literatura e educação afro-brasileiras: alguns pontos cardeais

junho 1, 2011 às 1:27 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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junho 1, 2011 às 0:24 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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proença trajetória 1

Clicando na imagem acima você pode acessar a versão eletrônica de um artigo de Proença Filho no qual se traça uma proposta de classificação para as diversas, e sempre multifacetadas, formas de representação dos afrodescendentes no texto artístico brasileiro. Trata-se de uma referência importante para a atividade final que desenvolveremos na LitPort 4, centrada na elaboração, por duplas de estudantes, de um “kit” anti-racista que reúna e comente textos poéticos e informativos. Para auxiliar nas pesquisas de materiais para esse trabalho, segue uma coletânea de poesias publicadas no âmbito  da série Cadernos Negros (saiba mais sobre esta série AQUI).

CapaTRES cadernos negros

LINHAGEM

Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Me envia mensagens do orum
Meus dentes brilham na noite escura
Afiados como o agadá de Ogum
Eu sou descendente de Zumbi
Sou bravo valente sou nobre
Os gritos aflitos do negro
Os gritos aflitos do pobre
Os gritos aflitos de todos
Os povos sofridos do mundo
No meu peito desabrocham
Em força em revolta
Me empurram pra luta me comovem
Eu sou descendente de Zumbi
Zumbi é meu pai e meu guia
Eu trago quilombos e vozes bravias dentro de mim
Eu trago os duros punhos cerrados
Cerrados como rochas
Floridos como jardins

[CARLOS ASSUMPÇÃO]

 

BATUQUE

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas e brancas

Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Que evoca bravura dos nossos avós
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores
Sem distinção

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

É todo enfeitado de fitas
Vermelhas pretas amarelas brancas azuis e verdes

Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
Dispersos
Jogados em senzalas de dor
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que fala de ódio e de amor
Tambor que bate sons curtos e longos
Tambor que bate
Batuque batuque bate
Tambor que bate
O toque de reunir
Todos os irmãos
De todas as cores

Num quilombo
Num quilombo
Num quilombo

Tenho um tambor
Tenho um tambor
Tenho um tambor

Tenho um tambor
Dentro do peito
Tenho um tambor

[CARLOS ASSUMPÇÃO]

 

EFEITOS COLATERAIS

Na propaganda enganosa
paraíso racial
hipocrisia faz mal
nosso futuro num saco
sem fundo
a gente vê
e finge que não vê
a ditadura da brancura

Negros de alma negra se inscrevem
naquilo que escrevem
mas o Brasil nega
negro que não se nega.

[JAMU MINKA]

 

SAFÁRI

Aquela tigresa é tanta
que me almoça e janta
faço de conta que a sala é ponto
na geografia da África
e o tapete vira suave savana ao entardecer
quando a pele da noite vem camuflar
nosso safári safado.

Olho por olho
dente por dente
recuperamos o pente
ancestral
o impossível continha o bonito
caracol
carapinha
bumerangue infinito
                             Olho que revê o que olha
dedos que sabem trançar ideias
do original azeviche
             princípio do mundo

Se o cabelo é duro
cabe ao pente ser suave serpente
o fundamental dá beleza
a quem não tem preconceito
e conhece segredos da
C R E S P I T U D E

[JAMU MINKA]

 

RAÇA & CLASSE

Nossa pele teve maldição de raça
e exploração de classe
duas faces da mesma diáspora e desgraça

Nossa dor fez pacto antigo com todas as estradas do
mundo e cobre o corpo fechado e sem medo do sol

Nossa raça traz o selo dos sóis e luas dos séculos
a pele é mapa de pesadelos oceânicos
e orgulhosa moldura de cicatrizes quilombolas.

[JAMU MINKA]

 

CRISTÓVÃO-QUILOMBOS

Fez-se a ganância
diabólicos destinos de um caminho sem volta
espíritos e corpos armados nascem do imenso ventre das águas fantásticas
o outro lado do mundo possível
Terrágua, uma bola de vida no cosmo 1492, Colombo!

Naus enormes, engenhocas inéditas — a roda, arma de fogo —
múltiplos poderes desconhecidos
homens-deuses barbados, brancos, loiros e ruivos
e seus olhos coloridos de cobiça

Piratas no paraíso
Europa rouba tudo
ouro e prata, milho, batata
cana e canga em corpos de América e África

Pós impacto do primeiro engano
— a visita era conquista e seus horrores —
deuses invadidos trovejam tambores
e cospem flechas de rebeldia

Depois de Colombo e sua maldita herança
calombos e mutilações em milhões de corpos.
Quilombos por toda parte.

[JAMU MINKA]

 

ZUMBI

As palavras estão como cercas
em nossos braços
Precisamos delas.
Não de ouro,
mas da Noite
do silêncio no grito
em mão feito lança
na voz feito barco
no barco feito nós
no nós feito eu.
No feto
Sim,
20 de novembro
é uma canção
guerreira.

[ABELARDO RODRIGUES]

TRAÇADO

O traço saído
ao crespo estilo
do teu cabelo
trançado e escuro
já mora em meu olho

[MÁRCIO BARBOSA]

 

SER E NÃO SER

O racismo que existe,
o racismo que não existe.
O sim que é não,
o não que é sim.
É assim o Brasil
ou não?

[OLIVEIRA SILVEIRA]

 

CABELOS QUE NEGROS

Cabelo carapinha,
engruvinhado, de molinha,
que sem monotonia de lisura
mostra-esconde a surpresa de mil
espertas espirais,
cabelo puro que dizem que é duro,
cabelo belo que eu não corto à zero,
não nego, não anulo, assumo,
assino pixaim,
cabelo bom que dizem que é ruim
e que normal ao natural
fica bem em mim,
fica até o fim
porque eu quero,
porque eu gosto,
porque sim,
porque eu sou
pessoa negra e vou
ser mais eu, mais neguim
e ser mais ser
assim.

[OLIVEIRA SILVEIRA]

 

OUTRA NEGA FULÔ

O sinhô foi açoitar a outra nega Fulô
— ou será que era a mesma?
A nega tirou a saia, a blusa e se pelou.
O sinhô ficou tarado, largou o relho e se engraçou.
A nega em vez de deitar pegou um pau e sampou nas guampas do sinhô.
— Essa nega Fulô!

Esta nossa Fulô!,
dizia intimamente satisfeito
o velho pai João
pra escândalo do bom Jorge de Lima,
seminegro e cristão.

E a mãe-preta chegou bem cretina
fingindo uma dor no coração.
— Fulô! Fulô! Ó Fulô! A sinhá burra e besta perguntou onde é que tava o sinhô que o diabo lhe mandou.
— Ah, foi você que matou!
— É sim, fui eu que matou — disse bem longe a Fulô,
Pro seu nego, que levou
Ela pro mato, e com ele
Sí sim ela deixou.
Essa nega Fulô!
Esta nossa Fulô!

[OLIVEIRA SILVEIRA]

 

EM MAIO

Já não há mais razão de chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.

Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.

Em maio uma tal senhora liberdade se alvoroça,
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
Outrora, nas senzalas, os senhores…

Mas a liberdade que desce à praça
nos meados de maio
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida
e nada sabe de nossa vida.

A liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
e se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.

Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: Ó bendita Liberdade!

E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!

[OSWALDO DE CAMARGO]

 

POEMA ARMADO

Que o poema venha cantando
ao ritmo contagiante do batuque
um canto quente de força,
coragem, afeto, união

Que o poema venha carregado
de amarguras, dores,
mágoas, medos,
feridas, fomes…

Que o poema venha armado
e metralhe a sangue-frio
palavras flamejantes de revoltas
palavras prenhes de serras e punhais…

Que o poema venha alicerçado
e traga em suas bases
palavras tijolantes,
pontos cimentantes,
portas, chaves, tetos, muros

E construa solidamente
uma fortaleza de fé
naqueles que engordam
o exército dos desesperados

Para que nenhuma fera
não mais galgue escadas
à custa de necessidades iludidas…

E nem mais se sustente
com carne, suor e sangue
dum povo emparedado e sugado
nos engenhos da exploração!

[OUBI INAÊ KIBUKO (Aparecido Tadeu dos Santos)]

 

TORPEDO

irmão, quantos minutos por dia
a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?

e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servida a ela
como hóstia?

irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?

ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.

irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.

irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.

sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.

irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
fica esperto!
e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.

um grande abraço
deste teu irmão de presídio

assinado:
zumbi dos palmares

[CUTI]

 

QUEBRANTO

às vezes sou o policial que me suspeito
me peço documentos
e mesmo de posse deles
me prendo
e me dou porrada

às vezes sou o porteiro
não me deixando entrar em mim mesmo
a não ser
pela porta de serviço

às vezes sou o meu próprio delito
o corpo de jurados
a punição que vem com o veredicto

às vezes sou o amor que me viro o rosto
o quebranto
o encosto
a solidão primitiva
que me envolvo com o vazio

às vezes as migalhas do que sonhei e não comi
outras o bem-te-vi com olhos vidrados
trinando tristezas

um dia fui abolição que me lancei de supetão no espanto
depois um imperador deposto
a república de conchavos no coração
e em seguida uma constituição
que me promulgo a cada instante

também a violência dum impulso
que me ponho do avesso
com acessos de cal e gesso
chego a ser

às vezes faço questão de não me ver
e entupido com a visão deles
sinto-me a miséria concebida como um eterno começo

fecho-me o cerco
sendo o gesto que me nego
a pinga que me bebo e me embebedo
o dedo que me aponto
e denuncio
o ponto que me entrego

às vezes…

[CUTI]

 

A NOITE TE CONVIDA
 
África mãe, Brasil filho,
O leite do mundo habitou suas tetas.
Mamilos perfeitos acalentados de açoite.
Seu ventre sempre foi livre
Gerando toda a história desse universo mal agradecido
Se ser mãe é dádiva de Deus
Então a África é o berçário onde Ele nasceu.
Suas crianças, dotadas de grande picardia, 
Lançaram ao mundo variadas culturas.
A noite recente traz o eco
da trilha sonora daquele tempo, 
Tambores confeccionadas pelas mãos
Arquitetas do mundo.
Metralhadoras, fuzis e armas químicas
Deitarão no seu colo
para dividir o espaço com as rosas vermelhas.
Os amores não-correspondidos
se contentaram ao seu lado.
Corações sujos que me lembram as pedras,
Hipérbole da herança maldita,
que umedece e goteja em pequenos ventres
Multiplicando a desgraça e mal vivida vida.
Vida que alimenta a feijoada,
Vida que suinga o carnaval,
Vidas de mãos feridas que tocam os instrumentos…
Umbanda, candomblé.
Tragam-me a garrafa com o líquido da cultura nordestina
Vou me embriagar desse sincretismo puro e natural. Noite! Termo abstrato
que absorve o sentimento africano.
África mãe, África pai, África.
Sinônimo de negro.
Ovaciona o seu hino de raiz
Que a recitação voe até a audição
desses espíritos maléficos,
Âmago sem cultura.
África! Sou larápio de cena
Que cutuca a sua bonança com palavras egocêntricas.
Venha mãe, dance comigo o batuque atual
Porque, nas nossas festas noturnas, 
A sua entrada é franca.
Então, ginga o batuque atual.
Que cada gesto teu tenha um pedaço de desdém,
Venha, pois a noite… te convida para dançar.

[SACOLINHA (Ademiro Alves)]

 

NEGRITUDE

Para Jorge Henrique Gomes da Silva

De mim
parte um canto guerreiro
um voo rasante, talvez rumo norte
caminho trilhado da cana-de-açúcar
ao trigo crescido, pingado de sangue
do corte do açoite. Suor escorrido
da briga do dia
que os ventos do sul e o tempo distante não podem ocultar.

De mim
parte um abraço feroz
um corpo tomado no verde do campo
beijado no negro da boca da noite
amado na relva, gemido contido
calado na entranha
oculto do medo da luz do luar.

De mim
parte uma fera voraz
(com sede, com fome)
de garras de tigre
pisar de elefante correndo nas veias
je fogo queimando vermelho nas matas
Frugir de leões bailando no ar.

De mim
parte de um pedaço de terra
semente de vida com gosto de mel
criança parida com cheiro de luta
com jeito de briga na areia da praia
de pele retinta, deitada nas águas
sugando os seios das ondas do mar.

De mim
parte  NEGRITUDE
um golpe mortal
negrura rasgando o ventre da noite
punhal golpeando o colo do dia
um punho mais forte que as fendas de aço
das portas trancadas
da casa da história.

[CELINHA]

 

A NOITE NÃO ADORMECE NOS OLHOS DAS MULHERES

Em memória de Beatriz Nascimento

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

[CONCEIÇÃO EVARISTO]

 

DANÇANDO NEGRO

Quando eu danço
atabaques excitados,
o meu corpo se esvaindo
em desejos de espaço,
a minha pele negra
dominando o cosmo,
envolvendo o infinito, o som
criando outros êxtases…
Não sou festa para os teus olhos
de branco diante de um show!
Quando eu danço há infusão dos elementos,
sou razão.
O meu corpo não é objeto,
sou revolução.

[ÉLE SEMOG]

 

MAHIN AMANHÃ

Ouve-se nos cantos a conspiração
vozes baixas sussurram frases precisas
escorre nos becos a lâmina das adagas
Multidão tropeça nas pedras
                                 Revolta
há revoada de pássaros
               sussurro, sussurro:
"é amanhã, é amanhã.
     Mahin falou, é amanhã".

A cidade toda se prepara
        Malês
            bantus
                  geges
                         nagôs
vestes coloridas resguardam esperanças
                         aguardam a luta

Arma-se a grande derrubada branca
a luta é tramada na língua dos Orixás
"é aminhã, aminhã"
        sussurram
       Malês
               bantus
                        geges
                              nagôs
"é aminhã, Luiza Mahin falo"

[MIRIAM ALVES]

MALAKÊ
 
Início da minha história
Lançada do outro lado do mar
Oxé brilhante de Zázi, Sobô,
Xangô, Odus, Orikis
Semente, cio dos raios, Orixá
Início de Rochas, meu elo, Otá
Continente inteiro, destino Atlântico
Razão de minha pele
Vítima da aspereza dos dias
Diáspora, outra canção
Primeira do clã a chegar
Trazendo nos punhos, tornozelos
Estranhos adornos que rangiam
Como a raiva salgada, oceânica
Molhada de banzo, sem zelos
Mesmo assim trazendo
Receitas de Amalá
 
Malakê
De frente aos seus fundamentos
No Rumpayme Runtoloji
Os do seu pai, nosso pai
Entendi a inteira dor
A violação do passado
Pelos ferros apagado
À mudança do teu nome
Ao chamarem uma Maria
Uma Gaudência
Uma Conceição…
 
Malakê, menina de uma África
De uma cachoeira, Terra das Águas
Pitanga, Paraguassu, Caquende
(em outro poema levaram minhas mágoas)
Pedra do Cavalo, cheias
Cabeceiras, indomáveis Águas
Lugares de tantas sereias
Malakê
Mãe, Pai
A quem tenho como primeiro Ancestral

Por tudo e por tal
Me ensina
Quero dizer a todos orixás
Da minha crença no toque
No som do lê, do rumpi, do rum
Na força dos tridentes, adagas
Machados, espelhos, abebes, espadas
No ar, na terra, no fogo, na água
Nos Ilês, nos Axés
No Bogun
Na Casa Branca de tão antiga
No Jitolu de mãe Hilda, amiga
Em todo reino do Orun
Na dualidade de Logunedé
Em Stella estrela de Oxóssi
No Tanuri Juçara de Bebé
Na esteira, no Ojá
Ensaiando no Zandró
No Axé Opó Afonjá
Nunca estando só…
Nas cores firmes das vestes
No transe, na festa
Nos Búzios de todos segredos, no Ifã
Na alguidar, nas folhas, no que resta
Porque sem elas não há
No padê
Em Legbara, Iaroiê!
Na Oxum bonita, Ora-ie-iê!
Em Iansã e seus raios, Eparrê!
Em Ogum de tantas lutas Ogunhiê!
Em Oxossi caçador, Okê-Arô!
No meu pai Xangô, Cabelilê!!!
No Alabê, no Mariô
Na Equede, na Makota
Na oferenda, no Pano da Costa
No dendê, nas Abiãs
No branco da paz de Lemba
Nas conversas dos Ogãs
Na gamela, na quartinha
No pó de Pemba
Na prece que é sempre canto
Encanto
Na própria firmeza da fé
Nos eguns, no terreiro
Na luz que me faz inteiro
E que vem do candomblé

Malakê
Obrigado por me legar esta vontade
De contar as Coisas do nosso povo
Nossas Sendas
Pelo gosto de nossa história, contos e lendas…
 
Obrigado por Anelita por Gaiacu Luíza
Senhora e Dofôna Regina
Didi, Joana, satu, e Benzinha
E ver que de você veio ao mundo
Tanta mulher, tanta rainha
Obrigado por me fazer acordar
E tentar entender toda forma de amor
Obrigado Malakê
Por ter vindo de você
Assim do jeito que sou!

[JOSÉ CARLOS LIMEIRA]

Anna Bella Geiger(Anna Bella Geiger)

a escrita barroca de Antônio Vieira: algumas sínteses

maio 4, 2011 às 23:49 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Publicada três anos atrás, a entrevista reproduzida abaixo mantém-se bastante atual no panorama que traça acerca das caracterísiticas marcantes da estética barroca, particularmente na obra do padre luso-brasileiro Antônio Vieira, e dos diálogos entre a literatura contemporânea e a literatura engenhosa. Bom material para recapitular e ampliar algumas das questões discutidas nas últimas aulas da LitPort 2. Logo a seguir, à direita da foto do entrevistado, uma reprodução do belo retrato de Vieira criado por Cândido Portinari.

                                                                  Antonio_Vieira_PORTINARI

Antônio Vieira: um dos autores mais densos e complexos da literatura brasileira. Entrevista especial com Claudio Daniel

Hoje, 6 de fevereiro de 2008, são comemorados os 440 anos do nascimento de Antônio Vieira (1608-1697). A revista IHU On-Line 244, intitulada Antônio Vieira: imperador da língua portuguesa, de 19-11-2007, fez uma homenagem ao jesuíta, debatendo sua obra com diversos especialistas. O poeta Claudio Daniel, por sua vez, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, realiza uma análise sobre a importância de Vieira para a literatura moderna e para o barroco contemporâneo.

