Agualusa conta tudo

maio 24, 2011 às 23:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Mais dicas interessantes para nossos estudos na LitPort 4 – e para a avaliação em andamento – podem ser encontrados na longa entrevista concedida pelo escritor angolano ao programa Sempre Um Papo. Visite o site do YouTube para ter acesso às outras partes da entrevista.

a mestiçagem na MPB: conciliações e contestações

maio 24, 2011 às 14:12 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A partir de nossas leituras de O ano em que Zumbi tomou o Rio e da bibliografia teórica do curso da LitPort 4, pudemos caracterizar elementos centrais para uma compreensão da complexa questão racial brasileira, bem como estabelecer relações entre essa temática, a da “cultura da violência” e o problema da colonialidade, mais especificamente da colonialidade do poder, se entendemos o racismo como um sistema simbólico que perpetua nas sociedades nacionais as divisões e desigualdades que estruturam as sociedades coloniais. No caso brasileiro, o preconceito racial, sobretudo quando exercido como inferiorização dos sujeitos não-brancos, manifesta-se de forma dissimulada, assumindo formulações frequentemente paradoxais, marcadas por uma sobrecarga de afetividade ou de paternalismo, ainda que essas formas se sustentem nos ideias e nos discursos derivados de uma noção de mestiçagem explícita ou implicitamente branqueadora e eurocêntrica. A este projeto alienante e assimilacionista podemos contrapor uma concepção contestadora e sincretizante da mestiçagem, a partir da qual se desenvolve um olhar crítico para as contradições nos convívios interraciais brasileiros e para os nossos mitos identitários “fusionistas”, crítica que propõe a renovação das relações interculturais no Brasil como saída para nossos impasses e conflitos, bem como uma incorporação efetiva das matrizes civilizacionais africanas e ameríndias à construção nacional brasileira.

De maneira a aprofundar essa reflexãao de forma dialógica, desenvolveremos até o final do curso leituras centradas em letras de canções da música popular, buscando identificar e discutir representações do imaginário da mestiçagem e os projetos identitários a que essas representações remetem. Além do corpus relacionado e “entubado” a seguir, recomendamos uma vista a esta postagem do MUJIMBO, que dá acesso ao download das canções aqui listadas e mais algumas.

   

AQUARELA DO BRASIL

Ary Barroso

Brasil, meu Brasil Brasileiro,
Meu mulato inzoneiro,
Vou cantar-te nos meus versos:
O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar;
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil!… Brasil!… Prá mim!… Prá mim!…

Ô, abre a cortina do passado;
Tira a mãe preta do cerrado;
Bota o rei congo no congado.
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória à luz da lua
Toda canção do meu amor.
Quero ver essa Dona caminhando
Pelos salões, arrastando
O seu vestido rendado.
Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Brasil, terra boa e gostosa
Da moreninha sestrosa
De olhar indiferente.
O Brasil, verde que dá
Para o mundo admirar.
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Esse coqueiro que dá coco,
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar.
Ô! Estas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar.
Ô! Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro,
Terra de samba e pandeiro.
Brasil!… Brasil!

***

 

MULATA ASSANHADA

Ataulfo Alves

Ô, mulata assanhada
Que passa com graça
Fazendo pirraça
Fingindo inocente
Tirando o sossego da gente!
Ah! Mulata se eu pudesse
E se meu dinheiro desse
Eu te dava sem pensar
Esta terra, este céu, este mar
E ela finge que não sabe
Que tem feitiço no olhar!
Ai, meu Deus, que bom seria
Se voltasse a escravidão
Eu pegava a escurinha
E prendia no meu coração!…
E depois a pretoria
Resolvia a questão!

***

 

CANTO DAS TRÊS RAÇAS

Mauro Duarte & Paulo César Pinheiro

Ninguém ouviu um soluçar de dor
No canto do Brasil.
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro e de lá cantou.
Negro entoou um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.
Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes.
Nada adiantou.
E de guerra em paz, de paz em guerra,
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar,
Canta de dor.
E ecoa noite e dia: é ensurdecedor.
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador…
Esse canto que devia ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor

***

 

A MÃO DA LIMPEZA

Gilberto Gil & Chico Buarque

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Que mentira danada, ê
Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o negro penava, ê
Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza

Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza
Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
Eta branco sujão

***

 

IDENTIDADE

Jorge Aragão

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai…

Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade

***

 

SOU NEGRO

Getúlio Côrtes & Ed Wilson

dessa vida
nada cinema
não sei porque vocês têm tanto orgulho assim
você sempre me despreza
sei que sou negro
mas ninguém vai rir de mim
vê se entende
vê se ajuda
o meu caráter não está na minha cor
o que eu quero
não se iluda
o meu futuro é conseguir o seu amor.

