agudezas antológicas

maio 5, 2011 às 2:04 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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trança cabelos_JERONIMO                um peito cruel_BACELAR

Bons exemplos da aplicação do procedimento cultista da “disseminação e recolha”, de acordo com a terminologia proposta pelo crítico Dâmaso Alonso (cf. SALTARELLI, p.96), os recortes poéticos acima destacados integram a coletânea Poesia seiscentista: Fênix renascida & Postilhão de Apolo, organizada por Alcir Pécora, e que pode ser folheada online no Google Livros, dando também acesso à instrutiva “Introdução” que João Hansen elaborou para esta obra. Na sequência, seguem transcrições de outros poemas trabalhados em classe e mais alguns de leitura sugerida, tendo em vista a avaliação que realizaremos semana que vem. No final desta postagem, apreciem uma reprodução de “Fogo”, mais uma das perturbantes agudezas visuais criadas pelo grande pintor barroco Giuseppe Arcimboldo.

Mil anos há que busco a minha estrela
E os Fados dizem que ma têm guardada;
Levantei-me de noite e madrugada,
Por mais que madruguei, não pude vê-la.

Já não espero haver alcance dela
Senão depois da vida rematada,
Que deve estar nos céus tão remontada
Que só lá poderei gozá-la e tê-la.

Pensamentos, desejos, esperança,
Não vos canseis em vão, não movais guerra,
Façamos entre os mais üa mudança:

Para me procurar vida segura
Deixemos tudo aquilo que há na terra,
Vamos para onde temos a ventura.

[Francisco Rodrigues Lobo]

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Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.

[Francisco Rodrigues Lobo]

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Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano deus Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para quem de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.

[Sóror Violante do Céu]

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Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.

[Sóror Violante do Céu]

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Estou a ser triste tão acostumado,
O prazer de tal sorte me enfastia,
Que só quem me entristece me alivia,
Quem me quer divertir me dá cuidado.

Assim o largo mal me tem mudado,
Que se não fosse triste morreria,
Fujo como da morte da alegria,
Entre penas só me acho descansado.

A vida em tanto mal tenho segura,
Pois na minha tristeza só consiste,
Que não pode faltar-me eternamente:

Ninguém teve em ser triste maior ventura!
Que hei de viver eterno de ser triste,
E só posso morrer de ser contente.

[António Barbosa Bacelar]

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Glória do amor, que breve que feneces!
Pena do amor, que larga te dilatas!
Que largamente um coração maltratas!
Com quanta brevidade desvaneces!

Gosto fingido no melhor pereces,
Verdadeiro tormento sempre matas,
Se te concedes, logo te recatas,
Se te apoderas, nunca te enterneces!

Pena cruel, que a alma me traspassas!
Glória caduca, que tão pouco aturas!
Quem poderá emendar tantas desgraças!

Quem tivera num ser sempre as venturas!
És doce de passar, por isso passas;
És dura de sofrer, por isso duras.

[Francisco de Vasconcelos]

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“Triste Bahia”

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

[Gregório de Matos]

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Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.

[Gregório de Matos]

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“Falando com Deus”

Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce;
Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.

[Jerônimo Baía]

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Se sois riqueza, como estais despido?
Se Omnipotente, como desprezado?
Se rei, como de espinhos coroado?
Se forte, como estais enfraquecido?

Se luz, como a luz tendes perdida?
Se sol divino, como eclipsado?
Se Verbo, como é que estais calado?
Se vida, como estais amortecido?

Se Deus? estais como homem nessa Cruz?
Se homem? como dais a um ladrão,
Com tão grande poder, posse dos céus?

Ah, que sois Deus e Homem, bom Jesus!
Morrendo por Adão enquanto Adão,
E redimindo Adão enquanto Deus.

[Frei António das Chagas]

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“Cidra, Ciúme”

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.

[Sóror Maria do Céu]

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“Mortal doença”

Na febre do amor-próprio estou ardendo,
No frio da tibieza tiritando,
No fastio ao bem desfalecendo,
Na sezão do meu mal delirando,
Na fraqueza do ser, vou falecendo,
Na inchação da soberba arrebentado,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Na dureza do peito atormentada,
Na sede dos alívios consumida,
No sono da preguiça amadornada,
No desmaio à razão amortecida,
Nos temores da morte trespassada,
No soluço do pranto esmorecida,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Na dor de ver-me assim, vou desfazendo,
Nos sintomas do mal descoroçoando,
Na sezão de meu dano estou tremendo
No ris como da doença imaginando,
No fervor de querer-me enardecendo,
Na tristeza de ver-me sufocando,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.
Vou ao pasmo do mal emudecendo,
À sombra da vontade vou cegando,
Aos gritos do delito emouquecendo,
No tempo sobre tempo caducando,
Nos erros do caminho entorpecendo,
Na maligna da culpa agonizando,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

[Sóror Maria do Céu]

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“À fragilidade da vida humana”

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em vesúvios incendido
Foi zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que é rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

[Francisco de Vasconcelos]

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(“Fogo”, ARCIMBOLDO)arcimboldo10

a escrita barroca de Antônio Vieira: algumas sínteses

maio 4, 2011 às 23:49 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Publicada três anos atrás, a entrevista reproduzida abaixo mantém-se bastante atual no panorama que traça acerca das caracterísiticas marcantes da estética barroca, particularmente na obra do padre luso-brasileiro Antônio Vieira, e dos diálogos entre a literatura contemporânea e a literatura engenhosa. Bom material para recapitular e ampliar algumas das questões discutidas nas últimas aulas da LitPort 2. Logo a seguir, à direita da foto do entrevistado, uma reprodução do belo retrato de Vieira criado por Cândido Portinari.

