por uma sociedade transindividual

junho 11, 2011 às 9:00 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Por uma sociedade convivial. Entrevista com Alain Caillé

Estamos em plena descivilização. E fica cada vez mais forte para muitos homens e mulheres do planeta a tentação de um retorno ao estado natural, isto é, a uma condição barbárica em que todos estão em guerra contra todos.

A reportagem é de Marino Niola, publicada no jornal La Repubblica, 09-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A afirmação é do célebre sociólogo francês Alain Caillé (foto), autor do Manifesto do convivialismo e fundador, junto com Serge Latouche e Jacques Godbout, do Mauss, o Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais, inspirado no antropólogo Marcel Mauss, o autor do Ensaio sobre o dom, um texto que mudou a história das ciências humanas. E que deu aos três paladinos da economia gentil e do decrescimento o feliz apelido de os três mauss-queteiros.

Eis a entrevista.

Para o senhor, o problema de hoje é como reescrever o contrato social. Não mais em escala nacional, mas sim global.

É a questão fundamental. Depois dos totalitarismos do século XX, o que tornou popular a democracia foi o bem-estar generalizado permitido por um crescimento econômico impetuoso.

Como se a democracia tivesse fidelizado os cidadãos com a promessa da riqueza para todos.

Todas as grandes ideologias políticas, do liberalismo ao socialismo, se basearam em um pressuposto utilitarista, isto é, sobre a ideia de que a condição necessária para a paz social é um nível de vida suficiente para todos. O problema é que, no Ocidente e no Japão, o crescimento se deteve. O crescimento que existe é só nominal. Financeiro e imobiliário. Mas, para os trabalhadores e para a classe média, há 30 anos, o padrão de vida não aumentou. Ao contrário. E, para seus filhos, o horizonte é obscuro.

Em compensação, a Índia e a China têm taxas de crescimento vertiginosos. O futuro está lá?

O grande risco para esses países é que o seu crescimento também se detenha antes que a maioria da população tenha atingido um nível suficiente de vida e de liberdades democráticas. Sem falar dos custos ecológicos, sociais, da insuficiência de matérias-primas, dos riscos nucleares. Muitas hipotecas sobre uma perspectiva de desenvolvimento infinito.

Qual a saída?

A questão é se podemos fundamentar a democracia sobre algo estável e duradouro que não seja simplesmente o crescimento econômico. Mas sim um "estado econômico estacionário". Em equilíbrio.

Em outras palavras, o senhor propõe que se repensem os fundamentos simbólicos da democracia.

Sobretudo os econômicos. No fundo, a modernidade nasceu da ideia do contrato social, um conceito tirado diretamente da economia. A vida em sociedade tem a função de proteger os interesses individuais. Até a Declaração dos Direitos Humanos tem exatamente esses fundamentos. Devemos respeitar uns aos outros para criar uma esfera privada, em que cada um possa realizar sua própria renda.

O senhor quer dizer que a globalização corre o risco de dispensar essa ideia de democracia, fazendo-a implodir?

Certamente. É por isso que é preciso inventar uma democracia, digamos assim, antiutilitarista, desejável por si só, não por razões instrumentais, mas sim porque é a sociedade boa que permite uma vida boa. Eu chamo isso de Convivialismo. E o considero uma ideologia política totalmente a ser inventada, sobre as cinzas do socialismo e do liberalismo.

Em uma perspectiva convivialista na base da sociedade, estão o dom e o bem comum, não mais o interesse privado e o enriquecimento a qualquer custo. Não é uma utopia?

O dom está na própria origem do laço social, é o gesto primário que faz com que o indivíduo saia de si mesmo e o liga aos outros. E este momento fundador é incondicional, gratuito. Não por acaso todas as religiões nasçam de um dom feito ao deus. E que o deus retribui.

Na Itália, há os referendos sobre a água e a energia nuclear. Como o senhor votaria?

A água deve continuar sendo um bem comum, por isso eu votaria "sim". Sobre a energia nuclear, tempos atrás, eu era agnóstico, mas agora, assim como a maioria dos franceses, sou antinuclearista. Salientaria também o fato de que esses referendos oferecem a todos os cidadãos a oportunidade de se expressarem em primeira pessoa sobre temas tão vitais e é o sinal de que, quanto à democracia difundida, a Itália está mais à frente de outros países europeus. A questão dos bens comuns é o teste decisivo do estado de saúde de uma democracia. Onde não há outra lei para além da do mercado, não há lugar para os bens comuns, para aqueles bens compartilhados que pertencem à humanidade. Não podemos nos esquecer de que organizações como a ONU e a Unesco estavam todas baseadas na ideia de que o progresso passa através do acesso livre gratuito aos bens comuns.

O neoliberalismo faz passar as suas receitas econômico-sociais por necessidades objetivas – economia, racionalização, conveniência, concorrência.

A ideia neoliberal de que a força motriz essencial do ser humano é só a de maximizar prazeres, conforto e propriedades, em uma palavra utilidade, é pura ideologia, contrariada pelos fatos. O Homo não é só oeconomicus, e as relações entre indivíduos não são só mercantis.

A prova disso é a difusão sempre maior de comportamentos sem o objetivo do lucro. Dom, voluntariado, captação de fundos, organizações sem fins lucrativos, pessoas que dão seu tempo aos outros, além de dinheiro, solidariedade e até os seus próprios órgãos e o seu próprio sangue.

Hoje, uma das reações às desigualdades econômicas é justamente a das trocas gratuitas e dos serviços públicos. Mas só a construção de uma nova ética pode tornar possível a sociedade do Convivialismo. Uma paixão quase religiosa, um impulso das consciências como os que estavam por trás do nascimento do liberalismo ou do socialismo. Sem sonhos coletivos e grandes ideais, o novo não avança.

FONTE: IHU Online

prova de litport3: exercício

dezembro 2, 2010 às 14:48 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Selecione DOIS dentre os poemas listados abaixos e comente cada um deles (mínimo de 10 linhas), considerando a pertinência das proposições feitas a seguir às transcrições e discutindo elementos textuais ou teóricos que confirmem, ou não, as interpretações sugeridas.

 

1.      APOSTILA  [Álvaro de Campos]

Aproveitar o tempo! 
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? 
Aproveitar o tempo! 
Nenhum dia sem linha… 
O trabalho honesto e superior… 
O trabalho à Virgílio, à Milton… 
Mas é tão difícil ser honesto ou superior! 
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo! 
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos - 
Para com eles juntar os cubos ajustados 
Que fazem gravuras certas na história 
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)… 
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, 
E os pensamentos em dominó, igual contra igual, 
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos - 
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um acto indefinido nem factício…

Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…

Aproveitar o tempo! 
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. 
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. 
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. 
Aproveitar o tempo! 
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. 
Aproveitei-os ou não? 
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo 
No comboio suburbano, 
Chegaste a interessar-te por mim? 
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? 
Qual foi a vida que houve nisto?

Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo! 
Ah, deixem-me não aproveitar nada! 
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!… 
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, 
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
O pião do garoto, que vai a parar, 

E estremece, no mesmo movimento que o da terra, 
E oscila, no mesmo movimento que o da alma, 
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

a)    Observa-se neste poema uma crítica à racionalidade moderna, focalizando especialmente a ideia de que a dedicação intensiva ao trabalho e à produção são capazes de conduzir os sujeitos a um grau superior de realização e de auto-conhecimento. Para o eu-lírico, a fé religiosa é o melhor caminho para garantir essa realização.

 b)    Apesar da insistência anafórica em se pautar pelos ritmos da modernidade (“Aproveitar o tempo!”), o trabalho introspectivo feito pelo eu-lírico também aponta caminhos alternativos para a satisfação de suas carências, dentre os quais podemos destacar:

 i)              a reconstrução de sua subjetividade através da linguagem literária, processo que denomina de “verbalismo”;

ii)             a reconstrução de sua humanidade através de um eventual relacionamento amoroso, tal como é sugerido na quinta estrofe;

iii)            a recuperação de autenticidade existencial através de um retorno simbólico à visão-de-mundo infantil, tal como é sugerido na última estrofe.

 

2.      GLOSAS  [Fernando Pessoa]

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.

O vento vão, que as folhas vãs enroda,

Figura o nosso esforço e o nosso estado.

O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita

A possibilidade erma e infinita

De onde o real emerge inutilmente,

E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.

Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo

Suposto, o Fado que chamamos Deus

Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.

Uma coisa é uma cara contraída

E a outra uma água com um leve sal.

E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,

E, renovando o curso, nasce e morre

Nos horizontes do que contemplamos.

Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,

Jazemos o instinto e a ciência.

E o sol parado nunca percorreu

Os doze signos que não há no céu.

a)    Predomina neste poema uma concepção anti-humanista do sujeito, perante a qual a noção de autonomia pessoal que caracteriza o sujeito iluminista é tomada como uma ilusão.

 b)    Para o eu-lírico, o “Fado” que governa a vida dos indivíduos está em conflito constante com impulsos oriundos do inconsciente psíquico, impulsos que fazem aflorar o lado maléfico das pessoas.

  

 3.      NÃO MEU, NÃO MEU É QUANTO ESCREVO. 

A quem o devo?

De quem sou o arauto nado?

Por que, enganado,

Julguei ser meu o que era meu?

Que outro mo deu?

Mas, seja como for, se a sorte

For eu ser morte

De uma outra vida que em mim vive,

Eu, o que estive

Em ilusão toda esta vida

Aparecida,

Sou grato Ao que do pó que sou

Me levantou.

(E me fez nuvem um momento

De pensamento.)

(Ao de quem sou, erguido pó,

Símbolo só.)

 [Fernando Pessoa]

 a)    O conjunto de negativas e de interrogações que iniciam este poema propõem um questionamento agudo da racionalidade cartesiana pressuposta nas concepções clássicas do sujeito, colocando em foco uma perspectiva niilista sobre a existência humana.

 b)    Neste poema a imagem cristã da criação do homem é retomada sob uma perspectiva que põe em destaque a concepção do “eu” como uma entidade essencialmente discursiva.   

a estranha felicidade moderna

novembro 21, 2010 às 23:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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bussola

Mais um boa entrevista que se embasa na teoria lacaniana, especialmente nos conceitos de “simbólico” e de “gozo”, para desenvolver questões cruciais relacionadas à desorientação dos sujeitos modernos.

 

“A bússola do sujeito muda seu norte”

Homo automaticus. Novos enlaces entre gozo e saber é o tema que inspirou a entrevista a seguir, concedida por e-mail pelo psicanalista Alfredo Jerusalinsky à IHU On-Line, adiantando aspectos do ninicurso que irá ministrar em 23-05-2007 no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? Para Jerusalinsky, se até pouco tempo “o sujeito se orientava na procura de um outro para decidir seu destino face àquilo que a sociedade demandava dele, hoje – na pós-modernidade – ele anda na incessante procura de um objeto que venha lhe garantir um gozo da máxima intensidade”. Dito de outro modo, explica ele, “se o problema central de todo sujeito antes era como se representar no discurso social, hoje sua bússola sofreu a torção para o encontro com a satisfação de suas demandas corporais”.

Por: IHU Online

Jerusalinsky é psicanalista, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutor em Educação e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). Além disso, é membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e da Association Lacaniènne Internationale. Nas Notícias Diárias do sítio do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), www.unisinos.br/ihu, Jerusalinsky concedeu a entrevista Borat, Babel e A Rainha e suas relações, analisando esses três filmes, bem como Pequena Miss Sunshine. De sua vasta bibliografia, destacamos: La formación del psicoanalista (Editora Nueva Visión: Buenos Aires, 1989); Psicanálise e desenvolvimento Infantil (2ª ed. Artes e Ofícios: Porto Alegre, 1998); Para entender al Niño, Claves psicoanalíticas (Ediciones ABYA-YALA: Quito, 2003) e Quem fala na língua? Sobre as psicopatologias da fala (Editora Ágalma: Bahia, 2004).

IHU On-Line – Em entrevista concedida ao nosso site em 09-03-2007, o senhor fala que a queda de crenças como “a união faz a força, a liberdade de um acaba onde começa a do outro, a felicidade está no amor (que necessariamente passa pelo outro)” nos deixa desorientados. Como esse desencantamento se relaciona com a autonomia do sujeito na pós-modernidade?
Alfredo Jerusalinsky –
A bússola do sujeito muda seu norte. Se até pouco tempo ele se orientava na procura de um outro para decidir seu destino face àquilo que a sociedade demandava dele, hoje – na pós-modernidade – ele anda na incessante procura de um objeto que venha lhe garantir um gozo da máxima intensidade. Dito de outro modo, se o problema central de todo sujeito antes era como se representar no discurso social, hoje sua bússola sofreu a torção para o encontro com a satisfação de suas demandas corporais. A demanda social passou para um segundo lugar. De tal modo – no que se refere à autonomia – que ele mesmo perfaz seu próprio nome sem que o nome recebido do Outro tenha maior valor.

Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
— Os quatro ventos do místico ar da civilização
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – Como o senhor define o homo automaticus? Quais são os pontos de aproximação e as diferenças com o homo sapiens?
Alfredo Jerusalinsky –
Se situarmos o homo sapiens como aquele primata que deu esse passo fundamental para o domínio da linguagem, recalcando suas pulsões a serviço de uma aliança fraterna ordenada por um saber simbólico sobre o gozo, teremos que nos perguntar quais serão os efeitos da perda de consistência desse gozo simbólico quando se coloca no trono um gozo real. Quando o gozo se situa na ordem simbólica, isso significa que não é necessário experimentar para saber: a linguagem nos assegura um saber que, na medida em que ele provém de uma memória da espécie armazenada nos signos lingüísticos (memória que costumamos designar como “cultura”), poupa a cada um de passar pela experiência. Até as crianças mais pequenas sabem disso: quando a mãe lhes oferece uma comida nova, elas podem responder que não gostam, apesar de nunca tê-la experimentado. A ordem simbólica ancorada na linguagem nos permite deduzir o lugar e o valor das coisas e dos outros sem nunca tê-los visto ou tocado. É assim que podemos saber que algo falta, sem termos registro de que é. Tais são as razões desse “homo” para merecer no nome de “sapiens”.