***

 

BLACK IS BEAUTIFUL

Marcos Valle & Paulo Sergio Valle

Hoje cedo, na rua do Ouvidor
Quantos brancos horríveis eu vi
Eu quero um homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui
Que se integre no meu sangue europeu
Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful
Hoje a noite amante negro eu vou
Vou enfeitar o meu corpo no seu
Eu quero este homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui
Que se integre no meu sangue europeu
Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful

***

 

combat - mundo livre s.a

O AFRICANO E O ARIANO

Fred 04, Apolo 9 & Mundo Livre S/A

Há quatro séculos a alma africana tem sido um motor
da inquietação, da resistência, da transgressão
O negro sempre quis sair do gueto,
fugir da opressão fazendo história,
ganhando o mundo com estilo!
E é assim que a alma africana sobrevive
com brilho e vigor em todo o "novo continente".
O africano foi levado pra sofrer no norte e gerou,
entre outras coisas, o jazz, o blues, Gospel, soul,
R & B, funk, rock and roll, rap, hip hop
No centro, o suor africano fomentou o mambo, o ska ,
o calypso, a rumba, o reggae, dub, ragga,
o merengue e a lambada, dancehall e muito mais
Mas é o ariano que ignora o africano
ou é o africano que ignora o ariano?
E ao sul, a inquietude negra fez nascer,
entre outros beats, o bumba, o maracatu,
o afoxé, o xote, o choro, o samba,
o baião, o coco, a embolada.
Entre outros, os Jacksons e os Ferreiras,
os Gonzagas e os Pixinguinhas,
as Lias, os Silvas e os Moreiras
A alma africana sempre esteve no olho do furacão
Dendê no bacalhau, legítima e generosa transgressão
É Dr. Dre e é maracatu
É hip hop e é mestre Salú
Mas é o ariano que ignora o africano
ou é o africano que ignora o ariano?

***

 

MINHA ALMA (A PAZ QUE EU NÂO QUERO)

Marcelo Yuka (O Rappa)

A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
(Sêgo! Sêgo! Sêgo! Sêgo!)
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
(Medo! Medo! Medo! Medo!)

As vezes eu falo com a vida,
As vezes é ela quem diz:

"Qual a paz que eu não quero conservar,
Prá tentar ser feliz?"

As grades do condomínio
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão

Me abrace e me dê um beijo,
Faça um filho comigo!
Mas não me deixe sentar na poltrona
No dia de domingo, domingo!

Procurando novas drogas de aluguel
Neste vídeo coagido…
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

***

 

DECLARAÇÂO DE GUERRA

MV Bill

Hei mãe, acorda que o terror vai começar
Coloca a janta, pode ser a última sopa
Se eu não voltar, sorria
Vou em busca da alegria
Vou incentivando o ódio (quem diria)

É tudo pela salvação
Em nome da razão
Acenda a vela
É o código da rebelião

Os generais nem imaginam nosso plano
Pensam que é mais um engano
Jesus está voltando

Os pretos estão do lado de cá
São soldados mascarados aliados ao pppomar
Os diretores forjam as fugas
Tensão nas celas, bueiros, são verdadeiros sangue sugas

Libere a fuga diretor! solte os detentos
Pelados pelas rua escura, sem lamentos
A nossa tropa só tem doido,
Resto, lixo, bicho, praga
Vou jogar mais vinho na sua área

São pessoas que vivem na amargura
Não nos resta mais ternura
A batalha vai ser dura

Eu avisei que a guerra era inevitável
Pra quem tá na condição desfavorável

Subestimaram, pagaram pra ver, e tão vendo
Ignoraram a nossa coragem, tão morrendo

A violência não fui eu que inventei
Somos condenados a serviços de um rei

Chega de ouvir esse discurso social
Chega de ouvir a lenga lenga racial

Sou animal sou (sou), sou canibal sou (sou), eu sou letal
O verbo que populariza o mal

Vão tirando a fantasia de artista
Não tem mais carnaval
Acabou o show pra turista
Que venham vários pagodeiros e sambistas
A luta é o coração de um guerreiro ativista

Convoque os índios, convoque os canibais
Convoque os sonhos, dos nossos ancestrais

Vou invadir mais um hospício
Vivemos bem no precipício (que que isso)
Quero mais guerrilheiros pra esta noite
Vida longa para os pretos, fim do açoite
Vou maquinar mais homicídio para esse dia

Fim de vida aos brancos, da covardia
São Benedito por favor nos proteja
Tragam todos os fiéis que estão orando da igreja
Sem terra, sem teto, sem nada nos dentes
Sem fama, sem grana, sem luz, sem parentes

Se foi torturado – siga-me
Se tá rebelado – siga-me
Se tiver bolado – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me
Se cair seus dentes – siga-me
Se for estuprada – siga-me
Se o nome for maria – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me

Eu vou pedir mais orações aos crentes
A guerra é turva, e deus necessita estar com a gente
São meia noite o black-out é geral
Sirenes, apitos, breu total

Ficou pra trás a nossa dor
Lá no passado que restava todo amor
Uma criança pede o fim da guerra
Entre vermelhos e terceiros

Me lembra que somos brasileiros
Mais ideologia, menos conflitos
Não façam de nós mais um grupo de risco

O alemão não apita na favela
Confira você mesmo, e olhe pela sua janela
Fale seu partido preciso saber !
Pmdb, pt , satã ou tc ?

Se for de esquerda, não me contemplou
Se for de direita, me ignorou
Se for de bandido é um caso a pensar
Vou me filiar preciso arriscar

Adestrador prepare os cães, não dê comida,
Avise aos lobos que a pele é branca e a carne é viva

Fazendeiro não há mais tempo pra remorso
Vamos transformar seu paraíso em destroços

A luta é racial
A luta é social
Mais ninguém se espanta
Porque a guerra é santa

É preta, marrom, mestiça e branca
E quem não decidir em que lado está, vira planta

Eu sou ateu, protestante, sou judeu
Eu sou maçon, rosa cruz, e fariseu zulu

Eu sou a luz do universo em desencanto
Não sou mais nada só a voz do catalão

Levei 500 anos para entender esse país
Se querem me entender eu só queria ser feliz!

