educando para a diferença
junho 10, 2011 às 23:50 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: direitos humanos, discriminação, educação, formação do professor, políticas afirmativas
Direitos humanos deverão ser ensinados nas escolas
Os alunos do ensino básico poderão ter uma nova disciplina no próximo ano: os direitos humanos, em busca de uma escola livre de preconceitos, violência, abuso sexual e intimidação. As diretrizes nesse sentido estão sendo elaboradas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), conforme anunciou nesta quinta-feira (9) o representante do colegiado, Raimundo Feitosa, em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH).
- Hoje e amanhã, o conselho está realizando uma reunião técnica, com vários especialistas do Brasil, para que nós foquemos melhor e discutamos melhor a elaboração de conceitos, a elaboração de políticas, de caminhos que sejam capazes de trazer para nós uma diretriz em educação de direitos humanos que seja, de fato, consensuada, porque se trata de uma matéria extremamente sensível, extremamente complexa – disse Feitosa, anunciando também a realização de audiências públicas para debater o tema no país todo.
A intenção de incluir os direitos humanos no currículo do ensino básico foi anunciada no ano passado pelo então ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência (SDH), Paulo Vannuchi.
O assunto é objeto de pesquisa em 5.565 secretarias municipais de educação, realizada por uma organização não governamental, a Gajop, a pedido da SDH. Iniciado em fevereiro, esse levantamento deverá ser concluído em setembro.
Os objetivos gerais e específicos da pesquisa, bem como sua síntese metodológica, foram expostos aos senadores da CDH, em reunião presidida por Humberto Costa (PT-PE) e Ana Rita (PT-ES).
Municípios
Ana Paula Portela, do Gajop, apresentou estudos preliminares, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicando que os princípios de direitos humanos já são incorporados pelos planos de educação de quase 40% dos municípios. Porém, na maioria (60%), estão ausentes.
O senador Humberto Costa disse que a pesquisa do Gajop pode traçar um quadro real da educação em direitos humanos no Brasil, e o representante do CNE acenou com a possibilidade de uma parceria com o objetivo de viabilizar a implantação da disciplina nas escolas.
Diretrizes
A senadora Marta Suplicy (PT-SP) observou que é a primeira vez que se fez uma pesquisa desse tipo no país. Para ela, o difícil mesmo será elaborar as diretrizes e colocá-las em prática no dia a dia das escolas.
Marta Suplicy citou sua experiência de trabalho como psicóloga, em conjunto com Paulo Freire, quando este foi secretário de Educação no município de São Paulo (gestão Luíza Erundina). As maiores barreiras encontradas na época eram as questões relacionadas a preconceito racial e sexualidade.
Segundo ela, o preconceito racial começou a ser superado com leituras de obras que resgatam a contribuição da raça negra na história do país. A questão da sexualidade, acrescentou, exigiu um acompanhamento contínuo da formação do próprio professor.
A pesquisa está sendo realizada com o objetivo de colocar em prática o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), cujos conteúdos referenciais podem ser acessados aqui. A questão básica do levantamento é saber como os princípios e as ações programáticas do PNEDH estão contemplados na política educacional dos municípios brasileiros.
FONTE: Djalba Lima / Agência Senado
diferença linguística, preconceito e poder no Brasil
maio 28, 2011 às 22:21 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: discriminação, língua portuguesa, livro didático, política
A propósito da polêmica acerca do “livro que ensina a falar errado”, vale a pena conferir no vídeo abaixo, produzido pela Univesp TV, as certeiríssimas considerações do professor José Fiorin, autor de referência para a discussão das relações entre linguagem e poder. Na sequência, leia o posicionamento oficial adotado pela Associação Brasileira de Linguística (Abralin) sobre a questão.
Língua e Ignorância
Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA – ABRALIN – vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.
Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.
O fato que, inicialmente, chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania . Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português.
A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.
Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam. Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas "noscum" e "voscum", estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado "latim vulgar", originaram respectivamente as formas "conosco" e "convosco".< /FONT>
Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígi o que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o descon hecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.
Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser "corrompida" ou "assassinada", que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer "o livros". Assim também, de modo bastante generali zado, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "vou comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam ‘dô’ para ‘dor’. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos "vou comprá" precisamos escrever "vou comprar". E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.
Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.
Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.
Maria José Foltran
Presidente da ABRALIN
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Secretaria Abralin/Gestão UFPR 2009-2011
as ambiguidades da expansão civilizadora
novembro 26, 2010 às 11:06 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Camões, descobrimentos, discriminação, exercício, expansão marítima, Lusíadas, narrativas identitárias
Acima temos uma reprodução do quadro “Descobrimentos”, pintado pelo artista polonês Thomas Kostecki por ocasião das comemorações dos 500 anos da chegada da frota de Vasco da Gama às Índias. Este pintor compôs toda uma série de obras (clique na imagem para ver as outras) que glorificam a Expansão Marítima portuguesa, sendo que o quadro aqui destacado bem parece inspirado num famosíssimo verso do Canto 2 de Os Lusíadas, no qual o deus Júpiter profetiza para a filha Vênus que, na sequência de suas viagens, os portugueses “novos mundos ao mundo irão mostrando” (conferir estrofe 45).
Como já vimos, o grande épico de Camões também constrói um discurso enaltecedor da Expansão, embora em alguns momentos o poeta se mostre inquieto, ou mesmo um tanto crítico, em relação aos efeitos históricos e culturais das descobertas. Ciente de que se tratou de um feito decisivo para a história nacional portuguesa, Camões, que também foi um dos mais eruditos intelectuais de seu tempo, estava atento ao fato de que a construção do Império Português, ideologicamente dinamizada pela missão evangelizadora e por um projeto civilizador, não deixava de assumir dimensões bastante violentas quando os portugueses deparavam-se com povos detentores de culturas muito diferentes, em geral tomadas como bárbaras.
Neste outro quadro, intitulado “Vasco da Gama”, a despeito da permanência da intenção homenageadora, o artista polonês, um pouco semelhantemente a Camões, parece deixar extravasar, em sua releitura dos significados da viagem, uma percepção de seus resultados problemáticos, se atentamos para a estranha representação dos indianos na tela, cabisbaixos e como que transformando-se em fantasmas. Uma análise contemporânea poderia inquirir: será que a “civilização” levada pelas naus de Vasco da Gama às Índias não produziu efeitos destrutivos na cultura indiana, assim como ocorreu com os indígenas do Brasil descoberto por Pedro Álvares Cabral? Vejamos como também António Saraiva realiza uma análise ambivalente da Expansão e de sua ideologia civilizadora. Segundo ele, para os navegadores lusitanos:
O mundo aparece como objecto de conhecimento tal como os Mouros e Bárbaros são objectos de conquista e as mulheres objecto de caça. Encontramos uma separação do sujeito e do objecto que é uma característica essencial da civilização ocidental – a mesma característica que, depois, na fase burguesa, propiciará o progresso científico e tecnológico que tornará possível a conquista do Mundo pelos Europeus e finalmente as viagens interplanetárias. (…)
Por este lado, Os Lusíadas merecem ser considerados como o grande manifesto da civilização ocidental no seu espírito permanente, da Idade Média até os nossos dias.
Mas desse espírito representam também o lado negativo: a incapacidade de sair de si mesmo para se identificar com o Outro. (“Introdução a Os Lusíadas”, p.19)
O crítico literário brasileiro Silviano Santiago faz uma análise bem mais severa do que a de Saraiva acerca do que significou efetivamente para os europeus “civilizar” outros povos, conforme se pode ler abaixo:
A colonização pela propagação da Fé e do Império é a negação dos valores do Outro (Camões infelizmente não foi bastante lúcido para perceber que a moeda tem duas faces). A tripla negação do Outro para ser mais preciso. Primeiro: do ponto de vista social, já que o indígena perde a liberdade, passando a ser súdito de uma coroa européia. Segundo: o indígena é obrigado a abandonar o seu sistema religioso (e tudo o que ele implica de econômico, social e político), transformando-se — pela força da catequese — em mera cópia do europeu. Terceiro: perde ainda a sua identidade lingüística, passando gradativamente a se expressar por uma língua que não é a sua. (“Por que e para que viaja o europeu?”, p.225)
Considerando esse conjunto de posicionamentos, procure elaborar um texto, ou organizar ideias, tendo em vista interpretar as estrofes transcritas abaixo do Canto 1 (estrofes 44-46). Que imagens identitárias podemos ver associadas, por uma lado, aos portugueses “descobridores” e, por outro, ao grupo de africanos com que estes se cruzaram quando a frota do Gama alcançou Moçambique? Confira na paráfrase desse versos feita por Saraiva, ou pesquise na internet, o que significam as referências a Faéton, o Pado e Lampetusa.
