procure saber se o local onde você trabalha participa também dessa agenda. Se não, fale disso com seus colegas e supervisores.

9. Órgãos públicos de saúde e de assistência social estão trabalhando com rotinas de atendimento sem discriminação para famílias indígenas e negras. Você pode cobrar essa postura dos serviços de saúde e sociais da sua cidade. Valorize as iniciativas nesse sentido.

10. As escolas são grandes espaços de aprendizagem. Em muitas, as crianças e os adolescentes estão aprendendo sobre a história e a cultura dos povos indígenas e da população negra, bem como sobre as alternativas para enfrentar o racismo. Verifique se a escola de seus filhos também adota essa postura, com a implantação da Lei 10.639/2003 e da Lei 11.645/2008.

FONTE: Portal Geledés

21/03/2011, DIA INTERNACIONAL DE LUTA PELA ELIMINAÇÃO DA DISCRIMINAÇÃO RACIAL

março 21, 2011 às 16:13 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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cronologia da luta pelo fim da discriminação racial no País

afro BR

Os cinco séculos de presença negra no Brasil foram marcados por grandes batalhas pela liberdade e pela preservação da cultura de matriz africana. Apesar do muito ainda a ser conquistado, foram grandes os passos dados na direção da efetiva igualdade de direitos e oportunidades para os descendentes dos negros escravizados. Confira aqui alguns dos marcos positivos dessa luta histórica:

1630. Data provável da formação do Quilombo dos Palmares. Palmares ocupou a maior área territorial de resistência política à escravidão, sediando uma das mais efetivas lutas de resistência popular nas Américas Leia mais.

1833. É fundado o Jornal O homem de cor, por Paula Brito, sendo o primeiro periódico brasileiro a defender os direitos dos negros escravizados Leia mais

1850. É instituída a Lei Eusébio de Queirós, que proíbe o tráfico de negros escravizados pelo Oceano Atlântico. A lei, do Segundo Reinado, atendia a interesses da Inglaterra, mas foi fundamental para o processo de abolição da escravatura no Brasil Leia mais.

1869. Proibida a venda de negros escravizados por “pregão” e com exposição pública. A lei também proíbe a venda em separado de membros de uma família (casais e pais e filhos) Leia mais.

1871. Instituída a Lei do Ventre Livre, estabelecendo que os filhos dos negros escravizados do Império, a partir daquela data, seriam considerados livres, depois de completarem a maioridade Leia mais.

1883. Decretada a abolição da escravatura negra na província do Amazonas, sendo a primeira libertação coletiva de negros escravizados no Brasil Leia mais.

1885. A Lei dos Sexagenários concede liberdade aos negros escravizados com idade igual ou superior a 65 anos, tendo sido promulgada em função do movimento abolicionista Leia mais

1888. Promulgada, em 13 de maio, a  Lei Áurea, extinguindo oficialmente a escravidão no País. Mas a data é considerada pelo Movimento Negro como uma “mentira cívica”, sendo caracterizada como Dia de Reflexão e Luta contra a Discriminação Leia mais.

1910. João Cândido, o Almirante Negro, lidera a Revolta da Esquadra, também conhecida como Revolta da Chibata, pondo fim aos castigos físicos praticados contra os marinheiros Leia mais. 

1914. Surge em Campinas a primeira organização sindical dedicada à causa dos negros. Dela participaram, de forma expressiva e determinante, as mulheres negras Leia mais.

1915. É fundado o jornal Manelick, o primeiro periódico paulista dedicado à difusão da cultura negra e à defesa dos interesses da população afrodescendente Leia mais.

1931. Eleito o primeiro juiz negro do Supremo Tribunal Federal do Brasil: Hermenegildo Rodrigues de Barros, o criador do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral Leia mais.

1932. Criado em São Paulo o Clube do Negro de Cultura Social. Seus dirigentes editavam o jornal O clarim da alvorada, um dos mais importantes na história do periodismo racial Leia mais.

1944. Um dos maiores defensores da cultura e igualdade de direitos para as populações afrodescendentes no Brasil, Abdias Nascimento, funda, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro Leia mais.

1945. Surge em São Paulo a Associação do Negro Brasileiro. No Rio, é organizado o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, para defender a Constituinte, a anistia e o fim da discriminação racial. Acontece a I Convenção Negro-Brasileira Leia mais.

1950. No Rio, é aprovada a Lei Afonso Arinos, que estabelece como contravenção penal a discriminação de raça, cor e religião. É também criado o Conselho Nacional de Mulheres Negras Leia mais.

1974. Em Salvador, é fundado o bloco afro Ilê Aiyê. Em São Paulo, acontece a Semana do Negro na Arte e na Cultura, que articula apoio às lutas de libertação travadas na África. Surgem várias entidades de combate ao racismo. Em São Paulo, surgem o Centro de Estudos da Cultura e da Arte Negra (Cecan), o Movimento Teatral Cultural Negro, o Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas (IBEA) e a Federação das Entidades Afro-brasileiras do Estado de São Paulo. No Rio de Janeiro, surgem o Instituto de Pesquisas da Cultura Negra (IPCN), a Escola de Samba Gran Quilombo e a Sociedade de Intercâmbio Brasil-África Leia mais.

1976. O Governo do Estado da Bahia suprime a exigência de registro policial para o funcionamento dos templos religiosos de matriz africana, depois de grande mobilização popular Leia mais.

1977. Surge o Movimento Negro Unificado (MNU), que, dentre outras grandes ações, instituiu o Dia Nacional de Consciência Negra, em 20 de novembro, em celebração à memória do herói negro Zumbi dos Palmares Leia mais.

1979. O quesito cor é incluído no recenseamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), por pressão de estudiosos e de organizações da sociedade civil organizada Leia mais.

1986. Tombamento da Serra da Barriga (União dos Palmares, Alagoas), local onde se desenvolveu o Quilombo dos Palmares, o maior refúgio de negros escravizados da América Latina Leia mais.

1998. Criação do Sistema de Cotas na Universidade de Brasília (UnB), a partir do Caso Ari. O estudante de Engenharia Civil Arivaldo Lima Alves, negro, foi o único aluno reprovado em um projeto, apesar de ter as melhores notas Leia mais.

2010. É aprovado o Estatuto da Igualdade Racial, que prevê o estabelecimento de políticas públicas de valorização da cultura negra para a correção das desigualdades provocadas pelo sistema escravista no País Leia mais.

Daiane Souza / FONTE: Fundação Palmares

novas iniciativas para a qualificação d@s professor@s

março 21, 2011 às 16:01 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Professores terão bolsas para cursos de mestrado profissional a distância

Segunda-feira, 21 de março de 2011

O ministro da Educação, Fernando Haddad, anunciou nesta segunda-feira, 21, a concessão de bolsas de mestrado profissional a distância para professores da educação básica que lecionam em escolas públicas. O anúncio foi feito em cerimônia no Palácio do Planalto, onde a presidente da República, Dilma Rousseff, condecorou 11 educadoras com a medalha da Ordem Nacional do Mérito.

Concedidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), no âmbito da Universidade Aberta do Brasil (UAB), as bolsas exigem dos docentes, como contrapartida, o compromisso de continuar em exercício na rede pública por um período de cinco anos após a conclusão do mestrado. A medida, que será formalizada por meio de portaria do Ministério da Educação, a ser publicada no Diário Oficial da União nesta terça-feira, 22, faz parte de um conjunto de ações para elevar a qualidade da educação básica, definida pelo MEC como “área excepcionalmente priorizada”.

Segundo o ministro, a intenção é que as universidades reajam à provocação feita pelo MEC e ofereçam mais cursos. “Queremos garantir o prosseguimento do estudo do professor, agora com mais que uma especialização – com um mestrado”, explicou o ministro. Os docentes poderão acumular a bolsa com seus salários.

