antologia de poesia do negro
junho 1, 2011 às 0:24 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cultura afrobrasileira, herança colonial, literatura brasileira, negritude, racismo
Clicando na imagem acima você pode acessar a versão eletrônica de um artigo de Proença Filho no qual se traça uma proposta de classificação para as diversas, e sempre multifacetadas, formas de representação dos afrodescendentes no texto artístico brasileiro. Trata-se de uma referência importante para a atividade final que desenvolveremos na LitPort 4, centrada na elaboração, por duplas de estudantes, de um “kit” anti-racista que reúna e comente textos poéticos e informativos. Para auxiliar nas pesquisas de materiais para esse trabalho, segue uma coletânea de poesias publicadas no âmbito da série Cadernos Negros (saiba mais sobre esta série AQUI).
LINHAGEM
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Me envia mensagens do orum
Meus dentes brilham na noite escura
Afiados como o agadá de Ogum
Eu sou descendente de Zumbi
Sou bravo valente sou nobre
Os gritos aflitos do negro
Os gritos aflitos do pobre
Os gritos aflitos de todos
Os povos sofridos do mundo
No meu peito desabrocham
Em força em revolta
Me empurram pra luta me comovem
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Eu trago quilombos e vozes bravias dentro de mim
Eu trago os duros punhos cerrados
Cerrados como rochas
Floridos como jardins
[CARLOS ASSUMPÇÃO]
BATUQUE
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor
É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas e brancas
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Que evoca bravura dos nossos avós
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores
Sem distinção
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor
É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas brancas azuis e verdes
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
Dispersos
Jogados em senzalas de dor
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que fala de ódio e de amor
Tambor que bate sons curtos e longos
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores
Num quilombo
Num quilombo
Num quilombo
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor
[CARLOS ASSUMPÇÃO]
EFEITOS COLATERAIS
Na propaganda enganosa
paraíso racial
hipocrisia faz mal
nosso futuro num saco
sem fundo
a gente vê
e finge que não vê
a ditadura da brancura
Negros de alma negra se inscrevem
naquilo que escrevem
mas o Brasil nega
negro que não se nega.
[JAMU MINKA]
SAFÁRI
Aquela tigresa é tanta
que me almoça e janta
faço de conta que a sala é ponto
na geografia da África
e o tapete vira suave savana ao entardecer
quando a pele da noite vem camuflar
nosso safári safado.
Olho por olho
dente por dente
recuperamos o pente
ancestral
o impossível continha o bonito
caracol
carapinha
bumerangue infinito
Olho que revê o que olha
dedos que sabem trançar ideias
do original azeviche
princípio do mundo
Se o cabelo é duro
cabe ao pente ser suave serpente
o fundamental dá beleza
a quem não tem preconceito
e conhece segredos da
C R E S P I T U D E
[JAMU MINKA]
RAÇA & CLASSE
Nossa pele teve maldição de raça
e exploração de classe
duas faces da mesma diáspora e desgraça
Nossa dor fez pacto antigo com todas as estradas do
mundo e cobre o corpo fechado e sem medo do sol
Nossa raça traz o selo dos sóis e luas dos séculos
a pele é mapa de pesadelos oceânicos
e orgulhosa moldura de cicatrizes quilombolas.
[JAMU MINKA]
CRISTÓVÃO-QUILOMBOS
Fez-se a ganância
diabólicos destinos de um caminho sem volta
espíritos e corpos armados nascem do imenso ventre das águas fantásticas
o outro lado do mundo possível
Terrágua, uma bola de vida no cosmo 1492, Colombo!
Naus enormes, engenhocas inéditas — a roda, arma de fogo —
múltiplos poderes desconhecidos
homens-deuses barbados, brancos, loiros e ruivos
e seus olhos coloridos de cobiça
Piratas no paraíso
Europa rouba tudo
ouro e prata, milho, batata
cana e canga em corpos de América e África
Pós impacto do primeiro engano
— a visita era conquista e seus horrores —
deuses invadidos trovejam tambores
e cospem flechas de rebeldia
Depois de Colombo e sua maldita herança
calombos e mutilações em milhões de corpos.
Quilombos por toda parte.
[JAMU MINKA]
ZUMBI
As palavras estão como cercas
em nossos braços
Precisamos delas.
Não de ouro,
mas da Noite
do silêncio no grito
em mão feito lança
na voz feito barco
no barco feito nós
no nós feito eu.
No feto
Sim,
20 de novembro
é uma canção
guerreira.
[ABELARDO RODRIGUES]
TRAÇADO
O traço saído
ao crespo estilo
do teu cabelo
trançado e escuro
já mora em meu olho
[MÁRCIO BARBOSA]
SER E NÃO SER
O racismo que existe,
o racismo que não existe.
O sim que é não,
o não que é sim.
É assim o Brasil
ou não?
[OLIVEIRA SILVEIRA]
CABELOS QUE NEGROS
Cabelo carapinha,
engruvinhado, de molinha,
que sem monotonia de lisura
mostra-esconde a surpresa de mil
espertas espirais,
cabelo puro que dizem que é duro,
cabelo belo que eu não corto à zero,
não nego, não anulo, assumo,
assino pixaim,
cabelo bom que dizem que é ruim
e que normal ao natural
fica bem em mim,
fica até o fim
porque eu quero,
porque eu gosto,
porque sim,
porque eu sou
pessoa negra e vou
ser mais eu, mais neguim
e ser mais ser
assim.
[OLIVEIRA SILVEIRA]
OUTRA NEGA FULÔ
O sinhô foi açoitar a outra nega Fulô
— ou será que era a mesma?
A nega tirou a saia, a blusa e se pelou.
O sinhô ficou tarado, largou o relho e se engraçou.
A nega em vez de deitar pegou um pau e sampou nas guampas do sinhô.
— Essa nega Fulô!
Esta nossa Fulô!,
dizia intimamente satisfeito
o velho pai João
pra escândalo do bom Jorge de Lima,
seminegro e cristão.
E a mãe-preta chegou bem cretina
fingindo uma dor no coração.
— Fulô! Fulô! Ó Fulô! A sinhá burra e besta perguntou onde é que tava o sinhô que o diabo lhe mandou.
— Ah, foi você que matou!
— É sim, fui eu que matou — disse bem longe a Fulô,
Pro seu nego, que levou
Ela pro mato, e com ele
Sí sim ela deixou.
Essa nega Fulô!
Esta nossa Fulô!
[OLIVEIRA SILVEIRA]
EM MAIO
Já não há mais razão de chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora liberdade se alvoroça,
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
Outrora, nas senzalas, os senhores…
Mas a liberdade que desce à praça
nos meados de maio
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida
e nada sabe de nossa vida.
A liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
e se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: Ó bendita Liberdade!
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!
[OSWALDO DE CAMARGO]
POEMA ARMADO
Que o poema venha cantando
ao ritmo contagiante do batuque
um canto quente de força,
coragem, afeto, união
Que o poema venha carregado
de amarguras, dores,
mágoas, medos,
feridas, fomes…
Que o poema venha armado
e metralhe a sangue-frio
palavras flamejantes de revoltas
palavras prenhes de serras e punhais…
Que o poema venha alicerçado
e traga em suas bases
palavras tijolantes,
pontos cimentantes,
portas, chaves, tetos, muros
E construa solidamente
uma fortaleza de fé
naqueles que engordam
o exército dos desesperados
Para que nenhuma fera
não mais galgue escadas
à custa de necessidades iludidas…
E nem mais se sustente
com carne, suor e sangue
dum povo emparedado e sugado
nos engenhos da exploração!
[OUBI INAÊ KIBUKO (Aparecido Tadeu dos Santos)]
TORPEDO
irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?
irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?
ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.
irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.
irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.
sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.
irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!
e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.
um grande abraço
deste teu irmão de presídio
assinado:
zumbi dos palmares
[CUTI]
QUEBRANTO
às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada
às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço
às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredicto
às vezes sou o amor que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio
às vezes as migalhas do que sonhei e não comi
outras o bem-te-vi com olhos vidrados
trinando tristezas
um dia fui abolição que me lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida uma constituição
que me promulgo a cada instante
também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser
às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno começo
fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto que me entrego
às vezes…
[CUTI]
A NOITE TE CONVIDA
África mãe, Brasil filho,
O leite do mundo habitou suas tetas.
Mamilos perfeitos acalentados de açoite.
Seu ventre sempre foi livre
Gerando toda a história desse universo mal agradecido
Se ser mãe é dádiva de Deus
Então a África é o berçário onde Ele nasceu.
Suas crianças, dotadas de grande picardia,
Lançaram ao mundo variadas culturas.
A noite recente traz o eco
da trilha sonora daquele tempo,
Tambores confeccionadas pelas mãos
Arquitetas do mundo.
Metralhadoras, fuzis e armas químicas
Deitarão no seu colo
para dividir o espaço com as rosas vermelhas.
Os amores não-correspondidos
se contentaram ao seu lado.
Corações sujos que me lembram as pedras,
Hipérbole da herança maldita,
que umedece e goteja em pequenos ventres
Multiplicando a desgraça e mal vivida vida.
Vida que alimenta a feijoada,
Vida que suinga o carnaval,
Vidas de mãos feridas que tocam os instrumentos…
Umbanda, candomblé.
Tragam-me a garrafa com o líquido da cultura nordestina
Vou me embriagar desse sincretismo puro e natural. Noite! Termo abstrato
que absorve o sentimento africano.
África mãe, África pai, África.
Sinônimo de negro.
Ovaciona o seu hino de raiz
Que a recitação voe até a audição
desses espíritos maléficos,
Âmago sem cultura.
África! Sou larápio de cena
Que cutuca a sua bonança com palavras egocêntricas.
Venha mãe, dance comigo o batuque atual
Porque, nas nossas festas noturnas,
A sua entrada é franca.
Então, ginga o batuque atual.
Que cada gesto teu tenha um pedaço de desdém,
Venha, pois a noite… te convida para dançar.
[SACOLINHA (Ademiro Alves)]
NEGRITUDE
Para Jorge Henrique Gomes da Silva
De mim
parte um canto guerreiro
um voo rasante, talvez rumo norte
caminho trilhado da cana-de-açúcar
ao trigo crescido, pingado de sangue
do corte do açoite. Suor escorrido
da briga do dia
que os ventos do sul e o tempo distante não podem ocultar.
De mim
parte um abraço feroz
um corpo tomado no verde do campo
beijado no negro da boca da noite
amado na relva, gemido contido
calado na entranha
oculto do medo da luz do luar.
De mim
parte uma fera voraz
(com sede, com fome)
de garras de tigre
pisar de elefante correndo nas veias
je fogo queimando vermelho nas matas
Frugir de leões bailando no ar.
De mim
parte de um pedaço de terra
semente de vida com gosto de mel
criança parida com cheiro de luta
com jeito de briga na areia da praia
de pele retinta, deitada nas águas
sugando os seios das ondas do mar.
De mim
parte NEGRITUDE
um golpe mortal
negrura rasgando o ventre da noite
punhal golpeando o colo do dia
um punho mais forte que as fendas de aço
das portas trancadas
da casa da história.
[CELINHA]
A NOITE NÃO ADORMECE NOS OLHOS DAS MULHERES
Em memória de Beatriz Nascimento
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
[CONCEIÇÃO EVARISTO]
DANÇANDO NEGRO
Quando eu danço
atabaques excitados,
o meu corpo se esvaindo
em desejos de espaço,
a minha pele negra
dominando o cosmo,
envolvendo o infinito, o som
criando outros êxtases…
Não sou festa para os teus olhos
de branco diante de um show!
Quando eu danço há infusão dos elementos,
sou razão.
O meu corpo não é objeto,
sou revolução.
[ÉLE SEMOG]
MAHIN AMANHÃ
Ouve-se nos cantos a conspiração
vozes baixas sussurram frases precisas
escorre nos becos a lâmina das adagas
Multidão tropeça nas pedras
Revolta
há revoada de pássaros
sussurro, sussurro:
"é amanhã, é amanhã.
Mahin falou, é amanhã".
A cidade toda se prepara
Malês
bantus
geges
nagôs
vestes coloridas resguardam esperanças
aguardam a luta
Arma-se a grande derrubada branca
a luta é tramada na língua dos Orixás
"é aminhã, aminhã"
sussurram
Malês
bantus
geges
nagôs
"é aminhã, Luiza Mahin falo"
[MIRIAM ALVES]
MALAKÊ
Início da minha história
Lançada do outro lado do mar
Oxé brilhante de Zázi, Sobô,
Xangô, Odus, Orikis
Semente, cio dos raios, Orixá
Início de Rochas, meu elo, Otá
Continente inteiro, destino Atlântico
Razão de minha pele
Vítima da aspereza dos dias
Diáspora, outra canção
Primeira do clã a chegar
Trazendo nos punhos, tornozelos
Estranhos adornos que rangiam
Como a raiva salgada, oceânica
Molhada de banzo, sem zelos
Mesmo assim trazendo
Receitas de Amalá
Malakê
De frente aos seus fundamentos
No Rumpayme Runtoloji
Os do seu pai, nosso pai
Entendi a inteira dor
A violação do passado
Pelos ferros apagado
À mudança do teu nome
Ao chamarem uma Maria
Uma Gaudência
Uma Conceição…
Malakê, menina de uma África
De uma cachoeira, Terra das Águas
Pitanga, Paraguassu, Caquende
(em outro poema levaram minhas mágoas)
Pedra do Cavalo, cheias
Cabeceiras, indomáveis Águas
Lugares de tantas sereias
Malakê
Mãe, Pai
A quem tenho como primeiro Ancestral
Por tudo e por tal
Me ensina
Quero dizer a todos orixás
Da minha crença no toque
No som do lê, do rumpi, do rum
Na força dos tridentes, adagas
Machados, espelhos, abebes, espadas
No ar, na terra, no fogo, na água
Nos Ilês, nos Axés
No Bogun
Na Casa Branca de tão antiga
No Jitolu de mãe Hilda, amiga
Em todo reino do Orun
Na dualidade de Logunedé
Em Stella estrela de Oxóssi
No Tanuri Juçara de Bebé
Na esteira, no Ojá
Ensaiando no Zandró
No Axé Opó Afonjá
Nunca estando só…
Nas cores firmes das vestes
No transe, na festa
Nos Búzios de todos segredos, no Ifã
Na alguidar, nas folhas, no que resta
Porque sem elas não há
No padê
Em Legbara, Iaroiê!
Na Oxum bonita, Ora-ie-iê!
Em Iansã e seus raios, Eparrê!
Em Ogum de tantas lutas Ogunhiê!
Em Oxossi caçador, Okê-Arô!
No meu pai Xangô, Cabelilê!!!
No Alabê, no Mariô
Na Equede, na Makota
Na oferenda, no Pano da Costa
No dendê, nas Abiãs
No branco da paz de Lemba
Nas conversas dos Ogãs
Na gamela, na quartinha
No pó de Pemba
Na prece que é sempre canto
Encanto
Na própria firmeza da fé
Nos eguns, no terreiro
Na luz que me faz inteiro
E que vem do candomblé
Malakê
Obrigado por me legar esta vontade
De contar as Coisas do nosso povo
Nossas Sendas
Pelo gosto de nossa história, contos e lendas…
Obrigado por Anelita por Gaiacu Luíza
Senhora e Dofôna Regina
Didi, Joana, satu, e Benzinha
E ver que de você veio ao mundo
Tanta mulher, tanta rainha
Obrigado por me fazer acordar
E tentar entender toda forma de amor
Obrigado Malakê
Por ter vindo de você
Assim do jeito que sou!
[JOSÉ CARLOS LIMEIRA]
Introdução a ‘Os Lusíadas’ por Vítor Ramos
dezembro 10, 2010 às 21:01 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: herança colonial, Lusíadas, narrativas identitárias
Clique AQUI para baixar. Visitando o Google Livros é possível ler outras partes dessa edição.
Camões: gênio da nação & da literatura portuguesa
novembro 26, 2010 às 12:00 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Camões, expansão marítima, herança colonial, literatura portuguesa
Para saber mais sobre a biografia e o significado cultural de Luís de Camões, o vídeo “entubado” nesta postagem oferece uma pequena síntese atualizada. Por sua vez, um conjunto de ensaios de referência sobre a obra camoniana pode ser encontrado no livro Estudos camonianos, da professora Cleonice Berardinelli, obra disponibilizada AQUI pela Cátedra Padre António Vieira da PUC-Rio.
LitPort I, avaliação 1
setembro 10, 2010 às 11:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cultura brasileira, cultura portuguesa, exercício, herança colonial, identidade, modernidade, poesia
Entrega: quarta-feira, 22/09
Apresente um texto poético, de autoria portuguesa (preferencialmente) ou brasileira, no qual sejam tematizadas matrizes e tradições culturais lusitanas, ou as relações entre estas e os traços identitários brasileiros. A apresentação deve incluir: transcrição integral do texto; resumo do tema da obra e de suas características formais; indicação de fonte bibliográfica. Comente o texto selecionado (30 linhas) levando em consideração as duas citações transcritas abaixo:
A) Como é contada a narrativa da cultura nacional? (…) Em primeiro lugar, há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem uma série de estórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação. Como membros de tal “comunidade imaginada”, nos vemos, no olho de nossa mente, como compartilhando dessa narrativa. (HALL, p. 51-52)
B) Como tornar o Brasil um país moderno se somos produtos de uma tradição que complica nosso acesso à modernidade? (GOMES, p. 2)
reiniciando: 2010.II
agosto 19, 2010 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Fernando Pessoa, herança colonial, identidade, literatura portuguesa, referências, subjetividade
D. DINIS
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
9-2-1934
[Fernando PESSOA.In: Mensagem]
Com o poema acima, no qual se entrecruzam duas importantes figuras literárias e históricas portuguesas das quais muito falaremos nas próximas semanas, o rei-poeta D. Dinis e o poeta-rei Fernando Pessoa, o blogue LUSOLEITURAS dá as boas-vindas aos estudantes matriculados este semestre nos cursos de Literatura Portuguesa 1 e Literatura Portuguesa 3 oferecidos pelo Departamento de Letras da UFS-Itabaiana. Como já foi afirmado presencialmente, este espaço virtual propõe-se a ser uma continuidade de nosso trabalho em sala de aula, principalmente um lugar de referência para as necessárias pesquisas, leituras e diálogos que dinamizam a evolução de nossos saberes e competências no estudo das literaturas de língua portuguesa. Estudo que, metaforicamente, também define para todos nós um “oceano por achar” e desbravar, tendo em vista o aprimoramento de nossas competências como intérpretes e criadores de ideias e textos.
Para ambos os cursos, nosso texto teórico de referência é o cada vez mais famoso A identidade cultural na pós-modernidade, obra de divulgação de conceitos básicos dos estudos culturais contemporâneos assinada pelo crítico jamaico-britânico Stuart Hall. Justamente por se tratar de um texto com tão importante repercussão entre as mais diversas disciplinas da área das ciências humanas e das artes, é mais do que recomendável a leitura integral do livro, embora nossa discussão se concentre nos capítulos I e III, na LitPort1, e I e II, na LitPort3. Além dos muitos exemplares existentes na biblioteca e das cópias disponíveis na xerox do campus, uma versão eletrônica integral pode ser baixada da riquíssima biblioteca on line do curso de Letras da Universidade de São Paulo.
Para @s estudantes da LitPort1, a leitura de Hall deve ser, de imediato, diretamente articulada com a do artigo de Renato Gomes Que faremos com esta tradição? Ou: relíquias da Casa Velha (clique ao lado para lê-lo no site da revista Semear), texto que apresenta alguns parâmetros fundamentais para a problematização de referentes e produtos culturais portugueses. Aos estudantes da LitPort3, recomendamos que as descrições de Stuart Hall sobre as configurações assumidas pelas subjetividades modernas sejam desde já acompanhadas pela leitura da obra diversificada de Pessoa, facilmente acessível através do ARQUIVO PESSOA. Novamente, boas vindas e bom trabalho.
o Brasil como nação luso-africana: sincretismos & assimetrias
abril 4, 2010 às 1:01 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cultura afrobrasileira, cultura portuguesa, herança colonial, identidade, luso-tropicalismo, mestiçagem, racismo
As versões tradicionais acerca da formação identitária brasileira tendem a realçar o protagonismo dos portugueses e a posição hegemônica alcançada pela cultura desse povo durante o período colonial, a qual acaba por se sobrepor aos valores das diversas sociedades indígenas nativas do território, definindo assim uma matriz ibérica, ou lusitana, para a cultura brasileira, matriz cujas principais e duradouras influências se manifestam na língua, na religião e nos modelos políticos que organizam a sociedade. Apesar da atitude “amnésica” que a maioria dos brasileiros mantém com relação às heranças lusitanas, elas de fato são bastante profundas, sendo interessante, ou perturbante, observar como essas heranças foram abrasileiradas e são hoje imaginadas como invenção original nossa. Dê um salto no MUJIMBO e confira alguns elementos básicos da cultura portuguesa, procurando refletir sobre a maneira como esses elementos se reinserem e são ressignificados nas práticas e ideários do povo brasileiro.
A realidade, entretanto, sempre foi mais complexa, ou mais sincrética, do que as definições oficiais acerca da história cultural do Brasil. Desde os primeiros momentos da construção colonial, também constitui-se uma matriz africana para a futura brasilidade, forjada pelos aportes diversificados de saberes, artes, linguagens e sentimentos trazidos pelos milhões de africanos para cá transplantados à força, e que aqui se refazem identitariamente, entrecruzando seus referentes aos europeus e ameríndios. No ensaio “O colono preto como fator da civilização brasileira”, trabalho pioneiro do pesquisador baiano Manoel Querino, começa-se o desmonte dos esforços da historiografia oficial para apagar o papel do negro africano como co-colonizador do Brasil, abrindo caminhos que encontrarão uma decisiva síntese intelectual e ideológica no livro Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, obra que pode ser considerada como um texto fundador do imaginário moderno sobre a mestiçagem afro-luso-brasileira. Persiste nela, entretanto, uma perspectiva domesticadora para o valor das heranças africanas, tidas como complementares às matrizes portuguesas, e de restritas funções civilizacionais.
A partir do discurso luso-tropicalista freyriano, consolidou-se uma imagem identitária brasileira na qual os elementos culturais africanos adquirem positividade na medida em que se restrinjam a influenciar apenas alguns setores da vida, tais como as relações sentimentais e sexuais, o misticismo religioso, os costumes cotidianos e as artes e festas populares. Em sua dimensão sociológica, esse sistema possibilita aos sujeitos afrodescendentes integrarem-se aparentemente sem discriminação, e mesmo usufruindo de altos graus de intimidade em seus convívios com os sujeitos europeizados, desde que não contestem a hierarquia civilizacional vigente e reproduzam os “bons” estereótipos, como o do negro trabalhador e humilde, da mulata sensual e “alisada”, da criada devotada e submissa, do “negão” companheiro e esportista. Essas formas parciais e simbólicas de integração, no entanto, não impediram que gravíssimas assimetrias sócio-econômicas se instalassem entre os segmentos mais claros e mais escuros da população brasileira, conforme repetidas pesquisas têm demonstrado, apontando mesmo para diferenças entre a qualidade de vida desses grupos mais acentuadas do que as produzidas por sistemas discriminatórios explícitos, como o apartheid sul-africano.
Esse complexo processo transculturador, ou hibridizante, foi às vezes metaforizado como um “cadinho de raças”, do qual resultou, por uma espécie de fusão bio-cultural, o tipo que chamamos de “moreno”, tido como correspondente à manifestação mais completa, ou harmônica, ou objetiva do sujeito brasileiro. Nas interações sociais efetivas, contudo, a morenidade representa um tipo de “brancura tropical”, cujos modelos estéticos, psicológicos e culturais estruturam-se de acordo com padrões eurocêntricos, dinâmica simbólica que termina por naturalizar as situações de exclusão, de sub-cidadania e de super-exposição à violência que afligem à população afrodescendente.
Entre a assimilação controlada e a purgação desejável, as imagens da africanidade e da negrura encontram-se quase sempre rasuradas ou marcadas por conotações negativas, primitivistas e animalizantes, como discute a professora e pesquisadora de literatura afro-brasileira Maria Nazareth Fonseca em um dos seus ensaios. Quais relações podem ser estabelecidas entre as formas de negociação das heranças africanas no imaginário brasileiro e o conceito de “imaginação do centro” proposto por Margarida Calafate Ribeiro para a discussão dos processos configuradores da identidade portuguesa?
a criativa subjetividade do escravo
novembro 6, 2009 às 7:54 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cinema, escravidão, herança colonial, literatura angolana, mini-curso, racismo, subjetividade
Iniciaremos hoje, na sala 106 do Bloco Didática 1, a partir das 13h, o mini-curso “Como funciona a cabeça de um escravo? Leituras de A gloriosa família”. Segue abaixo uma súmula das questões a serem levantadas ao longo dessa atividade.
Publicada em 1999, dois anos depois do laureamento do escritor angolano Pepetela com o Prêmio Camões, A gloriosa família é um nítido exemplar da vitalidade da produção literária oriunda dos países africanos lusófonos, uma produção cujo bem-sucedido arrojo experimental mobiliza recursos de ficcionalização histórica que são emblemáticos dos modos de intervenção escrita pós-coloniais. Ambientado em Luanda durante os sete anos da ocupação holandesa, entre 1641 e 1648, o romance é narrado por um escravo situado numa difusa posição “não visível e não oculta”, a partir da qual se inscreve uma mirada e um testemunho estratégicos sobre o principal entreposto da máquina escravista gerenciada pelo Império Português.
Obrigado a seguir a reboque de seu dono, o traficante flamengo Baltazar Van Dum, cumprindo uma sina de adereço semi-esquecido, este escravo pessoal representa um grau de objetificação do qual derivam imprevistos efeitos de visibilidade. Tido por mudo e retardado mental, esse indivíduo colocado na condição de bijuteria ambulante abre um estranho lugar de transparência para a discussão dos mecanismos de rasura simbólica e de reversão de valores que dinamizavam as relações de poder no mundo colonial, e que presentemente se atualizam nas diversas formas de expressão e de superação do preconceito racial.
No encontro de hoje nos concentraremos em revisitar os profundos, ainda que institucionalmente esmaecidos, laços geo-histórico-culturais entre o Brasil e Angola. Será também apresentado um breve panorama das teorias contemporâneas sobre o racismo e seus efeitos reificadores sobre a subjetividade negra. No final do encontro, serão apresentados trechos do filme Quanto Vale ou É Por Quilo?, de Sérgio Bianchi. Para saber mais sobre esse filme, clique na imagem abaixo.
literatura e libertação cultural
novembro 5, 2009 às 7:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: África, herança colonial, literatura africana, lusofonia, mini-curso, racismo
Especialmente para os inscritos no mini-curso “Como funciona a cabeça de um escravo?”, confiram abaixo um belo e instrutivo panorama sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, no qual se destacam a importância da arte literária na renovação das sociedades africanas contemporâneas e as expectativas políticas, culturais e econômicas acerca da crescente incremento nas relações entre o Brasil e o continente onde nasceu a humanidade.

Por uma nova leitura da África
por Luciana Lana – UOL, 04-NOV-2009
Escritores anseiam por difundir a cultura de seus países e desfazer o estereótipo de um "continente exótico"

São 53 nações pobres, devastadas por décadas de guerra. Mas que apresentam um surpreendente "renascimento", traduzido em crescimento econômico, avanço em processos de democratização e maior inserção internacional. Considerada um "escândalo geológico" por guardar em seu subsolo a maioria absoluta dos recursos minerais globais, a África é alvo do interesse e da cobiça de um número crescente de potências econômicas. Só que ainda enfrenta o preconceito, a discriminação, não tendo se livrado da imagem de uma terra exótica, primitiva, miserável e incapaz de se reconstruir por conta própria.
Todo esse mar de contradições que circunda os 30 milhões de quilômetros quadrados do continente africano (22,5% das terras do globo) basta para indicar que é preciso conhecer melhor o que se passa por lá. As diferentes Áfricas, suas culturas, seus idiomas, as histórias de suas nações, suas potencialidades, os caminhos para o desenvolvimento de suas sociedades merecem atenção e pesquisa, para a qual a literatura originada no próprio continente tem farto material a oferecer.
A despeito da precariedade de vida, dos altos índices de analfabetismo, dos traumas ainda sofridos por anos de conflitos armados e demais adversidades, uma legião crescente de escritores de origem africana se revela, contando a história do continente em poesias, romances, contos, que, ainda hoje, reafirmam a diversidade e trazem a marca da resistência cultural. A literatura teve papel fundamental nos processos de independência política dos países africanos.
A considerar especificamente as colônias portuguesas foram intelectuais como Agostinho Neto (Angola), Jorge Barbosa (Cabo Verde), José Craveirinha (Moçambique), Marcelino dos Santos (Moçambique), José Luandino Vieira (Angola), entre outros, que se desviaram da chamada literatura colonial – alienada, feita por autores exógenos e transpassada de preconceitos – para lançar escritos carregados de sentimento nacional, consciência e indignação. "Os poetas foram os primeiros grandes líderes revolucionários na África.
Primeiro, nós escrevemos poemas com palavras de libertação, como o "É preciso plantar" (de 1953, finalizado com os versos "É preciso plantar / pelos caminhos da liberdade / a nova árvore / da Independência Nacional"); depois, muitos de nós partimos para a luta armada", conta Marcelino dos Santos, hoje com 79 anos.
À época, ele assinava seus escritos com os pseudônimos Kalungano e Lilinho Micaia. Foi fundador da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e, após a independência, em 1975, se tornou primeiro Ministro da Planificação e Desenvolvimento.
Uma boa explicação ele dá para o crescimento da língua portuguesa nas colônias e a adoção do idioma pelos escritores nos movimentos de libertação: "Nós queríamos integrar o continente. A nossa poesia dava conta de problemas que eram comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo dificultavam a difusão das nossas ideias libertárias."
O uso da língua portuguesa pela grande parte dos escritores nas ex-colônias de Portugal é motivo de polêmica até os dias atuais. É bem verdade que a expansão da língua se deu às custas de vários idiomas, que simplesmente desapareceram. Moçambique, por exemplo, contava com mais de 20 idiomas.
Em Angola, a língua portuguesa confrontou-se, em especial, com o quimbundo, que até os colonos portugueses eram obrigados a aprender. Mas houve uma "apropriação" e uma "nacionalização" da língua portuguesa por parte dos africanos. Para José Luandino Vieira, o português representou um "troféu de guerra". Após a independência de Angola, ele defendeu que esse fosse o idioma oficial do país.
Há também o registro de que o escritor Luís Bernardo Honwana, natural de Maputo, militante da Frelimo e autor do livro de contos "Nós Matamos o Cão Tinhoso", tenha respondido "a língua portuguesa é nossa também", ao ser questionado, pela plateia de uma palestra que proferiu na Universidade de Minnesota, Estados Unidos, em 1979, "por que, após a independência, os escritores de Moçambique não abandonavam a língua do colonizador?". De fato, vencidas as lutas de independência, a literatura na África ganha um tom de orgulho e a "nacionalização" da língua portuguesa pode ser observada pelo uso que vários escritores fazem de neologismos e termos de idiomas locais misturados às palavras em português. A língua foi reinventada – e, diga-se, continua a ser assim na literatura contemporânea do continente.
"Nós queríamos integrar o continente. A nossa poesia dava conta de problemas que eram comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo dificultavam a difusão das nossas idéias libertárias"
Marcelino dos Santos
Com suas nações independentes, os escritores passaram a defender de forma muito intensa a cultura africana e afirmar a diversidade. Era importante definir posição nas sociedades pós-coloniais. E o fizeram com extrema criatividade e liberdade, rompendo com os padrões europeus e com as normas cultas, abusando de misturas que reafirmavam suas identidades.
O negro, antes sofredor, passava a protagonizar com heroísmo. É dessa fase, por exemplo, o romance "Mayombe", de Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que foi militante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e é hoje um dos maiores escritores angolanos, com 16 romances publicados desde 1973. "Mayombe" foi o terceiro. Escrito entre 1970 e 1971, foi lançado em 1980, contando a história de um grupo de guerrilheiros do MPLA , em ação numa floresta, na região de Cabinda, distante da capital Luanda. Os personagens são nomeados com alcunhas de guerra – Comandante Sem Medo e Comissário Político são os principais, os heróis na grande epopeia. A guerrilha é louvada já na dedicatória: "Aos guerrilheiros do "Mayombe", que ousaram desafiar os deuses."
"Mayombe" é considerado um romance épico. O próprio isolamento do grupo na floresta é condição favorável para o desenho de uma utopia. O romance, no entanto, embute também as primeiras críticas ao movimento, ao sistema e ao que já se previa para o país após a independência.

De modo geral, passado o efeito da vitória nas lutas de libertação, a literatura africana cai na dura realidade do pós-colonialismo. E é múltipla a produção literária nesse período, em que não há mais otimismo e o sonho da transformação dá lugar à consciência crítica. Alguns autores recorrem ao passado – em romances históricos – para explicar as mazelas do presente. Também é frequente a crítica irônica. Em Angola, Manoel Rui lançou, em 1982, a novela satírica "Quem me dera ser onda", denunciando a burocracia e a corrupção, em paródias do cotidiano. O livro tem como protagonista um porco que habita o apartamento de uma família, causando transtornos. É uma crítica irônica à estrutura social pós independência, ao mimetismo dos novos ricos e ao populismo político.

Pepetela, por sua vez, lançou "O cão e os caluandas" (1985), também usando de certa ironia ao abordar a desagregação cultural, social e política. Ele fez de Luanda o microcosmo, por onde passeia um cão, revelando, em fragmentos, as vivências dos moradores da capital angolana.
No mesmo ano (1985), Pepetela lançou também "Yaka" – dessa vez recorrendo a aspectos históricos e retratando Benguela, sua cidade natal. "Yaka" é a estátua que acompanha cem anos da colonização. Em 1989, publicou "Lueji: O Nascimento de Um Império", também pontuado pela história (são retratados dois momentos separados por 400 anos). Em 1992, Pepetela manifesta de forma mais direta sua indignação pelo que se sucedeu à independência com "Geração da Utopia" – em que o próprio título adianta a temática.
Ainda que com uma colonização bastante diferente, Cabo Verde apresenta essas mesmas fases em sua literatura. O aspecto épico fica evidente na poesia de João Varela (que também assinava como João Vário e Timótio Tio Tofe), autor de "O Primeiro Livro de Notcha", publicado em 1975.
A ironia aparece na obra de Germano de Almeida, que em 1989 publicou "O meu poeta", considerado o primeiro romance nacional. Com humor e sarcasmo, Germano satiriza a realidade de Moçambique após a independência.
Na Guiné-Bissau, a crítica vem em tom um pouco mais mordaz na obra de Abdulai Sila, que inaugurou a prosa no país, com "Eterna paixão" (1994). Nesse romance, é através de um personagem afro-americano que o autor mostra o decepcionante quadro do pós-colonialismo. Um ano depois, ele publicou "A Última Tragédia", com referência ao período colonial. E, em 97, lançou "Místida", uma metáfora em que os protagonistas perdem a memória, o dom da palavra, a visão, num quadro de decadência e aniquilação paralelo ao vivido à época. Nesse mesmo ano (1997), Filinto de Barros, que havia sido dirigente do PAI GC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e ministro na Guiné, publicou o romance "Kikia Macho", onde usa o aspecto mítico para falar da desesperança.
Maturidade e reconhecimento
O desenvolvimento da arte – e da produção – literária na África teve e tem características próprias em cada região e em cada país, sobretudo em função da colonização e da língua. Mas é fato que num período relativamente curto – desde a descolonização europeia, 1957, até os dias atuais – houve um grande amadurecimento em quase todo o continente. E o que surpreende é ter se dado num contexto de guerras civis e caos social – o pano de fundo da maior parte das obras literárias do continente ainda hoje.

Alguns dos primeiros autores são as estrelas da literatura contemporânea – o que permite, pelo conjunto de suas obras, uma análise da evolução do fazer literário. É o caso de Pepetela – cujo primeiro livro foi escrito em 1973 (antes até da independência de Angola) e o 16o romance – "O Quase Fim do Mundo" – foi lançado no ano passado. Nesse meio tempo, Pepetela se aventurou até no estilo policial, com "Jaime Bunda, Agente Secreto" (2001) e "Jaime Bunda e a Morte do Americano" (2002). O autor diz que o estilo foi apenas um pretexto para mais uma vez descrever – com humor e crítica – a sociedade angolana: "o policial (o anti-herói Jaime Bunda, paródia de James Bond) entra em todos os lados, em todos as classes e meios sociais".
Nestes dois livros, a crítica social e política já se refere ao neocolonialismo americano. Em 2005, com "Predadores", o autor denuncia as novas elites e o ambiente político que as favorece. Segundo o autor, "As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros e as que têm dinheiro não se interessam pela literatura."

Ainda que não tenham começado lá no período colonial, outros tantos autores despontaram no final da década de 80, com obras de tal qualidade, que rapidamente mereceram o reconhecimento internacional. É o caso dos angolanos José Eduardo Agualusa e Ana Paula Tavares, e do moçambicano Mia Couto. O primeiro soma mais de vinte publicações desde 1989 – são romances, novelas, poesias, contos e guias, que renderam ao autor uma grande coleção de prêmios – o primeiro deles (Prêmio Revelação Sonangol) tendo sido concedido já para o seu primeiro romance, "A Conjura".
A poetisa Ana Paula Tavares inaugura sua obra com "Ritos de Passagem". Depois passeia por contos e, em coautoria com Manoel Jorge Marmelo, publica o romance "Os Olhos do Homem Que Chorava no Rio" (2005). Seu último lançamento foi "Crônicas Para Amantes Desesperados" (2007).
Mia Couto estreou em 1983, com o livro de poemas "Raiz do Orvalho"; depois partiu para contos e, em 1992, lançou seu primeiro romance, "Terra Sonâmbula". Recebeu, entre outros, o prêmio Virgílio Ferreira – um dos mais importantes prêmios literários de Portugal – pelo conjunto de sua obra, em 1999.
Estes fazem parte de um grupo pequeno (mas crescente) de autores que têm suas obras publicadas fora de seus países – e, quase sempre, traduzidas para vários idiomas. Os prêmios literários que conquistam repercutem e fazem despontar novos talentos.
São muito poucas as editoras nos países africanos e o preço dos livros quase sempre inviáveis para a população local. "As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros e as que têm dinheiro não se interessam pela literatura", comenta Pepetela, contando que os escritores que publicam só em Angola vendem em torno de 2 mil exemplares, enquanto ele, publicando em Portugal, chega a vender mais de 20 mil.
Os livros também não circulam no próprio continente africano, nem mesmo entre os países da mesma língua. Escritores de diferentes nações pouco se conhecem – quase sempre são apresentados quando participam de eventos de literatura no exterior.
Foi assim, em novembro, na quarta edição da Fliporto (Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas), em Pernambuco, que teve a diáspora negra como tema e reuniu nomes importantes da literatura dos países lusófonos, além de acadêmicos e pesquisadores.
"Não há dinheiro que financie a arte literária na África. Não há condições de promovermos intercâmbio. Quase não são realizados eventos de literatura e, por isso, nós, escritores, pouco nos conhecemos. Não há recursos para que um escritor viaje a outro país africano para apresentar seu trabalho ou participar de um seminário. Em outras artes – na música, por exemplo – há mais incentivos; os artistas se movimentam mais e divulgam mais seus trabalhos", comentou Paulina Chiziane, considerada a primeira romancista de Moçambique e um dos grandes destaques na Fliporto.
Ao final do evento, emocionada, ela acrescentou: "É muito difícil o nosso acesso à literatura estrangeira. Os livros só nos chegam através do Brasil ou de Portugal e são muito caros. Então, a gente vem aprender como é a literatura do país que está ao nosso lado aqui, num encontro como esse, que às vezes acontece também na Europa. Mas aqui no Brasil é diferente. Aqui, hoje, eu aprendi que se pode fazer festa da literatura. Isso para mim é novo – esse conceito. Um ambiente onde se fala de cultura de forma cultural – é uma experiência nova para mim."

Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique – "Balada do Amor ao Vento" (1990), em que narra um amor proibido. Depois, em 1993, ela lançou "Ventos do Apocalipse", mostrando a situação da mulher durante a guerra.
"O Sétimo Juramento", seu terceiro livro, narra a história de um combatente que recorre à feitiçaria para resolver questões profissionais. "Em Niketche: uma história de poligamia" (2002), ela fala de uma prática tradicional em algumas regiões do país.
"Eu abordo assuntos polêmicos, como a poligamia, que, mesmo combatida pela Igreja e pelo sistema, agora, está a se restabelecer. Em Moçambique, há, praticamente, duas religiões: no sul e no interior, a cristã; no litoral e no Norte, a mulçumana. Os portugueses levaram a monogamia para o sul, enquanto os mulçumanos praticam a poligamia no norte. A religião define os costumes", diz Paulina.
Seu último romance – "O Alegre Canto da Perdiz" (2008) – aborda o racismo entre os próprios africanos – uma mãe negra tem filhos mestiços para "aliviar o negro de sua pele, como quem alivia as roupas de luto".
Com extrema modéstia, Paulina ainda não se acostumou com o título de romancista e diz que os livros surgiram do prazer de fazer breves anotações diárias. A modéstia é também característica da escritora Dina Salústio, autora de "A Louca de Serrano" (1998), primeiro romance de autoria feminina em Cabo Verde: "sou apenas uma mulher que escreve umas coisas".
Assim como Paulina, Dina – também em poesias e contos – retrata o universo feminino, "para mostrar o meu reconhecimento às mulheres caboverdianas que trabalham duro, que carregam água, que trabalham a terra, que têm obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume (…). Falo das mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm nenhum meio de vida escrito; falo da prostituta… Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher".
Outro aspecto em comum entre as duas escritoras é aproximarem seus textos do realismo mágico (a característica que ficou destacada na obra do colombiano Gabriel Garcia Márquez). Dina cria uma Serrano mítica – aldeia onde a vida cotidiana beira o absurdo, com seres de "estranhos costumes", animais que nunca se mexem, pedras com miolo mole e mulheres estéreis que engravidavam por milagre. A louca, assim como outras personagens femininas do livro, denuncia a violência e as privações a que são submetidas as mulheres em Serrano, como também na sociedade caboverdiana.
Para Paulina o seu "realismo mágico" nada mais é do que a própria realidade que vive, repleta de magias e mistérios. "O Sétimo Juramento" trata da feitiçaria. As pessoas da Europa não compreendem muito bem o que é isso. Me perguntavam se era um realismo mágico da América Latina. Eu não sei o que é o realismo mágico da América Latina. O que eu coloquei no livro foi a realidade da minha região", comentou, durante a Fliporto.
O evento contou ainda com outra grande revelação da literatura lusófona – o jovem Onjdaki, que, aos 31 anos, já tem 12 livros publicados, entre contos, poesias e romances.
O escritor – que também é sociólogo e roteirista – nasceu em Luanda e em sua obra, quase sempre traz a memória da infância. Ele justifica: "A experiência da infância é, em geral, muito forte." Através de uma lente de lirismo, Ondjaki vai mostrando a dura realidade de seu país na década de 80. "Eu não faço uma análise crítica do regime; até poderia, mas preferi o olhar das crianças, dizendo com inocência e imparcialidade, o que estava a se passar", explica o autor de "Bom Dia, Camaradas", romance lançado em 2001 e escrito quase que em apenas dois meses. "Um editor me perguntou se eu tinha algo sobre a independência e o período posterior. Eu respondi que sim e entreguei o livro dois meses depois."
Ondjaki é frequentemente questionado sobre o caráter autobiográfico de seus escritos e ele responde que "todo autor passa sua experiência pessoal para o livro". Diz que Luanda é uma cidade que se presta muito à ficção – "todo dia tem uma boa história, um bom mundo para contar" – mas que também há muitas "cidades inventadas" em seus textos.
Representando a Guiné-Bissau, participou da Fliporto o poeta e jornalistaTony Tcheka
, lançando "Guiné, Sabura Que Dói", onde, com extrema elegância, ele aponta a destruição sofrida em seu país. O poeta menciona a fome, a criança que não tem tempo para a infância, a guerra e, principalmente, a força da mulher guineense. Essa é também a temática de seu "Noites de Insônia na Terra Adormecida" (1987).
"Eu falo da Guiné. De suas esperanças e desesperanças. E dedico o livro à mulher guineense. A mulher é a pedra angular para manter a família na Guiné. Ela é chefe de família numa sociedade machista. E ela é quem trava a prostituição, o consumo de drogas; evita a desagregação familiar e social. A sua ação tem resultados imediatos. Ela produz, vende e leva alimento para casa. No livro eu mostro isso. Não só destaco a beleza física e espiritual da mulher, mas a luta que ela trava, porque é duplamente explorada – pela sociedade e pelos seus próprios homens, os maridos. Também falo sobre as crianças. Em "Noites de Insônia na Terra Adormecida", procurei tratar de valores universais".![]()
Tony Tcheka foi coordenador das primeiras e maiores antologias poéticas da Guiné-Bissau "Mantenhas Para Quem Luta", "Momentos Primeiros da Construção", "Antologia da Poesia Moderna Guineense" e "Ecos do Pranto" – todas com poesias em crioulo.
"Mantenhas Para Quem Luta" foi editada, logo após a independência, pelo Conselho Nacional de Cultura, reunindo poesias de um grupo de 14 jovens identificados com o movimento de libertação nacional, que ficaram conhecidos como "os meninos da hora do Pindjiguiti. "Pindjiguiti
é um porto de Bissau, onde foram reprimidos estivadores e marinheiros que estavam a protestar por menos horas de trabalho e melhores salários. Houve confronto e eles foram baleados por soldados portugueses", explica.
