Sergipe no Pisa: resultados preocupantes

dezembro 27, 2010 às 19:44 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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pisa2009_resultados estados Acima, tabela que apresenta os resultados do exame Pisa considerando a pontuação obtida em cada estado brasileiro. Vale ressaltar que a nota mínima equivalente a um desempenho tido como satisfatório corresponde a 600 pontos. Um relatório completo pode ser baixado no site do Inep.

 

Todos pela Educação compara notas do Pisa e mostra que país avança devagar

Sergipe tem a pior queda em relação a 2006; Rio, a menor evolução do Sudeste

Recém-divulgado, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), que analisa o desempenho de estudantes de 15 anos, mostrou que o ensino no Brasil avançou: o país teve a terceira maior evolução nas médias de 65 nações. No entanto, ao comparar os dados de 2006 com os de 2009, um estudo do Todos pela Educação aponta que dos 27 estados, incluindo o Distrito Federal, apenas São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amapá, Pernambuco e Maranhão conseguiram média acima da obtida pelo Brasil, nas disciplinas analisadas pelo Pisa: leitura, matemática e ciências.

Ao todo, onze estados tiveram queda em relação a 2006 em uma ou mais disciplinas. A pior média é a de Sergipe, que apresentou queda nas três áreas – perdeu 29 pontos em leitura, 26 em matemática e 24 em ciências.

– Em 2006, Sergipe tinha índices melhores que São Paulo, e agora está como São Paulo em 2006. As mudanças nesse estado e alguns outros resultados nos levam a crer que é mais fácil melhorar em áreas onde as médias eram as piores. Nas regiões onde já eram razoáveis, dar um salto é muito mais complicado – diz Mozart Neves Ramos, presidente do Todos pela Educação.

Na Região Sudeste, o Rio de Janeiro foi o único estado a perder pontos no Pisa quando se compara os anos de 2006 e 2009, e apresentou também a menor evolução na região. Foram sete pontos perdidos em leitura, e apenas dois ganhos em matemática e um em ciências.

– O Rio estagnou em duas disciplinas e ainda perdeu pontos em leitura. O desinteresse no magistério contribui para esse resultado. Professores deviam ser os melhores alunos, os mais talentosos, mas não é que acontece. Os baixos salários não atraem – diz Mozart Neves Ramos, lembrando que o estado ainda lida com os reflexos da aprovação automática:

– Os resultados da Prova Brasil já mostram que, mesmo sendo aprovados, os alunos não aprendiam. Os índices do Pisa não nos surpreendem.

Coordenadora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio (Sepe), Beatriz Lugão lembra que o Rio já chegou a ter um déficit de 30 mil professores, e que em média 20 deixam o estado diariamente:

– Isso prejudica a qualidade de ensino. Alunos chegam ao 3º do ensino médio com sérias deficiências, que impedem muitos de irem para a universidade. E, muitas vezes, fazem com o que aquele que conseguiu tenha que desistir do curso por não ter como acompanhar as aulas.

Sobre o Rio ter perdido pontos em leitura, Beatriz diz que essa deficiência na interpretação dos textos pode prejudicar todas as outras disciplinas:

– Se o aluno não tem o domínio da língua, as dificuldades são maiores. É preocupante o resultado.

Pior estado do país em 2006, o Maranhão conseguiu se tornar o que mais avançou em 2009. Na comparação do Todos pela Educação, ganhou 91 pontos em leitura, 71 em matemática e 45 em ciências.

– É um salto tão grande, que a gente tem que analisar mais detalhadamente. Mas reafirma o fato de que é mais fácil crescer quando a situação é pior – diz Mozart.

Com vinte anos de trabalhos prestados para a Secretaria de Educação do estado, a professora Leuzinete Pereira da Silva, Superintendente de Educação Básica do Maranhão, acredita que a melhora se deu por conta do comprometimento dos professores, e da boa formação de quem está em sala de aula:

– Todos os nossos professores têm graduação, e um expressivo número tem pós. Mas contribuíram também a formação continuada e as aulas de reforço para os alunos.

Aluna da rede estadual, Gabrielle Mendonça, de 16 anos, representou o Maranhão num concurso de redação do Senado. Para ela, as atividades fora da sala são fundamentais.

– As rodas de leitura que minha escola promove motivam os alunos – diz Gabrielle, que estuda na Paulo Freire.

Com as melhores médias dos 26 estados em 2009, não considerando o DF, Santa Catarina, na comparação com 2006, perdeu um ponto em matemática. Mas a queda não preocupa o governo.

É o que afirma o diretor de Educação Básica da Secretaria de Educação, Antônio Pazeto:

– A classificação do estado demonstra um bom desempenho, embora reconhecemos que exista muito por fazer.

Coordenadora estadual do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte), Alvete Bedin é mais crítica, e diz que o desempenho reflete a falta de aprimoramento no método de ensino nas escolas.

– A maioria das escolas não tem estrutura adequada, e o professor tem apenas um quadro negro, como há três décadas. O jovem não encontra atrativos.

Estudante da 7ª série do ensino fundamental, André dos Santos, de 15 anos, ficou em recuperação em matemática.

– O professor explica uma vez no quadro, se aprendeu, aprendeu. Caso contrário, fica sem saber – diz ele, que acredita que seria mais fácil se pudesse usar computador em sala.

De acordo com Mozart, para que os índices melhorem é preciso investir mais em educação, mas, segundo ele, a presidente eleita, Dilma Rousseff, terá como principal desafio fazer uma “revolução no magistério”:

– Ou fazemos um pacto nacional para que isso aconteça ou vamos estagnar. Para melhorar a educação, só investir dinheiro não basta.

(O Globo, 27/12, Carolina Benevides, Francisco Júnior e Juraci Perboni)

FONTE: Jornal da Ciência

coleção ‘História Geral da África’ disponível para download gratuito

dezembro 11, 2010 às 9:15 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.

Resumo: Publicada em oito volumes, a coleção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da coleção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projetos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a coleção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos. 

Download gratuito (somente na versão em português):

Informações Adicionais:

cronograma das apresentações: LitPort3

dezembro 11, 2010 às 0:38 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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cronograma das apresentações: LitPort1

dezembro 11, 2010 às 0:18 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Introdução a ‘Os Lusíadas’ por Vítor Ramos

dezembro 10, 2010 às 21:01 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Clique AQUI para baixar. Visitando o Google Livros é possível ler outras partes dessa edição.

modernidade & religião: novas (ou velhas?) perspectivas

dezembro 5, 2010 às 23:52 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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simpson da vinci

Como a religião pode acomodar-se no âmbito da onipresente razão científica que estrutura o pensamento moderno? Segundo o teólogo John Spong, é preciso renovar-se as concepções acerca da natureza do divino numa direção “não teísta”, perspectiva que apresenta interessantes semelhanças com a concepção camoniana de Deus, conforme a análise de António Saraiva. Outro instigante viés comparativo seria entre o deus pós-moderno de Spong e o deus imanente e naturalista tantas vezes figurado na poesia de Alberto Caeiro.

 

Um Deus não teísta. Um novo cristianismo para a pós-modernidade

Se o cristianismo quiser continuar falando ao mundo pós-moderno, terá que fazer isso com base em ideias e palavras radicalmente novas. Mudança ou irrelevância, enfim, é essa alternativa: embora a tarefa seja imensa, embora pareça ambiciosa, a reformulação de toda a fé cristã será cada vez mais o seu único caminho de sobrevivência.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada na revista Adista, 29-11-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esse é uma questão que se tornou central na pesquisa teológica mais avançada, como indica por exemplo a Agenda Latino-Americana 2011, dedicada ao tema "Espiritualidade sem mito. Uma outra religião é possível". E que foi corajosamente abordada em livros que se tornaram pedras angulares nesse ainda breve percurso, como o publicado na Bélgica no ano 2000 e publicado em italiano em 2009 por iniciativa da Massari Editora, pelo jesuíta belga Roger Lenaers, "Il sogno di Nabucodonosor o la fine di una Chiesa medievale": uma tentativa de traduzir a mensagem cristã em uma linguagem em que o homem e a mulher modernos possam se reconhecer.

Ou então o que surgiu em 2002, do teólogo e bispo episcopaliano John Shelby Spong, "A New Christianity for a New World: Why Traditional Faith Is Dying and How a New Faith Is Being Born", que a mesma editora Massari decidiu apresentar ao público italiano, com o título "Un cristianesimo nuovo per un mondo nuovo. Perché muore la fede tradizionale e come ne nasce una nuova" (368 páginas).

Assim, a editora Massari mostra uma atenção confirmada também pela recente publicação do livro de Gumersindo Lorenzo Salas, "Una fede incredibile nel secolo XXI. Il mito del cristianesimo ecclesiastico" (224 páginas, introdução de Giovanni Franzoni).

