a difícil mas incontornável mudança na educação brasileira

outubro 6, 2009 às 14:12 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Por que o Enem deve ser valorizado

"Muitos professores e diretores de escola, acomodados, sabiam que, com a nova prova, teriam de mudar o currículo e até o jeito de dar aula"

Gilberto Dimenstein escreve para a "Folha de SP":

Virar um caso de polícia abateu a imagem do Enem – afinal, trouxe a suspeita de que faltou competência e sobrou pressa ao governo, responsável por medir a competência dos alunos. Desconfio que o vazamento das provas tinha por objetivo exatamente desgastar o exame – ou, quem sabe, o Ministério da Educação.

Não disponho de indícios concretos para sustentar minha desconfiança. Mas não consigo entender por que um fraudador procuraria os meios de comunicação para vender documentos. Seria muito mais provável, como ocorreu, que se denunciasse a fraude. Quem sabe, o criminoso era tão ingênuo e desinformado que imaginou que alguém pagaria pelo furo.

O fato é que o estrago foi feito, e só agregou mais danos ao desgaste que já vinha ocorrendo. Muitos professores e diretores de escola, acomodados, sabiam que, com a nova prova, teriam de mudar o currículo e até o jeito de dar aula. Teriam de estimular mais a reflexão do que a decoreba.

Uma aula deveria juntar os conhecimentos de várias matérias – e, portanto, de vários professores. Quem trabalha com educação sabe a dificuldade de ensinar com bases em eixos múlti e interdisciplinares. Exige mais inteligência e criatividade do que despejar o conteúdo dos livros e apostilas. Exige também levar, quase em tempo real, o cotidiano para a sala de aula, encaixando-o nas matérias.

O que já era complicado ficou um pouco mais complicado com a gripe suína; as escolas tinham ainda menos tempo. Some-se a isso que, na escolha dos lugares das provas, alunos foram mandados para bairros distantes de suas casas. E até para outras cidades. Em São Paulo, estudantes de escolas de elite foram convocados a ir para a região do Jardim Ângela, ou seja, a temida periferia.

São sinais de pressa; o Ministério da Educação preferia não deixar o Enem para um ano eleitoral, quando todas as reações se amplificam.

Apesar de todos esses percalços, entre eventuais incompetências e fraudes, o que não se pode esquecer é o seguinte: o Enem é um enorme avanço na educação brasileira. Vai estimular as escolas e seus professores a se reciclarem, o ensino terá de ser mais próximo do cotidiano. Valoriza-se menos a memorização de matérias fragmentadas, e mais um conjunto de habilidades e competências – ou seja, a arte de compreender e aplicar o que se compreende.

O Enem é resultado de uma batalha de décadas de educadores que denunciavam a inutilidade de determinado tipo de educação, que faz da escola não um espaço de curiosidade, mas de sofrimento com informações inúteis.

É uma atitude mais conectada a sociedades baseadas na informação, nas quais a norma é a aprendizagem permanente.

Pior do que a fraude seria uma tragédia coletiva se tal processo fosse postergado. O Brasil terá muito mais dificuldade de se desenvolver sem trabalhadores capazes de entender e traduzir o mundo, capazes de lidar com as novas tecnologias e com as novas demandas das cidades.

FONTES: Folha de SP, 3/10; Jornal da SBPC

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