Vasco da Gama, o forte Capitão,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo coração,
A quem Fortuna sempre favorece,
Pera se aqui deter não vê razão,
Que inabitada a terra lhe parece.
Por diante passar determinava,
Mas não lhe sucedeu como cuidava.
Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batéis, que vêm daquela
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroça e, de alegria,
Não sabe mais que olhar a causa dela.
- «Que gente será esta?» (em si diziam)
«Que costumes, que Lei, que Rei teriam?»
As embarcações eram na maneira
Mui veloces, estreitas e compridas;
Ás velas com que vêm eram de esteira,
Düas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira
Que Fáëton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado e não prudente
(O Pado o sabe e Lampetusa o sente).
Seria correto afirmar que a relação estabelecida no poema entre o mito de Faéton –- um bom exemplo daquilo que Stuart Hall chamaria de “narrativa da tradição” — e a origem das pessoas de pele escura reforça a idéia de que os europeus não tinham preconceitos contra os africanos e que os contatos dos portugueses com esses povos guiaram-se sobretudo por intenções universalistas?
Brasil & Portugal: polêmicas & ressentimentos
outubro 18, 2009 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: descobrimentos, discriminação, exercício, herança colonial, identidade, lusofonia, narrativas identitárias, Portugal, vídeo
Como se pode observar no artigo abaixo do jornalista Clóvis Rossi, novamente os incidentes entre brasileiros e portugueses fazem emergir diversas imagens identitárias que refletem, sobretudo quando buscamos lê-las em seus reversos, os traumas não-resolvidos do passado colonial. Um ótimo exercício para @s estudantes da LitPort1 seria compor uma breve redação discutindo a polêmica em causa e posicionando-se quanto a ela. Que motivos teriam os brasileiros para cultivar tanto rancor em relação ao povo que, alegadamente, nos “descobriu”? Como entender a postura portuguesa de repúdio a esses sentimentos?
Brasileiros e portugueses, nada a ver
Clóvis Rossi, Folha de São Paulo, 14/10/2009
O comentário sobre a irritação dos portugueses com um vídeo gravado pela atriz Maitê Proença para o “Saia Justa”, do canal a cabo GNT, provocou um tsunami de correspondência, recorde absoluto neste mês e meio em que a “Janela” está aberta. Sou, portanto, obrigado a voltar a ele. (leia AQUI o primeiro artigo de Rossi sobre essa questão)
Primeiro, um esclarecimento: o que mais doeu nos portugueses foi o fato de Maitê ter cuspido em uma fonte do Mosteiro dos Jerónimos, patrimônio da humanidade.
Escreve, por exemplo, José Elias, português e fotógrafo de patrimônio histórico e cultural: “Este sim [cuspir na fonte] é talvez o acto mais ofensivo para os portugueses. A degradação e o desrespeito para com os nossos símbolos nacionais. Poderá ser apenas um edifício, é verdade, mas desculpem lá termos alguma estima por ele”.
Está perfeitamente desculpado, José Elias.
E também peço desculpas por ter omitido esse aspecto na “Janela” de ontem. É uma questão de diferença de sensibilidade: os brasileiros estamos tão arqui-acostumados a ver monumentos cuspidos, escarrados, urinados etc, que não nos chocamos mais com isso.