                                                                  Antonio_Vieira_PORTINARI

Antônio Vieira: um dos autores mais densos e complexos da literatura brasileira. Entrevista especial com Claudio Daniel

Hoje, 6 de fevereiro de 2008, são comemorados os 440 anos do nascimento de Antônio Vieira (1608-1697). A revista IHU On-Line 244, intitulada Antônio Vieira: imperador da língua portuguesa, de 19-11-2007, fez uma homenagem ao jesuíta, debatendo sua obra com diversos especialistas. O poeta Claudio Daniel, por sua vez, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, realiza uma análise sobre a importância de Vieira para a literatura moderna e para o barroco contemporâneo.

Claudio destaca um elemento por vezes esquecido, atualmente: a literariedade de Vieira, que “construiu seus textos com recursos da arquitetura poética barroca, como a metáfora, a alegoria, a analogia, o paradoxo, o paralelismo, entre outros, além das relações intertextuais que estabeleceu com os textos bíblicos e de autores clássicos greco-latinos”. Claudio destaca ainda que Vieira realizou uma “literatura sofisticada, que não pode ser reduzida ao aspecto referencial, sem dúvida importante, dentro de sua estratégia missionária, mas que não é o único que pode ser apreciado pelo leitor moderno”. De passagem, avalia que “a exclusão do barroco de nossa literatura, realizada por Antonio Candido em sua Formação da Literatura Brasileira, é injustificável”, chamando atenção para sua influência na obra de Haroldo de Campos. E também fala da importância do barroco hoje, comentando sobre a antologia que produziu, Jardim de camaleões: a poesia neobarroca na América Latina (São Paulo: Iluminuras, 2004), com muitos poetas do assim chamado neobarroco, como Victor Sosa, Severo Sarduy e Coral Bracho.

Claudio Daniel é formado em Jornalismo, pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Libero, e mestrando em Literatura Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP). É autor de Sutra (1992), Yumê (1999) e A sombra do leopardo (2001), reunidos em Figuras metálicas (São Paulo: Perspectiva, 2005), que traz sua obra escrita entre 1983 e 2003. Também publicou a prosa experimental Romanceiro de Dona Virgo (Rio de Janeiro: Lamparina, 2004) e traduziu poetas como Victor Sosa, em Sunyata & outros poemas (São Paulo: Lumme Editor, 2005), e José Kozer, em Íbis amarelo sobre fundo negro (Curitiba: Travessa dos Editores, 2006).

Confira e entrevista.

IHU On-Line – Há uma tendência, por parte de alguns estudiosos, em tentar enxergar Vieira separado da literatura. Ou seja, antes de tudo, para alguns, ele foi um padre jesuíta que escreveu sermões especificamente religiosos, como se esses fossem afastados dos ganhos lingüísticos e literários. Como percebe essa separação?

Claudio Daniel - Vieira (1) escreveu cartas e sermões de caráter moral e teológico. Porém, ele construiu seus textos com recursos da arquitetura poética barroca, como a metáfora, a alegoria, a analogia, o paradoxo, o paralelismo, entre outros, além das relações intertextuais que estabeleceu com os textos bíblicos e de autores clássicos greco-latinos. É uma literatura sofisticada, que não pode ser reduzida ao aspecto referencial, sem dúvida importante, dentro de sua estratégia missionária, mas que não é o único que pode ser apreciado pelo leitor moderno. Exilar Vieira da literatura de língua portuguesa apenas por causa do caráter religioso de seus escritos me parece tão absurdo quanto excluir John Donne (2) da literatura de língua inglesa ou Sóror Juana Inés de la Cruz (3) da literatura de língua espanhola. Por outro lado, a obra de Vieira não se resume a questões éticas e espirituais; ele foi também um pensador político, como podemos verificar lendo sua História do futuro, ou o “Sermão do Bom Ladrão”, e abordou até a metalinguagem, no “Sermão da Sexagésima”.  É um dos autores mais densos e complexos de nossa literatura, que merece contínua releitura e reflexão. 

IHU On-Line – Quais são os sermões aos quais você sempre volta? Eles ainda constituem uma peça fundamental para entender o barroco brasileiro, assim como, por exemplo, os poemas de Gregório de Mattos (4)?

Claudio Daniel – Gosto de ler a História do futuro, as cartas e vários sermões, como o “Sermão de Santo Antônio”, um dos mais alegóricos, e que permite comparações com a poesia mística de Sóror Maria do Céu e com a pintura de Josefa d’Óbidos (5), pela representação simbólica que faz dos vícios e virtudes, relacionando-os com diferentes espécies de peixes e com as atitudes egoístas de membros de sua própria paróquia. Esse simbolismo, de humor corrosivo, permite inclusive outra aproximação, com o escritor inglês Jonathan Swift (6), e mesmo com George Orwell (7) (todos os três utilizaram formas alegóricas como instrumentos para a sátira política). Vieira é mais moderno do que se imagina, assim como Gregório de Mattos, que fez um retrato da vida colonial brasileira que permanece tristemente atual, por exemplo quando ele toca na corrupção de funcionários públicos. A exclusão do barroco de nossa literatura, realizada por Antonio Candido (8) em sua Formação da Literatura Brasileira, é injustificável; podemos verificar a brasilidade de Gregório, por exemplo, não apenas em seus temas, mas até na sua linguagem, que inclui termos de origem indígena e africana, que aliás não se encontram em Góngora (9) ou Quevedo (10), autores que ele foi acusado de imitar. Podemos notar, sim, um diálogo criativo de Gregório com os mestres do Século de Ouro espanhol, que merece análise a partir dos conceitos de intertextualidade de Julia Kristeva (11), mas falar em imitação é uma miopia que oblitera a contribuição original e específica do poeta baiano. Esta acusação simplista é outra tentativa de negar a riqueza do barroco brasileiro, um dos pontos altos de nossa cultura. Haroldo de Campos realizou um trabalho importante para o resgate dessa tradição, que ainda precisa ser plenamente recuperada, inclusive com a reedição crítica das obras de autores quase esquecidos do período, como Botelho de Oliveira (12).
IHU On-Line – De que modo analisa a decisão de Vieira de se afastar da visão gongórica do barroco?

