“Os Lusíadas” como discurso nacional

novembro 17, 2009 às 4:27 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , ,

 

Lançando um olhar lúcido sobre o significado e a função do ideário nacional em Os Lusíadas, afirma António Saraiva:

Antes de 1415 Portugal fora um pobre reino, com uma corte que envergonharia qualquer mediano senhor feudal de Espanha ou França. A sua gesta heróica era a da guerra fratricida com Castela, cantada já em canções épicas no começo da monarquia. Mas com a expansão marítima muda a sua visão da história. Como novos ricos em busca de genealogias, os historiadores portugueses procuram antepassados ilustres na Antiguidade. Assim, mitificando a história, perderam de vista as particularidades locais da realidade histórica portuguesa. Releram-se as crónicas tradicionais de maneira que os feitos de armas foram focados de maneira abstracta e gratuitamente heróica, esquecendo-se que eles estão relacionados com a luta de um pequeno povo pela sua sobrevivência na Península Ibérica. Em troca, deu-se à nossa história um significado universal, dentro de uma visão que abrangia o destino da humanidade.

 

saraiva Podemos considerar que no texto do poema Os Lusíadas essa mudança na visão histórica sobre a identidade portuguesa encontra um momento fundamental, que até hoje, passados 437 anos desde a primeira edição desta obra, influencia a maneira como os portugueses constroem sua identidade nacional – e, possivelmente, também o modo como os brasileiros, e outros povos lusófonos, re-significam seus referentes culturais.

stuart hall  

 

 

 

 

Buscando por uma compreensão formal  dos gêneros discursivos que organizam as narrativas identitárias, Stuart Hall propõe-nos a seguinte classificação:

a) NARRATIVAS DA NAÇÃO (ou seja, os textos institucionais e culturalistas que se propõem a “explicar” a nação, abrangendo a historiografia oficial – especialmente os manuais escolares de história –; as interpretações acadêmicas – Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda –; e os discursos que atualizam a realidade da nação, como o “Jornal Nacional”, como nossa conversa cotidiana sobre como “o Brasil não tem jeito”, etc.)

b) NARRATIVAS DA TRADIÇÃO (p.ex., a “Carta de Caminha”)

c) INVENÇÃO DE TRADIÇÕES (p.ex., o Caramuru, de Santa Rita Durão, assim como o Caramuru cinematográfico de Guel Arraes, EStórias que se confundem com a HIStória, e que tendem a deformar os fatos)

d) MITOS FUNDACIONAIS (p.ex., Iracema, de José de Alencar, ou o “mito das 3 raças”, narrativas situadas num tempo indefinível)

e) NARRATIVAS FOLCLÓRICAS (p.ex., as estórias sobre os Bandeirantes, ou as diversas representações da “essência” do povo, como o Macunaíma de Mário de Andrade, o “Jeca-Tatu” de Monteiro Lobato)

Como você classificaria os Lusíadas??

João de Barros, Os Lusíadas lembrados ao povo e contados às crianças

Anúncios

Deixe um comentário »

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: