literatura pós-colonial: memória, cultura e diferença

setembro 2, 2010 às 22:44 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Poeticas_Maravilhoso2

Segue abaixo uma listagem de links que dão acesso aos textos ficcionais que serão trabalhados no curso:

 

ALEGRE, Manuel. Lusíada exilado. In: Praça da canção; O canto e as armas. 2.ed. Lisboa: D. Quixote, 2003.

Nem batalhas nem paz: obscura guerra.
Dói-me um país neste país que levo.
Sou este povo que a si mesmo se desterra
meu nome são três sílabas de trevo.

Há nevoeiro em mim. Dentro de abril dezembro.
Quem nunca fui é um grito na memória.
E há um naufrágio em mim se de quem fui me lembro
há uma história por contar na minha história.

Trago no rosto a marca do chicote.
Cicatrizes as minha condecorações.
Nas minhas mãos é que é verdade D. Quixote
trago na boca um verso de Camões.

Sou este camponês que foi ao mar
lavrou as ondas e mondou a espuma
e andou achando como a vindimar
terra plantada sobre o vento e a bruma.

Sou este marinheiro que ficou em terra
lavrando a mágoa como se lavrar
não fosse mais do que a perdida guerra
entre o não ser na terra e o ser no mar.

Eu que parti e que fiquei sempre presente
eu que tudo mandava e nunca fui senhor
eu que ficando estive sempre ausente
eu que fui marinheiro sendo lavrador.

Eu que fiz Portugal e que o perdi
em cada porto onde plantei o meu sinal.
Eu que fui descobrir e nunca descobri
que o porto por achar ficava em Portugal.

Eu que matei roubei eu que não minto
se vos disser que fui pirata e ladrão.
Eu que fui como Fernão Mendes Pinto
o diabo e o deus da minha peregrinação.

Eu que só tive restos e migalhas
e vi cobiça onde diziam haver fé.
Eu que reguei de sangue os campos das batalhas
onde morria sem saber porquê.

Eu que fundei Lisboa e ando a perdê-la em cada
viagem. (Pátria-Penélope bordando à espera.)
Eu que já fui Ulisses. (Ai do lusíada:
roubaram-lhe Lisboa e a primavera.)

Eu que trago no corpo a marca do chicote
eu que trago na boca um verso de Camões
eu é que sou capaz de ser o D. Quixote
que nunca mais confunda moinhos e ladrões.

* * *

Eu que fiz tudo e nunca tive nada
eu que trago nas mãos o meu país
eu que sou esta árvore arrancada
este lusíada sem pátria em Paris.

Eu que não tenho o mar nem Portugal.
(E foi meu sangue o vinho meu suor o pão.)
Eu que só tenho as lágrimas de sal
que me deixou el-rei Sebastião.

Nem o Gama nem os doze de Inglaterra
O herói sou eu: aqui sem pão nem glória
Eu camponês no mar e marinheiro em terra
todo o mundo e ninguém. Sou eu que faço a história.

Quem foi que fez de mim este estrangeiro
este sem pátria a quem a pátria dói
Eu que fui camponês poeta marinheiro
eu que fiz Portugal quero saber quem foi.

Lusíada exilado. (E em Portugal: muralhas.)
Se eu agora morresse sabia por quê.
Venham tormentas e punhais. Quero batalhas.
Eu que sou Portugal quero viver de pé.

(visite o MUJIMBO e ouça este poema recitado por Manuel Alegre)

 

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Que país é este?. In: Que país é este?. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

para Raymundo Faoro

                Puedo decir que nos han traicionado? No. Que todos fueron buenos? Tampoco. Pero allí está una buena voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así.

CÉSAR VALLEJO

Fragmento 1

Uma coisa é um país,
           outra um ajuntamento.
           Uma coisa é um país,
           outra um regimento.
           Uma coisa é um país,
           outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
                                – e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maior em tudo
                                    – discursando rios e pretensão.

           Uma coisa é um país,
           outra um fingimento.

           Uma coisa é um país,
           outra um monumento.

           Uma coisa é um país,
           outra o aviltamento.

Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
                                 e ler anais
como anal
                   animal
                               hiena patética
                                                       na merda nacional?

Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
                                 procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?

             Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
             nacionais, como qualquer santo barroco a rebuscar
             no mofo dos papiros, no bolor
             das pias batismais, no bodum das vestes reais
             a ver o que se salvou com o tempo
             e ao mesmo tempo
                              – nos trai.

Fragmento 2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
    que o futuro a Deus pertence,
    que Deus nasceu na Bahia,
    que São Jorge é guerreiro,
    que do amanhã ninguém sabe,
    que conosco ninguém pode,
    que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
    não somos nada violentos,
    quem espera sempre alcança
    e quem não chora não mama
    ou quem tem padrinho vivo
    não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
    este é o país do futuro,
    antes tarde do que nunca,
    mais vale quem Deus ajuda
    e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
    somos raposas verdes
    colhendo uvas com os olhos,

    semeamos promessa e vento
    com tempestades na boca,

    sonhamos a paz na Suécia
    com suíças militares,

    vendemos siris na estrada
    e papagaios em Haias

    senzalamos casas-grandes
    e sobradamos mocambos,

    bebemos cachaça e brahma
    joaquim silvério e derrama,

    a polícia nos dispersa
    e o futebol nos conclama,

    cantamos salve-rainhas
    e salve-se quem puder,

    pois Jesus Cristo nos mata
    num carnaval de mulatas

Este é um país de síndicos em geral,
Este é um país de cínicos em geral,
Este é um país de civis e generais.

Este é o país do descontínuo
onde nada congemina,
e somos índios perdidos
na eletrônica oficina.

Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina,

o salário que nos come
e nossa sede canina,

a esperança que emparedam
e a nossa fé em ruína,

nada nada congemina:
a placidez desses santos
e nossa dor peregrina,

e nesse mundo às avessas
– a cor da noite é obsclara
e a claridez vespertina.

(continua…)

 

ANDRADE, Oswald de. Manifesto antropófago. In: A utopia antropofágica. São Paulo: Globo, 1990.

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. São Paulo: Globo, 1990.

 

ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memória de um sargento de milícias. 31.ed. São Paulo: Editora Ática, 2006.

 

MACEDO, Joaquim Manuel de. Pai-Raiol. O feiticeiro. In: As vítimas-algozes. Quadros da escravidão. 4.ed. Porto Alegre: Zouk, 2005.

 

RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

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