um herói brasileiro na árdua luta pela educação libertadora

novembro 29, 2009 às 9:04 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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paulofeire2

Declarada a anistia ao educador Paulo Freire

Comissão de Anistia do Ministério da Justiça também pediu desculpas pelos atos cometidos pelo Estado.

Em julgamento nesta quinta-feira, 26, durante o Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, foi declarada a anistia do educador Paulo Freire. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que analisou o requerimento feito pela viúva Ana Maria Freire, em 2007, sob a ótica da perseguição política sofrida pelo educador à época da ditadura, também pediu desculpas pelos atos criminosos cometidos pelo Estado.

"Esse pedido de perdão se estende a cada brasileiro que, ainda hoje, não sabe ler sua própria língua", disse o relator do processo, Edson Pistori. Para ele, a perseguição a Paulo Freire pela ditadura se traduz no impedimento à alfabetização de milhares de cidadãos e, principalmente, à conscientização de cada um deles sobre a própria condição social.

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, em 1921, e morreu em São Paulo, em 1997. Ficou conhecido pelo empenho em ensinar os mais pobres e se tornou uma inspiração para gerações de professores. Freire desenvolveu um método inovador de alfabetização, a partir de suas primeiras experiências, em 1963, quando ensinou 300 cortadores de cana a ler e a escrever em 45 dias. O educador sofreu perseguição do regime militar (1964-1985), ficou preso por 70 dias e foi exilado por 16 anos, considerado traidor.

Em 1967, durante o exílio, no Chile, escreveu o primeiro livro, Educação como Prática da Liberdade. Em 1968, publicou uma de suas obras mais conhecidas, Pedagogia do Oprimido. Freire retornou ao Brasil em 1980, com a anistia que permitiu o retorno dos exilados, e foi nomeado secretário de educação da cidade de São Paulo, cargo que exerceu até 1991.

"Resolvi fazer o requerimento para resgatar a cidadania de meu marido e atestar que ele é um verdadeiro brasileiro. Assim como muitos, ele lutou por um Brasil mais bonito e mais justo", disse Ana Maria Freire. A reparação econômica concedida pela comissão de anistia à viúva de Paulo Freire será de 480 salários mínimos, não excedendo o teto estipulado de R$ 100 mil, pagos em parcela única.

Comissão

A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça existe desde 2002. Até agora, 64 mil requerimentos com pedido de anistia foram protocolados. Destes, 47 mil foram julgados – 30 mil deferidos, 12 mil dos quais com reparação econômica, além do pedido oficial de desculpas do Estado.

Para revelar à população de todo o país os fatos arbitrários praticados durante o regime militar e pedir desculpas, publicamente, às pessoas que resistiram à ditadura e sofreram os atos de violação dos direitos humanos feitos pelo Estado, a comissão criou a Caravana da Anistia. Desde 2008, o projeto visitou 16 estados e está na 31ª edição. Mais de 500 processos já foram julgados.

O projeto é realizado por meio de parceria entre a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, o Instituto Paulo Freire, o Ministério da Educação, as comissões de educação da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), a Associação dos Juízes para a Democracia, o Instituto Catarinense de Aprendizagem e Educação Infantil (Icae), o Movimento dos Sem-Terra (MST), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e a Associação Brasileira de Ensino do Direito (Abedi).

No Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, que será encerrado nesta sexta-feira, 27, há também uma exposição fotográfica sobre Paulo Freire.

(FONTE: Jornal da Ciência; Portal do MEC)

no cinema, em breve, Fernando Bernardo Soares Pessoa

novembro 20, 2009 às 7:57 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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filme desassossego

Notícia retirada do blogue UM FERNANDO PESSOA, que recomendamos para quem quiser se manter atualizado sobre as contínuas repercussões da obra desse prodigioso poeta na nossa atualidade pós-moderna.

 

“Filme do Desassossego” já tem site oficial

Como já noticiámos, João Botelho prepara-se para filmar o "Filme do Desassossego", baseado na obra homónima de Fernando Pessoa. Mas sabiamos ainda poucos pormenores sobre o que seria este filme, além de quem ficou com o papel de Bernardo Soares.

Mas a produtora ar de filmes lançou agora o site oficial do filme com muito mais informação. É muito interessante desde logo salientar que João Botelho aparentemente quer sair um pouco dos clichés em redor de Pessoa e espera inspiração principalmente de dois artistas:"Gerhard Richter para os fundos e as paisagens e Lucian Freud para a posição e atitude dos corpos".

Recomendamos vivamente a leitura do PDF em que se explica todo o projecto para o filme, incluindo as palavras em discurso directo do realizador, que – é bom dizê-lo – em tempos teve em sua posse a famosa arca dos inéditos.

as linguagens de Pessoa & as diferenças linguísticas luso-brasileiras

novembro 19, 2009 às 17:45 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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estas a percber2

Segue abaixo um interessante artigo que tanto aprofunda algumas das questões discutidas na última aula da LitPort 3 sobre a poética pessoana, especificando procedimentos linguísticos que a caracterizam, quanto levanta questões muito úteis para a reflexão que estamos desenvolvendo na LitPort 1 acerca dos intercâmbios e desencontros identitários entre Brasil e Portugal. De quebra, clicando na imagem acima você pode visitar o blogue ESTÁS A PERCEBER? e acessar um ótimo glossário que explicita as grandes diferenças lexicais e semânticas entre o português da terra de Fernando Pessoa e a língua que falamos aqui no Brasil.   

O acordo ortográfico e a saudade de nós mesmos

Heron Moura

O recente acordo ortográfico com os países de língua portuguesa despertou sensações já adormecidas em relação a Portugal. A reforma é percebida como algo que vai aproximar o Brasil do país que nos colonizou; mudanças de ortografia são vistas como um meio de superar o oceano que nos separa (curiosamente, uma mesma sensação não se impõe em relação aos países africanos de fala portuguesa).

Há um sentimento disperso de que algo que se perdeu no passado pode de novo ser encontrado – uma identidade luso-brasileira. Muitas pessoas crêem firmemente que, com o acordo, o português de Portugal vai ficar mais parecido com o português que se fala aqui – como se as letras e os acentos tivessem um estranho poder sobre a articulação das palavras.
É um sonho de volta às origens, de recuperação de uma identidade perdida. Perdemos o trema, mas em compensação o nosso pai, Portugal, está mais próximo de nós. Toda essa emoção não revela também o desejo de dominar o nosso pai, controlando a sua forma de falar?

Na verdade, a reforma ortográfica é um fato político, e não um acontecimento lingüístico. As diferentes línguas (do Brasil, de Portugal e dos países africanos que falam o português) continuarão seus caminhos distintos. Em especial, o português de Portugal soará cada vez mais estranho para nós, brasileiros. A nossa língua, o português do Brasil, evolui num sentido diferente do português europeu. A gramática deles não é a nossa, o léxico muda muito, a forma de articular as palavras é diferente. Ainda nos compreendemos mutuamente, é claro, mas não é certo que essa inter-comunicação possa durar para sempre. Temos que aceitar essa perda de identidade; o Brasil é suficientemente adulto para não precisar de pai. Fica o afeto, mas já acabou a identificação. Portugal é um importante aliado político, mas isso basta.

Nossa separação de Portugal é intensa, profunda. Por exemplo, a literatura produzida aqui é radicalmente diferente da produzida lá. E isso não apenas em função de valores culturais e estéticos discrepantes. A poesia da língua é diferente.

A literatura que se faz lá explora recursos lingüísticos distintos do que exploramos aqui. Quem aprecia a literatura portuguesa o faz percebendo a diferença lingüística da que se faz no Brasil. A poesia da língua é outra.

Mas a literatura tem o poder de evocar uma identidade subliminar, secreta. Ao ler uma frase literária de um bom autor português, sentimos saudades de nós mesmos. Lamento que toda essa celeuma em torno da reforma ortográfica não tenha tocado na questão da identidade literária de nossos países.

Nunca nenhum escritor brasileiro jamais poderia ter escrito como Fernando Pessoa. Não por razões espirituais ou culturais, mas simplesmente porque ele utiliza um material (a língua de Portugal!) que não está disponível para os brasileiros, assim como a nossa língua não está ao dispor dos autores portugueses.

Vou dar exemplos de prosa dessa poesia da língua que Fernando Pessoa constrói com maestria. Os trechos são do Livro do Desassossego.

“Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica”.

A poesia da língua aí consiste em o poeta usar, artisticamente, um recurso próprio do português de Portugal: a nominalização de tempos verbais compostos (“o ter chegado tarde para almoçar”), que transforma uma marcação de tempo num substantivo. O que acontece vira uma coisa, um ser, que afeta a vida do poeta. E também, requinte do português continental, a nominalização de tempos verbais com infinitivo flexionado: “o terem-se acabado os fósforos”. Há toda uma poesia secreta no infinitivo flexionado!

Vou agora mostrar um segundo tipo de poesia da língua: “Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas.”

Fernando Pessoa usa compulsivamente a estrutura Adjetivo + Substantivo + Adjetivo, como em “a pouca luz fria” e “vago azul branco”. Isso dá um ritmo ligeiramente entorpecente à sua escrita, e o permite trazer à tona o mais imperceptível traço de um adjetivo. É claro que no português do Brasil usamos também a anteposição de adjetivos, com efeitos semânticos importantes (como em “pobre homem” x “homem pobre”), mas nem de longe essa construção é tão comum como no português de Portugal: a tríade “vago”, “azul” e “branco” soa muito bem em Portugal. No Brasil, seria pedante e artificial. Só esse tipo de construção já marca claramente a fala literária de Pessoa (e de todos seus heterônimos!). “Breve sombra escura de uma árvore citadina”.

Um último exemplo de construção dessa poesia da língua (mas há vários outros): “Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles”. Ah, como a literatura de Fernando Pessoa é arquitetada sobre esses pronomes anafóricos (“deles”), nessas retomadas de uma palavra anterior, numa circularidade que permite remoer a metafísica de cada coisa, para uma eterna “consciência de mim”. Outra mostra desse vício dos pronomes anafóricos (que retomam uma palavra citada antes): “Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir”. Que prazer lingüístico tem o poeta de retomar o passado com o pronome oblíquo “o”, ainda que não deseje reviver o passado!