Quando se dá prevalência ao corpo como coisa a ser satisfeita – ou também como coisa a ser privada de satisfação –, são seus automatismos que passam a ocupar o centro da cena. Seja pela prevalência de um prazer absoluto, seja pelo martírio da privação, o corpo se torna protagonista e, então, seus automatismos passam a comandar a vida do sujeito. Este se torna escravo, paradoxalmente, dos artifícios que inventa (sejam científicos ou religiosos) para se desembaraçar da responsabilidade sobre seu destino. Na medida em que o saber já não está mais no sujeito, mas no artifício automático que ele mesmo criou (trate-se de suas descobertas neuroquímicas, da informática, dos artefatos eróticos ou dos sistemas dogmáticos de crenças ou cosmogonias), ele passa a merecer o nome de homo automaticus. A robótica aplicada como complemento corporal é um dos paradigmas desse conceito que acabo de propor, e, como é bem sabido, ela nos apresenta uma série interminável de problemas éticos.

IHU On-Line – E quais seriam os possíveis enlaces entre gozo e saber nesse homo automaticus?
Alfredo Jerusalinsky –
Como acabo de afirmar, nesse homo automaticus, o que parece destinado a tomar o comando das coisas hoje em dia, o saber consiste numa repetição fechada que assegure um gozo real. Se é esse gozo que se procura, nada melhor, então, que reduzir tudo a uma engenhoca ou a um dogma, ambos garantindo uma repetição sempre igual e automática. Deve-se notar que, ultimamente, há importantes tentativas de reconciliação entre a religião e a ciência. Tentativas que se fundamentam nesse acordo estratégico de elevar os automatismos ao lugar de comando (embora os automatismos propostos não sejam da mesma natureza). Pelo seu lado, o fundamentalismo aposta seu saber na repetição automática das escrituras sacralizadas pelo homo sapiens. Ocorre que este último vivia com tantas dúvidas que precisou colocar em algum lugar a esperança de alguma verdade indiscutível. Se a religião, pelo seu lado, o fez nas sagradas escrituras, Descartes  a situou no pensamento: “cogito ergo sum”, o que, paradoxalmente, cancelou sua “dúvida sistemática”.

Na medida em que o paradigma cartesiano colocou como núcleo do pensamento moderno o suposto de que todo saber é transformável em conhecimento (o que quer dizer, dotado de parâmetros que permitem materializá-lo calculá-lo), os saberes se transformaram em pequenas certezas. Habitamos num mar delas, tão pequenas que não alcançam para nos dar certeza de nada. Por isso, passamos a gozar de uma ilusão vasta e generalizada de saber o que, em verdade, ignoramos.

GLOSAS

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.
O vento vão, que as folhas vãs enroda,
Figura o nosso esforço e o nosso estado.
O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita
A possibilidade erma e infinita
De onde o real emerge inutilmente,
E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.
Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo
Suposto, o Fado que chamamos Deus
Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.
Uma coisa é uma cara contraída
E a outra uma água com um leve sal.
E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,
E, renovando o curso, nasce e morre
Nos horizontes do que contemplamos.
Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,
Jazemos o instinto e a ciência.
E o sol parado nunca percorreu
Os doze signos que não há no céu.

[Fernando Pessoa]

IHU On-Line – Se progresso é um sinônimo para felicidade, podemos dizer que o saber virou sinônimo de gozo? Por quê?
Alfredo Jerusalinsky –
Um momento! Eu não disse que progresso seja realmente um sinônimo para a felicidade. Eu referi que essa é uma crença própria da modernidade. Mutatis mutandis, hoje tal crença se deslocou para a suposição de que o gozo seja sinônimo de felicidade. É difícil saber por que aconteceu tal coisa. Podemos formular algumas hipóteses: a ciência evoluiu de tal modo na modernidade que facilitou a crença de que os aproveitamentos tecnológicos de suas descobertas poderiam assegurar aos humanos que nada lhes faltaria. Outra hipótese na mesma trilha: a confiança cega na razão como fonte exclusiva de verdade levou a um reducionismo logicista (em termos euclidianos) do pensamento, o que teve como conseqüência uma ilusão de domínio total do mundo em que vivemos. Talvez se trate simplesmente de um retorno do corpo mesmo ao centro da cena, depois de ter sofrido séculos de recalque e repressão.

IHU On-Line – Quais são as principais conseqüências da hiperacionalização realizada em diversas instâncias da vida pós-moderna e de que modo o gozo e o saber estão imbricados nesse otimismo teórico ilimitado tão característico de nossos dias?
Alfredo Jerusalinsky –
Que a razão conduz à felicidade é uma ilusão que rapidamente se desmancha. Basta perguntar a um casal, quando estoura uma briga entre os parceiros, se lhes serve, a cada um deles, ter razão. Certamente não é por essa via que vão se reconciliar. O mesmo acontece nas mais amplas relações sociais. Quando a razão destrói os mitos em que se alicerça a consistência simbólica de uma determinada cultura, aparece aí um tipo de verdade que, por lançar ao centro da cena o real recalcado, provoca efeitos arrasadores nesse conjunto social. Rapidamente, então, se fabricam novos messianismos, para substituir, na sua função de recalque, os horrores revelados na queda das antigas crenças destituídas pelo hiper-racionalismo.

SE QUISEREM QUE EU TENHA UM MISTICISMO, ESTÁ BEM, TENHO-O.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição

[Alberto Caeiro]

IHU On-Line – Como e por que a ilusão de autonomia absoluta inclina as pessoas a uma ética individualista? Corremos o risco de nos tornarmos uma sociedade de indivíduos e pensar a autonomia apenas como um sinônimo de individualismo?
Alfredo Jerusalinsky –
Sua pergunta é interessante porque ela mesma afirma a existência desse risco. Estou de acordo. Porém, cabe assinalar pelo menos duas questões. A primeira é sobre o conceito de ética. Se colocamos a ética como “o sujeito se fazer responsável das conseqüências que seu ato tem para o outro” (citando Jacques Lacan) – definição que eu faço minha –, como poderíamos falar em ética tratando-se do individualismo? Devemos atentar aqui ao fato que o termo “individualismo” é portador de um “ismo”, o que quer dizer que cada vez que houver um conflito entre o indivíduo e o conjunto social haverá tomada de partido pelo indivíduo. Tratar-se-ia, então, de uma sociedade em permanente erosão. Eis aqui a segunda questão: colocando em jogo o princípio de o sujeito se responsabilizar pelas conseqüências do ato sobre o outro, não estaríamos garantindo o respeito do indivíduo, sem necessidade de tomar partido? Devemos reconhecer, contudo, que as paixões humanas não são tão ponderadas.

IHU On-Line – Que patologias psicológicas podem surgir dessa postura egóica assumida pelas pessoas atualmente?
Alfredo Jerusalinsky –
Novamente, você assinala um ponto importante, a saber, a dilatação do ego. Essa, precisamente, é uma das características da paranóia : tudo o que acontece em volta o sujeito imagina que está dedicado a ele. Seja como beneficiário ou prejudicado, o sujeito contemporâneo se coloca como credor de um gozo inusitado, e, ao mesmo tempo, como ameaçado pelo gozo do outro. Assim é que coloca grades pontudas ao redor de sua moradia, situa seu corpo como inimigo que deve ser controlado por medicações que eliminem suas ameaças e anseia entrar em corporações que o protejam. Esse fundo paranóide, com que o sujeito hoje em dia se sociabiliza, costuma tomar diversas formas: a hipocondria generalizada (alguém que saiba me defender das ameaças vindas do corpo), formas obsessivas (a delimitação minuciosa dos espaços), defesas histéricas (como as da ciência: “nada tenho a ver com o desejo”), a bulimia (devorar o mundo inteiro para me constituir numa totalidade na qual não falta nada), a toxicomania (como resistência a depender do outro), a anorexia (ser nada para impedir o registro de que algo falta), e uma intensa fobia do semelhante (sob formas de racismo, xenofobia, guerras santas etc.)

OPIÁRIO

                        Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

(…)

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

(leia na íntegra)

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – Nessa mesma entrevista ao nosso site, o senhor afirma que a população do planeta todo se sente hoje politicamente mal representada. Como entender essa má representação frente à autonomia do sujeito em escolher seus representantes? Por outro lado, como podemos compreender a apatia política presente em boa parte dos eleitores no mundo afora?
Alfredo Jerusalinsky –
Quando se fala em representação de um sujeito por outro, em seguida tropeçamos num problema grave: sempre haverá uma distância entre o desejo do representado e a interpretação que, desse desejo, fará o representante. Esse mal-entendido inevitável, porém, fica amortecido quando o representante, pelo fato de reconhecê-lo, consulta incessantemente o representado. A maior dificuldade surge quando o representante, uma vez eleito, acredita encarnar, ele mesmo, o desejo de seu representado, o que quer disser que ele confunde seu desejo e sua própria satisfação com a de seu representado. Passa então a gozar da legitimação de qualquer forma de sua satisfação pessoal (chamada vulgarmente de corrupção ou abuso de poder), acreditando que, com isso, seu representado ficará feliz ou, ao menos, indiferente. Essa é a filosofia dos reis: eles acreditam que seu luxo e magnificência, que sua festa, constitui a felicidade de seu representado. Isso se chama “gozo do outro”. Simplesmente nos sentimos mal representados porque estão gozando de nós. Ocorre que os representantes, de um modo geral, levam demasiado a sério a sua própria autonomia: se tornam autônomos de qualquer versão do Outro social.

FONTE: Revista IHU On-Line

pessoa voando

paradoxos do individualismo moderno

novembro 21, 2010 às 22:06 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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individualismo1

Conforme tem sido insistententemente colocado ao longo de nosso curso na LitPort3, a discussão da representação dos descentramentos modernos na poesia de Fernando Pessoa desenvolve-se de maneira mais produtiva, tanto no âmbito teórico quanto pedagógico, quando é diretamente articulada aos problemas psicossociais que marcam a nossa contemporaneidade, tal como é sugerido pela “transcrição mixada” do artigo a seguir:

 

A subjetividade humana na sociedade de indivíduos. Entrevista especial com Benilton Bezerra

Na manhã do terceiro dia do Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? Uma platéia atenta assistiu à conferência O futuro da autonomia e a construção de uma sociedade de indivíduos. Uma leitura psicanalítica, conduzida pelo professor Benilton Bezerra Jr., da UERJ. Em sua brilhante explanação, Bezerra falou sobre o impacto da autonomia e do individualismo na subjetividade humana. Para ele, nós vivemos, hoje, uma situação paradoxal. “Livramo-nos da pressão da tradição, no desejo de sermos autônomos. Afirmamo-nos como indivíduos quando colocamos a tradição em segundo plano”. No entanto, paradoxalmente, “somos escravos de modelos que nos ensinam como devemos agir para sermos indivíduos mais auto-suficientes e vencedores em nossas atividades diárias”. “Ser indivíduo é seguir um modelo que nos é imposto”, explica o palestrante, ao constatar que hoje o individualismo vive uma exacerbação, uma vez que a modernidade inventou que cada sujeito se constrói a si próprio.

DEPUS A MÁSCARA E VI-ME AO ESPELHO. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.

[Álvaro de Campos]

Ao abordar o tema do Simpósio em geral, Bezerra esclareceu que a autonomia é uma das facetas do individualismo. “Ela nos transformou em autônomos de forma que tudo na vida se torna opção individual. Paradoxalmente, nunca uma cultura teve tão forte a experiência da desassistência. Há sempre um expert em tudo. Nossa existência se tornou banalidade.”

O “Terceiro” indivíduo, o elemento poderoso em nossa vida, que tinha um poder inquestionável, tornou-se “líquido”, utilizando a terminologia de Zygmunt Baumann. “E é isso o que possibilita a exacerbação da autonomia. Desaparece o impossível, a noção do limite. Hoje o assombro diante das coisas é cada vez menor”, esclarece o professor da UERJ.

Ao descrever a sociedade da imagem, Benilton Bezerra afirmou que “hoje importa muito mais parecer ser alguma coisa. Vivemos na sociedade da imagem, do espetáculo, da exibição. Temos que estar sempre sorrindo, sempre felizes, sempre bem, passando essa imagem de bem-estar e felicidade”.

SÁBIO É O QUE SE CONTENTA COM O ESPETÁCULO DO MUNDO,
                E ao beber nem recorda
                Que já bebeu na vida,
                Para quem tudo e novo
                E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúveis,
                Ele sabe que a vida
                Passa por ele e tanto
                Corta a flor como a ele
                De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
                Que o seu sabor orgíaco
                Apague o gosto às horas,
                Como a uma voz chorando
                O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
                E apenas desejando
                Num desejo mal tido
                Que a abominável onda
                O não molhe tão cedo.

[Ricardo Reis]

O professor explicou também o conceito de subjetividade somática, pelo qual cada vez mais tendemos em radicar em nosso corpo a nossa individualidade. “Vemos uma proliferação de modificações corporais. Esse fenômeno cultural mostra a necessidade do ser humano de ser singular.” Outro conceito importante trazido pelo professor Benilton Bezerra Jr. é o da cultura do sujeito cerebral, que está emergindo em nossos dias. “Tendemos a pensar nossa subjetividade orientada pelo cérebro, que passa a ser o sujeito de nossas ações”.

