identidade & alteridade: inscrições abertas & algumas considerações teóricas & pedagógicas

outubro 16, 2009 às 17:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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alteridade

O que realmente distingue os seres humanos uns dos outros? As características físicas ou os estilos de vida, os valores culturais? De acordo com o que podemos chamar de perspectiva essencialista sobre as identidades, esses valores estariam impregnados no “sangue” ou na “alma” dos indivíduos que compõem cada povo, como resultado dos séculos de convívio endogâmico e de manutenção dos costumes tradicionais, costumes estabelecidos através dos mitos fundadores. Para a perspectiva historicista (também denominada antropológica, ou construcionista, ou pós-moderna), esses valores estão continuamente sendo negociados no interior das sociedades, processo que se dá em correlação direta com as tensões políticas e econômicas que afetam a estas, bem como com o desenvolvimento de novos conhecimentos e interpretações sobre a realidade humana.

No âmbito da Era Moderna –- vale dizer, dos acontecimentos sucedidos nos últimos 500 anos –- a intensificação dos contatos e das trocas entre as mais diversas comunidades torna cada vez mais complexo e problemático a produção de identidades estáveis, questão que também repercute fortemente na estabilidade das estruturas de poder, pondo em xeque diversos tipos de privilégios e barreiras. Em suas dimensões psicológicas e subjetivistas, os processos de identificação vivenciados por cada pessoa abrangem, presentemente, uma gama variada de composições de comportamentos, crenças e gostos, gerando indivíduos multifacetados, sujeitos a transições radicais de personalidade e a crises de orientação. No plano das artes, a complexidade alcançada pelo “jogo das identidades” (Stuart HALL. A identidade cultural na pós-modernidade) expressa-se nos diversificados impulsos de questionamento dos cânones, de renovação formal, de deslocamento temático, de vanguardismo e experimentalismo, de radicalização criativa e de abertura sincrética que vão redefinir as noções de beleza, e do próprio sentido do fazer artístico, ao longo do século XX. Conforme sintetiza Hall, “à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente”.

Em meio à “géleia geral” (ouça a canção de Gilberto Gil com este título no MUJIMBO) que configura as identidades pós-modernas, a qual significado efetivo palavras como diferença ou alteridade podem remeter? Para o professor Francisco Ferreira Lima, retomando conceitos elaborados pelo antropólogo argelino Francis Affergan, a alteridade consiste numa forma de relação intersubjetiva, ou intercultural, que leva os indivíduos a questionarem os fundamentos de suas certezas,de seus critérios de normalidade, estimulando assim a criatividade para a busca de novos projetos existenciais e de novas modalidades de vida coletiva. Contudo, a experiência transformadora da alteridade tende a ser reprimida, segundo Lima, pelo impulso de diferenciação, que tende a menosprezar e desumanizar os valores do Outro que destoem dos padrões fixados pela tradição. Para saber mais sobre esses conceitos, leia o artigo de Francisco Lima, “De Caminha a Mendes Pinto: Brasil, Extremo Oriente e outras maravilhas”, disponível em português na edição eletrônica da Revista de Filologia Románica da Universidade Complutense Madrid. (para ler outros textos de LIMA, consulte o MUJIMBO)

Para os objetivos de nossos cursos, o que o jogo das identidades põe em causa é a aquisição de competências teóricas e interpretativas que possibilitem aos graduandos caracterizar e analisar imagens identitárias representadas em textos artístico-literários, bem como avaliar, no campo das artes verbais, os efeitos estéticos das transformações culturais modernas. Na LitPort 1, merece destaque, entre outros fatores que compõem as visões-de-mundo renascentista e barroca, o estudo das transformações relacionadas à elaboração das ideologias que legitimaram o processo colonial e a hierarquização dos povos em “raças”, tomando-se principalmente o texto de Os lusíadas como objeto desse estudo.

Para a LitPort 3, cabe examinar a repercussão, na poética de Fernando Pessoa, da Revolução Industrial e da crise da racionalidade ocidental gerada pelo que Hall chama de “grandes descentramentos”. A primeira fonte desses descentramentos, segundo Hall, foi a reflexão marxista, que se opôs à idéia liberal-iluminista de autonomia humana fundada no individualismo egocêntrico ou num abstrato livre-arbítrio, voltada apenas para a realização pessoal. Pelo novo ponto de vista proposto por Karl Marx, podemos considerar que as identidades são sempre produtos coletivos e interacionais, fortemente dependentes das condições materiais, ou sócio-históricas, nas quais são engendradas. A alteridade, assim, reporta-se às forças que induzem à superação da sociedade capitalista, criticando-a ou formulando alternativas utópicas para esta.

