teoria freudiana & racismo “cordial”: articulações

junho 19, 2011 às 13:50 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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raça diversidade capa                          freud 1949 negativo

Tal como sugere a capa de livro que ilustra esta postagem, pensar sobre a diversidade humana implica em refletir sobre imagens e linguagens que caracterizam as diferenças entre as pessoas e entre as sociedades. Para compreender a dimensão inconsciente, ou imaginária, desses significantes, o texto de Miriam Chnaiderman linkado a seguir oferece subsídios valiosos, sobretudo pela maneira esclarecedora e instigante com que a autora articula o complexo conceito freudiano de unheimlich às experiências intersubjetivas relacionadas à prática do racismo dissimulado na sociedade brasileira. Enfim, como aponta Miriam, o que está em causa nas manifestações de preconceito racial em nossa sociedade mestiça pode não ser a rejeição do outro, mas sim a recusa em encarar aquilo que este outro revela sobre aqueles que o discriminam.  

CHNAIDERMAN, Miriam. Racismo, o estranhamento familiar: uma abordagem psicanalítica. In: SCHWARCZ, Lilia, QUEIROZ, Renato da Silva (orgs.). Raça e diversidade. São Paulo: Edusp, 1996.

a estranha felicidade moderna

novembro 21, 2010 às 23:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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bussola

Mais um boa entrevista que se embasa na teoria lacaniana, especialmente nos conceitos de “simbólico” e de “gozo”, para desenvolver questões cruciais relacionadas à desorientação dos sujeitos modernos.

 

“A bússola do sujeito muda seu norte”

Homo automaticus. Novos enlaces entre gozo e saber é o tema que inspirou a entrevista a seguir, concedida por e-mail pelo psicanalista Alfredo Jerusalinsky à IHU On-Line, adiantando aspectos do ninicurso que irá ministrar em 23-05-2007 no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? Para Jerusalinsky, se até pouco tempo “o sujeito se orientava na procura de um outro para decidir seu destino face àquilo que a sociedade demandava dele, hoje – na pós-modernidade – ele anda na incessante procura de um objeto que venha lhe garantir um gozo da máxima intensidade”. Dito de outro modo, explica ele, “se o problema central de todo sujeito antes era como se representar no discurso social, hoje sua bússola sofreu a torção para o encontro com a satisfação de suas demandas corporais”.

Por: IHU Online

Jerusalinsky é psicanalista, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutor em Educação e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). Além disso, é membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e da Association Lacaniènne Internationale. Nas Notícias Diárias do sítio do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), www.unisinos.br/ihu, Jerusalinsky concedeu a entrevista Borat, Babel e A Rainha e suas relações, analisando esses três filmes, bem como Pequena Miss Sunshine. De sua vasta bibliografia, destacamos: La formación del psicoanalista (Editora Nueva Visión: Buenos Aires, 1989); Psicanálise e desenvolvimento Infantil (2ª ed. Artes e Ofícios: Porto Alegre, 1998); Para entender al Niño, Claves psicoanalíticas (Ediciones ABYA-YALA: Quito, 2003) e Quem fala na língua? Sobre as psicopatologias da fala (Editora Ágalma: Bahia, 2004).

IHU On-Line – Em entrevista concedida ao nosso site em 09-03-2007, o senhor fala que a queda de crenças como “a união faz a força, a liberdade de um acaba onde começa a do outro, a felicidade está no amor (que necessariamente passa pelo outro)” nos deixa desorientados. Como esse desencantamento se relaciona com a autonomia do sujeito na pós-modernidade?
Alfredo Jerusalinsky –
A bússola do sujeito muda seu norte. Se até pouco tempo ele se orientava na procura de um outro para decidir seu destino face àquilo que a sociedade demandava dele, hoje – na pós-modernidade – ele anda na incessante procura de um objeto que venha lhe garantir um gozo da máxima intensidade. Dito de outro modo, se o problema central de todo sujeito antes era como se representar no discurso social, hoje sua bússola sofreu a torção para o encontro com a satisfação de suas demandas corporais. A demanda social passou para um segundo lugar. De tal modo – no que se refere à autonomia – que ele mesmo perfaz seu próprio nome sem que o nome recebido do Outro tenha maior valor.

Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
— Os quatro ventos do místico ar da civilização
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – Como o senhor define o homo automaticus? Quais são os pontos de aproximação e as diferenças com o homo sapiens?
Alfredo Jerusalinsky –
Se situarmos o homo sapiens como aquele primata que deu esse passo fundamental para o domínio da linguagem, recalcando suas pulsões a serviço de uma aliança fraterna ordenada por um saber simbólico sobre o gozo, teremos que nos perguntar quais serão os efeitos da perda de consistência desse gozo simbólico quando se coloca no trono um gozo real. Quando o gozo se situa na ordem simbólica, isso significa que não é necessário experimentar para saber: a linguagem nos assegura um saber que, na medida em que ele provém de uma memória da espécie armazenada nos signos lingüísticos (memória que costumamos designar como “cultura”), poupa a cada um de passar pela experiência. Até as crianças mais pequenas sabem disso: quando a mãe lhes oferece uma comida nova, elas podem responder que não gostam, apesar de nunca tê-la experimentado. A ordem simbólica ancorada na linguagem nos permite deduzir o lugar e o valor das coisas e dos outros sem nunca tê-los visto ou tocado. É assim que podemos saber que algo falta, sem termos registro de que é. Tais são as razões desse “homo” para merecer no nome de “sapiens”.

Quando se dá prevalência ao corpo como coisa a ser satisfeita – ou também como coisa a ser privada de satisfação –, são seus automatismos que passam a ocupar o centro da cena. Seja pela prevalência de um prazer absoluto, seja pelo martírio da privação, o corpo se torna protagonista e, então, seus automatismos passam a comandar a vida do sujeito. Este se torna escravo, paradoxalmente, dos artifícios que inventa (sejam científicos ou religiosos) para se desembaraçar da responsabilidade sobre seu destino. Na medida em que o saber já não está mais no sujeito, mas no artifício automático que ele mesmo criou (trate-se de suas descobertas neuroquímicas, da informática, dos artefatos eróticos ou dos sistemas dogmáticos de crenças ou cosmogonias), ele passa a merecer o nome de homo automaticus. A robótica aplicada como complemento corporal é um dos paradigmas desse conceito que acabo de propor, e, como é bem sabido, ela nos apresenta uma série interminável de problemas éticos.

IHU On-Line – E quais seriam os possíveis enlaces entre gozo e saber nesse homo automaticus?
Alfredo Jerusalinsky –
Como acabo de afirmar, nesse homo automaticus, o que parece destinado a tomar o comando das coisas hoje em dia, o saber consiste numa repetição fechada que assegure um gozo real. Se é esse gozo que se procura, nada melhor, então, que reduzir tudo a uma engenhoca ou a um dogma, ambos garantindo uma repetição sempre igual e automática. Deve-se notar que, ultimamente, há importantes tentativas de reconciliação entre a religião e a ciência. Tentativas que se fundamentam nesse acordo estratégico de elevar os automatismos ao lugar de comando (embora os automatismos propostos não sejam da mesma natureza). Pelo seu lado, o fundamentalismo aposta seu saber na repetição automática das escrituras sacralizadas pelo homo sapiens. Ocorre que este último vivia com tantas dúvidas que precisou colocar em algum lugar a esperança de alguma verdade indiscutível. Se a religião, pelo seu lado, o fez nas sagradas escrituras, Descartes  a situou no pensamento: “cogito ergo sum”, o que, paradoxalmente, cancelou sua “dúvida sistemática”.

Na medida em que o paradigma cartesiano colocou como núcleo do pensamento moderno o suposto de que todo saber é transformável em conhecimento (o que quer dizer, dotado de parâmetros que permitem materializá-lo calculá-lo), os saberes se transformaram em pequenas certezas. Habitamos num mar delas, tão pequenas que não alcançam para nos dar certeza de nada. Por isso, passamos a gozar de uma ilusão vasta e generalizada de saber o que, em verdade, ignoramos.

GLOSAS

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.
O vento vão, que as folhas vãs enroda,
Figura o nosso esforço e o nosso estado.
O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita
A possibilidade erma e infinita
De onde o real emerge inutilmente,
E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.
Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo
Suposto, o Fado que chamamos Deus
Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.
Uma coisa é uma cara contraída
E a outra uma água com um leve sal.
E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,
E, renovando o curso, nasce e morre
Nos horizontes do que contemplamos.
Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,
Jazemos o instinto e a ciência.
E o sol parado nunca percorreu
Os doze signos que não há no céu.

[Fernando Pessoa]

IHU On-Line – Se progresso é um sinônimo para felicidade, podemos dizer que o saber virou sinônimo de gozo? Por quê?
Alfredo Jerusalinsky –
Um momento! Eu não disse que progresso seja realmente um sinônimo para a felicidade. Eu referi que essa é uma crença própria da modernidade. Mutatis mutandis, hoje tal crença se deslocou para a suposição de que o gozo seja sinônimo de felicidade. É difícil saber por que aconteceu tal coisa. Podemos formular algumas hipóteses: a ciência evoluiu de tal modo na modernidade que facilitou a crença de que os aproveitamentos tecnológicos de suas descobertas poderiam assegurar aos humanos que nada lhes faltaria. Outra hipótese na mesma trilha: a confiança cega na razão como fonte exclusiva de verdade levou a um reducionismo logicista (em termos euclidianos) do pensamento, o que teve como conseqüência uma ilusão de domínio total do mundo em que vivemos. Talvez se trate simplesmente de um retorno do corpo mesmo ao centro da cena, depois de ter sofrido séculos de recalque e repressão.

IHU On-Line – Quais são as principais conseqüências da hiperacionalização realizada em diversas instâncias da vida pós-moderna e de que modo o gozo e o saber estão imbricados nesse otimismo teórico ilimitado tão característico de nossos dias?
Alfredo Jerusalinsky –
Que a razão conduz à felicidade é uma ilusão que rapidamente se desmancha. Basta perguntar a um casal, quando estoura uma briga entre os parceiros, se lhes serve, a cada um deles, ter razão. Certamente não é por essa via que vão se reconciliar. O mesmo acontece nas mais amplas relações sociais. Quando a razão destrói os mitos em que se alicerça a consistência simbólica de uma determinada cultura, aparece aí um tipo de verdade que, por lançar ao centro da cena o real recalcado, provoca efeitos arrasadores nesse conjunto social. Rapidamente, então, se fabricam novos messianismos, para substituir, na sua função de recalque, os horrores revelados na queda das antigas crenças destituídas pelo hiper-racionalismo.

SE QUISEREM QUE EU TENHA UM MISTICISMO, ESTÁ BEM, TENHO-O.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição

[Alberto Caeiro]

IHU On-Line – Como e por que a ilusão de autonomia absoluta inclina as pessoas a uma ética individualista? Corremos o risco de nos tornarmos uma sociedade de indivíduos e pensar a autonomia apenas como um sinônimo de individualismo?
Alfredo Jerusalinsky –
Sua pergunta é interessante porque ela mesma afirma a existência desse risco. Estou de acordo. Porém, cabe assinalar pelo menos duas questões. A primeira é sobre o conceito de ética. Se colocamos a ética como “o sujeito se fazer responsável das conseqüências que seu ato tem para o outro” (citando Jacques Lacan) – definição que eu faço minha –, como poderíamos falar em ética tratando-se do individualismo? Devemos atentar aqui ao fato que o termo “individualismo” é portador de um “ismo”, o que quer dizer que cada vez que houver um conflito entre o indivíduo e o conjunto social haverá tomada de partido pelo indivíduo. Tratar-se-ia, então, de uma sociedade em permanente erosão. Eis aqui a segunda questão: colocando em jogo o princípio de o sujeito se responsabilizar pelas conseqüências do ato sobre o outro, não estaríamos garantindo o respeito do indivíduo, sem necessidade de tomar partido? Devemos reconhecer, contudo, que as paixões humanas não são tão ponderadas.

IHU On-Line – Que patologias psicológicas podem surgir dessa postura egóica assumida pelas pessoas atualmente?
Alfredo Jerusalinsky –
Novamente, você assinala um ponto importante, a saber, a dilatação do ego. Essa, precisamente, é uma das características da paranóia : tudo o que acontece em volta o sujeito imagina que está dedicado a ele. Seja como beneficiário ou prejudicado, o sujeito contemporâneo se coloca como credor de um gozo inusitado, e, ao mesmo tempo, como ameaçado pelo gozo do outro. Assim é que coloca grades pontudas ao redor de sua moradia, situa seu corpo como inimigo que deve ser controlado por medicações que eliminem suas ameaças e anseia entrar em corporações que o protejam. Esse fundo paranóide, com que o sujeito hoje em dia se sociabiliza, costuma tomar diversas formas: a hipocondria generalizada (alguém que saiba me defender das ameaças vindas do corpo), formas obsessivas (a delimitação minuciosa dos espaços), defesas histéricas (como as da ciência: “nada tenho a ver com o desejo”), a bulimia (devorar o mundo inteiro para me constituir numa totalidade na qual não falta nada), a toxicomania (como resistência a depender do outro), a anorexia (ser nada para impedir o registro de que algo falta), e uma intensa fobia do semelhante (sob formas de racismo, xenofobia, guerras santas etc.)

