Introdução a ‘Os Lusíadas’ por Vítor Ramos
dezembro 10, 2010 às 21:01 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: herança colonial, Lusíadas, narrativas identitárias
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o humanismo diferencial da filosofia africana
dezembro 5, 2010 às 23:28 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: alteridade, África, dicas, etnocentrismo, filosofia, Lusíadas
Bom material midiático para abordar o problema da diferença cultural no plano da filosofia e, mais especificamente de acordo com as questões discutidas na LitPort1, para embasar uma crítica ao ideário humanista etnocêntrico e individualista que mobiliza os primórdios da expansão colonial europeia e portuguesa. Interessante pensar como o “antropocentrismo absolutista” a que se refere Malomalo pode ser compreendido como uma das formulações ideológicas daquilo que António Saraiva diagnostica como a separação entre sujeito e objeto no impulso civilizador europeu.
”Eu só existo porque nós existimos”: a ética Ubuntu. Entrevista especial com Bas’Ilele Malomalo
"Sou porque nós somos": em uma frase, esse seria o resumo da ética Ubuntu. Porém, é na construção histórica e cultural dessa ética, que nasce na África que se encontra a sua riqueza. Para o filósofo, teólogo e sociólogo congolês Bas’Ilele Malomalo, toda existência é sagrada para os africanos, ou seja, há um pouco do divino em tudo o que existe. Por isso, "o Ubuntu retrata a cosmovisão do mundo negro-africano".
É por isso que o suposto antropocentrismo que poderia estar por trás do Ubuntu é "relativista", segundo Malomalo, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. "O ser humano africano sabe que nem tudo depende da sua vontade", afirma. "Esta depende também da vontade dos ancestrais, dos orixás", em suma, do sagrado.
Por outro lado, Ubuntu e felicidade são conceitos que andam juntos: "Na África, a felicidade é concebida como aquilo que faz bem a toda coletividade ou ao outro". E quem é o meu "outro"? "São meus orixás, ancestrais, minha família, minha aldeia, os elementos não humanos e não divinos, como a nossa roça, nossos rios, nossas florestas, nossas rochas". Dessa forma, resume Malomalo, para a filosofia africana, "o ser humano tem uma grande responsabilidade para a manutenção do equilíbrio cósmico".
Bas’Ilele Malomalo é natural do Congo, África, e possui graduação em Filosofia pelo Grand Seminaire Fraçois Xavier – Filosoficum e em teologia pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp). É mestre em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo e é doutorando em sociologia pela Universidade Estadual Paulista – Araraquara. Atualmente é pesquisador do Centro dos Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Cladin-Unesp).
A entrevista que segue faz parte de uma iniciativa do IHU, por meio de seu Escritório da Fundação Ética Mundial no Brasil, que busca ampliar o debate sobre Ética Mundial, incluindo também outras perspectivas, especialmente dos povos originários latino-americanos – como o conceito ético do Sumak Kawsay – e africanos – o Ubuntu.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que é e quais as origens do Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo – Etimologicamente, Ubuntu vem de duas línguas do povo banto, zulu e xhona, que habitam o território da República da África do Sul, o país do Mandela. Do ponto de vista filosófico e antropológico, o Ubuntu retrata a cosmovisão do mundo negro-africano. É o elemento central da filosofia africana, que concebe o mundo como uma teia de relações entre o divino (Oludumaré/Nzambi/Deus, Ancestrais/Orixás), a comunidade (mundo dos seres humanos) e a natureza (composta de seres animados e inanimados). Esse pensamento é vivenciado por todos povos da África negra tradicional e é traduzido em todas as suas línguas.
A origem do Ubuntu está na nossa constituição antropológica. Pelo fato de a África ser o berço da humanidade e das civilizações, bem cedo nossos ancestrais humanos desenvolveram a consciência ecológica, entendida como pertencimento aos três mundos apontados: dos deuses e antepassados, dos humanos e da natureza.
