“Jornada de África”: um roteiro de leitura

julho 2, 2010 às 1:31 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
Tags: , , , , , ,

jornada de africa_alegre      manuel_alegre1       jornada jeronimo

Muitos são os tempos, os espaços e as possibilidades interpretativas que se entrecruzam no romance de Manuel Alegre que esteve em foco durante o curso de Literatura Portuguesa IV deste semestre. Tal como sugere-se desde a titulação desta obra, que dialoga intertextualmente com a crônica sobre a batalha do Alcácer-Quibir publicada por Jerônimo de Mendonça em 1607 (clique no link à esquerda para saber mais), a reconstrução ficcional do cenário da guerra independentista angolana serve para mobilizar um amplo trabalho de revisão crítica do passado — ou de  anamnese, nos termos de Margarida Calafate Ribeiro –- cujo foco são as relações entre os resultados políticos e culturais do colonialismo português e o fracasso do ideal civilizacional que serviu de legitimador para os “descobrimentos” e para a expansão imperial lusitana. No desenrolar do enredo do romance, esse trabalho anamnésico é dinamizado pelo entrelaçamento entre representações simultaneístas de lugares e de memórias históricas, formações discursivas polifônicas e reflexões metaliterárias, constituindo um painel no qual os percursos trilhados pelo alferes Sebastião também abrem questionamentos cruciais sobre a identidade nacional portuguesa, conforme sintetiza Ribeiro:

Ao longo destes primeiros contatos com o mundo da Guerra Colonial a escrita da história presente de Sebastião vai sendo feita com elementos que sucessivamente o descentram e simultaneamente se cruzam com fragmentos de uma história colectiva presente e passada, cujos sinais Sebastião vai decifrando até compor um puzzle que vai identificando esse tempo ambíguo e absurdo com o tempo do malogrado desastre do Alcácer-Quibir. Desde a partida que Sebastião estava inquieto com esses elementos do passado que entravam no seu presente como se a ele pertencessem: são os nomes de seus companheiros, as viagens, os desembarques, os discursos manipulados com resquíscios de guerra santa na reunião de oficiais, o ritmo da guerra ou as ‘misteriosas coincidências’ que vão tornando a sua história não uma história actual, mas a reescrita de uma história onde o passado permanentemente se presentifica e em que a perda do reino por Sebastião-rei é transferida para uma perda de si mesmo (RIBEIRO, Uma história de regressos, p.349).  

No MUJIMBO, blogue afro-irmão do LUSOLEITURAS, estão disponíveis mais informações sobre este enigmático romance e os variados contexto que através dele se articulam, dê um saltinho lá clicando AQUI, ou AQUI, ou AQUI, ou AQUI… Boa jornada!! No prosseguimento da leitura do romance, atentar para os capítulos que estão destacados na lista abaixo, capítulos nos quais a reflexão literária empreendida por Manuel Alegre alcança seus momentos mais intensamente significativos.   

 

capítulo 1: INTRODUÇÃO      {“Não ao escrever-se desvivendo”}

capítulo 2: TRAVESSIA ATLÂNTICA / ENCONTRO COM BÁRBARA      {“Há muito que a tribo não tem senão uma vida vidinha”}

capítulo 3: CHEGADA EM ANGOLA / MORTE DE LEANDRO

capítulo 4: LUTO POR LEANDRO       {“É preciso ser contra isto para ser por isto”}

capítulo 5: RETRATOS DA GUERRA

capítulo 6: ENCONTRO COM O COMANDANTE

capítulo 7: ENCONTRO COM OS CENTURIÕES / DEBATE SOBRE O ALFERES ROBLES

capítulo 8: AULA DO CAPITÃO GARCIA / DISCURSO LUSOTROPICAL      {“Há sempre um homem de fé para nos livrar das penas do inferno. Mesmo que por vezes tenha de nos queimar o corpo”}

capítulo 9: A REPRESSÃO EM PORTUGAL / ENCONTRO COM O ESCRITOR      {“Sou um sebastianista do avesso”… “quem não Alcácer, não alcança”}