Confira, a seguir, uma entrevista especial realizada pela redação da IHU On-Line com o professor Benilton, logo após sua conferência no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?

IHU On-Line – O senhor pode descrever um pouco a situação paradoxal em que vivem os indivíduos da sociedade contemporânea?

Benilton Bezerra Jr. – Esse paradoxo pode ser descrito de duas maneiras. Uma primeira em relação ao individualismo e uma segunda em relação à autonomia. Em relação ao individualismo, o paradoxo consiste no fato de que o valor do indivíduo e do individualismo surgir no momento em que as pessoas começaram a se desvencilhar das marcas e das determinações da tradição, da religião, da família. O indivíduo propriamente dito surge na modernidade, como alguém que se funda, se constitui a si próprio na sua trajetória pessoal durante a vida. Você faz aquilo em que irá se reconhecer como sendo seu. Na origem, o individualismo é uma tomada de posição, uma abertura de possibilidade para que o sujeito confronte a tradição, a determinação. O paradoxal hoje é que isso, que antes era algo subversivo em relação à realidade social prévia, virou a norma, a ideologia dominante. Todo mundo precisa ser indivíduo e ser singular. É uma obrigação, não é mais uma conquista. Com isso, temos essa situação paradoxal de que o indivíduo que se constituiria por contraste à tradição é agora instado a se construir conforme a tradição do individualismo. Trocamos uma servidão por outra. A diferença é que, antigamente, você era filiado inequivocamente a coisas que tinham uma dimensão simbólica muito mais ampla. Hoje em dia, esse individualismo não se constrói pela adesão a algum valor mais alto. Não são ideais; são modelos. Não são princípios em relação aos quais você se mede; são modelos que você tem que repetir.

Do lado da autonomia, o paradoxo consiste no fato de que, com o desenvolvimento do individualismo e da radicalidade da crítica moderna a todas as determinações sobre os indivíduos, hoje em dia, vivemos uma cultura na qual, de fato, as pessoas se sentem cada vez menos submetidas, de maneira superior a sua vontade, a princípios, normas, valores, etiquetas e ideais. Todos nós somos mais autônomos do que nunca para fazermos as nossas escolhas. Tudo depende das escolhas que fazemos. Isso aparentemente faz com que devêssemos nos sentir mais autônomos, mais capazes de decidir. Mas curiosamente – aí é que está o paradoxo – numa cultura onde todo mundo é autônomo, a grande parte das pessoas se sente desassistida, precisando da assistência de alguém que diga o que deve fazer, qual é a escolha certa. Aí entram os experts em tudo, com o “discurso competente”, que explicam à mãe se ela deve ou não dar comida de sal “na marra”, ou se deixa o filho escolher, explicam que tipo de roupa é adequada para suas pretensões sociais, que tipo de música se deve escutar. Isso causa uma espécie de enfraquecimento de algo fundamental na vida de todo mundo que é a possibilidade de sentir a marca pessoal nas escolhas.  Nós nos sentimos instados por uma força anônima, que nos conduz a querer fazer as coisas certas, adequadas.

IHU On-Line – O que caracteriza a exacerbação do individualismo e quais as conseqüências disso para a subjetividade dos indivíduos?

Benilton Bezerra Jr. – Esse fenômeno tem a ver com o fato de o indivíduo dispensar qualquer referência a um estatuto simbólico de uma força transcendente, da política, ou da religião. O sujeito tenta acreditar que pode viver plenamente no plano puro da imanência do cotidiano, das escolhas feitas a cada momento. Essa exacerbação tem um efeito muito importante entre muitos: é o fato de que isso modificou bastante os nossos ideais de felicidade, de realização pessoal. O que antes – na modernidade e na pré-modernidade – era medido com a referência a certos padrões e expectativas vinculadas a itens simbólicos, hoje está cada vez mais vinculado à posse, à conquista e à fruição de objetos. Esse individualismo levado ao extremo faz com que o sujeito se veja sempre numa espécie de luta incessante para poder se reafirmar, não pela filiação a algo maior do que ele, mas pela posse contínua de bens que têm uma insígnia fálica, com uma obsolescência social e psicológica muito rápida. Você compra qualquer coisa e aquilo, em pouco tempo, está obsoleto. É a busca por qualquer coisa que nos dê socialmente a imagem de sucesso. Por isso, essa adesão frenética a dietas e todo esse cultivo do corpo.

TENS VONTADE DE COMPRAR
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – O senhor fala em uma outra forma de sociabilidade humana. Como seria essa nova sociabilidade, essa outra forma do ser humano?

Benilton Bezerra Jr. – Um dos traços dessa nova sociabilidade é a importância cada vez maior concedida à corporeidade, à dimensão somática da existência pessoal, nas trocas entre as pessoas. Por exemplo, a questão da imagem do corpo vem sendo cada vez mais importante em detrimento das características psicológicas e dos valores. É a moralização crescente dos atributos físicos. Outro traço dessa nova sociabilidade é o que alguns autores chamam de biosociabilidade: o fato de que, nessa mesma esteira da importância do corpo, temos a construção de identidades a partir de itens que são referidos ao corpo. Outro aspecto dessa nova forma de subjetivação é o lugar dos objetos na vida do sujeito em relação a si próprio e em relação ao outro. Os objetos passam a ser uma parte importante da construção da própria identidade. E também numa sociedade e numa cultura onde todos estão numa luta incessante pela posse de objetos que não são para todos, o outro passa, cada vez menos, a ser visto como semelhante e cada vez mais a ser, das duas, uma: ou um espelho, no qual eu fico me reconhecendo, ou um rival, que disputa comigo a posse daqueles bens que são escassos.

IHU On-Line – Qual é o futuro de uma sociedade assim?

Benilton Bezerra Jr. – Não podemos dizer, porque acontecem mudanças na história que são imprevisíveis. Ninguém previu a queda do muro de Berlim em 1989. Ela precipitou mudanças, da mesma forma que ninguém previu a invenção da internet e ela está mudando também a nossa vida social. O que podemos dizer é que, quaisquer que sejam as mudanças profundas que aconteçam, nós podemos, pelo menos, apostar na idéia de reconquistar a atividade política no sentido mais amplo da palavra: a política entendida como o engajamento na reflexão e na ação que visa a construção de existências pessoais e coletivas mais desejáveis no futuro. É o exercício de imaginar cenários mais desejáveis no futuro do que o presente, tanto no plano pessoal quanto no plano coletivo.   

IHU On-Line – Onde fica, nessa sociedade individualista, a solidariedade, a fraternidade e os valores cristãos?

Benilton Bezerra Jr. – O que pode alavancar uma ação que permita o pensamento crítico e o uso consensuado das tecnologias é a presença, no imaginário social e na prática subjetiva, de certos valores que transcendem esse plano da imanência do uso dos objetos, da fruição, das sensações. Esse é o desafio não só do cristianismo, mas do budismo e do pensamento político laico, que também perdeu suas referências. A grande política, a política laica, mesmo atéia do século XVIII para cá, é herdeira dessa transcendência religiosa. O cristianismo foi o primeiro movimento humano a inventar essa idéia de que todos são iguais. E isso está na base do pensamento democrático. O desafio do cristianismo hoje é conseguir estar à altura desse tipo de questão e como responder a esse desafio mantendo algum equilíbrio com a necessidade de auto-preservação da instituição Igreja, com suas regras.  

IHU On-Line – Se não são mais os mesmos ideais e sonhos que unem os seres humanos, o que nos une e faz de nós seres iguais?

Benilton Bezerra Jr. – A verdade verdadeira é que nós não somos iguais. Somos todos muito diferentes.

IHU On-Line – Então, hoje o que assemelha os seres humanos é a preocupação com os próprios interesses individuais?

Benilton Bezerra Jr. – É, o que torna todo mundo incapaz de compartilhar de horizontes coletivos. O que pode reabrir a possibilidade de compartilharmos horizontes coletivos é, por exemplo, a salvação do Planeta. De fato, nunca houve antes o reconhecimento de que, ou agimos em comunhão para salvar a Terra, ou vamos acabar com ela. Isso é recente. Não é papo de “verde”, de um grupelho de pessoas. É uma questão fundamental, pois está no centro da possibilidade da gente prosseguir vivendo.   

IHU On-Line – O senhor poderia explicar a cultura do sujeito cerebral? Qual sua relação com a subjetividade humana?

Benilton Bezerra Jr. – O termo “sujeito cerebral” foi criado por um colega do Instituto Max Planck, de Berlim, Fernando Vidal. Aparece também sob outras designações, como “homem cerebral” e “homem neuronal”. São várias formas de apontar para uma realidade antropológica, que é essa em que, cada vez mais, as pessoas vão identificando-se com o próprio cérebro. Ou seja, o cérebro vai se tornando não apenas um órgão corporal. Ele passa a ser pensado e sentido como a sede da nossa identidade. Eu não sou mais uma pessoa que tem um cérebro. Eu sou um cérebro que me faz pela experiência de ser uma pessoa. Isso se expressa em várias dimensões. Há uma dimensão teórica que tenta fazer do cérebro o denominador comum dos fenômenos mentais, sociais, antropológicos, etc. O cérebro passa a ser uma espécie de personagem, um ator social. O que atribuíamos ao sujeito, passa a ser atribuído ao cérebro. De forma prática, isso se expressa pela quantidade cada vez maior de intervenções biológicas na subjetividade, sobretudo medicações, e também com a introdução de novas tecnologias de intervenção.  

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho à Virgílio, à Milton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)…
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um acto indefinido nem factício…

Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?

(continua)

[Álvaro de Campos. APOSTILA]

IHU On-Line – Como o senhor avalia os temas discutidos no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?

Benilton Bezerra Jr. – Esse é o tipo de iniciativa que precisa ser reduplicada e difundida ao máximo. É disso que sentimos falta: poder juntar essas pessoas para discutir questões comuns e que transcendem às competências específicas de cada grupo.

FONTE: IHU Online, 25/5/2007

fernando_pessoa3

Freud por Freud: aprendendo a “ver” o inconsciente através da linguagem

outubro 15, 2010 às 18:15 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Clique AQUI para acessar Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, um dos primeiros livros de Sigmund Freud a alcançar grande repercussão tanto entre especialistas quanto leigos, obra que contribuiu muito para a divulgação dos fundamentos da psicanálise. É importante notar como a linguagem verbal apresenta-se para Freud, desde o início de suas pesquisas, como  a via de acesso mais eficaz para os mistérios do inconsciente humano e para a compreensão dos descentramentos que configuram nossas personalidades.

Para os que já se sentem muito curiosos com a psicanálise, por que não começar logo a ler a obra completa de Freud?

linguagem e identidade

setembro 23, 2010 às 23:30 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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andarilho

O HOMEM COMO PRISIONEIRO NO LABIRINTO DAS ESTRUTURAS CONCEITUAIS


O problema do significado da vida e do mundo não se apresenta à consciência como estruturas soltas e, sim, inseridas dentro de um contexto relacional[1]  que se articula para a formação do universo interior e exterior no continuum das relações de tempo e espaço. A construção dessas realidades significativas não é exatamente a tradução do que está aí, presente nas coisas, mas é aquilo que para cada um detém determinado sentido. Assim, as realidades (ens realis, ens rationis) possuem atualidade (temporalidade para a consciência) mediante o processo seletivo da ação intencional, gerando adaptação ou alienação.

Os signos e valores individuais ou sociais dão sentido à vida das pessoas e se constituem num corpo de verdades que determinam o seu agir, a sua postura frente ao mundo. Não podemos viver como homens sem raciocinar, e a verdade de cada um  induz a uma visão de mundo[2]. São lentes, pelas quais filtramos toda a compreensão da realidade. O próprio pensamento de identidade pessoal  nada mais é do que uma síntese dinâmica que agrega os diferentes aspectos mentais, formando a consciência do eu, como uma unidade própria que se projeta na dimensão espácio-temporal.

Em termos gerais, há diferentes modelos de subjetividade: o conceito de identidade pessoal como o resultado de todas as experiências passadas; a consciência moral calcada em juízos de valores; o sujeito epistemológico responsável pela formação das estruturas cognitivas e a dimensão social, manifesta pela consciência política. Esses modelos se articulam formando um  núcleo geral de conceitos que se intercomplementam num todo harmônico e pleno de significado. Quando isso acontece, se estabelece um elo de coerência entre as várias percepções da realidade e o eu realiza uma síntese dinâmica e satisfatória. Quando o sujeito deixa de realizar essa integração, surgem as contradições internas, como o resultado de uma visão fragmentada do mundo. O papel do sujeito nessa re/construção da realidade vai determinar a interação mental e os diferentes graus de adaptação social: “cooperação, competição, conflito, acomodação e assimilação[3]”. O perigo reside na cristalização de certas atitudes, na formação de estereótipos, isto é, uma conduta calcada em reproduções falsas, “(…) idéias ou imagens não logicamente fundamentadas[4]”. Via de regra, essas representações mentais são responsáveis por atitudes de cunho fundamentalista que geram exclusivismos no campo da religião, da política, do direito etc.

É impossível dizer quão longe o homem pode levar as suas próprias convicções. No testemunho da história, muitos mataram e morreram pelo que acreditavam serem verdades[5]. Com essa radicalização, o homem torna-se escravo do seu próprio discurso e dele se convence, tão sinceramente, que é capaz de dedicar uma vida inteira à consecução de suas idéias. A compreensão maniqueísta de dividir as coisas entre verdadeiro/falso ainda faz parte do cotidiano das pessoas, cria motivações, projetos de vida e uma decodificação de toda a realidade percebida. São juízos de valores que estão presentes nas mais diferentes manifestações da existência humana.