Com as migrações intercontinentais e a emergência de outras civilizações em outros espaços geográficos, essa mesma noção vai se expressar em outros povos que pertencem às sociedades ditas pré-capitalistas ou pré-modernas. É dessa forma que se pode afirmar que essa forma de conceber o mundo na sua complexidade é um patrimônio de todos os povos tradicionais ou pré-modernos. Cada um expressa isso através de suas línguas, mitos, religiões, filosofias e manifestações artísticas.
Como elemento da tradição africana, o Ubuntu é reinterpretado ao longo da história política e cultural pelos africanos e suas diásporas. Nos anos que vão de 1910-1960, ele aparece em termos do panafricanismo e da negritude. São esses dois movimentos filosóficos que ajudaram a África a lutar contra o colonialismo e a obter suas independências. Após as independências, estará presente na práxis filosófica do Ujama de Julius Nyerere, na Tanzânia; na filosofia da bisoité ou bisoidade (palavra que vem da língua lingala, e traduzida significa "nós") de Tshamalenga Ntumba; nas práticas políticas que apontam para as reconciliações nacionais nos anos de 1990 na África do Sul e outros países africanos em processo da democratização.
A tradução da ideia filosófica que veicula depende de um contexto cultural a outro, e do contexto da filosofia política de cada agente. Na República Democrática do Congo, aprendi que Ubuntu pode ser traduzido nestes termos: "Eu só existo porque nós existimos". E é a partir dessa tradução que busco estabelecer minhas reflexões filosóficas sobre a existência. Muitos outros intelectuais africanos vêm se servindo da mesma noção para falar da "liderança coletiva" na gestão da política e da vida social.
IHU On-Line – Como um princípio ético nascido na África, que manifestações do Ubuntu podemos encontrar na cultura brasileira ou afro-brasileira, tão marcada por raízes africanas?
Bas’Ilele Malomalo – É preciso voltar à história para capturar as manifestações do Ubuntu em suas diásporas transatlânticas. No Brasil, a noção do Ubuntu chega com os escravizados africanos a partir do século XVI. Estes trouxeram a sua cultura nos seus corpos, e ela foi reinventada a partir do novo contexto da escravidão. Por isso, falar de Ubuntu no Brasil é falar de solidariedade e resistência. Como outros registros histórico-antropológicos que expressam o "ubuntu afro-brasileiro", podemos citar os quilombos, as religiões afro-brasileiras, irmandades negras, movimentos negros, congadas, moçambique, imprensas negras.
IHU On-Line – Como podemos compreender a religião ou o sagrado por meio do Ubuntu? De que forma ele tenciona a noção religioso-transcendental?
Bas’Ilele Malomalo – Para os africanos e seus descendentes, toda existência é sagrada, quer dizer, há um pouco do divino em tudo o que existe. A religião, como instituição social e sistema simbólico, apresenta-se como o espaço privilegiado de alimentação da “consciência ubuntuística". Através de seus ritos, seus sacerdotes e adeptos a reatualizam. Os mitos, as celebrações, os cantos e encantamentos desempenham essa função de nos religar com nossos deuses, antepassados, com a comunidade, conosco mesmos, com o cosmos e a natureza. Além dos ritos sagrados, os profanos também desempenham a mesma função mística. Na África, os ritos de iniciação, de entronização dos reis ou rainhas estão sempre conectados com a ancestralidade.
IHU On-Line – Dentro da ética Ubuntu, qual é o papel do ser humano e da comunidade?
Bas’Ilele Malomalo – A concepção africana do mundo é antropocêntrica. Não no sentido absolutista da filosofia iluminista ocidental, que pensa que o ser humano é o centro do mundo e que ele pode tudo e pode fazer tudo o que quiser. O antropocentrismo africano é "relativista". Quer dizer o ser humano africano sabe que nem tudo depende da sua vontade. Esta depende também da vontade dos ancestrais, dos orixás. Se estes revelarem, através de um sonho, de um Ifá, de um sacerdote, do seu pai ou da sua mãe, um acontecimento, será preciso prestar atenção.
Por outro lado, o antropocentrismo africano entende que uma boa prática religiosa só existe naquela que traz a felicidade para o ser humano. Como este não pode ser concebido fora das relações sociais, na África, a felicidade é concebida como aquilo que faz bem a toda coletividade ou ao outro. Os outros são meus orixás, ancestrais, minha família, minha aldeia, os elementos não humanos e não divinos, como a nossa roça, nossos rios, nossas florestas, nossas rochas. Dessa forma, para a filosofia africana, o ser humano tem uma grande responsabilidade para a manutenção do equilíbrio cósmico.