No meu caso, sou dos que não sacralizam monumentos, mas deveria ter percebido que outras pessoas, de qualquer nacionalidade, inclusive brasileiros, podem ter outra sensibilidade – provavelmente mais adequada que a minha. Ou, como escreve outro leitor português, Eduardo Miguel Sequeira, “piadas, nós entendemos, cuspir em monumentos é outra conversa”.
Nem todo português ou descendente aceita tão tranquilamente as piadas que os brasileiros fazemos abusivamente em relação aos portugueses, do que dá testemunho a jornalista Cristina Silva Rosa, da Agência Lusa de notícias: “Sou filha de portugueses, cresci ouvindo que os portugueses são burros e ficava sempre muito triste e chateada com isso. Quando ouvi os comentários da sra. Maitê, lembrei-me dos tempos de colégio Sion, em São Paulo, em que tinha de aturar as piadas maldosas dos meus colegas de turma sobre os patrícios”, reclama. “Acho que devemos respeitar para sermos respeitados”. (assista o VÍDEO de Maitê Proença em Portugal)
Reforça Carlos Costa Rodrigues, que começa afirmando com toda a razão que “não temos [os portugueses] medo do ridículo. Temos medo sim, da falta de criatividade”, que é um dos grandes pecados do vídeo.
Acrescenta: “Concordo também consigo que o português é extremamente sensível aos comentários que fazem (sejam de brasileiros ou não), mas quem conhece a história de Portugal perceberá que nos últimos séculos fomos ‘achincalhados’ muitas vezes por outros povos (Invasões Espanholas e Francesas, Ultimato Inglês, Guerra Colonial em África) e aquilo que sempre ficou, foi o nosso orgulho (…). No fundo, adoramos ser portugueses. E quando nos juntamos em prol de uma causa, viramos uma família enorme, em que a orientação sexual, a religião, a militância partidária e outros tantos factores de distinção deixam de fazer sentido. Quando defendemos um dos ‘nossos’ ou a ‘nossa’ memória colectiva’ viramos animais irracionais”.
Pena que parte da correspondência tenha sido xingamento puro, em vez de argumentos. É desgraçadamente uma característica usual na internet. Mas o que sobrou de comentários inteligentes daria para escrever um verdadeiro tratado sobre a relação brasileiros/portugueses, ao rés-do-chão, não institucionalmente entre os dois países, que goza de excelente saúde.
Como tratado não cabe aqui, algumas pinceladas apenas sobre o poço de mágoa que há de parte a parte.
João Passos, descendente de brasileiros, casado há 20 anos com brasileira, acha que “o Brasil sofre da síndrome da vergonha das origens. O processo de independência fomentou-o e tornou-se vox populi que se o Brasil é como é se deve à colonização portuguesa; antes tivesse sido colonizado pela Holanda ou Inglaterra, mais inteligentes com certeza”.
Há ataques mais agudos, como o de Bruno Filipe para quem “a única coisa a que os portugueses são sensíveis em relação aos brasileiros é á extrema falsidade que se percebe nos seus rostos. Os brasileiros são em geral um povo falso. (…) O Brasil para a maior parte de nós portugueses e diria mesmo para a maior parte do mundo ocidental não passa de um país de miséria, criminalidade e de 3º mundo, que tenta, tenta, tenta mas nunca consegue chegar a lado nenhum, nem nunca conseguirá pela sua falta de auto-estima e princípios básicos civilizacionais”.
Pensa que é opinião isolada de algum português preconceituoso? Então, leia o seguinte trecho da coluna de Clara Ferreira Alves, no respeitado semanário “Expresso”, publicada dia 9 passado, a propósito da atribuição ao Brasil dos Jogos Olímpicos de 2016:
“Expeditos cariocas hão-de arranjar modo de saltar o muro e vender mais droga, assaltar mais turista, trocar mais tiro e limpar o sebo a mais bope [se alguém souber o que essa expressão significa, favor me contar]. Vender-se-á mais samba e bossa nova, mais cocada na praia, mais pastelinho em Copacabana, mais mulata em hotel, mais criança para tarado”.
