para pensar o descentramento sócio-histórico

setembro 23, 2010 às 22:41 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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O capitalismo e a aceleração do tempo

Na manhã de ontem, terça-feira, foi realizada a conferência com José Antonio Zamora sobre “Temporalidade capitalista, exploração da vida humana e tempo messiânico”. No segundo dia do XI Simpósio Internacional IHU: o (des) governo biopolítico da vida humana, Zamora afirmou que seu aporte no evento seria em torno do tema da temporalidade capitalista.

Ele iniciou sua fala considerando que o tempo se converteu numa categoria chave para compreender importantes fenômenos culturais e sociais atuais. O filósofo explicou que a modernidade capitalista produziu um novo regime temporal, uma “temporalização do tempo”, em que o tempo tornou-se “uma questão política”. E acrescentou que a marca do novo regime temporal capitalista é o imperativo da aceleração. “O tempo se converte num fator de medida de valor”, na lógica da competitividade. E que toda a forma de governamentalidade está associada ao tempo.

Uma afirmação importante para a compreensão do tema apresentado por Zamora é a de que “o capitalismo estabelece uma relação entre as necessidades humanas e sua satisfação”.

E é daí que o palestrante entrou na discussão sobre o conceito de benefício. “O benefício não é seguro, nem fácil de ser alcançado. Só se obtém benefício lutando permanentemente por maximização. E a produção de riqueza material não assegura benefício. Este, portanto, torna-se um fator relacional”. Zamora explicou que no capitalismo não se pode romper o ciclo de acumulação de benefício. E para ter crescimento econômico é preciso produzir mais. O problema que aparece aqui? Segundo ele, a desigualdade social.

“O capital vive um presente eterno”, disse Zamora. E se produzimos mais, já que a produção não tem limites, precisamos consumir mais. Para ele, essa nova realidade de aceleração instiga ao comportamento instantâneo, em que os fatos não “penetram” mais nas pessoas. Esse sistema cria consumistas adaptados a essa aceleração e a esse regime capitalista. “É uma exigência sistêmica”, dispara Zamora. E a aceleração só se converte em imperativo graças ao capitalismo. O filósofo explicou ainda que as formas de governamentalidade são indissociáveis do sistema capitalista e que “temos hoje um regime empresarial que rege a vida dos indivíduos”. Neste novo cenário, a inflexibilidade torna o sujeito “não empregável”. “É indispensável o uso eficiente, por parte dos indivíduos, dos recursos temporais”, afirma Zamora. E explica que para manter o imperativo da aceleração, tudo o que é obstáculo deve ser eliminado, por exemplo, todas as formas de estabilidade. Com a ajuda de quem? Das tecnologias! “Me sinto culpado por deixar a tecnologia invadir minha vida, minha casa, minha família”, confessa.

“Novas formas de comunicação ajudam a manter o imperativo da aceleração. Vivemos em permanente estresse”, segue Zamora em sua fala. E ele completa: “o trabalhador ideal é aquele que se auto-explora. Sem precisar interferência externa”.

O professor encerra sua fala argumentando que “no capitalismo não há descanso. Nosso horizonte é o trabalho e o círculo infinito de produção e consumo”. Para Zamora, o tempo rígido do regime fabril é um obstáculo à aceleração. “O tempo na era digital é instantâneo, simultâneo. É um tempo atemporal, onde o efêmero e o eterno acontecem juntos. A eliminação da sequência seria o equivalente à eternidade”, pontuou.

FONTE: IHU On-line, 15/09/2010

* * *

O PÓ QUE FICA DAS VELOCIDADES QUE JÁ NÃO SE VÊEM!
O do metálico dos êmbolos,
O furor uterino das válvulas lá por dentro —
O sangue dando em baque ao ataque dos excêntricos.

Minhas sensações
Protoplasma da humanidade matemática do futuro!

Eia-la-ho! Hó-oo-o!

Oh lá, saltos e pulos com o meu pensamento todo
Pula bola de mim — a mágica biológica que eu sou!
O cérebro servo de leis, os nervos movidos por normas
Por normas compostas em tratados de psiquiatras

[Álvaro de Campos]

* * *

A PARTIDA

E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (…)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a todas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (…)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas…
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora…
Ave atque vale, ó prodigioso Universo…
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (…)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(…)
(E até à aterissage final do meu aero (…) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (…)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino

[Álvaro de Campos]

* * *

HEIA O QUÊ? HEIA O PORQUÊ? HEIA P’RA ONDE?
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.

Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?

Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu

(quando parte o último comboio?)

[Álvaro de Campos]

homens relogios

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