IHU On-Line – Em uma época de crise ecológica e ambiental, como o Ubuntu pode nos ajudar a desenvolver uma nova relação com os demais seres não humanos?
Bas’Ilele Malomalo – Do ponto de vista filosófico, a crise planetária atual encontra suas raízes na expansão ocidental desde a Idade Média até o surgimento da modernidade. A hegemonia da "razão indolente" (Boaventura de Sousa Santos) nas suas manifestações através do colonialismo, positivismo, racismo científico, capitalismo selvagem, tem sido o instrumento de aprofundamento dos males da nossa civilização. Esse pensamento absolutizou tanto o homem que este voltou-se contra suas divindades, contra a natureza e contra seus semelhantes. O seu "antropocentrismo absolutista" criou as condições de destruição da sua própria espécie e das espécies não humanas.
Qual é a saída que os pensamentos alternativos têm sugerido? Boaventura de Sousa Santos alega que é preciso acionar a "razão cosmopolita"; Edgar Morin sugere o uso de uma epistemologia da complexidade; Leonardo Boff tem sugerido a espiritualidade ecológica. É na busca da união umbilical, afirma Boff, que se encontraria a salvação da humanidade, a superação da crise ecológica atual.
Na filosofia africana, Tshamalenga Ntumba tem interpretado o Ubuntu em termos de "Bisoidade". Tal prática se caracterizaria pela abertura ao diferente, encará-lo como parte de nós. Nessa direção, o mundo da fé, das divindades, dos orixás, dos ancestrais deve dialogar com o mundo dos seres humanos e não humanos (natureza/cosmos). Esse conceito vislumbra o encontro ético e político do "Nós". Trata-se do "nós ecológico". Para esse filósofo congolês, a existência significa uma interação entre as três dimensões da cosmovisão africana. As crises políticas, econômicas, culturais e sociais que têm afetado o continente africano, para ele, ocorrem porque o ser humano se esqueceu de cuidar do "biso" ou do "nós ecológico".
Dessa forma, antes dos humanos cuidarem dos não humanos, precisam cuidar da sua casa. Quer dizer, rever suas práticas filosóficas e científicas dentro dos parâmetros éticos. Uma vez feito isso, poderiam ter condições de cuidar do meio em que vivem. Insisto nisso, porque há um certo pensamento ambientalista ligado à razão indolente. Muitos falam do meio ambiente para lucrar. Essa opção leva esses ativistas e cientistas a ocultar as misérias humanas. O Ubuntu é uma crítica à visão simplista e interesseira. Pensar o desenvolvimento ambiental nessa perspectiva é perceber, como Boff, que deve se levar as coisas no contexto da dialética da complexidade, na qual o teológico, o antropológico e o cosmológico-ambiental dialogam sabiamente. Somos nós, os humanos, que devemos procurar o estabelecimento desse equilíbrio planetário. As responsabilidades têm que ser apuradas, e evitar o discurso da hipocrisia burguesa.
IHU On-Line – Como interpretar nossa memória, nosso passado, nossa ancestralidade a partir do Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo – Na filosofia negro-africana, a ancestralidade é eixo do entendimento da nossa existência. É tudo aquilo que nos proporciona a vivência do nosso presente (sasa, em swahili) e nosso futuro (lobi, em lingala), tendo aqueles que pertencem ao passado (zamani, em swahili), os que nos antecederam, divindades, orixás e antepassados como ponto de leitura das duas primeiras dimensões da existência.
A vontade das divindades, geralmente, concretizam-se pelas vontade dos orixás e ancestrais presentes na sabedoria popular, nos mitos. Os sacerdotes e pessoas mais velhas vivas têm o papel de interpretá-la através dos ritos e práticas do cotidiano.