A cada mês de março, o benefício será liberado e terá vigência máxima de 24 meses. Existe, também, a possibilidade de concessão de bolsas para mestrados presenciais, desde que em cursos aprovados pela Capes e consideradas algumas situações de interesse específico do Estado.

O não cumprimento do compromisso de cinco anos de exercício em escola pública, após o curso de mestrado a distância, implicará a devolução dos recursos. As próprias instituições de ensino vão estabelecer seus critérios de seleção. “Nada impede, entretanto, que sejam reservadas vagas para professores que já estejam em exercício”, argumentou Haddad.

Pacote – Além das bolsas, outras iniciativas se destacam quando o assunto é a qualificação de professores da educação básica: a Universidade Aberta do Brasil (UAB) e a expansão das universidades e dos institutos federais. Estes últimos têm, inclusive, uma reserva de vagas para ser suprida em cursos de licenciatura em matemática, física, química e biologia. A preocupação em formar professores nessas áreas também é destacada na portaria que será publicada nesta terça.

Como principal meta de qualidade, o Brasil deve atingir a nota 6 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) até 2021. No ano de sua última aferição, em 2009, a média brasileira era de 4,6, numa escala que vai de zero a dez.

Ana Guimarães / FONTE: Ministério da Educação

uma campanha fundamental

março 21, 2011 às 15:15 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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educacaotemqueser10

que tal licenciar-se em Portugal?

março 17, 2011 às 5:46 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Galo_Bar

Projetos de melhoria do ensino podem valer bolsa em Portugal

Quarta-feira, 16 de março de 2011

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em parceria com a Universidade de Coimbra, de Portugal, lança nesta quarta-feira, 16, a nova edição do Programa de Licenciaturas Internacionais Capes-UC, que seleciona projetos de melhoria do ensino e da qualidade na formação inicial de professores nas áreas de química, física, matemática, biologia, português, artes e educação física. As inscrições vão até o dia 28 de abril.

O objetivo é estimular o intercâmbio de estudantes de graduação em licenciaturas em nível de graduação-sanduíche, com apoio do Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB). Os projetos de parceria institucional selecionados terão atividades iniciadas em setembro de 2011.

Modalidades de Apoio – Para os estudantes brasileiros de graduação, cujo período de permanência no exterior deve ser de 24 meses, os benefícios são seguro saúde e auxílio instalação, pagos em uma única vez, no Brasil; bolsa no valor de € 600 por mês, e passagem aérea.

O programa prevê, ainda, missões de trabalho, com duração mínima de dez e máxima de 30 dias, com o objetivo de facilitar a integração dos alunos à nova cultura universitária; ajustar as respectivas estruturas curriculares; acompanhar o desenvolvimento do projeto; avaliar os seus impactos; manter comunicação permanente entre as instituições envolvidas, e sistematizar informações a respeito do programa que possibilitem a geração de banco de dados.

Entre os benefícios estão seguro saúde e diárias, além de passagens aéreas de ida e volta, no trecho Brasil-Portugal. O número máximo de participantes é de duas pessoas por ano, incluindo o coordenador do projeto. Os recursos devem ser utilizados conforme previsto no Manual de concessão e prestação de contas de auxílio financeiro a pesquisador.
Serão apoiados até 30 projetos. Cada projeto poderá contemplar até sete estudantes, totalizando o número máximo de 210 estudantes.

Candidaturas – Para inscrição, as propostas devem ter caráter institucional e priorizar ações preferencialmente para um conjunto de cursos de licenciatura da respectiva instituição. Além disso, a instituição brasileira deve possuir acordo com a Universidade de Coimbra, em Portugal, e ser membro de rede de universidades com vocação para cooperação internacional. O coordenador deve ser um docente com título de doutor há pelo menos cinco anos, que detenha reconhecida competência na área e disponibilidade de tempo para as atividades acadêmicas e administrativas referentes ao projeto. A equipe deve ter, ainda, pelo menos outros dois docentes doutores.

Os bolsistas devem ter cursado dois semestres da graduação (licenciatura ou sistema de ciclos) nas áreas elencadas no edital, ter cursado todo o ensino médio e pelo menos dois anos do ensino fundamental em escolas públicas brasileiras e ter obtido aprovação integral nos estudos realizados.Outros requisitos para inscrição encontram-se no edital.

Inscrição – As inscrições serão gratuitas e efetuadas por meio do preenchimento de formulários e envio de documentos discriminados no edital, exclusivamente via internet, pela página da Capes. A documentação complementar deverá ser incluída, obrigatoriamente, no ato do preenchimento da inscrição na internet, em arquivo eletrônico. A seleção se desenvolverá em quatro fases, todas de caráter eliminatório, sendo elas verificação da consistência documental, análise de mérito, priorização das propostas e reunião conjunta. Os resultados serão divulgados em agosto deste ano.

Mais informações podem ser obtidas pelo endereço eletrônico cpro@capes.gov.br.

FONTE: Ministério da Educação

simpósio AFRO-RIZOMAS: divulgação

março 15, 2011 às 10:47 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Relevo Emblema 9 , 1977

Prezad@s Colegas & Malung@s

Apresentamos aqui nossa proposta de simpósio a ser realizado no âmbito do XII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LITERATURA COMPARADA 2011 (ABRALIC, 18 a 22/07/2011, Curitiba). Como poderão observar, essa proposta tem como principal objetivo construir um espaço abrangente, interdisciplinar, dialógico e diaspórico para a apresentação de pesquisas relacionadas às produções literárias que colocam discursos e sentidos de matriz negra e africana em primeiro plano. Aos que se interessarem em participar, o prazo de submissão de resumos vai de 14/03 a 15/04/2011. Sistema de inscrição e maiores informações podem ser acessados no link destacado a seguir, ou mediante contato com @s Cooordenador@s:

http://www.abralic.org.br/informativo/2010/64

Contamos com sua colaboração na divulgação dessa proposta.

AFRO-RIZOMAS: LITERATURAS AFRO-BRASILEIRA E AFRICANAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Coordenadores:

Prof. Dr. José Henrique de Freitas Santos (UFBA, <henriquebeat@gmail.com>)

Prof. Dr. Jesiel Ferreira de Oliveira Filho (UFS, <negroatlantico@gmail.com>)

Profª Drª Maria Nazaré Mota Lima (UNEB, <librianar@gmail.com>)

As literaturas africanas de língua portuguesa e afro-brasileira derivam de relações diversas que perpassam a experiência colonial lusitana, a noção de diáspora, o processo de (re)invenção das tradições e a constituição de redes rizomáticas que foram tecidas internamente e para além-ar, a fim de autogerir as identidades através das quais Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Portugal e Brasil representam-se e são representados na produção literária contemporânea escrita em língua portuguesa.

Se o rizoma (DELEUZE, 2004) opera a partir de uma lógica de descentramento, pela qual não é possível demarcar sua origem de forma unilateral, nem tampouco pensá-lo a partir de uma teleologia, os afro-rizomas constituem-se como uma reversão da perspectiva que toma exclusivamente a influência colonial lusitana como determinante para a emergência das literaturas no Brasil e nos países africanos de língua portuguesa, reconfigurando, desta forma, as relações em jogo. O termo afro, neste contexto, é ressignificado pela perspectiva da diáspora, que, de acordo com HALL (2003) e GILROY (2001), não se refere apenas à dispersão dos povos africanos pelo mundo, mas, principalmente, à construção de um novo espaço simbólico no qual a reversão da condição subalterna imposta pela escravização africana é realizada continuamente em campos como a música, a literatura e a produção cultural. Desta forma, assim como a literatura afrobrasileira soergue-se historicamente no Brasil afirmando uma estética negra em diálogo com a África, a partir do tensionamento de um cânone instituído que invisibiliza as produções e as representações afrobrasileiras, as literaturas africanas de língua portuguesa emergem também como escritas de si para além de uma circunscrição geopolítica, através de uma tessitura que opera entre tradições e modernidades, entre o local e o global, sem furtar-se a avaliar os projetos nacionais reservados aos países lusófonos de África. É importante ressaltar como a reavaliação da empresa colonial lusitana no Brasil e nos países africanos também tem sido tema recorrente na literatura portuguesa contemporânea, de forma a contribuir significativamente com o importante processo de autognose, de que fala Eduardo Lourenço, uma vez que estes espaços físicos e simbólicos, forjados agora em relações mais desierarquizadas, redimensionam a própria representação de Portugal.