O livro de Spong é a tentativa de oferecer uma visão do cristianismo "tão radicalmente reformulada que possa viver neste novo mundo audaz" e "tão global que, em comparação, a Reforma do século XVI parecerá uma brincadeira de crianças", mas que permaneça, apesar disso, ligada à "experiência que deu origem a essa fé-tradição há mais de 2 mil anos".

Não por acaso o autor se professa como "um alegre, apaixonado, convicto crente na realidade de Deus": "Acredito que Deus é real e que eu vivo profunda e significativamente em relação com essa divina realidade. Proclamou Jesus como meu Senhor. Acredito que ele mediou Deus de um modo poderoso e único na história da humanidade e em mim".

Porém, acrescenta, "não defino Deus como um ser sobrenatural. Não acredito em uma divindade que pode ajudar uma nação a vencer uma guerra, intervir para curar a doença de uma pessoa querida, permitir que uma equipe esportiva em particular vença a sua adversária".

"Além do teísmo, mas não além de Deus"

Segundo Spong, o Deus entendido teisticamente como "um ser com poder sobrenatural, que habita fora deste mundo e que invade o mundo periodicamente para realizar a sua divina vontade", um ser com poderes milagrosos a ser suplicado, obedecido e comprazido, diante do qual devemos nos prostrar como um escravo diante do patrão, está hoje morrendo, se já não estiver morto.

Embora as autoridades eclesiásticas prefiram continuar o jogo do "faz de conta", gritando sempre mais forte as antigas formulações, o Deus teísta, como "explicação do que era até agora inexplicável", está desaparecendo do nosso horizonte, empurrado sempre mais para as margens por meio de cada nova descoberta científica.

E aos seres humanos, que haviam se confiado com sucesso a essa divindade, durante séculos, para enfrentar a consciência da finitude e da insignificância humana, se encontram agora novamente diante do trauma da solidão e da perda de significado.

Porém, como evidencia Spong, se o teísmo, como descrição humana de Deus, morre, não é óbvio que Deus também deva morrer. Isto é, não é óbvio que a única alternativa ao teísmo seja o ateísmo (ou um insignificante deísmo: isto é, a afirmação de um Deus tão além da vida deste mundo que torna impossível qualquer relação com o divino): "A nossa sempre maior autoconsciência não poderia nos permitir entrar em relação com aquilo sobre o qual o nosso ser está fundamentado, que é mais do que somos, mas que também faz parte daquilo que somos?".

Assim, a nova maturidade que nos é pedida, traduzindo-se na dolorosa, assustadora renúncia a "um ser sobrenatural que nos sirva de genitor, que nos cuide, nos vigie e nos proteja", abre caminho para uma nova busca: a de "uma transcendência que entra na nossa vida, mas que nos chama para além dos limites da nossa humanidade, para um ser externo, mas para o Fundamento de todo o ser", para a compreensão de um Deus que "pode ser aproximado, experimentado, apresentado de modo radicalmente diferente".

A pergunta diante da qual nos encontramos torna-se: "Existe uma realidade que concordamos em chamar com a palavra de Deus, cujo rosto pode estar escondido, mas cujos efeitos posso ver?". E Spong não se isenta à tentativa de dar uma resposta: "Deus é a fonte última da vida. Venera-se Deus vivendo plenamente, compartilhando profundamente". E ainda: "Deus é a fonte última do amor. Adora-se esse Deus amando generosamente, difundindo amor com delicadeza, doando amor sem se deter para avaliar o custo".

E por fim: "Deus é o Ser, e veneramos esse Deus tendo a coragem de ser tudo aquilo que podemos ser", indo além "do modo de sobreviver fechados em nós mesmos, ao qual a vida humana está tão profundamente atrelada". "Hoje, eu vivo – escreve Spong – na convicção de que não estou separado desse Deus. (…). A alteridade vem ao meu encontro. A transcendência me chama. Deus me abraça". E, portanto, "Deus não está morto. Verdadeiramente entramos em Deus. Somos portadores de Deus, cocriadores, encarnação daquilo que Deus é".