Claudio destaca um elemento por vezes esquecido, atualmente: a literariedade de Vieira, que “construiu seus textos com recursos da arquitetura poética barroca, como a metáfora, a alegoria, a analogia, o paradoxo, o paralelismo, entre outros, além das relações intertextuais que estabeleceu com os textos bíblicos e de autores clássicos greco-latinos”. Claudio destaca ainda que Vieira realizou uma “literatura sofisticada, que não pode ser reduzida ao aspecto referencial, sem dúvida importante, dentro de sua estratégia missionária, mas que não é o único que pode ser apreciado pelo leitor moderno”. De passagem, avalia que “a exclusão do barroco de nossa literatura, realizada por Antonio Candido em sua Formação da Literatura Brasileira, é injustificável”, chamando atenção para sua influência na obra de Haroldo de Campos. E também fala da importância do barroco hoje, comentando sobre a antologia que produziu, Jardim de camaleões: a poesia neobarroca na América Latina (São Paulo: Iluminuras, 2004), com muitos poetas do assim chamado neobarroco, como Victor Sosa, Severo Sarduy e Coral Bracho.

Claudio Daniel é formado em Jornalismo, pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Libero, e mestrando em Literatura Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP). É autor de Sutra (1992), Yumê (1999) e A sombra do leopardo (2001), reunidos em Figuras metálicas (São Paulo: Perspectiva, 2005), que traz sua obra escrita entre 1983 e 2003. Também publicou a prosa experimental Romanceiro de Dona Virgo (Rio de Janeiro: Lamparina, 2004) e traduziu poetas como Victor Sosa, em Sunyata & outros poemas (São Paulo: Lumme Editor, 2005), e José Kozer, em Íbis amarelo sobre fundo negro (Curitiba: Travessa dos Editores, 2006).

Confira e entrevista.

IHU On-Line – Há uma tendência, por parte de alguns estudiosos, em tentar enxergar Vieira separado da literatura. Ou seja, antes de tudo, para alguns, ele foi um padre jesuíta que escreveu sermões especificamente religiosos, como se esses fossem afastados dos ganhos lingüísticos e literários. Como percebe essa separação?

Claudio Daniel - Vieira (1) escreveu cartas e sermões de caráter moral e teológico. Porém, ele construiu seus textos com recursos da arquitetura poética barroca, como a metáfora, a alegoria, a analogia, o paradoxo, o paralelismo, entre outros, além das relações intertextuais que estabeleceu com os textos bíblicos e de autores clássicos greco-latinos. É uma literatura sofisticada, que não pode ser reduzida ao aspecto referencial, sem dúvida importante, dentro de sua estratégia missionária, mas que não é o único que pode ser apreciado pelo leitor moderno. Exilar Vieira da literatura de língua portuguesa apenas por causa do caráter religioso de seus escritos me parece tão absurdo quanto excluir John Donne (2) da literatura de língua inglesa ou Sóror Juana Inés de la Cruz (3) da literatura de língua espanhola. Por outro lado, a obra de Vieira não se resume a questões éticas e espirituais; ele foi também um pensador político, como podemos verificar lendo sua História do futuro, ou o “Sermão do Bom Ladrão”, e abordou até a metalinguagem, no “Sermão da Sexagésima”.  É um dos autores mais densos e complexos de nossa literatura, que merece contínua releitura e reflexão. 

IHU On-Line – Quais são os sermões aos quais você sempre volta? Eles ainda constituem uma peça fundamental para entender o barroco brasileiro, assim como, por exemplo, os poemas de Gregório de Mattos (4)?

Claudio Daniel – Gosto de ler a História do futuro, as cartas e vários sermões, como o “Sermão de Santo Antônio”, um dos mais alegóricos, e que permite comparações com a poesia mística de Sóror Maria do Céu e com a pintura de Josefa d’Óbidos (5), pela representação simbólica que faz dos vícios e virtudes, relacionando-os com diferentes espécies de peixes e com as atitudes egoístas de membros de sua própria paróquia. Esse simbolismo, de humor corrosivo, permite inclusive outra aproximação, com o escritor inglês Jonathan Swift (6), e mesmo com George Orwell (7) (todos os três utilizaram formas alegóricas como instrumentos para a sátira política). Vieira é mais moderno do que se imagina, assim como Gregório de Mattos, que fez um retrato da vida colonial brasileira que permanece tristemente atual, por exemplo quando ele toca na corrupção de funcionários públicos. A exclusão do barroco de nossa literatura, realizada por Antonio Candido (8) em sua Formação da Literatura Brasileira, é injustificável; podemos verificar a brasilidade de Gregório, por exemplo, não apenas em seus temas, mas até na sua linguagem, que inclui termos de origem indígena e africana, que aliás não se encontram em Góngora (9) ou Quevedo (10), autores que ele foi acusado de imitar. Podemos notar, sim, um diálogo criativo de Gregório com os mestres do Século de Ouro espanhol, que merece análise a partir dos conceitos de intertextualidade de Julia Kristeva (11), mas falar em imitação é uma miopia que oblitera a contribuição original e específica do poeta baiano. Esta acusação simplista é outra tentativa de negar a riqueza do barroco brasileiro, um dos pontos altos de nossa cultura. Haroldo de Campos realizou um trabalho importante para o resgate dessa tradição, que ainda precisa ser plenamente recuperada, inclusive com a reedição crítica das obras de autores quase esquecidos do período, como Botelho de Oliveira (12).
IHU On-Line – De que modo analisa a decisão de Vieira de se afastar da visão gongórica do barroco?

Claudio Daniel – No “Sermão da sexagésima”, Vieira escreveu uma autêntica “arte de pregar”, quase um manifesto estético, polemizando com os oradores dominicanos, seus rivais, que praticavam um cultismo exacerbado, em detrimento de um sentido espiritual mais profundo. Conforme Antonio Candido, o cultismo “repousa sobretudo no som e na forma, tendendo para uma verdadeira exaltação sensorial, enquanto favorece a fantasia na busca de imagens e sensações que ultrapassam as sugestões da realidade”. Vieira era partidário de outra tendência do barroco, o conceptismo, que, nas palavras de Candido, “apóia-se no significado da palavra, tendendo para o abusivo jogo de vocábulos e de raciocínio, para as agudezas ou sutilezas de pensamento, com transições bruscas ou associações inesperadas, além de seu misticismo ideológico”. Essa divisão entre as duas facetas do barroco nem sempre é estanque; ao contrário, é uma fronteira porosa, que permite intersecções. Em várias passagens dos sermões de Vieira, podemos encontrar também recursos cultistas, mas sempre com um propósito religioso ou moral; o que ele condenava em seus adversários era a retórica artificial e oca.

IHU On-Line – Aceita a observação de Haroldo de Campos (13), para quem Vieira era um "syntaxier", como Mallarmé? Faria aproximações entre o barroco de Vieira, mais prolixo, e o de Haroldo, mais sintético, mas com um trabalho experimental com a sintaxe?

Claudio Daniel - A sintaxe de Vieira nem sempre é labiríntica ou obscura como a de Mallarmé; muitas vezes é clara e direta, já que ele escreveu textos para atingirem um público, com objetivo de proselitismo religioso. O jesuíta não buscava uma linguagem pura próxima da abstração. No entanto, a construção estrutural de seus sermões, a maneira como ele faz o encadeamento discursivo, pode autorizar um paralelo com o autor francês, com parêntesis e ressalvas. O diálogo de Haroldo de Campos com Vieira vem desde a década de 1950; a própria expressão “xadrez de estrelas”, que nomeia a antologia poética de Haroldo publicada em 1976, foi retirada de um sermão do jesuíta (14). Seria interessante um estudo comparativo entre a produção mais barroquizante — e logo, menos sintética — do poeta paulista (o Auto do possesso e Galáxias) e as construções sonoras e imagéticas do jesuíta.

IHU On-Line – Muitos textos fundamentais de Haroldo de Campos estabelecem um contato entre barroco e poesia concreta. Existiria um ponto de aproximação sobretudo na questão do luxo/lixo da linguagem, para utilizar uma expressar do poema de Augusto de Campos?

Claudio Daniel - O barroco é uma arte de mesclas, de miscigenação, de quebra de fronteiras entre códigos e repertórios culturais: não por acaso, na arquitetura das igrejas barrocas no Nordeste brasileiro, por exemplo, você encontra estátuas de anjos com feições africanas. Há uma quebra de hierarquias entre o popular e o erudito, o sublime e o terrível, para a conquista dos sentidos do espectador: o barroco utiliza todos os recursos disponíveis de som e imagem para ameaçar e seduzir. A própria missa barroca nada mais é do que a “obra de arte total” que une a arquitetura, as artes visuais, a recitação e o canto. A poesia concreta também realizou a quebra de fronteiras entre as diversas artes, e ainda entre a cultura de alto repertório e a cultura de massa, como em seu diálogo com a música popular, a publicidade e agora com os recursos eletrônicos. Neste sentido, podemos identificar pontos de convergência entre o barroco e a poesia concreta. Não por acaso, Augusto de Campos traduziu dois importantes poetas barrocos, o inglês John Donne e o alemão Quirinus Kuhlmann (15).

IHU On-Line – O seu trabalho poético tem influência do barroco e você já traduziu muitos poetas do neobarroco. Quais os trabalhos que mais têm seu interesse? Há uma influência de Vieira ainda no barroco contemporâneo?