Ora, nesta dinâmica, a constituição da ideia de nação no período “pós-colonial” tanto no Brasil como nos países africanos lusófonos contará com a importante contribuição da literatura no processo de invenção das tradições nacionais (HOBSBAWN, 1984) e de construção de identidades através das quais se representem o povo no intuito de que a imagem forjada não seja mero reflexo do Outro lusitano colonial. Os fluxos dispersos que vão constituindo os comunitarismos (ABDALA JR, 2003) transnacionais vão atando e desatando os nós de uma rede que não se encerra no Estado-nação e, na contemporaneidade, expande-se através dos mercados editoriais, de ações governamentais, da iniciativa individual de escritores e leitores, bem como da ampliação de sítios e blogues na internet sobre autores e textos ficcionais portugueses, africanos e brasileiros. A conformação de uma rede literária que passa a operar nas coletâneas, nas resenhas e em produções críticas sobre obras enfrenta o desafio de contemplar, na narração da nação nestes territórios, a alteridade que põe em xeque os valores etnofalogocêntricos, já que, conforme adverte Laura Padilha, a diferença interroga o cânone toda vez que o outro subsume ao ímpeto de homogeneidade. Neste sentido, este Simpósio, além de constituir-se como espaço de reflexão acerca de conceitos como lusofonia, pós-colonialismo, africanidade, afrobrasilidade, diáspora, dentre outros, os quais atravessam os estudos sobre as literaturas em questão, propõe-se a fomentar análises contrastivas entre as produções africanas e as brasileiras e/ou portuguesas. Ademais, seguindo as observações de Carmem Lúcia Tindó Secco (2002), interessa-nos também pensar as travessias e rotas dessas literaturas na contemporaneidade, contemplando suas errâncias estratégicas tanto no plano estético-político quanto dos discursos identitários, abrangendo-se aí, além da produção literária orientada pela escrita, a oralidade ontológica dos griots, a performance do rap, o grafismo pictórico do graffiti, a produção marginal das periferias das grandes metrópoles, dentre outros. Por fim, este Simpósio acolherá ainda trabalhos acerca dos recursos de produção e circulação oficiais e não-oficiais das literaturas afro-brasileira e africanas de língua portuguesa nos contextos global e local, bem como análises que se detenham no impacto de políticas públicas e privadas de estímulo ao consumo dessas produções em vestibulares, concursos e programas disciplinares.

Referências

ABDALA Jr., Benjamin. De vôos e ilhas: Literatura e comunitarismos. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática. 1989.

AUGEL, Moema Parente. O desafio do escombro: nação, identidades, pós- colonialismo na literatura da Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2007.

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana L. L. Reis e Gláucia R.Gonçalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

CHAVES, Rita. Marcas da diferença. As literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.

DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura, Política, Identidades. Belo Horizonte: UFMG, 2005. Estudos Sociais Afro-Asiáticos, 2001.

FANON, Frantz. Peles negras, máscaras brancas. Salvador: Editora EDUFBA, 2008.

FERRÉZ. Literatura Marginal: talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2000.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Vozes em discordância na literatura afro-brasileira contemporânea. In: FONSECA, Maria Nazareth, FIGUEIREDO, Maria do Carmo Lanna (Org.). Poéticas afro-brasileira. Belo Horizonte: Editora PUC Minas/Mazza Edições. 2002. P. 191 – 220.

GILROY, Paul. Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. Trad. Cid Knipel,

GUATTARI, Félix; DELEUZE, Gilles. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol.1. Trad. Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo, Editora 34, 2004.

HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Org. Liv Sovik. Trad. Adelaine LaGuardia Resende [et al]. Belo Horizonte: Editora UFMG; Brasília: Representação da Unesco no Brasil, 2003.

MIGNOLO, Walter. Histórias Locais, Projetos Globais: Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2003.

PADILHA, Laura Cavalcante. “A Diferença Interroga o Cânone”. In: SCHMIDT, Rita T. Mulher e Literatura: (Trans)Formando Identidades. Porto Alegre: Palloti, 1997. pp. 61-69.

PIRES LARANJEIRA. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa. Universidade Aberta, 1995.

SANTILLI, Maria Aparecida. Paralelas e tangentes entre literaturas de língua portuguesa. São Paulo: Arte & Ciência, 2003.

SECCO, Carmen Lucia Tindó. Travessia e rotas das literaturas africanas de língua portuguesa (das profecias libertárias as distopias contemporâneas). Légua & meia: Revista de literatura e diversidade cultural. Feira de Santana: UEFS, n°1, 2002, p. 91-113.

SOUZA, Florentina da Silva. Afrodescendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU. Belo Horizonte: Autêntica. 2005.

SOUZA, Florentina, LIMA, Maria Nazaré (Org.). Literatura afro-brasileira. Salvador/Brasília: Centro de estudos afro-orientais/Fundação Cultural Palmares. 2006.

2011-I: boas vindas

março 13, 2011 às 22:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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PERUGINO_Ingegno                revolta melanc

quebracabeça lusofono

Com esta postagem iniciamos nosso trabalho neste semestre letivo, a ser desenvolvido nas disciplinas Literatura Portuguesa II, que enfocará estudos sobre o barroco e sobre o romantismo-realismo português, e Literatura Portuguesa IV, na qual desenvolveremos estudos comparativos entre obras literárias lusófonas que tematizam as relações étnicorraciais. Para ter acesso a uma cópia pdf dos respectivos programas, clique nos links anteriores. Nas aulas inaugurais de amanhã, 14/03, serão distribuídas cópias impressas desses programas para que iniciemos a discussão das problemáticas que balizarão os cursos.

Dentre as novidades no nosso blogue, destaque-se a adição de dois blocos de links na barra de rolagem à direita, intitulados “AFRICANIDADES” e “RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS”. As hiperligações neles relacionadas possibilitam ampliar o suporte de textos, conteúdos e informações relevantes para as atividades na LitPort IV, assim como estabelecer pontes estratégicas com referentes culturais africanos e afro-brasileiros. Ao assumir feições cada vez mais sincréticas, o LUSOLEITURAS procura efetivar aquele “compromisso de alteridades” através do qual, conforme preconiza a crítica literária sãotomeense Inocência Mata, a lusofonia adquire um significado transculturador e intercomunicativo, capaz de superar as tortuosas heranças coloniais e abrir novos e polifônicos horizontes identitários.

A crescente importância desse impulso africanizante no campo das literaturas de língua portuguesa ficou patente durante a VI edição do prestigiado Fórum das Letras de Ouro Preto, evento sucedido em novembro de 2010, em paralelo ao IV Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Para essa edição foram convidados e homenageados alguns dos mais importantes escritores da África Lusófona, criando-se assim memoráveis oportunidades para a interação com um grande público e para ampliar a divulgação de suas obras. Na organização desse frutuoso encontro destacou-se a professora de literatura e escritora Guiomar de Grammont, autora também de um delicioso texto, “Ler devia ser proibido”, que se tornou referencial, nos últimos anos, para a discussão acerca da função da arte literária como instrumento desalienante e emancipador –- tema, aliás, crucial para os escritores barrocos e românticos. Incluído na bibliografia da LitPort II, esse texto já se encontra pendurado no LUSOLEITURAS, sendo recomendado para todos os letreiros e letreiras, bem como para tod@s @s amantes da liberdade, que frequentam este blogue. Clicando na foto de Guiomar, logo abaixo, você pode acessar o site do Fórum das Letras e saber um pouco mais sobre o impacto causado pelos escritores africanos na antiga, e barroquíssima, capital do Brasil.      