Escolhi três tipos de construções que marcam a língua de Fernando Pessoa como uma linguagem diferente da nossa. Nenhum brasileiro escreveria assim, e se o fizesse, soaria extemporâneo. O português de Portugal gera outra poesia da língua, que nos é alheia.
No entanto, ao ler o Livro de Desassossego, sobre a vida mesquinha do funcionário Bernardo Soares, herói só em sonho (”Quantos Césares fui, mas não dos reais”), nos apropriamos dessa linguagem estranha como se fosse nossa. A literatura alheia se torna nossa; a vida alheia se funde a nós mesmos. O português de Portugal volta a ser o português de nossa boca.

Tudo o que o acordo ortográfico não poderá fazer, é realizável através da literatura. Não é na ortografia que está a vida, mas na fusão de som e sentido. Quando lemos oLivro do Desassossego, temos saudades de nós mesmos. E o Bernardo Soares da Rua dos Douradores está bem aqui, na Mauro Ramos ou na Conselheiro Mafra. Essa mesma melancolia tão distante e tão próxima.

(Publicado no Diário Catarinense, em 7 de fevereiro de 2009).

fernando_pessoa oculos

“Os Lusíadas” como discurso nacional

novembro 17, 2009 às 4:27 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Lançando um olhar lúcido sobre o significado e a função do ideário nacional em Os Lusíadas, afirma António Saraiva:

Antes de 1415 Portugal fora um pobre reino, com uma corte que envergonharia qualquer mediano senhor feudal de Espanha ou França. A sua gesta heróica era a da guerra fratricida com Castela, cantada já em canções épicas no começo da monarquia. Mas com a expansão marítima muda a sua visão da história. Como novos ricos em busca de genealogias, os historiadores portugueses procuram antepassados ilustres na Antiguidade. Assim, mitificando a história, perderam de vista as particularidades locais da realidade histórica portuguesa. Releram-se as crónicas tradicionais de maneira que os feitos de armas foram focados de maneira abstracta e gratuitamente heróica, esquecendo-se que eles estão relacionados com a luta de um pequeno povo pela sua sobrevivência na Península Ibérica. Em troca, deu-se à nossa história um significado universal, dentro de uma visão que abrangia o destino da humanidade.

 

saraiva Podemos considerar que no texto do poema Os Lusíadas essa mudança na visão histórica sobre a identidade portuguesa encontra um momento fundamental, que até hoje, passados 437 anos desde a primeira edição desta obra, influencia a maneira como os portugueses constroem sua identidade nacional – e, possivelmente, também o modo como os brasileiros, e outros povos lusófonos, re-significam seus referentes culturais.

stuart hall  

 

 

 

 

Buscando por uma compreensão formal  dos gêneros discursivos que organizam as narrativas identitárias, Stuart Hall propõe-nos a seguinte classificação:

a) NARRATIVAS DA NAÇÃO (ou seja, os textos institucionais e culturalistas que se propõem a “explicar” a nação, abrangendo a historiografia oficial – especialmente os manuais escolares de história –; as interpretações acadêmicas – Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda –; e os discursos que atualizam a realidade da nação, como o “Jornal Nacional”, como nossa conversa cotidiana sobre como “o Brasil não tem jeito”, etc.)

b) NARRATIVAS DA TRADIÇÃO (p.ex., a “Carta de Caminha”)

c) INVENÇÃO DE TRADIÇÕES (p.ex., o Caramuru, de Santa Rita Durão, assim como o Caramuru cinematográfico de Guel Arraes, EStórias que se confundem com a HIStória, e que tendem a deformar os fatos)

d) MITOS FUNDACIONAIS (p.ex., Iracema, de José de Alencar, ou o “mito das 3 raças”, narrativas situadas num tempo indefinível)

e) NARRATIVAS FOLCLÓRICAS (p.ex., as estórias sobre os Bandeirantes, ou as diversas representações da “essência” do povo, como o Macunaíma de Mário de Andrade, o “Jeca-Tatu” de Monteiro Lobato)

Como você classificaria os Lusíadas??

João de Barros, Os Lusíadas lembrados ao povo e contados às crianças

Pessoa: uma poética do vazio & da ausência

novembro 15, 2009 às 18:00 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A propósito das relações entre linguagem, subjetividade e literatura, discute Leyla Perrone-Moisés:

Na poesia, como mostra Jákobson, “não só a própria mensagem, mas igualmente seu destinatário e seu remetente se tornam ambíguos. Além do autor e do leitor, existe o ‘Eu’ do herói lírico ou do narrador fictício e o ‘tu’ ou ‘vós’ do suposto destinatário (…) Qualquer mensagem poética é, virtualmente, como que um discurso citado, com todos os problemas peculiares e intricados que o ‘discurso dentro do discurso’ oferece ao linguista” (in: Linguística e comunicação).

A experiência de Pessoa, nesse campo, é uma das mais agudas e constantes de que se tem notícia. Sua poesia toda tematiza esse saber de linguagem: a linguagem como ausência da coisa e, sobretudo, como ausência do Eu, que não tem nem mesmo um referente estável.

 

Aprofundando a discussão da professora Leyla, podemos propor que a escrita poética de Fernando Pessoa produziu aquilo que Jacques Lacan denominou de “alíngua”, categoria proposta para descrever o “abismo entre o inconsciente e o consciente”, nas palavras do blogueiro Marcos Vinícius. Leia mais sobre esse assunto na postagem A alíngua: ligação entre o consciente e o inconsciente, pendurada no blogue SOCIEDADE E LÍNGUA.

Também vale a pena procurar no Arquivo Pessoa por poemas que possam exemplificar, de maneira mais nítida, essa tematização da ausência a que se refere Perrone-Moisés, tal como este trecho do Fausto – Tragédia subjetiva, uma das primeiras obras de Fernando Pessoa.

pessoa M2

literaturas lusófonas & exaltação das diferenças

novembro 15, 2009 às 10:46 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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lapis lusofono

Livro "Desacordo Ortográfico" quer provocar e valorizar diferenças na língua

 

Rio de Janeiro, 12 nov 2009 – Uma provocação ao acordo ortográfico é como o escritor gaúcho Reginaldo Pujol Filho define a antologia "Desacordo Ortográfico", organizada por ele e que será lançada pela Não Editora, no dia 13, em Porto Alegre.

"A ideia do acordo ortográfico de unificação não vai a favor da literatura", afirmou à Agência Lusa o organizador do livro, que reúne autores como os brasileiros Altair Martins, Luis Fernando Veríssimo, Manoel de Barros e Marcelino Freire, os portugueses Gonçalo M. Tavares, Patrícia Reis, João Pedro Mésseder, Luís Filipe Cristóvão e Patrícia Portela, os angolanos Ondjaki, Luandino Vieira e Pepetela, os moçambicanos Nelson Saúte e Rogério Manjate e a são tomense Olinda Beja, entre outros.

É uma exaltação da diferença, explica Pujol Filho. O projeto do "desacordo" não pretende se opor ao acordo, mas sim provocar e valorizar as diferenças na língua portuguesa. "Essa ideologia que rege esse tipo de acordo vai contra os escritores, que querem romper, transgredir, que querem trazer uma nova forma, um novo jeito de escrever", afirma o gaúcho. Na verdade, o que se quer é fazer uma homenagem à língua-mãe.

Segundo o organizador da antologia, as discussões econômicas têm o pensamento de unificação "de que as melhores coisas são as iguais". Porém, defende, "a literatura fica num campo à parte, no campo do estranho, da tentativa". Pujol Filho destacou a plasticidade da língua portuguesa e como ela propicia a formação de neologismos, "como fazem o Luandino Vieira e o Ondjaki".

Sem brigas

"Não vamos brigar e não vamos mudar o acordo. Acreditamos que a diferença é mais legal do que ser igual", afirmou. Para ele, o sentido de "aceitar as diferenças" se insere em um projeto ambicioso de reunir pessoas talentosas que ainda não foram publicadas no Brasil.

"Tem gente chata que quer tirar o prazer de ler o ‘contacto’ com ‘c’ do Tavares, vamos ter que ler contato. O mais legal é ler os textos com a diferença", ressaltou o gaúcho, ao explicar que o critério para a escolha dos trabalhos para o livro era que os autores estivessem vivos. Mas também foram adotados critérios subjetivos, "autores que me cativam pela linguagem, que me surpreendem com sensibilidade e sutileza, com jeito próprio de trabalhar a linguagem", afirmou. O livro, que levou um ano e meio para ser organizado, reúne contos e poemas e será lançado primeiro em Porto Alegre, mas ainda poderá ser divulgado em outras capitais brasileiras.

"Outro lado"

O projeto do "desacordo", idealizado por Pujol Filho em 2007, tem ainda a meta de alcançar "o outro lado" e extrapolar os limites nacionais do Brasil com outros países lusófonos. “Desacordos-desencontros são vias necessárias para chegar aos acordos-encontros que todos procuramos", destacou Pepetela em comentário escrito sobre o "desacordo"

acordo ortografixo expresso[clique na imagem e visite o blogue PÁGINA UM]

FONTE: UOL

versão legendada de “Os Lusíadas” na xerox

novembro 9, 2009 às 17:26 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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lusiadas azul

Já se encontra à disposição dos estudantes na xerox do campus fotocópias dos Cantos I e IV de Os Lusíadas. As cópias foram tiradas da edição feita por António Saraiva, que inclui paráfrases explicativas de todas as estrofes. Boas navegações nos mares épicos desse poema sempre atual.

a criativa subjetividade do escravo

novembro 6, 2009 às 7:54 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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gloriosa_edEsp                                             pensador-bandeira

Iniciaremos hoje, na sala 106 do Bloco Didática 1, a partir das 13h, o mini-curso “Como funciona a cabeça de um escravo? Leituras de A gloriosa família”. Segue abaixo uma súmula das questões a serem levantadas ao longo dessa atividade.