Desse ponto de vista, os mitos e ritos africanos têm por função pedagógica lembrar aos vivos o seu parentesco com os seres do mundo invisível e visível (seres humanos e seres não humanos). Todos os mitos africanos se pautam nessa lógica. Como os mitos judaicos, os mitos africanos nos informam que os seres humanos têm um pouco de divino; cada um é filho de um orixá; e um pouco da natureza. Conta um mito da criação que Oludumaré (Deus supremo) deu ao orixá Obatalá a missão de criar o ser humano, e este o fez a partir do barro (elemento da natureza). Eis a nossa irmandade planetária. A cosmovisão africana do mundo tem uma importância no sentido de contribuir para o pensamento ecológico contemporâneo.
IHU On-Line – Em uma sociedade embasada em valores ocidentais e modernos como a nossa, que questionamentos políticos, econômicos e sociais o Ubuntu pode fomentar?
Bas’Ilele Malomalo – O Ubuntu pertence ao pensamento alternativo, que cogita o mundo a partir da complexidade. E é oportuno reafirmar que toda filosofia carrega valores e antivalores. Para a filosofia de Ubuntu, não se pode falar de economia e política sem levar em consideração os valores da comunidade cósmica. Os profissionais de todos os campos da teologia, das ciências sociais e da natureza, políticos, o homem e a mulher comuns, todos devem ser ouvidos. O Ubuntu luta contra os reducionismos impostos pela razão indolente no fazer política e economia. A democracia participativa em todos os campos é tida como um valor. A economia não se reduz ao crescimento. Este tem a ver também com o social e com o cultural. O valor de solidariedade é também importante.
IHU On-Line – Diante da violência e das desigualdades, que significado têm o perdão, a reconciliação e a compaixão para a ética Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo – É preciso dizer, primeiro, que as vítimas da violência e das desigualdades são aquelas que compõem a classe dos excluídos por motivos raciais, de gênero, de opção sexual ou religiosa. Os seres não humanos também pertencem a essa classe dos dominados pelo fato de interagir com as classes dominantes, agentes da razão indolente, de uma forma desigual. Com isso, estou querendo afirmar a historicidade da violência e das desigualdades.
Olhando para a história africana e da sua diáspora brasileira, quero citar alguns casos em que o Ubuntu se materializou ou foi tencionado para ser traduzido em termos de perdão, reconciliação e compaixão.
A África do Sul, após a libertação de Mandela e o fim do apartheid, colocou-se como o exemplo histórico da tradução do Ubuntu no projeto político multicultural. Esse país, através de suas lideranças políticas, religiosas e sociais, soube fazer uso dos princípios éticos dessa filosofia através do estabelecimento da Comissão da Verdade e Reconciliação. Tratava-se da recriação de um espaço de diálogo da comunidade de inspiração nos "palabres africanos". Palabre é uma palavra francesa, que se refere aos espaços de mediação de conflitos da comunidade, que contam com a habilidade do uso da palavra por parte dos mais velhos ou sábios. Não se tratava de um espaço de condenação dos torturadores ou racistas, mas sim de um encontro do povo sul-africano consigo mesmo, com seus problemas do passado, com o seu presente e com o seu futuro a ser construído. Um encontro com a sua memória de dor, sofrimento e de esperança. Após esse processo, esse país se define hoje como uma Nova África do Sul, que se reconhece como um país multicultural, onde brancos e negros podem conviver juntos. Dessa forma, o zamani [passado] de sofrimento se transformou num sasa-lobi [presente-futuro] de esperança.
Em 2001, com a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata (31 de agosto a 8 de setembro de 2001), em Durban, na África do Sul, as vítimas do escravismo colonial europeu, africanos e seus descendentes, exigiram aos Estados europeus, americanos e africanos um pedido de perdão pelos atos cometidos. Os Estados africanos através do representante da União Africana o fizeram, mas da parte dos dirigentes dos outros Estados houve resistência. Pois muitos não queriam assumir a sua responsabilidade histórica. Afinal de contas, a conferência condenou a escravidão como crime contra a humanidade.