Segundo Tcheka, nas duas primeiras antologias buscou-se poemas que abordassem, basicamente, a luta pela libertação; já na Antologia da Poesia Moderna houve uma mistura de temas e já existia maior preocupação com o estilo literário – "era uma poesia mais adulta e menos engajada, do ponto de vista ideológico". "Ecos do Pranto", por sua vez, é uma reunião de poemas que tem a criança como tema.
Tcheka explica que a razão das antologias era não haver dinheiro para publicar as obras de cada autor em separado – "então nós fazíamos esses pactos de publicação conjunta. Depois, com financiamento da União Europeia, é que foram editadas sete ou oito obras individuais. Foi a primeira oportunidade para os autores da Guiné".
Ele comenta também uma das características mais presentes na literatura africana – a oralidade: "O hábito de escrever é natural. Nós costumamos dizer que escrevemos e publicamos todos os dias. Isso porque temos como costume os encontros em que se contam estórias tradicionais, fábulas, contos infantis, cada qual com sua própria linguagem e formas de expressão. E essa é uma forma de ‘editar’. Na Guiné, esses encontros são chamados de Djumbai e sempre há um orador, um trovador. É uma tradição antiga que foi preservada e ajuda a manter as pessoas num espaço de convívio, de troca de experiências; ajuda a manter viva a criatividade artística. Esses encontros resistiram à modernidade.
É uma forma de editar adaptada às circunstâncias – já que quase não temos editoras. As pessoas perguntam aos autores se têm trabalhos publicados e, sem querer, nós respondemos ‘tenho sim, publiquei esse poema no evento tal, esse outro naquele dia…’.
Ou seja, os djumbai são momentos editoriais. Nossas sociedades não perderam a sua identidade graças à oralidade." E complementa: "O hábito de escrever é natural. Nós escrevemos e publicamos todos os dias no djumbai, encontros em que se contam histórias tradicionais, fábulas, contos infantis. Essa é uma forma de editar"
Tcheka comenta que na Guiné existem atualmente duas editoras pertencentes a dois escritores e elas publicam quase que exclusivamente os livros deles. "Não há política editorial e nenhum incentivo a autores e editores. Também faltam livrarias."
Entre 75 e 80, no entanto, ele comenta que houve maior apoio e muitos sarais culturais eram realizados nas casas de cultura e bibliotecas, "que, antes, só conheciam autores portugueses". Segundo o escritor, a Guiné-Bissau foi uma das colônias portuguesas que melhor se organizou na década de 60. Ele diz que a luta pela independência foi considerada um "ato de cultura" e que foi uma luta bem conduzida do ponto de vista político. "Depois, então, é que nós vivemos onze anos de guerra – uma epopeia que não encontra correspondência política ou econômica.
O país está em fase de estagnação com enormes prejuízos. Embora haja democracia, pluripartidarismo, a situação é catastrófica. As diferenças sociais são enormes, a educação fica em segundo plano, o país está na rota do narcotráfico. Nossa esperança é a criação de um programa para autodeterminação dos povos africanos. Vamos crer que a eleição do presidente americano possa contribuir para isso."

NA BERLINDA
Continente africano ocupa um novo lugar no cenário internacional
Um século de colonização europeia, seguido de algumas décadas de guerra. Essa é em resumo a história da África, fundamentalmente um continente enfraquecido, dominado e prostrado diante dos interesses internacionais, como costuma afirmar Carlos Moore, doutor em ciências humanas e um dos maiores especialistas em assuntos da América Latina e África.
O território africano foi dividido entre países da Europa ocidental na Conferência de Berlim, em 1885, sem que quaisquer questões étnicas e culturais tivessem sido consideradas. O Egito foi o primeiro país a conquistar sua independência em 1922; depois, África do Sul e Etiópia, nos anos 1940. A descolonização foi favorecida pela Segunda Guerra Mundial e se intensificou a partir dos anos 1960.
A independência, no entanto, não trouxe a liberdade e autonomia almejadas pelos povos africanos – "O processo de independência foi minado por relações neocolonialistas: a maioria esmagadora de líderes que chegaram ao poder já estava corrompida e entregue aos interesses hegemônicos mundiais. Tratava-se de elites coniventes com os interesses imperialistas e hegemônicos da Europa Ocidental, dos Estados Unidos e do Japão", aponta Moore.
Vencedores nos movimentos de libertação, vários líderes nacionalistas assumiram o poder em seus países logo após a independência e proclamaram uma África federativa, com um governo central. Entre esses líderes estavam os presidentes de Gana, Kwame Nkrumah; da Guiné, Sekou Touré; do Mali, Modibo Keita; do Congo Brazzaville, Alphonse Massamba Débat; da Tanzânia, Julius Nyerere; seguidos por Amílcar Cabral, na GuinéBissau; Nelson Mandela, na África do Sul; e Tomas Sankara, em Burkina Faso. "Esses líderes foram derrubados com sangrentos golpes de Estado. Em menos de trinta anos, 38 dirigentes africanos foram assassinados em circunstâncias ainda não elucidadas." Segundo Moore, em lugar destes dirigentes nacionalistas e pan-africanos é que ocuparam o poder os atuais governos, "colocados pelos países do Ocidente".
Sob esse ponto de vista, as elites e o poder dominante são os grandes fatores de atraso no desenvolvimento social das nações africanas, pois trabalham para manter o sistema desigual, exploratório, que os favorece. A opinião de Moore é compartilhada por outros estudiosos da evolução do continente que, no entanto, apontam um momento de transição e um avanço gradual nos processos de democratização dos regimes políticos, sem destacar o risco de que "novos arranjos entre elites locais e internacionais não tragam a autonomia decisória nem o desenvolvimento sustentável ao continente", como destaca José Flavio Sombra Saraiva, diretor geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI). "As economias no continente cresceram em tono de 5,6% por ano, desde o início da década. Apesar das crises políticas – na Guiné, Zimbábue, Darfur – há um processo positivo de democratização. O número de países africanos com conflitos armados caiu de 13 para 5, nos últimos seis anos", aponta Saraiva em pesquisa que desenvolve desde 1982.
No subsolo africano estão concentrados os principais minerais estratégicos para a indústria de alta tecnologia. Os 53 países são basicamente exportadores de petróleo, ouro, diamante, tungstênio, urânio e cobre. Mas só participam de 2% do comércio mundial e têm 1% da produção industrial do mundo.
Dona de 66% do diamante, 58% do ouro, 45% do cobalto, 17% do manganês, 15% da bauxita, 15% do zinco e 15% do petróleo – segundo as pesquisas do IBRI -, não é à toa que a África despertou a cobiça de outras potências emergentes, como a China, que lá desembarcou desde 1990, e também a Coreia do Sul, Índia, Turquia, Irã. "A África está no centro de uma concorrência fortíssima de interesses de todas as partes do globo; na berlinda da cena internacional contemporânea", afirma Saraiva.
Mas a imagem estereotipada de um continente exótico e primitivo é ainda prevalecente em todo o mundo – e favorece a exploração. A desinformação e o desprezo das sociedades de diferentes países em relação aos povos africanos contribuem para o enfraquecimento político das suas nações e é motivo de indignação entre os que têm consciência dessa realidade.
"A cooperação internacional virou uma indústria, tal como a indústria armamentista. É revoltante o cinismo da política internacional assim como a ignorância das sociedades no mundo inteiro. Projetos injustificáveis são feitos e só aumentam o déficit dos países africanos. Há forte entrave a produtos africanos pela política protecionista dos países do Ocidente, que pegam a matéria-prima da África, transformam e vão vender seus produtos para o mercado africano. Vamos crer que, finalmente, esse estrondo que sofreu o neoliberalismo traga uma reflexão e novas premissas – as do FMI estão em questão. O mercado não pode ser um altar inquestionável", defende Tony Tcheka.
Brasil – parceiro ou explorador
Em seus quatro primeiros anos de governo, o presidente Lula visitou mais de quinze países em sete viagens à África, o que resultou em acordos bilaterais e projetos de cooperação. A política do Brasil para África, no entanto, ainda tem muito a avançar. "O silêncio sobre o que acontece na África no debate político, nas universidades e na imprensa é indício do desinteresse generalizado pelo outro lado do Atlântico", reclama Flávio Saraiva. Ele defende a colocação do Brasil, com uma política externa voltada para a África, em posição de liderança num projeto cooperativo do Sul, reorientando o eixo diplomático e retomando um modelo de inserção internacional voltado para o desenvolvimento sustentável – mais produtivista e menos financista.
Carlos Moore, por sua vez, faz uma avaliação bastante objetiva da relação BrasilÁfrica: para ele está claro que há no Brasil um setor de ponta na economia, interessado em ter acesso às matérias-primas e ao mercado africano – crescente e excelente para escoamento de produtos manufaturados. Há também, segundo Moore, as elites eurocêntricas e europeizadas, admiradoras dos métodos norte-americanos, que não consideram a África como parceira a se respeitar, mas como continente provedor de escravos, digno de ser explorado e humilhado.
Essas elites têm, em suas mãos, os meios de comunicação e forjam imagens distorcidas que podem permitir que a opinião pública e a sociedade civil se mostrem omissas e coniventes com a exploração na África. "São forças conservadoras, tradicionalmente negrofóbicas, que herdaram um desprezo para com o continente africano que as cega ao ponto de se oporem ao desenvolvimento de relações econômicas entre suas empresas e os países africanos, embora essas relações favoreçam às suas próprias economias", disse o professor em entrevista ao Jornal Ìrohìn, em 2007.