Guiomar degrammont

Finalizando, chamamos a atenção para o MUJIMBO-TWITTER, mais um canal internético de divulgação de materiais e questões referentes às temáticas que abrangem tanto os propósitos deste blogue quanto os interesses do professor-blogueiro que o gerencia.

twitter

Avaliação do professor: processo em marcha

março 3, 2011 às 11:33 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Prova será realizada todos os anos e adesão será voluntária

Quinta-feira, 03 de março de 2011 – 08:00

O Ministério da Educação publica nesta quinta-feira, 3, no Diário Oficial da União, portaria normativa que institui a prova nacional de concurso para o ingresso na carreira docente, que será realizada uma vez por ano, de forma descentralizada, em todas as unidades da Federação. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) será o responsável pela coordenação e aplicação da prova, prevista para 2012.

A participação do professor é voluntária. O uso dos resultados para seleção de docentes pelas redes estaduais, municipais e do Distrito Federal se dará por adesão ao exame. A realização da prova nacional tem uma série de objetivos. Entre eles, subsidiar as redes públicas de educação na realização de concurso para admissão de docentes e conferir parâmetros de auto-avaliação aos participantes.

A regulamentação da prova nacional de avaliação de professores, segundo o ministro Fernando Haddad, resulta de um pacto celebrado por entidades ligadas à formação de docentes em conjunto com o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (Cnte) e o MEC.

A portaria também instituiu o comitê de governança, de caráter consultivo, vinculado ao Inep, que tem entre suas atribuições avaliar a matriz de referência da prova nacional, opinar sobre a periodicidade de atualização da matriz e sobre formas de adesão à prova.

Matriz – De acordo com a presidente do Inep, Malvina Tuttman, cerca de 70 especialistas em educação, convocados por chamada pública, elaboraram a proposta de matriz de referência da prova que será submetida ao comitê e colocada em consulta pública no sítio do Inep.

Quando a matriz for fechada – a previsão é que isso aconteça no final de março – o Inep começa construir um banco de itens elaborados por especialistas em educação, que serão convocados por chamada pública. Os itens serão testados para que a prova possa ser aplicada em 2012.

A realização da prova nacional de avaliação, segundo o ministro, integra um conjunto de ações do MEC que visa qualificar cada vez mais a formação dos educadores. O acesso à graduação em instituições públicas de ensino superior ou em particulares com bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni) ou com o Financiamento Estudantil (Fies), que agora pode ser quitado com atividade docente, fazem parte dessas ações.

A formação continuada, a definição do piso nacional para a categoria e a oferta de 30 mil bolsas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) em 2011, complementam a iniciativa. A bolsa do Pibid permite ao estudante de licenciatura fazer uma integração prática em escolas da educação básica nos dois últimos anos da graduação.
Ionice Lorenzoni

Confira a Portaria Normativa no 3, de março de 2011

Confira a Matriz de Referência

FONTE: Portal MEC

educar também precisa ser politizar

março 3, 2011 às 6:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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O título da matéria pode confundir, parecendo remeter a posturas que reclamam do suposto excesso de "ideologia" no ensino brasileiro, mas a pesquisa descrita abaixo aponta justamente para as formas de despolitização e de enfraquecimento da cidadania que, atualmente, prevalecem na formação escolar. Bom material, portanto, para refletir sobre o tipo de debate que é necessário estimular hoje nas salas de aula.

Mais educação, menos politização

Passeata dos caras-pintadas pelo impeachment do ex-presidente Collor, em 1992. Segundo estudo da USP, com o passar do tempo, a escolarização tem influenciado menos a participação política dos estudantes. (foto: Célio Azevedo/Agência Senado – CC BY-NC 2.0)

Mais educação, menos politização

Estudo da USP sugere que o retorno político proporcionado pela educação brasileira diminuiu nas últimas décadas. Com base em pesquisas de opinião e modelos matemáticos, cientistas relacionam a queda na qualidade do ensino com a falta de engajamento.

Por: Carolina Drago, 02/03/2011

O acesso do brasileiro à educação cresceu nos últimos 20 anos, mas a sua qualidade tem sido questionada. Como, afinal, avaliar se o ensino de um país está se revertendo em ganhos efetivos para a sua população? Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) criaram um modelo matemático para medir o retorno da nossa educação, em termos políticos, ao longo desse período.

“Como cientista político, eu tinha interesse em saber como a escolarização vinha influenciando, com o passar do tempo, o comportamento político de estudantes”, afirma Rogerio Schlegel, autor da tese ‘Educação e comportamento político: os retornos políticos decrescentes da educação brasileira recente’.

O ensino estaria progressivamente perdendo sua capacidade de diferenciar os cidadãos em termos de comportamento político

Como o título sugere, a conclusão principal do trabalho aponta para um cenário um tanto preocupante, mas que não chega a surpreender: a educação de hoje estaria capacitando menos os alunos em matéria de conhecimento e raciocínio do que a de tempos atrás. Com isso, o ensino também estaria progressivamente perdendo sua capacidade de diferenciar os cidadãos em termos de comportamento político.

Um exemplo: o ensino médio, faixa de escolarização que teve a maior taxa de expansão no período avaliado, sofreu, desde o fim dos anos 1980 até os anos 2000, a maior perda de retorno político.

Para chegar a conclusões como essa, Schlegel e colegas tomaram emprestado um conceito usado em economia, chamado retorno econômico da educação, e o adaptaram à política.

Para calcular o novo índice, contaram com a ajuda de um modelo estatístico, desenvolvido a partir dos dados coletados em quatro pesquisas nacionais de opinião, realizadas entre 1989 e 2006.

A mais recente delas, de 2006, foi conduzida pelo próprio grupo de pesquisa de Schlegel na USP, reproduzindo perguntas presentes nas três anteriores: de 1989, 1993 e 2002. “É muito difícil pesquisar no Brasil, por isso tivemos que recorrer a esse material já coletado anos antes”, comenta o pesquisador.

As perguntas escolhidas para integrar o questionário da pesquisa visavam avaliar sobretudo o quanto os cidadãos se engajam na política – mostrando interesse e se informando sobre o tema, tomando parte em manifestações e associações, como sindicatos, e votando, por exemplo – e o quanto apoiam os princípios democráticos, como a ideia de que todos devem participar do governo.

A partir das respostas e dos níveis de escolaridade dos entrevistados, os pesquisadores examinaram as diferenças no nível de engajamento político entre mais e menos escolarizados, comparando-as ao longo dos anos.

Democracia sob investigação

A análise revelou que, em 1993, um universitário tendia a ser 3,6 vezes mais interessado em política do que uma pessoa com o ensino fundamental incompleto. Já em 2006, esse número caíra para 1,6.

A escolarização tornou-se indiferente para a adesão à democracia

Em relação à filiação partidária e ao apoio à democracia, os resultados também mostraram queda na diferença de engajamento político entre os níveis de escolaridade. Além disso, revelaram que a escolarização tornou-se indiferente para a adesão a essa forma de governo.

Em 1989, por exemplo, uma pessoa com o 2º grau completo tinha 66% mais chance de preferir a democracia a qualquer outro sistema de governo, se comparada a alguém sem diploma do 1º grau. Na década passada, já não era possível diferenciar, em termos de preferência à democracia, duas pessoas com os mesmos perfis.

Por outro lado, independente da comparação entre escolaridades, a proporção de brasileiros que hoje apoiam a democracia cresceu desde o final dos anos 1980, quando houve a redemocratização após o regime militar iniciado em 1964.