OPIÁRIO

                        Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

(…)

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

(leia na íntegra)

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – Nessa mesma entrevista ao nosso site, o senhor afirma que a população do planeta todo se sente hoje politicamente mal representada. Como entender essa má representação frente à autonomia do sujeito em escolher seus representantes? Por outro lado, como podemos compreender a apatia política presente em boa parte dos eleitores no mundo afora?
Alfredo Jerusalinsky –
Quando se fala em representação de um sujeito por outro, em seguida tropeçamos num problema grave: sempre haverá uma distância entre o desejo do representado e a interpretação que, desse desejo, fará o representante. Esse mal-entendido inevitável, porém, fica amortecido quando o representante, pelo fato de reconhecê-lo, consulta incessantemente o representado. A maior dificuldade surge quando o representante, uma vez eleito, acredita encarnar, ele mesmo, o desejo de seu representado, o que quer disser que ele confunde seu desejo e sua própria satisfação com a de seu representado. Passa então a gozar da legitimação de qualquer forma de sua satisfação pessoal (chamada vulgarmente de corrupção ou abuso de poder), acreditando que, com isso, seu representado ficará feliz ou, ao menos, indiferente. Essa é a filosofia dos reis: eles acreditam que seu luxo e magnificência, que sua festa, constitui a felicidade de seu representado. Isso se chama “gozo do outro”. Simplesmente nos sentimos mal representados porque estão gozando de nós. Ocorre que os representantes, de um modo geral, levam demasiado a sério a sua própria autonomia: se tornam autônomos de qualquer versão do Outro social.

FONTE: Revista IHU On-Line

pessoa voando

a psicanálise da escrita

novembro 20, 2010 às 17:17 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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psicanalise escrita

No artigo transcrito a seguir alguns fundamentos da teoria lacaniana são discutidos em articulação com os problemas de “escrita truncada” e de letramento não normativo que se mostram cada vez mais frequentes na formação dos estudantes brasileiros. Intercalando passagens mais significativas deste texto, inseri alguns poemas de Fernando Pessoa nos quais descentramentos psicanalíticos, representados através de discursos introspectivos marcados pela irrupção de imagens insconscientes, entrelaçam-se aos vários outros questionamentos à modernidade que caracterizam a obra deste autor português.

 

Escrita e angústia

Anna Rita Sartore

ar.sartore@uol.com.br

RESUMO: Por constatar-se uma severa dificuldade na produção textual, por parte de futuros alfabetizadores, buscou-se balizas na psicanálise, sobretudo nos estudos da inibição e angústia empreendidos por Freud e Lacan, que permitissem desenvolver uma investigação a respeito do que gera tal dificuldade. Sustenta-se a hipótese de que há um receio, por parte do sujeito, em desvelar-se através do suporte (escrita textual) e que ele convoque afetos, desde a inibição até a angústia como forma de proteção à aproximação do desejo. Discute-se o formato operacional vigente no trabalho com a literatura dentro das instituições escolares, e a possibilidade de efetuar uma aproximação com as obras consagradas que trafegue por uma via diversa daquela cognitiva. Propõe-se que uma abordagem que autorize o subjetivo resulta numa particular transferência e sublimação de forma que a leitura se configura em autoria podendo fazer, por acréscimo, efeito de relançamento na escritura.

Palavras-chave: educação, psicanálise, escrita



Diante da necessidade de produzir um texto, mesmo dentre alunos que dominam de forma razoável o idioma, é freqüente ocorrer imobilidade e o surgimento de indícios físicos (dor, transpiração, inquietude) que talvez não seja leviano chamar de sintoma, entendendo-o como significante, ou seja, como algo do inconsciente que se mostra. São episódios que na experiência docente se mostram muito habituais para que não haja algo mais do que o operacional envolvido no processo. Refletir sobre os embaraços da escritura cotidiana dos alunos através dos postulados da psicanálise evidencia que a formalização da escrita é animada por fenômenos da ordem do inconsciente e, portanto, submetida a toda a sorte de impedimentos que a representação de si provoca para o sujeito que a efetua.

Trata-se, portanto, dos questionamentos de uma professora de futuros alfabetizadores, intrigada com a recorrência do que se supõe que seja a angústia, afeto que resguarda o sujeito de uma excessiva aproximação com os significantes da ordem do inconsciente.

Um texto, em seus aspectos constituintes, conta para sua produção com o agenciamento de elementos vindo de duas instâncias, a saber: o consciente e o inconsciente. No que toca ao consciente, visto ser o idioma identificador comum a todos os componentes de um determinado grupo social, na frase, escrita ou falada, a estrutura é diacrônica, da categoria do ordinal, linear e implica numa ordem lógica e tende à significação. Entretanto, na linguagem há também envolvido o processo primário, que por sua vez, depende do funcionamento do inconsciente. Ele é sincrônico, simultâneo e não organizado. Nele há uma sintaxe, ou seja, uma multiplicidade de significantes, (elementos expressivos do discurso) que determinam – à revelia do sujeito – suas ações e palavras.

Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se…
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro…
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora…
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim…
Há uma interrupção lateral na minha consciência…
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par…
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois…
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem…
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir…

As naus seguiram,
Seguiram viagem não sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho…

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,
Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,
Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,
Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer,
Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.
E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão…

(continua)

[Álvaro de Campos. A CASA BRANCA NAU PRETA]

Os significantes no processo primário coabitam uma desordem aparente. Lacan (1985) chamou a esse estoque de significantes de lalangue (alíngua, como se convencionou traduzir). Nesta, as associações são singulares e constituem a trilha deixada pelas primeiras experiências constitutivas do sujeito. É por isso, afirma Lacan (op. cit.), que o inconsciente só pode mesmo estruturar-se como uma linguagem, e esta é sempre hipotética visto que guarda relação com aquilo que a sustenta, a saber: a lalangue.

Lalangue (alíngua), portanto, é produção original do sujeito e é nutrida por ligações incoerentes que caem no esquecimento e não entram no ciclo da simbolização. Freud (1996, vol. V) nomeou de "energia livre" no processo primário à forma desordenada e livre dessas associações, enquanto no processo secundário fala de uma "energia ligada".

O mecanismo do recalque, cujo objetivo é manter no inconsciente as idéias e representações ligadas às pulsões, está na própria disparidade dessas duas ordens que não cessam de se interpenetrar. Em virtude dos significantes do inconsciente serem agenciados no ato da escrita há, em todo o fenômeno linguageiro, o acionamento de afetos e de um corpo que ultrapassa o físico. Esse envolvimento pode resultar em inibição de escrita.

