paradoxos do individualismo moderno

novembro 21, 2010 às 22:06 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Conforme tem sido insistententemente colocado ao longo de nosso curso na LitPort3, a discussão da representação dos descentramentos modernos na poesia de Fernando Pessoa desenvolve-se de maneira mais produtiva, tanto no âmbito teórico quanto pedagógico, quando é diretamente articulada aos problemas psicossociais que marcam a nossa contemporaneidade, tal como é sugerido pela “transcrição mixada” do artigo a seguir:

 

A subjetividade humana na sociedade de indivíduos. Entrevista especial com Benilton Bezerra

Na manhã do terceiro dia do Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? Uma platéia atenta assistiu à conferência O futuro da autonomia e a construção de uma sociedade de indivíduos. Uma leitura psicanalítica, conduzida pelo professor Benilton Bezerra Jr., da UERJ. Em sua brilhante explanação, Bezerra falou sobre o impacto da autonomia e do individualismo na subjetividade humana. Para ele, nós vivemos, hoje, uma situação paradoxal. “Livramo-nos da pressão da tradição, no desejo de sermos autônomos. Afirmamo-nos como indivíduos quando colocamos a tradição em segundo plano”. No entanto, paradoxalmente, “somos escravos de modelos que nos ensinam como devemos agir para sermos indivíduos mais auto-suficientes e vencedores em nossas atividades diárias”. “Ser indivíduo é seguir um modelo que nos é imposto”, explica o palestrante, ao constatar que hoje o individualismo vive uma exacerbação, uma vez que a modernidade inventou que cada sujeito se constrói a si próprio.

DEPUS A MÁSCARA E VI-ME AO ESPELHO. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.

[Álvaro de Campos]

Ao abordar o tema do Simpósio em geral, Bezerra esclareceu que a autonomia é uma das facetas do individualismo. “Ela nos transformou em autônomos de forma que tudo na vida se torna opção individual. Paradoxalmente, nunca uma cultura teve tão forte a experiência da desassistência. Há sempre um expert em tudo. Nossa existência se tornou banalidade.”

O “Terceiro” indivíduo, o elemento poderoso em nossa vida, que tinha um poder inquestionável, tornou-se “líquido”, utilizando a terminologia de Zygmunt Baumann. “E é isso o que possibilita a exacerbação da autonomia. Desaparece o impossível, a noção do limite. Hoje o assombro diante das coisas é cada vez menor”, esclarece o professor da UERJ.

Ao descrever a sociedade da imagem, Benilton Bezerra afirmou que “hoje importa muito mais parecer ser alguma coisa. Vivemos na sociedade da imagem, do espetáculo, da exibição. Temos que estar sempre sorrindo, sempre felizes, sempre bem, passando essa imagem de bem-estar e felicidade”.

SÁBIO É O QUE SE CONTENTA COM O ESPETÁCULO DO MUNDO,
                E ao beber nem recorda
                Que já bebeu na vida,
                Para quem tudo e novo
                E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúveis,
                Ele sabe que a vida
                Passa por ele e tanto
                Corta a flor como a ele
                De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
                Que o seu sabor orgíaco
                Apague o gosto às horas,
                Como a uma voz chorando
                O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
                E apenas desejando
                Num desejo mal tido
                Que a abominável onda
                O não molhe tão cedo.

[Ricardo Reis]

O professor explicou também o conceito de subjetividade somática, pelo qual cada vez mais tendemos em radicar em nosso corpo a nossa individualidade. “Vemos uma proliferação de modificações corporais. Esse fenômeno cultural mostra a necessidade do ser humano de ser singular.” Outro conceito importante trazido pelo professor Benilton Bezerra Jr. é o da cultura do sujeito cerebral, que está emergindo em nossos dias. “Tendemos a pensar nossa subjetividade orientada pelo cérebro, que passa a ser o sujeito de nossas ações”.

Confira, a seguir, uma entrevista especial realizada pela redação da IHU On-Line com o professor Benilton, logo após sua conferência no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?

IHU On-Line – O senhor pode descrever um pouco a situação paradoxal em que vivem os indivíduos da sociedade contemporânea?