Manifestação pelas ‘Diretas Já’
Manifestação na Câmara dos Deputados pelas ‘Diretas Já’, em 1984. A proporção de brasileiros que apoiam a democracia cresceu com a redemocratização, mas a adesão a essa forma de governo tem diminuído entre as pessoas com maior nível de escolaridade. (foto: Célio Azevedo/ Agência Senado – CC BY-NC 2.0)

Schlegel ressalta, no entanto, que esse aumento não indica que a preocupação com os princípios democráticos deva ser abandonada, pois ainda há alguns aspectos da democracia a serem melhorados. “Hoje, um em cada três brasileiros a considera indiferente ou diz preferir outra forma de governo”, justifica.

O pesquisador destaca ainda que o declínio do interesse político não ocorreu em todas as dimensões. “Em áreas como a mobilização a partir de abaixo-assinados, houve até aumento nesse retorno”, diz.

“Acreditamos que as formas tradicionais de participação política estejam perdendo importância, enquanto as menos hierarquizadas vêm ganhando prestígio.”

Por um ensino de qualidade

O estudo de Schlegel é um dos primeiros a avaliar a qualidade da educação a partir do engajamento político por ela proporcionado. “Enquanto educadores vêm discutindo os ganhos pedagógicos da educação e economistas, seus ganhos econômicos, nós demos um passo além ao promover essa discussão sobre seu retorno político”, defende o pesquisador.

Sala de aula
Após avaliar a qualidade da educação a partir do engajamento político por ela proporcionado, os pesquisadores da USP pretendem agora identificar se esse comportamento é mais influenciado pelo título escolar em si ou pela capacidade cognitiva adquirida na escola. (foto: Pål Berge – CC BY 2.0)

“Sabemos que está havendo ganho, mas ele é menor do que já houve no passado. A educação deve ser para todos, sim, mas é ainda mais importante que ela tenha qualidade, para que possa produzir todos os efeitos benéficos esperados”, alerta.

Focado nisso, o pesquisador agora pretende desenvolver um modelo capaz de medir o quanto uma pessoa é capacitada cognitivamente pela escola para, então, identificar de onde vem a maior influência para o retorno político: do título escolar ou da cognição?

“Essa seria mais uma estratégia para avaliar se a escola está realmente capacitando menos os seus alunos”, conclui Schlegel.

FONTE: Ciência Hoje

literatura e liberdade: caminhos que se cruzam

fevereiro 26, 2011 às 16:57 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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LER DEVIA SER PROIBIDO

Guiomar de Grammont

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

                                                                …

Ler pode tornar o homem perigosamente  humano.

[In: PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp.71-3]

Fonte: LÍNGUA E PALAVRAS

cotas na UFS: primeiras avaliações

fevereiro 24, 2011 às 14:25 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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UFS divulga análise sobre impacto da adoção das cotas Estudo se debruçou sobre taxa de abandono, reprovação por falta e desempenho (média geral ponderada)

O Programa de Ações Afirmativas (Paaf) divulgou o primeiro relatório sobre os impactos da adoção das cotas na UFS. Com o título “As cotas da UFS não provocam degradação do ensino”, o estudo analisa a taxa de abandono dos alunos, reprovação por falta e desempenho acadêmico (média geral ponderada). Os dados coletados do sistema acadêmico referem-se a 2010.1, período de inauguração das cotas na instituição. As informações de 2010.2 ainda encontram-se em análise.

“Ainda é cedo para tecermos comentários definitivos ou embasados por uma base de dados mais sólida e temporalmente mais longeva, contudo, os dados disponíveis indicam claramente que a implantação do sistema de reserva de vagas para alunos de escolas públicas e não-brancos não teve impactos significantemente negativos (exceto em certos cursos específicos, como em geral nos cursos das áreas de exatas) no desempenho acadêmico do conjunto da universidade”, consta, em sua conclusão, o relatório elaborado pelo professor Paulo Neves, coordenador do Paaf.

O sistema de reserva de vagas da UFS destina 50% das cadeiras a estudantes de escolas públicas municipais, estaduais ou federais. Destas, 70% são reservadas a estudantes que se auto-declaram pardos, índios ou afro-descendentes, correspondendo a 35% do total de vagas.
Cada curso de graduação oferta, ainda, uma vaga para candidatos portadores de necessidades educacionais especiais. No vestibular de 2011, ocorrido em dezembro de 2010, a UFS ofertou 5.260 vagas em 102 opções de cursos.
Veja abaixo alguns trechos do relatório:

- Taxa de abandono dos alunos
“Um dos principais argumentos avançados contra a introdução do Paaf era que os alunos oriundos do sistema de cotas, por contingências materiais muito mais prementes, seriam obrigados a abandonar os cursos em maior número que os alunos não cotistas. O que os dados analisados nos mostram é que esse fenômeno não se verificou, sendo que no geral a tendência para o abandono dos cursos é ligeiramente superior entre os alunos não cotistas, tanto no que se refere à UFS como um todo quanto em relação aos cursos mais concorridos, a exemplo dos cursos do Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas (CCET), onde os não cotistas, embora sejam um pouco menos que 50% dos alunos aprovados no vestibular, foram responsáveis por 54% dos abandonos de cursos”.

- Reprovação por falta
“Também no quesito reprovações por falta os alunos não cotistas apresentaram taxas superiores aos alunos cotistas, com cerca de 56% do total de reprovações por falta na universidade. Isso se deu provavelmente pelas mesmas razões que explicam as maiores taxas de abandono dos cursos pelos não cotistas. De todo modo, o que se pode afirmar é que eles também foram os que mais tiveram reprovações por falta no primeiro período de 2010. Aqui, as exceções ficariam por conta de alguns cursos tecnológicos. Nos cursos de engenharias, por exemplo, em geral os alunos cotistas reprovam mais por faltas que os não cotistas”.

- Desempenho acadêmico
“Se tomamos como parâmetro as médias gerais ponderadas de todos os alunos da UFS, percebe-se que em um contexto de médias ponderadas relativamente baixas para todos os grupos de entrada no vestibular, as diferenças entre a média de todos os alunos e os alunos das cotas para escolas públicas são inferiores a 0,4 pontos. Assim, por exemplo, enquanto a média ponderada de todos os alunos que ingressaram em 2010 (cerca de 3.443) era de 5,8, a dos alunos que ingressaram pelas cotas C (alunos afro-descendentes oriundos de escolas públicas) era de 5,7 (apenas um décimo abaixo da média geral). Já os alunos da cota B (alunos oriundos de escolas públicas independente de origem racial) tiveram média de 5,5 e os da cota D (deficientes) 4,3. Como se vê, os alunos das cotas B e C não apresentam uma grande diferença em relação à média do conjunto do alunado e nem mesmo em relação aos alunos que entraram sem cotas (A), cuja média foi de 5,9. O grupo que apresenta maiores distâncias em relação à média geral é o grupo oriundo das cotas D (para portadores de deficiências), o que, em parte, pode estar relacionado à adaptação necessária da UFS e de sua comunidade acadêmica às necessidades especiais desse grupo”.

- Desempenho em cursos competitivos
“Na maioria dos cursos da UFS não houve grandes disparidades entre as notas obtidas entre cotistas e não cotistas. Mesmo em cursos altamente competitivos, como Medicina e Odontologia, as diferenças foram menores do que previstas pelos críticos mais acerbos: em Medicina, os não cotistas tiveram média de 8,2 enquanto os cotistas B obtiveram a média de 8,1, enquanto que em Odontologia os alunos da cota B tiveram média 7,2 , superior à média dos não cotistas (6,5). Ainda aqui, a exceção ficou por conta dos cursos da área de exatas, no CCET, onde em geral as diferenças das médias ponderadas entre cotistas e não cotistas foram relativamente mais importantes que nos outros centros, os não cotista obtendo em alguns cursos médias superiores a 1 ponto às médias dos cotistas”.

Leia o relatório completo aqui.