Publicada em 1999, dois anos depois do laureamento do escritor angolano Pepetela com o Prêmio Camões, A gloriosa família é um nítido exemplar da vitalidade da produção literária oriunda dos países africanos lusófonos, uma produção cujo bem-sucedido arrojo experimental mobiliza recursos de ficcionalização histórica que são emblemáticos dos modos de intervenção escrita pós-coloniais. Ambientado em Luanda durante os sete anos da ocupação holandesa, entre 1641 e 1648, o romance é narrado por um escravo situado numa difusa posição “não visível e não oculta”, a partir da qual se inscreve uma mirada e um testemunho estratégicos sobre o principal entreposto da máquina escravista gerenciada pelo Império Português.

Obrigado a seguir a reboque de seu dono, o traficante flamengo Baltazar Van Dum, cumprindo uma sina de adereço semi-esquecido, este escravo pessoal representa um grau de objetificação do qual derivam imprevistos efeitos de visibilidade. Tido por mudo e retardado mental, esse indivíduo colocado na condição de bijuteria ambulante abre um estranho lugar de transparência para a discussão dos mecanismos de rasura simbólica e de reversão de valores que dinamizavam as relações de poder no mundo colonial, e que presentemente se atualizam nas diversas formas de expressão e de superação do preconceito racial.

No encontro de hoje nos concentraremos em revisitar os profundos, ainda que institucionalmente esmaecidos, laços geo-histórico-culturais entre o Brasil e Angola. Será também apresentado um breve panorama das teorias contemporâneas sobre o racismo e seus efeitos reificadores sobre a subjetividade negra. No final do encontro, serão apresentados trechos do filme Quanto Vale ou É Por Quilo?, de Sérgio Bianchi. Para saber mais sobre esse filme, clique na imagem abaixo.

quanto vale

o “bárbaro” pensa?

novembro 5, 2009 às 9:20 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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pensamento selvagem

Segundo Silviano SANTIAGO,  no texto que estamos trabalhando nesta finalização de nosso curso, “um dos mais belos e instrutivos livros que responde à pergunta ‘Por que e para que viaja o europeu?’ é Tristes trópicos, de Lévi-Strauss. O antropólogo seria a consciência infeliz do viajante e do colonizador europeus. Duplamente infeliz. Primeiro, porque é ele que descobre e presta contas ao Ocidente da destruição do Outro operada em nome da conquista etnocêntrica a que ele dá continuidade. Segundo, porque é ele que pode dar voz a um saber ‘já morto’ (o dos povos destruídos), e este saber – em nítida oposição ao seu – é de pouca utilidade para o país que o gerou e que se quer moderno” (p.234). Ao estabelecer relações entre etnocentrismo, aculturação e alienação, Santiago pretende chamar a atenção para um aspecto fundamental das questões derivadas da diferença cultural: os preconceitos sobre a “primitividade” ou o “barbarismo” de outros povos desempenham funções estratégicas na legitimação ideológica dos “privilégio inatos” ou da “superioridade civilizacional” das elites dominantes. Repetindo e re-maquiando a velhíssima lógica do “dividir para reinar” (ou, numa perspectiva subjetivista, aquela lógica a que Caetano Veloso alude nos versos de Sampa, “Narciso acha feio / o que não é espelho”), a veiculação institucional de discursos discriminatórios e racistas têm como um dos seus principais objetivos impedir a reflexão comparativa e questionadora que pode acabar revelando a gritante fragilidade intelectual e moral de elites parasitárias, estimulando assim a construção popular de projetos civilizacionais diferentes ou de formas inovadoras de organização e de justiça social. Nas sociedades indígenas que habitavam o Brasil antes da chegada dos europeus, ou nos quilombos afrobrasileiros, como o de Palmares, inexistiam as formas de desigualdade sócio-econômica que eram, e continuam a ser, tidas como “naturais” para os parâmetros do capitalismo europeu que Portugal transplantou para o novo mundo tropical.

Para aprofundar a reflexão sobre essas questões, e eventualmente inspirar um pequeno texto redacional, a título de exercício, leia o artigo abaixo, que lança um ponto de vista crítico para a maneira como as matrizes culturais não-europeias são “valorizadas” pela mentalidade eurocêntrica largamente disseminada na mídia brasileira – e será que também nas cabeças de todos nós?  Se quiser saber um pouco mais sobre o trabalho de Lévi-Strauss com os índios, visite o blogue TRISTES TRÓPICOS clicando ao lado ou nas imagens abaixo. 

tristes tropicos

Brasil celebra antropólogo, mas esquece lição política

"Orgulho" por laços entre o intelectual e o país não incluiu seus "mestres" locais, os índios

Rafael Cariello escreve para a "Folha de SP", 04 de Novembro de 2009:

Claude Lévi-Strauss é, entre os grandes intelectuais do século 20, talvez um dos nomes mais conhecidos no Brasil, mesmo por pessoas que nunca chegaram a ler um parágrafo que tenha sido escrito pelo "pai do estruturalismo".

Além de nome familiar, quase todo brasileiro que tenha terminado algum curso universitário sabe que o antropólogo participou do grupo de professores franceses que ajudou a criar, nos anos 30, a Universidade de São Paulo, símbolo de certa modernidade brasileira e ainda hoje a melhor instituição de ensino e pesquisa no país.

Não são essas as únicas razões que fizeram esse intelectual francês, nascido na Bélgica, se tornar, curiosamente, uma espécie de "orgulho nacional" brasileiro.

Como se sabe, o contato de Lévi-Strauss com diferentes populações indígenas do país, em expedições ao então "remoto" oeste brasileiro na segunda metade da década de 1930, forneceram material rico, "bom para pensar", que contribuiria decisivamente para sua obra futura.

E são também narrativas míticas recolhidas por outros autores em grupos "brasileiros", entre eles os bororos, que já haviam sido visitados pelo antropólogo em Mato Grosso, que dão o pontapé inicial e perpassam toda a sua obra maior, as "Mitológicas", quatro volumes sobre a lógica do pensamento ameríndio, em particular, e sobre as próprias condições do pensar, de modo geral.

Cegueira

Como se vê, Lévi-Strauss aprendeu muito com o Brasil, e era razoável que isso terminasse sendo utilizado de forma provinciana, dirão alguns, ou como elemento de uma saudável autoestima, dirão outros. O interessante é que essa lógica narcisista, essa reiterada associação entre o antropólogo e o país depende de um constante esquecimento, uma cegueira mesmo, sobre o que ele de fato escreveu sobre nós, e sobre o que, exatamente, somos esse "nós" (os brasileiros).

Esse "Brasil" com que tanto aprendeu Lévi-Strauss é constituído justamente pelos brasileiros que, ao longo de todo o século 20, o país teimou em esconjurar, em negar – o Brasil das dezenas de grupos indígenas que não desapareceram e que, pesquisas demográficas recentes demostram, voltou a crescer e está aí para ficar.

Enquanto Lévi-Strauss utilizava as preciosas lições que aprendera com grupos indígenas do cerrado e da Amazônia brasileira (sobre outros modos de relacionar natureza e cultura, diferentes concepções metafísicas, lógicas de organização social) para criar um dos pensamentos mais influentes da segunda metade do século 20, a maioria dos brasileiros olhava para os "mestres" do antropólogo como um símbolo de atraso a ser superado ou esquecido, um motivo de vergonha fadado felizmente (eles acreditavam) a desaparecer.

Ao mesmo tempo em que valorizava esse Brasil de que os próprios brasileiros se envergonhavam – Lévi-Strauss pode ser descrito como "carinhoso" ao falar de povos como os nambiquara e os bororo -, o antropólogo foi duro, em alguns momentos implacável, ao apresentar suas impressões sobre a sociedade brasileira urbana, envolta em sua permanente disputa por status.

Para os estudantes da USP recém-montada, escreve Lévi-Strauss em "Tristes Trópicos", "ideias e doutrinas não ofereciam […] um interesse intrínseco, consideravam-nas como instrumentos de prestígio cujas primícias deviam conseguir". "Partilhar uma teoria conhecida com outros equivalia a usar um vestido já visto."

Se uma teoria europeia "antiga" já não valia nada nesse gosto vulgar pelo "moderno", utilizado como signo de prestígio, que dizer dos povos indígenas e suas ideias?

Se, em regra, as coisas não são muito diferentes hoje, é justo notar que foi exatamente no ramo da antropologia, fortemente influenciada por Lévi-Strauss mesmo quando esse autor estava "em baixa", nas últimas décadas, que a academia brasileira conseguiu formar alguns dos seus principais pensadores – nomes como Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro -, reconhecidos hoje entre os principais cientistas sociais em atividade no mundo.

FONTE: Jornal da Ciência 3882

saudades strauss

literatura e libertação cultural

novembro 5, 2009 às 7:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Especialmente para os inscritos no mini-curso “Como funciona a cabeça de um escravo?”, confiram abaixo um belo e instrutivo panorama sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, no qual se destacam a importância da arte literária na renovação das sociedades africanas contemporâneas e as expectativas políticas, culturais e econômicas acerca da crescente incremento nas relações entre o Brasil e o continente onde nasceu a humanidade.

Por uma nova leitura da África
por Luciana Lana – UOL, 04-NOV-2009

Escritores anseiam por difundir a cultura de seus países e desfazer o estereótipo de um "continente exótico"

Reprodução

São 53 nações pobres, devastadas por décadas de guerra. Mas que apresentam um surpreendente "renascimento", traduzido em crescimento econômico, avanço em processos de democratização e maior inserção internacional. Considerada um "escândalo geológico" por guardar em seu subsolo a maioria absoluta dos recursos minerais globais, a África é alvo do interesse e da cobiça de um número crescente de potências econômicas. Só que ainda enfrenta o preconceito, a discriminação, não tendo se livrado da imagem de uma terra exótica, primitiva, miserável e incapaz de se reconstruir por conta própria.

Todo esse mar de contradições que circunda os 30 milhões de quilômetros quadrados do continente africano (22,5% das terras do globo) basta para indicar que é preciso conhecer melhor o que se passa por lá. As diferentes Áfricas, suas culturas, seus idiomas, as histórias de suas nações, suas potencialidades, os caminhos para o desenvolvimento de suas sociedades merecem atenção e pesquisa, para a qual a literatura originada no próprio continente tem farto material a oferecer.