Claudio Daniel – No “Sermão da sexagésima”, Vieira escreveu uma autêntica “arte de pregar”, quase um manifesto estético, polemizando com os oradores dominicanos, seus rivais, que praticavam um cultismo exacerbado, em detrimento de um sentido espiritual mais profundo. Conforme Antonio Candido, o cultismo “repousa sobretudo no som e na forma, tendendo para uma verdadeira exaltação sensorial, enquanto favorece a fantasia na busca de imagens e sensações que ultrapassam as sugestões da realidade”. Vieira era partidário de outra tendência do barroco, o conceptismo, que, nas palavras de Candido, “apóia-se no significado da palavra, tendendo para o abusivo jogo de vocábulos e de raciocínio, para as agudezas ou sutilezas de pensamento, com transições bruscas ou associações inesperadas, além de seu misticismo ideológico”. Essa divisão entre as duas facetas do barroco nem sempre é estanque; ao contrário, é uma fronteira porosa, que permite intersecções. Em várias passagens dos sermões de Vieira, podemos encontrar também recursos cultistas, mas sempre com um propósito religioso ou moral; o que ele condenava em seus adversários era a retórica artificial e oca.

IHU On-Line – Aceita a observação de Haroldo de Campos (13), para quem Vieira era um "syntaxier", como Mallarmé? Faria aproximações entre o barroco de Vieira, mais prolixo, e o de Haroldo, mais sintético, mas com um trabalho experimental com a sintaxe?

Claudio Daniel - A sintaxe de Vieira nem sempre é labiríntica ou obscura como a de Mallarmé; muitas vezes é clara e direta, já que ele escreveu textos para atingirem um público, com objetivo de proselitismo religioso. O jesuíta não buscava uma linguagem pura próxima da abstração. No entanto, a construção estrutural de seus sermões, a maneira como ele faz o encadeamento discursivo, pode autorizar um paralelo com o autor francês, com parêntesis e ressalvas. O diálogo de Haroldo de Campos com Vieira vem desde a década de 1950; a própria expressão “xadrez de estrelas”, que nomeia a antologia poética de Haroldo publicada em 1976, foi retirada de um sermão do jesuíta (14). Seria interessante um estudo comparativo entre a produção mais barroquizante — e logo, menos sintética — do poeta paulista (o Auto do possesso e Galáxias) e as construções sonoras e imagéticas do jesuíta.

IHU On-Line – Muitos textos fundamentais de Haroldo de Campos estabelecem um contato entre barroco e poesia concreta. Existiria um ponto de aproximação sobretudo na questão do luxo/lixo da linguagem, para utilizar uma expressar do poema de Augusto de Campos?

Claudio Daniel - O barroco é uma arte de mesclas, de miscigenação, de quebra de fronteiras entre códigos e repertórios culturais: não por acaso, na arquitetura das igrejas barrocas no Nordeste brasileiro, por exemplo, você encontra estátuas de anjos com feições africanas. Há uma quebra de hierarquias entre o popular e o erudito, o sublime e o terrível, para a conquista dos sentidos do espectador: o barroco utiliza todos os recursos disponíveis de som e imagem para ameaçar e seduzir. A própria missa barroca nada mais é do que a “obra de arte total” que une a arquitetura, as artes visuais, a recitação e o canto. A poesia concreta também realizou a quebra de fronteiras entre as diversas artes, e ainda entre a cultura de alto repertório e a cultura de massa, como em seu diálogo com a música popular, a publicidade e agora com os recursos eletrônicos. Neste sentido, podemos identificar pontos de convergência entre o barroco e a poesia concreta. Não por acaso, Augusto de Campos traduziu dois importantes poetas barrocos, o inglês John Donne e o alemão Quirinus Kuhlmann (15).

IHU On-Line – O seu trabalho poético tem influência do barroco e você já traduziu muitos poetas do neobarroco. Quais os trabalhos que mais têm seu interesse? Há uma influência de Vieira ainda no barroco contemporâneo?

Claudio Daniel - No livro Romanceiro de Dona Virgo, que publiquei em 2004, há um conto chamado "Agnus Dei", que é um diálogo intertextual com Gregório e Vieira, citados nas epígrafes e também no interior do texto, na forma de alusões, citações e paródia. O conto é ambientado num mosteiro beneditino no sul da Bahia, na época do regime militar, e faz um cruzamento temático entre a questão política, o misticismo e a sexualidade. De todos os meus escritos, creio que este é o que conversa de modo mais explícito com a estética barroca (presente, em maior ou menor grau, em meus poemas, sobretudo naqueles incluídos no livro Yumê, de 1999). Atualmente, tenho lido muito os ensaios de Ana Hatherly (16), como “O ladrão cristalino” e “A experiência do prodígio”, em que faz estudos comparativos entre a poesia e a pintura do barroco português. Também leio, com certa freqüência, a edição crítica dos poemas de Gregório de Mattos, em dois volumes, organizada por James Amado, e o Primero Sueño, de Sóror Juana Inés de la Cruz. Não sou um especialista, mas um apaixonado pelo barroco, que me encanta com seus labirintos sintáticos e semânticos. Já o neobarroco (ou neobarroso, como dizia Nestor Perlongher) não é uma retomada epigonal da arte do Século de Ouro, com a sua métrica e a sua metafísica, impregnada pelo espírito da Contra-Reforma.

Conforme diz Roberto Echavarren (17), “a poesia barroca e a neobarroca não partilham necessariamente os mesmos procedimentos, ainda que certos traços possam ser considerados, por seus efeitos, equivalentes. O que partilham é uma tendência ao conceito singular, não geral, a admissão da dúvida e de uma necessidade de ir além das adequações preconcebidas entre a linguagem do poema e as expectativas supostas do leitor, o desdobrar de experiências além de qualquer limite”. Podemos identificar pontos convergentes como a ênfase na imagem, na metáfora; a construção labiríntica da sintaxe; a riqueza semântica; o conflito entre o significante e o significado; o uso de recursos como a anáfora e a hipérbole; porém, estamos diante de uma escritura ainda mais movediça, lodosa, que não propõe uma poética, mas uma pluralidade de poéticas, deslizando “de um estilo a outro sem tornar-se prisioneiros de uma posição ou procedimento”, no dizer do poeta uruguaio.

