a literatura como espelho trincado do “eu”

outubro 23, 2009 às 16:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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pessoa olhos

A propósito das relações entre literatura, subjetividade e cultura nos contextos modernos, discute Eunice Cabral no E-Dicionário de Termos Literários:

A universalidade do sujeito individual corresponde ao dualismo espírito (alma)  / corpo na medida em que só o espiritual é universal. A espiritualidade apontada toma também a designação de racionalidade enquanto razão centrada no sujeito. Deste modo, a subjectividade adquire um valor supremo, facto cultural que tem vindo a ser criticado. Com antecessores como Marx, Nietzsche e Heidegger até contemporâneos como Bataille, Lacan, Foucault e Derrida, todos acusam a razão (vector organizativo das sociedades ocidentais), que é fundada na subjectividade universal e que é erigida como um absoluto. As obras destes autores, sendo em si muito diferentes, são estratégias para superar o positivismo da razão. (…)

De um modo mais restrito, a subjectividade, manifesta no texto literário, acompanhou o processo de descrédito já mencionado. No início da época moderna, foi encarada como um princípio libertador, fonte de confessionalismo, que se desenvolveu nas literaturas românticas mas, progressivamente, o seu impacto tem vindo a diluir-se. Desde o simbolismo, e acentuando-se com os modernismos, a subjectividade tem vindo a ser entendida como a possibilidade que o escritor tem de interpretar a vida e o mundo enquanto idiolecto de autor, visto que os aspectos subjectivos do texto literário já não dizem respeito apenas à vontade, ao entendimento e à razão de um indivíduo, o autor. Estes valores tornaram-se relativos (porque insuficientes) à luz das várias desconstruções de finais do século XIX, a de Freud, a de Marx, a de Nietzsche. Deste modo, a subjectividade tornou-se sinónimo de “impoder” pela transgressão desindividualizada. O não poder atribuído à subjectividade é uma forma de resistência ao totalitarismo da realidade, que o escritor pode optar por rejeitar. (clique AQUI e leia o verbete “subjectividade” na íntegra)

É importante notar as convergências existentes entre esta discussão e as propostas de Stuart Hall acerca dos “descentramentos”, ou das “desconstruções”, do sujeito moderno que são realizados pelos saberes filosóficos e científicos surgidos entre fins do século XIX e o início do XX. Uma referência ao descentramento operado pela teoria da linguagem de Ferdinand de Saussurre, por exemplo, pode ser identificado na noção de “idiolecto do autor”, apontada por Eunice Cabral como definidora do tipo de escrita literária que caracteriza as obras modernistas. Na poesia de Fernando Pessoa, esse idioleto, ou essa dimensão simultaneamente anônima e intimista da expressão artística moderna, representa-se principalmente naquela produção deste autor que costuma ser lida sob perspectivas esotéricas ou espiritualistas, a exemplo do famoso soneto número XIII do conjunto poemático de “Passos da cruz”:

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido…

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido…

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou…

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser…
Já viram Deus as minhas sensações…

fernando_pessoa tri

Alternativamente às interpretações místicas, podemos propor que o “rei desconhecido” é uma imagem metafórica para o caráter semi-determinista das linguagens humanas, conforme este é analisado por Hall:

Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. (…) Falar [ou escrever em] uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa lingua e em nossos sistemas culturais.

Já do ponto de vista da crítica marxista, a imagem do rei também serviria de metáfora  para o determinismo materialista da história humana, isto é, para a preponderância dos fatores econômicos e sociais na definição de nossos destinos e de nossas personalidades. Embora distintas nas suas implicações filosóficas, ambas as propostas interpretativas aqui destacadas põem em causa a natureza supostamente autônoma do sujeito moderno, tal como era preconizada pelo Iluminismo. A poesia de Pessoa traça a imagem de um eu-vassalo, dividido entre a condição de flanêur desorientado e a de “massa de manobra”, de elemento aprisionado entre as engrenagens das multidões urbanas, conforme vislumbrou Charles Baudelaire em poemas como “As Multidões” (leia uma boa análise deste poema feita por uma estudante de Letras AQUI). Nesse sentido, o “outro e anómalo sentido” a que se refere Pessoa no poema acima pretende justamente traduzir essas experiências de diluição e de alienação que se tornam caracterizantes da condição moderna.

Por sua vez, ainda com relação ao poema XIII, é crucial observar como essa experiência alienante pode rapidamente se converter em formas de sublimação e de superação das angústias modernas. A força que inconscientemente divide a voz lírica pode ser concebida como as fantasias subconscientes que, segundo Freud, fragmentam a subjetividade, fantasias que abrem novas, e por vezes transgressivas, possibilidades de identificação, capazes de libertar o indivíduo do contexto que o oprime social e psicologicamente. Essa terceira linha interpretativa está em aparente contradição com as duas outras sugeridas, mas perceba-se que a coexistência de juízos e sentimentos contrários é uma marca essencial tanto da lírica moderna quanto da poesia heteronômica de Fernando Pessoa. Dar conta dessa multiplicidade ambígua e polivalente é um dos principais desafios que se colocam para os leitores contemporâneos desses textos. Capacidade igualmente necessária para apreciar a produção literária pós-moderna que retoma a problemática da divisão e do descentramento das subjetividades, conforme pode-se ler no famoso poema “Traduzir-se”, do brasileiro Ferreira Gullar:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

 

Assista acima a bela versão de Adriana Calcanhoto, cantada numa tonalidade quase lusitana, para este poema. Aproveite o relax para organizar idéias tendo em vista responder sinteticamente à questão: quais os recursos estéticos mobilizados pela poesia de Fernando Pessoa para “traduzir” as novas subjetividades geradas pela modernidade?

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