A despeito da precariedade de vida, dos altos índices de analfabetismo, dos traumas ainda sofridos por anos de conflitos armados e demais adversidades, uma legião crescente de escritores de origem africana se revela, contando a história do continente em poesias, romances, contos, que, ainda hoje, reafirmam a diversidade e trazem a marca da resistência cultural. A literatura teve papel fundamental nos processos de independência política dos países africanos.

A considerar especificamente as colônias portuguesas foram intelectuais como Agostinho Neto (Angola), Jorge Barbosa (Cabo Verde), José Craveirinha (Moçambique), Marcelino dos Santos (Moçambique), José Luandino Vieira (Angola), entre outros, que se desviaram da chamada literatura colonial – alienada, feita por autores exógenos e transpassada de preconceitos – para lançar escritos carregados de sentimento nacional, consciência e indignação. "Os poetas foram os primeiros grandes líderes revolucionários na África.

Primeiro, nós escrevemos poemas com palavras de libertação, como o "É preciso plantar" (de 1953, finalizado com os versos "É preciso plantar / pelos caminhos da liberdade / a nova árvore / da Independência Nacional"); depois, muitos de nós partimos para a luta armada", conta Marcelino dos Santos, hoje com 79 anos.

À época, ele assinava seus escritos com os pseudônimos Kalungano e Lilinho Micaia. Foi fundador da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e, após a independência, em 1975, se tornou primeiro Ministro da Planificação e Desenvolvimento.

Uma boa explicação ele dá para o crescimento da língua portuguesa nas colônias e a adoção do idioma pelos escritores nos movimentos de libertação: "Nós queríamos integrar o continente. A nossa poesia dava conta de problemas que eram comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo dificultavam a difusão das nossas ideias libertárias."

O uso da língua portuguesa pela grande parte dos escritores nas ex-colônias de Portugal é motivo de polêmica até os dias atuais. É bem verdade que a expansão da língua se deu às custas de vários idiomas, que simplesmente desapareceram. Moçambique, por exemplo, contava com mais de 20 idiomas.

Em Angola, a língua portuguesa confrontou-se, em especial, com o quimbundo, que até os colonos portugueses eram obrigados a aprender. Mas houve uma "apropriação" e uma "nacionalização" da língua portuguesa por parte dos africanos. Para José Luandino Vieira, o português representou um "troféu de guerra". Após a independência de Angola, ele defendeu que esse fosse o idioma oficial do país.

Há também o registro de que o escritor Luís Bernardo Honwana, natural de Maputo, militante da Frelimo e autor do livro de contos "Nós Matamos o Cão Tinhoso", tenha respondido "a língua portuguesa é nossa também", ao ser questionado, pela plateia de uma palestra que proferiu na Universidade de Minnesota, Estados Unidos, em 1979, "por que, após a independência, os escritores de Moçambique não abandonavam a língua do colonizador?". De fato, vencidas as lutas de independência, a literatura na África ganha um tom de orgulho e a "nacionalização" da língua portuguesa pode ser observada pelo uso que vários escritores fazem de neologismos e termos de idiomas locais misturados às palavras em português. A língua foi reinventada – e, diga-se, continua a ser assim na literatura contemporânea do continente.

"Nós queríamos integrar o continente. A nossa poesia dava conta de problemas que eram comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo dificultavam a difusão das nossas idéias libertárias"
Marcelino dos Santos

Com suas nações independentes, os escritores passaram a defender de forma muito intensa a cultura africana e afirmar a diversidade. Era importante definir posição nas sociedades pós-coloniais. E o fizeram com extrema criatividade e liberdade, rompendo com os padrões europeus e com as normas cultas, abusando de misturas que reafirmavam suas identidades.

O negro, antes sofredor, passava a protagonizar com heroísmo. É dessa fase, por exemplo, o romance "Mayombe", de Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que foi militante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e é hoje um dos maiores escritores angolanos, com 16 romances publicados desde 1973. "Mayombe" foi o terceiro. Escrito entre 1970 e 1971, foi lançado em 1980, contando a história de um grupo de guerrilheiros do MPLA , em ação numa floresta, na região de Cabinda, distante da capital Luanda. Os personagens são nomeados com alcunhas de guerra – Comandante Sem Medo e Comissário Político são os principais, os heróis na grande epopeia. A guerrilha é louvada já na dedicatória: "Aos guerrilheiros do "Mayombe", que ousaram desafiar os deuses."

"Mayombe" é considerado um romance épico. O próprio isolamento do grupo na floresta é condição favorável para o desenho de uma utopia. O romance, no entanto, embute também as primeiras críticas ao movimento, ao sistema e ao que já se previa para o país após a independência.

De modo geral, passado o efeito da vitória nas lutas de libertação, a literatura africana cai na dura realidade do pós-colonialismo. E é múltipla a produção literária nesse período, em que não há mais otimismo e o sonho da transformação dá lugar à consciência crítica. Alguns autores recorrem ao passado – em romances históricos – para explicar as mazelas do presente. Também é frequente a crítica irônica. Em Angola, Manoel Rui lançou, em 1982, a novela satírica "Quem me dera ser onda", denunciando a burocracia e a corrupção, em paródias do cotidiano. O livro tem como protagonista um porco que habita o apartamento de uma família, causando transtornos. É uma crítica irônica à estrutura social pós independência, ao mimetismo dos novos ricos e ao populismo político.

Pepetela, por sua vez, lançou "O cão e os caluandas" (1985), também usando de certa ironia ao abordar a desagregação cultural, social e política. Ele fez de Luanda o microcosmo, por onde passeia um cão, revelando, em fragmentos, as vivências dos moradores da capital angolana.

No mesmo ano (1985), Pepetela lançou também "Yaka" – dessa vez recorrendo a aspectos históricos e retratando Benguela, sua cidade natal. "Yaka" é a estátua que acompanha cem anos da colonização. Em 1989, publicou "Lueji: O Nascimento de Um Império", também pontuado pela história (são retratados dois momentos separados por 400 anos). Em 1992, Pepetela manifesta de forma mais direta sua indignação pelo que se sucedeu à independência com "Geração da Utopia" – em que o próprio título adianta a temática.

Ainda que com uma colonização bastante diferente, Cabo Verde apresenta essas mesmas fases em sua literatura. O aspecto épico fica evidente na poesia de João Varela (que também assinava como João Vário e Timótio Tio Tofe), autor de "O Primeiro Livro de Notcha", publicado em 1975.

A ironia aparece na obra de Germano de Almeida, que em 1989 publicou "O meu poeta", considerado o primeiro romance nacional. Com humor e sarcasmo, Germano satiriza a realidade de Moçambique após a independência.

Na Guiné-Bissau, a crítica vem em tom um pouco mais mordaz na obra de Abdulai Sila, que inaugurou a prosa no país, com "Eterna paixão" (1994). Nesse romance, é através de um personagem afro-americano que o autor mostra o decepcionante quadro do pós-colonialismo. Um ano depois, ele publicou "A Última Tragédia", com referência ao período colonial. E, em 97, lançou "Místida", uma metáfora em que os protagonistas perdem a memória, o dom da palavra, a visão, num quadro de decadência e aniquilação paralelo ao vivido à época. Nesse mesmo ano (1997), Filinto de Barros, que havia sido dirigente do PAI GC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e ministro na Guiné, publicou o romance "Kikia Macho", onde usa o aspecto mítico para falar da desesperança.

Maturidade e reconhecimento

O desenvolvimento da arte – e da produção – literária na África teve e tem características próprias em cada região e em cada país, sobretudo em função da colonização e da língua. Mas é fato que num período relativamente curto – desde a descolonização europeia, 1957, até os dias atuais – houve um grande amadurecimento em quase todo o continente. E o que surpreende é ter se dado num contexto de guerras civis e caos social – o pano de fundo da maior parte das obras literárias do continente ainda hoje.

Alguns dos primeiros autores são as estrelas da literatura contemporânea – o que permite, pelo conjunto de suas obras, uma análise da evolução do fazer literário. É o caso de Pepetela – cujo primeiro livro foi escrito em 1973 (antes até da independência de Angola) e o 16o romance – "O Quase Fim do Mundo" – foi lançado no ano passado. Nesse meio tempo, Pepetela se aventurou até no estilo policial, com "Jaime Bunda, Agente Secreto" (2001) e "Jaime Bunda e a Morte do Americano" (2002). O autor diz que o estilo foi apenas um pretexto para mais uma vez descrever – com humor e crítica – a sociedade angolana: "o policial (o anti-herói Jaime Bunda, paródia de James Bond) entra em todos os lados, em todos as classes e meios sociais".

Nestes dois livros, a crítica social e política já se refere ao neocolonialismo americano. Em 2005, com "Predadores", o autor denuncia as novas elites e o ambiente político que as favorece. Segundo o autor, "As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros e as que têm dinheiro não se interessam pela literatura."

Ainda que não tenham começado lá no período colonial, outros tantos autores despontaram no final da década de 80, com obras de tal qualidade, que rapidamente mereceram o reconhecimento internacional. É o caso dos angolanos José Eduardo Agualusa e Ana Paula Tavares, e do moçambicano Mia Couto. O primeiro soma mais de vinte publicações desde 1989 – são romances, novelas, poesias, contos e guias, que renderam ao autor uma grande coleção de prêmios – o primeiro deles (Prêmio Revelação Sonangol) tendo sido concedido já para o seu primeiro romance, "A Conjura".

A poetisa Ana Paula Tavares inaugura sua obra com "Ritos de Passagem". Depois passeia por contos e, em coautoria com Manoel Jorge Marmelo, publica o romance "Os Olhos do Homem Que Chorava no Rio" (2005). Seu último lançamento foi "Crônicas Para Amantes Desesperados" (2007).

Mia Couto estreou em 1983, com o livro de poemas "Raiz do Orvalho"; depois partiu para contos e, em 1992, lançou seu primeiro romance, "Terra Sonâmbula". Recebeu, entre outros, o prêmio Virgílio Ferreira – um dos mais importantes prêmios literários de Portugal – pelo conjunto de sua obra, em 1999.

Estes fazem parte de um grupo pequeno (mas crescente) de autores que têm suas obras publicadas fora de seus países – e, quase sempre, traduzidas para vários idiomas. Os prêmios literários que conquistam repercutem e fazem despontar novos talentos.