Maria dê veneno pra rainha sua patroa
Volte pro QG com as jóias da coroa
Agora cai por terra toda arrogância
Vamos celebrar viva a voz da ignorância

Deus vai perdoar , deus vai entender
Deus vai lhe ajudar, chega de padecer
De um lado humanos, do outro, humanos
Todos armados então são desumanos

Falam que a briga não nos leva a nada
O mar não tem cabelo, quem se afoga nada
Não dá pra exigir de quem não come nada
Aqui o seu diploma não vale de nada

Nós não somos nada
Nós não temos nada
Branco camarada, largue a espada

Acabou o desafio, não pode pensar
Imagino deve ser difícil aceitar
Essa guerra que já foi vencida
Solte suas armas e comece a despedida
Abaixe a cabeça, faça o último pedido
Peça qualquer coisa menos ser meu amigo
Não, não faz sentido
Sou herói, e o bandido?
A sirene tá gritando
Perigo

Os pretos que vão te julgar
Você tá na bola
E então comece a chorar
Devolva meu samba, a nossa cultura
A capoeira, o axé e a vida das pessoas que moram na rua
A história foi queimada ofendida
A morte é o fim, a guerra é a vida
Durante muito tempo eu vi o mundo girar
De braços cruzados esperando a morte chegar
Foi o despertar comece a sua prece
Dessa vez é vai ou racha
Ou dá ou desce

Se perdeu o juízo – siga-me
Tá no prejuízo – siga-me
Não quer ser escravo – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me
Já matou tarado – siga-me
Se perdeu o seu emprego – siga-me
Se foi derrotado – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me

 

branconegro

cartografias das literaturas africanas

abril 27, 2011 às 10:57 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ipotesi n14 grifo

A recentemente lançada edição 14 da Revista Ipotesi, conceituada publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora, reúne uma série de artigos voltados para discussão teórica e crítica acerca da ficção africana, destacadamente dos textos produzidos por autor@s de língua portuguesa. Nesse conjunto encontra-se um artigo meu, intitulado O sexo da “raça”: identidade, escravidão e patriarcalismo em A gloriosa família, de Pepetela, texto no qual discuto as articulações históricas e simbólicas constituídas entre racismo e sexismo no âmbito das sociedades escravocratas lusófonas, articulações que se convertem numa “economia política da sexualidade”, conforme os termos de Osmundo Pinho, que desempenha um papel central na regulação de conflitos e diferenças nas sociedades lusófonas pós-coloniais. O processo de construção cultural dessa economia pode ser visibilizado através de um estudo genealógico do excelente romance de Pepetela A gloriosa família, tal como me propus a fazer no artigo em causa.

breve roteiro comparativista

novembro 18, 2010 às 15:10 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Neste minicurso procuramos colocar em destaque algumas das questões teóricas e metodológicas relativas ao tipo de leitura contrastiva, atenta aos cruzamentos de diferenças, demandada pelos estudos comparativos contemporâneos, especialmente quando se trata de um trabalho interpretativo que enfoca as formas de alienação cultural derivadas do caráter dependente das estruturas nacionais brasileiras, caráter que pode ser tomado como uma das mais profundas heranças do colonialismo português. Nos links abaixo, indicam-se algumas fontes bibliográficas disponíveis na internet para aqueles que desejarem se introduzir no campo do comparativismo lusófono.

CARVALHAL, Tania Franco. Literatura comparada. 4.ed. rev. e ampliada. São Paulo: Ática, 2006.

CANDIDO, Antonio. Literatura e subdesenvolvimento. In: A educação pela noite & outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989.

SANTIAGO, Silviano. O entrelugar do discurso latino-americano. In: Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978.

SANTIAGO, Silviano. Apesar de dependente, universal. In: Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

Revista Brasileira de Literatura Comparada. n.11. Rio de Janeiro: Abralic, 2007.

OLIVEIRA FILHO, Jesiel Ferreira de. Leituras triangulares: racismo e alienação em literaturas lusófonas. In: Anais do Seminário Nacional Literatura e Cultura. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2009.

RUI, Manuel. Eu e o outro — o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto. (Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, 23/05/1985)

ALEGRE, Manuel. Lusíada exilado. In: Praça da canção; O canto e as armas. 2.ed. Lisboa: D. Quixote, 2003.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Que país é este?. In: Que país é este?. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

RUI, Manuel. Poesia necessária. In: 11 Poemas em Novembro. Luanda: Ed. Lavra e Oficina, 1976.

RUI, Manuel. Mar novo. In: Cinco vezes onze poemas em novembro. Lisboa: Edições 70, 1985.

RUI, Manuel. Os meninos do Huambo.



SELEÇÃO DE VOLUNTÁRIOS PARA INICIAÇÃO CIENTÍFICA

julho 15, 2010 às 23:53 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ProjetoUFS color2

Projeto PICVOL 2010-2011

LEITURAS TRIANGULARES:

memória colonial, mestiçagem e relações étnicorraciais em literaturas lusófonas

Requisitos:

· interesse por um estudo culturalista das literaturas brasileira, portuguesa e angolana;

· MUITA disposição para a leitura de textos ficcionais e teóricos!