Em situação de sala de aula, evidenciam-se diferentes embaraços de escrita, desde aquela que não se dá por falta de estruturas simbólicas significativas para o sujeito até uma determinada recusa da escrita que pode se configurar em ato, no sentido psicanalítico do termo.

Pensando-se em tudo o que envolve a elaboração da linguagem desde o nascimento, fica evidente que a criança é capturada por ela e que, em uma pareia com o adulto, as palavras resultam carregadas de afetos. Dessa forma, a escritura, por mais volitiva que aspire ser, envolve significantes do processo primário. A presença deles pode resultar numa escrita que aparente falta de habilidade com o idioma. É possível que burilar e reescrever um texto sejam tarefas de destreza movidas pela tentativa de mitigar essas marcas, substituindo-as por significantes de convenção. Isso não significa que seja possível extirpar a alíngua do texto porque, obstinada, ela reincide.

Inúmero rio sem água — só gente e coisa,
Pavorosamente sem água!

Soam tambores longínquos no meu ouvido
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo

Helahoho! Helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta…
Ela cosia à tarde indeterminadamente…
A mesa onde jogavam os velhos,

Tudo misturado, tudo misturtado com os corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror

Helahoho! Helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração

(continua)

[Álvaro de Campos. ODE MARCIAL]

Uma ocorrência freqüente na escritura de alguns alunos é o evento de trechos confusos no texto. Propõe-se que a reincidência do aparecimento de intervalos ambíguos ou sem sentido não ocorre, como é atribuído, a parco domínio da língua. Julga-se que há neles deslocamentos e condensações, fruto de elaboração inconsciente, e que rompem com o acordo tácito que há em todo o idioma para torná-lo inteligível.

A rigor, qualquer forma de linguagem – dentre elas a escrita – é metafórica, não pelo uso exclusivo de figuras de linguagem, mas sim em seu cerne, porque se não há como o sujeito representar a si próprio, tudo o que acaba por afirmar ou escrever fica aquém ou além do que pretendia. A metáfora está dessa forma presente e funciona a cada instante na linguagem cotidiana. Entretanto, mesmo as metáforas e metonímias que não são usadas volitivamente como recurso lingüístico, ou seja, quando são decorrentes de manifestação do inconsciente na escrita, de modo geral, podem manter a inteligibilidade, sendo incorporadas à tessitura do texto. Quando isso não ocorre resulta em incoerência que se credita resultante da invasão imprópria da alíngua, em outras palavras, ou seja, o sujeito inclui significantes em lugares que o discurso não comporta. Em outras palavras, trata-se de um saber inconsciente que se desvela maciçamente, à revelia do sujeito, produzindo incoerência gerada por esses significantes alheios ao saber de convenção que se imiscuem no texto.

Na escola há critérios que pretendem medir o saber. Trata-se, nesse caso, de um "saber" no sentido geral de conhecimento. A inteligência está acoplada à forma como o sujeito domina a língua (saber consciente), mas também do acesso que tem ao saber sobre a lalangue (inconsciente). Assim, o domínio da língua é necessário para as operações intelectuais, porém insuficiente para elas; é preciso mais! Esse mais é a lalangue e o desejo, que constituem como diz Lacan (1998, p. 803) esse "saber que não se sabe", saber inconsciente, ponto de arranque para toda a ação do conhecimento.

Supõe-se, na escrita, a presença de um depoimento do próprio sujeito que a produz, visto que não é razoável imaginar uma produção cultural dessubjetivada, pois não há escrita asséptica e assujeitada. Toda a escritura, desde que envolve inevitavelmente o sujeito, é, em última análise, testemunho e por isso, escrever é, muitas vezes, ultrapassar um limiar perigoso. Não é de surpreender que haja tamanha resistência, por parte de alguns sujeitos em aproximar-se de uma introspecção e que o corpo se veja convocado a cavar trincheiras contra ela através da produção de sintoma.

GRANDES MISTÉRIOS HABITAM
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz

[Fernando Pessoa]

Quer nos detenhamos no sujeito que se esquiva da escrita, quer nos voltemos para aquele cuja geração dela é imperiosa, retornamos aos afetos "inibição, sintoma e angústia" envolvidos no ato de produzir ou no ato que também é abster-se de fazê-lo.

Numa aproximação entre a escrita textual e a escrita inconsciente, procura-se localizar o quê, de afetos amarrados a significantes e efeito deles, se mostra na produção da primeira. A inibição é um afeto que ocupa uma posição muito especial na economia psíquica e Lacan (2002) afirma que ela tem a ver com a natureza essencial desse perigo. O que se teme? Diz ele: a aproximação ao desejo.

A angústia é um sinal, remete a algo de outra ordem, ou seja, ela não representa a si própria. Dirá Lacan que quando o desejo se aproxima da efetivação, a angústia aparece porque aquele se avizinhou do gozo, que é insuportável.

Lacan, no seu seminário dez (2002), grafa os sucederes afetivos (inibição, sintoma e angústia) com os quais o sujeito se depara em sua aproximação ao desejo de tal forma que os três termos não se instalam no mesmo patamar, não são homogêneos e, em vista disso, os escreve em três linhas desniveladas. Aos espaços resultantes dessa disposição, ele atribui outros afetos.

Os termos escolhidos para esse gradiente dizem algo através de sua etimologia, que vai além e que ultrapassa o fenômeno. Lacan centra-se nisso: a referência do que se passa no afeto que atinge ao sujeito, está nas próprias palavras. Sobre a inibição, primeiro afeto do grafo, diz que, em sentido amplo, está na dimensão do movimento, mesmo que metafórico. No eixo do movimento, descendo para o sintoma, Lacan propõe a emoção. Em estado da emoção é possível pensar em um grau de imobilidade, em ineficácia do poderio da vontade. Ao chegar à perturbação, Lacan insiste que há uma distância respeitável entre ela e a emoção (lémotion et lémoi). Em émoi – perturbação – tem-se a queda de potência, enquanto na emoção temos a desordem, que muitas vezes é potencializadora da ação. A perturbação é o embaraço no seu grau máximo. Na perturb(ação) está-se diante de quem não sabe o que fazer; a possibilidade de atuação conveniente parece seqüestrada. O último termo, que Lacan propõe para a terceira coluna, é o embaraço. Utilizando-se novamente da etimologia realça o imbacare de onde provém o termo e que faz alusão à barra. É isso, afirma ele, que é vivido no embaraço, o sujeito investido da barra! Como barreiras à angústia, temos ainda o acting-out, e por fim há a passagem ao ato. No acting-out, há o teatral em jogo. Dentro do cenário analítico ou fora dele, é sempre um clichê que se reproduz em uma dimensão transferencial. Lacan se refere ao acting-out como uma "transferência selvagem" que contém, como se disse, um pedido de impossível verbalização. Como última forma de evitar a angústia, temos a passagem ao ato. Se o acting-out é uma posta em cena, a passagem ao ato é saída dela. Há o curto circuito da vida mental do sujeito, impelindo-o a uma ação vigorosa. Lacan delimitou-a dizendo que essa ação é uma retirada de cena na qual, como numa defenestração ou salto no vazio, o sujeito reduz-se a objeto excluído.