São muito poucas as editoras nos países africanos e o preço dos livros quase sempre inviáveis para a população local. "As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros e as que têm dinheiro não se interessam pela literatura", comenta Pepetela, contando que os escritores que publicam só em Angola vendem em torno de 2 mil exemplares, enquanto ele, publicando em Portugal, chega a vender mais de 20 mil.

Os livros também não circulam no próprio continente africano, nem mesmo entre os países da mesma língua. Escritores de diferentes nações pouco se conhecem – quase sempre são apresentados quando participam de eventos de literatura no exterior.

Foi assim, em novembro, na quarta edição da Fliporto (Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas), em Pernambuco, que teve a diáspora negra como tema e reuniu nomes importantes da literatura dos países lusófonos, além de acadêmicos e pesquisadores.

"Não há dinheiro que financie a arte literária na África. Não há condições de promovermos intercâmbio. Quase não são realizados eventos de literatura e, por isso, nós, escritores, pouco nos conhecemos. Não há recursos para que um escritor viaje a outro país africano para apresentar seu trabalho ou participar de um seminário. Em outras artes – na música, por exemplo – há mais incentivos; os artistas se movimentam mais e divulgam mais seus trabalhos", comentou Paulina Chiziane, considerada a primeira romancista de Moçambique e um dos grandes destaques na Fliporto.

Ao final do evento, emocionada, ela acrescentou: "É muito difícil o nosso acesso à literatura estrangeira. Os livros só nos chegam através do Brasil ou de Portugal e são muito caros. Então, a gente vem aprender como é a literatura do país que está ao nosso lado aqui, num encontro como esse, que às vezes acontece também na Europa. Mas aqui no Brasil é diferente. Aqui, hoje, eu aprendi que se pode fazer festa da literatura. Isso para mim é novo – esse conceito. Um ambiente onde se fala de cultura de forma cultural – é uma experiência nova para mim."

Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique – "Balada do Amor ao Vento" (1990), em que narra um amor proibido. Depois, em 1993, ela lançou "Ventos do Apocalipse", mostrando a situação da mulher durante a guerra.

"O Sétimo Juramento", seu terceiro livro, narra a história de um combatente que recorre à feitiçaria para resolver questões profissionais. "Em Niketche: uma história de poligamia" (2002), ela fala de uma prática tradicional em algumas regiões do país.

"Eu abordo assuntos polêmicos, como a poligamia, que, mesmo combatida pela Igreja e pelo sistema, agora, está a se restabelecer. Em Moçambique, há, praticamente, duas religiões: no sul e no interior, a cristã; no litoral e no Norte, a mulçumana. Os portugueses levaram a monogamia para o sul, enquanto os mulçumanos praticam a poligamia no norte. A religião define os costumes", diz Paulina.

Seu último romance – "O Alegre Canto da Perdiz" (2008) – aborda o racismo entre os próprios africanos – uma mãe negra tem filhos mestiços para "aliviar o negro de sua pele, como quem alivia as roupas de luto".

Com extrema modéstia, Paulina ainda não se acostumou com o título de romancista e diz que os livros surgiram do prazer de fazer breves anotações diárias. A modéstia é também característica da escritora Dina Salústio, autora de "A Louca de Serrano" (1998), primeiro romance de autoria feminina em Cabo Verde: "sou apenas uma mulher que escreve umas coisas".

Assim como Paulina, Dina – também em poesias e contos – retrata o universo feminino, "para mostrar o meu reconhecimento às mulheres caboverdianas que trabalham duro, que carregam água, que trabalham a terra, que têm obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume (…). Falo das mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm nenhum meio de vida escrito; falo da prostituta… Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher".

Outro aspecto em comum entre as duas escritoras é aproximarem seus textos do realismo mágico (a característica que ficou destacada na obra do colombiano Gabriel Garcia Márquez). Dina cria uma Serrano mítica – aldeia onde a vida cotidiana beira o absurdo, com seres de "estranhos costumes", animais que nunca se mexem, pedras com miolo mole e mulheres estéreis que engravidavam por milagre. A louca, assim como outras personagens femininas do livro, denuncia a violência e as privações a que são submetidas as mulheres em Serrano, como também na sociedade caboverdiana.

Para Paulina o seu "realismo mágico" nada mais é do que a própria realidade que vive, repleta de magias e mistérios. "O Sétimo Juramento" trata da feitiçaria. As pessoas da Europa não compreendem muito bem o que é isso. Me perguntavam se era um realismo mágico da América Latina. Eu não sei o que é o realismo mágico da América Latina. O que eu coloquei no livro foi a realidade da minha região", comentou, durante a Fliporto.

O evento contou ainda com outra grande revelação da literatura lusófona – o jovem Onjdaki, que, aos 31 anos, já tem 12 livros publicados, entre contos, poesias e romances.

O escritor – que também é sociólogo e roteirista – nasceu em Luanda e em sua obra, quase sempre traz a memória da infância. Ele justifica: "A experiência da infância é, em geral, muito forte." Através de uma lente de lirismo, Ondjaki vai mostrando a dura realidade de seu país na década de 80. "Eu não faço uma análise crítica do regime; até poderia, mas preferi o olhar das crianças, dizendo com inocência e imparcialidade, o que estava a se passar", explica o autor de "Bom Dia, Camaradas", romance lançado em 2001 e escrito quase que em apenas dois meses. "Um editor me perguntou se eu tinha algo sobre a independência e o período posterior. Eu respondi que sim e entreguei o livro dois meses depois."

Ondjaki é frequentemente questionado sobre o caráter autobiográfico de seus escritos e ele responde que "todo autor passa sua experiência pessoal para o livro". Diz que Luanda é uma cidade que se presta muito à ficção – "todo dia tem uma boa história, um bom mundo para contar" – mas que também há muitas "cidades inventadas" em seus textos.

Representando a Guiné-Bissau, participou da Fliporto o poeta e jornalistaTony Tcheka , lançando "Guiné, Sabura Que Dói", onde, com extrema elegância, ele aponta a destruição sofrida em seu país. O poeta menciona a fome, a criança que não tem tempo para a infância, a guerra e, principalmente, a força da mulher guineense. Essa é também a temática de seu "Noites de Insônia na Terra Adormecida" (1987).

"Eu falo da Guiné. De suas esperanças e desesperanças. E dedico o livro à mulher guineense. A mulher é a pedra angular para manter a família na Guiné. Ela é chefe de família numa sociedade machista. E ela é quem trava a prostituição, o consumo de drogas; evita a desagregação familiar e social. A sua ação tem resultados imediatos. Ela produz, vende e leva alimento para casa. No livro eu mostro isso. Não só destaco a beleza física e espiritual da mulher, mas a luta que ela trava, porque é duplamente explorada – pela sociedade e pelos seus próprios homens, os maridos. Também falo sobre as crianças. Em "Noites de Insônia na Terra Adormecida", procurei tratar de valores universais".

Tony Tcheka foi coordenador das primeiras e maiores antologias poéticas da Guiné-Bissau "Mantenhas Para Quem Luta", "Momentos Primeiros da Construção", "Antologia da Poesia Moderna Guineense" e "Ecos do Pranto" – todas com poesias em crioulo.

"Mantenhas Para Quem Luta" foi editada, logo após a independência, pelo Conselho Nacional de Cultura, reunindo poesias de um grupo de 14 jovens identificados com o movimento de libertação nacional, que ficaram conhecidos como "os meninos da hora do Pindjiguiti. "Pindjiguiti é um porto de Bissau, onde foram reprimidos estivadores e marinheiros que estavam a protestar por menos horas de trabalho e melhores salários. Houve confronto e eles foram baleados por soldados portugueses", explica.

Segundo Tcheka, nas duas primeiras antologias buscou-se poemas que abordassem, basicamente, a luta pela libertação; já na Antologia da Poesia Moderna houve uma mistura de temas e já existia maior preocupação com o estilo literário – "era uma poesia mais adulta e menos engajada, do ponto de vista ideológico". "Ecos do Pranto", por sua vez, é uma reunião de poemas que tem a criança como tema.

Tcheka explica que a razão das antologias era não haver dinheiro para publicar as obras de cada autor em separado – "então nós fazíamos esses pactos de publicação conjunta. Depois, com financiamento da União Europeia, é que foram editadas sete ou oito obras individuais. Foi a primeira oportunidade para os autores da Guiné".

Ele comenta também uma das características mais presentes na literatura africana – a oralidade: "O hábito de escrever é natural. Nós costumamos dizer que escrevemos e publicamos todos os dias. Isso porque temos como costume os encontros em que se contam estórias tradicionais, fábulas, contos infantis, cada qual com sua própria linguagem e formas de expressão. E essa é uma forma de ‘editar’. Na Guiné, esses encontros são chamados de Djumbai e sempre há um orador, um trovador. É uma tradição antiga que foi preservada e ajuda a manter as pessoas num espaço de convívio, de troca de experiências; ajuda a manter viva a criatividade artística. Esses encontros resistiram à modernidade.

É uma forma de editar adaptada às circunstâncias – já que quase não temos editoras. As pessoas perguntam aos autores se têm trabalhos publicados e, sem querer, nós respondemos ‘tenho sim, publiquei esse poema no evento tal, esse outro naquele dia…’.

Ou seja, os djumbai são momentos editoriais. Nossas sociedades não perderam a sua identidade graças à oralidade." E complementa: "O hábito de escrever é natural. Nós escrevemos e publicamos todos os dias no djumbai, encontros em que se contam histórias tradicionais, fábulas, contos infantis. Essa é uma forma de editar"

Tcheka comenta que na Guiné existem atualmente duas editoras pertencentes a dois escritores e elas publicam quase que exclusivamente os livros deles. "Não há política editorial e nenhum incentivo a autores e editores. Também faltam livrarias."

Entre 75 e 80, no entanto, ele comenta que houve maior apoio e muitos sarais culturais eram realizados nas casas de cultura e bibliotecas, "que, antes, só conheciam autores portugueses". Segundo o escritor, a Guiné-Bissau foi uma das colônias portuguesas que melhor se organizou na década de 60. Ele diz que a luta pela independência foi considerada um "ato de cultura" e que foi uma luta bem conduzida do ponto de vista político. "Depois, então, é que nós vivemos onze anos de guerra – uma epopeia que não encontra correspondência política ou econômica.