Benilton Bezerra Jr. – Esse paradoxo pode ser descrito de duas maneiras. Uma primeira em relação ao individualismo e uma segunda em relação à autonomia. Em relação ao individualismo, o paradoxo consiste no fato de que o valor do indivíduo e do individualismo surgir no momento em que as pessoas começaram a se desvencilhar das marcas e das determinações da tradição, da religião, da família. O indivíduo propriamente dito surge na modernidade, como alguém que se funda, se constitui a si próprio na sua trajetória pessoal durante a vida. Você faz aquilo em que irá se reconhecer como sendo seu. Na origem, o individualismo é uma tomada de posição, uma abertura de possibilidade para que o sujeito confronte a tradição, a determinação. O paradoxal hoje é que isso, que antes era algo subversivo em relação à realidade social prévia, virou a norma, a ideologia dominante. Todo mundo precisa ser indivíduo e ser singular. É uma obrigação, não é mais uma conquista. Com isso, temos essa situação paradoxal de que o indivíduo que se constituiria por contraste à tradição é agora instado a se construir conforme a tradição do individualismo. Trocamos uma servidão por outra. A diferença é que, antigamente, você era filiado inequivocamente a coisas que tinham uma dimensão simbólica muito mais ampla. Hoje em dia, esse individualismo não se constrói pela adesão a algum valor mais alto. Não são ideais; são modelos. Não são princípios em relação aos quais você se mede; são modelos que você tem que repetir.

Do lado da autonomia, o paradoxo consiste no fato de que, com o desenvolvimento do individualismo e da radicalidade da crítica moderna a todas as determinações sobre os indivíduos, hoje em dia, vivemos uma cultura na qual, de fato, as pessoas se sentem cada vez menos submetidas, de maneira superior a sua vontade, a princípios, normas, valores, etiquetas e ideais. Todos nós somos mais autônomos do que nunca para fazermos as nossas escolhas. Tudo depende das escolhas que fazemos. Isso aparentemente faz com que devêssemos nos sentir mais autônomos, mais capazes de decidir. Mas curiosamente – aí é que está o paradoxo – numa cultura onde todo mundo é autônomo, a grande parte das pessoas se sente desassistida, precisando da assistência de alguém que diga o que deve fazer, qual é a escolha certa. Aí entram os experts em tudo, com o “discurso competente”, que explicam à mãe se ela deve ou não dar comida de sal “na marra”, ou se deixa o filho escolher, explicam que tipo de roupa é adequada para suas pretensões sociais, que tipo de música se deve escutar. Isso causa uma espécie de enfraquecimento de algo fundamental na vida de todo mundo que é a possibilidade de sentir a marca pessoal nas escolhas.  Nós nos sentimos instados por uma força anônima, que nos conduz a querer fazer as coisas certas, adequadas.

IHU On-Line – O que caracteriza a exacerbação do individualismo e quais as conseqüências disso para a subjetividade dos indivíduos?

Benilton Bezerra Jr. – Esse fenômeno tem a ver com o fato de o indivíduo dispensar qualquer referência a um estatuto simbólico de uma força transcendente, da política, ou da religião. O sujeito tenta acreditar que pode viver plenamente no plano puro da imanência do cotidiano, das escolhas feitas a cada momento. Essa exacerbação tem um efeito muito importante entre muitos: é o fato de que isso modificou bastante os nossos ideais de felicidade, de realização pessoal. O que antes – na modernidade e na pré-modernidade – era medido com a referência a certos padrões e expectativas vinculadas a itens simbólicos, hoje está cada vez mais vinculado à posse, à conquista e à fruição de objetos. Esse individualismo levado ao extremo faz com que o sujeito se veja sempre numa espécie de luta incessante para poder se reafirmar, não pela filiação a algo maior do que ele, mas pela posse contínua de bens que têm uma insígnia fálica, com uma obsolescência social e psicológica muito rápida. Você compra qualquer coisa e aquilo, em pouco tempo, está obsoleto. É a busca por qualquer coisa que nos dê socialmente a imagem de sucesso. Por isso, essa adesão frenética a dietas e todo esse cultivo do corpo.

TENS VONTADE DE COMPRAR
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – O senhor fala em uma outra forma de sociabilidade humana. Como seria essa nova sociabilidade, essa outra forma do ser humano?

Benilton Bezerra Jr. – Um dos traços dessa nova sociabilidade é a importância cada vez maior concedida à corporeidade, à dimensão somática da existência pessoal, nas trocas entre as pessoas. Por exemplo, a questão da imagem do corpo vem sendo cada vez mais importante em detrimento das características psicológicas e dos valores. É a moralização crescente dos atributos físicos. Outro traço dessa nova sociabilidade é o que alguns autores chamam de biosociabilidade: o fato de que, nessa mesma esteira da importância do corpo, temos a construção de identidades a partir de itens que são referidos ao corpo. Outro aspecto dessa nova forma de subjetivação é o lugar dos objetos na vida do sujeito em relação a si próprio e em relação ao outro. Os objetos passam a ser uma parte importante da construção da própria identidade. E também numa sociedade e numa cultura onde todos estão numa luta incessante pela posse de objetos que não são para todos, o outro passa, cada vez menos, a ser visto como semelhante e cada vez mais a ser, das duas, uma: ou um espelho, no qual eu fico me reconhecendo, ou um rival, que disputa comigo a posse daqueles bens que são escassos.

IHU On-Line – Qual é o futuro de uma sociedade assim?

Benilton Bezerra Jr. – Não podemos dizer, porque acontecem mudanças na história que são imprevisíveis. Ninguém previu a queda do muro de Berlim em 1989. Ela precipitou mudanças, da mesma forma que ninguém previu a invenção da internet e ela está mudando também a nossa vida social. O que podemos dizer é que, quaisquer que sejam as mudanças profundas que aconteçam, nós podemos, pelo menos, apostar na idéia de reconquistar a atividade política no sentido mais amplo da palavra: a política entendida como o engajamento na reflexão e na ação que visa a construção de existências pessoais e coletivas mais desejáveis no futuro. É o exercício de imaginar cenários mais desejáveis no futuro do que o presente, tanto no plano pessoal quanto no plano coletivo.   

IHU On-Line – Onde fica, nessa sociedade individualista, a solidariedade, a fraternidade e os valores cristãos?

Benilton Bezerra Jr. – O que pode alavancar uma ação que permita o pensamento crítico e o uso consensuado das tecnologias é a presença, no imaginário social e na prática subjetiva, de certos valores que transcendem esse plano da imanência do uso dos objetos, da fruição, das sensações. Esse é o desafio não só do cristianismo, mas do budismo e do pensamento político laico, que também perdeu suas referências. A grande política, a política laica, mesmo atéia do século XVIII para cá, é herdeira dessa transcendência religiosa. O cristianismo foi o primeiro movimento humano a inventar essa idéia de que todos são iguais. E isso está na base do pensamento democrático. O desafio do cristianismo hoje é conseguir estar à altura desse tipo de questão e como responder a esse desafio mantendo algum equilíbrio com a necessidade de auto-preservação da instituição Igreja, com suas regras.  

IHU On-Line – Se não são mais os mesmos ideais e sonhos que unem os seres humanos, o que nos une e faz de nós seres iguais?

Benilton Bezerra Jr. – A verdade verdadeira é que nós não somos iguais. Somos todos muito diferentes.

IHU On-Line – Então, hoje o que assemelha os seres humanos é a preocupação com os próprios interesses individuais?

Benilton Bezerra Jr. – É, o que torna todo mundo incapaz de compartilhar de horizontes coletivos. O que pode reabrir a possibilidade de compartilharmos horizontes coletivos é, por exemplo, a salvação do Planeta. De fato, nunca houve antes o reconhecimento de que, ou agimos em comunhão para salvar a Terra, ou vamos acabar com ela. Isso é recente. Não é papo de “verde”, de um grupelho de pessoas. É uma questão fundamental, pois está no centro da possibilidade da gente prosseguir vivendo.   

IHU On-Line – O senhor poderia explicar a cultura do sujeito cerebral? Qual sua relação com a subjetividade humana?

Benilton Bezerra Jr. – O termo “sujeito cerebral” foi criado por um colega do Instituto Max Planck, de Berlim, Fernando Vidal. Aparece também sob outras designações, como “homem cerebral” e “homem neuronal”. São várias formas de apontar para uma realidade antropológica, que é essa em que, cada vez mais, as pessoas vão identificando-se com o próprio cérebro. Ou seja, o cérebro vai se tornando não apenas um órgão corporal. Ele passa a ser pensado e sentido como a sede da nossa identidade. Eu não sou mais uma pessoa que tem um cérebro. Eu sou um cérebro que me faz pela experiência de ser uma pessoa. Isso se expressa em várias dimensões. Há uma dimensão teórica que tenta fazer do cérebro o denominador comum dos fenômenos mentais, sociais, antropológicos, etc. O cérebro passa a ser uma espécie de personagem, um ator social. O que atribuíamos ao sujeito, passa a ser atribuído ao cérebro. De forma prática, isso se expressa pela quantidade cada vez maior de intervenções biológicas na subjetividade, sobretudo medicações, e também com a introdução de novas tecnologias de intervenção.  

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho à Virgílio, à Milton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)…
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um acto indefinido nem factício…

Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?

(continua)

[Álvaro de Campos. APOSTILA]

IHU On-Line – Como o senhor avalia os temas discutidos no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?

Benilton Bezerra Jr. – Esse é o tipo de iniciativa que precisa ser reduplicada e difundida ao máximo. É disso que sentimos falta: poder juntar essas pessoas para discutir questões comuns e que transcendem às competências específicas de cada grupo.

FONTE: IHU Online, 25/5/2007

fernando_pessoa3

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