· estar regularmente matriculado em curso de graduação da UFS e ter média geral ponderada (MGP) maior ou igual a 7,0;

· não possuir outro tipo de atividade (a exemplo de estágio e monitoria) na UFS, nem estar recebendo outra modalidade de bolsa

COORDENADOR: Prof. Jesiel Oliveira (Departamento de Letras de Itabaiana)

Candidat(as)os devem marcar entrevista enviando um email para jesielf@yahoo.com.br até o dia 19/07. Da mensagem deverá constar uma breve apresentação justificando o interesse nesta pesquisa. Para maiores informações sobre o projeto, clique AQUI.

“Jornada de África”: um roteiro de leitura

julho 2, 2010 às 1:31 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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jornada de africa_alegre      manuel_alegre1       jornada jeronimo

Muitos são os tempos, os espaços e as possibilidades interpretativas que se entrecruzam no romance de Manuel Alegre que esteve em foco durante o curso de Literatura Portuguesa IV deste semestre. Tal como sugere-se desde a titulação desta obra, que dialoga intertextualmente com a crônica sobre a batalha do Alcácer-Quibir publicada por Jerônimo de Mendonça em 1607 (clique no link à esquerda para saber mais), a reconstrução ficcional do cenário da guerra independentista angolana serve para mobilizar um amplo trabalho de revisão crítica do passado — ou de  anamnese, nos termos de Margarida Calafate Ribeiro –- cujo foco são as relações entre os resultados políticos e culturais do colonialismo português e o fracasso do ideal civilizacional que serviu de legitimador para os “descobrimentos” e para a expansão imperial lusitana. No desenrolar do enredo do romance, esse trabalho anamnésico é dinamizado pelo entrelaçamento entre representações simultaneístas de lugares e de memórias históricas, formações discursivas polifônicas e reflexões metaliterárias, constituindo um painel no qual os percursos trilhados pelo alferes Sebastião também abrem questionamentos cruciais sobre a identidade nacional portuguesa, conforme sintetiza Ribeiro:

Ao longo destes primeiros contatos com o mundo da Guerra Colonial a escrita da história presente de Sebastião vai sendo feita com elementos que sucessivamente o descentram e simultaneamente se cruzam com fragmentos de uma história colectiva presente e passada, cujos sinais Sebastião vai decifrando até compor um puzzle que vai identificando esse tempo ambíguo e absurdo com o tempo do malogrado desastre do Alcácer-Quibir. Desde a partida que Sebastião estava inquieto com esses elementos do passado que entravam no seu presente como se a ele pertencessem: são os nomes de seus companheiros, as viagens, os desembarques, os discursos manipulados com resquíscios de guerra santa na reunião de oficiais, o ritmo da guerra ou as ‘misteriosas coincidências’ que vão tornando a sua história não uma história actual, mas a reescrita de uma história onde o passado permanentemente se presentifica e em que a perda do reino por Sebastião-rei é transferida para uma perda de si mesmo (RIBEIRO, Uma história de regressos, p.349).  

No MUJIMBO, blogue afro-irmão do LUSOLEITURAS, estão disponíveis mais informações sobre este enigmático romance e os variados contexto que através dele se articulam, dê um saltinho lá clicando AQUI, ou AQUI, ou AQUI, ou AQUI… Boa jornada!! No prosseguimento da leitura do romance, atentar para os capítulos que estão destacados na lista abaixo, capítulos nos quais a reflexão literária empreendida por Manuel Alegre alcança seus momentos mais intensamente significativos.   

 

capítulo 1: INTRODUÇÃO      {“Não ao escrever-se desvivendo”}

capítulo 2: TRAVESSIA ATLÂNTICA / ENCONTRO COM BÁRBARA      {“Há muito que a tribo não tem senão uma vida vidinha”}

capítulo 3: CHEGADA EM ANGOLA / MORTE DE LEANDRO

capítulo 4: LUTO POR LEANDRO       {“É preciso ser contra isto para ser por isto”}

capítulo 5: RETRATOS DA GUERRA

capítulo 6: ENCONTRO COM O COMANDANTE

capítulo 7: ENCONTRO COM OS CENTURIÕES / DEBATE SOBRE O ALFERES ROBLES

capítulo 8: AULA DO CAPITÃO GARCIA / DISCURSO LUSOTROPICAL      {“Há sempre um homem de fé para nos livrar das penas do inferno. Mesmo que por vezes tenha de nos queimar o corpo”}

capítulo 9: A REPRESSÃO EM PORTUGAL / ENCONTRO COM O ESCRITOR      {“Sou um sebastianista do avesso”… “quem não Alcácer, não alcança”}

capítulo 10: A MORTAL ROTINA DA GUERRA

capítulo 11: NOTICIÁRIO COLONIAL

capítulo 12: A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR      {“Ir à guerra ou não ir, eis a questão. O social sobrepõe-se ao individual”}

capítulo 13: O ESCRITOR E O CORONEL

capítulo 14: LÁZARO EM ANGOLA

capítulo 15: ENCONTRO COM MALDONADO / AS MENSAGENS DE PANZO DA GLÓRIA      {“A guerra não existe, um dia vais ver que nunca existiu”}