O cristianismo do futuro

O autor também não renuncia à tentativa de responder a uma outra pergunta crucial, da qual depende o próprio futuro do cristianismo: "É possível ser capaz de contar a história de Cristo deixando de lado a concepção teísta de Deus?". Renunciando ao retrato terreno do Deus teísta em forma humana, enfim, restaria algo de Jesus? Para Spong, permaneceria uma vida humana que, "apesar disso", torna "conhecível, visível e fascinante o Fundamento de todo ser": "alguém que esteve mais profunda e plenamente vivo do que qualquer outro que eu jamais encontrei", alguém que "rompe os limites" e permite "superar as barreiras humanas e alcançar a divindade que a sua vida revela", que "revela a fonte do amor e depois nos chama a nela entrar".

E, por fim, como será a Igreja no mundo pós-teísta, uma vez que o culto não terá mais o objetivo de confessar os nossos pecados a um "paterno juiz", nem de contar com o poder das orações comunitárias para dirigir o curso da história do mundo, nem de purificar as crianças por meio do batismo "da humanidade caída na qual nascemos", nem de "reatualizar liturgicamente o divino sacrifício realizado para assegurar o nosso resgate de uma suposta condição desesperada de pecado original"?

Se uma nova humanidade "depende da nossa capacidade de irmos além da nossa mentalidade egocêntrica de sobrevivência", um dos objetivos da nova Igreja será o de organizar a vida de culto de modo a encorajar o amor desinteressado pelos outros.

E esse será o motivo pelo qual Jesus continuará estando no centro da nossa liturgia "como fúlgido exemplo de quem conseguiu viver plenamente, amar sem limites e ser tudo o que ele foi capaz de ser".

Do mesmo modo, a Igreja do futuro se dedicará à expansão do Reino de Deus, agindo com determinação não por um programa religioso, mas pelo programa da vida, da vida em abundância para todos, não impondo sua própria verdade a ninguém, mas vivendo só "para aumentar o amor que está presente na vida".

FONTE: IHU Online

o humanismo diferencial da filosofia africana

dezembro 5, 2010 às 23:28 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ubuntu escultura gana

Bom material midiático para abordar o problema da diferença cultural no plano da filosofia e, mais especificamente de acordo com as questões discutidas na LitPort1, para embasar uma crítica ao ideário humanista etnocêntrico e individualista que mobiliza os primórdios da expansão colonial europeia e portuguesa. Interessante pensar como o “antropocentrismo absolutista” a que se refere Malomalo pode ser compreendido como uma das formulações ideológicas daquilo que António Saraiva diagnostica como a separação entre sujeito e objeto no impulso civilizador europeu.

   

”Eu só existo porque nós existimos”: a ética Ubuntu. Entrevista especial com Bas’Ilele Malomalo

"Sou porque nós somos": em uma frase, esse seria o resumo da ética Ubuntu. Porém, é na construção histórica e cultural dessa ética, que nasce na África que se encontra a sua riqueza. Para o filósofo, teólogo e sociólogo congolês Bas’Ilele Malomalo, toda existência é sagrada para os africanos, ou seja, há um pouco do divino em tudo o que existe. Por isso, "o Ubuntu retrata a cosmovisão do mundo negro-africano".

É por isso que o suposto antropocentrismo que poderia estar por trás do Ubuntu é "relativista", segundo Malomalo, nesta entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. "O ser humano africano sabe que nem tudo depende da sua vontade", afirma. "Esta depende também da vontade dos ancestrais, dos orixás", em suma, do sagrado.

Por outro lado, Ubuntu e felicidade são conceitos que andam juntos: "Na África, a felicidade é concebida como aquilo que faz bem a toda coletividade ou ao outro". E quem é o meu "outro"? "São meus orixás, ancestrais, minha família, minha aldeia, os elementos não humanos e não divinos, como a nossa roça, nossos rios, nossas florestas, nossas rochas". Dessa forma, resume Malomalo, para a filosofia africana, "o ser humano tem uma grande responsabilidade para a manutenção do equilíbrio cósmico".

Bas’Ilele Malomalo é natural do Congo, África, e possui graduação em Filosofia pelo Grand Seminaire Fraçois Xavier – Filosoficum e em teologia pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp). É mestre em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo e é doutorando em sociologia pela Universidade Estadual Paulista – Araraquara. Atualmente é pesquisador do Centro dos Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Cladin-Unesp).