Claudio Daniel - No livro Romanceiro de Dona Virgo, que publiquei em 2004, há um conto chamado "Agnus Dei", que é um diálogo intertextual com Gregório e Vieira, citados nas epígrafes e também no interior do texto, na forma de alusões, citações e paródia. O conto é ambientado num mosteiro beneditino no sul da Bahia, na época do regime militar, e faz um cruzamento temático entre a questão política, o misticismo e a sexualidade. De todos os meus escritos, creio que este é o que conversa de modo mais explícito com a estética barroca (presente, em maior ou menor grau, em meus poemas, sobretudo naqueles incluídos no livro Yumê, de 1999). Atualmente, tenho lido muito os ensaios de Ana Hatherly (16), como “O ladrão cristalino” e “A experiência do prodígio”, em que faz estudos comparativos entre a poesia e a pintura do barroco português. Também leio, com certa freqüência, a edição crítica dos poemas de Gregório de Mattos, em dois volumes, organizada por James Amado, e o Primero Sueño, de Sóror Juana Inés de la Cruz. Não sou um especialista, mas um apaixonado pelo barroco, que me encanta com seus labirintos sintáticos e semânticos. Já o neobarroco (ou neobarroso, como dizia Nestor Perlongher) não é uma retomada epigonal da arte do Século de Ouro, com a sua métrica e a sua metafísica, impregnada pelo espírito da Contra-Reforma.

Conforme diz Roberto Echavarren (17), “a poesia barroca e a neobarroca não partilham necessariamente os mesmos procedimentos, ainda que certos traços possam ser considerados, por seus efeitos, equivalentes. O que partilham é uma tendência ao conceito singular, não geral, a admissão da dúvida e de uma necessidade de ir além das adequações preconcebidas entre a linguagem do poema e as expectativas supostas do leitor, o desdobrar de experiências além de qualquer limite”. Podemos identificar pontos convergentes como a ênfase na imagem, na metáfora; a construção labiríntica da sintaxe; a riqueza semântica; o conflito entre o significante e o significado; o uso de recursos como a anáfora e a hipérbole; porém, estamos diante de uma escritura ainda mais movediça, lodosa, que não propõe uma poética, mas uma pluralidade de poéticas, deslizando “de um estilo a outro sem tornar-se prisioneiros de uma posição ou procedimento”, no dizer do poeta uruguaio.

Notas:

(1) Antônio Vieira foi um religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus. Um dos mais influentes personagens do século XVII em termos de política, destacou-se como missionário em terras brasileiras. Nesta qualidade, defendeu infatigavelmente os direitos humanos dos povos indígenas combatendo a sua exploração e escravização. Era por eles chamado de "Paiaçu" (Grande Padre/Pai, em tupi). Defendeu também os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos, perseguidos à época pela Inquisição) e cristãos-velhos (os católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição. Na literatura, seus sermões possuem considerável importância no barroco brasileiro e as universidades freqüentemente exigem sua leitura. Segundo Massaud Moisés (In: A literatura portuguesa. 28. ed. São Paulo: Cultrix, 1995, p. 75), Vieira “é mais alta personalidade, humana e cultural, dessa época (o Barroco), à qual sua estatura invulgar deu nível e serviu de símbolo perfeito. Nele, se encontram reunidas, em estranho compósito, as linhas de força que norteiam o complexo quadro do Barroco Português”.

(2) John Donne foi um poeta inglês e clérigo anglicano.

(3) Sóror Juana Inés de la Cruz ou, simplesmente, Sóror Juana, foi uma religiosa católica, poetisa e dramaturga nova-espanhola (pelo que se a considere mexicana, também se pode tomá-la como espanhola), nascida em data incerta (estima-se que foi entre 1648 e 1651), em San Miguel Nepantla, perto de Amecameca e falecida na Cidade do México em 1695. Foi a última dos grandes escritores do Século de Ouro.

(4) Gregório de Mattos e Guerra, alcunhado de Boca do Inferno ou Boca de Brasa, foi um advogado e poeta brasileiro da época colonial. É considerado o maior poeta barroco do Brasil e um dos maiores poetas de Portugal.

(5) Josefa d’Óbidos foi uma pintora nascida na Espanha que viveu e produziu em Portugal. Era filha de Baltazar Gomes Figueira, pintor português natural de Óbidos, com obra em Évora, que fora trabalhar em Sevilha, onde veio a desposar D. Catarina de Ayala Camacho Cabrera Romero, natural da Andaluzia.

(6) Jonathan Swift foi um escritor irlandês. 

(7) George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, (Bengala, 25 de Junho de 1903 — Londres, 21 de Janeiro de 1950) foi um escritor britânico, mais conhecido pelas suas duas obras maiores, A revolução dos bichos e 1984. Poucas pessoas, mesmo entre as que lhe eram próximas, conheciam o seu verdadeiro nome, de tal forma o pseudónimo se tornou a sua segunda natureza. A adopção deste "nom de plume" correspondeu a uma profunda alteração na vida e nos ideais do homem – de uma figura do sistema no Império Britânico, ele se tornará num rebelde, constantemente crítico. Morreu de tuberculose, na miséria.

(8) Antonio Candido nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu desde a primeira infância em Minas Gerais. Entrou em 1939 para a Faculdade de Direito e para a de Filosofia (Seção de Ciências Sociais), na qual recebeu no começo de 1942 os graus de bacharel e licenciado. De 1958 a 1960 foi professor de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia de Assis. Aposentando-se em 1978, continuou a trabalhar em nível de pós-graduação como orientador de teses. Fora da vida acadêmica, foi crítico da revista Clima (1941-4) e dos jornais Folha da Manhã (1943-5) e Diário de São Paulo (1945-7). Na vida política, participou de 1943 a 1945 na luta contra a ditadura do Estado Novo no grupo clandestino Frente de Resistência. Atualmente, é vice-presidente da TV do Trabalhador e membro do Conselho editorial da revista Teoria e Prática.

(9) Carlos de Sigüenza y Góngora foi um dos primeiros grandes intelectuais nascidos no vice-reino de Nova Espanha. Polímata e escritor, galgou na colônia vários cargos políticos e acadêmicos.

(10) Francisco Gómez de Quevedo y Santibáñez Villegas foi um escritor do século de ouro espanhol.

(11) Julia Kristeva é uma psicanalista búlgara, professora de Lingüística na Universidade de Paris e autora de mais de trinta livros consagrados. Aluna de Roland Barthes, é uma das mais respeitadas intelectuais da atualidade. Seus pensamentos envolvem teoria literária, semiologia, filosofia e psicologia. Escreveu também quatro romances. Entre suas obras, estão As novas doenças da alma (Rio de Janeiro: Rocco), Estrangeiros para nós mesmos (Rio de Janeiro: Rocco) e O velho e os lobos (Rio de Janeiro: Rocco). O jornal francês Le Monde publicou um artigo de Roger-Pol Droit sobre Kristeva, em 18 de novembro de 2005, que a IHU On-Line na edição 166, de 28 de novembro de 2005, republicou sob o título "Eu vivo com esse desejo de sair de mim". 

(12) Manuel Botelho de Oliveira foi um advogado, político e um poeta barroco brasileiro. Foi o primeiro autor nascido no Brasil a ter um livro publicado. Manuel Botelho de Oliveira conviveu com Gregório de Mattos e versou sobre os temas correntes da poesia de seu tempo.

(13) Haroldo de Campos foi um poeta, tradutor e ensaísta brasileira, autor de obras como Xadrez de estrelas, Crisantempo e Metalinguagem & outras metas.

(14) Em Depoimentos de oficina (São Paulo: Marco, 2003, p. 25-26), Haroldo de Campos escreve: “Um verdadeiro manifesto da estética neobarroca que na época começava a ganhar corpo em minha poesia é ‘Teoria e prática do poema’ (1952), que glosa uma citação do padre Antônio Vieira, do célebre Sermão da sexagésima (1655). (O trecho do poema é o seguinte: “O Poema propõe-se: sistema / de premissas rancorosas / evolução de figuras contra o vento / xadrez de estrelas. Salamandra de incêndios / que provoca, ileso dura, / Sol posto em seu centro”)”. Haroldo prossegue: “‘Não fez Deus o céu como xadrez de estrelas’ – afirmava Vieira e recomendava aos pregadores: ‘Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras’. No entanto, o seu sermão está estruturado como um engenho de enxadrista, como notou com muita sagacidade o crítico português António José Saraiva. Como no caso do artifício retórico chamado litotes, Vieira afirmava uma coisa e fazia outra. A poesia, mundo autônomo organizado pela razão permeada de emoção, pende em equilíbrio instável sobre o abismo do azar, por um ato de luciferina (de Lusbel) arrogância; a poesia pode ser descrita como um virtual xadrez sensível, de estrelas”. Haroldo de Campos se contrapôs a Antonio Candido, que exclui o Barroco de sua Formação da Literatura Brasileira, em O seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o caso Gregório de Mattos (2. ed. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1989), comentando que Vieira e Mattos eram conhecidos não por livros, mas pelo público, ao escutá-los, e por isso fizeram parte também do cenário literário brasileiro inicial.

(15) Quirinus Kuhlmann foi um poeta alemão barroco, traduzido no Brasil por Augusto de Campos em Poesia da recusa.