Notas:

(1) Antônio Vieira foi um religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus. Um dos mais influentes personagens do século XVII em termos de política, destacou-se como missionário em terras brasileiras. Nesta qualidade, defendeu infatigavelmente os direitos humanos dos povos indígenas combatendo a sua exploração e escravização. Era por eles chamado de "Paiaçu" (Grande Padre/Pai, em tupi). Defendeu também os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos, perseguidos à época pela Inquisição) e cristãos-velhos (os católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição. Na literatura, seus sermões possuem considerável importância no barroco brasileiro e as universidades freqüentemente exigem sua leitura. Segundo Massaud Moisés (In: A literatura portuguesa. 28. ed. São Paulo: Cultrix, 1995, p. 75), Vieira “é mais alta personalidade, humana e cultural, dessa época (o Barroco), à qual sua estatura invulgar deu nível e serviu de símbolo perfeito. Nele, se encontram reunidas, em estranho compósito, as linhas de força que norteiam o complexo quadro do Barroco Português”.

(2) John Donne foi um poeta inglês e clérigo anglicano.

(3) Sóror Juana Inés de la Cruz ou, simplesmente, Sóror Juana, foi uma religiosa católica, poetisa e dramaturga nova-espanhola (pelo que se a considere mexicana, também se pode tomá-la como espanhola), nascida em data incerta (estima-se que foi entre 1648 e 1651), em San Miguel Nepantla, perto de Amecameca e falecida na Cidade do México em 1695. Foi a última dos grandes escritores do Século de Ouro.

(4) Gregório de Mattos e Guerra, alcunhado de Boca do Inferno ou Boca de Brasa, foi um advogado e poeta brasileiro da época colonial. É considerado o maior poeta barroco do Brasil e um dos maiores poetas de Portugal.

(5) Josefa d’Óbidos foi uma pintora nascida na Espanha que viveu e produziu em Portugal. Era filha de Baltazar Gomes Figueira, pintor português natural de Óbidos, com obra em Évora, que fora trabalhar em Sevilha, onde veio a desposar D. Catarina de Ayala Camacho Cabrera Romero, natural da Andaluzia.

(6) Jonathan Swift foi um escritor irlandês. 

(7) George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, (Bengala, 25 de Junho de 1903 — Londres, 21 de Janeiro de 1950) foi um escritor britânico, mais conhecido pelas suas duas obras maiores, A revolução dos bichos e 1984. Poucas pessoas, mesmo entre as que lhe eram próximas, conheciam o seu verdadeiro nome, de tal forma o pseudónimo se tornou a sua segunda natureza. A adopção deste "nom de plume" correspondeu a uma profunda alteração na vida e nos ideais do homem – de uma figura do sistema no Império Britânico, ele se tornará num rebelde, constantemente crítico. Morreu de tuberculose, na miséria.

(8) Antonio Candido nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu desde a primeira infância em Minas Gerais. Entrou em 1939 para a Faculdade de Direito e para a de Filosofia (Seção de Ciências Sociais), na qual recebeu no começo de 1942 os graus de bacharel e licenciado. De 1958 a 1960 foi professor de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia de Assis. Aposentando-se em 1978, continuou a trabalhar em nível de pós-graduação como orientador de teses. Fora da vida acadêmica, foi crítico da revista Clima (1941-4) e dos jornais Folha da Manhã (1943-5) e Diário de São Paulo (1945-7). Na vida política, participou de 1943 a 1945 na luta contra a ditadura do Estado Novo no grupo clandestino Frente de Resistência. Atualmente, é vice-presidente da TV do Trabalhador e membro do Conselho editorial da revista Teoria e Prática.

(9) Carlos de Sigüenza y Góngora foi um dos primeiros grandes intelectuais nascidos no vice-reino de Nova Espanha. Polímata e escritor, galgou na colônia vários cargos políticos e acadêmicos.

(10) Francisco Gómez de Quevedo y Santibáñez Villegas foi um escritor do século de ouro espanhol.

(11) Julia Kristeva é uma psicanalista búlgara, professora de Lingüística na Universidade de Paris e autora de mais de trinta livros consagrados. Aluna de Roland Barthes, é uma das mais respeitadas intelectuais da atualidade. Seus pensamentos envolvem teoria literária, semiologia, filosofia e psicologia. Escreveu também quatro romances. Entre suas obras, estão As novas doenças da alma (Rio de Janeiro: Rocco), Estrangeiros para nós mesmos (Rio de Janeiro: Rocco) e O velho e os lobos (Rio de Janeiro: Rocco). O jornal francês Le Monde publicou um artigo de Roger-Pol Droit sobre Kristeva, em 18 de novembro de 2005, que a IHU On-Line na edição 166, de 28 de novembro de 2005, republicou sob o título "Eu vivo com esse desejo de sair de mim". 

(12) Manuel Botelho de Oliveira foi um advogado, político e um poeta barroco brasileiro. Foi o primeiro autor nascido no Brasil a ter um livro publicado. Manuel Botelho de Oliveira conviveu com Gregório de Mattos e versou sobre os temas correntes da poesia de seu tempo.

(13) Haroldo de Campos foi um poeta, tradutor e ensaísta brasileira, autor de obras como Xadrez de estrelas, Crisantempo e Metalinguagem & outras metas.