capítulo 16: SEBASTIANISMO E ANTI-SEBASTIANISMO / MORTE DE MALDONADO      {“se te chamas Sebastião não te esqueças que és um Sebastião anti-sebastianista e anticolonialista”}

capítulo 17: A EMBOSCADA DE DOMINGOS DA LUTA

capítulo 18: NOTICIÁRIO COLONIAL

capítulo 19 : A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR

capítulo 20 : A MORTAL ROTINA DA GUERRA

capítulo 21: REENCONTRO COM BÁRBARA / AMORES LUSOTROPICAIS      {“A nossa cultura é uma cultura de mestiçagem”… “Aquela cativa que me tem cativo”}

capítulo 22: AMPUTAÇÃO DE JORGE DE ALBUQUERQUE / CONFISSÕES DE BÁRBARA

capítulo 23: PARTIDA DE SEBASTIÃO

capítulo 24: SEBASTIÃO EM NAMBUANGONGO

capítulo 25: SEBASTIÃO X DOMINGO DA LUTA      {“Trinta e Nove sempre a fazer perguntas, Domingos sem paciência para lhe responder, está farto de lhe explicar que o inimigo não é o branco, a cor da pele não interessa, o inimigo é o colonialismo, Trinta e Nove quer saber a cor que tem o colonialismo”}

capítulo 26: HORRORES DA GUERRA COLONIAL / CARTA DE BÁRBARA / IDENTIDADES DIVIDIDAS      {“Assim, ao longo dos séculos, o objectivo da política de integração multurracial tem consistido em reger, a partir de sofismas, as relações entre grupos étnicos e sociais em conflito”}

capítulo 27: HORRORES DA GUERRA COLONIAL: A ORELHA CORTADA

capítulo 28: SEBASTIÃO INDIGNADO

capítulo 29: A REPRESSÃO EM ANGOLA

capítulo 30: A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR

capítulo 31: QUESTIONAMENTOS NACIONALISTAS      {“o racismo de muita gente que se desforra aqui das frustrações vividas em Portugal, qualquer analfabeto branco sente-se superior a um preto licenciado”}

capítulo 32: BÁRBARA EM PARIS      {“Tenho dono”}

capítulo 33: REENCONTRO COM O POETA      {“Portugal fez-se para fora, não sei se conseguirá regressar, ou melhor, não sei se voltará, se é que se pode voltar de uma viagem assim”… “Talvez o Quinto Império seja afinal o fim de todos os impérios. O Grande Império do Avesso, o Anti-Império”}

capítulo 34: BÁRBARA EM PARIS

capítulo 35 : SEBASTIÃO x DOMINGOS DA LUTA: O ENCONTRO FINAL      {“Ele é que já não faz o que a escrita quer. Talvez seja a guerra tão pouco programada e tão imprevisível”}

panfleto anticolonial(panfleto do movimento anti-colonial português)

d sebastiao 

(D. Sebastião)

re-caracterizando o Barroco

maio 9, 2010 às 12:26 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Agudeza_y_arte_de_ingenio

Um pequeno esquema para ajudar-nos a sistematizar alguns conceitos e questões trabalhadas desde o início do curso. Compare o esquema proposto abaixo com as versões disponíveis nos sites de vestibulares: o que há de diferente? alguma coisa se modificou em sua forma de encarar as qualidades geralmente atribuídas à estética barroca? Fundamental, também, é buscar poemas nos quais seja possível visualizar as diversas dimensões e figurações dos elementos relacionados a seguir.

esquema barroco

baroque-wedges_49 (sapato barroco)

mini-curso de literatura angolana

novembro 1, 2009 às 22:05 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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gloriosa extensão cultura

Dando suporte ao mini-curso que ministrarei durante a VI SEMEX, seguem-se uma série de links que remetem a alguns dos textos a serem discutidos em nossos encontros. Esta atividade tem como principal objetivo veicular conteúdos e referências bibliográficas úteis para as aplicações da Lei 11645 baseadas no trabalho com a criativa e questionadora literatura angolana contemporânea. No âmbito dos objetivos da Lei, esses textos se mostram especialmente interessantes para a releitura dos processos formadores da sociedade brasileira, possibilitando o estudo contrastivo de dinâmicas estratégicas como as relações de poder escravagistas e a mestiçagem.

A partir do dia 5/11 estará disponível na xerox do campus de Itabaiana uma pasta contendo diversos textos que abordam a temática do curso sobre os pontos de vista histórico, literário e culturalista. O programa completo pode ser acessado AQUI.

Apesar da carga horária sintética, o curso se empenhará em ampliar nossos conhecimentos acerca da realidade angolana, também reconstituindo e explicitando os profundos laços geo-histórico-culturais que irmanam esta nação africana ao Brasil. Uma pioneira visão sistêmica acerca dessas relações pode ser lida na introdução de Luanda, “ilha” crioula, livro assinado pelo literato angolano Mário António Fernandes de Oliveira. Para acessar este texto, clique AQUI

No romance que discutiremos, A gloriosa família, publicado em 1998, ressaltam-se formas inventivas de representação literária dos efeitos do racismo sobre a subjetividade do negro e do valor cultural da oralidade. No intuito de embasar a exploração desses temas, recomenda-se a leitura dos textos listados abaixo:

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Visibilidade e ocultação da diferença: imagens de negro na cultura brasileira. In: FONSECA (org.). Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p.87-115.