De volta ao cenário escolar, entende-se a emergência desses afetos, graduados por Lacan. Diante da solicitação de escrita, supõe-se testemunhar emoção, perturbação, impedimento, sintoma, e até acting-out.

Na escola também insurgem determinadas falas verbais que sugerem envolvimento de uma resignação gozosa, e que se mostra justamente em afirmações, tais como: eu não consigo pôr a idéia no papel; me dá um branco; eu sei para mim, mas não sei escrever, e outras. Essas falas, segundo Harari (1997) podem colar-se a um outro dizer oculto, a saber: o que se há de fazer, se sou assim? Disso parece resultar um acordo de impossibilidades entre sujeitos. Se de um lado essas falas desencadeiam a tentativa, por parte dos professores, de treinar modalidades de escrita com vistas a superar a inibição (como se o que inibisse a ação fosse falta de técnicas), por outro é o gozo pela linguagem que embute uma racionalização e que reduz a inibição a um modo de ser, e como tal, inquestionável.

Na escrita um traço de percepção pode emergir já que há um trabalho intenso para fazer a língua funcionar. Esta requer abstração, triagem, escolhas e esquecimentos necessários que se dão sem supressão total de traço. Se há problema nessas operações, haverá problemas que podem chegar a impedir a escritura. Se um tema para produção textual, cuja triagem esbarra em significantes que aproximem o sujeito daqueles que ele luta por afastar de si, algo, que precisa ficar suprimido, faz efeito de paralisia, o sujeito não pode escrever! O corpo-álibi se encarrega de fazer sintoma. Dessa forma, crê-se que os afetos, desde a inibição até a angústia, de fato sejam convocados e até se mostrem em sala de aula quando o sujeito é instado a produzir escrita.

A leitura e a escrita são produções culturais e os conhecimentos psicanalíticos alertam para o caráter sublimador das obras artísticas, além de seu caráter de testemunho do sujeito, mesmo que inconsciente. Há nisso uma decorrência dos conhecimentos psicanalíticos que pode servir de norte para a escola, a saber: há algo de nós no discurso do outro, e por isso os textos literários podem gerar desejo de escritura, ou desejo de desejo de escrever. Trata-se da possível transferência com a literatura, que se constitui, dessa forma, numa notável ferramenta escolar de aproximação com o idioma.

Se a produção de texto literário é fruto de sublimação e depoimento de si, a leitura também pode sê-lo. Distante de esperar que ela gere comportamentos denominados terapêuticos, pode-se almejar que atue no sujeito por uma via que não a volitiva. Em outras palavras, que através dela se dê uma tal transferência que além de encaminhar o sujeito ao simbólico, como meio de resolução de conflito, ainda o dote de tal destreza com os significantes do idioma que lhe seja possível mitigar as marcas do inconsciente que surgem como significantes embaraçosos em sua escrita e substituí-los por aqueles de convenção.

Há elementos constituintes de uma obra consagrada que atingem o sujeito por uma via não cognitiva. Mesmo que se admita que esses elementos não sejam facilmente capturáveis (porque há de singular no circuito), eles se mostram como "pegadas" no texto e é possível operar a partir deles.

HOUVE UM RITMO NO MEU SONO.
Quando acordei o perdi.
Por que saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi ?

Não sei que era o que não era.
Sei que suave me embalou,
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou.

Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar,
Mas não morreu:  dura ainda
No que me faz não pensar.

[Fernando Pessoa]

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
— Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro…

E o da criança loura?

[Fernando Pessoa. TOMAMOS A VILA DEPOIS DE UM INTENSO BOMBARDEAMENTO]

Um dos equívocos das práticas escolares com a literatura é de vetar caminhos alternativos e singulares, e o outro é pretender que a obra seja apreendida pela via cognitiva, cuja aferição fica a cargo do professor, por toda a sorte de meios. Se a forma de escutar produz efeitos na narrativa, a forma de aproximar o sujeito de uma obra produz efeito na leitura dela. O que se tem seqüestrado na leitura dentro da escola é a possibilidade de suspender certezas porque se soterra, na obra, o que há de inconciliável, dicotômico e universal e que funciona para que se instaure uma autoria da leitura. Fundando-se esta, como resultado de uma experiência compartilhada que se dá por meio de desencontro, enigma e velamento, ela orbita precisamente em torno de tudo aquilo que é desautorizado pelas práticas escolares na sua faina de a tudo higienizar.

Desde que, por constituição, uma obra está instalada inevitavelmente entre a realidade e a ficção, lembra Willemart que os fantasmas deixam na ficção, tal qual no sonho narrado "índices de sua presença como condensações, as estranhezas, os lapsos, as homofonias" (1997, p. 102). Propõe-se que alguns desses índices podem ser supostos e que são as pistas a serem relançadas fazendo enigma. A vantagem de um enigma é que ele autoriza o percurso singular dos diferentes sujeitos, até mesmo se o ponto de chegada for relativamente consensual.

Assim, trata-se de trabalhar com a literatura evitando solicitar interpretações de texto que busquem capturar intenções do autor ou da obra através de questões pouco significativas. Os enigmas centram-se na literalidade do texto, promovem retorno a ele para que o aluno ultrapasse o nível parafrástico de leitura e se engaje numa leitura-autoria, cuja fruição permita a captura de conhecimentos que trafeguem por via diferente daquela cognitiva.

Crê-se que a inibição para escritura, e os sintomas decorrentes dessa dificuldade, não podem ser atribuídos a déficit de aprendizagem no percurso escolar. Propõe-se que fatores subjetivos são desencadeados por possibilidades de desvelamento do sujeito do inconsciente através da formalização de representações que ocorrem na escrita. Entretanto, a aproximação com a literatura, de valor, pode dotar os alunos de destreza com os significantes do idioma para, com eles, camuflar aqueles que fazem efeito de inibição.

Nos recintos escolares é sempre na trilha de atribuir a dificuldade de produção textual dos alunos a algum déficit com idioma que viceja a preleção recorrente que afirma: quem lê muito, escreve melhor! Questiona-se se é possível fazer uma amarra tão decisiva entre os dois eventos; parece temerário! Entretanto, se não é possível afirmar que a leitura freqüente garanta a desenvoltura da escrita é razoável dizer que dentre aqueles que escrevem com fluência, encontraremos muitos leitores assíduos.

Os professores revelam surpresa, quando não indignação, pelo fato de os alunos não serem seduzidos pelas obras que lhe são caras ou simplesmente quando estes não mostram desejo de ler. Admitindo-se que ao menos parte dos professores são efetivamente animados pelo desejo de ler e levando-se em conta que Freud afirma que o aluno é atingido pelo inconsciente do professor, questiona-se o que houve com o desejo do professor que deveria gerar desejo de desejo no aluno.

Não há espaço para o inconsciente do professor. Sua subjetividade é esmagada por métodos uniformizantes que são produtos de consumo de validade cada vez menor e que pelo apagamento do subjetivo que pregam, suprimem, de reboque, a possibilidade de franquear criação. Sentindo-se dessa forma desabilitado, não é de estranhar que o professor se renda e opte por colocar em prática técnicas homogeneizantes, nas quais o singular é proscrito.

Ora, se é preciso resgatar a permissão para que o subjetivo seja levado em conta, quem consente isso ao professor?

Só um professor que autoriza seu subjetivo, pode suportá-lo (nos dois sentidos) no seu aluno. Nesse ponto acredita-se que não seja algo muito diverso do que precisa acontecer para que se dê um analista. Disse Lacan1 "um analista não se autoriza senão por si mesmo e por alguns outros".

Ter ciência dos fundamentos da psicanálise basta para autorizar-se? Não! Sem passar pela situação de análise, a teoria permanece apenas um conhecimento que, por si só, não impede que o sujeito veja o outro através de sua imagem e semelhança e que o ouça através de seus próprios significantes. Entretanto, os postulados psicanalíticos podem servir de fiadores para que o professor autorize suas dúvidas nos fazeres pedagógicos que ignoram o subjetivo.

Essa é uma primeira e importante contribuição da psicanálise para educação, a saber, abrir possibilidade de dúvidas nas certezas sustentadas pelas ciências pedagógicas vigentes. Se, autorizado pela dúvida, o professor puder olhar para dificuldade de seu aluno retirando dela a pecha de déficit lingüístico, ou seja, descolando-se deste significante de carência, pode encarar de forma menos persecutória a inibição do aluno para escrever e fazer um uso, que se julga mais efetivo, dos instrumentos culturais disponíveis para os fazeres escolares.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BLANCHOT, M. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

FREUD, S. Obras Completas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HARARI R. Seminário a Angústia de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Ofícios Editora, 1997.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

_________ Seminário livro 5, As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

_________ Seminário livro 7, A Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

_________ Seminário livro 8, A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

_________ Seminário livro 10, A angústia. Publicação não comercial Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2002.

_________ Seminário livro 11, Quatro conceitos fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

__________ Seminário livro 20, Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985

__________ Seminário livro 17, O avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

__________ Seminário livro 21, Nomes do pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

LAJONQUIÈRE, L. Dos "erros" e em especial daquele de renunciar à educação.In: Estilos da clínica: revista sobre a infância com problemas. Ano II número 2, 2º semestre. São Paulo: USP, 1997.

WILLEMART, P. A pequena letra em teoria literária: a literatura subvertendo as teorias de Lacan e Saussure. São Paulo: Annablume, 1997.

1 Lacan, J. Os nomes do Pai.(2005) Classe de 09/04/74.

 

REFERÊNCIA: SARTORE, Anna Rita. Escrita e angústia. In: Anais do 6 Colóquio do LEPSI – Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas e Educacionais sobre a Infância: Psicanálise, educação e transmissão. São Paulo: USP, 2006.

Freud por Freud: aprendendo a “ver” o inconsciente através da linguagem

outubro 15, 2010 às 18:15 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Clique AQUI para acessar Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, um dos primeiros livros de Sigmund Freud a alcançar grande repercussão tanto entre especialistas quanto leigos, obra que contribuiu muito para a divulgação dos fundamentos da psicanálise. É importante notar como a linguagem verbal apresenta-se para Freud, desde o início de suas pesquisas, como  a via de acesso mais eficaz para os mistérios do inconsciente humano e para a compreensão dos descentramentos que configuram nossas personalidades.

Para os que já se sentem muito curiosos com a psicanálise, por que não começar logo a ler a obra completa de Freud?

Pessoa: uma poética do vazio & da ausência

novembro 15, 2009 às 18:00 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A propósito das relações entre linguagem, subjetividade e literatura, discute Leyla Perrone-Moisés:

Na poesia, como mostra Jákobson, “não só a própria mensagem, mas igualmente seu destinatário e seu remetente se tornam ambíguos. Além do autor e do leitor, existe o ‘Eu’ do herói lírico ou do narrador fictício e o ‘tu’ ou ‘vós’ do suposto destinatário (…) Qualquer mensagem poética é, virtualmente, como que um discurso citado, com todos os problemas peculiares e intricados que o ‘discurso dentro do discurso’ oferece ao linguista” (in: Linguística e comunicação).

A experiência de Pessoa, nesse campo, é uma das mais agudas e constantes de que se tem notícia. Sua poesia toda tematiza esse saber de linguagem: a linguagem como ausência da coisa e, sobretudo, como ausência do Eu, que não tem nem mesmo um referente estável.

 

Aprofundando a discussão da professora Leyla, podemos propor que a escrita poética de Fernando Pessoa produziu aquilo que Jacques Lacan denominou de “alíngua”, categoria proposta para descrever o “abismo entre o inconsciente e o consciente”, nas palavras do blogueiro Marcos Vinícius. Leia mais sobre esse assunto na postagem A alíngua: ligação entre o consciente e o inconsciente, pendurada no blogue SOCIEDADE E LÍNGUA.

Também vale a pena procurar no Arquivo Pessoa por poemas que possam exemplificar, de maneira mais nítida, essa tematização da ausência a que se refere Perrone-Moisés, tal como este trecho do Fausto – Tragédia subjetiva, uma das primeiras obras de Fernando Pessoa.

pessoa M2

vazio moderno, depressão, carnaval & engajamento

novembro 2, 2009 às 13:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Segue abaixo um excelente texto midiático para estimular uma reflexão acerca dos efeitos extra-literários e contemporâneos daquela condição simultânea de multiplicação e esvaziamento que, para Leyla Perrone-Moisés, configurou a produção poética de Fernando Pessoa. Aliás, conforme o próprio poeta diagnosticou acerca dos indivíduos de seu (nosso) tempo:

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.
Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.
Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.
Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.