Ascom
comunica@ufs.br

o racismo explícito de Monteiro Lobato

fevereiro 20, 2011 às 0:59 | Publicado em Uncategorized | 4 Comentários
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Mais elementos para avaliarmos a contribuição do famoso escritor paulista para a reprodução dos valores e das posturas que caracterizam o “racismo cordial” brasileiro. Reitere-se que a explanação da escritora Ana Gonçalves, transcrita abaixo, não tem por objetivo pregar a “censura”, ou o “banimento”, da obra de Lobato, mas apenas fornecer subsídios históricos para uma leitura lúcida dos problemas identitário que marcam nossa realidade, bem como para uma reflexão pedagógica efetivamente interessada em confrontar e superar esses problemas, ao invés de “jogá-los para debaixo do tapete”. Para ter acesso à postagem original da carta, feita no blog O BISCOITO FINO E A MASSA, e ao trepidante debate que o texto suscitou na respectiva caixa de comentários, clique no título abaixo.  

choque raças monteiro

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…" (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).
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Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, ‘work’ muito mais eficientemente".

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (…) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos – o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

ziraldo_direitos_humanos.jpgO que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(…) um já está quase formado e o outro não estuda mais (…). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (…), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (…). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (…). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (…) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(…) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (…) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, – porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.menino-lendo.jpg

Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (…) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca – diz o sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.

Por um novo ensino médio

janeiro 15, 2011 às 14:05 | Publicado em Uncategorized | 1 comentário
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MEC anuncia ensino médio em tempo integral: mas o que isso quer dizer?

Logo na primeira semana do ano, o ministro da Educação do governo Lula, mantido no cargo pelo governo Dilma, Fernando Haddad, afirmou que uma das principais propostas da pasta nesta gestão é aumentar a oferta do ensino médio em tempo integral. O ministro divulgou também que a ideia é que os estudantes tenham durante este tempo uma formação profissional. O governo Lula investiu na educação profissional, principalmente através da ampliação da rede federal, que, segundo o próprio Ministério da Educação (MEC), conta hoje com 214 escolas em todo o país. Mais do que um aumento quantitativo, o MEC fortaleceu um projeto de educação profissional integrada ao ensino médio. A questão é: essa política continua na próxima gestão?

A reportagem é de Raquel Júnia e publicada pela Escola Politécnica de Sáude Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), 14-01-2011.

De acordo com as declarações do ministro da Educação, a proposta do ensino médio integral (em dois turnos) é trabalhar a educação profissional de forma concomitante – e não integrada – ao ensino médio. Isso significa que o aluno vai fazer dois cursos em duas instituições ou, quando for o caso, na mesma escola – um dedicado à formação geral do ensino médio e outro voltado para a formação técnica profissional escolhida por ele. "O ministro, quando faz a proposta da concomitância, pensa em dois grandes problemas: o primeiro é a  necessidade de termos uma formação profissional bastante ampla para dar conta da previsão de crescimento do país. A outra questão que ele une nessa proposta é o que se tem chamado de ‘crise do ensino médio’, que envolve o seguinte problema: como fazer com que o adolescente se interesse pelo conhecimento que está sendo trabalhado no ensino médio? Ele entende que quando se alia o ensino médio a uma proposta de formação profissional , esses componentes curriculares podem ter um tratamento mais interdisciplinar e contextualizado, e isso daria mais ânimo para os estudantes permanecerem no ensino médio", explica a diretora de políticas de educação profissional do MEC, Caetana Juracy.

A diretora reconhece, no entanto, que a forma ideal seria a de um ensino médio integrado. "Mas o que temos é uma estrutura real das redes públicas de ensino, de não ter condição ainda de estabelecer uma oferta de ensino médio integrado que atenda plenamente à demanda colocada por formação. Então, a proposta é conciliar várias alternativas, dentre elas a oferta de cursos concomitantes. O que, na prática, acaba se configurando como uma escola de tempo integral", afirma Caetana. De acordo com ela, entretanto, o processo de integração não será abandonado. "O ministro opta pela concomitância sem abrir mão de um processo de expansão da integração também", garante.

A diretora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Isabel Brasil, frisa que a EPSJV considera que a modalidade integrada é a melhor  proposta para o ensino médio. "Com o ensino médio integrado, os conceitos ficam integrados, não se descola a formação geral da formação profissional. Com o curso concomitante, sobretudo em outra escola, fica muito difícil integrar no currículo os conceitos. O estudante fica sob a égide de duas escolas, com diferenças nos projetos político-pedagógicos", diz.

Caetana explica que é preciso analisar a situação da rede pública de educação estadual, que é diferente da situação da rede pública federal. "Nós apostamos no currículo integrado para as escolas de educação profissional mantidas pelo governo federal, mas precisamos pensar também na rede pública estadual, que não tem condições de transformar todas as suas escolas de ensino médio em escolas de ensino médio integrado com curso técnico. Por exemplo, uma escola de ensino médio numa periferia pode não ter condições de implementar uma escola de educação profissional, mas existe a possibilidade de formação profissional daqueles alunos em outras localidades, como escolas federais ou outras escolas estaduais. Pensamos na rede como um todo, e isso abre espaço para a escola estabelecer acordos de cooperação com outras escolas de educação profissional e possibilitar uma certa mobilidade maior dos estudantes entre as ofertas formativas das várias escolas", pontua.

Isabel concorda que a estrutura atual de muitas das escolas da rede pública estadual é precária e que precisariam de mudanças para que passassem a oferecer o ensino médio integrado. "É preciso investir no ensino médio dessas escolas que farão a concomitância externa e investir significa verba e qualificação dos professores, para que ela chegue a um patamar no qual possa oferecer o ensino médio integrado. É preciso articular os planos nacional e o estadual para garantir esse apoio porque não há mágica que fará essas escolas ficarem melhores", discute. A professora ressalta que se a solução for de fato estabelecer a concomitância entre duas instituições diferentes, como medida paliativa, o MEC poderia tentar aproximar as duas instituições, com vistas a chegar o mais perto possível de uma proposta integrada. "O MEC teria que pautar alguns conceitos da formação geral que precisariam estar também na formação profissional. Poderia se pensar também em fóruns e encontros dos profissionais das duas escolas", sugere. Já no caso da concomitância interna – ou seja, a formação geral e a formação profissional na mesma instituição -, a professora questiona se, nesses casos, já não seria melhor apostar na modalidade integrada.

O tempo todo na escola para quê?

"Cabeça vazia, moradia do diabo". Apesar de parecer inofensivo, o ditado bastante popular e muitas vezes dedicado à juventude revela uma concepção que desvaloriza o tempo livre, como se isso fosse propício ao aprendizado de más condutas. Quando se fala em educação em tempo integral, muitas vezes também essa concepção se sobrepõe: a de ocupar totalmente o tempo do adolescente. Isabel alerta que para se pensar em uma formação de tempo integral, é preciso refletir sobre por que razão se quer fazer a ampliação da carga horária do estudante na escola. "É preciso desconfiar das propostas que pensam na educação em tempo integral para tirar o adolescente da rua para que ele não aprenda maus vícios. Não é por aí. Porque nós entendemos que a escola é um lugar social, e a sociedade está aqui dentro, querendo ou não", critica. E completa: "Mas por que é interessante um ensino em tempo integral? Primeiro porque, com um currículo num tempo só, pode-se sacrificar a questão da arte, da cultura, da pesquisa. Um único horário não é suficiente, porque existe uma carga horária a ser cumprida – então, para colocar um conteúdo profissionalizante da educação profissional e também relativo à ciência e à cultura, é preciso um horário maior", define.

A professora de Políticas Públicas e Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Eveline Algebaile também explica que a ideia da educação em tempo integral é composta por duas vertentes de pensamento. "De um lado, uma visão correcionista e salvacionista, que entende a educação como mecanismo de correção social dos pobres, que não teriam uma educação adequada e que, fora da escola, não teriam os comportamentos, os conhecimentos e as capacidades consideradas adequadas para viver na sociedade. Como se a nossa escola e, inclusive, a nossa escola precária não fossem expressão das desigualdades sociais produzidas como um todo. Mas simultaneamente existe um conjunto variado de concepções de formação que reconhecem na extensão do tempo escolar uma oportunidade de se trabalhar com calma e profundidade um conjunto variado de conhecimentos, cuja articulação favorecem uma formação humana integral", detalha.