OLIVEIRA FILHO, Jesiel Ferreira de. Narrando em silêncio: resistência e ressignificação em A gloriosa família. Feira de Santana: Seminário Dias de África, 2003.

RUI, Manuel. Eu e o outro — o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto. (Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, 23/05/1985).

ROCHA, Roberto Ferreira da. Resgate de vozes distantes: A gloriosa família. In: Metamorfoses. v.1. Rio de Janeiro: Editora Cosmos; Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros (UFRJ), 2000. p.172-178.

Muita informação sobre Angola e a literatura do país pode ser obtida navegando-se pelo MUJIMBO, o blogue-irmão do LUSOLEITURAS. Para visitá-lo, clique AQUI e pesquise pela palavra-chave “Angola”.

BOAS LEITURAS & até sexta-feira.

angola brasil

extensão & cultura

outubro 29, 2009 às 11:30 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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extensao&cultura

Mais um evento na nossa universidade que põe em primeiro plano as pesquisas voltadas para as questões identitárias. Clicando na imagem acima, ou logo ao lado, visite o sítio da VI Semana de Extensão, nesta edição desenvolvendo o tema Extensão e Cultura, e confira a diversificada programação que se estende por todos os campi da UFS. Em Itabaiana, terão lugar apresentações artísticas, oficinas, mini-cursos, palestras & exposições  que abordam as expressões da cultura em suas múltiplas dimensões: como performance, como ritual, como produção de artefatos e de saberes, como técnicas, memórias e vida cotidiana. A organização da VI Semana convida os estudantes interessados a trabalhar como monitores do evento, quem quiser se inscrever procure a pedagoga Luciane na Secretaria dos Núcleos. Também ainda existe espaço para a inclusão na programação de entidades e atividades artísticas representativas da cultura sergipana, se você conhece algum grupo, contate a Luciane. 

No mini-curso que estarei oferecendo entre os dias 6 e 7 de novembro, focalizaremos uma obra literária – o romance A gloriosa família, do escritor angolano Pepetela — na qual ficção e história se entrelaçam para a construção de um olhar inovador sobre o passado colonial partilhado por Brasil e Angola, colocando em destaque o ponto de vista de um africano escravizado sobre o sistema cultural e político a partir do qual foram geradas essas nações. Em paralelo a esse trabalho de releitura crítica da história, o romance de Pepetela proporciona um eloquente testemunho sobre a luta do oprimido contra as forças que pretendem desumanizá-lo, sobretudo as ideologias racistas, mostrando como a aparente passividade pode converter-se numa poderosa arma de resistência e de resgate da dignidade. Laureado com o Prêmio Camões em 1997, largamente reconhecido como um dos mais importantes autores da Literatura Angolana, contando com várias edições de suas obras no Brasil, Pepetela  também está entre os escritores africanos mais estudados nas universidades brasileiras. O romance que discutiremos já integrou a lista de textos literários recomendados para o vestibular da Universidade Federal da Bahia, existindo uma ampla bibliografia analítica, inclusive disponível na web, acerca dele. Novas postagens serão feitas em breve no LUSOLEITURAS e no MUJIMBO (clique aqui e saiba muito mais sobre Angola), tendo em vista oferecer suporte ao mini-curso.  

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memórias & polêmicas da lusofonia

setembro 10, 2009 às 0:36 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A comunidade de países de língua portuguesa: A base lingüística e material

Por Fernando Augusto de Albuquerque Mourão

Diante de um mundo onde se registram fortes tendências à supranacionalidade, o uso do português em diferentes regiões do planeta, surge como um elemento unificador das posições de cada estado lusofalante nas suas inserções, não excludentes, em outros espaços regionais.

Entre as perspectivas de globalização e de regionalização – mormente de natureza econômica – surgem perspectivas culturais, em que o uso da língua tem um papel fundamental, levando-se em conta, como limite, a percepção catastrófica de Samuel Huntington de que o mundo de hoje, flutuante, tende, no futuro, para conflitos envolvendo civilizações ao contrário do que pensa Francis Fukuyama ao anunciar o fim da história, reanunciando a paz kantiana.

O ensino e uso da língua constituem, outrossim, um dos temas centrais da diplomacia cultural, instrumento de política externa e tema que tem sido aproveitado por vários países, como a França e a Turquia, ora como forma de resistência, ora como meio de preservar ou até de aumentar o prestígio internacional. No caso da França, é curioso assinalar que as literaturas africanas em língua francesa, que foram um fator de resistência por parte dos africanos no recém passado colonial, são hoje apresentadas como pertencentes ao conceito amplo da francofonia. Sabendo-se que os estados nacionais africanos são na maior parte dos casos, o resultado de uma divisão imperial consolidada na chamada Conferência ou Congresso de Berlim (1894-1895), e, realisticamente, prevista pela alínea 7 do preâmbulo da Carta da Organização da Unidade Africana (1963) numa clara opção pelo clássico princípio do uti possidetis juris, é natural que continuassem a utilizar a ex-língua imperial como língua oficial, tendo em vista vários motivos, entre eles, o da unidade nacional.