(16) Ana Hatherly é uma poeta, ensaísta, investigadora, tradutora, professora universitária e artista plástica portuguesa. Membro destacado do grupo da Poesia Experimental Portuguesa nos anos 60 e 70, tem uma extensa bibliografia poética e ensaística. Dedicou-se também à investigação e divulgação da literatura portuguesa do período barroco tendo fundado as revistas Claro-Escuro e Incidências.

(17) Roberto Echavarren é um poeta uruguaio, estudioso do neobarroco.

 

 

 

FONTE: IHU Online

lendo Monteiro Lobato com atenção…

março 25, 2011 às 12:04 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Segue abaixo um bom artigo para aprofundar questões levantadas numa das aulas recentes da LitPort IV.

caçadas pedrinho

A propósito de Caçadas de Pedrinho (1)

Edson Cardoso

O narrador de Caçadas de Pedrinho (2), quando se refere a Tia Nastácia, o faz preferencialmente destacando-lhe a cor (preta ou negra), a qual muitas vezes vem antecedida do adjetivo pobre, no sentido de digno de lástima, ou no sentido de pessoa simplória, parva, tola, pobre de espírito.

Tia Nastácia se expressa invariavelmente por meio de esconjurações e pelos-sinais (imersa que está em temores, superstições e misticismos), tem dificuldades para pronunciar algumas palavras e acaba estropiando-as (felómeno por fenômeno) ou recusando-se, por incapacidade, a pronunciá-las (rinoceronte).

Os bichos, todos bem falantes, argumentam e pronunciam com correção as palavras. Num contexto em que os animais pensam, comunicam o que pensam e se expressam num registro culto, as dificuldades de Tia Nastácia reservam-lhe um lugar bastante diferenciado entre os personagens. As analogias entre bichos e humanos acabam por reduzir ainda mais Tia Nastácia. Na hierarquização sugerida, os negros situam-se abaixo mesmo dos animais.

Não sendo bicho (embora tenha beiço, como as onças), Tia Nastácia é pouco provida da capacidade de pensar e de se expressar que os bichos dominam na narrativa. Na escala utilizada por Lobato, os bichos são mais sagazes e articulados.

Tia Nastácia protagoniza, ou por ser mais desastrada do que os demais, ou por não compreender os expedientes e artifícios impostos pelas circunstâncias, as cenas de quedas e de exposição ao perigo, nas quais o objetivo é provocar risos e confirmar o quanto ela é desajeitada e inepta.

Tia Nastácia apresenta-se também distinta dos humanos, distinção centrada na cor, seu principal atributo identificador (a preta, a negra…), mas distingue-se também na ignorância, nas superstições de fundo religioso.

Mas é a "carne preta" que determina tudo o mais, a marca indelével de sua inferioridade biológica.

Na cena final, o narrador refere-se a ela com condescendência: ‘boa criatura’. Condescendência que é o reconhecimento da inferioridade do outro, visto de cima. Para passear no carrinho puxado pelo rinoceronte, como os demais personagens, Tia Nastácia alega que "Negro também é gente, Sinhá…".

Tia Nastácia precisa alegar sua condição humana, lembrar que os negros compartilham com os demais essa mesma condição, para também poder sentar-se no carrinho. É igual, não inferior como foi representada no decorrer da narrativa. A igualdade reivindicada contrasta com a desigualdade dos fatos narrados, os quais destacaram o suporte biológico de uma inferioridade intrínseca.

No final do relato, concede-se a uma criatura inferior, bondosa, a participação em uma atividade que envolve a todos. Mas isso a torna igual aos demais, aos olhos do leitor? Depois de marcar a personagem, de estigmatizá-la, de mostrá-la tão diferente de humanos e de animais em razão de sua cor, será isso possível?

A fala de Tia Nastácia parece questionar a hierarquização racial que a narrativa acentuou com tanta ênfase. Mas a questão é: diante das evidências de inferioridade registradas na narrativa, inferioridade sempre associada à cor da pele, por que a mera declaração desse ser parvo alegando sua igualdade nos faria duvidar da pertinência daquela outra caracterização tão enfática e duradoura?

Caçadas de Pedrinho nos ensina que se você é negro ou preto, é inferior. A inferioridade dos negros não é só cultural, mas principalmente biológica. Isto é o que significa a palavra que está numa extremidade da frase de Tia Nastácia, no fecho do livro (‘Negro’). Foi esse o sentido apreendido pelo leitor, que agora chega ao final da narrativa. Na outra, está a palavra ‘sinhá’, que o dicionário define como "tratamento dado pelos escravos a sua senhora". Portanto, se é negro ou preto, e, além disso, tem sinhá, não é igual.

Antônio Risério, em entrevista (3), após seu rompimento com Gilberto Gil, que o demitira do ministério da Cultura, tornou público o apelido do ministro: Tia Nastácia. Risério já deixou a escola há muito tempo, e suponho que há muito deixou de ler Lobato. No entanto, não só considera o apelido atual e pertinente, como sabe que seu conteúdo injurioso será perfeitamente compreendido por aqueles que tiverem acesso à entrevista.

Quando se trata de racismo no Brasil, de representações desumanizadoras da população negra, é quase impossível segmentar o tempo, separando o passado do presente. O que temos é um presente de longa duração (4), no qual a defesa de hierarquizações rigidamente estabelecidas pode se travestir em proteção de obras literárias consideradas "clássicas".

As contradições são muito evidentes: no jornal Folha de S. Paulo, depois de afirmar que há na obra "patente preconceito", o editorialista recua do manifesto para o hipotético, subordinando o debate à condição de que haja racismo em Lobato -– "Se há racismo em Lobato, melhor discuti-lo em classe do que evitar sua leitura" (5). Preconceito é certo (tomado geralmente como um delito menor, uma crença compartilhada com outros), mas é necessário acautelar-se contra a acusação de racismo.

Se o parecer do CNE não estimula na grande imprensa o debate sobre racismo, por que isso aconteceria na escola? Desde quando a escola passou a se insurgir contra a cultura e as relações de poder dominantes? Segundo João Ubaldo, ninguém sabe o que é certo e o que é errado e indaga: "Existirá um racistômetro?". Para Ubaldo, é preciso considerar também que "os defeitos" que se apontam em Caçadas de Pedrinho estejam não na obra "mas na mente e na percepção de quem os aponta" (6).

Ou seja, racista é quem diz que Lobato é racista. Numa sociedade em que racista é o negro que reivindica direitos humanos, econômicos, políticos, etc., não atentar para o racismo de Lobato não é uma simples questão de preparo intelectual.

O deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), radical ao revés, consegue a proeza de enxergar na figura da Tia Nastácia em Caçadas de Pedrinho a projeção da "igualdade do ser humano a partir da consciência da cor" e aproveita para criticar rispidamente o movimento negro, por importar racismo dos Estados Unidos para nosso país "mestiço por excelência". Risério, na leitura enviesada de Rebelo, estaria na verdade elogiando Gilberto Gil quando o chamou de Tia Nastácia.

João Ubaldo, no artigo citado, afirma que Caçadas de Pedrinho é "somente um livro" que transporta as crianças "para a fantasia, a aventura e o encantamento inocentes". Não preciso me reportar aqui aos estudos sobre ideologia para refutar o encantamento e a inocência de textos que negam ao negro a condição de pessoa humana. Os leitores de Lobato aprenderam a distinguir pessoas de não-pessoas, numa fantasia em que seguramente aprendem a amar porcos , bonecas de pano e sabugos de milho.

As advertências que se preconizam para serem antepostas ao livro de Lobato são de todo inúteis. O racismo não é o detalhe supérfluo e descartável de uma obra, cujo "conteúdo (…) é insubstituível para a infância brasileira" (7). Em Caçadas de Pedrinho, a representação desumanizadora do negro é dimensão essencial na estratégia de dominação que torna possível o conforto de nossas elites, de ontem e de hoje.

Conforme ainda o editorial da Folha, criar obstáculos à circulação de Caçadas de Pedrinho é "quase como um insulto pessoal". Para a Folha, "trata-se de um dos livros mais carinhosamente guardados na memória do público brasileiro". Esses são os ofendidos que contam. Se a liberdade de expressão de Lobato ofende a dignidade das pessoas negras, qual é mesmo o problema? Quem se preocupa mesmo com a dignidade de seres inferiores? O ofendido a ser considerado é o leitor de Lobato, não o negro.

Segundo João Ubaldo, os leitores de Lobato "não vieram mais tarde a abrigar preconceitos e idéias nocivas, instilados solertemente na consciência indefesa de crianças". Acompanhando o noticiário sobre o parecer do Conselho Nacional de Educação, o que presenciamos é exatamente o contrário do que afirma Ubaldo. A cegueira, a resistência em admitir o racismo, as inversões delirantes, a indiferença e o cinismo tornam perfeitamente possível a hipótese de que Lobato cumpriu e cumpre um papel decisivo na formação dessa insensibilidade de intelectuais, jornalistas e professores, leitores confessos, emocionados e muitíssimo ofendidos.

Eles se sentem pessoalmente atingidos quando você critica e ameaça investir contra a hierarquização racista da humanidade que os coloca no topo de uma presumida evolução da espécie, com direitos a todos os privilégios. Sim, Lobato é um clássico do racismo brasileiro. Por isso eles dizem: "Mexeu com ele, mexeu comigo –- com meus interesses, com meus privilégios".