Eveline observa, no entanto, que nem todas as propostas de educação em tempo integral trazem junto o conceito de formação integral. Caetana confirma a diferença: ela explica que formação integral "relaciona-se com a perspectiva da formação do ser humano como um todo, integrando as várias dimensões da vida – trabalho, cultura, ciência e tecnologia – no processo educativo". Já o conceito de formação em tempo integral, segundo ela, "é uma estratégia de acesso a várias oportunidades formativas que podem ocorrer simultaneamente à educação básica, ampliando a formação geral do educando" e "faz referência à jornada diária do estudante em atividades educativas. Mas diretora ressalta que, para o MEC, o conceito de formação integral é um princípio. "Em nosso trabalho, na formulação de políticas para a educação profissional e tecnológica, acreditamos que a formação integral é um princípio filosófico que deve orientar todo e qualquer curso independente do nível, modalidade ou forma de oferta. Acreditamos que se deve perseguir uma formação capaz de superar o ser humano fragmentado historicamente, pela divisão social do trabalho, entre a ação de executar e a de pensar, dirigir, planejar", descreve.

Para Eveline, há ainda duas questões fundamentais nesta discussão: garantir que a escola tenha condições estruturais para se afirmar como um espaço de qualidade e trabalhar a própria concepção de qualidade que norteia a escola. "Nós percebemos muito hoje em dia um discurso de qualidade escolar muito referido a uma suposta eficiência e modernização da gestão, a resultados favoráveis nos rankings de avaliações, quando temos acúmulo suficiente tanto nos estudos, quanto nos debates do movimento social a respeito de avanços elementares que seriam necessários para termos uma educação de qualidade – e que envolvem diferentes aspectos da organização e da ação escolar, como uma escola bem estruturada na qual o aluno tenha recursos, espaço, tempo, organização, bases e meios para se relacionar de modo diferenciado com diferentes formas de conhecimento, passando da formação artístico-cultural até a relação com a ciência, com a tecnologia", afirma. 

Formação dos professores

Para tornar realidade o plano do ministro da Educação de garantir o ensino médio em tempo integral em concomitância com a educação profissional, será preciso que mais professores se dediquem a esse tipo de atividade docente. Apesar de não confirmar o número divulgado na imprensa na semana passada, de que seriam necessários 300 mil professores caso essas medidas sejam implementadas, o MEC afirma que há um déficit grande de profissionais de educação. E para garantir que o princípio da formação integral seja de fato uma realidade, o MEC aposta que é preciso investir na formação dos docentes. "Isso vai exigir da nossa parte um grande esforço de formação de pessoal. O interesse é que as instituições de educação superior possam abrir oferta regular de licenciaturas, que tenham esse perfil de entrada para pessoas que já têm outras graduações. A ideia que nos orienta é que a formação seja feita por grandes áreas. Por exemplo, que se abram turmas de licenciatura em educação profissional específicas voltadas para profissionais que venham do campo da infraestrutura, da parte de construção civil", explica Caetana.

Tramita no Conselho Nacional de Educação, desde 2008, uma proposta encaminhada pelo MEC de Diretrizes Curriculares Nacionais para cursos de Licenciatura em Educação Profissional e Tecnológica. Segundo Caetana, são essas diretrizes, caso aprovadas, que darão suporte as esses cursos de licenciatura. A professora explica que a formação dos docentes para atuar na educação profissional deve ser diferente da formação do docente para atuar na universidade. "São vários assuntos bastante importantes na formação de um professor para atuar na educação profissional. Uma auto-crítica que fazemos é: nós nunca consideramos a categoria trabalho nas formações anteriores, nós formamos pessoas em direito, medicina, engenharias, mas não discutimos a categoria trabalho com eles, fazemos as mesmas coisas com as licenciaturas e, para a educação profissional, é essencial que uma formação de professor faça a discussão sobre essa categoria", aposta a diretora.

Eveline lembra que o Brasil tem, historicamente, sérios problemas de formação de professores de um modo geral. Com relação aos docentes com atuação específica na educação profissional, o desafio é ainda maior. "Um desafio particular é o da formação de um professor que não se concebeu originalmente para trabalhar com a difusão do conhecimento que ele domina. Não se trata só de uma formação inicial em cada área que se torna disciplina formativa, mas, muitas vezes, de trazer alguém que possa ser professor exatamente porque agrega a formação especializada inicial a uma experiência profissional que permite passar ao aluno conhecimentos relevantes sobre determinadas técnicas", diz.

Para solucionar esse problema, Eveline acredita que de fato é importante difundir a formação para atuação docente em diversas áreas do conhecimento. Para isso, de acordo com ela, é preciso contar com a universidade – e aí começa outro desafio. "A própria universidade está organizada de uma forma muito dispersa em relação à agregação de conhecimento que seria necessária para que funcione de fato como um espaço de produção e suporte à formação de profissionais da área social, de profissionais educacionais. Existe uma separação entre os profissionais que vão atuar no campo científico e nas atividades tecnológicas, por um lado, e os profissionais que vão atuar na educação, por outro. Isso vemos dentro dos cursos de licenciatura. E eu diria que essa discriminação se dá pelos lados de ambos os profissionais", analisa.

A professora aposta também que, além de tentar solucionar esses problemas, é preciso olhar para os processos de formação dentro das próprias escolas. Ela sugere que garantir a dedicação exclusiva para o professor é um passo importante para que ele avance no processo formativo coletivo dentro da escola e consiga um bom trabalho junto aos estudantes. "Predomina no Brasil uma concepção de formação docente muito restrita à promoção de cursos, seja de formação inicial, seja de formação continuada, e se dá muito pouco espaço para uma concepção de formação que inclua um melhor aproveitamento do tempo do trabalhador nas instituições como um tempo de formação coletiva. Temos, no país, regimes muito diferenciados de carga horária. Alguns professores entram com 16 horas, outros com 40 horas, outros com 30 horas e com 20 horas. Professores  com carga horária curta, em geral, atuam em várias instituições, portanto não se enraízam em nenhuma delas", critica. Eveline afirma que as condições de trabalho também são formativas. "Se estou em uma escola em que falta tudo, o tempo inteiro, em que é preciso correr atrás para produzir a infraestrutura mínima todo dia para uma aula acontecer, sou desviada das minhas atividades-fim, e isso vai atuar formativamente sobre mim, vai alterar o meu ânimo, a crença no meu próprio trabalho e vai me ensinar a reduzir o horizonte da minha atuação. O professor que trabalha em condições instáveis é um professor que começa a não formular objetivos de longo alcance", alerta.

ProMédio

O anúncio do ministro da educação sobre a proposta de ensino médio em tempo integral teve ampla repercussão na imprensa e, em alguns casos, os jornais relacionaram o ensino médio em tempo integral com a promessa do ProMédio, um programa prometido pela presidente Dilma Roussef, no discurso de posse. Como a própria presidente afirmou, será, caso implementada, uma iniciativa nos moldes do ProUni – Programa Universidade para Todos, que trata da reserva de vagas nas instituições privadas filantrópicas para estudantes de baixa renda.   "A questão do ProMédio é muito embrionária ainda e tem vários entraves do ponto de vista da legislação. Quando se cria o ProUni, há a figura da instituição de educação superior filantrópica, e aí se faz uma regulamentação da filantropia na educação superior a partir da reserva de vagas. Quando falamos do ProMédio, é preciso considerar que as escolas técnicas não são subordinadas à União, mas sim aos estados,  e são os conselhos estaduais que fazem o credenciamento e a autorização de cursos e tudo o mais. Para a educação superior, nós temos o Enem como porta de entrada para o ProUni. Para a educação de nível médio qual seria a porta de entrada? Então, a primeira questão é essa: como organizamos algo que não está sob nossa supervisão, mas sob a supervisão dos estados. Temos um desenho que precisamos estudar com muito cuidado. Precisamos saber também qual o tamanho da oferta da rede privada e qual a qualidade dela", esclarece Caetana. A diretora do MEC ressalta, no entanto, que o ideal é garantir a expansão da rede pública. "Eu digo isso com toda a certeza: o ideal é fomentarmos a oferta pública, a construção, o estabelecimento e a ampliação de uma rede pública de ensino. Mas olhando para a demanda do país, percebemos a necessidade de recorrer ao que está instalado hoje e viabilizar aos trabalhadores de baixa renda a modificação desta realidade", acrescenta.