O homem está preso no labirinto de suas estruturas conceituais e nessa construção ideológica[6] investe a sua própria felicidade. Todo o processo de criação de estruturas conceituais que refletem a realidade dos valores e interesses, como a finalidade da existência, conduta legal etc., existe, porque o homem é um ser que produz significações. Segundo Heidegger:

Somente quando se encontrou a palavra para a coisa, é esta uma coisa; somente então é, uma vez que a palavra é o que proporciona o ser à coisa (…) Não falamos sobre aquilo que vemos, mas sim o contrário; vemos o que se fala sobre as coisas[7].

Também Voloshinov chega a afirmar que “sem signo não há ideologia[8]” e toda a ideologia é uma visão parcial da humanidade. Cria-se, assim, o que os lingüistas chamam de   campos de sentido porque traduzem a idéia de consciência individual, social e histórica. São referências que mostram  que 

Pessoas em todos os lugares continuam a inventar maneiras significativas de viver tomando a cultura familiar como base, isto é, a língua, a religião, os estilos de interação social, a comida, e assim por diante[9].

Essas realidades formam o pano de fundo dos pensamentos e se constituem numa prisão sígnica[10]. O homem, sendo um ser de linguagem, não tem saída, está preso no mundo dos signos e também é um signo, porque produz relações de significação. A consciência de si mesmo passa a ser a internalização de significados ou, mais adequadamente, um inter-relacionamento contínuo de significados. Há significados de passado, apreendidos; significados em apreensão e passíveis de apreensão, o que é expresso na voz de Alberto Caeiro (pseudônimo de Fernando Pessoa) como: “tristes de nós que trazemos a alma vestida!”[11].

Cada ser humano possui a sua própria visão de mundo e esse referencial é tão importante que realiza a integração das várias funções do eu - produzindo um universo de significações. A perda desse quadro de referências corresponde à perda da auto-identidade, à perda da dimensão que o eu tem desses signos e de si mesmo, enquanto um ser para um processo dinâmico de recriação.

O referencial que caracteriza o ser de linguagem é tão importante quanto a vida racional, ele traduz o mundo e aprende mediante uma relação sincrônica e de dependência entre as estruturas conceituais e os novos aprendizados, os quais percorrem um caminho determinado, de reafirmação ou negação dos pressupostos já existentes. Se estamos seguros do lugar que ocupamos no contexto onde estamos inseridos,  mergulhando no passado, trazemos à tela da memória a nossa própria história. Isto só é possível, porque de alguma forma se dá o processo de revelação e  verificação do significado da nossa experiência pessoal. E essas experiências comuns de um lado aprisionam a realidade em relações sígnicas e de outro expressam a dimensão de transcendência, de processo de reconstrução das idéias. É a experiência de estar incluso, literalmente, numa relação ontológica, “idéias que não são auto-representações mas signos daquilo que é objetivamente outro que não a idéia no seu ser como representação privada[12]”.

No des/modelar  para modelar de novo, mesmo que o homem migre para um novo paradigma, libertar-se-á de uma estrutura-modelo para se tornar cativo de outra. Não há saída, não há forma de romper com o passado sem se abrigar em outras servidões. As nossas idéias nos definem, nos transformam e a luta pelo novo, pela mudança, é continuidade enquanto somos capturados em novos vínculos. Contudo, se é impossível a existência humana sem esse suporte, tal não pode ser absolutizado  com a promoção da cultura da intolerância, a ponto de se tornar difícil a convivência com outras percepções da realidade. Na sociedade pós-moderna, a cultura da intolerância está assumindo proporções perigosas; o divergente/diferente não só não é aceito, como se cria uma série de obstáculos à sua existência no convívio social[13].

O caminho da diversidade na unidade, do pluralismo, da inclusividade,  parece ser a única resposta aceitável. Saber conviver com pontos de vista discordantes   -   o embate das idéias  -  aprofunda ou derriba as nossas certezas parciais, provisórias e precárias[14]; isso só é possível quando não nos submetemos ao germe da radicalização.

REFERÊNCIAS

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado, Rio de Janeiro: Graal, 1983.

ANSART, Pierre. Ideologias, conflitos e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

ARENDT, Hannah. A Condição Humana, Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1995.

BONOMI, Andrea. Fenomenologia e Estruturalismo. São Paulo: Perspectiva, 1974.

BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo: Cultrix, 1973.

CARVALHO, Irene Mello. Introdução à psicologia das relações humanas. Rio de Janeiro: RGV, 1976.

Correio do Povo, Empresa Jornalística Caldas Júnior, Porto Alegre, 14.08.1999.

DEELY, John. Semiótica Básica. São Paulo: Ática, 1990.

EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: UNESP, 1997.

HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência Como Ideologia. Lisboa: Edições 70, 1968.

___. Consciência Moral e Agir Comunitário. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 1989.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 1995.

___. Carta sobre o humanismo. Lisboa:  Guimarães, 1987.

LEPARGNEUR, Hubert. Esperança e Escatologia. São Paulo: Paulinas, 1974.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975.

MERLEAU-PONTY, apud  BONOMI, Andrea. Fenomenologia e estruturalismo. São Paulo: Perspectiva, 1974.

PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos. 7ª. Ed. Rio de Janeiro: 1995, p. 64.

RECTOR, Mônica.; NEIVA, Eduardo. Comunicação na era pós-moderna. Petrópolis: Vozes, 1997.

RORTY, Richard. A Filosofia e o Espelho da Natureza. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica jurídica em crise. Porto Alegre: Ed. Do Advogado, 1999.

(Extraído do livro: SILVEIRA, José de Deus Luongo da. As várias faces do direito: uma crítica ao discurso jurídico tradicional. Londrina: UEL, 2001, p. 20/25).



[1] MERLEAU-PONTY, apud  BONOMI, Andrea. Fenomenologia e estruturalismo. São Paulo: Perspectiva, 1974,  p. 9.

[2] Weltanschaung.

[3] CARVALHO, Irene Mello. Introdução à psicologia das relações humanas. Rio de Janeiro: RGV, 1976, p. 49.

[4] Id., 1976, p. 46.

[5] Nietzsche, no entanto, rompe com a idéia de se imolar pela verdade, afirmando: “Morrer pela verdade. – Não nos deixaríamos queimar por nossas opiniões: não estamos tão seguros delas. Mas, talvez, por podermos ter nossas opiniões e podermos mudá-las.” (apud Candido. A Crise dos Paradigmas Modernos. 1995, p. 1 (http://www.hotnet.net/~candido/paradigmas.html).

[6] Gouldner descreve a ideologia como “o reino da exaltação do espírito, onde habitam o doutrinário, o dogmático, o apaixonado, o desumanizante, o falso, o irracional e, é claro, a consciência extremista.” In: The Dialectic of Ideology and Technology, London, 1976, p. 4 (apud EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: UNESP, 1997, p. 18).

[7] STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica jurídica em crise. Porto Alegre: Ed. Do Advogado, 1999, p. 175.

[8] EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: UNESP, 1997, p. 172.

[9] RECTOR, Mônica.; NEIVA, Eduardo. Comunicação na era pós-moderna. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 93.

[10] Para  Deely: “Ser um signo é uma forma de prisão a um outro, ao significado, o objeto que o signo não é mais que, todavia, representa e substitui.” (DEELY, John. Semiótica Básica. São Paulo: Ática, 1990, p. 54).

[11] PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos. 7ª. Ed. Rio de Janeiro: 1995, p. 64.

[12] Id. p. 29.

[13] Marcos Rolim: “Vivemos uma cultura de intolerância, de não aceitação das diferenças. Basta olhar os prédios e as ruas que não foram planejadas considerando os portadores de deficiência física. Os programas infantis são apresentados por loiros, os surdos não têm reconhecida sua linguagem, os homossexuais são ridicularizados, os soropositivos perdem empregos e os doentes mentais são condenados à incapacidade e periculosidade.” (In: A Assembléia combate ‘cultura da intolerância’, Correio do Povo, Empresa Jornalística Caldas Júnior, Porto Alegre, 14.08.1999, p. 7).

[14] As verdades absolutas podem ser admitidas num  plano metafísico e espiritual. No mundo fenomenológico não há verdades absolutas, caso contrário como poderíamos explicar os avanços da ciência (Vide KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975).

para pensar o descentramento sócio-histórico

setembro 23, 2010 às 22:41 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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O capitalismo e a aceleração do tempo

Na manhã de ontem, terça-feira, foi realizada a conferência com José Antonio Zamora sobre “Temporalidade capitalista, exploração da vida humana e tempo messiânico”. No segundo dia do XI Simpósio Internacional IHU: o (des) governo biopolítico da vida humana, Zamora afirmou que seu aporte no evento seria em torno do tema da temporalidade capitalista.

Ele iniciou sua fala considerando que o tempo se converteu numa categoria chave para compreender importantes fenômenos culturais e sociais atuais. O filósofo explicou que a modernidade capitalista produziu um novo regime temporal, uma “temporalização do tempo”, em que o tempo tornou-se “uma questão política”. E acrescentou que a marca do novo regime temporal capitalista é o imperativo da aceleração. “O tempo se converte num fator de medida de valor”, na lógica da competitividade. E que toda a forma de governamentalidade está associada ao tempo.

Uma afirmação importante para a compreensão do tema apresentado por Zamora é a de que “o capitalismo estabelece uma relação entre as necessidades humanas e sua satisfação”.

E é daí que o palestrante entrou na discussão sobre o conceito de benefício. “O benefício não é seguro, nem fácil de ser alcançado. Só se obtém benefício lutando permanentemente por maximização. E a produção de riqueza material não assegura benefício. Este, portanto, torna-se um fator relacional”. Zamora explicou que no capitalismo não se pode romper o ciclo de acumulação de benefício. E para ter crescimento econômico é preciso produzir mais. O problema que aparece aqui? Segundo ele, a desigualdade social.

“O capital vive um presente eterno”, disse Zamora. E se produzimos mais, já que a produção não tem limites, precisamos consumir mais. Para ele, essa nova realidade de aceleração instiga ao comportamento instantâneo, em que os fatos não “penetram” mais nas pessoas. Esse sistema cria consumistas adaptados a essa aceleração e a esse regime capitalista. “É uma exigência sistêmica”, dispara Zamora. E a aceleração só se converte em imperativo graças ao capitalismo. O filósofo explicou ainda que as formas de governamentalidade são indissociáveis do sistema capitalista e que “temos hoje um regime empresarial que rege a vida dos indivíduos”. Neste novo cenário, a inflexibilidade torna o sujeito “não empregável”. “É indispensável o uso eficiente, por parte dos indivíduos, dos recursos temporais”, afirma Zamora. E explica que para manter o imperativo da aceleração, tudo o que é obstáculo deve ser eliminado, por exemplo, todas as formas de estabilidade. Com a ajuda de quem? Das tecnologias! “Me sinto culpado por deixar a tecnologia invadir minha vida, minha casa, minha família”, confessa.

“Novas formas de comunicação ajudam a manter o imperativo da aceleração. Vivemos em permanente estresse”, segue Zamora em sua fala. E ele completa: “o trabalhador ideal é aquele que se auto-explora. Sem precisar interferência externa”.

O professor encerra sua fala argumentando que “no capitalismo não há descanso. Nosso horizonte é o trabalho e o círculo infinito de produção e consumo”. Para Zamora, o tempo rígido do regime fabril é um obstáculo à aceleração. “O tempo na era digital é instantâneo, simultâneo. É um tempo atemporal, onde o efêmero e o eterno acontecem juntos. A eliminação da sequência seria o equivalente à eternidade”, pontuou.

FONTE: IHU On-line, 15/09/2010

* * *

O PÓ QUE FICA DAS VELOCIDADES QUE JÁ NÃO SE VÊEM!
O do metálico dos êmbolos,
O furor uterino das válvulas lá por dentro —
O sangue dando em baque ao ataque dos excêntricos.

Minhas sensações
Protoplasma da humanidade matemática do futuro!

Eia-la-ho! Hó-oo-o!

Oh lá, saltos e pulos com o meu pensamento todo
Pula bola de mim — a mágica biológica que eu sou!
O cérebro servo de leis, os nervos movidos por normas
Por normas compostas em tratados de psiquiatras

[Álvaro de Campos]

* * *

A PARTIDA

E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (…)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a todas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (…)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas…
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora…
Ave atque vale, ó prodigioso Universo…
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (…)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(…)
(E até à aterissage final do meu aero (…) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (…)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino

[Álvaro de Campos]

* * *

HEIA O QUÊ? HEIA O PORQUÊ? HEIA P’RA ONDE?
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.

Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?

Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu

(quando parte o último comboio?)

[Álvaro de Campos]

homens relogios

LitPort III, avaliação 1

setembro 10, 2010 às 10:45 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Mirror_MAGRITTE

 

Entrega: sexta-feira, 29/09

Selecione um poema da obra de Fernando Pessoa e analise-o destacando temas e procedimentos através dos quais sejam nele produzidas representações da subjetividade e dos descentramentos modernos. Escolha pelo menos uma das citações transcritas abaixo para ser diretamente articulada à sua análise do poema.

A) “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza”. (MERCER apud HALL, p. 9)

B) Desde o simbolismo, e acentuando-se com os modernismos, a subjetividade tem vindo a ser entendida como a possibilidade que o escritor tem de interpretar a vida e o mundo enquanto idioleto de autor, visto que os aspectos subjetivos do texto literário já não dizem respeito apenas à vontade, ao entendimento e à razão de um indivíduo, o autor. (CABRAL, p. 2)

reiniciando: 2010.II

agosto 19, 2010 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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reiniciar

D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

9-2-1934

[Fernando PESSOA.In: Mensagem

Com o poema acima, no qual se entrecruzam duas importantes figuras literárias e históricas portuguesas das quais muito falaremos nas próximas semanas, o rei-poeta D. Dinis e o poeta-rei Fernando Pessoa, o blogue LUSOLEITURAS dá as boas-vindas aos estudantes matriculados este semestre nos cursos de Literatura Portuguesa 1 e Literatura Portuguesa 3 oferecidos pelo Departamento de Letras da UFS-Itabaiana. Como já foi afirmado presencialmente, este espaço virtual propõe-se a ser uma continuidade de nosso trabalho em sala de aula, principalmente um lugar de referência para as necessárias pesquisas, leituras e diálogos que dinamizam a evolução de nossos saberes e competências no estudo das literaturas de língua portuguesa. Estudo que, metaforicamente, também define para todos nós um “oceano por achar” e desbravar, tendo em vista o aprimoramento de nossas competências como intérpretes e criadores de ideias e textos.