Esses dois exemplos devem inspirar todas as sociedades multiculturais que pretendem propiciar um destino melhor para todos os seus cidadãos. Os países africanos que ainda brigam por causa da hegemonia política ou da gestão dos recursos naturais; os países da América Latina, como o caso do Brasil, onde as sequelas do escravismo e do racismo dividem, proporcionando aos seus cidadãos o acesso aos direitos políticos, econômicos, sociais e culturais de forma diferenciada, devem se servir dos exemplos citados, para que o Ubuntu se torne uma profecia da esperança cumprida.
No caso dos países africanos em situação das ditaduras militares, da democracia de fachada ou da democracia fraca e do pós-conflito, cabe apelar ao Ubuntu como uma nova forma de se pensar e fazer política. Governar, nesse sentido, significa ouvir os opositores, presentes em outros partidos políticos, nas organizações da sociedade civil, nas aldeias para a elaboração de um projeto nacional coletivo. Perdoar significa também fazer justiça em relação às mulheres vítimas de estupros, de genocídios, de matanças por razões de egoísmo dos senhores de guerras africanas. Reconciliação, nesse contexto, significa esclarecimento perante a comunidade dos problemas que afetam as nações, e a partilha das responsabilidades. É uma volta à memória ancestral, aos valores africanos do passado, mas atualizados no presente, e o seu uso no exercício de fazer a política na modernidade. Nesse aspecto, a legitimidade dos dirigentes se fundamenta na prática da lealdade, na busca do bem-estar do povo, e não o contrário.
IHU On-Line – Em um contexto social como o brasileiro, como a ética Ubuntu pode contribuir na situação contemporânea?
Bas’Ilele Malomalo – Uma coisa que Ubuntu tem para nos ensinar, nesse momento histórico, de experimentação de políticas públicas de ações afirmativas e cotas é a consideração dos elementos de perdão, reconciliação e compaixão. Para mim, perdoar significa antes de tudo a identificação das causas de nossos males. Os males, que justificam a situação do subdesenvolvimento da população negra quando comparada com a branca, têm nomes: o nosso passado escravista e o racismo contemporâneo. Tem outros fatores, mas esses dois são suficientes. Para a teologia afro-brasileira, eles são identificados aos pecados.
As instituições e as pessoas reprodutoras dessas práticas têm que assumir suas responsabilidades perante Deus e a humanidade. Num país de maioria cristã como o Brasil, exercer a compaixão significa colocar-se no lugar do outro. As Igrejas cristãs como parte da sociedade civil brasileira devem exercer o seu papel profético ao lado das igrejas, comunidades, pastorais negras, em vez de ficar "em cima do muro". A Igreja latino-americana dos anos de 1970 precisa voltar. O grito de "Maranata" aqui significa que as comunidades religiosas têm o dever ético de fazer ouvir a sua voz e interagir no debate atual sobre as políticas públicas para negros e indígenas.
Reconciliação na perspectiva do Ubuntu, no Brasil atual, é um encontro entre nós mesmos, com o nosso passado de dor, resistência e esperança. É um encontro entre nós mesmos como povo brasileiro. Um povo marcado pela miscigenação emancipatória e não um falso discurso de miscigenação colonialista. A diferença é que o primeiro discurso assume a pluralidade como valor, já o segundo o nega e o encara como uma ameaça.
(Por Moisés Sbardelotto)
FONTE: IHU Online
as ambiguidades da expansão civilizadora
novembro 26, 2010 às 11:06 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Camões, descobrimentos, discriminação, exercício, expansão marítima, Lusíadas, narrativas identitárias
Acima temos uma reprodução do quadro “Descobrimentos”, pintado pelo artista polonês Thomas Kostecki por ocasião das comemorações dos 500 anos da chegada da frota de Vasco da Gama às Índias. Este pintor compôs toda uma série de obras (clique na imagem para ver as outras) que glorificam a Expansão Marítima portuguesa, sendo que o quadro aqui destacado bem parece inspirado num famosíssimo verso do Canto 2 de Os Lusíadas, no qual o deus Júpiter profetiza para a filha Vênus que, na sequência de suas viagens, os portugueses “novos mundos ao mundo irão mostrando” (conferir estrofe 45).