Para Isabel Brasil, é muito importante considerar que a ampliação do ensino médio integral proposta pelo ministro da educação seja feita via rede pública de ensino. "O ensino técnico privado vive ao sabor do mercado e não das exigências reais do campo. No caso da saúde, por exemplo, que é nossa área de atuação, o ensino privado tem como norte o que o mercado considera que deve ser prioridade nas profissões técnicas em saúde: deixa de lado prevenção e promoção e aposta  só em laboratório. Isso deforma e não atende às reais necessidades do campo da saúde", pontua.

FONTE: IHU On-line

Sergipe no Pisa: resultados preocupantes

dezembro 27, 2010 às 19:44 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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pisa2009_resultados estados Acima, tabela que apresenta os resultados do exame Pisa considerando a pontuação obtida em cada estado brasileiro. Vale ressaltar que a nota mínima equivalente a um desempenho tido como satisfatório corresponde a 600 pontos. Um relatório completo pode ser baixado no site do Inep.

 

Todos pela Educação compara notas do Pisa e mostra que país avança devagar

Sergipe tem a pior queda em relação a 2006; Rio, a menor evolução do Sudeste

Recém-divulgado, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), que analisa o desempenho de estudantes de 15 anos, mostrou que o ensino no Brasil avançou: o país teve a terceira maior evolução nas médias de 65 nações. No entanto, ao comparar os dados de 2006 com os de 2009, um estudo do Todos pela Educação aponta que dos 27 estados, incluindo o Distrito Federal, apenas São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amapá, Pernambuco e Maranhão conseguiram média acima da obtida pelo Brasil, nas disciplinas analisadas pelo Pisa: leitura, matemática e ciências.

Ao todo, onze estados tiveram queda em relação a 2006 em uma ou mais disciplinas. A pior média é a de Sergipe, que apresentou queda nas três áreas – perdeu 29 pontos em leitura, 26 em matemática e 24 em ciências.

- Em 2006, Sergipe tinha índices melhores que São Paulo, e agora está como São Paulo em 2006. As mudanças nesse estado e alguns outros resultados nos levam a crer que é mais fácil melhorar em áreas onde as médias eram as piores. Nas regiões onde já eram razoáveis, dar um salto é muito mais complicado – diz Mozart Neves Ramos, presidente do Todos pela Educação.

Na Região Sudeste, o Rio de Janeiro foi o único estado a perder pontos no Pisa quando se compara os anos de 2006 e 2009, e apresentou também a menor evolução na região. Foram sete pontos perdidos em leitura, e apenas dois ganhos em matemática e um em ciências.

- O Rio estagnou em duas disciplinas e ainda perdeu pontos em leitura. O desinteresse no magistério contribui para esse resultado. Professores deviam ser os melhores alunos, os mais talentosos, mas não é que acontece. Os baixos salários não atraem – diz Mozart Neves Ramos, lembrando que o estado ainda lida com os reflexos da aprovação automática:

- Os resultados da Prova Brasil já mostram que, mesmo sendo aprovados, os alunos não aprendiam. Os índices do Pisa não nos surpreendem.

Coordenadora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio (Sepe), Beatriz Lugão lembra que o Rio já chegou a ter um déficit de 30 mil professores, e que em média 20 deixam o estado diariamente:

- Isso prejudica a qualidade de ensino. Alunos chegam ao 3º do ensino médio com sérias deficiências, que impedem muitos de irem para a universidade. E, muitas vezes, fazem com o que aquele que conseguiu tenha que desistir do curso por não ter como acompanhar as aulas.

Sobre o Rio ter perdido pontos em leitura, Beatriz diz que essa deficiência na interpretação dos textos pode prejudicar todas as outras disciplinas:

- Se o aluno não tem o domínio da língua, as dificuldades são maiores. É preocupante o resultado.

Pior estado do país em 2006, o Maranhão conseguiu se tornar o que mais avançou em 2009. Na comparação do Todos pela Educação, ganhou 91 pontos em leitura, 71 em matemática e 45 em ciências.

- É um salto tão grande, que a gente tem que analisar mais detalhadamente. Mas reafirma o fato de que é mais fácil crescer quando a situação é pior – diz Mozart.

Com vinte anos de trabalhos prestados para a Secretaria de Educação do estado, a professora Leuzinete Pereira da Silva, Superintendente de Educação Básica do Maranhão, acredita que a melhora se deu por conta do comprometimento dos professores, e da boa formação de quem está em sala de aula:

- Todos os nossos professores têm graduação, e um expressivo número tem pós. Mas contribuíram também a formação continuada e as aulas de reforço para os alunos.

Aluna da rede estadual, Gabrielle Mendonça, de 16 anos, representou o Maranhão num concurso de redação do Senado. Para ela, as atividades fora da sala são fundamentais.

- As rodas de leitura que minha escola promove motivam os alunos – diz Gabrielle, que estuda na Paulo Freire.

Com as melhores médias dos 26 estados em 2009, não considerando o DF, Santa Catarina, na comparação com 2006, perdeu um ponto em matemática. Mas a queda não preocupa o governo.

É o que afirma o diretor de Educação Básica da Secretaria de Educação, Antônio Pazeto:

- A classificação do estado demonstra um bom desempenho, embora reconhecemos que exista muito por fazer.

Coordenadora estadual do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte), Alvete Bedin é mais crítica, e diz que o desempenho reflete a falta de aprimoramento no método de ensino nas escolas.

- A maioria das escolas não tem estrutura adequada, e o professor tem apenas um quadro negro, como há três décadas. O jovem não encontra atrativos.

Estudante da 7ª série do ensino fundamental, André dos Santos, de 15 anos, ficou em recuperação em matemática.

- O professor explica uma vez no quadro, se aprendeu, aprendeu. Caso contrário, fica sem saber – diz ele, que acredita que seria mais fácil se pudesse usar computador em sala.

De acordo com Mozart, para que os índices melhorem é preciso investir mais em educação, mas, segundo ele, a presidente eleita, Dilma Rousseff, terá como principal desafio fazer uma “revolução no magistério”:

- Ou fazemos um pacto nacional para que isso aconteça ou vamos estagnar. Para melhorar a educação, só investir dinheiro não basta.

(O Globo, 27/12, Carolina Benevides, Francisco Júnior e Juraci Perboni)

FONTE: Jornal da Ciência

coleção ‘História Geral da África’ disponível para download gratuito

dezembro 11, 2010 às 9:15 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.

Resumo: Publicada em oito volumes, a coleção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da coleção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projetos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a coleção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos. 

Download gratuito (somente na versão em português):

Informações Adicionais:

cronograma das apresentações: LitPort3

dezembro 11, 2010 às 0:38 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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cronomodern

cronograma das apresentações: LitPort1

dezembro 11, 2010 às 0:18 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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cronocolon

Introdução a ‘Os Lusíadas’ por Vítor Ramos

dezembro 10, 2010 às 21:01 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Clique AQUI para baixar. Visitando o Google Livros é possível ler outras partes dessa edição.

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