A entrevista que segue faz parte de uma iniciativa do IHU, por meio de seu Escritório da Fundação Ética Mundial no Brasil, que busca ampliar o debate sobre Ética Mundial, incluindo também outras perspectivas, especialmente dos povos originários latino-americanos – como o conceito ético do Sumak Kawsay – e africanos – o Ubuntu.
Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é e quais as origens do Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo –
Etimologicamente, Ubuntu vem de duas línguas do povo banto, zulu e xhona, que habitam o território da República da África do Sul, o país do Mandela. Do ponto de vista filosófico e antropológico, o Ubuntu retrata a cosmovisão do mundo negro-africano. É o elemento central da filosofia africana, que concebe o mundo como uma teia de relações entre o divino (Oludumaré/Nzambi/Deus, Ancestrais/Orixás), a comunidade (mundo dos seres humanos) e a natureza (composta de seres animados e inanimados). Esse pensamento é vivenciado por todos povos da África negra tradicional e é traduzido em todas as suas línguas.
A origem do Ubuntu está na nossa constituição antropológica. Pelo fato de a África ser o berço da humanidade e das civilizações, bem cedo nossos ancestrais humanos desenvolveram a consciência ecológica, entendida como pertencimento aos três mundos apontados: dos deuses e antepassados, dos humanos e da natureza.
Com as migrações intercontinentais e a emergência de outras civilizações em outros espaços geográficos, essa mesma noção vai se expressar em outros povos que pertencem às sociedades ditas pré-capitalistas ou pré-modernas. É dessa forma que se pode afirmar que essa forma de conceber o mundo na sua complexidade é um patrimônio de todos os povos tradicionais ou pré-modernos. Cada um expressa isso através de suas línguas, mitos, religiões, filosofias e manifestações artísticas.
Como elemento da tradição africana, o Ubuntu é reinterpretado ao longo da história política e cultural pelos africanos e suas diásporas. Nos anos que vão de 1910-1960, ele aparece em termos do panafricanismo e da negritude. São esses dois movimentos filosóficos que ajudaram a África a lutar contra o colonialismo e a obter suas independências. Após as independências, estará presente na práxis filosófica do Ujama de Julius Nyerere, na Tanzânia; na filosofia da bisoité ou bisoidade (palavra que vem da língua lingala, e traduzida significa "nós") de Tshamalenga Ntumba; nas práticas políticas que apontam para as reconciliações nacionais nos anos de 1990 na África do Sul e outros países africanos em processo da democratização.
A tradução da ideia filosófica que veicula depende de um contexto cultural a outro, e do contexto da filosofia política de cada agente. Na República Democrática do Congo, aprendi que Ubuntu pode ser traduzido nestes termos: "Eu só existo porque nós existimos". E é a partir dessa tradução que busco estabelecer minhas reflexões filosóficas sobre a existência. Muitos outros intelectuais africanos vêm se servindo da mesma noção para falar da "liderança coletiva" na gestão da política e da vida social.

IHU On-Line – Como um princípio ético nascido na África, que manifestações do Ubuntu podemos encontrar na cultura brasileira ou afro-brasileira, tão marcada por raízes africanas?
Bas’Ilele Malomalo –
É preciso voltar à história para capturar as manifestações do Ubuntu em suas diásporas transatlânticas. No Brasil, a noção do Ubuntu chega com os escravizados africanos a partir do século XVI. Estes trouxeram a sua cultura nos seus corpos, e ela foi reinventada a partir do novo contexto da escravidão. Por isso, falar de Ubuntu no Brasil é falar de solidariedade e resistência. Como outros registros histórico-antropológicos que expressam o "ubuntu afro-brasileiro", podemos citar os quilombos, as religiões afro-brasileiras, irmandades negras, movimentos negros, congadas, moçambique, imprensas negras.

IHU On-Line – Como podemos compreender a religião ou o sagrado por meio do Ubuntu? De que forma ele tenciona a noção religioso-transcendental?
Bas’Ilele Malomalo –
Para os africanos e seus descendentes, toda existência é sagrada, quer dizer, há um pouco do divino em tudo o que existe. A religião, como instituição social e sistema simbólico, apresenta-se como o espaço privilegiado de alimentação da “consciência ubuntuística". Através de seus ritos, seus sacerdotes e adeptos a reatualizam. Os mitos, as celebrações, os cantos e encantamentos desempenham essa função de nos religar com nossos deuses, antepassados, com a comunidade, conosco mesmos, com o cosmos e a natureza. Além dos ritos sagrados, os profanos também desempenham a mesma função mística. Na África, os ritos de iniciação, de entronização dos reis ou rainhas estão sempre conectados com a ancestralidade.