Como já vimos, o grande épico de Camões também constrói um discurso enaltecedor da Expansão, embora em alguns momentos o poeta se mostre inquieto, ou mesmo um tanto crítico, em relação aos efeitos históricos e culturais das descobertas. Ciente de que se tratou de um feito decisivo para a história nacional portuguesa, Camões, que também foi um dos mais eruditos intelectuais de seu tempo, estava atento ao fato de que a construção do Império Português, ideologicamente dinamizada pela missão evangelizadora e por um projeto civilizador, não deixava de assumir dimensões bastante violentas quando os portugueses deparavam-se com povos detentores de culturas muito diferentes, em geral tomadas como bárbaras.
Neste outro quadro, intitulado “Vasco da Gama”, a despeito da permanência da intenção homenageadora, o artista polonês, um pouco semelhantemente a Camões, parece deixar extravasar, em sua releitura dos significados da viagem, uma percepção de seus resultados problemáticos, se atentamos para a estranha representação dos indianos na tela, cabisbaixos e como que transformando-se em fantasmas. Uma análise contemporânea poderia inquirir: será que a “civilização” levada pelas naus de Vasco da Gama às Índias não produziu efeitos destrutivos na cultura indiana, assim como ocorreu com os indígenas do Brasil descoberto por Pedro Álvares Cabral? Vejamos como também António Saraiva realiza uma análise ambivalente da Expansão e de sua ideologia civilizadora. Segundo ele, para os navegadores lusitanos:
O mundo aparece como objecto de conhecimento tal como os Mouros e Bárbaros são objectos de conquista e as mulheres objecto de caça. Encontramos uma separação do sujeito e do objecto que é uma característica essencial da civilização ocidental – a mesma característica que, depois, na fase burguesa, propiciará o progresso científico e tecnológico que tornará possível a conquista do Mundo pelos Europeus e finalmente as viagens interplanetárias. (…)
Por este lado, Os Lusíadas merecem ser considerados como o grande manifesto da civilização ocidental no seu espírito permanente, da Idade Média até os nossos dias.
Mas desse espírito representam também o lado negativo: a incapacidade de sair de si mesmo para se identificar com o Outro. (“Introdução a Os Lusíadas”, p.19)
O crítico literário brasileiro Silviano Santiago faz uma análise bem mais severa do que a de Saraiva acerca do que significou efetivamente para os europeus “civilizar” outros povos, conforme se pode ler abaixo:
A colonização pela propagação da Fé e do Império é a negação dos valores do Outro (Camões infelizmente não foi bastante lúcido para perceber que a moeda tem duas faces). A tripla negação do Outro para ser mais preciso. Primeiro: do ponto de vista social, já que o indígena perde a liberdade, passando a ser súdito de uma coroa européia. Segundo: o indígena é obrigado a abandonar o seu sistema religioso (e tudo o que ele implica de econômico, social e político), transformando-se — pela força da catequese — em mera cópia do europeu. Terceiro: perde ainda a sua identidade lingüística, passando gradativamente a se expressar por uma língua que não é a sua. (“Por que e para que viaja o europeu?”, p.225)
Considerando esse conjunto de posicionamentos, procure elaborar um texto, ou organizar ideias, tendo em vista interpretar as estrofes transcritas abaixo do Canto 1 (estrofes 44-46). Que imagens identitárias podemos ver associadas, por uma lado, aos portugueses “descobridores” e, por outro, ao grupo de africanos com que estes se cruzaram quando a frota do Gama alcançou Moçambique? Confira na paráfrase desse versos feita por Saraiva, ou pesquise na internet, o que significam as referências a Faéton, o Pado e Lampetusa.
Vasco da Gama, o forte Capitão,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo coração,
A quem Fortuna sempre favorece,
Pera se aqui deter não vê razão,
Que inabitada a terra lhe parece.
Por diante passar determinava,
Mas não lhe sucedeu como cuidava.
Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batéis, que vêm daquela
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroça e, de alegria,
Não sabe mais que olhar a causa dela.
- «Que gente será esta?» (em si diziam)
«Que costumes, que Lei, que Rei teriam?»
As embarcações eram na maneira
Mui veloces, estreitas e compridas;
Ás velas com que vêm eram de esteira,
Düas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira
Que Fáëton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado e não prudente
(O Pado o sabe e Lampetusa o sente).