Para ambos os cursos, nosso texto teórico de referência é o cada vez mais famoso A identidade cultural na pós-modernidade, obra de divulgação de conceitos básicos dos estudos culturais contemporâneos assinada pelo crítico jamaico-britânico Stuart Hall. Justamente por se tratar de um texto com tão importante repercussão entre as mais diversas disciplinas da área das ciências humanas e das artes, é mais do que recomendável a leitura integral do livro, embora nossa discussão se concentre nos capítulos I e III, na LitPort1, e I e II, na LitPort3.  Além dos muitos exemplares existentes na biblioteca e das cópias disponíveis na xerox do campus, uma versão eletrônica integral pode ser baixada da riquíssima biblioteca on line do curso de Letras da Universidade de São Paulo.

Para @s estudantes da LitPort1, a leitura de Hall deve ser, de imediato, diretamente articulada com a do artigo de Renato Gomes Que faremos com esta tradição? Ou: relíquias da Casa Velha (clique ao lado para lê-lo no site da revista Semear), texto que apresenta alguns parâmetros fundamentais para a problematização de referentes e produtos culturais portugueses. Aos estudantes da LitPort3, recomendamos que as descrições de Stuart Hall sobre as configurações assumidas pelas subjetividades modernas sejam desde já acompanhadas pela leitura da obra diversificada de Pessoa, facilmente acessível através do ARQUIVO PESSOA. Novamente, boas vindas e bom trabalho.

enveredando pelas mãos duplas do Barroco: roteiros de pesquisa

março 20, 2010 às 2:10 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ABRIL-Editorial_n3  Tal como demonstra a mais recente edição da Revista Abril, publicação do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana (NEPA) da Universidade Federal Fluminense, o Barroco é uma força estética e ideológica ainda cheia de vitalidade na produção literária portuguesa contemporânea (clique na imagem para acessar a revista). Os malabarismos semânticos da agudeza, os caprichos sintáticos do engenho e a intricada melopéia com que vibra toda escrita barroca continuam a servir como recursos expressivos dos mais valiosos para traduzir verbalmente as transformações nas consciências humanas que se sucedem e se complexificam desde o advento da Modernidade. Buscando fundamentos para compreender a constituição da estética barroca, na LitPort 2 @s estudantes foram organizad@s em Tríades que se dedicarão, nas próximas semanas, à pesquisa e à leitura de textos que subsidiem as discussões em classe e a elaboração de um relatório correspondente à segunda nota da disciplina nesta unidade. A relação dos temas distribuídos entre as Tríades e outras instruções referentes a essa atividade podem ser acessados AQUI.

hansen vieira

Já quem quiser uma versão eletrônica das “Agudezas seiscentistas” de João Adolfo HANSEN (posando ao lado com António Vieira), texto que nos abrirá caminhos para o Barroco Ibérico em nossas próximas aulas, visite o site da Revista Letras, da Universidade Federal de Santa Maria. Recomenda-se a navegação nessa tradicional revista que alterna, assim como saudavelmente entrelaça, edições dedicadas aos estudos linguísticos e literários — irmãos siamesíssimos, paridos das multiformes entranhas da linguagem.

Pessoa: uma poética do vazio & da ausência

novembro 15, 2009 às 18:00 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A propósito das relações entre linguagem, subjetividade e literatura, discute Leyla Perrone-Moisés:

Na poesia, como mostra Jákobson, “não só a própria mensagem, mas igualmente seu destinatário e seu remetente se tornam ambíguos. Além do autor e do leitor, existe o ‘Eu’ do herói lírico ou do narrador fictício e o ‘tu’ ou ‘vós’ do suposto destinatário (…) Qualquer mensagem poética é, virtualmente, como que um discurso citado, com todos os problemas peculiares e intricados que o ‘discurso dentro do discurso’ oferece ao linguista” (in: Linguística e comunicação).

A experiência de Pessoa, nesse campo, é uma das mais agudas e constantes de que se tem notícia. Sua poesia toda tematiza esse saber de linguagem: a linguagem como ausência da coisa e, sobretudo, como ausência do Eu, que não tem nem mesmo um referente estável.

 

Aprofundando a discussão da professora Leyla, podemos propor que a escrita poética de Fernando Pessoa produziu aquilo que Jacques Lacan denominou de “alíngua”, categoria proposta para descrever o “abismo entre o inconsciente e o consciente”, nas palavras do blogueiro Marcos Vinícius. Leia mais sobre esse assunto na postagem A alíngua: ligação entre o consciente e o inconsciente, pendurada no blogue SOCIEDADE E LÍNGUA.

Também vale a pena procurar no Arquivo Pessoa por poemas que possam exemplificar, de maneira mais nítida, essa tematização da ausência a que se refere Perrone-Moisés, tal como este trecho do Fausto – Tragédia subjetiva, uma das primeiras obras de Fernando Pessoa.

pessoa M2

a criativa subjetividade do escravo

novembro 6, 2009 às 7:54 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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gloriosa_edEsp                                             pensador-bandeira

Iniciaremos hoje, na sala 106 do Bloco Didática 1, a partir das 13h, o mini-curso “Como funciona a cabeça de um escravo? Leituras de A gloriosa família”. Segue abaixo uma súmula das questões a serem levantadas ao longo dessa atividade.

Publicada em 1999, dois anos depois do laureamento do escritor angolano Pepetela com o Prêmio Camões, A gloriosa família é um nítido exemplar da vitalidade da produção literária oriunda dos países africanos lusófonos, uma produção cujo bem-sucedido arrojo experimental mobiliza recursos de ficcionalização histórica que são emblemáticos dos modos de intervenção escrita pós-coloniais. Ambientado em Luanda durante os sete anos da ocupação holandesa, entre 1641 e 1648, o romance é narrado por um escravo situado numa difusa posição “não visível e não oculta”, a partir da qual se inscreve uma mirada e um testemunho estratégicos sobre o principal entreposto da máquina escravista gerenciada pelo Império Português.

Obrigado a seguir a reboque de seu dono, o traficante flamengo Baltazar Van Dum, cumprindo uma sina de adereço semi-esquecido, este escravo pessoal representa um grau de objetificação do qual derivam imprevistos efeitos de visibilidade. Tido por mudo e retardado mental, esse indivíduo colocado na condição de bijuteria ambulante abre um estranho lugar de transparência para a discussão dos mecanismos de rasura simbólica e de reversão de valores que dinamizavam as relações de poder no mundo colonial, e que presentemente se atualizam nas diversas formas de expressão e de superação do preconceito racial.

No encontro de hoje nos concentraremos em revisitar os profundos, ainda que institucionalmente esmaecidos, laços geo-histórico-culturais entre o Brasil e Angola. Será também apresentado um breve panorama das teorias contemporâneas sobre o racismo e seus efeitos reificadores sobre a subjetividade negra. No final do encontro, serão apresentados trechos do filme Quanto Vale ou É Por Quilo?, de Sérgio Bianchi. Para saber mais sobre esse filme, clique na imagem abaixo.

quanto vale

vazio moderno, depressão, carnaval & engajamento

novembro 2, 2009 às 13:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Segue abaixo um excelente texto midiático para estimular uma reflexão acerca dos efeitos extra-literários e contemporâneos daquela condição simultânea de multiplicação e esvaziamento que, para Leyla Perrone-Moisés, configurou a produção poética de Fernando Pessoa. Aliás, conforme o próprio poeta diagnosticou acerca dos indivíduos de seu (nosso) tempo:

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.
Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.
Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.
Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.

[In: PESSOA, Fernando. Aforismos e afins. Edição e prefácio Richard Zenith. Tradução Manuela Rocha. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.12.]

 

Maria Rita Kehl: “O vazio é nossa condição básica”

Tatiana Mendonça, 26 de outubro de 2009, Revista Muito, ATARDE online

A aceleração da vida cotidiana, que dispensa devaneios, pausas, reflexões e ineficiências – e nos faz crer que nunca estamos aproveitando o tempo como deveríamos –, torna nossa experiência mais pobre e contribui para fazer da depressão o principal sintoma social da atualidade. É nisso que acredita a doutora em psicanálise Maria Rita Kehl, 57, que lançou este ano o livro O tempo e o cão – a atualidade das depressões. No último dia 16, ela esteve em Salvador participando do ciclo de debates Fronteiras Braskem do Pensamento e falou à Muito sobre a doença.

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Li que a senhora não acompanhava pacientes depressivos, preferia encaminhá-los para outros analistas. O que a fez mudar de ideia? Logo no começo da minha clínica, atendi duas pessoas que se suicidaram com pouquíssimo tempo de análise. Isso para o analista é arrasador, de certa forma me senti responsável. Então achei que precisava aprender mais. Depois, me dei conta de que essas pessoas nem eram deprimidas, mas ainda assim, durante muito tempo, não atendi depressivos… Mas aí aconteciam casos de pessoas que, ao longo da análise, ficavam deprimidas e eu, com o amadurecimento, fui aprendendo a lidar. Fiquei muito interessada em saber o que elas tinham a dizer.

O que leva a senhora a afirmar que a depressão é o “principal sintoma social do nosso tempo”? Primeiro, sintoma social é algo que desafia as condições da vida de determinada época. A histeria das mulheres foi o sintoma social do século 19, por desafiar tudo que se pretendia da mulher no momento em que se formava a chamada família burguesa, em que a mulher era o centro do lar, e o homem, o empreendedor. Hoje é a depressão que desafia a norma contemporânea da euforia, da festa, que recusa os convites para fazer o tempo render na forma de felicidade, alegria, gozo. A outra razão é que a depressão cresce de forma epidêmica. Segundo dados da OMS, será a doença mais comum do mundo em 2030. E isso acontece de certa forma na contramão, já que hoje somos mais livres sexual e moralmente; cada um pode de alguma maneira escolher seu destino; há grandes conquistas da saúde, se pode viver mais e melhor até bem mais tarde.

Mas esse crescimento em certa medida não vem de muita gente dizer, por qualquer coisa, que está deprimida? Você tem toda razão. Justamente porque a regra social é que as pessoas sejam felizes, elas não sabem o que fazer com as tristezas normais da vida, principalmente o adolescente. Quando ele se deprime, se sente o último dos seres humanos, não têm coragem nem de buscar apoio nos amigos. Um colega psicanalista, orientador de um grande colégio em São Paulo, me contou que em um ano atendeu 40 adolescentes que tinham diversas razões para estar meio tristes. E ele perguntou a todos: ‘Você já conversou com algum amigo sobre isso?‘. Dos 40, só um tinha conversado. Ou seja, essa rede de apoio não funciona na hora da tristeza. Aí os caras vão para os remédios. Para divulgar o antidepressivo, a indústria farmacêutica divulga também a doença, e aí coloca lá nos folhetinhos: ’Você pode estar deprimido, mas depressão tem cura. Veja aqui os sintomas’. Aí a pessoa já chega dizendo para o médico que está deprimida, e o médico, até por precaução, vai lá e dá o remédio, o que enviesa as estatísticas. É muito raro um psiquiatra com tempo para ouvir e saber o que está acontecendo de verdade com o paciente.

Se a depressão é uma “recusa à festa“, uma súplica de que exista um “tempo de compreensão“ que a correria da vida nos roubou, há algum valor na doença? A depressão tem uma via de conhecimento do psiquismo que o próprio depressivo ignora. Talvez o trabalho de análise consista em fazer com que ele tire benefícios disso. Outro valor é que o depressivo é menos seduzido pela publicidade, pelo consumismo. Ele não está tão encantado por essa ideia de que a vida é um caminho de acumular grana, objetos, acha tudo isso um pouco chato… E o depressivo também conhece mais o vazio, que pode ser uma condição muito interessante do trabalho psíquico. Se ele fica só com o vazio, é terrível, mas se ele suporta o vazio, pode vir a construir outra via, talvez mais verdadeira. Na palestra, eu brinquei: vou dar uma má notícia, a vida não tem sentido. E é isso, a gente é que dá sentido à vida. O vazio é nossa condição básica. A gente não sabe de nada. A única coisa que a gente tem ao nascer é uma certa garantia de que as pessoas que nos conceberam nos amam. E olhe lá… Às vezes elas não nos amam, nos conceberam por acaso, são confusas… Em cima do vazio é que a gente acrescenta muita coisa. Então o depressivo pode fazer um percurso menos iludido, menos alienado de si mesmo.

O que não quer dizer que ele não deva ser tratado, claro. Sim, evidente, a análise é fundamental. Tem gente que passa a vida inteira dentro de um quarto, é horrível. Pode até se medicar, não vai pular pela janela, mas se acostuma a passar a vida meio em branco. E a vida é uma só.

Como relacionar a depressão à obrigação de ser feliz, especialmente numa cidade vendida como a “terra da felicidade“? Não sei dizer se Salvador tem mais gente deprimida que outros lugares, mas é evidente que o pior lugar para você estar deprimido é numa cidade onde não há muito espaço de recolhimento. É numa cidade que te convida para fora. Não estou fazendo uma crítica, essa é uma característica importantíssima de Salvador. Um deprimido num lugar triste pode ficar mais sombrio, mas ele não se sente tão esquisito. Aqui ou no Rio de Janeiro, o cara se sente muito inadequado. Por outro lado, numa cidade onde o turismo é uma fonte de renda importante, acontece que os próprios habitantes começam a desempenhar o papel que os turistas esperam dele. Então, às vezes, me parece que se começa a perder certa autenticidade. Vi Ó Paí, ó e achei que parecia uma propaganda da Bahiatursa, todo mundo se comportando como um clichê. E, no fim, a coisa não é assim, aparece tudo que isso mascara… Então isso é complicado não só para os depressivos, mas para os introspectivos, os “intelectuais“. Passei um Carnaval aqui com uns amigos e adorei. Não o trio elétrico. O trio elétrico é um congestionamento de caminhão com luta de classes dentro, um horror. O roteiro afro que achei lindo. Mas alguns amigos vão embora no Carnaval porque dizem que fica insuportável… As cidades de grande apelo turístico talvez estejam levando a sério demais o clichê e não deem muito lugar à diferença.

Não quero participar do coro dos contentes, mas a alegria também não é uma característica nossa? Sim. Meu companheiro mora em Paris, todo ano vou visitá-lo, e você vê o contraste. O tom é mais triste mesmo. Eles dizem: ’Ah, você é brasileira, por isso que você é sorridente’. Não vou fazer sociologia e explicar por que isso acontece, mas somos uma sociedade mais alegre, mesmo tendo de conviver com miséria, injustiça, desigualdade, exclusão aberrante. Talvez seja uma sociedade que não está inteira tomada pela competitividade capitalista. As pessoas ainda se encontram para jogar conversa fora, para tocar uma música. Foi boa essa pergunta para diferenciar uma alegria que caracteriza nossa sociedade dessa euforia do mundo capitalista. A disponibilidade das pessoas para o mercado depende de elas acreditarem que cada objeto a mais que comprarem lhes dará mais euforia.

A senhora critica o uso indiscriminado de antidepressivos, mas eles são realmente dispensáveis no tratamento? Deixo isso a critério de um psiquiatra em quem confie. Quando uma pessoa começa a faltar à análise e liga dizendo que não consegue sair da cama, digo que ela deve ir ao psiquiatra. Não sou xiita. Não há entre os psicanalistas uma ideia de que o medicamento vá atrapalhar o trabalho. Mas muita gente vai ao psiquiatra e o ouve dizer que análise é uma bobagem, que o remédio é suficiente. E não é. Recebo pacientes que dizem: ’Me medico há 10 anos e não sinto tristeza, mas também não sinto mais nada’. Eles procuram análise sabendo que vão ter de passar por uns buracos de novo… E agora já há pesquisas dos próprios laboratórios que mostram que o antidepressivo depois de algum tempo perde a eficácia. No começo, ele faz uma diferença grande. Você fala: ’Nossa, não estou mais sentindo aquela vontade de morrer’. Mas se o tratamento for só esse, e não elaborar o que causou a depressão, tem pouca eficácia.

Os sintomas expostos nos tais folhetos são bem abrangentes, todo mundo pode se identificar com alguns deles. Como saber que uma pessoa está realmente deprimida e deve procurar ajuda? No geral, quem sofre sabe. Os folhetos não são para a pessoa procurar ajuda, mas para dizer que ela precisa ser medicada… Além do meu trabalho no consultório, atendo pessoas da Escola Nacional de Formação de Lideranças do MST. Como elas têm renda muito baixa, é muito comum encontrar pessoas que estão se medicando há anos, por conta de uma orientação apressada do médico. Estive num assentamento e fiquei hospedada na casa de uma senhora. Ela tinha pouco mais de 60 anos e me contou que tomava antidepressivo desde os 28 anos, quando a filha dela nasceu. Ela ficou “deprimida“, foi procurar remédio e a partir daí nunca mais saiu disso.

Hoje as crianças ricas e de classe média têm agendas cheias. É alarmista dizer que assim os pais estão criando sujeitos mais propensos à depressão?É alarmista se você disser que todas as crianças vão ser depressivas. O que tem aí, antes de mais nada, é que as pessoas estão muito confusas sobre o que é ser um bom pai e uma boa mãe. E isso tem a ver com a influência da publicidade, que nos faz crer que o melhor que você pode fazer para o seu filho é lhe dar muitas coisas, inclusive lhe dedicar todo seu tempo livre. No fim de semana, os pais acham que têm de promover muita diversão, e na segunda estão exaustos! A isso se acrescenta a ideia de que desde cedo você tem de preparar seu filho para o mercado de trabalho. Então é aula disso, curso daquilo… Vai se criando uma infância em que a criança não tem a experiência fundamental de estar entregue a si mesma, tendo que inventar como preencher seu tempo. Elas não conhecem o vazio, no bom sentido do vazio, que é quando a criança começa a “inventar arte“, como diziam os mais velhos. Isso é a fonte da vitalidade infantil, da criatividade, da imaginação, é algo que vale para o resto da vida. Saber que eu posso criar algo sobre o vazio é a potência humana. A sensação de que eu não posso criar nada sobre o vazio, de que preciso de alguém para preenchê-lo para mim, é o começo de uma situação depressiva. Então o bom pai e a boa mãe são pessoas que amparam, amam e educam seus filhos, impõem limites. E aí digo como mãe: uma das coisas mais difíceis é saber que tem horas que seu filho vai te odiar, vai dizer ’eu sou infeliz por sua causa’, e ainda assim você vai ter de bancar um limite que achou importante, para que a criança saiba que seus atos têm consequências.

A senhora defende que o sentimento de pertencimento a determinada ação política, comunidade, tradição, nos livra de um sofrimento maior e nos ajuda a dar sentido à vida. Essa reflexão foi motivada pela sua aproximação com o MST? Não, talvez meu trabalho no MST seja consequência disso. Não é por bondade ou heroísmo, mas saber a que mundo você pertence, que ideais compartilha com a sua geração, nos dá sentido, nos ajuda a seguir em frente. Pertenço a uma geração que teve 20 anos da vida marcados pela ditadura, com o lado negro e o lado interessante disso, que foi a união dos movimentos de esquerda, o interesse pela vida pública. Tudo isso faz parte da minha experiência. Não devemos ficar presos ao passado, mas vejo com preocupação a pressa que os brasileiros tiveram em apagar essa memória. Isso nos impede de reconhecer coisas que ainda não foram sanadas. O Brasil é o único país da América Latina em que a violência policial cresceu após o fim da ditadura. Nossa polícia ainda tortura e assassina.

Pessoa_POMAR

teorias da pessoa em Pessoa

novembro 1, 2009 às 8:35 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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leyla_perrone_ortografia pessoa2w

Na maioria das redações foi expresso o desejo de que o    curso da LitPort3 finalizasse com um aprofundamento dos  estudos pessoanos procurando contemplar dois tópicos: as  teorias da subjetividade que se relacionam com a poesia  desse poeta português e a questão da heteronímia. Para  atingir esses objetivos e agregarmos conteúdos tendo em  vista a segunda avaliação, vamos nos dedicar à leitura & discussão de O Vácuo-Pessoa, um competente ensaio de Leyla Perrone-Moisés (ao lado) no qual se propõe uma perspectiva interpretativa para a obra pessoana baseada nas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Para baixar uma cópia PDF desse texto, clique AQUI (numa conexão de banda-larga, o download levará cerca de 10 minutos). Também há cópia impressa disponível na xerox do campus.

extensão & cultura

outubro 29, 2009 às 11:30 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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extensao&cultura

Mais um evento na nossa universidade que põe em primeiro plano as pesquisas voltadas para as questões identitárias. Clicando na imagem acima, ou logo ao lado, visite o sítio da VI Semana de Extensão, nesta edição desenvolvendo o tema Extensão e Cultura, e confira a diversificada programação que se estende por todos os campi da UFS. Em Itabaiana, terão lugar apresentações artísticas, oficinas, mini-cursos, palestras & exposições  que abordam as expressões da cultura em suas múltiplas dimensões: como performance, como ritual, como produção de artefatos e de saberes, como técnicas, memórias e vida cotidiana. A organização da VI Semana convida os estudantes interessados a trabalhar como monitores do evento, quem quiser se inscrever procure a pedagoga Luciane na Secretaria dos Núcleos. Também ainda existe espaço para a inclusão na programação de entidades e atividades artísticas representativas da cultura sergipana, se você conhece algum grupo, contate a Luciane. 

No mini-curso que estarei oferecendo entre os dias 6 e 7 de novembro, focalizaremos uma obra literária – o romance A gloriosa família, do escritor angolano Pepetela — na qual ficção e história se entrelaçam para a construção de um olhar inovador sobre o passado colonial partilhado por Brasil e Angola, colocando em destaque o ponto de vista de um africano escravizado sobre o sistema cultural e político a partir do qual foram geradas essas nações. Em paralelo a esse trabalho de releitura crítica da história, o romance de Pepetela proporciona um eloquente testemunho sobre a luta do oprimido contra as forças que pretendem desumanizá-lo, sobretudo as ideologias racistas, mostrando como a aparente passividade pode converter-se numa poderosa arma de resistência e de resgate da dignidade. Laureado com o Prêmio Camões em 1997, largamente reconhecido como um dos mais importantes autores da Literatura Angolana, contando com várias edições de suas obras no Brasil, Pepetela  também está entre os escritores africanos mais estudados nas universidades brasileiras. O romance que discutiremos já integrou a lista de textos literários recomendados para o vestibular da Universidade Federal da Bahia, existindo uma ampla bibliografia analítica, inclusive disponível na web, acerca dele. Novas postagens serão feitas em breve no LUSOLEITURAS e no MUJIMBO (clique aqui e saiba muito mais sobre Angola), tendo em vista oferecer suporte ao mini-curso.  

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Pessoa em múltipla escolha

outubro 23, 2009 às 17:40 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Será possível abordar de maneira objetiva e direta a poesia pessoana? O blogue Heteronomia não é Heteronímia demonstra claramente que sim, o que não implica em “facilitar” a leitura e interpretação desses textos, sempre sobrecarregados das tensões ambíguas da modernidade. De qualquer forma, vale a pena um passeio por este blogue (clique nas imagens), tendo em vista relembrar dicas básicas para a análise de textos poéticos, ou juntar informações e argumentos que possam ser úteis para desenvolver em estilo digressivo, conforme será solicitado em nossa prova, a discussão sobre a obra de Fernando Pessoa. Abaixo, fica um exemplo dos exercícios de aquecimento que o blogue aqui indicado proporciona.

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a literatura como espelho trincado do “eu”

outubro 23, 2009 às 16:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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pessoa olhos

A propósito das relações entre literatura, subjetividade e cultura nos contextos modernos, discute Eunice Cabral no E-Dicionário de Termos Literários:

A universalidade do sujeito individual corresponde ao dualismo espírito (alma)  / corpo na medida em que só o espiritual é universal. A espiritualidade apontada toma também a designação de racionalidade enquanto razão centrada no sujeito. Deste modo, a subjectividade adquire um valor supremo, facto cultural que tem vindo a ser criticado. Com antecessores como Marx, Nietzsche e Heidegger até contemporâneos como Bataille, Lacan, Foucault e Derrida, todos acusam a razão (vector organizativo das sociedades ocidentais), que é fundada na subjectividade universal e que é erigida como um absoluto. As obras destes autores, sendo em si muito diferentes, são estratégias para superar o positivismo da razão. (…)

De um modo mais restrito, a subjectividade, manifesta no texto literário, acompanhou o processo de descrédito já mencionado. No início da época moderna, foi encarada como um princípio libertador, fonte de confessionalismo, que se desenvolveu nas literaturas românticas mas, progressivamente, o seu impacto tem vindo a diluir-se. Desde o simbolismo, e acentuando-se com os modernismos, a subjectividade tem vindo a ser entendida como a possibilidade que o escritor tem de interpretar a vida e o mundo enquanto idiolecto de autor, visto que os aspectos subjectivos do texto literário já não dizem respeito apenas à vontade, ao entendimento e à razão de um indivíduo, o autor. Estes valores tornaram-se relativos (porque insuficientes) à luz das várias desconstruções de finais do século XIX, a de Freud, a de Marx, a de Nietzsche. Deste modo, a subjectividade tornou-se sinónimo de “impoder” pela transgressão desindividualizada. O não poder atribuído à subjectividade é uma forma de resistência ao totalitarismo da realidade, que o escritor pode optar por rejeitar. (clique AQUI e leia o verbete “subjectividade” na íntegra)

É importante notar as convergências existentes entre esta discussão e as propostas de Stuart Hall acerca dos “descentramentos”, ou das “desconstruções”, do sujeito moderno que são realizados pelos saberes filosóficos e científicos surgidos entre fins do século XIX e o início do XX. Uma referência ao descentramento operado pela teoria da linguagem de Ferdinand de Saussurre, por exemplo, pode ser identificado na noção de “idiolecto do autor”, apontada por Eunice Cabral como definidora do tipo de escrita literária que caracteriza as obras modernistas. Na poesia de Fernando Pessoa, esse idioleto, ou essa dimensão simultaneamente anônima e intimista da expressão artística moderna, representa-se principalmente naquela produção deste autor que costuma ser lida sob perspectivas esotéricas ou espiritualistas, a exemplo do famoso soneto número XIII do conjunto poemático de “Passos da cruz”:

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido…

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido…

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou…

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser…
Já viram Deus as minhas sensações…

fernando_pessoa tri

Alternativamente às interpretações místicas, podemos propor que o “rei desconhecido” é uma imagem metafórica para o caráter semi-determinista das linguagens humanas, conforme este é analisado por Hall:

Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. (…) Falar [ou escrever em] uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa lingua e em nossos sistemas culturais.