[In: PESSOA, Fernando. Aforismos e afins. Edição e prefácio Richard Zenith. Tradução Manuela Rocha. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.12.]

 

Maria Rita Kehl: “O vazio é nossa condição básica”

Tatiana Mendonça, 26 de outubro de 2009, Revista Muito, ATARDE online

A aceleração da vida cotidiana, que dispensa devaneios, pausas, reflexões e ineficiências – e nos faz crer que nunca estamos aproveitando o tempo como deveríamos –, torna nossa experiência mais pobre e contribui para fazer da depressão o principal sintoma social da atualidade. É nisso que acredita a doutora em psicanálise Maria Rita Kehl, 57, que lançou este ano o livro O tempo e o cão – a atualidade das depressões. No último dia 16, ela esteve em Salvador participando do ciclo de debates Fronteiras Braskem do Pensamento e falou à Muito sobre a doença.

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Li que a senhora não acompanhava pacientes depressivos, preferia encaminhá-los para outros analistas. O que a fez mudar de ideia? Logo no começo da minha clínica, atendi duas pessoas que se suicidaram com pouquíssimo tempo de análise. Isso para o analista é arrasador, de certa forma me senti responsável. Então achei que precisava aprender mais. Depois, me dei conta de que essas pessoas nem eram deprimidas, mas ainda assim, durante muito tempo, não atendi depressivos… Mas aí aconteciam casos de pessoas que, ao longo da análise, ficavam deprimidas e eu, com o amadurecimento, fui aprendendo a lidar. Fiquei muito interessada em saber o que elas tinham a dizer.

O que leva a senhora a afirmar que a depressão é o “principal sintoma social do nosso tempo”? Primeiro, sintoma social é algo que desafia as condições da vida de determinada época. A histeria das mulheres foi o sintoma social do século 19, por desafiar tudo que se pretendia da mulher no momento em que se formava a chamada família burguesa, em que a mulher era o centro do lar, e o homem, o empreendedor. Hoje é a depressão que desafia a norma contemporânea da euforia, da festa, que recusa os convites para fazer o tempo render na forma de felicidade, alegria, gozo. A outra razão é que a depressão cresce de forma epidêmica. Segundo dados da OMS, será a doença mais comum do mundo em 2030. E isso acontece de certa forma na contramão, já que hoje somos mais livres sexual e moralmente; cada um pode de alguma maneira escolher seu destino; há grandes conquistas da saúde, se pode viver mais e melhor até bem mais tarde.

Mas esse crescimento em certa medida não vem de muita gente dizer, por qualquer coisa, que está deprimida? Você tem toda razão. Justamente porque a regra social é que as pessoas sejam felizes, elas não sabem o que fazer com as tristezas normais da vida, principalmente o adolescente. Quando ele se deprime, se sente o último dos seres humanos, não têm coragem nem de buscar apoio nos amigos. Um colega psicanalista, orientador de um grande colégio em São Paulo, me contou que em um ano atendeu 40 adolescentes que tinham diversas razões para estar meio tristes. E ele perguntou a todos: ‘Você já conversou com algum amigo sobre isso?‘. Dos 40, só um tinha conversado. Ou seja, essa rede de apoio não funciona na hora da tristeza. Aí os caras vão para os remédios. Para divulgar o antidepressivo, a indústria farmacêutica divulga também a doença, e aí coloca lá nos folhetinhos: ’Você pode estar deprimido, mas depressão tem cura. Veja aqui os sintomas’. Aí a pessoa já chega dizendo para o médico que está deprimida, e o médico, até por precaução, vai lá e dá o remédio, o que enviesa as estatísticas. É muito raro um psiquiatra com tempo para ouvir e saber o que está acontecendo de verdade com o paciente.

Se a depressão é uma “recusa à festa“, uma súplica de que exista um “tempo de compreensão“ que a correria da vida nos roubou, há algum valor na doença? A depressão tem uma via de conhecimento do psiquismo que o próprio depressivo ignora. Talvez o trabalho de análise consista em fazer com que ele tire benefícios disso. Outro valor é que o depressivo é menos seduzido pela publicidade, pelo consumismo. Ele não está tão encantado por essa ideia de que a vida é um caminho de acumular grana, objetos, acha tudo isso um pouco chato… E o depressivo também conhece mais o vazio, que pode ser uma condição muito interessante do trabalho psíquico. Se ele fica só com o vazio, é terrível, mas se ele suporta o vazio, pode vir a construir outra via, talvez mais verdadeira. Na palestra, eu brinquei: vou dar uma má notícia, a vida não tem sentido. E é isso, a gente é que dá sentido à vida. O vazio é nossa condição básica. A gente não sabe de nada. A única coisa que a gente tem ao nascer é uma certa garantia de que as pessoas que nos conceberam nos amam. E olhe lá… Às vezes elas não nos amam, nos conceberam por acaso, são confusas… Em cima do vazio é que a gente acrescenta muita coisa. Então o depressivo pode fazer um percurso menos iludido, menos alienado de si mesmo.

O que não quer dizer que ele não deva ser tratado, claro. Sim, evidente, a análise é fundamental. Tem gente que passa a vida inteira dentro de um quarto, é horrível. Pode até se medicar, não vai pular pela janela, mas se acostuma a passar a vida meio em branco. E a vida é uma só.

Como relacionar a depressão à obrigação de ser feliz, especialmente numa cidade vendida como a “terra da felicidade“? Não sei dizer se Salvador tem mais gente deprimida que outros lugares, mas é evidente que o pior lugar para você estar deprimido é numa cidade onde não há muito espaço de recolhimento. É numa cidade que te convida para fora. Não estou fazendo uma crítica, essa é uma característica importantíssima de Salvador. Um deprimido num lugar triste pode ficar mais sombrio, mas ele não se sente tão esquisito. Aqui ou no Rio de Janeiro, o cara se sente muito inadequado. Por outro lado, numa cidade onde o turismo é uma fonte de renda importante, acontece que os próprios habitantes começam a desempenhar o papel que os turistas esperam dele. Então, às vezes, me parece que se começa a perder certa autenticidade. Vi Ó Paí, ó e achei que parecia uma propaganda da Bahiatursa, todo mundo se comportando como um clichê. E, no fim, a coisa não é assim, aparece tudo que isso mascara… Então isso é complicado não só para os depressivos, mas para os introspectivos, os “intelectuais“. Passei um Carnaval aqui com uns amigos e adorei. Não o trio elétrico. O trio elétrico é um congestionamento de caminhão com luta de classes dentro, um horror. O roteiro afro que achei lindo. Mas alguns amigos vão embora no Carnaval porque dizem que fica insuportável… As cidades de grande apelo turístico talvez estejam levando a sério demais o clichê e não deem muito lugar à diferença.