IHU On-Line – Dentro da ética Ubuntu, qual é o papel do ser humano e da comunidade?
Bas’Ilele Malomalo –
A concepção africana do mundo é antropocêntrica. Não no sentido absolutista da filosofia iluminista ocidental, que pensa que o ser humano é o centro do mundo e que ele pode tudo e pode fazer tudo o que quiser. O antropocentrismo africano é "relativista". Quer dizer o ser humano africano sabe que nem tudo depende da sua vontade. Esta depende também da vontade dos ancestrais, dos orixás. Se estes revelarem, através de um sonho, de um Ifá, de um sacerdote, do seu pai ou da sua mãe, um acontecimento, será preciso prestar atenção.
Por outro lado, o antropocentrismo africano entende que uma boa prática religiosa só existe naquela que traz a felicidade para o ser humano. Como este não pode ser concebido fora das relações sociais, na África, a felicidade é concebida como aquilo que faz bem a toda coletividade ou ao outro. Os outros são meus orixás, ancestrais, minha família, minha aldeia, os elementos não humanos e não divinos, como a nossa roça, nossos rios, nossas florestas, nossas rochas. Dessa forma, para a filosofia africana, o ser humano tem uma grande responsabilidade para a manutenção do equilíbrio cósmico.

IHU On-Line – Em uma época de crise ecológica e ambiental, como o Ubuntu pode nos ajudar a desenvolver uma nova relação com os demais seres não humanos?
Bas’Ilele Malomalo –
Do ponto de vista filosófico, a crise planetária atual encontra suas raízes na expansão ocidental desde a Idade Média até o surgimento da modernidade. A hegemonia da "razão indolente" (
Boaventura de Sousa Santos) nas suas manifestações através do colonialismo, positivismo, racismo científico, capitalismo selvagem, tem sido o instrumento de aprofundamento dos males da nossa civilização. Esse pensamento absolutizou tanto o homem que este voltou-se contra suas divindades, contra a natureza e contra seus semelhantes. O seu "antropocentrismo absolutista" criou as condições de destruição da sua própria espécie e das espécies não humanas.
Qual é a saída que os pensamentos alternativos têm sugerido? Boaventura de Sousa Santos alega que é preciso acionar a "razão cosmopolita"; Edgar Morin sugere o uso de uma epistemologia da complexidade;
Leonardo Boff tem sugerido a espiritualidade ecológica. É na busca da união umbilical, afirma Boff, que se encontraria a salvação da humanidade, a superação da crise ecológica atual.
Na filosofia africana, Tshamalenga Ntumba tem interpretado o Ubuntu em termos de "Bisoidade". Tal prática se caracterizaria pela abertura ao diferente, encará-lo como parte de nós. Nessa direção, o mundo da fé, das divindades, dos orixás, dos ancestrais deve dialogar com o mundo dos seres humanos e não humanos (natureza/cosmos). Esse conceito vislumbra o encontro ético e político do "Nós". Trata-se do "nós ecológico". Para esse filósofo congolês, a existência significa uma interação entre as três dimensões da cosmovisão africana. As crises políticas, econômicas, culturais e sociais que têm afetado o continente africano, para ele, ocorrem porque o ser humano se esqueceu de cuidar do "biso" ou do "nós ecológico".
Dessa forma, antes dos humanos cuidarem dos não humanos, precisam cuidar da sua casa. Quer dizer, rever suas práticas filosóficas e científicas dentro dos parâmetros éticos. Uma vez feito isso, poderiam ter condições de cuidar do meio em que vivem. Insisto nisso, porque há um certo pensamento ambientalista ligado à razão indolente. Muitos falam do meio ambiente para lucrar. Essa opção leva esses ativistas e cientistas a ocultar as misérias humanas. O Ubuntu é uma crítica à visão simplista e interesseira. Pensar o desenvolvimento ambiental nessa perspectiva é perceber, como Boff, que deve se levar as coisas no contexto da dialética da complexidade, na qual o teológico, o antropológico e o cosmológico-ambiental dialogam sabiamente. Somos nós, os humanos, que devemos procurar o estabelecimento desse equilíbrio planetário. As responsabilidades têm que ser apuradas, e evitar o discurso da hipocrisia burguesa.