Já do ponto de vista da crítica marxista, a imagem do rei também serviria de metáfora  para o determinismo materialista da história humana, isto é, para a preponderância dos fatores econômicos e sociais na definição de nossos destinos e de nossas personalidades. Embora distintas nas suas implicações filosóficas, ambas as propostas interpretativas aqui destacadas põem em causa a natureza supostamente autônoma do sujeito moderno, tal como era preconizada pelo Iluminismo. A poesia de Pessoa traça a imagem de um eu-vassalo, dividido entre a condição de flanêur desorientado e a de “massa de manobra”, de elemento aprisionado entre as engrenagens das multidões urbanas, conforme vislumbrou Charles Baudelaire em poemas como “As Multidões” (leia uma boa análise deste poema feita por uma estudante de Letras AQUI). Nesse sentido, o “outro e anómalo sentido” a que se refere Pessoa no poema acima pretende justamente traduzir essas experiências de diluição e de alienação que se tornam caracterizantes da condição moderna.

Por sua vez, ainda com relação ao poema XIII, é crucial observar como essa experiência alienante pode rapidamente se converter em formas de sublimação e de superação das angústias modernas. A força que inconscientemente divide a voz lírica pode ser concebida como as fantasias subconscientes que, segundo Freud, fragmentam a subjetividade, fantasias que abrem novas, e por vezes transgressivas, possibilidades de identificação, capazes de libertar o indivíduo do contexto que o oprime social e psicologicamente. Essa terceira linha interpretativa está em aparente contradição com as duas outras sugeridas, mas perceba-se que a coexistência de juízos e sentimentos contrários é uma marca essencial tanto da lírica moderna quanto da poesia heteronômica de Fernando Pessoa. Dar conta dessa multiplicidade ambígua e polivalente é um dos principais desafios que se colocam para os leitores contemporâneos desses textos. Capacidade igualmente necessária para apreciar a produção literária pós-moderna que retoma a problemática da divisão e do descentramento das subjetividades, conforme pode-se ler no famoso poema “Traduzir-se”, do brasileiro Ferreira Gullar:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

 

Assista acima a bela versão de Adriana Calcanhoto, cantada numa tonalidade quase lusitana, para este poema. Aproveite o relax para organizar idéias tendo em vista responder sinteticamente à questão: quais os recursos estéticos mobilizados pela poesia de Fernando Pessoa para “traduzir” as novas subjetividades geradas pela modernidade?

PROVA adiada, REDAÇÃO mantida: orientações

outubro 18, 2009 às 2:25 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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persistencia da memoria_DALI 

(“A persistência da memória”, Salvador DALI, 1931)

De maneira a ganharmos mais um dia de aula para discutirmos os textos, nossas provas, tanto na LitPort1 quanto na LitPort3, ficam adiadas para o dia 30/10, data na qual, impreterivelmente, também devem ser entregues os relatórios das apresentações. Igualmente inadiável é a entrega da segunda redação no dia 23/10. Recordo que o tema da mesma é uma avaliação pessoal, feita por cada estudante, do conjunto das apresentações, devendo também ser feitas as indicações, seguidas de justificativa, do tema que mais interessou ao/à estudante e da equipe que, em sua opinião, melhor se apresentou. A redação deve ter duas (2) páginas, sendo precedida apenas de um cabeçalho com a identificação do/da estudante, data e título da redação. Preferencialmente, encaminhem a redação, em documento Word, para o meu email.

É recomendável estar consultando o blogue com assiduidade pois novas postagens com dicas e sugestões de leituras se tornarão mais frequentes nesses próximos dias, especialmente a partir do próximo final de semana. Desde já, para @s estudantes da LitPort3, fica para reflexão um poema de Álvaro de Campos que coloca em foco as percepções contraditórias quanto à passagem do tempo que afetam aos sujeitos modernos. Algumas dicas importantes para analisar este poema podem ser obtidas no texto “Álvaro de Campos e a definição de um sujeito na vida moderna”, de Ana Lúcia Teixeira, disponível para download AQUI.

 

ADIAMENTO

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
                                Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…
(14-4-1928)

horoscopo campos(mapa astral de Álvaro de Campos traçado por Fernando Pessoa)

identidade & alteridade: inscrições abertas & algumas considerações teóricas & pedagógicas

outubro 16, 2009 às 17:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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alteridade

O que realmente distingue os seres humanos uns dos outros? As características físicas ou os estilos de vida, os valores culturais? De acordo com o que podemos chamar de perspectiva essencialista sobre as identidades, esses valores estariam impregnados no “sangue” ou na “alma” dos indivíduos que compõem cada povo, como resultado dos séculos de convívio endogâmico e de manutenção dos costumes tradicionais, costumes estabelecidos através dos mitos fundadores. Para a perspectiva historicista (também denominada antropológica, ou construcionista, ou pós-moderna), esses valores estão continuamente sendo negociados no interior das sociedades, processo que se dá em correlação direta com as tensões políticas e econômicas que afetam a estas, bem como com o desenvolvimento de novos conhecimentos e interpretações sobre a realidade humana.

No âmbito da Era Moderna –- vale dizer, dos acontecimentos sucedidos nos últimos 500 anos –- a intensificação dos contatos e das trocas entre as mais diversas comunidades torna cada vez mais complexo e problemático a produção de identidades estáveis, questão que também repercute fortemente na estabilidade das estruturas de poder, pondo em xeque diversos tipos de privilégios e barreiras. Em suas dimensões psicológicas e subjetivistas, os processos de identificação vivenciados por cada pessoa abrangem, presentemente, uma gama variada de composições de comportamentos, crenças e gostos, gerando indivíduos multifacetados, sujeitos a transições radicais de personalidade e a crises de orientação. No plano das artes, a complexidade alcançada pelo “jogo das identidades” (Stuart HALL. A identidade cultural na pós-modernidade) expressa-se nos diversificados impulsos de questionamento dos cânones, de renovação formal, de deslocamento temático, de vanguardismo e experimentalismo, de radicalização criativa e de abertura sincrética que vão redefinir as noções de beleza, e do próprio sentido do fazer artístico, ao longo do século XX. Conforme sintetiza Hall, “à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente”.

Em meio à “géleia geral” (ouça a canção de Gilberto Gil com este título no MUJIMBO) que configura as identidades pós-modernas, a qual significado efetivo palavras como diferença ou alteridade podem remeter? Para o professor Francisco Ferreira Lima, retomando conceitos elaborados pelo antropólogo argelino Francis Affergan, a alteridade consiste numa forma de relação intersubjetiva, ou intercultural, que leva os indivíduos a questionarem os fundamentos de suas certezas,de seus critérios de normalidade, estimulando assim a criatividade para a busca de novos projetos existenciais e de novas modalidades de vida coletiva. Contudo, a experiência transformadora da alteridade tende a ser reprimida, segundo Lima, pelo impulso de diferenciação, que tende a menosprezar e desumanizar os valores do Outro que destoem dos padrões fixados pela tradição. Para saber mais sobre esses conceitos, leia o artigo de Francisco Lima, “De Caminha a Mendes Pinto: Brasil, Extremo Oriente e outras maravilhas”, disponível em português na edição eletrônica da Revista de Filologia Románica da Universidade Complutense Madrid. (para ler outros textos de LIMA, consulte o MUJIMBO)

Para os objetivos de nossos cursos, o que o jogo das identidades põe em causa é a aquisição de competências teóricas e interpretativas que possibilitem aos graduandos caracterizar e analisar imagens identitárias representadas em textos artístico-literários, bem como avaliar, no campo das artes verbais, os efeitos estéticos das transformações culturais modernas. Na LitPort 1, merece destaque, entre outros fatores que compõem as visões-de-mundo renascentista e barroca, o estudo das transformações relacionadas à elaboração das ideologias que legitimaram o processo colonial e a hierarquização dos povos em “raças”, tomando-se principalmente o texto de Os lusíadas como objeto desse estudo.

Para a LitPort 3, cabe examinar a repercussão, na poética de Fernando Pessoa, da Revolução Industrial e da crise da racionalidade ocidental gerada pelo que Hall chama de “grandes descentramentos”. A primeira fonte desses descentramentos, segundo Hall, foi a reflexão marxista, que se opôs à idéia liberal-iluminista de autonomia humana fundada no individualismo egocêntrico ou num abstrato livre-arbítrio, voltada apenas para a realização pessoal. Pelo novo ponto de vista proposto por Karl Marx, podemos considerar que as identidades são sempre produtos coletivos e interacionais, fortemente dependentes das condições materiais, ou sócio-históricas, nas quais são engendradas. A alteridade, assim, reporta-se às forças que induzem à superação da sociedade capitalista, criticando-a ou formulando alternativas utópicas para esta.

O segundo descentramento deriva das conclusões de Sigmund Freud acerca da natureza polimórfica e dividida da psiquê humana. Em paralelo à assimilação das regras de convívio social e das imposições da luta pela sobrevivência, cada sujeito lida com uma pluralidade de desejos nos quais, para Freud e Jacques Lacan, se entrelaçam as lembranças da infância e os diversos tipos de “espelhamentos”, ou de projeções identificadoras, que formaram a personalidade. Reorganizados na lógica do “inconsciente”, esses desejos alimentam conflitos psicológicos e morais cada vez mais intricados nos sujeitos modernos, conflitos que se expressam através de comportamentos obsessivos, neuroses, fragmentações e multiplicações do “eu”. A alteridade fica assim instalada no cerne do próprio aparelho psíquico, resultando da coexistência entre as racionalizações conscientes e o fantasiamento inconsciente com que elaboramos nossas narrativas identitárias pessoais e coletivas.

Retomando as teses de Michel Lowy e Robert Sayre (cf. Revolta e melancolia – o romantismo na contramão da modernidade, Vozes, 1995), podemos considerar que o Romantismo, o Realismo e os vários Neo-Realismos expressam os principais efeitos estéticos do descentramento marxista. Para a literatura Modernista, por sua vez, as influências preponderantes derivam do descentramento freudiano e, também, daquele descentramento linguístico que foi promovido pelo trabalho de Ferdinand de Saussurre. Encaradas como sistemas de remissão, através dos quais são gerados, partilhados e recombinados os símbolos que articulam primariamente experiência sensível e pensamento, as línguas desempenham funções básicas na reprodução da realidade e na construção da auto-consciência. Pode-se assim conceber, sob uma ótica logocêntrica, que os processos de estruturação de sentidos que compõem nossas identidades organizam-se como uma espécie de gramática, proposição que coloca em evidência a dimensão discursiva, ou a dimensão narrativa, que é constitutiva dos sujeitos. Uma dimensão marcada pela ambiguidade, pela instabilidade, pelo deslizamento e entrecruzamento dos referentes, como atestam as pesquisas da filosofia pós-estruturalista, renovadoras do pensamento saussureano, pesquisas que fornecem subsídios fundamentais para a formulação teórica do caráter transitivo e “multimodulado” (HALL, op. cit.) do sujeito pós-moderno.

Na poesia de Fernando Pessoa, isto é, nos diversos jogos fonéticos, sintáticos e semânticos com que este escritor procurou traduzir sua subjetividade fragmentada, encontram-se formulados artisticamente os muitos impasses gerados pela exaustão da razão discursiva, pela incapacidade da reflexão científica para superar o materialismo mecanicista e oferecer respostas aos muitos enigmas e mistérios que perpassam o desenrolar efetivo das vidas humanas. A alteridade, nessa poesia, representa-se através de imagens paradoxais, das quais se desdobram ecos, reflexos, sombras, duplicidades, diálogos fantasmáticos, cisões introspectivas, tal como pode ser observado no poema “Brilha uma voz na noute” (ou “A voz de Deus”), ou “Sopra demais o vento” (versos que foram musicados pelo neo-fadista Camané e pelo brasileiro Jardel Caetano), ou no famoso “Autopsicografia”, que aborda a consciência da alteridade interna ao sujeito moderno como dramaturgia íntima, como “fingimento”. Se a alteridade, como sugere Francisco Lima, traduz uma experiência da vertigem identitária, é então sobre ela que escreve Pessoa quando desenvolve as metáforas do abismo, remetendo à percepção da falta de significado estável para a existência; da máscara, que põe em evidência as contradições que se acumulam à medida em que envelhecemos. Mas é sobretudo pelo jogo das heteronímias, é através dessa polifonia  cultivada como estilo, que se expressa a perspectiva mais radical de Pessoa quanto à experiência da alteridade moderna, concebida como um trabalho constante de reescrita, ou de ficcionalização, de si mesmo, isto é, de articulação entre diversas e distintas narrativas pessoais.

 

gepiadde logo

Outro importante momento para aprofundarmos nossa reflexão sobre a alteridade será proporcionado pelo III FÓRUM IDENTIDADES E ALTERIDADES, promoção do GEPIADDE (Grupo de Estudos e Pesquisas Identidades e Alteridades: Diferenças e Desigualdades na Educação) a ocorrer entre 11 a 13 de novembro de 2009 no Campus Itabaiana da UFS, versando sobre o tema: “EDUCAÇÃO, DIVERSIDADE E QUESTÕES DE GÊNERO”. O evento contará com uma grande oferta de mini-cursos relacionados à temática da identidade e está aceitando inscrições para apresentação de comunicações até o dia 31/10. Necessita-se também de voluntários para trabalhar como monitores, os interessados devem entrar em contato comigo assim que possível. No período do Fórum, as aulas nas LitPort 1 e 3 serão suspensas para acompanharmos as atividades. Informem-se e participem!

exercício 1, LitPort3

outubro 7, 2009 às 17:25 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Diz Leyla Perrone-Moisés, famosa pesquisadora da obra de Fernando Pessoa, que todo trabalho sobre este autor “é uma indagação sobre a identidade” [In: Fernando Pessoa: aquém do eu, além do outro]. O grande valor da poesia de FP para esse questionamento reside na maneira como, através dela, se representam algumas das experiências inaugurais de deslocamento e de fragmentação da subjetividade que levarão à transição da relativa estabilidade do sujeito sociológico para a condição instável, dividida e plurifacetada que caracteriza o sujeito pós-moderno. Conforme ressalta Stuart Hall, citando Kobena Mercer, "a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza". Analise e discuta os poemas de Pessoa transcritos abaixo considerando as questões acima referidas, o contexto histórico-cultural da modernidade européia e os “grandes descentramentos” descritos por Hall no capítulo Nascimento e Morte do Sujeito Moderno.

 

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Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!…

A ciência, uma fada
Num conto de louco…
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!

Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!

(4-11-1914)

         * * *

Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala

Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…

(5-6-1917)

       * * *

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

[…]

(Álvaro de CAMPOS, “Ode Triunfal”. 6-1914)

pessoas

novas leituras brasileiras da subjetividade poética de Pessoa

setembro 9, 2009 às 10:34 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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poesia fp 1931

Fernando Pessoa, por Madalena Vaz-Pinto


Poesia (1931-1935 e não datada), de Fernando PESSOA. Editora Companhia das Letras, 2009, 648 páginas.

A editora Companhia das Letras lançou há poucos meses o terceiro volume da poesia de Fernando Pessoa ortônimo a partir da edição portuguesa da Assírio & Alvim. Reúne-se aqui a poesia escrita entre 1931 e 1935, além da poesia não datada. A pesquisa realizada pelos integrantes do Espólio de Fernando Pessoa – em que se inclui a brasileira Cleonice Berardinelli, professora emérita de literatura portuguesa – tem sido da maior importância, não só por dar a conhecer uma quantidade significativa de novos textos, como pelas edições críticas e correções de versões anteriores dos textos de Pessoa. Trata-se de uma atividade que, além de um conhecimento profundo da obra do poeta exige dedicação e perseverança, dada a precariedade de muitos textos, escritos nos mais diferentes tipos de papéis e com uma caligrafia muitas vezes difícil de entender.

Só da poesia ortônima são mais se 350 poemas. Se somarmos a este número a poesia dos heterônimos e textos em prosa, fica-se diante de uma produção que impressiona, e que nos leva a concluir que Pessoa, nem sempre hábil para publicar seus textos, parecia não duvidar de seu valor, guardando na mítica arca tudo o que escrevia. Sobre a poesia que agora se publica, uma questão se coloca de início: é a presença de Pessoa na poesia ortônima distinta da dos heterônimos? Existiria aí um sujeito lírico diferente?

Os 123 inéditos incluídos neste volume fazem parte do grupo dos não datados e, como dizem as organizadoras no posfácio, “apresentam um grau de acabamento menor”, muitos apresentando lacunas, o que dificulta sua leitura e diminui o prazer da fruição. Entre os completos, na maioria poemas curtos, versos de cinco e sete sílabas, característico da poesia ortônima, destaca-se o poema dedicado a Baudelaire: “As podridões geram flores/ Bem o sei, ó alma doente/ Ó exilado dos amores/ Espírito do poente.” Outro poema sobressai, pelo tom anticlerical e jocoso: “Há um método infalível/ Conquanto pareça incrível/ De sempre ter a verdade/ É ouvir um padre ou frade./ O critério não é vário: É sempre certo – o contrário.” Em contraste com este tom leve temos num outro poema o aflorar de questões metafísicas que assombravam o ortônimo “novelo virado para dentro” como se definiu: “Se a ciência não nos pode consolar,/ Não busquemos consolo.// Não peçamos à fé que seja certa/ Mas só que seja nossa.” Por último destaca-se “O último cisne”, um dos mais extensos dados a conhecer nesta edição, e que lembra o poema Pauís, ainda muito próximo do tom simbolista, com suas imagens vagas e frases alongadas.

Uma observação deve ser feita sobre a dificuldade para a localização dos poemas inéditos: o leitor curioso tem de recorrer primeiro às notas finais para identificá-los e, só depois, a partir dos títulos ou primeiros versos, localizá-los no índice. No corpus do texto, apesar de notas com variantes textuais e datas, nada existe que os identifique, o que poderia ser acrescentado em uma próxima edição.

A novidade formal da poética de Pessoa, com a criação dos heterônimos, cada um deles com temas, estilo e dicção próprios, constitui um desafio para os estudos literários. Como ler estes textos? Separadamente, como se cada um constituísse um poema autônomo? Mas como ignorar que todos remetem para um mesmo autor? Uma subjetividade poética que se apresenta plural e descentrada, aponta indubitavelmente para a crise do sujeito cartesiano, uno e idêntico a si, certo da propriedade do seu pensamento. As diferenças virão por conta da forma como se ler essa crise, sintetizada nas palavras fragmentação e multiplicidade. São duas noções, dois conceitos, pode-se dizer, que determinam as principais interpretações da poética de Fernando Pessoa. Uma leitura a partir da fragmentação tende a ver a poesia de Pessoa como uma solução. Pessoa fragmentou-se em várias vozes pela impossibilidade de se manter uno, em um mundo dividido onde não existe mais lugar para narrativas absolutas. Já a leitura pelo viés da multiplicidade, vê nos heterônimos a concretização de uma possibilidade, a possibilidade do sujeito, finalmente, assumir a pluralidade que lhe é intrínseca. Estaríamos então diante de uma escrita de afirmação, uma das mais potentes do mundo ocidental moderno.

Em qualquer destas hipóteses, a poesia ortônima levanta problemas por ser aquela que o poeta assinou com o seu nome: Fernando Pessoa. A tentação é retirá-la do conjunto de que fazem parte os heterônimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, para citar os mais importantes – e entendê-la como uma subjetividade, senão una, pelo menos não tão mascarada. Entretanto, é justamente aí que encontramos dois poemas, verdadeiras artes poéticas, em que Pessoa expõe as bases em que assenta sua poesia. No poema “Autopsicografia”, pode ler-se na primeira estrofe: “O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.” No poema “Isto”, escrito depois, Pessoa parece responder aos que criticavam seu assumido fingimento, reiterando seu entendimento do que fosse escrever: “Dizem que finjo ou minto/ Tudo que escrevo. Não./ Eu simplesmente sinto com a imaginação./ Não uso o coração.” E, na última estrofe: “Por isso escrevo em meio/ Do que não está ao pé,/ Livre do meu enleio,/ Sério do que não é./ Sentir, sinta quem lê.”

O poeta é um fingidor, assume Pessoa, mas de que tipo de fingimento se trata? Trata-se de um fingimento estético, não ético, extra-moral, portanto, e que se realiza pelo uso da linguagem. Através dela opera-se uma alterização, um tornar-se outro, como dizia Rimbaud, o que no caso de Pessoa acontece tanto com o ortônimo como com os heterônimos. Por isso as sensações, noção central na poesia de Pessoa, são meta-físicas, formas de devir-outro, como se o poeta quisesse experimentar essa potência infinita de se outrar, pela linguagem. Separar a poesia ortônima do conjunto formado pelos heterônimos não nos leva a um lugar mais seguro, simplesmente porque ortônimo e heterônimos fazem parte do mesmo processo generalizado de ficcionalização.

Madalena Vaz-Pinto é diretora do Centro de Estudos do Real Gabinete Português de Leitura

FONTE: Suplemento Prosa & Verso, O Globo, 24/08/2009

identidades: o individual, o cultural, o nacional & Stuart Hall

setembro 3, 2009 às 18:56 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Nas duas últimas postagens penduramos exemplos de textos midiáticos & literários que podem servir de apoio para as discussões relacionadas aos temas introdutórios de nossas apresentações. Tanto na abordagem neurofisiologista de Marcelo Gleiser quanto na leitura estético-documentarista de Roberta Franco, enfatiza-se a importância em compreender as identidades como sistemas simbólicos. Ao nível pessoal, esses sistemas constituem-se pelas memórias individuais; ao nível coletivo, pela partilha de valores culturais.

Cultura pode ser muito sintetica & genericamente entendida como todo tipo de ação & reflexão humana sobre a realidade; uma realidade, por sua vez, continuamente recriada pela própria cultura. Sob um ponto de vista social e evolucionista, as culturas são estratégias de adaptação, são as estruturas materiais & imaginárias a partir das quais as comunidades humanas se organizam, se especificam & se desenvolvem historicamente. Conforme discute Stuart Hall no capítulo 3 de A identidade cultural na pós-modernidade, uma das melhores maneiras para se enxergar essas estruturas imaginárias é pela leitura das narrativas identitárias nacionais, daquelas estórias circuladas e retransmitidas cujos significados conectam “nossas vidas cotidianas com um destino nacional que preexiste a nós e continua existindo após a nossa morte” (HALL , 2006, p. 53).  Assim, em última instância, toda identidade se materializa como aquilo que Michel Foucault chamaria de uma “formação discursiva“. Para quem desejar saber mais sobre o livro de Hall, vale a pena conferir alguns bons exemplos de resenhas do mesmo, escritas por Dennis de Oliveira,   Jacqueline Ramos & por um Autor Desconhecido que pendurou a sua no sítio da Usina das Letras. Uma quarta resenha, mais detalhada e composta com esmero, é assinada pela letreira Genny Xavier, & pode ser acessada em seu blogue Baú de Guardados. Uma leitura cuidadosa desse panorama de resenhas, além de oferecer mais nitidez para um conceito-chave em nossos cursos, proporciona uma valiosa experiência de familizarização com os diversos estilos que compõem a escrita acadêmica. Com qual deles você mais se identifica?

Abaixo, uma bela foto de Stuart Hall:

stuarthall tricolor

“Diversidade – Identidade”, por Roberta Franco

setembro 3, 2009 às 1:30 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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“O eu no cérebro”, por Marcelo Gleiser, & pensamentos à deriva, em Fernando Pessoa

setembro 2, 2009 às 16:34 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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CEREBRO

“No caso de cérebros humanos, de longe os mais sofisticados do reino animal, uma outra função essencial é exercida: o senso de individualidade”

Marcelo Gleiser é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA). Artigo publicado na “Folha de SP”, 30/8:

Nosso cérebro, tal qual o de tantos outros animais, exerce funções bem corriqueiras, como a de manter o funcionamento do corpo, as batidas cardíacas, a digestão, e a respiração, atividades que não precisam de concentração para serem feitas. Podemos dizer que são executadas pela parte do cérebro que trabalha como uma espécie de piloto automático, o “cruise control” da mente.

No caso de cérebros humanos, de longe os mais sofisticados do reino animal, uma outra função essencial é exercida: o senso de individualidade, de você saber quem você é, de como você se encaixa na sociedade e no mundo.Os cientistas estão aprendendo cada vez mais sobre como o cérebro humano mantêm o senso individual de ser ele mesmo – um senso misterioso desde os primórdios da humanidade, às vezes chamado de alma.

Neurocientistas estudam corriqueiramente a atividade cerebral, com a ajuda de instrumentos sofisticados como a PET (tomografia por emissão de pósitrons) e a fMRI (imagem por ressonância magnética funcional), que medem o fluxo sanguíneo: quanto maior o número de neurônios ativos, mais oxigenação é necessária e maior é o sinal registrado.

O que surpreendeu os cientistas foi o nível de atividade quando os cérebros dos pacientes estavam em “repouso”, ou seja, quando não estavam focados em alguma tarefa explícita, como fazer um cálculo, escrever ou ouvir música. É nesses momentos que temos nossos devaneios diurnos, quando o pensamento parece ir à deriva, comandado por si mesmo.

Quem já tentou meditar sabe o quanto é difícil “calar a mente”, acalmar a atividade incessante do cérebro. Esse estado, uma espécie de modo de atividade cerebral de fundo (ACF, para simplificar do inglês “default mode network”), parece ter características semelhantes em todos os indivíduos saudáveis, mesmo que individualmente existam diferenças.

O foco de ação ocorre principalmente na região divisória entre os dois hemisférios cerebrais e no córtex frontal e posterior. O interessante é que, quando o indivíduo exerce uma atividade intelectual, como memorizar uma lista de palavras, essa atividade de fundo diminui.

Mas, quando o indivíduo relembra memórias pessoais, ou tenta decidir entre escolhas alternativas de procedimento, o nível de ACF aumenta acima dos valores em repouso.

Juntas, as regiões de córtex frontal e posterior, engajadas em manter a ACF, parecem criar o nosso senso de quem somos, de como nos colocamos no mundo e de como procedemos como indivíduos diante de diversos desafios e escolhas alternativas. Possivelmente, esse modo de funcionamento representa o centro de operações da mente humana.

Neurocientistas vêm investigando conexões entre a ACF e patologias psiquiátricas, da esquizofrenia à síndrome de estresse pós-traumático. Em um estudo com 115 esquizofrênicos e 130 pessoas saudáveis, realizado por Vince Calhoun e seus colaboradores da Universidade do Novo México, alguns dos processos relativos à ACF jamais “desligavam”, dificultando que eles conseguissem se concentrar em tarefas comuns.

Outro estudo, com mulheres que sofreram traumas na infância, indicou falhas na conectividade entre os vários subprocessos da ACF. É sabido que pacientes com esse tipo de síndrome traumática podem perder o senso de identidade por um certo período de tempo.

Aparentemente, a ACF vai criando ligações e desconectando outras conforme a criança vai crescendo. Nosso senso de quem somos vai mudando até a idade adulta, quando fica mais rígido. Ao menos para a maioria das pessoas.

(Fonte: Jornal da Ciência)


fernando boiam pensamentos

Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

Fernando Pessoa (4-8-1930)

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