A França lança mão de vários mecanismos institucionais, entre eles, a Alliance Française, utilizando a língua não só como instrumento de cultura, mas também como instrumento político, consolidando um espaço importante. A Turquia, por sua vez, vem fazendo algo semelhante ao divulgar sua língua em todo o espaço turcófono que se estende até a fronteira com a China, “criando condições para transformar a Turquia num elo entre a Europa e a Ásia Central”.

As aproximações através do uso da língua portuguesa não excluem o estudo e ensino das línguas nacionais africanas em espaços plurinacionais que, possivelmente, ultrapassadas a fase do processo da paz e da transição democrática, estarão sensíveis ao tema do federalismo – mormente em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique – um tema universal, que, por razões históricas, não se registra no arcabouço institucional português. Este tema, que certamente surgirá no futuro, mas como desdobramento de situação substantiva, a ser tratado a curto prazo, poderá levar a fragmentações indesejáveis. A evolução desta temática tangencia o princípio da tolerância envolvendo não só os atores internos, como os atores externos.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em boa hora impulsionada pelo Embaixador José Aparecido de Oliveira, encontra no patrimônio comum da língua portuguesa nas suas variantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique e São Tomé e Príncipe, uma base na diferença, mas, principalmente nas expectativas do futuro, permitindo através de um vocabulário de 300-400 mil palavras o acesso à sociedade industrial.

A dinâmica da língua portuguesa:

O português, a exemplo das línguas impostas no espaço colonial, foi também uma língua glotocida, sobretudo no espaço americano. Apresenta, ademais, uma característica fundamental: trata-se de um idioma que demonstrou e demonstra vitalidade, sendo capaz de incorporar as variantes do vocabulário africano e ameríndio. Vários autores registraram a influência de vocábulos africanos, entre eles Antônio Houaiss , Celso Cunha e Lindley Cintra ou ainda dicionaristas como Laudelino Freire. Em relação aos vocábulos ameríndios, podem-se citar mais especificamente Antenor Nascentes , Antônio Geraldo da Cunha e Joaquim Mattoso Câmara Jr.

O português, no passado, contribuiu para a formação da chamada língua de comércio, da qual Celso Cunha tratou ao estudar os crioulos de influência portuguesa. Este eminente filólogo demonstrou, também, o seu desenvolvimento nos séculos XVI, XVII e XVIII, a que ele chama de protocrioulos, seja na Ásia , seja na África , seja na América. Ao preparar glossários de escritores africanos de língua portuguesa, tarefa que em boa parte das vezes levei a cabo com a colaboração dos autores dessas obras, verifiquei que, em alguns casos, vocábulos em línguas africanas haviam sido aportuguesados por alguns autores e, em alguns outros, essa influência se estendia à sintaxe.

Além dessa plasticidade do português, registra-se, no Brasil, a persistência, em práticas religiosas, de línguas africanas dos espaços sudanês e bantu, como por exemplo, o candomblé. Nos quilombos, onde se aglutinaram escravos falantes de várias línguas africanas, a sintaxe portuguesa foi-lhes parcialmente incorporada. Influências africanas em relação ao português do Brasil foram objeto de estudo de vários autores, entre os quais podemos citar Renato Mendonça e Yeda Pessoa de Castro. O privilegiamento da contribuição sudanesa sobre a participação bantu na cultura brasileira – que se deve a vários fatores históricos de que já tratei em outras ocasiões – resulta numa aparente desproporção entre as duas línguas. O universo da contribuição bantu à cultura brasileira constitui um campo a ser estudado prioritariamente como elemento de investigação entre as relações do Brasil com a África Austral.

O estudo minucioso das línguas africanas e dos linguajares africanos no Brasil deverá constituir um alvo prioritário das ciências da linguagem. Não é mais aceitável apenas a pesquisa etimológica; urge uma investigação de fatos linguageiros mais amplos. Quanto aos linguajares africanos ou de origem africana, utilizando várias línguas africanas – o que é natural, uma vez que os escravos eram cuidadosamente divididos para se evitar uma potencial formação de grupos coesos –, alguns estudos têm destacado o processo de formação dessas línguas. Gerhard Kubik, etnólogo da Universidade de Viena, com experiência de campo tanto em países africanos como no Brasil, escreveu vários trabalhos sobre o tema , o qual ultimamente passou a ser tratado pela Professora Margarida Maria Taddoni Petter, com a colaboração do Professor Emílio Bonvini.

Numa época em que os países se dividem entre os que detêm o saber tecnológico e os que não têm acesso a esse saber; num mundo em que, portanto, a tecnologia é um divisor de águas – como o foram a religião e a civilização no passado –, convém realizar projetos de pesquisa sobre a influência africana no campo das técnicas agrícolas e mineralógicas, campo em que os africanos tiveram no Brasil uma contribuição digna de registro.


No que tange às influências técnicas do Brasil em relação à costa africana ocidental, pode-se lembrar a ressonância da arquitetura colonial portuguesa, já adaptada ao Brasil, presente no Brazilian Quarter, em Lagos, em Porto Novo e em outras cidades africanas. Constatam-se influências lingüísticas ligadas à tecnologia da construção, pela presença dos artesãos, ex-escravos que se tornaram o embrião da formação das burguesias locais no final do século passado.