(14) Em Depoimentos de oficina (São Paulo: Marco, 2003, p. 25-26), Haroldo de Campos escreve: “Um verdadeiro manifesto da estética neobarroca que na época começava a ganhar corpo em minha poesia é ‘Teoria e prática do poema’ (1952), que glosa uma citação do padre Antônio Vieira, do célebre Sermão da sexagésima (1655). (O trecho do poema é o seguinte: “O Poema propõe-se: sistema / de premissas rancorosas / evolução de figuras contra o vento / xadrez de estrelas. Salamandra de incêndios / que provoca, ileso dura, / Sol posto em seu centro”)”. Haroldo prossegue: “‘Não fez Deus o céu como xadrez de estrelas’ – afirmava Vieira e recomendava aos pregadores: ‘Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras’. No entanto, o seu sermão está estruturado como um engenho de enxadrista, como notou com muita sagacidade o crítico português António José Saraiva. Como no caso do artifício retórico chamado litotes, Vieira afirmava uma coisa e fazia outra. A poesia, mundo autônomo organizado pela razão permeada de emoção, pende em equilíbrio instável sobre o abismo do azar, por um ato de luciferina (de Lusbel) arrogância; a poesia pode ser descrita como um virtual xadrez sensível, de estrelas”. Haroldo de Campos se contrapôs a Antonio Candido, que exclui o Barroco de sua Formação da Literatura Brasileira, em O seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o caso Gregório de Mattos (2. ed. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1989), comentando que Vieira e Mattos eram conhecidos não por livros, mas pelo público, ao escutá-los, e por isso fizeram parte também do cenário literário brasileiro inicial.

(15) Quirinus Kuhlmann foi um poeta alemão barroco, traduzido no Brasil por Augusto de Campos em Poesia da recusa.

(16) Ana Hatherly é uma poeta, ensaísta, investigadora, tradutora, professora universitária e artista plástica portuguesa. Membro destacado do grupo da Poesia Experimental Portuguesa nos anos 60 e 70, tem uma extensa bibliografia poética e ensaística. Dedicou-se também à investigação e divulgação da literatura portuguesa do período barroco tendo fundado as revistas Claro-Escuro e Incidências.

(17) Roberto Echavarren é um poeta uruguaio, estudioso do neobarroco.

 

 

 

FONTE: IHU Online

+++++ poesia barroca portuguesa

abril 19, 2011 às 0:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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vercial barroco

Clique na imagem e embriague-se de agudezas seiscentistas com certeza portuguesas!

poesia portuguesa de agudeza: antologia

abril 19, 2011 às 0:08 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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perola barroca lilas

Na imagem acima podem ser apreciadas algumas fieiras de pérolas barrocas lilases, também usadas na joalheria. A beleza estranha dessas jóias encontra sua correspondente textual na  intricada poesia barroca, arte feita de palavras retorcidas, sintaxes tortuosas e significações agudas, como pode ser conferido na breve antologia que segue abaixo, reunindo alguns textos de referência para nosso curso e nossas avaliações. A coletânea inicia-se com um famoso soneto maneirista de Luís de Camões, a sinalizar, tanto a nível temático quanto formal, a crise que abala os padrões de equilíbrio estético e intelectual do Renascimento, crise que desemboca na literatura diversificadamente engenhosa que, desde o trabalho sistematizador de Heinrich Wölfflin, tem sido demarcada e definida como barroca.

Se desejar conhecer mais detidamente questões teóricas e estéticas relativas ao “procedimento retórico-poético da agudeza como efeito que especifica a poesia lírica seiscentista de  Portugal”, além da excelente dissertação de Thiago Saltarelli, As poéticas seiscentistas e a obra de Dom Francisco Manuel de Melo, que estamos discutindo em classe, você também pode conferir a tese de doutoramento de Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, intitulada Poesia de Agudeza em Portugal, trabalho defendido na UNICAMP, em 2004, e que contou na banca de arguição com o eminente professor e pesquisador da arte engenhosa,  João Adolfo Hansen.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

[Luís Vaz de Camões]

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Vede-me de si mesmo o tempo conta
E para dar-se pede a conta tempo,
que quem gastou sem conta tanto tempo;
como o dar sem tempo tanta conta.

Não quer louvar o tempo, tempo em conta,
Porque conta não faz de dar ao tempo,
Em que só para conta havia tempo,
Se na conta do tempo, houvesse conta.

Mas que conta dar a quem não tem tempo
em que tempo [andava] quem não tem conta
a quem sem conta vive falta tempo.

Vejo-me sem ter tempo e sem ter conta
Sabendo que ei de dar conta do tempo
E que se há de chegar tempo da conta.

[Anônimo, Códice 13.217, in: Cancioneiros do século XVI e XVIII]

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Será brando o rigor, firme a mudança,
humilde a presunção, vária a firmeza,
fraco o valor, cobarde a fortaleza,
triste o prazer, discreta a confiança;

Terá a ingratidão firme lembrança,
será rude o saber, sábia a rudeza,
lhana a ficção, sofística a lhaneza,
áspero o amor, benigna a esquivança;

Será merecimento a indignidade,
defeito a perfeição, culpa a defensa,
intrépido o temor, dura a piedade,

Delito a obrigação, favor a ofensa,
verdadeira a traição, falsa a verdade
antes que vosso amor meu peito vença.

[Sóror Violante do Céu]

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“A uma ausência”

Vida que não acaba de acabar-se,
Chegando já de vós a despedir-se,
Ou deixa, por sentida, de sentir-se,
Ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
Pois chega já de vós a dividir-se,
Ou procura, vivendo, consumir-se,
Ou pretende, matando, eternizar-se.

O certo é, Senhor, que não fenece,
Antes no que padece se reporta,
Por que não se limite o que padece.

Mas viver entre lágrimas, que importa
Se vida que entre ausência permanece
É só viva ao pesar, ao gosto morta?