A política africana que o Governo Lula pretende estabelecer junto a um conjunto de empresas brasileiras, para Moore, representa os interesses de grupos com uma visão bem mais ampla do que essas elites retrógradas que desprezam o continente. Entretanto, há uma forte tendência de o país repetir na África a relação neocolonial que outras potências já estão adotando. "Os chineses não estão nem um pouco preocupados se os trabalhadores empregados estão protegidos sindicalmente ou não. Eles estão simplesmente interessados em dispor de uma força de trabalho mais barata e se apropriar dos recursos do continente, pagando o menos possível."
A pressão da sociedade civil é, na opinião de Moore, a única forma de garantir que as empresas brasileiras atuantes no continente africano cumpram um código de conduta ética e evitem relações neoimperialistas.
Mas, para isso, a sociedade civil precisa de informação sobre a África e – conforme escreveu Flávio Saraiva – "as escolas continuam afônicas de estórias da África; as tragédias e genocídios ganham a cor espetacular das telas televisivas, enquanto as experiências de estabilização e crescimento econômico assim como as iniciativas políticas de redução da pobreza e das doenças endêmicas na África são silenciadas".
"Penso, muitas vezes, em Angola e no Brasil como dois irmãos separados durante a infância. Quando um dia se reencontram, o irmão rico ignora o pobre; o pobre, pelo contrário, conhece tudo sobre o rico, as suas vitórias e os seus dramas, e incomoda-o a ignorância do irmão."
José Eduardo Agualusa

BEM ALÉM DA ORTOGRAFIA
Artistas e intelectuais defendem projetos de integração mais amplos entre os países de língua portuguesa, sobretudo entre o Brasil e África lusófona
O Brasil precisa conhecer a África. Essa é uma reclamação feita em coro nos países da África lusófona. "Nós compartilhamos alguma identidade. A língua é uma ponte que pode nos ajudar a consolidar essas nossas identidades. Pode haver uma articulação oficial entre os países, mas eu acredito que a integração deveria ser motivada através da cultura", defende Tony Tcheka.
A mesma opinião é do escritor Ondjaki, que, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, há dois anos, sugeriu que fossem realizados "encontros regulares, diálogos culturais, ao menos um encontro anual, reunindo os oito países que falam português como língua oficial, com a participação de escritores, pintores, músicos…"
Ondjaki identifica o surgimento de uma geração nova de artistas trabalhando, em diferentes áreas, o conceito de uma África moderna. "Nós recusamos a compaixão para com o continente africano; recusamos a visão exótica, idiótica, que fazem, às vezes, da nossa literatura. E apostamos em uma modernidade africana, que tenha uma expressão livre."
José Eduardo Agualusa, sócio no Brasil da editora Língua Geral, que só publica autores dos países lusófonos, é outro a reforçar essa ideia e sugerir, de forma direta, medidas que podem facilitar o intercâmbio cultural entre o Brasil e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop): "eliminação de taxas alfandegárias sobre livros, discos, filmes e outros produtos culturais; apoio à edição de livros de autores brasileiros nos Palop e de africanos no Brasil; oferta de bolsas de criação artística para escritores residentes e prêmios, em diferentes áreas, para trabalhos de aproximação entre os povos; criação de um "passaporte lusófono"; apoio à criação de meios de comunicação que se proponham a estabelecer pontes culturais entre os países de língua portuguesa". Essas foram algumas das ideias que o escritor apresentou no Fórum Brasil África – Política, Cooperação e Comércio, realizado em Fortaleza, há cinco anos.
Na ocasião, Agualusa emocionou o público, ao discursar: "Penso, muitas vezes, em Angola e no Brasil como dois irmãos separados durante a infância. Um partiu para terras distantes e prosperou. O outro ficou na aldeia natal, mas foi seguindo sempre, através dos jornais, através das televisões, o destino do irmão. Quando um dia se reencontram, o irmão rico ignora o pobre; o pobre, pelo contrário, conhece tudo sobre o rico, as suas vitórias e os seus dramas, e incomoda-o a ignorância do irmão."
Para os escritores, o acordo ortográfico foi importante, mas de muito pouco alcance para a integração almejada. "O que inviabiliza a leitura dos livros são os preços, quase sempre muito altos por conta dos impostos praticados entre os países", pondera Ondjaki.
Fora os artistas e intelectuais, alguns empresários também já atentam para a importância da integração entre o Brasil e a África lusófona, sobretudo no que diz respeito à educação e à transferência de conhecimentos. Há um ano, o economista Nei Cardim, Vice-Presidente do Conselho Federal de Economia, coordenou a participação brasileira no VII Encontro de Economistas de Língua Portuguesa, realizado em Maputo, Moçambique. De volta ao Brasil, após o evento, ele defendeu: "O grande avanço conseguido pelo Brasil nos diversos campos do conhecimento deve ser colocado à disposição dos africanos".
FONTE: O Educacionista, 04/11.
ideários & ideologias em “Os Lusíadas”
novembro 1, 2009 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Angola, expansão marítima, herança colonial, Lusíadas, narrativas identitárias
Na LitPort 1 @s estudantes, em geral, elencaram vários temas a merecerem exploração e aprofundamento na parte final de nosso curso, notando-se um interesse transversal na articulação entre a literatura e as formas de representação da identidade e da diferença. Buscando uma síntese abrangente desse desejo em navegar por rotas múltiplas da memória lusitana, daremos partida na aula de 04/11 a uma discussão acerca dos valores estruturantes da identidade portuguesa conforme estes se encontram representados em narrativas que expressam o imaginário da Expansão Marítima. Ainda em sintonia com as opiniões colocadas nas redações, dirigiremos o foco de leitura para aquela narrativa que podemos certamente considerar tanto a mais importante quanto a mais desafiante, isto é, Os Lusíadas, de Luís de Camões. A orientação “cartográfica” para essa navegação literária & culturalista nos será proporcionada por dois textos teóricos. O primeiro deles é a “Introdução” ao épico camoniano feita por um dos mais influentes críticos literários portugueses, António José Saraiva. Trata-se de um texto referencial para os estudos desse poema, oferecendo uma excelente apresentação tanto contextual quanto formal do mesmo. Em nossos estudos, nos concentraremos nas questões relativas ao conteúdo da obra, ou aos seus “ideários”, como propõe Saraiva, recomendando-se portanto a leitura do texto até, pelo menos, a página 27. Para fazer o download, clique AQUI (em conexão de banda larga, a transferência levará cerca de 10 minutos). Para saber mais sobre António Saraiva, Camões e Os Lusíadas, visite e pesquise o MUJIMBO.
A esse estudo canônico da obra de Camões, cruzaremos a leitura polemizadora do poema feita pelo crítico e escritor Silviano Santiago no ensaio “Por que e para que viaja o europeu?”. Visite novamente o MUJIMBO e ganhe acesso a um conjunto de textos deste renomado pesquisador disponibilizados on-line pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pacote bibliográfico no qual se inclui o ensaio já referido. Também há cópia dele na xerox do campus, bem como do texto de António Saraiva. Pioneiro na renovação dos estudos literários no Brasil, Silviano Santiago desempenhou um papel decisivo na reformulação metodológica que hoje articula diretamente a literatura, a ideologia colonial e a questão identitária. Para quem quiser desdobrar numa perspectiva angolana esta reflexão sobre o imaginário dos “descobrimentos” & dos complicados intercâmbios culturais lusófonos, recomenda-se também o ensaio híbrido “Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto”, do escritor Manuel Rui, autor da letra do hino nacional de Angola.
a literatura como instrumento de leitura do “jogo de identidades”
outubro 23, 2009 às 12:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: herança colonial, identidade, literatura brasileira, narrativas identitárias, referências
Num livro seminal para os estudos literários no Brasil, o crítico Antonio Candido afirma, a propósito do trabalho de leitura e interpretação do texto ficcional, que este não pode se limitar “a indicar a ordenação das partes, o ritmo da composição, as constantes do estilo, as imagens, fontes, influências”. Para Candido, a caracterização estética constitui procedimentos auxiliares para um trabalho maior, que consiste em “analisar a visão que a obra exprime do homem, a posição em face dos temas, através dos quais se manifestam o espírito ou a sociedade”. É portanto imprescindível para a aquisição de genuína competência na discussão ou na exploração pedagógica da literatura observar, como enfatiza Candido, que um “poema revela sentimentos, idéias, experiências; um romance revela isto mesmo, com mais amplitude e menos concentração. Um e outro valem, todavia, não por copiar a vida, como pensaria, no limite, um crítico não-literário; nem por criar uma expressão sem conteúdo, como pensaria, também no limite, um formalista radical. Valem porque inventam uma vida nova, segundo a organização formal, tanto quanto possível nova, que a imaginação imprime ao seu objeto”. [In: Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). “Introdução”.]
Reconstruir essas relações, ou essa tessitura, entre expressão formal e conteúdo existencial, entre texto imaginativo e mundo real, tem solicitado das várias gerações de pesquisadores da literatura a adoção de perspectivas e métodos também diversificados. No que diz respeito à abordagem das questões identitárias e culturalistas, vem se destacando a importância de um olhar interpretativo capaz de identificar a representação de valores fundacionais das sociedades, ou as maneiras como heranças e tradições culturais são tematizadas no texto literário. Algumas indicações valiosas para esses estudos encontram-se sintetizados no artigo de Heloisa Toller GOMES “Questões coloniais e pós coloniais no tratamento (literário) da etnicidade”, disponível AQUI.