Manifestando sua condição de língua dinâmica, o português não só incorporou, como já dissemos, centenas de vocábulos de origem africana e ameríndia, como serviu aparentemente de suporte sintático às línguas criadas nos quilombos do Brasil colonial, além da sua contribuição à formação do protocrioulo ou crioulos portugueses. O português, no plano horizontal, apresenta variantes na acentuação e no léxico (estas decorrentes não só os regionalismos, como ainda da persistência de arcaísmos). O processo da unificação da norma culta necessita tanto do Acordo Ortográfico, como de um amplo esforço no campo do ensino e aprendizado da língua portuguesa.

A importância da língua portuguesa:

Somente com uma língua de cultura, como diria o insigne filólogo e lexicógrafo Antônio Houaiss, se podem estudar disciplinas como Física, Química, História Natural e Filosofia. No planeta, hoje, contam-se cerca de 10 mil línguas; dessas, porém, classificam-se como língua de cultura ampla não mais de meia centena. Ou seja: apenas essas poucas línguas – que congregam um vocabulário de aproximadamente 400 mil palavras, com uma tradição literária e gráfica muitas vezes bimilenar – podem ensejar a transição de uma sociedade industrial para um estádio posterior, de sociedade pós-industrial. A transição para a Terceira Revolução Industrial acontecerá apenas nos países em que o nível educacional permite a seus nacionais a compreensão da complexidade do mundo moderno. O repto é considerável, e o combate ao analfabetismo é conditio sine qua non para a solução dos problemas dos países em desenvolvimento.

Nota-se, então, que o conhecimento do português – também uma língua de cultura, de importante cabedal vocabular – se mostra essencial, para o seu pleno desenvolvimento econômico. O bom conhecimento lingüístico permitirá, ademais, o incremento do intercâmbio comercial e científico entre os países lusofalantes. Este é, a propósito, um dos objetivos fulcrais da formação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

O português é hoje a sétima língua mais falada do mundo – o francês ocupa a oitava posição – e a terceira língua mais falada no Ocidente, além de ser a língua oficial de várias organizações internacionais. Cabe aos países lusofalantes empreender esforços para que a língua portuguesa seja adotada como língua de trabalho nas organizações internacionais, papel que a criação de uma Comunidade de Países de Língua Portuguesa poderá reforçar.

Entre as perspectivas de regionalização e de globalização – mormente de natureza econômica – surgem perspectivas culturais, em que o uso das línguas tem um papel fundamental, até porque os espaços regionais não são excludentes. A língua tem o papel de liame, aproximando culturas, algumas de natureza tridimensional, como é o caso da cultura brasileira, e dando substantividade a espaços localizados em três continentes, para não falar de presenças históricas.

As percepções relativas ao espaço de língua portuguesa, com exceção de situações limite como a da redução da importância do português no caso de uma opção exclusiva pela Europa – tese pessimista –, ou então a do recrudescimento da língua pela presença em novos espaços, como por exemplo, em Luxemburgo em que, no final do milênio, a população lusofalante tende a ultrapassar a população francófona – tese otimista –, incorporam várias vertentes em relação à norma culta do português europeu: português de Angola, do Brasil, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique e de São Tomé e Príncipe.

Como língua de cultura, com um vocabulário amplo, o português é falado e escrito como língua materna em Portugal e no Brasil, nos países africanos que conquistaram as suas independências nacionais nos anos 70. É em português que se exprimem expoentes das correntes literárias nacionalistas. Em África, o português, cujo ensino tem sido uma das preocupações dos governos pós-independências, pode ser considerado no futuro uma língua nacional, tal como as línguas africanas que, na medida em que passam a ser estudadas, certamente também irão ocupar o espaço que lhes é devido.

Para ler o texto completo no site da Casa das Áfricas, clique AQUI.

mujimbando: rotas luso-angolo-brasileiras para leituras das identidades

setembro 3, 2009 às 20:22 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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mujimbo rosa-dos-textos

O blogue LUSOLEITURAS tem um irmão mais velho, o blogue MUJIMBO, que pus no ar no ano passado, para subsidiar cursos que ministrei nas universidades Federal e do Estado da Bahia. Tal como esclareço na Descrição desse blogue, pretende-se nele construir um ponto de vista africanista & angolanizado para as questões lusófonas. Principalmente para os estudantes da LitPort 1, o MUJIMBO oferece um conjunto diversificado de referências úteis para aprofundar os temas desta disciplina. Clicando nos links você será remetid@ para uma postagem do MUJIMBO na qual é possível acessar o texto “Você tem cultura?”, do antropólogo brasileiro Roberto  DaMatta, leitura especialmente interessante para decidir até que ponto é sociologicamente correto falar em “baixa” & “alta” cultura, em culturas “primitivas” & “desenvolvidas”. Também recomendáveis & disponíveis são “Eu e o outro”, do escritor angolano Manuel Rui, & “O entrelugar do discurso latino-americano”, do crítico brasileiro Silviano Santiago, textos que, se valendo de perspectivas & expressões distintas, problematizam as relações entre cultura, identidade & memória colonial.

Para quem desejar ampliar a navegação no MUJIMBO, recomenda-se, como disse, a leitura da Descrição &, de seguida, acessar todas as postagens, que estão ordenadas de forma progressiva & remetem a percursos variados para o conhecimento das literaturas & culturas lusófonas. Fiel às suas matrizes africanas, há também muita música no MUJIMBO, muitas canções que confirmam o enorme poder de tradução da música popular para as significações & os problemas centrais dos imaginários tropicas.

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