[Sóror Violante do Céu]

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“Ao Padre António Vieira, pregando do nascimento de N. Senhora no Convento da Rosa”

(Silva)

Aspirar a louvar o incompreensível,
E fundar o desejo no impossível;
Reduzir a palavras os espantos,
Detrimento será de excessos tantos;
Dizer, do muito, pouco,
Dar o juízo a créditos de louco;
Querer encarecer-vos,
Eleger os caminhos de ofender-vos;
Louvar diminuindo,
Subir louvando e abaixar subindo;
Deixar também, cobarde, de louvar-vos,
Será mui claro indício de ignorar-vos;
Fazer a tanto impulso resistência,
Por o conhecimento em contingência;

Delirar por louvar o mais perfeito,
Achar a perfeição no que é defeito;
Empreender aplaudir tal subtileza,
Livrar todo o valor na mesma empresa.
Errar exagerando,
Ganhar perdendo e acertar errando.
Siga pois o melhor indigna Musa
E deponha os excessos de confusa,
Que, para acreditar-se,
Basta, basta o valor de aventurar-se;
E para vos livrar de detrimento,
Ser vossa a obra e meu o pensamento.
Pois não fica o valor aniquilado,
Sendo meu o louvor, vós o louvado,
Porque somos os dois, no inteligível,
Eu ignorante e vós incompreensível.

[Sóror Violante do Céu]

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“A umas saudades”

Saudades de meu bem, que noite e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabardes-me a vida com tormento,
Mais lisonja será que tirania.

Mas, quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria.

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo.

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

[António Barbosa Bacelar]

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“A uma ausência”

Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem, que me entretém, me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado;
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio;
No mor risco me anima á confiança;
Do que menos se espera estou mais certo.

Mas se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.

[António Barbosa Bacelar]

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“À variedade do mundo”

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c’o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C’o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora…
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

[António Barbosa Bacelar]

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Esse jasmim, que arminhos desacata,
Essa aurora, que nácares aviva,
Essa fonte, que aljôfares deriva,
Essa rosa, que púrpuras desata:

Troca em cinza voraz lustrosa prata,
Brota em pranto cruel púrpura viva,
Profana em turvo pez prata nativa,
Muda em luto infeliz tersa escarlata.

Jasmim na alvura foi, na luz Aurora,
Fonte na graça, rosa no atributo,
Essa heróica deidade, que em luz repousa.

Porém fora melhor que assim não fora,
Pois a ser cinza, pranto, barro e luto,
Nasceu jasmim, Aurora, fonte, rosa.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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“A fonte das lágrimas”

De essa pura fonte, fonte aceita
Digna de vista ser por ser vistosa,
Que quando mais murmura mais deleita
De muda penha filha sonorosa.

Que o gosto enfeitiça, o prado enfeita,
E quando branda mais, mais poderosa,
Contrários vence, oposições sujeita,
Pois ferve fria, pois se ri chorosa.

Vês tanta prata, vês aljofar tanto!
Pois sabe Bela, doce, e linda es bela
Do ouvido suspensão, da vida encanto,

Que ou ela vive em mim, ou vivo eu nela,
Ela é lagrimas toda, eu tudo pranto
Eu de amor fonte, fonte de amor ela.

[Anônimo, Códice 13.219, in: Biblioteca Nacional de Lisboa]

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Saudades de meu bem, que noite, e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabares-me a vida com tormento,
Mais lisonja será, que tirania:

Mas quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria:

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo;

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto, com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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Copiar todo o esplendor da natureza
É o que atrevidamente a arte procura!
Em vão se cansa a idea, a mão se apura
Que impossíveis não cabem na destreza.

[Vira-se] já com menos estranheza
O poder dividir-se a fermosura
Que corpo há se imite na pintura
Aonde é toda espírito a beleza.

Que importa que se empenhe o entendimento
Para uma perfeição quase infinita
Impossível será que ache igualdade.

Ceda o pincel de tão ousado intento
Pois se o que se compreende só se imita,
[Que] nega a semelhança a Divindade.

[Anônimo, Códice 13.219, in: Cancioneiros do século XVI e XVIII]

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Baixel de confusão em mares de ânsia,
Edifício caduco em vil terreno,
Rosa murchada já no campo ameno,
Berço trocado em tumba desd’a infância;

Fraqueza sustentada em arrogância,
Néctar suave em campo de veneno,
Escura noite em lúcido sereno,
Sereia alegre em triste consonância,

Viração lisonjeira em vento forte,
Riqueza falsa em venturosa mina,
Estrela errante em fementido norte;

Verdade que o engano contamina,
Triunfo no temor, troféu da morte
É nossa vida vã, nossa ruína.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. 

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

[Gregório de Matos]

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Anjo no nome, Angélica na cara
Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

[Gregório de Matos]

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“Buscando a Cristo”

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos;
Que, para receber-me, estais abertos
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados,
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me.
A vós, sangue vertido para ungir-me.
A vós, cabeça baixa p´ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me.
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

[Gregório de Matos]

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“A Jesus Cristo Nosso Senhor”

Pequei, Senhor; mas não por que hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido:
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a ; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

[Gregório de Matos]

espelho barroco

agudeza e plurissignificação: interfaces estéticas

abril 18, 2011 às 23:21 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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alegoria velho-jovem

Quantas narrativas e quantos sentidos se entrecruzam na imagem acima? Nela, encontram-se habilmente reinscritos o excesso semântico e a poder de articulação entre elementos heterogêneos que caracterizam a estética seiscentista da agudeza, e suas diversificadas expressões barrocas. Interessante notar que as principais tendências da pintura barroca, no século XVII, preferiam investir numa figuração realista, cujo polimorfismo derivava de engenhosas sutilezas pictóricas, engendradas especialmente por composições entre tons claros e escuros, como se pode observar no famoso quadro “Davi e Golias”, de Caravaggio, reproduzido a seguir:

davi   Nas artes verbais, por sua vez, fonemas, palavras e sintaxes são embaralhadas de maneira caprichosa, forçando a conjugação entre significantes desproporcionais e descontínuos, de maneira a gerar efeitos de significação surpreendentes e imagens multifacetadas, como bem se lê num dos poemas do poeta barroco luso-brasileiro Bernardo Vieira Ravasco, irmão do Padre Antonio Vieira, texto também analisado por João Adolfo Hansen, no ensaio Agudezas seiscentistas, disponível AQUI:

Iris parlero, abril organizado
Ramillete de plumas con sentido,
Hybla con habla, irracional florido
Primavera con pies, jardín alado

E aí? Dá para dizer que este poema, ou esta representação barroca, “retrata” um papagaio?

papagaio

Toda linguagem literária produz imagens altamente dinâmicas, imagens moldáveis e remontáveis pela ação direta dos nossos processos imaginativos. É interessante notar que mesmo uma imagem cinematográfica, ou uma pintura, acabam se mostrando representações mais fixas e impositivas do que as figurações com que visualizamos intimamente os personagens de um romance, as paisagens de um conto, as emoções traduzidas num soneto. No caso da literatura barroca, o leitor é sempre conduzido a experiências intensivas de decodificação estética e de construção polifônica dos sentidos.