Seria correto afirmar que a relação estabelecida no poema entre o mito de Faéton –- um bom exemplo daquilo que Stuart Hall chamaria de “narrativa da tradição” — e a origem das pessoas de pele escura reforça a idéia de que os europeus não tinham preconceitos contra os africanos e que os contatos dos portugueses com esses povos guiaram-se sobretudo por intenções universalistas?
camonices & barbaridades
novembro 26, 2010 às 10:34 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: alteridade, Camões, dicas, diferença, expansão marítima, Lusíadas
Eis acima uma reprodução da pintura descrita na abertura da “Introdução a Os Lusíadas” de António SARAIVA, na qual se retrata Luís de Camões na prisão. Dividido entre seu patriotismo fervoroso e sua racionalidade renascentista, este poeta produz uma obra na qual também se entrecruzam contradições diversas, sobretudo no que diz respeito a uma avaliação sobre os resultados da Expansão Marítima e à legitimidade moral do empreendimento. Também o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade discutiu o tema num de seus textos que dialoga diretamente com Os Lusíadas, para lê-lo e ouvi-lo, visite o MUJIMBO. Uma boa análise desse diálogo poético, evidenciando os aspectos negativos do expansionismo português, pode ser lido neste artigo de Francisco Conceição.
No nosso blogue-irmão recomenda-se também a postagem “Amores Bárbaros”, na qual é possível ouvir-se uma versão musicada da “Endecha à Bárbara Escrava” que foi discutida na aula anterior, obter-se mais informações sobre a obra camoniana e seus impasses e, de quebra, ter acesso aos textos de Francisco LIMA nos quais são discutidas definições para diferença e alteridade. Portanto, mujimbem-se!
[estátua de Camões em Moçambique]
as bissemias camonianas e a crise dos valores medievais
outubro 27, 2010 às 18:24 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Camões, expansão marítima, Lusíadas, modernidade
a construção da identidade imperial portuguesa: referências
outubro 9, 2010 às 10:01 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Lusíadas, lusofonia, memória cultural
Conferir também a postagem ideários & ideologias em “Os Lusíadas”, integrante deste blogue.
“Os Lusíadas” como discurso nacional
novembro 17, 2009 às 4:27 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: exercício, Lusíadas, memória cultural, nação, narrativas identitárias, Portugal
Lançando um olhar lúcido sobre o significado e a função do ideário nacional em Os Lusíadas, afirma António Saraiva:
Antes de 1415 Portugal fora um pobre reino, com uma corte que envergonharia qualquer mediano senhor feudal de Espanha ou França. A sua gesta heróica era a da guerra fratricida com Castela, cantada já em canções épicas no começo da monarquia. Mas com a expansão marítima muda a sua visão da história. Como novos ricos em busca de genealogias, os historiadores portugueses procuram antepassados ilustres na Antiguidade. Assim, mitificando a história, perderam de vista as particularidades locais da realidade histórica portuguesa. Releram-se as crónicas tradicionais de maneira que os feitos de armas foram focados de maneira abstracta e gratuitamente heróica, esquecendo-se que eles estão relacionados com a luta de um pequeno povo pela sua sobrevivência na Península Ibérica. Em troca, deu-se à nossa história um significado universal, dentro de uma visão que abrangia o destino da humanidade.
Podemos considerar que no texto do poema Os Lusíadas essa mudança na visão histórica sobre a identidade portuguesa encontra um momento fundamental, que até hoje, passados 437 anos desde a primeira edição desta obra, influencia a maneira como os portugueses constroem sua identidade nacional – e, possivelmente, também o modo como os brasileiros, e outros povos lusófonos, re-significam seus referentes culturais.