O segundo descentramento deriva das conclusões de Sigmund Freud acerca da natureza polimórfica e dividida da psiquê humana. Em paralelo à assimilação das regras de convívio social e das imposições da luta pela sobrevivência, cada sujeito lida com uma pluralidade de desejos nos quais, para Freud e Jacques Lacan, se entrelaçam as lembranças da infância e os diversos tipos de “espelhamentos”, ou de projeções identificadoras, que formaram a personalidade. Reorganizados na lógica do “inconsciente”, esses desejos alimentam conflitos psicológicos e morais cada vez mais intricados nos sujeitos modernos, conflitos que se expressam através de comportamentos obsessivos, neuroses, fragmentações e multiplicações do “eu”. A alteridade fica assim instalada no cerne do próprio aparelho psíquico, resultando da coexistência entre as racionalizações conscientes e o fantasiamento inconsciente com que elaboramos nossas narrativas identitárias pessoais e coletivas.

Retomando as teses de Michel Lowy e Robert Sayre (cf. Revolta e melancolia – o romantismo na contramão da modernidade, Vozes, 1995), podemos considerar que o Romantismo, o Realismo e os vários Neo-Realismos expressam os principais efeitos estéticos do descentramento marxista. Para a literatura Modernista, por sua vez, as influências preponderantes derivam do descentramento freudiano e, também, daquele descentramento linguístico que foi promovido pelo trabalho de Ferdinand de Saussurre. Encaradas como sistemas de remissão, através dos quais são gerados, partilhados e recombinados os símbolos que articulam primariamente experiência sensível e pensamento, as línguas desempenham funções básicas na reprodução da realidade e na construção da auto-consciência. Pode-se assim conceber, sob uma ótica logocêntrica, que os processos de estruturação de sentidos que compõem nossas identidades organizam-se como uma espécie de gramática, proposição que coloca em evidência a dimensão discursiva, ou a dimensão narrativa, que é constitutiva dos sujeitos. Uma dimensão marcada pela ambiguidade, pela instabilidade, pelo deslizamento e entrecruzamento dos referentes, como atestam as pesquisas da filosofia pós-estruturalista, renovadoras do pensamento saussureano, pesquisas que fornecem subsídios fundamentais para a formulação teórica do caráter transitivo e “multimodulado” (HALL, op. cit.) do sujeito pós-moderno.

Na poesia de Fernando Pessoa, isto é, nos diversos jogos fonéticos, sintáticos e semânticos com que este escritor procurou traduzir sua subjetividade fragmentada, encontram-se formulados artisticamente os muitos impasses gerados pela exaustão da razão discursiva, pela incapacidade da reflexão científica para superar o materialismo mecanicista e oferecer respostas aos muitos enigmas e mistérios que perpassam o desenrolar efetivo das vidas humanas. A alteridade, nessa poesia, representa-se através de imagens paradoxais, das quais se desdobram ecos, reflexos, sombras, duplicidades, diálogos fantasmáticos, cisões introspectivas, tal como pode ser observado no poema “Brilha uma voz na noute” (ou “A voz de Deus”), ou “Sopra demais o vento” (versos que foram musicados pelo neo-fadista Camané e pelo brasileiro Jardel Caetano), ou no famoso “Autopsicografia”, que aborda a consciência da alteridade interna ao sujeito moderno como dramaturgia íntima, como “fingimento”. Se a alteridade, como sugere Francisco Lima, traduz uma experiência da vertigem identitária, é então sobre ela que escreve Pessoa quando desenvolve as metáforas do abismo, remetendo à percepção da falta de significado estável para a existência; da máscara, que põe em evidência as contradições que se acumulam à medida em que envelhecemos. Mas é sobretudo pelo jogo das heteronímias, é através dessa polifonia  cultivada como estilo, que se expressa a perspectiva mais radical de Pessoa quanto à experiência da alteridade moderna, concebida como um trabalho constante de reescrita, ou de ficcionalização, de si mesmo, isto é, de articulação entre diversas e distintas narrativas pessoais.

 

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Outro importante momento para aprofundarmos nossa reflexão sobre a alteridade será proporcionado pelo III FÓRUM IDENTIDADES E ALTERIDADES, promoção do GEPIADDE (Grupo de Estudos e Pesquisas Identidades e Alteridades: Diferenças e Desigualdades na Educação) a ocorrer entre 11 a 13 de novembro de 2009 no Campus Itabaiana da UFS, versando sobre o tema: “EDUCAÇÃO, DIVERSIDADE E QUESTÕES DE GÊNERO”. O evento contará com uma grande oferta de mini-cursos relacionados à temática da identidade e está aceitando inscrições para apresentação de comunicações até o dia 31/10. Necessita-se também de voluntários para trabalhar como monitores, os interessados devem entrar em contato comigo assim que possível. No período do Fórum, as aulas nas LitPort 1 e 3 serão suspensas para acompanharmos as atividades. Informem-se e participem!

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