Para concluir, precisamos refletir sobre a imagem da capa da edição mais recente de Caçadas de Pedrinho que tem circulado como ilustração sem o logotipo da editora (Editora Globo). Nem no Jornal Nacional, nem no Estado de S. Paulo, nem em O Globo aparece a identificação editorial. Até mesmo no Parecer CNE/CEB nº 15/2010 evita-se citar a editora e, quando o fazem, citam-na com erro: Editora Global.

Não se pode deixar de lado o fato de que a maior parte dos recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) destina-se à compra de livros didáticos e paradidáticos. A editora Globo, ao assumir os direitos sobre a obra de Lobato, quer alcançar uma fatia maior dos bilhões de reais à disposição do FNDE. É preciso colocar a apropriação do dinheiro público também na roda de debates. Para compreendermos todas as dimensões do escândalo midiático que se seguiu ao Parecer do CNE, precisamos seguir o dinheiro.

 

NOTAS

1. Texto-base para discussão com participantes da oficina "Racismo e relações sociais", realizada durante a Semana de Extensão da Universidade de Brasília, em 11/11/2010.

2.Lobato, Monteiro. 2ª Ed. São Paulo: Globo, 2008.

3. www.metropoletv.com.br. Memorabilia, 28/04/2009.

4. Ver Arendt , Hannah. Entre o passado e o futuro. 6ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

5. Folha de S. Paulo, edição de 30 de outubro de 2010, p. A2.

6. Ribeiro, João Ubaldo. "Por que não reescrevem tudo?". O Estado de S. Paulo, edição de 7 de novembro de 2010, p. D4.

7. Carta de Yolanda (Danda) C. S. Prado à Folha de S. Paulo, 07/11/2010, p. A3.

FONTE: Portal Geledés

o racismo explícito de Monteiro Lobato

fevereiro 20, 2011 às 0:59 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
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Mais elementos para avaliarmos a contribuição do famoso escritor paulista para a reprodução dos valores e das posturas que caracterizam o “racismo cordial” brasileiro. Reitere-se que a explanação da escritora Ana Gonçalves, transcrita abaixo, não tem por objetivo pregar a “censura”, ou o “banimento”, da obra de Lobato, mas apenas fornecer subsídios históricos para uma leitura lúcida dos problemas identitário que marcam nossa realidade, bem como para uma reflexão pedagógica efetivamente interessada em confrontar e superar esses problemas, ao invés de “jogá-los para debaixo do tapete”. Para ter acesso à postagem original da carta, feita no blog O BISCOITO FINO E A MASSA, e ao trepidante debate que o texto suscitou na respectiva caixa de comentários, clique no título abaixo.  

choque raças monteiro

Carta Aberta ao Ziraldo, por Ana Maria Gonçalves

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…" (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).
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Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, ‘work’ muito mais eficientemente".

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (…) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos – o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

ziraldo_direitos_humanos.jpgO que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(…) um já está quase formado e o outro não estuda mais (…). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (…), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (…). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (…). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (…) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(…) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (…) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, – porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.menino-lendo.jpg

Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (…) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca – diz o sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.

Litport1: simulado da prova

dezembro 3, 2010 às 17:42 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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camoes2

Considere as os dois textos poéticos transcritos abaixo. No primeiro, retirado de Os Lusíadas, Vasco da Gama recorda a decisão do rei D. João II de dar início à Expansão Marítima através da conquista de Ceuta. A seguir, reproduz-se a primeira e a última estrofe de “O homem, as viagens”, de C. D. de Andrade. Comente e articule esses dois textos levando em conta as proposições feitas sobre eles e os parâmetros interpretativos sugeridos por António SARAIVA e Silviano SANTIAGO para os textos que ficcionalizam a memória da expansão marítima lusitana.

Não sofre o peito forte, usado à guerra,
Não ter imigo já a quem faça dano;
E assi, não tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano
Este é o primeiro Rei que se desterra
Da pátria, por fazer que o Africano
Conheça, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo à lei de Mafamede.

[CAMÕES. Os Lusíadas, IV, 48]

* * *

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

(…)

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

[Carlos Drummond de ANDRADE. O homem, as viagens]

a) No trecho transcrito de Os Lusíadas, podemos observar um dos momentos em que Camões busca justificar a expansão marítima através da curiosidade pelo outro, especialmente pelos povos africanos.

b) No poema de Drummond, propõe-se que o expansionismo civilizador pode basear-se num tipo de humanismo que não recaia na “incapacidade de sair de si mesmo para se identificar com o Outro”. (SARAIVA, Introdução, p.20)

c) Podemos considerar que a representação do elemento líquido na estrofe camoniana destacada expressa aquele sentimento de “panerotismo” apontado por Saraiva, o qual é entendido como força oposta ao impulso objetificador resultante da “tendência dominadora” ocidental.

d) Ainda que de maneira sutil, podemos identificar representações de um ideário religioso no poema de Drummond (exemplifique).

drummond estátua

dialogando com Camões

dezembro 3, 2010 às 12:24 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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folha de poesia_camoes1

Aos estudantes da LitPort1 recomenda-se uma visita demorada à postagem dedicada a Camões no blogue português FOLHA DE POESIA (clique nas imagens). Além de informação variada sobre a biografia desse poeta e sobre o impacto cultural de sua obra, encontramos nessa postagem uma ampla antologia de poesias portuguesas e brasileiras que retomam ideias e questões trabalhadas na obra camoniana.

folha de poesia_camoes2

por uma nova leitura de Tia Anastácia

novembro 13, 2010 às 19:36 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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monteiro-lobato-nascimento-pai-emilia.jpg

Segue abaixo uma ótima postagem do professor de Literatura Brasileira Idelber Avelar acerca das restrições recentemente feitas à utilização de obras de Monteiro Lobato no ensino básico. Habitualmente, artigos desse tipo são reproduzidos em cor bordô aqui no LUSOLEITURAS. Manterei, entretanto, a cor original de maneira a não encobrir os muitos textos complementares linkados por Avelar. Leiam e reflitam.  

Monteiro Lobato, o racismo e uma falsa polêmica

Nossa indústria de escândalos precisa de urgente renovação. Depois do “Ministério da Educação acéfalo” que só acertou em 99,94% das provas do ENEM, há uma polêmica sobre Monteiro Lobato que, aliás, será do agrado dos que reclamam do Fla x Flu entre lulismo e antilulismo. Desta feita, há governistas e oposicionistas em ambos os lados da polêmica. Isto não a torna, evidentemente, mais interessante.

Aldo Rebelo, o Prof. Deonísio da Silva, Augusto Nunes e dezenas de tuiteiros fizeram uma tempestade numa xícara d’água contra uma suposta “censura” sofrida pelo autor de Urupês. Em comum entre todos eles, a ausência de qualquer citação do parecer que foi pedido ao MEC sobre Caçadas de Pedrinho (ou, no caso de Aldo, a presença de citações distorcidas do texto). O blogueiro do Serra, que eu saiba, ainda não surtou com o tema, mas não duvide. Se, depois de ler algo da obra infantil de Lobato, você ler o parecer do MEC sobre o tema, perceberá a pobreza da indústria do escândalo.

O pedido de parecer recebido pelo MEC se relaciona com algo comum no ensino de obras literárias, em especial para jovens ou crianças: a contextualização necessária para que epítetos, comportamentos discriminatórios, racismo explicito, ódio a povos ou a orientações sexuais etc., sancionadas e apresentadas como normais no contexto em que a obra foi escrita ou no interior dela (e qual é a relação entre obra e contexto em cada caso, claro, é um vasto problema), sejam lidos criticamente e não replicados como modelo pelos alunos. Não é tão fácil como parece. No caso de Monteiro Lobato, é imensamente difícil.

O Deputado Aldo Rebelo diz: Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da “nota explicativa” — a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da “submissão da mulher”, e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos politicamente incorretos.

O Deputado Aldo Rebelo vive num mundo onde todas as discussões acerca da cultura se dão num terreno ameaçado, pelo estrangeirismo ou pelo politicamente correto. O Deputado tem uma concepção estática, patrimonialista de cultura nacional. Para ele, o passado é uma coleção de sacralidades intocáveis. É o oposto de uma concepção benjaminiana acerca do que é o pretérito.

A comparação feita por Aldo, entre Lobato e Nelson Rodrigues, é estapafúrdia, por ignorar o contexto em que se faz o pedido de parecer ao MEC: o da obra Caçadas de Pedrinho em salas de aulas do ensino fundamental e médio. Ora, salvo engano meu, não há garotos de 4º ou 5º ano lendo Vestido de noiva ou Bonitinha, mas ordinária nas escolas públicas ou particulares brasileiras. Se eles se introduzem à obra de Nelson na adolescência tardia ou depois, na faculdade, essa situação não tem nada em comum, entendamos, com um garoto negro ou mulato de 10 ou 11 anos de idade sendo introduzido social, coletivamente à pesada linguagem racista que se encontra em parte da obra de Monteiro Lobato. Este blog tem tentado ser contido mas, com vossa permissão, sugiro que só uma besta-quadrada ou um malintencionado não enxerga isso.