Buscando por uma compreensão formal dos gêneros discursivos que organizam as narrativas identitárias, Stuart Hall propõe-nos a seguinte classificação:
a) NARRATIVAS DA NAÇÃO (ou seja, os textos institucionais e culturalistas que se propõem a “explicar” a nação, abrangendo a historiografia oficial – especialmente os manuais escolares de história –; as interpretações acadêmicas – Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda –; e os discursos que atualizam a realidade da nação, como o “Jornal Nacional”, como nossa conversa cotidiana sobre como “o Brasil não tem jeito”, etc.)
b) NARRATIVAS DA TRADIÇÃO (p.ex., a “Carta de Caminha”)
c) INVENÇÃO DE TRADIÇÕES (p.ex., o Caramuru, de Santa Rita Durão, assim como o Caramuru cinematográfico de Guel Arraes, EStórias que se confundem com a HIStória, e que tendem a deformar os fatos)
d) MITOS FUNDACIONAIS (p.ex., Iracema, de José de Alencar, ou o “mito das 3 raças”, narrativas situadas num tempo indefinível)
e) NARRATIVAS FOLCLÓRICAS (p.ex., as estórias sobre os Bandeirantes, ou as diversas representações da “essência” do povo, como o Macunaíma de Mário de Andrade, o “Jeca-Tatu” de Monteiro Lobato)
Como você classificaria os Lusíadas??
versão legendada de “Os Lusíadas” na xerox
novembro 9, 2009 às 17:26 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Camões, dicas, expansão marítima, Lusíadas
Já se encontra à disposição dos estudantes na xerox do campus fotocópias dos Cantos I e IV de Os Lusíadas. As cópias foram tiradas da edição feita por António Saraiva, que inclui paráfrases explicativas de todas as estrofes. Boas navegações nos mares épicos desse poema sempre atual.
ideários & ideologias em “Os Lusíadas”
novembro 1, 2009 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentárioTags: Angola, expansão marítima, herança colonial, Lusíadas, narrativas identitárias
Na LitPort 1 @s estudantes, em geral, elencaram vários temas a merecerem exploração e aprofundamento na parte final de nosso curso, notando-se um interesse transversal na articulação entre a literatura e as formas de representação da identidade e da diferença. Buscando uma síntese abrangente desse desejo em navegar por rotas múltiplas da memória lusitana, daremos partida na aula de 04/11 a uma discussão acerca dos valores estruturantes da identidade portuguesa conforme estes se encontram representados em narrativas que expressam o imaginário da Expansão Marítima. Ainda em sintonia com as opiniões colocadas nas redações, dirigiremos o foco de leitura para aquela narrativa que podemos certamente considerar tanto a mais importante quanto a mais desafiante, isto é, Os Lusíadas, de Luís de Camões. A orientação “cartográfica” para essa navegação literária & culturalista nos será proporcionada por dois textos teóricos. O primeiro deles é a “Introdução” ao épico camoniano feita por um dos mais influentes críticos literários portugueses, António José Saraiva. Trata-se de um texto referencial para os estudos desse poema, oferecendo uma excelente apresentação tanto contextual quanto formal do mesmo. Em nossos estudos, nos concentraremos nas questões relativas ao conteúdo da obra, ou aos seus “ideários”, como propõe Saraiva, recomendando-se portanto a leitura do texto até, pelo menos, a página 27. Para fazer o download, clique AQUI (em conexão de banda larga, a transferência levará cerca de 10 minutos). Para saber mais sobre António Saraiva, Camões e Os Lusíadas, visite e pesquise o MUJIMBO.
A esse estudo canônico da obra de Camões, cruzaremos a leitura polemizadora do poema feita pelo crítico e escritor Silviano Santiago no ensaio “Por que e para que viaja o europeu?”. Visite novamente o MUJIMBO e ganhe acesso a um conjunto de textos deste renomado pesquisador disponibilizados on-line pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pacote bibliográfico no qual se inclui o ensaio já referido. Também há cópia dele na xerox do campus, bem como do texto de António Saraiva. Pioneiro na renovação dos estudos literários no Brasil, Silviano Santiago desempenhou um papel decisivo na reformulação metodológica que hoje articula diretamente a literatura, a ideologia colonial e a questão identitária. Para quem quiser desdobrar numa perspectiva angolana esta reflexão sobre o imaginário dos “descobrimentos” & dos complicados intercâmbios culturais lusófonos, recomenda-se também o ensaio híbrido “Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto”, do escritor Manuel Rui, autor da letra do hino nacional de Angola.
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