2011-I: boas vindas

março 13, 2011 às 22:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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PERUGINO_Ingegno                revolta melanc

quebracabeça lusofono

Com esta postagem iniciamos nosso trabalho neste semestre letivo, a ser desenvolvido nas disciplinas Literatura Portuguesa II, que enfocará estudos sobre o barroco e sobre o romantismo-realismo português, e Literatura Portuguesa IV, na qual desenvolveremos estudos comparativos entre obras literárias lusófonas que tematizam as relações étnicorraciais. Para ter acesso a uma cópia pdf dos respectivos programas, clique nos links anteriores. Nas aulas inaugurais de amanhã, 14/03, serão distribuídas cópias impressas desses programas para que iniciemos a discussão das problemáticas que balizarão os cursos.

Dentre as novidades no nosso blogue, destaque-se a adição de dois blocos de links na barra de rolagem à direita, intitulados “AFRICANIDADES” e “RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS”. As hiperligações neles relacionadas possibilitam ampliar o suporte de textos, conteúdos e informações relevantes para as atividades na LitPort IV, assim como estabelecer pontes estratégicas com referentes culturais africanos e afro-brasileiros. Ao assumir feições cada vez mais sincréticas, o LUSOLEITURAS procura efetivar aquele “compromisso de alteridades” através do qual, conforme preconiza a crítica literária sãotomeense Inocência Mata, a lusofonia adquire um significado transculturador e intercomunicativo, capaz de superar as tortuosas heranças coloniais e abrir novos e polifônicos horizontes identitários.

A crescente importância desse impulso africanizante no campo das literaturas de língua portuguesa ficou patente durante a VI edição do prestigiado Fórum das Letras de Ouro Preto, evento sucedido em novembro de 2010, em paralelo ao IV Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Para essa edição foram convidados e homenageados alguns dos mais importantes escritores da África Lusófona, criando-se assim memoráveis oportunidades para a interação com um grande público e para ampliar a divulgação de suas obras. Na organização desse frutuoso encontro destacou-se a professora de literatura e escritora Guiomar de Grammont, autora também de um delicioso texto, “Ler devia ser proibido”, que se tornou referencial, nos últimos anos, para a discussão acerca da função da arte literária como instrumento desalienante e emancipador –- tema, aliás, crucial para os escritores barrocos e românticos. Incluído na bibliografia da LitPort II, esse texto já se encontra pendurado no LUSOLEITURAS, sendo recomendado para todos os letreiros e letreiras, bem como para tod@s @s amantes da liberdade, que frequentam este blogue. Clicando na foto de Guiomar, logo abaixo, você pode acessar o site do Fórum das Letras e saber um pouco mais sobre o impacto causado pelos escritores africanos na antiga, e barroquíssima, capital do Brasil.      

Guiomar degrammont

Finalizando, chamamos a atenção para o MUJIMBO-TWITTER, mais um canal internético de divulgação de materiais e questões referentes às temáticas que abrangem tanto os propósitos deste blogue quanto os interesses do professor-blogueiro que o gerencia.

twitter

a “prova” como instrumento de (auto)conhecimento

maio 14, 2010 às 9:28 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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calvin_estudar

Para @s estudantes de LitPort2, é importante neste momento refletir acerca de alguns questionamentos estruturais e, por assim dizer, meio “cultistas” e meio “conceptistas”: o que uma prova comprova? o que deve ser provado numa prova tendo em vista a aprovação? toda prova é só um conjunto de problemas aos quais se devem dar respostas “certas”, ou uma prova pode ser pensada como mais uma das atividades que dinamizam o aprendizado, tendo em vista entender o que define o “certo” e o “errado”? Para formular a primeira avaliação geral da disciplina Literatura Portuguesa II, centrada na abordagem sobre o barroco português que desenvolvemos na primeira unidade do semestre 2010.I, buscamos construir problemas & contextos de problematização que pudessem ser explorados de maneiras variadas e criativas pel@s estudantes, proporcionando condições para uma reflexão intensiva sobre a temática barroca e, dessa forma, para uma genuína compreensão das várias dimensões significativas (desdobráveis nos planos da estética, da história, da cultura) que podem ser articuladas ao enfocarmos os conteúdos pedagógicos relativos a essa temática. Para os que desejarem uma cópia Word de nossa prova, cliquem AQUI.

re-caracterizando o Barroco

maio 9, 2010 às 12:26 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Agudeza_y_arte_de_ingenio

Um pequeno esquema para ajudar-nos a sistematizar alguns conceitos e questões trabalhadas desde o início do curso. Compare o esquema proposto abaixo com as versões disponíveis nos sites de vestibulares: o que há de diferente? alguma coisa se modificou em sua forma de encarar as qualidades geralmente atribuídas à estética barroca? Fundamental, também, é buscar poemas nos quais seja possível visualizar as diversas dimensões e figurações dos elementos relacionados a seguir.

esquema barroco

baroque-wedges_49 (sapato barroco)

cinema luso-brasileiro na UFS-Itabaiana: visões do mundo barroco

março 25, 2010 às 0:41 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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PALAVRA E UTOPIA – Manoel de Oliveira