Não quero participar do coro dos contentes, mas a alegria também não é uma característica nossa? Sim. Meu companheiro mora em Paris, todo ano vou visitá-lo, e você vê o contraste. O tom é mais triste mesmo. Eles dizem: ’Ah, você é brasileira, por isso que você é sorridente’. Não vou fazer sociologia e explicar por que isso acontece, mas somos uma sociedade mais alegre, mesmo tendo de conviver com miséria, injustiça, desigualdade, exclusão aberrante. Talvez seja uma sociedade que não está inteira tomada pela competitividade capitalista. As pessoas ainda se encontram para jogar conversa fora, para tocar uma música. Foi boa essa pergunta para diferenciar uma alegria que caracteriza nossa sociedade dessa euforia do mundo capitalista. A disponibilidade das pessoas para o mercado depende de elas acreditarem que cada objeto a mais que comprarem lhes dará mais euforia.

A senhora critica o uso indiscriminado de antidepressivos, mas eles são realmente dispensáveis no tratamento? Deixo isso a critério de um psiquiatra em quem confie. Quando uma pessoa começa a faltar à análise e liga dizendo que não consegue sair da cama, digo que ela deve ir ao psiquiatra. Não sou xiita. Não há entre os psicanalistas uma ideia de que o medicamento vá atrapalhar o trabalho. Mas muita gente vai ao psiquiatra e o ouve dizer que análise é uma bobagem, que o remédio é suficiente. E não é. Recebo pacientes que dizem: ’Me medico há 10 anos e não sinto tristeza, mas também não sinto mais nada’. Eles procuram análise sabendo que vão ter de passar por uns buracos de novo… E agora já há pesquisas dos próprios laboratórios que mostram que o antidepressivo depois de algum tempo perde a eficácia. No começo, ele faz uma diferença grande. Você fala: ’Nossa, não estou mais sentindo aquela vontade de morrer’. Mas se o tratamento for só esse, e não elaborar o que causou a depressão, tem pouca eficácia.

Os sintomas expostos nos tais folhetos são bem abrangentes, todo mundo pode se identificar com alguns deles. Como saber que uma pessoa está realmente deprimida e deve procurar ajuda? No geral, quem sofre sabe. Os folhetos não são para a pessoa procurar ajuda, mas para dizer que ela precisa ser medicada… Além do meu trabalho no consultório, atendo pessoas da Escola Nacional de Formação de Lideranças do MST. Como elas têm renda muito baixa, é muito comum encontrar pessoas que estão se medicando há anos, por conta de uma orientação apressada do médico. Estive num assentamento e fiquei hospedada na casa de uma senhora. Ela tinha pouco mais de 60 anos e me contou que tomava antidepressivo desde os 28 anos, quando a filha dela nasceu. Ela ficou “deprimida“, foi procurar remédio e a partir daí nunca mais saiu disso.

Hoje as crianças ricas e de classe média têm agendas cheias. É alarmista dizer que assim os pais estão criando sujeitos mais propensos à depressão?É alarmista se você disser que todas as crianças vão ser depressivas. O que tem aí, antes de mais nada, é que as pessoas estão muito confusas sobre o que é ser um bom pai e uma boa mãe. E isso tem a ver com a influência da publicidade, que nos faz crer que o melhor que você pode fazer para o seu filho é lhe dar muitas coisas, inclusive lhe dedicar todo seu tempo livre. No fim de semana, os pais acham que têm de promover muita diversão, e na segunda estão exaustos! A isso se acrescenta a ideia de que desde cedo você tem de preparar seu filho para o mercado de trabalho. Então é aula disso, curso daquilo… Vai se criando uma infância em que a criança não tem a experiência fundamental de estar entregue a si mesma, tendo que inventar como preencher seu tempo. Elas não conhecem o vazio, no bom sentido do vazio, que é quando a criança começa a “inventar arte“, como diziam os mais velhos. Isso é a fonte da vitalidade infantil, da criatividade, da imaginação, é algo que vale para o resto da vida. Saber que eu posso criar algo sobre o vazio é a potência humana. A sensação de que eu não posso criar nada sobre o vazio, de que preciso de alguém para preenchê-lo para mim, é o começo de uma situação depressiva. Então o bom pai e a boa mãe são pessoas que amparam, amam e educam seus filhos, impõem limites. E aí digo como mãe: uma das coisas mais difíceis é saber que tem horas que seu filho vai te odiar, vai dizer ’eu sou infeliz por sua causa’, e ainda assim você vai ter de bancar um limite que achou importante, para que a criança saiba que seus atos têm consequências.

A senhora defende que o sentimento de pertencimento a determinada ação política, comunidade, tradição, nos livra de um sofrimento maior e nos ajuda a dar sentido à vida. Essa reflexão foi motivada pela sua aproximação com o MST? Não, talvez meu trabalho no MST seja consequência disso. Não é por bondade ou heroísmo, mas saber a que mundo você pertence, que ideais compartilha com a sua geração, nos dá sentido, nos ajuda a seguir em frente. Pertenço a uma geração que teve 20 anos da vida marcados pela ditadura, com o lado negro e o lado interessante disso, que foi a união dos movimentos de esquerda, o interesse pela vida pública. Tudo isso faz parte da minha experiência. Não devemos ficar presos ao passado, mas vejo com preocupação a pressa que os brasileiros tiveram em apagar essa memória. Isso nos impede de reconhecer coisas que ainda não foram sanadas. O Brasil é o único país da América Latina em que a violência policial cresceu após o fim da ditadura. Nossa polícia ainda tortura e assassina.

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teorias da pessoa em Pessoa

novembro 1, 2009 às 8:35 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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leyla_perrone_ortografia pessoa2w

Na maioria das redações foi expresso o desejo de que o    curso da LitPort3 finalizasse com um aprofundamento dos  estudos pessoanos procurando contemplar dois tópicos: as  teorias da subjetividade que se relacionam com a poesia  desse poeta português e a questão da heteronímia. Para  atingir esses objetivos e agregarmos conteúdos tendo em  vista a segunda avaliação, vamos nos dedicar à leitura & discussão de O Vácuo-Pessoa, um competente ensaio de Leyla Perrone-Moisés (ao lado) no qual se propõe uma perspectiva interpretativa para a obra pessoana baseada nas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Para baixar uma cópia PDF desse texto, clique AQUI (numa conexão de banda-larga, o download levará cerca de 10 minutos). Também há cópia impressa disponível na xerox do campus.

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