IHU On-Line – Como interpretar nossa memória, nosso passado, nossa ancestralidade a partir do Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo –
Na filosofia negro-africana, a ancestralidade é eixo do entendimento da nossa existência. É tudo aquilo que nos proporciona a vivência do nosso presente (sasa, em swahili) e nosso futuro (lobi, em lingala), tendo aqueles que pertencem ao passado (zamani, em swahili), os que nos antecederam, divindades, orixás e antepassados como ponto de leitura das duas primeiras dimensões da existência.
A vontade das divindades, geralmente, concretizam-se pelas vontade dos orixás e ancestrais presentes na sabedoria popular, nos mitos. Os sacerdotes e pessoas mais velhas vivas têm o papel de interpretá-la através dos ritos e práticas do cotidiano.
Desse ponto de vista, os mitos e ritos africanos têm por função pedagógica lembrar aos vivos o seu parentesco com os seres do mundo invisível e visível (seres humanos e seres não humanos). Todos os mitos africanos se pautam nessa lógica. Como os mitos judaicos, os mitos africanos nos informam que os seres humanos têm um pouco de divino; cada um é filho de um orixá; e um pouco da natureza. Conta um mito da criação que Oludumaré (Deus supremo) deu ao orixá Obatalá a missão de criar o ser humano, e este o fez a partir do barro (elemento da natureza). Eis a nossa irmandade planetária. A cosmovisão africana do mundo tem uma importância no sentido de contribuir para o pensamento ecológico contemporâneo.

IHU On-Line – Em uma sociedade embasada em valores ocidentais e modernos como a nossa, que questionamentos políticos, econômicos e sociais o Ubuntu pode fomentar?
Bas’Ilele Malomalo –
O Ubuntu pertence ao pensamento alternativo, que cogita o mundo a partir da complexidade. E é oportuno reafirmar que toda filosofia carrega valores e antivalores. Para a filosofia de Ubuntu, não se pode falar de economia e política sem levar em consideração os valores da comunidade cósmica. Os profissionais de todos os campos da teologia, das ciências sociais e da natureza, políticos, o homem e a mulher comuns, todos devem ser ouvidos. O Ubuntu luta contra os reducionismos impostos pela razão indolente no fazer política e economia. A democracia participativa em todos os campos é tida como um valor. A economia não se reduz ao crescimento. Este tem a ver também com o social e com o cultural. O valor de solidariedade é também importante. 

IHU On-Line – Diante da violência e das desigualdades, que significado têm o perdão, a reconciliação e a compaixão para a ética Ubuntu?
Bas’Ilele Malomalo –
É preciso dizer, primeiro, que as vítimas da violência e das desigualdades são aquelas que compõem a classe dos excluídos por motivos raciais, de gênero, de opção sexual ou religiosa. Os seres não humanos também pertencem a essa classe dos dominados pelo fato de interagir com as classes dominantes, agentes da razão indolente, de uma forma desigual. Com isso, estou querendo afirmar a historicidade da violência e das desigualdades.
Olhando para a história africana e da sua diáspora brasileira, quero citar alguns casos em que o Ubuntu se materializou ou foi tencionado para ser traduzido em termos de perdão, reconciliação e compaixão.
A África do Sul, após a libertação de Mandela e o fim do apartheid, colocou-se como o exemplo histórico da tradução do Ubuntu no projeto político multicultural. Esse país, através de suas lideranças políticas, religiosas e sociais, soube fazer uso dos princípios éticos dessa filosofia através do estabelecimento da Comissão da Verdade e Reconciliação. Tratava-se da recriação de um espaço de diálogo da comunidade de inspiração nos "palabres africanos". Palabre é uma palavra francesa, que se refere aos espaços de mediação de conflitos da comunidade, que contam com a habilidade do uso da palavra por parte dos mais velhos ou sábios. Não se tratava de um espaço de condenação dos torturadores ou racistas, mas sim de um encontro do povo sul-africano consigo mesmo, com seus problemas do passado, com o seu presente e com o seu futuro a ser construído. Um encontro com a sua memória de dor, sofrimento e de esperança. Após esse processo, esse país se define hoje como uma Nova África do Sul, que se reconhece como um país multicultural, onde brancos e negros podem conviver juntos. Dessa forma, o zamani [passado] de sofrimento se transformou num sasa-lobi [presente-futuro] de esperança.
Em 2001, com a Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata (31 de agosto a 8 de setembro de 2001), em Durban, na África do Sul, as vítimas do escravismo colonial europeu, africanos e seus descendentes, exigiram aos Estados europeus, americanos e africanos um pedido de perdão pelos atos cometidos. Os Estados africanos através do representante da União Africana o fizeram, mas da parte dos dirigentes dos outros Estados houve resistência. Pois muitos não queriam assumir a sua responsabilidade histórica. Afinal de contas, a conferência condenou a escravidão como crime contra a humanidade.
Esses dois exemplos devem inspirar todas as sociedades multiculturais que pretendem propiciar um destino melhor para todos os seus cidadãos. Os países africanos que ainda brigam por causa da hegemonia política ou da gestão dos recursos naturais; os países da América Latina, como o caso do Brasil, onde as sequelas do escravismo e do racismo dividem, proporcionando aos seus cidadãos o acesso aos direitos políticos, econômicos, sociais e culturais de forma diferenciada, devem se servir dos exemplos citados, para que o Ubuntu se torne uma profecia da esperança cumprida.
No caso dos países africanos em situação das ditaduras militares, da democracia de fachada ou da democracia fraca e do pós-conflito, cabe apelar ao Ubuntu como uma nova forma de se pensar e fazer política. Governar, nesse sentido, significa ouvir os opositores, presentes em outros partidos políticos, nas organizações da sociedade civil, nas aldeias para a elaboração de um projeto nacional coletivo. Perdoar significa também fazer justiça em relação às mulheres vítimas de estupros, de genocídios, de matanças por razões de egoísmo dos senhores de guerras africanas. Reconciliação, nesse contexto, significa esclarecimento perante a comunidade dos problemas que afetam as nações, e a partilha das responsabilidades. É uma volta à memória ancestral, aos valores africanos do passado, mas atualizados no presente, e o seu uso no exercício de fazer a política na modernidade. Nesse aspecto, a legitimidade dos dirigentes se fundamenta na prática da lealdade, na busca do bem-estar do povo, e não o contrário.