O país está em fase de estagnação com enormes prejuízos. Embora haja democracia, pluripartidarismo, a situação é catastrófica. As diferenças sociais são enormes, a educação fica em segundo plano, o país está na rota do narcotráfico. Nossa esperança é a criação de um programa para autodeterminação dos povos africanos. Vamos crer que a eleição do presidente americano possa contribuir para isso."

NA BERLINDA
Continente africano ocupa um novo lugar no cenário internacional

Um século de colonização europeia, seguido de algumas décadas de guerra. Essa é em resumo a história da África, fundamentalmente um continente enfraquecido, dominado e prostrado diante dos interesses internacionais, como costuma afirmar Carlos Moore, doutor em ciências humanas e um dos maiores especialistas em assuntos da América Latina e África.

O território africano foi dividido entre países da Europa ocidental na Conferência de Berlim, em 1885, sem que quaisquer questões étnicas e culturais tivessem sido consideradas. O Egito foi o primeiro país a conquistar sua independência em 1922; depois, África do Sul e Etiópia, nos anos 1940. A descolonização foi favorecida pela Segunda Guerra Mundial e se intensificou a partir dos anos 1960.

A independência, no entanto, não trouxe a liberdade e autonomia almejadas pelos povos africanos – "O processo de independência foi minado por relações neocolonialistas: a maioria esmagadora de líderes que chegaram ao poder já estava corrompida e entregue aos interesses hegemônicos mundiais. Tratava-se de elites coniventes com os interesses imperialistas e hegemônicos da Europa Ocidental, dos Estados Unidos e do Japão", aponta Moore.

Vencedores nos movimentos de libertação, vários líderes nacionalistas assumiram o poder em seus países logo após a independência e proclamaram uma África federativa, com um governo central. Entre esses líderes estavam os presidentes de Gana, Kwame Nkrumah; da Guiné, Sekou Touré; do Mali, Modibo Keita; do Congo Brazzaville, Alphonse Massamba Débat; da Tanzânia, Julius Nyerere; seguidos por Amílcar Cabral, na GuinéBissau; Nelson Mandela, na África do Sul; e Tomas Sankara, em Burkina Faso. "Esses líderes foram derrubados com sangrentos golpes de Estado. Em menos de trinta anos, 38 dirigentes africanos foram assassinados em circunstâncias ainda não elucidadas." Segundo Moore, em lugar destes dirigentes nacionalistas e pan-africanos é que ocuparam o poder os atuais governos, "colocados pelos países do Ocidente".

Sob esse ponto de vista, as elites e o poder dominante são os grandes fatores de atraso no desenvolvimento social das nações africanas, pois trabalham para manter o sistema desigual, exploratório, que os favorece. A opinião de Moore é compartilhada por outros estudiosos da evolução do continente que, no entanto, apontam um momento de transição e um avanço gradual nos processos de democratização dos regimes políticos, sem destacar o risco de que "novos arranjos entre elites locais e internacionais não tragam a autonomia decisória nem o desenvolvimento sustentável ao continente", como destaca José Flavio Sombra Saraiva, diretor geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI). "As economias no continente cresceram em tono de 5,6% por ano, desde o início da década. Apesar das crises políticas – na Guiné, Zimbábue, Darfur – há um processo positivo de democratização. O número de países africanos com conflitos armados caiu de 13 para 5, nos últimos seis anos", aponta Saraiva em pesquisa que desenvolve desde 1982.

No subsolo africano estão concentrados os principais minerais estratégicos para a indústria de alta tecnologia. Os 53 países são basicamente exportadores de petróleo, ouro, diamante, tungstênio, urânio e cobre. Mas só participam de 2% do comércio mundial e têm 1% da produção industrial do mundo.

Dona de 66% do diamante, 58% do ouro, 45% do cobalto, 17% do manganês, 15% da bauxita, 15% do zinco e 15% do petróleo – segundo as pesquisas do IBRI -, não é à toa que a África despertou a cobiça de outras potências emergentes, como a China, que lá desembarcou desde 1990, e também a Coreia do Sul, Índia, Turquia, Irã. "A África está no centro de uma concorrência fortíssima de interesses de todas as partes do globo; na berlinda da cena internacional contemporânea", afirma Saraiva.

Mas a imagem estereotipada de um continente exótico e primitivo é ainda prevalecente em todo o mundo – e favorece a exploração. A desinformação e o desprezo das sociedades de diferentes países em relação aos povos africanos contribuem para o enfraquecimento político das suas nações e é motivo de indignação entre os que têm consciência dessa realidade.

"A cooperação internacional virou uma indústria, tal como a indústria armamentista. É revoltante o cinismo da política internacional assim como a ignorância das sociedades no mundo inteiro. Projetos injustificáveis são feitos e só aumentam o déficit dos países africanos. Há forte entrave a produtos africanos pela política protecionista dos países do Ocidente, que pegam a matéria-prima da África, transformam e vão vender seus produtos para o mercado africano. Vamos crer que, finalmente, esse estrondo que sofreu o neoliberalismo traga uma reflexão e novas premissas – as do FMI estão em questão. O mercado não pode ser um altar inquestionável", defende Tony Tcheka.

Brasil – parceiro ou explorador

Em seus quatro primeiros anos de governo, o presidente Lula visitou mais de quinze países em sete viagens à África, o que resultou em acordos bilaterais e projetos de cooperação. A política do Brasil para África, no entanto, ainda tem muito a avançar. "O silêncio sobre o que acontece na África no debate político, nas universidades e na imprensa é indício do desinteresse generalizado pelo outro lado do Atlântico", reclama Flávio Saraiva. Ele defende a colocação do Brasil, com uma política externa voltada para a África, em posição de liderança num projeto cooperativo do Sul, reorientando o eixo diplomático e retomando um modelo de inserção internacional voltado para o desenvolvimento sustentável – mais produtivista e menos financista.

Carlos Moore, por sua vez, faz uma avaliação bastante objetiva da relação BrasilÁfrica: para ele está claro que há no Brasil um setor de ponta na economia, interessado em ter acesso às matérias-primas e ao mercado africano – crescente e excelente para escoamento de produtos manufaturados. Há também, segundo Moore, as elites eurocêntricas e europeizadas, admiradoras dos métodos norte-americanos, que não consideram a África como parceira a se respeitar, mas como continente provedor de escravos, digno de ser explorado e humilhado.

Essas elites têm, em suas mãos, os meios de comunicação e forjam imagens distorcidas que podem permitir que a opinião pública e a sociedade civil se mostrem omissas e coniventes com a exploração na África. "São forças conservadoras, tradicionalmente negrofóbicas, que herdaram um desprezo para com o continente africano que as cega ao ponto de se oporem ao desenvolvimento de relações econômicas entre suas empresas e os países africanos, embora essas relações favoreçam às suas próprias economias", disse o professor em entrevista ao Jornal Ìrohìn, em 2007.

A política africana que o Governo Lula pretende estabelecer junto a um conjunto de empresas brasileiras, para Moore, representa os interesses de grupos com uma visão bem mais ampla do que essas elites retrógradas que desprezam o continente. Entretanto, há uma forte tendência de o país repetir na África a relação neocolonial que outras potências já estão adotando. "Os chineses não estão nem um pouco preocupados se os trabalhadores empregados estão protegidos sindicalmente ou não. Eles estão simplesmente interessados em dispor de uma força de trabalho mais barata e se apropriar dos recursos do continente, pagando o menos possível."

A pressão da sociedade civil é, na opinião de Moore, a única forma de garantir que as empresas brasileiras atuantes no continente africano cumpram um código de conduta ética e evitem relações neoimperialistas.

Mas, para isso, a sociedade civil precisa de informação sobre a África e – conforme escreveu Flávio Saraiva – "as escolas continuam afônicas de estórias da África; as tragédias e genocídios ganham a cor espetacular das telas televisivas, enquanto as experiências de estabilização e crescimento econômico assim como as iniciativas políticas de redução da pobreza e das doenças endêmicas na África são silenciadas".

"Penso, muitas vezes, em Angola e no Brasil como dois irmãos separados durante a infância. Quando um dia se reencontram, o irmão rico ignora o pobre; o pobre, pelo contrário, conhece tudo sobre o rico, as suas vitórias e os seus dramas, e incomoda-o a ignorância do irmão."
José Eduardo Agualusa

BEM ALÉM DA ORTOGRAFIA
Artistas e intelectuais defendem projetos de integração mais amplos entre os países de língua portuguesa, sobretudo entre o Brasil e África lusófona

O Brasil precisa conhecer a África. Essa é uma reclamação feita em coro nos países da África lusófona. "Nós compartilhamos alguma identidade. A língua é uma ponte que pode nos ajudar a consolidar essas nossas identidades. Pode haver uma articulação oficial entre os países, mas eu acredito que a integração deveria ser motivada através da cultura", defende Tony Tcheka.

A mesma opinião é do escritor Ondjaki, que, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, há dois anos, sugeriu que fossem realizados "encontros regulares, diálogos culturais, ao menos um encontro anual, reunindo os oito países que falam português como língua oficial, com a participação de escritores, pintores, músicos…"

Ondjaki identifica o surgimento de uma geração nova de artistas trabalhando, em diferentes áreas, o conceito de uma África moderna. "Nós recusamos a compaixão para com o continente africano; recusamos a visão exótica, idiótica, que fazem, às vezes, da nossa literatura. E apostamos em uma modernidade africana, que tenha uma expressão livre."

José Eduardo Agualusa, sócio no Brasil da editora Língua Geral, que só publica autores dos países lusófonos, é outro a reforçar essa ideia e sugerir, de forma direta, medidas que podem facilitar o intercâmbio cultural entre o Brasil e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop): "eliminação de taxas alfandegárias sobre livros, discos, filmes e outros produtos culturais; apoio à edição de livros de autores brasileiros nos Palop e de africanos no Brasil; oferta de bolsas de criação artística para escritores residentes e prêmios, em diferentes áreas, para trabalhos de aproximação entre os povos; criação de um "passaporte lusófono"; apoio à criação de meios de comunicação que se proponham a estabelecer pontes culturais entre os países de língua portuguesa". Essas foram algumas das ideias que o escritor apresentou no Fórum Brasil África – Política, Cooperação e Comércio, realizado em Fortaleza, há cinco anos.