capítulo 10: A MORTAL ROTINA DA GUERRA

capítulo 11: NOTICIÁRIO COLONIAL

capítulo 12: A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR      {“Ir à guerra ou não ir, eis a questão. O social sobrepõe-se ao individual”}

capítulo 13: O ESCRITOR E O CORONEL

capítulo 14: LÁZARO EM ANGOLA

capítulo 15: ENCONTRO COM MALDONADO / AS MENSAGENS DE PANZO DA GLÓRIA      {“A guerra não existe, um dia vais ver que nunca existiu”}

capítulo 16: SEBASTIANISMO E ANTI-SEBASTIANISMO / MORTE DE MALDONADO      {“se te chamas Sebastião não te esqueças que és um Sebastião anti-sebastianista e anticolonialista”}

capítulo 17: A EMBOSCADA DE DOMINGOS DA LUTA

capítulo 18: NOTICIÁRIO COLONIAL

capítulo 19 : A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR

capítulo 20 : A MORTAL ROTINA DA GUERRA

capítulo 21: REENCONTRO COM BÁRBARA / AMORES LUSOTROPICAIS      {“A nossa cultura é uma cultura de mestiçagem”… “Aquela cativa que me tem cativo”}

capítulo 22: AMPUTAÇÃO DE JORGE DE ALBUQUERQUE / CONFISSÕES DE BÁRBARA

capítulo 23: PARTIDA DE SEBASTIÃO

capítulo 24: SEBASTIÃO EM NAMBUANGONGO

capítulo 25: SEBASTIÃO X DOMINGO DA LUTA      {“Trinta e Nove sempre a fazer perguntas, Domingos sem paciência para lhe responder, está farto de lhe explicar que o inimigo não é o branco, a cor da pele não interessa, o inimigo é o colonialismo, Trinta e Nove quer saber a cor que tem o colonialismo”}

capítulo 26: HORRORES DA GUERRA COLONIAL / CARTA DE BÁRBARA / IDENTIDADES DIVIDIDAS      {“Assim, ao longo dos séculos, o objectivo da política de integração multurracial tem consistido em reger, a partir de sofismas, as relações entre grupos étnicos e sociais em conflito”}

capítulo 27: HORRORES DA GUERRA COLONIAL: A ORELHA CORTADA

capítulo 28: SEBASTIÃO INDIGNADO

capítulo 29: A REPRESSÃO EM ANGOLA

capítulo 30: A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR

capítulo 31: QUESTIONAMENTOS NACIONALISTAS      {“o racismo de muita gente que se desforra aqui das frustrações vividas em Portugal, qualquer analfabeto branco sente-se superior a um preto licenciado”}

capítulo 32: BÁRBARA EM PARIS      {“Tenho dono”}

capítulo 33: REENCONTRO COM O POETA      {“Portugal fez-se para fora, não sei se conseguirá regressar, ou melhor, não sei se voltará, se é que se pode voltar de uma viagem assim”… “Talvez o Quinto Império seja afinal o fim de todos os impérios. O Grande Império do Avesso, o Anti-Império”}

capítulo 34: BÁRBARA EM PARIS

capítulo 35 : SEBASTIÃO x DOMINGOS DA LUTA: O ENCONTRO FINAL      {“Ele é que já não faz o que a escrita quer. Talvez seja a guerra tão pouco programada e tão imprevisível”}

panfleto anticolonial(panfleto do movimento anti-colonial português)

d sebastiao 

(D. Sebastião)

Anúncios

3 Comentários »

RSS feed for comments on this post.

  1. Olá Jesiel! Obrigada por colocar no blog esse materal sobre “Jornada de África, tenha certeza que será muito útil.
    Abraços
    Ana Maria

  2. Boa tarde Profº,

    Li o roteiro do romance ” Jornada de Africa”, pois na aula não foi possível acompanhar, pude perceber mais detalhadamente o conteúdo de cada capítulo,gostei também do comentário introdutório sobre o romance.

    Ivone.

  3. Bom dia Prof.

    O roteiro do romance ficou muito interessante. Um suporte eficiente para nosso conhecimento!

    Carlos Wendel.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: