Educação e desenvolvimento

outubro 23, 2009 às 12:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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educação-ideologia ou direito

Elisa Pinheiro de Freitas é doutoranda em Geografia Humana na Universidade de São Paulo. Artigo publicado no "Valor Econômico", 27/8/2009

Todo o debate que coloque no centro das atenções os rumos da educação formal brasileira deve ser acolhido, analisado e, sobretudo, ser força geradora de novas reflexões. É assim que se dá com a constituição dos conhecimentos científicos e tecnológicos que dia-a-dia reestruturam as nossas formas de pensar e ver o mundo.

Contudo, é recente o despertar dos diferentes espectros sociais para as questões relativas ao campo educacional e o desvelamento das enormes fragilidades que caracterizam os sistemas de ensino na sua totalidade. Tanto que foi apenas no último decênio do século passado que se encetou a aplicação de avaliações periódicas para aferir a qualidade das nossas escolas.

Embora o Estado brasileiro na década de 1990 tenha conseguido ampliar o acesso à educação básica, as atuais avaliações têm posto em xeque a capacidade dos nossos sistemas educacionais em ofertar educação de qualidade para a grande parte da população que compõe a nossa sociedade.

Nesse sentido, o grande desafio deste século é, sem dúvida, encontrar caminhos que equacionem o binômio quantidade de vagas e qualidade nos estabelecimentos escolares.

Feitas essas considerações, há que se levantar as seguintes questões: em que medida é possível superar a falência histórica da escola pública brasileira? De que modo o precário investimento na educação compromete o pleno desenvolvimento nacional? A partir dessas observações surge um conjunto de respostas que delimitam tendências de análises e se materializam em ações governamentais.

Um dos argumentos que tem sustentado a explicação para o caos da escola pública é aquele que busca responsabilizar o professor pelo fracasso da aprendizagem do estudante. Ou seja, tem se afirmado que se o aluno não aprende é porque o educador não está devidamente preparado para enfrentar determinadas circunstâncias que são comuns ao considerar a realidade do país.

Como solucionar, então, esse dilema? Nota-se que as ações públicas mais imediatas caminham no sentido de querer propiciar melhor formação para os profissionais do magistério. E não temos dúvidas de que possibilitar ao educador uma sólida formação inicial constitui algo indispensável, mas não somente.

Adam Smith, no Livro I, capítulo 10 de sua obra "A riqueza das nações" (1776), quando discutiu as desigualdades de salários resultantes da natureza do trabalho, destacou a importância de preparar o professor com o mesmo esmero que se forma um jurista ou um médico. Ele inclusive se remeteu à Grécia antiga para explicar que, por haver naquela época poucos professores, o pagamento pelo trabalho deles era elevado.

Porém, dificultava-se à população o acesso aos saberes básicos como a leitura, escrita e o cálculo. Na medida em que há o aumento no número de docentes, o salário começa a se degradar. Mas o autor vê nesse processo algo de positivo: mais pessoas conseguem ser educadas por ter condições de pagar. O mecanismo da oferta e da procura irradia-se para além do trabalho produtivo, alcançando também o que é próprio dos serviços.

Para o processo de reprodução do capital, do desenvolvimento das forças produtivas e, consequentemente, de geração de riqueza era vital oportunizar aos trabalhadores o mínimo contato com os conhecimentos elementares. E preparar o professor constituía uma peça chave.

Posta essas colocações, a tese que defende a formação de e com qualidade do profissional que atua na escola possui um caráter verossímil. Todavia, é preciso que se associe a ela o pressuposto de que a natureza do trabalho docente não pode estar sujeita ao tempo imposto pelo capital. Por diferentes razões.

Primeiro, não é possível ao professor, com uma extensa jornada de trabalho e com um número elevado de alunos sob sua tutela, dispor de tempo para aprimorar-se intelectualmente.

Segundo, educar alguém implica não simplesmente instrumentalizá-lo para o exercício de tarefas específicas, mas, sobretudo, ampará-lo na construção de uma consciência mais ampliada de si e do mundo que o cerca. Ler, escrever e calcular deve ser meio, e não o fim último do processo educativo. Por isso, formar é uma tarefa similar à do artesão. Para este, cada peça criada é singular e o processo de constituição da mesma exige uma temporalidade distinta daquela que impera na indústria.

E, por fim, o terceiro ponto: a instituição escolar não é e nem pode ser concebida como uma fábrica, na qual cada estudante passa por uma espécie de "linha de produção" em que recebe as instruções básicas transmitidas pelo professor. A escola é uma instituição que transcendeu os séculos, porque a elegeram como sendo um meio para se atingir a humanização dos homens. Nesta perspectiva, faz sentido fortalecer a escola pública, dando a ela as condições materiais para que esses ideais não se dissolvam. E o Estado deve assumir o papel de grande investidor dessa instituição e não se deixar conduzir pelos princípios que norteiam a esfera privada.

Há que salientar que o desenvolvimento do Brasil foi profundamente comprometido no decorrer de sua formação por conta da ausência de estabelecimentos de ensino, como assinalou Caio Prado Jr. em sua História Econômica do Brasil (1945). Ele pôs em relevo que a administração pública manteve o país num regime totalmente isolado, dificultando o intercâmbio com outras nações mais bem aparelhadas. Além disso, o sistema de ensino ineficiente contribuiu para o baixo nível intelectual da população, fato este que interferiu diretamente na economia do país.

Logo, privar hoje a população brasileira de uma educação mais elaborada é optar pela subserviência do país no plano internacional. E nada pode ser mais desolador e nefasto para um país do que uma população inculta e pouco civilizada, haja vista que o verdadeiro desenvolvimento nacional, seja nas áreas culturais, científicas e tecnológicas, passa por uma escolha política que priorize a elevação intelectual de seu povo. Se esses princípios não forem contemplados, as nossas escolas públicas continuarão a amargar com os seus baixos índices qualitativos.

FONTE: Jornal da Ciência

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