Brasil & Portugal: polêmicas & ressentimentos
outubro 18, 2009 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: descobrimentos, discriminação, exercício, herança colonial, identidade, lusofonia, narrativas identitárias, Portugal, vídeo
Como se pode observar no artigo abaixo do jornalista Clóvis Rossi, novamente os incidentes entre brasileiros e portugueses fazem emergir diversas imagens identitárias que refletem, sobretudo quando buscamos lê-las em seus reversos, os traumas não-resolvidos do passado colonial. Um ótimo exercício para @s estudantes da LitPort1 seria compor uma breve redação discutindo a polêmica em causa e posicionando-se quanto a ela. Que motivos teriam os brasileiros para cultivar tanto rancor em relação ao povo que, alegadamente, nos “descobriu”? Como entender a postura portuguesa de repúdio a esses sentimentos?
Brasileiros e portugueses, nada a ver
Clóvis Rossi, Folha de São Paulo, 14/10/2009
O comentário sobre a irritação dos portugueses com um vídeo gravado pela atriz Maitê Proença para o “Saia Justa”, do canal a cabo GNT, provocou um tsunami de correspondência, recorde absoluto neste mês e meio em que a “Janela” está aberta. Sou, portanto, obrigado a voltar a ele. (leia AQUI o primeiro artigo de Rossi sobre essa questão)
Primeiro, um esclarecimento: o que mais doeu nos portugueses foi o fato de Maitê ter cuspido em uma fonte do Mosteiro dos Jerónimos, patrimônio da humanidade.
Escreve, por exemplo, José Elias, português e fotógrafo de patrimônio histórico e cultural: “Este sim [cuspir na fonte] é talvez o acto mais ofensivo para os portugueses. A degradação e o desrespeito para com os nossos símbolos nacionais. Poderá ser apenas um edifício, é verdade, mas desculpem lá termos alguma estima por ele”.
Está perfeitamente desculpado, José Elias.
E também peço desculpas por ter omitido esse aspecto na “Janela” de ontem. É uma questão de diferença de sensibilidade: os brasileiros estamos tão arqui-acostumados a ver monumentos cuspidos, escarrados, urinados etc, que não nos chocamos mais com isso.
No meu caso, sou dos que não sacralizam monumentos, mas deveria ter percebido que outras pessoas, de qualquer nacionalidade, inclusive brasileiros, podem ter outra sensibilidade – provavelmente mais adequada que a minha. Ou, como escreve outro leitor português, Eduardo Miguel Sequeira, “piadas, nós entendemos, cuspir em monumentos é outra conversa”.
Nem todo português ou descendente aceita tão tranquilamente as piadas que os brasileiros fazemos abusivamente em relação aos portugueses, do que dá testemunho a jornalista Cristina Silva Rosa, da Agência Lusa de notícias: “Sou filha de portugueses, cresci ouvindo que os portugueses são burros e ficava sempre muito triste e chateada com isso. Quando ouvi os comentários da sra. Maitê, lembrei-me dos tempos de colégio Sion, em São Paulo, em que tinha de aturar as piadas maldosas dos meus colegas de turma sobre os patrícios”, reclama. “Acho que devemos respeitar para sermos respeitados”. (assista o VÍDEO de Maitê Proença em Portugal)
Reforça Carlos Costa Rodrigues, que começa afirmando com toda a razão que “não temos [os portugueses] medo do ridículo. Temos medo sim, da falta de criatividade”, que é um dos grandes pecados do vídeo.
Acrescenta: “Concordo também consigo que o português é extremamente sensível aos comentários que fazem (sejam de brasileiros ou não), mas quem conhece a história de Portugal perceberá que nos últimos séculos fomos ‘achincalhados’ muitas vezes por outros povos (Invasões Espanholas e Francesas, Ultimato Inglês, Guerra Colonial em África) e aquilo que sempre ficou, foi o nosso orgulho (…). No fundo, adoramos ser portugueses. E quando nos juntamos em prol de uma causa, viramos uma família enorme, em que a orientação sexual, a religião, a militância partidária e outros tantos factores de distinção deixam de fazer sentido. Quando defendemos um dos ‘nossos’ ou a ‘nossa’ memória colectiva’ viramos animais irracionais”.
Pena que parte da correspondência tenha sido xingamento puro, em vez de argumentos. É desgraçadamente uma característica usual na internet. Mas o que sobrou de comentários inteligentes daria para escrever um verdadeiro tratado sobre a relação brasileiros/portugueses, ao rés-do-chão, não institucionalmente entre os dois países, que goza de excelente saúde.
Como tratado não cabe aqui, algumas pinceladas apenas sobre o poço de mágoa que há de parte a parte.
João Passos, descendente de brasileiros, casado há 20 anos com brasileira, acha que “o Brasil sofre da síndrome da vergonha das origens. O processo de independência fomentou-o e tornou-se vox populi que se o Brasil é como é se deve à colonização portuguesa; antes tivesse sido colonizado pela Holanda ou Inglaterra, mais inteligentes com certeza”.
Há ataques mais agudos, como o de Bruno Filipe para quem “a única coisa a que os portugueses são sensíveis em relação aos brasileiros é á extrema falsidade que se percebe nos seus rostos. Os brasileiros são em geral um povo falso. (…) O Brasil para a maior parte de nós portugueses e diria mesmo para a maior parte do mundo ocidental não passa de um país de miséria, criminalidade e de 3º mundo, que tenta, tenta, tenta mas nunca consegue chegar a lado nenhum, nem nunca conseguirá pela sua falta de auto-estima e princípios básicos civilizacionais”.
Pensa que é opinião isolada de algum português preconceituoso? Então, leia o seguinte trecho da coluna de Clara Ferreira Alves, no respeitado semanário “Expresso”, publicada dia 9 passado, a propósito da atribuição ao Brasil dos Jogos Olímpicos de 2016:
“Expeditos cariocas hão-de arranjar modo de saltar o muro e vender mais droga, assaltar mais turista, trocar mais tiro e limpar o sebo a mais bope [se alguém souber o que essa expressão significa, favor me contar]. Vender-se-á mais samba e bossa nova, mais cocada na praia, mais pastelinho em Copacabana, mais mulata em hotel, mais criança para tarado”.
Bom, ainda há a imagem da brasileira em geral como prostituta. Escreve, por exemplo, Carlos Matias: “Existe, sim, esse preconceito em relação às brasileiras. Acontece que aqui a prostituição está repleta de brasileiras. A prostituição tem sotaque brasileiro. É um facto. Temos culpa disso?
Contra-ataca Cintia Rubly: “Como brasileira que reside em Lisboa há três anos, será que também devo começar a exigir um pedido de desculpas de cada português que me trata como prostituta pelo simples fato de ser brasileira? E não falo só por mim, falo por todas as brasileiras que são diariamente discriminadas e nada acontece. O que a Maitê fala no vídeo não é nada perto das coisas que nós, brasileiras e brasileiros, ouvimos na terrinha’.
Pelo jeito, o tal de acordo ortográfico é absolutamente insuficiente para que brasileiros e portugueses falem a mesma língua.
exercício 1, LitPort1
outubro 9, 2009 às 1:36 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: cultura, exercício, herança colonial, língua portuguesa, nação, narrativas identitárias
Segundo Stuart Hall, “As culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso - um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre ‘a nação’, sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas”. Considerando essas questões, discuta as principais imagens identitárias que se inscrevem nos textos estético-culturais abaixo relacionados:
LUSITANA
(Mafalda ARNAUTH)
Doce e salgada
Ó minha amada
Ó minha ideia
Faz–me grego e romano
Tu gingas à africano
Como a sereia
Ó bailarina
Ó columbina
És a nossa predilecta
De prosadores e poetas
Dos visionários
Quem te vê ama de vez
Nómadas e sedentários
Ó pátria lusa
Ó minha musa
O teu génio é português
Doce e salgada
Ó minha amada
Das epopeias
Tu és toda em latim
E a mais mulata sim
Das europeias
Ó bailarina
Ó columbina
Do profano matrimónio
“nas andanças do demónio“
Bela e roliça
Ai dança a chula requebrada
A minha canção é mestiça
Ó pátria lusa
Ó minha musa
O teu génio é português
Teu génio meigo e profundo
É deste tamanho do mundo
Sentimental como eu
Dois corações pagãos
São de apolo e de orfeu
Guarda-nos bem fraternais
No teu chão
No teu colo
De sonhos universais
És o nosso almirante
Terna mãe de crioulos
Cuida da nossa alma errante
Nós só queremos teu consolo
Doce e salgada
Ó minha amada
Da companhia
És um caso bicudo
Tu és o–mais-que-tudo
Da confraria
Ó bailarina
Ó columbina
Tu és a nossa doidice
Meiga “amante de meiguices“
Eu te proclamo
Quem te vê ama de vez
E a verdade é que eu te amo
Ó pátria lusa
Ó minha musa
O teu génio é português.
(para ouvir esta canção, clique AQUI)
* * *
MÚSICA BRASILEIRA
(Olavo Bilac)
Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.
Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.
És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:
E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.
* * *
FADO TROPICAL:
(Chico Buarque de Hollanda & Ruy Guerra)
Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,
trucidar
Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora…”
Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa”
Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
(para ouvir esta canção, clique AQUI)
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