Pois muito bem, dados os fatos de que 1) Monteiro Lobato é peça chave da nossa tradição literária, especialmente canônico e fundacional para a literatura infantil; 2) uma obra como Caçadas de Pedrinho está eivada de linguagem pesadamente racista; 3) essa linguagem não vem de um “vilão” da história depois punido, mas é sancionada pela obra, posto que enunciada por Emília, a personagem querida, central, convidativa à identificação; coloca-se aí um problema nada simples para o educador. Quem acha que é simples que faça, por gentileza, o exercício de imaginar alguns dos trechos animalizadores de negros, citados pelo Sergio Leo, numa sala de aula com, digamos, 20 ou 22 crianças brancas ou brancomestiças e 3 ou 4 crianças negras ou negromestiças. Imagine, monte seu plano de aula e me conte. É uma situação que tem o potencial de ser tremendamente traumática para a criança.

O que fazer, então? Ninguém, em nenhum momento, falou em “proibir” ou “censurar” Lobato. Em nenhum momento se falou sequer de emendar o texto de Lobato, coisa com a qual eu, particularmente, não teria grandes problemas (pelas mesmas razões do Alex), desde que fosse bem feito.

Na verdade, basta ler o raio do parecer do MEC para ver que, concorde-se com o texto ou não, ele está escrito dentro de um espírito razoável: fornecer ao educador instrumentos (introdução, notas ao pé de página etc.) que contextualizem epítetos e caracterizações que hoje são inaceitáveis em nossa interação social. O parecer não está escrito em jargão de especialista, mas está informado pela leitura de alguns dos melhores estudiosos de recepção de obras literárias no Brasil, como Marisa Lajolo (que, além de ser estudiosa de estética da recepção, é autora de um artigo importante [pdf] sobre o negro em Lobato).

O parecer explica, em linguagem clara, algo que é amplamente consensual entre estudiosos de literatura: que nenhuma obra literária está completamente “solta”, “livre” dos valores de sua época e que nenhuma grande obra é simplesmente um reflexo desses valores tampouco. Cada obra rearticula, reescreve, chacoalha, reinterpreta os valores de seu tempo. Em outras palavras, o mesmo Monteiro Lobato cujos diálogos estão eivados de racismo pode servir para questionar o racismo. O mesmo Conrad que está encharcado de colonialismo pode servir para questionar a empreitada colonial. O mesmo Nelson Rodrigues que está empapado de misoginia pode ser lido de forma feminista, emancipatória. Mas estas duas últimas tarefas, em sala de aula, são menos explosivas e complexas que a primeira, posto que no caso de Lobato você está lidando com garotos de 10, 11 anos de idade.

Um aparato de notas é o mínimo a que um professor tem direito para trabalhar com as perorações racistas de Emília numa sala de aula do século XXI. Inventemos escândalos mais inteligentes. Aqueles baseados na sacralização dos documentos de cultura passados estão ficando meio tediosos.

Suponho estar óbvio que o parecer do MEC sequer desestimula (que dirá proíbe) a adoção de Caçadas de Pedrinho ou de qualquer outra obra de Lobato. O Alex diz nos comentários a este post (cuja conversa continua aqui) que ele não adotaria a obra e eu entendo suas razões. Aliás, eu me atreveria a dizer que só quem nunca segurou um pedaço de giz não entenderia. De minha parte, eu não sei se adotaria o livro ou não. Optei por dar aulas para adultos, em parte, para não ter que tomar decisões como esta (como sou um homem de muitos vícios, prefiro lecionar para gente que já adquiriu algum). Eu provavelmente não a adotaria num contexto em que os garotos negros fossem pequena minoria em sala de aula. Eu estaria mais à vontade para adotá-la (porque Lobato realmente é muito bom) se eu sentisse que estou equipado para tornar o texto um instrumento de debate do próprio racismo. É sempre caso a caso. O parecer do MEC não substitui a decisão de cada professor. Só oferece elementos para subsidiá-la.

Como sempre é o caso nas falsas polêmicas, elas valem a pena se geram alguma boa escrita. Esta gerou pelo menos dois ótimos textos: do Paulo Moreira Leite e do Sergio Leo. Fiquemos com eles.

FONTE: O Biscoito Fino e a Massa

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SELEÇÃO DE VOLUNTÁRIOS PARA INICIAÇÃO CIENTÍFICA

julho 15, 2010 às 23:53 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ProjetoUFS color2

Projeto PICVOL 2010-2011

LEITURAS TRIANGULARES:

memória colonial, mestiçagem e relações étnicorraciais em literaturas lusófonas

Requisitos:

· interesse por um estudo culturalista das literaturas brasileira, portuguesa e angolana;

· MUITA disposição para a leitura de textos ficcionais e teóricos!

· estar regularmente matriculado em curso de graduação da UFS e ter média geral ponderada (MGP) maior ou igual a 7,0;

· não possuir outro tipo de atividade (a exemplo de estágio e monitoria) na UFS, nem estar recebendo outra modalidade de bolsa

COORDENADOR: Prof. Jesiel Oliveira (Departamento de Letras de Itabaiana)

Candidat(as)os devem marcar entrevista enviando um email para jesielf@yahoo.com.br até o dia 19/07. Da mensagem deverá constar uma breve apresentação justificando o interesse nesta pesquisa. Para maiores informações sobre o projeto, clique AQUI.

Dissertando sobre a negrabrasilidade literária

abril 24, 2010 às 5:46 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Defesa

Para saber um pouco mais sobre os fundamentos da pesquisa a ser debatida no Centro de Estudos Afro-Orientais, leia o artigo Literatura negra: uma voz quilombola na literatura brasileira, da professora de literatura e renomada poeta Conceição Evaristo, texto que apresenta elementos básicos para a caracterização das vozes literárias negras que mantém um dialogismo tenso com o cânone literário brasileiro, conforme propõe Simone Santos –- clique AQUI. Para visitar o site do Pós-Afro e conhecer este ativo programa de pós-graduação em estudos étnicos e africanos, clique na imagem acima.

a literatura como espelho trincado do “eu”

outubro 23, 2009 às 16:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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pessoa olhos

A propósito das relações entre literatura, subjetividade e cultura nos contextos modernos, discute Eunice Cabral no E-Dicionário de Termos Literários:

A universalidade do sujeito individual corresponde ao dualismo espírito (alma)  / corpo na medida em que só o espiritual é universal. A espiritualidade apontada toma também a designação de racionalidade enquanto razão centrada no sujeito. Deste modo, a subjectividade adquire um valor supremo, facto cultural que tem vindo a ser criticado. Com antecessores como Marx, Nietzsche e Heidegger até contemporâneos como Bataille, Lacan, Foucault e Derrida, todos acusam a razão (vector organizativo das sociedades ocidentais), que é fundada na subjectividade universal e que é erigida como um absoluto. As obras destes autores, sendo em si muito diferentes, são estratégias para superar o positivismo da razão. (…)

De um modo mais restrito, a subjectividade, manifesta no texto literário, acompanhou o processo de descrédito já mencionado. No início da época moderna, foi encarada como um princípio libertador, fonte de confessionalismo, que se desenvolveu nas literaturas românticas mas, progressivamente, o seu impacto tem vindo a diluir-se. Desde o simbolismo, e acentuando-se com os modernismos, a subjectividade tem vindo a ser entendida como a possibilidade que o escritor tem de interpretar a vida e o mundo enquanto idiolecto de autor, visto que os aspectos subjectivos do texto literário já não dizem respeito apenas à vontade, ao entendimento e à razão de um indivíduo, o autor. Estes valores tornaram-se relativos (porque insuficientes) à luz das várias desconstruções de finais do século XIX, a de Freud, a de Marx, a de Nietzsche. Deste modo, a subjectividade tornou-se sinónimo de “impoder” pela transgressão desindividualizada. O não poder atribuído à subjectividade é uma forma de resistência ao totalitarismo da realidade, que o escritor pode optar por rejeitar. (clique AQUI e leia o verbete “subjectividade” na íntegra)

É importante notar as convergências existentes entre esta discussão e as propostas de Stuart Hall acerca dos “descentramentos”, ou das “desconstruções”, do sujeito moderno que são realizados pelos saberes filosóficos e científicos surgidos entre fins do século XIX e o início do XX. Uma referência ao descentramento operado pela teoria da linguagem de Ferdinand de Saussurre, por exemplo, pode ser identificado na noção de “idiolecto do autor”, apontada por Eunice Cabral como definidora do tipo de escrita literária que caracteriza as obras modernistas. Na poesia de Fernando Pessoa, esse idioleto, ou essa dimensão simultaneamente anônima e intimista da expressão artística moderna, representa-se principalmente naquela produção deste autor que costuma ser lida sob perspectivas esotéricas ou espiritualistas, a exemplo do famoso soneto número XIII do conjunto poemático de “Passos da cruz”:

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido…

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido…

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou…

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser…
Já viram Deus as minhas sensações…

fernando_pessoa tri

Alternativamente às interpretações místicas, podemos propor que o “rei desconhecido” é uma imagem metafórica para o caráter semi-determinista das linguagens humanas, conforme este é analisado por Hall:

Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. (…) Falar [ou escrever em] uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa lingua e em nossos sistemas culturais.