Na ocasião, Agualusa emocionou o público, ao discursar: "Penso, muitas vezes, em Angola e no Brasil como dois irmãos separados durante a infância. Um partiu para terras distantes e prosperou. O outro ficou na aldeia natal, mas foi seguindo sempre, através dos jornais, através das televisões, o destino do irmão. Quando um dia se reencontram, o irmão rico ignora o pobre; o pobre, pelo contrário, conhece tudo sobre o rico, as suas vitórias e os seus dramas, e incomoda-o a ignorância do irmão."

Para os escritores, o acordo ortográfico foi importante, mas de muito pouco alcance para a integração almejada. "O que inviabiliza a leitura dos livros são os preços, quase sempre muito altos por conta dos impostos praticados entre os países", pondera Ondjaki.

Fora os artistas e intelectuais, alguns empresários também já atentam para a importância da integração entre o Brasil e a África lusófona, sobretudo no que diz respeito à educação e à transferência de conhecimentos. Há um ano, o economista Nei Cardim, Vice-Presidente do Conselho Federal de Economia, coordenou a participação brasileira no VII Encontro de Economistas de Língua Portuguesa, realizado em Maputo, Moçambique. De volta ao Brasil, após o evento, ele defendeu: "O grande avanço conseguido pelo Brasil nos diversos campos do conhecimento deve ser colocado à disposição dos africanos".

FONTE: O Educacionista, 04/11.

vazio moderno, depressão, carnaval & engajamento

novembro 2, 2009 às 13:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Segue abaixo um excelente texto midiático para estimular uma reflexão acerca dos efeitos extra-literários e contemporâneos daquela condição simultânea de multiplicação e esvaziamento que, para Leyla Perrone-Moisés, configurou a produção poética de Fernando Pessoa. Aliás, conforme o próprio poeta diagnosticou acerca dos indivíduos de seu (nosso) tempo:

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.
Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.
Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.
Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.

[In: PESSOA, Fernando. Aforismos e afins. Edição e prefácio Richard Zenith. Tradução Manuela Rocha. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.12.]

 

Maria Rita Kehl: “O vazio é nossa condição básica”

Tatiana Mendonça, 26 de outubro de 2009, Revista Muito, ATARDE online

A aceleração da vida cotidiana, que dispensa devaneios, pausas, reflexões e ineficiências – e nos faz crer que nunca estamos aproveitando o tempo como deveríamos –, torna nossa experiência mais pobre e contribui para fazer da depressão o principal sintoma social da atualidade. É nisso que acredita a doutora em psicanálise Maria Rita Kehl, 57, que lançou este ano o livro O tempo e o cão – a atualidade das depressões. No último dia 16, ela esteve em Salvador participando do ciclo de debates Fronteiras Braskem do Pensamento e falou à Muito sobre a doença.

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Li que a senhora não acompanhava pacientes depressivos, preferia encaminhá-los para outros analistas. O que a fez mudar de ideia? Logo no começo da minha clínica, atendi duas pessoas que se suicidaram com pouquíssimo tempo de análise. Isso para o analista é arrasador, de certa forma me senti responsável. Então achei que precisava aprender mais. Depois, me dei conta de que essas pessoas nem eram deprimidas, mas ainda assim, durante muito tempo, não atendi depressivos… Mas aí aconteciam casos de pessoas que, ao longo da análise, ficavam deprimidas e eu, com o amadurecimento, fui aprendendo a lidar. Fiquei muito interessada em saber o que elas tinham a dizer.

O que leva a senhora a afirmar que a depressão é o “principal sintoma social do nosso tempo”? Primeiro, sintoma social é algo que desafia as condições da vida de determinada época. A histeria das mulheres foi o sintoma social do século 19, por desafiar tudo que se pretendia da mulher no momento em que se formava a chamada família burguesa, em que a mulher era o centro do lar, e o homem, o empreendedor. Hoje é a depressão que desafia a norma contemporânea da euforia, da festa, que recusa os convites para fazer o tempo render na forma de felicidade, alegria, gozo. A outra razão é que a depressão cresce de forma epidêmica. Segundo dados da OMS, será a doença mais comum do mundo em 2030. E isso acontece de certa forma na contramão, já que hoje somos mais livres sexual e moralmente; cada um pode de alguma maneira escolher seu destino; há grandes conquistas da saúde, se pode viver mais e melhor até bem mais tarde.

Mas esse crescimento em certa medida não vem de muita gente dizer, por qualquer coisa, que está deprimida? Você tem toda razão. Justamente porque a regra social é que as pessoas sejam felizes, elas não sabem o que fazer com as tristezas normais da vida, principalmente o adolescente. Quando ele se deprime, se sente o último dos seres humanos, não têm coragem nem de buscar apoio nos amigos. Um colega psicanalista, orientador de um grande colégio em São Paulo, me contou que em um ano atendeu 40 adolescentes que tinham diversas razões para estar meio tristes. E ele perguntou a todos: ‘Você já conversou com algum amigo sobre isso?‘. Dos 40, só um tinha conversado. Ou seja, essa rede de apoio não funciona na hora da tristeza. Aí os caras vão para os remédios. Para divulgar o antidepressivo, a indústria farmacêutica divulga também a doença, e aí coloca lá nos folhetinhos: ’Você pode estar deprimido, mas depressão tem cura. Veja aqui os sintomas’. Aí a pessoa já chega dizendo para o médico que está deprimida, e o médico, até por precaução, vai lá e dá o remédio, o que enviesa as estatísticas. É muito raro um psiquiatra com tempo para ouvir e saber o que está acontecendo de verdade com o paciente.

Se a depressão é uma “recusa à festa“, uma súplica de que exista um “tempo de compreensão“ que a correria da vida nos roubou, há algum valor na doença? A depressão tem uma via de conhecimento do psiquismo que o próprio depressivo ignora. Talvez o trabalho de análise consista em fazer com que ele tire benefícios disso. Outro valor é que o depressivo é menos seduzido pela publicidade, pelo consumismo. Ele não está tão encantado por essa ideia de que a vida é um caminho de acumular grana, objetos, acha tudo isso um pouco chato… E o depressivo também conhece mais o vazio, que pode ser uma condição muito interessante do trabalho psíquico. Se ele fica só com o vazio, é terrível, mas se ele suporta o vazio, pode vir a construir outra via, talvez mais verdadeira. Na palestra, eu brinquei: vou dar uma má notícia, a vida não tem sentido. E é isso, a gente é que dá sentido à vida. O vazio é nossa condição básica. A gente não sabe de nada. A única coisa que a gente tem ao nascer é uma certa garantia de que as pessoas que nos conceberam nos amam. E olhe lá… Às vezes elas não nos amam, nos conceberam por acaso, são confusas… Em cima do vazio é que a gente acrescenta muita coisa. Então o depressivo pode fazer um percurso menos iludido, menos alienado de si mesmo.

O que não quer dizer que ele não deva ser tratado, claro. Sim, evidente, a análise é fundamental. Tem gente que passa a vida inteira dentro de um quarto, é horrível. Pode até se medicar, não vai pular pela janela, mas se acostuma a passar a vida meio em branco. E a vida é uma só.

Como relacionar a depressão à obrigação de ser feliz, especialmente numa cidade vendida como a “terra da felicidade“? Não sei dizer se Salvador tem mais gente deprimida que outros lugares, mas é evidente que o pior lugar para você estar deprimido é numa cidade onde não há muito espaço de recolhimento. É numa cidade que te convida para fora. Não estou fazendo uma crítica, essa é uma característica importantíssima de Salvador. Um deprimido num lugar triste pode ficar mais sombrio, mas ele não se sente tão esquisito. Aqui ou no Rio de Janeiro, o cara se sente muito inadequado. Por outro lado, numa cidade onde o turismo é uma fonte de renda importante, acontece que os próprios habitantes começam a desempenhar o papel que os turistas esperam dele. Então, às vezes, me parece que se começa a perder certa autenticidade. Vi Ó Paí, ó e achei que parecia uma propaganda da Bahiatursa, todo mundo se comportando como um clichê. E, no fim, a coisa não é assim, aparece tudo que isso mascara… Então isso é complicado não só para os depressivos, mas para os introspectivos, os “intelectuais“. Passei um Carnaval aqui com uns amigos e adorei. Não o trio elétrico. O trio elétrico é um congestionamento de caminhão com luta de classes dentro, um horror. O roteiro afro que achei lindo. Mas alguns amigos vão embora no Carnaval porque dizem que fica insuportável… As cidades de grande apelo turístico talvez estejam levando a sério demais o clichê e não deem muito lugar à diferença.

Não quero participar do coro dos contentes, mas a alegria também não é uma característica nossa? Sim. Meu companheiro mora em Paris, todo ano vou visitá-lo, e você vê o contraste. O tom é mais triste mesmo. Eles dizem: ’Ah, você é brasileira, por isso que você é sorridente’. Não vou fazer sociologia e explicar por que isso acontece, mas somos uma sociedade mais alegre, mesmo tendo de conviver com miséria, injustiça, desigualdade, exclusão aberrante. Talvez seja uma sociedade que não está inteira tomada pela competitividade capitalista. As pessoas ainda se encontram para jogar conversa fora, para tocar uma música. Foi boa essa pergunta para diferenciar uma alegria que caracteriza nossa sociedade dessa euforia do mundo capitalista. A disponibilidade das pessoas para o mercado depende de elas acreditarem que cada objeto a mais que comprarem lhes dará mais euforia.

A senhora critica o uso indiscriminado de antidepressivos, mas eles são realmente dispensáveis no tratamento? Deixo isso a critério de um psiquiatra em quem confie. Quando uma pessoa começa a faltar à análise e liga dizendo que não consegue sair da cama, digo que ela deve ir ao psiquiatra. Não sou xiita. Não há entre os psicanalistas uma ideia de que o medicamento vá atrapalhar o trabalho. Mas muita gente vai ao psiquiatra e o ouve dizer que análise é uma bobagem, que o remédio é suficiente. E não é. Recebo pacientes que dizem: ’Me medico há 10 anos e não sinto tristeza, mas também não sinto mais nada’. Eles procuram análise sabendo que vão ter de passar por uns buracos de novo… E agora já há pesquisas dos próprios laboratórios que mostram que o antidepressivo depois de algum tempo perde a eficácia. No começo, ele faz uma diferença grande. Você fala: ’Nossa, não estou mais sentindo aquela vontade de morrer’. Mas se o tratamento for só esse, e não elaborar o que causou a depressão, tem pouca eficácia.