SEXTA-FEIRA, 26/03

MINI-AUDITÓRIO DO CAMPUS, PONTUALMENTE ÀS 19H

Segundo crítica publicada no jornal O Estado de São Paulo, por ocasião do lançamento no Brasil de Palavra e utopia, do premiado cineasta português Manoel de Oliveira, na realização deste filme o diretor “com a disposição de um cruzado, parece relembrar (…) que a experiência humana precisa de ser estruturada pela linguagem para fazer sentido”. Obra desenrolada num ritmo bastante diferente daquele ao qual nos habituou a cinematografia norte-americana e a televisão, para o crítico do Estadão o que está em causa é a opção por investir num “cinema profundo quando a preferência é pela superficialidade”, concluindo que “esta cinebiografia livre do Padre António Vieira é um sóbrio retorno aos fundamentos do cinema, aqueles que valorizam a beleza de um plano bem construído, que privilegiam a sonoridade da palavra e a força da interpretação dos atores”, retorno que, por sua vez, “reafirma a fé num cinema cuja imagem mais vibrante é a da literatura”. Como se vê, trata-se de uma obra marcada por intercâmbios entre linguagens estéticas distintas que, entretanto, privilegiam a expressão verbal como forma de produção de significados. Se quiser saber mais informações sobre esse filme, visite o site a ele dedicado.

modelo de resumo: recordando

março 20, 2010 às 2:53 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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olhar humanistico Tornamos a chamar a atenção para o interessante artigo de uma Tríade de pesquisadoras da UNICAMP que também se propõem a repensar fundamentos das práticas pedagógicas nos cursos universitários (clique na imagem para lê-lo na íntegra). Especialmente para @s estudantes da LitPort 2, a discussão entabulada pelas autoras pode sugerir aplicações concretas para nossos futuros estudos acerca do caráter re-humanizante e emancipador da estética romântica. De imediato, para ambas as turmas, coloca-se a questão: até que ponto o trabalho pedagógico com o texto literário pode ser articulado às preocupações destacadas pelas autoras? Bom tema para desenvolver na seção de comentários desta postagem, né?

Atentar também para o uso adequado que as pesquisadoras fazem, na redação do resumo, dos operadores verbais característicos do estilo acadêmico de escrita, sem deixar, inclusive, de incorporar elementos coloquiais, assim confirmando as interfaces fluentes entre a língua do dia-a-dia e a objetividade requerida pelo discurso científico. Fluência já percebida por um dos mais ilustres escritores do Barroco português, Francisco Rodrigues Lôbo, que recomendava expressamente, para os amantes da linguagem, o “falar vulgarmente com propriedade”, competência bem definida numa barroquíssima metáfora registrada em uma de suas obras mais importantes, A Côrte na aldeia (1619): “assim como a melhor pintura é a que retrata com mais semelhança a obra da natureza,… assim a melhor escritura é a que retrata com mais semelhança a fala”, proclamava Lôbo. Clique na imagem abaixo e saiba mais sobre este escritor no site do Projecto Vercial. 

francisco_rodrigues_lobo

enveredando pelas mãos duplas do Barroco: roteiros de pesquisa

março 20, 2010 às 2:10 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ABRIL-Editorial_n3  Tal como demonstra a mais recente edição da Revista Abril, publicação do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana (NEPA) da Universidade Federal Fluminense, o Barroco é uma força estética e ideológica ainda cheia de vitalidade na produção literária portuguesa contemporânea (clique na imagem para acessar a revista). Os malabarismos semânticos da agudeza, os caprichos sintáticos do engenho e a intricada melopéia com que vibra toda escrita barroca continuam a servir como recursos expressivos dos mais valiosos para traduzir verbalmente as transformações nas consciências humanas que se sucedem e se complexificam desde o advento da Modernidade. Buscando fundamentos para compreender a constituição da estética barroca, na LitPort 2 @s estudantes foram organizad@s em Tríades que se dedicarão, nas próximas semanas, à pesquisa e à leitura de textos que subsidiem as discussões em classe e a elaboração de um relatório correspondente à segunda nota da disciplina nesta unidade. A relação dos temas distribuídos entre as Tríades e outras instruções referentes a essa atividade podem ser acessados AQUI.

hansen vieira

Já quem quiser uma versão eletrônica das “Agudezas seiscentistas” de João Adolfo HANSEN (posando ao lado com António Vieira), texto que nos abrirá caminhos para o Barroco Ibérico em nossas próximas aulas, visite o site da Revista Letras, da Universidade Federal de Santa Maria. Recomenda-se a navegação nessa tradicional revista que alterna, assim como saudavelmente entrelaça, edições dedicadas aos estudos linguísticos e literários — irmãos siamesíssimos, paridos das multiformes entranhas da linguagem.

literatura é pra se ler ou pra se ensinar? literatura é pra curtir ou pra aprender? aliás, literatura é pra que mesmo?…

março 20, 2010 às 0:35 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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literatura

Nossos cursos se iniciaram com a aplicação de um Questionário Metapedagógico (clique ao lado para baixá-lo), atividade através da qual pretendemos levantar elementos para construir uma visão crítica sobre como concebemos o ensino-aprendizado da literatura. Um trabalho do qual também se espera a liberação de forças criativas que possamos investir em nosso aperfeiçoamento cultural e profissional, gerando novas ferramentas para a reinvenção da realidade – uma mágica que só a ação educativa pode consumar… Para aquel@s que não conseguiram fotocopiar o capítulo recomendado de William Cereja, o LUSOLEITURAS oferece a possibilidade de ler a tese de Doutoramento deste autor, cujo conteúdo é quase idêntico ao do livro – clique AQUI. Uma das diferenças entre a tese e o livro pode ser especialmente interessante para @s estudantes da Literatura Portuguesa II: Cereja dedica-se no capítulo 3 a realizar um estudo crítico de alguns dos mais famosos manuais de ensino de literatura voltados para o ensino médio, focalizando justamente as abordagens feitas ao Barroco.   

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