Já do ponto de vista da crítica marxista, a imagem do rei também serviria de metáfora  para o determinismo materialista da história humana, isto é, para a preponderância dos fatores econômicos e sociais na definição de nossos destinos e de nossas personalidades. Embora distintas nas suas implicações filosóficas, ambas as propostas interpretativas aqui destacadas põem em causa a natureza supostamente autônoma do sujeito moderno, tal como era preconizada pelo Iluminismo. A poesia de Pessoa traça a imagem de um eu-vassalo, dividido entre a condição de flanêur desorientado e a de “massa de manobra”, de elemento aprisionado entre as engrenagens das multidões urbanas, conforme vislumbrou Charles Baudelaire em poemas como “As Multidões” (leia uma boa análise deste poema feita por uma estudante de Letras AQUI). Nesse sentido, o “outro e anómalo sentido” a que se refere Pessoa no poema acima pretende justamente traduzir essas experiências de diluição e de alienação que se tornam caracterizantes da condição moderna.

Por sua vez, ainda com relação ao poema XIII, é crucial observar como essa experiência alienante pode rapidamente se converter em formas de sublimação e de superação das angústias modernas. A força que inconscientemente divide a voz lírica pode ser concebida como as fantasias subconscientes que, segundo Freud, fragmentam a subjetividade, fantasias que abrem novas, e por vezes transgressivas, possibilidades de identificação, capazes de libertar o indivíduo do contexto que o oprime social e psicologicamente. Essa terceira linha interpretativa está em aparente contradição com as duas outras sugeridas, mas perceba-se que a coexistência de juízos e sentimentos contrários é uma marca essencial tanto da lírica moderna quanto da poesia heteronômica de Fernando Pessoa. Dar conta dessa multiplicidade ambígua e polivalente é um dos principais desafios que se colocam para os leitores contemporâneos desses textos. Capacidade igualmente necessária para apreciar a produção literária pós-moderna que retoma a problemática da divisão e do descentramento das subjetividades, conforme pode-se ler no famoso poema “Traduzir-se”, do brasileiro Ferreira Gullar:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

 

Assista acima a bela versão de Adriana Calcanhoto, cantada numa tonalidade quase lusitana, para este poema. Aproveite o relax para organizar idéias tendo em vista responder sinteticamente à questão: quais os recursos estéticos mobilizados pela poesia de Fernando Pessoa para “traduzir” as novas subjetividades geradas pela modernidade?

a literatura como instrumento de leitura do “jogo de identidades”

outubro 23, 2009 às 12:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Num livro seminal para os estudos literários no Brasil, o crítico Antonio Candido afirma, a propósito do trabalho de leitura e interpretação do texto ficcional, que este não pode se limitar “a indicar a ordenação das partes, o ritmo da composição, as constantes do estilo, as imagens, fontes, influências”. Para Candido, a caracterização estética constitui procedimentos auxiliares para um trabalho maior, que consiste em “analisar a visão que a obra exprime do homem, a posição em face dos temas, através dos quais se manifestam o espírito ou a sociedade”. É portanto imprescindível para a aquisição de genuína competência na discussão ou na exploração pedagógica da literatura observar, como enfatiza Candido, que um “poema revela sentimentos, idéias, experiências;  um romance revela isto mesmo, com mais amplitude e menos concentração.  Um e outro valem, todavia, não por copiar a vida, como pensaria, no limite, um crítico não-literário; nem por criar uma expressão sem conteúdo, como pensaria, também no limite, um formalista radical.  Valem porque inventam uma vida nova, segundo a organização formal, tanto quanto possível nova, que a imaginação imprime ao seu objeto”. [In: Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). “Introdução”.]

livro fios

Reconstruir essas relações, ou essa tessitura, entre expressão formal e conteúdo existencial, entre texto imaginativo e mundo real, tem solicitado das várias gerações de pesquisadores da literatura a adoção de perspectivas e métodos também diversificados. No que diz respeito à abordagem das questões identitárias e culturalistas, vem se destacando a importância de um olhar interpretativo capaz de identificar a representação de valores fundacionais das sociedades, ou as maneiras como heranças e tradições culturais são tematizadas no texto literário. Algumas indicações valiosas para esses estudos encontram-se sintetizados no artigo de Heloisa Toller GOMES “Questões coloniais e pós coloniais no tratamento (literário) da etnicidade”, disponível AQUI.

ciência & cinema & literatura: precisam-se monitores

outubro 16, 2009 às 10:32 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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site semanaIC

No dia 21/10, ao longo do dia, estarão ocorrendo diversas iniciativas no Campus Prof. Alberto Carvalho relacionadas à participação da UFS na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2009. O Núcleo de Letras disporá de uma sala na qual será montada uma video-exposição que organizei, intitulada Literatura & Cinema: diálogos & traduções. O evento está cadastrando monitores, os interessados devem entrar em contato comigo, por email, o mais brevemente possível. Se quiser saber mais sobre a proposta da Semana, clique AQUI.

Semana IC_MINUS

Pessoa tropical

setembro 29, 2009 às 14:17 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Fernando Pessoa 4

Lisboa, 27 Nov 2008 (Lusa)

Fernando Pessoa foi comparado a Homero e a sua influência reconhecida em poetas como Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles e movimentos culturais como o Tropicalismo, por professores e ensaístas brasileiros, quarta-feira, em Lisboa.

“Heródoto diz que na `Ilíada` Homero, num certo sentido, criou a Grécia e criou os deuses da Grécia, quer dizer, na verdade, o grande feito do poeta não é o feito que ele está relatando, o grande feito é o próprio poema”, disse o poeta, ensaísta e letrista António Cícero, numa sessão do I Congresso Internacional Fernando Pessoa, que decorre até sexta-feira em Lisboa.

Nesse sentido – prosseguiu – “o poema `Mensagem`, de Fernando Pessoa, criou um Portugal diferente do que havia antes dele ser escrito, assim como fez Homero com a própria Grécia”.

Segundo António Cícero, em Homero como em Pessoa, “o próprio poema é mais importante que a realidade que o precede”, seja a Guerra de Tróia ou um país chamado Portugal.

O Tropicalismo, movimento surgido no Brasil, no final da década de 1960, que começou na música popular e no cinema “mas acabou tendo uma influência muito grande sobre todos os aspectos da cultura brasileira”, tem na base “um certo messianismo”, defendeu Cícero, cujas letras foram cantadas por Adriana Calcanhotto, Gal Costa, Zizi Possi e Caetano Veloso, entre outros.

Músico e compositor baiano que foi um dos nomes maiores do Tropicalismo, “Caetano conta que uma das principais influências que sofreu foi de Agostinho da Silva, um professor português, um intelectual, um pensador, que havia emigrado para o Brasil, onde deu aulas”, e em cujos ensaios ele reconhecia “um certo messianismo que derivava imediatamente de Fernando Pessoa”, referiu.

A Caetano, que lera “Mensagem” na faculdade, impressionara-o sobretudo o facto de Fernando Pessoa “ser capaz, ao parecer constituir a fundação mesma da língua portuguesa ou sua justificação última, de dar vida digna a esse mito”, citou o ensaísta.

“Como Eduardo Lourenço explicou brilhantemente – acrescentou – `Mensagem` não pode ser entendido como estritamente nacionalista”.

“Devemos pensar em `Mensagem` como o poema fundador da totalidade linguística lusófona”, frisou António Cicero, na mesa-redonda sobre a influência de Fernando Pessoa na cultura brasileira em que participaram também as professoras Leyla Perrone-Moisés e Maria Lúcia Dal Farra.

Para demonstrar “a clara influência de Pessoa” na poesia de Carlos Drummond de Andrade – “unanimemente considerado um dos dois maiores poetas brasileiros do século XX, a par de João Cabral de Melo Neto” – Leyla Perrone-Moisés leu dois poemas de Drummond, do livro “Claro Enigma” (1951), um dos quais intitulado “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”.

Em seguida, comparou dois poemas de Pessoa e Drummond, “Tabacaria” e “A Máquina do Mundo”, respectivamente, dizendo que “embora muito diversos, são ambos extensos, narrativos, e embora ambos reflictam sobre o universo, Pessoa `está na vida sentada`, é um espectador do mundo, e Drummond caminha `na estrada pedregosa`, é um caminhante no mundo”.

Por sua vez, a professora de Literatura Maria Lúcia Dal Farra (UFS) contou a história da admiração da poetisa brasileira Cecília Meireles por Fernando Pessoa, que a levou mesmo a combinar um encontro com o poeta em 1934, na Brasileira do Chiado, em Lisboa, onde viera para falar de literatura brasileira.

Esperou duas horas e ele não apareceu, mas enviou uma mensagem a justificar a sua ausência: “Culpa do horóscopo!”, relatou Maria Lúcia Dal Farra, provocando o riso na audiência.

“Em contrapartida – indicou – enviou-lhe um exemplar de `Mensagem`, que deve ter sido um dos primeiros, com autógrafo de 10 de Dezembro de 1934, a mesma data dos oferecidos a Ophélia e a Carlos Queiroz”, sobrinho de Ophélia e jovem poeta amigo de Pessoa.

Por isso, “Cecília Meireles deve ter sido a primeira leitora de `Mensagem` no Brasil”, observou.

A professora leu trechos de poemas dela influenciados por Pessoa e um comentário de um crítico literário brasileiro que afirmou que ela “passara a imitar simiescamente Fernando Pessoa”, ao que ela respondeu que era mais uma de suas “ruindades”.

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