Os sintomas expostos nos tais folhetos são bem abrangentes, todo mundo pode se identificar com alguns deles. Como saber que uma pessoa está realmente deprimida e deve procurar ajuda? No geral, quem sofre sabe. Os folhetos não são para a pessoa procurar ajuda, mas para dizer que ela precisa ser medicada… Além do meu trabalho no consultório, atendo pessoas da Escola Nacional de Formação de Lideranças do MST. Como elas têm renda muito baixa, é muito comum encontrar pessoas que estão se medicando há anos, por conta de uma orientação apressada do médico. Estive num assentamento e fiquei hospedada na casa de uma senhora. Ela tinha pouco mais de 60 anos e me contou que tomava antidepressivo desde os 28 anos, quando a filha dela nasceu. Ela ficou “deprimida“, foi procurar remédio e a partir daí nunca mais saiu disso.

Hoje as crianças ricas e de classe média têm agendas cheias. É alarmista dizer que assim os pais estão criando sujeitos mais propensos à depressão?É alarmista se você disser que todas as crianças vão ser depressivas. O que tem aí, antes de mais nada, é que as pessoas estão muito confusas sobre o que é ser um bom pai e uma boa mãe. E isso tem a ver com a influência da publicidade, que nos faz crer que o melhor que você pode fazer para o seu filho é lhe dar muitas coisas, inclusive lhe dedicar todo seu tempo livre. No fim de semana, os pais acham que têm de promover muita diversão, e na segunda estão exaustos! A isso se acrescenta a ideia de que desde cedo você tem de preparar seu filho para o mercado de trabalho. Então é aula disso, curso daquilo… Vai se criando uma infância em que a criança não tem a experiência fundamental de estar entregue a si mesma, tendo que inventar como preencher seu tempo. Elas não conhecem o vazio, no bom sentido do vazio, que é quando a criança começa a “inventar arte“, como diziam os mais velhos. Isso é a fonte da vitalidade infantil, da criatividade, da imaginação, é algo que vale para o resto da vida. Saber que eu posso criar algo sobre o vazio é a potência humana. A sensação de que eu não posso criar nada sobre o vazio, de que preciso de alguém para preenchê-lo para mim, é o começo de uma situação depressiva. Então o bom pai e a boa mãe são pessoas que amparam, amam e educam seus filhos, impõem limites. E aí digo como mãe: uma das coisas mais difíceis é saber que tem horas que seu filho vai te odiar, vai dizer ’eu sou infeliz por sua causa’, e ainda assim você vai ter de bancar um limite que achou importante, para que a criança saiba que seus atos têm consequências.

A senhora defende que o sentimento de pertencimento a determinada ação política, comunidade, tradição, nos livra de um sofrimento maior e nos ajuda a dar sentido à vida. Essa reflexão foi motivada pela sua aproximação com o MST? Não, talvez meu trabalho no MST seja consequência disso. Não é por bondade ou heroísmo, mas saber a que mundo você pertence, que ideais compartilha com a sua geração, nos dá sentido, nos ajuda a seguir em frente. Pertenço a uma geração que teve 20 anos da vida marcados pela ditadura, com o lado negro e o lado interessante disso, que foi a união dos movimentos de esquerda, o interesse pela vida pública. Tudo isso faz parte da minha experiência. Não devemos ficar presos ao passado, mas vejo com preocupação a pressa que os brasileiros tiveram em apagar essa memória. Isso nos impede de reconhecer coisas que ainda não foram sanadas. O Brasil é o único país da América Latina em que a violência policial cresceu após o fim da ditadura. Nossa polícia ainda tortura e assassina.

Pessoa_POMAR

mini-curso de literatura angolana

novembro 1, 2009 às 22:05 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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gloriosa extensão cultura

Dando suporte ao mini-curso que ministrarei durante a VI SEMEX, seguem-se uma série de links que remetem a alguns dos textos a serem discutidos em nossos encontros. Esta atividade tem como principal objetivo veicular conteúdos e referências bibliográficas úteis para as aplicações da Lei 11645 baseadas no trabalho com a criativa e questionadora literatura angolana contemporânea. No âmbito dos objetivos da Lei, esses textos se mostram especialmente interessantes para a releitura dos processos formadores da sociedade brasileira, possibilitando o estudo contrastivo de dinâmicas estratégicas como as relações de poder escravagistas e a mestiçagem.

A partir do dia 5/11 estará disponível na xerox do campus de Itabaiana uma pasta contendo diversos textos que abordam a temática do curso sobre os pontos de vista histórico, literário e culturalista. O programa completo pode ser acessado AQUI.

Apesar da carga horária sintética, o curso se empenhará em ampliar nossos conhecimentos acerca da realidade angolana, também reconstituindo e explicitando os profundos laços geo-histórico-culturais que irmanam esta nação africana ao Brasil. Uma pioneira visão sistêmica acerca dessas relações pode ser lida na introdução de Luanda, “ilha” crioula, livro assinado pelo literato angolano Mário António Fernandes de Oliveira. Para acessar este texto, clique AQUI

No romance que discutiremos, A gloriosa família, publicado em 1998, ressaltam-se formas inventivas de representação literária dos efeitos do racismo sobre a subjetividade do negro e do valor cultural da oralidade. No intuito de embasar a exploração desses temas, recomenda-se a leitura dos textos listados abaixo:

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Visibilidade e ocultação da diferença: imagens de negro na cultura brasileira. In: FONSECA (org.). Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p.87-115.

OLIVEIRA FILHO, Jesiel Ferreira de. Narrando em silêncio: resistência e ressignificação em A gloriosa família. Feira de Santana: Seminário Dias de África, 2003.

RUI, Manuel. Eu e o outro — o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto. (Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, 23/05/1985).

ROCHA, Roberto Ferreira da. Resgate de vozes distantes: A gloriosa família. In: Metamorfoses. v.1. Rio de Janeiro: Editora Cosmos; Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros (UFRJ), 2000. p.172-178.

Muita informação sobre Angola e a literatura do país pode ser obtida navegando-se pelo MUJIMBO, o blogue-irmão do LUSOLEITURAS. Para visitá-lo, clique AQUI e pesquise pela palavra-chave “Angola”.

BOAS LEITURAS & até sexta-feira.

angola brasil

ideários & ideologias em “Os Lusíadas”

novembro 1, 2009 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Na LitPort 1 @s estudantes, em geral, elencaram vários temas a merecerem exploração e aprofundamento na parte final de nosso curso, notando-se um interesse transversal na articulação entre a literatura e as formas de representação da identidade e da diferença. Buscando uma síntese abrangente desse desejo em navegar por rotas múltiplas da memória lusitana, daremos partida na aula de 04/11 a uma discussão acerca dos valores estruturantes da identidade portuguesa conforme estes se encontram representados em narrativas que expressam o imaginário da Expansão Marítima. Ainda em sintonia com as opiniões colocadas nas redações, dirigiremos o foco de leitura para aquela narrativa que podemos certamente considerar tanto a mais importante quanto a mais desafiante, isto é, Os Lusíadas, de Luís de Camões. A orientação “cartográfica” para essa navegação literária & culturalista nos será proporcionada por dois textos teóricos. O primeiro deles é a “Introdução” ao épico camoniano feita por um dos mais influentes críticos literários portugueses, António José Saraiva. Trata-se de um texto referencial para os estudos desse poema, oferecendo uma excelente apresentação tanto contextual quanto formal do mesmo. Em nossos estudos, nos concentraremos nas questões relativas ao conteúdo da obra, ou aos seus “ideários”, como propõe Saraiva, recomendando-se portanto a leitura do texto até, pelo menos, a página 27. Para fazer o download, clique AQUI (em conexão de banda larga, a transferência levará cerca de 10 minutos). Para saber mais sobre António Saraiva, Camões e Os Lusíadas, visite e pesquise o MUJIMBO.

saraiva lusiadas 

 

 

 

 

 

   

A esse estudo canônico da obra de Camões, cruzaremos a leitura polemizadora do poema feita pelo crítico e escritor Silviano Santiago no ensaio “Por que e para que viaja o europeu?”. Visite novamente o MUJIMBO e ganhe acesso a um conjunto de textos deste renomado pesquisador disponibilizados on-line pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, pacote bibliográfico no qual se inclui o ensaio já referido. Também há cópia dele na xerox do campus, bem como do texto de António Saraiva. Pioneiro na renovação dos estudos literários no Brasil, Silviano Santiago desempenhou um papel decisivo na reformulação metodológica que hoje articula diretamente a literatura, a ideologia colonial e a questão identitária. Para quem quiser desdobrar numa perspectiva angolana esta reflexão sobre o imaginário dos “descobrimentos” & dos complicados intercâmbios culturais lusófonos, recomenda-se também o ensaio híbrido “Eu e o outro – o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto”, do escritor Manuel Rui, autor da letra do hino nacional de Angola. 

lusiadas santiago2

teorias da pessoa em Pessoa

novembro 1, 2009 às 8:35 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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leyla_perrone_ortografia pessoa2w

Na maioria das redações foi expresso o desejo de que o    curso da LitPort3 finalizasse com um aprofundamento dos  estudos pessoanos procurando contemplar dois tópicos: as  teorias da subjetividade que se relacionam com a poesia  desse poeta português e a questão da heteronímia. Para  atingir esses objetivos e agregarmos conteúdos tendo em  vista a segunda avaliação, vamos nos dedicar à leitura & discussão de O Vácuo-Pessoa, um competente ensaio de Leyla Perrone-Moisés (ao lado) no qual se propõe uma perspectiva interpretativa para a obra pessoana baseada nas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Para baixar uma cópia PDF desse texto, clique AQUI (numa conexão de banda-larga, o download levará cerca de 10 minutos). Também há cópia impressa disponível na xerox do campus.


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