Bom, ainda há a imagem da brasileira em geral como prostituta. Escreve, por exemplo, Carlos Matias: “Existe, sim, esse preconceito em relação às brasileiras. Acontece que aqui a prostituição está repleta de brasileiras. A prostituição tem sotaque brasileiro. É um facto. Temos culpa disso?
Contra-ataca Cintia Rubly: “Como brasileira que reside em Lisboa há três anos, será que também devo começar a exigir um pedido de desculpas de cada português que me trata como prostituta pelo simples fato de ser brasileira? E não falo só por mim, falo por todas as brasileiras que são diariamente discriminadas e nada acontece. O que a Maitê fala no vídeo não é nada perto das coisas que nós, brasileiras e brasileiros, ouvimos na terrinha’.
Pelo jeito, o tal de acordo ortográfico é absolutamente insuficiente para que brasileiros e portugueses falem a mesma língua.
modernidade & identidade no Portugal contemporâneo
setembro 3, 2009 às 21:47 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cultura, discriminação, identidade, modernidade, nação, política, Portugal
Sétimo da lista de candidatos a deputados socialistas por Lisboa, Miguel Vale de Almeida participou na última sessão do Campus da JS, na Praia de Santa Cruz, que antecede o comício de rentrèe política do PS.
Numa sessão em que também intervieram a comissária para a Igualdade e Cidadania, Elza Pais, e a actriz Inês Medeiros (terceira da lista do PS por Lisboa), Miguel Vale de Almeida fez várias críticas aos métodos de actuação política dos sectores radicais, embora sem nunca relacionar directamente essas mesmas críticas com a actuação do Bloco de Esquerda.
“Está na hora de fazermos uma mudança na vida política, que passe por acabar com a divisão histórica entre a revolução e a democracia liberal. É uma coisa de velhos, de outra geração e já não há pachorra. Esse tipo de complexos mina a nossa política de esquerda de uma forma terrível, porque afecta a forma como se lida com as questões da igualdade”, defendeu Miguel Vale de Almeida perante uma plateia de jovens socialistas.
Antropólogo, professor universitário e homossexual assumido, Miguel Vale de Almeida referiu-se ao seu passado político logo após o 25 de Abril na União de Estudantes Comunistas (UEC) – que abandonou pouco depois, discordando da primazia absoluta e quase exclusiva que o PCP concedia às questões da igualdade sócio económica, secundarizando as restantes -, mas também ao período mais recente quando, enquanto membro da Política XXI, fundou o Bloco de Esquerda.
Na sua intervenção, Miguel Vale de Almeida lamentou o atraso histórico que Portugal teve na defesa das questões identitárias de igualdade, que começaram a ser defendidas por sectores políticos mais radicais.
No entanto, segundo o docente universitário, estas questões da igualdade, para além das relacionadas com as desigualdades sócio económicas, “não se aguentaram com a força desejada nestes segmentos mais radicais, sendo também secundarizadas nos momentos de maior tensão política”.
“Quando as questões da igualdade começam a ser defendidas por outras pessoas que não as do costume, ou quando as pessoas que as defendem já não o fazem dentro de um determinado chapéu-de-chuva político, aí o caldo fica entornado. Começa a ver-se que, de facto, havia uma tentativa de apropriação de agendas por alguns sectores políticos”, acusou.
Miguel Vale de Almeida defendeu um ideal de modernidade cosmopolita, em que um canalizador se pode assumir “gay”, exemplo que a actriz Inês Medeiros depois pegou, mas para falar sobre um ideal de “liberdade para amar”.
Inês Medeiros relacionou a sua perspectiva de liberdade com a coragem (citando Péricles da Grécia Antiga), exortando os jovens socialistas a estarem vigilantes e a assumirem sempre as suas posições com clareza.
Elza Pais, candidata a deputada do PS pelo círculo de Viseu, defendeu que nas próximas eleições legislativas está em jogo “uma escolha entre o progresso ou o retrocesso”.
“Há que terminar com as discriminações que ainda persistem, não só ao nível da lei, mas também no plano prático. Ainda identificamos discriminações de género, de orientação sexual, com as minorias étnicas ou com os imigrantes”, apontou a comissária para as questões da Igualdade e da Cidadania.
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