IHU On-Line – Em um contexto social como o brasileiro, como a ética Ubuntu pode contribuir na situação contemporânea?
Bas’Ilele Malomalo – Uma coisa que Ubuntu tem para nos ensinar, nesse momento histórico, de experimentação de políticas públicas de ações afirmativas e cotas é a consideração dos elementos de perdão, reconciliação e compaixão. Para mim, perdoar significa antes de tudo a identificação das causas de nossos males. Os males, que justificam a situação do subdesenvolvimento da população negra quando comparada com a branca, têm nomes: o nosso passado escravista e o racismo contemporâneo. Tem outros fatores, mas esses dois são suficientes. Para a teologia afro-brasileira, eles são identificados aos pecados.
As instituições e as pessoas reprodutoras dessas práticas têm que assumir suas responsabilidades perante Deus e a humanidade. Num país de maioria cristã como o Brasil, exercer a compaixão significa colocar-se no lugar do outro. As Igrejas cristãs como parte da sociedade civil brasileira devem exercer o seu papel profético ao lado das igrejas, comunidades, pastorais negras, em vez de ficar "em cima do muro". A Igreja latino-americana dos anos de 1970 precisa voltar. O grito de "Maranata" aqui significa que as comunidades religiosas têm o dever ético de fazer ouvir a sua voz e interagir no debate atual sobre as políticas públicas para negros e indígenas.
Reconciliação na perspectiva do Ubuntu, no Brasil atual, é um encontro entre nós mesmos, com o nosso passado de dor, resistência e esperança. É um encontro entre nós mesmos como povo brasileiro. Um povo marcado pela miscigenação emancipatória e não um falso discurso de miscigenação colonialista. A diferença é que o primeiro discurso assume a pluralidade como valor, já o segundo o nega e o encara como uma ameaça.

(Por Moisés Sbardelotto)

FONTE: IHU Online

Litport1: simulado da prova

dezembro 3, 2010 às 17:42 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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camoes2

Considere as os dois textos poéticos transcritos abaixo. No primeiro, retirado de Os Lusíadas, Vasco da Gama recorda a decisão do rei D. João II de dar início à Expansão Marítima através da conquista de Ceuta. A seguir, reproduz-se a primeira e a última estrofe de “O homem, as viagens”, de C. D. de Andrade. Comente e articule esses dois textos levando em conta as proposições feitas sobre eles e os parâmetros interpretativos sugeridos por António SARAIVA e Silviano SANTIAGO para os textos que ficcionalizam a memória da expansão marítima lusitana.

Não sofre o peito forte, usado à guerra,
Não ter imigo já a quem faça dano;
E assi, não tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano
Este é o primeiro Rei que se desterra
Da pátria, por fazer que o Africano
Conheça, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo à lei de Mafamede.

[CAMÕES. Os Lusíadas, IV, 48]

* * *

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

(…)

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

[Carlos Drummond de ANDRADE. O homem, as viagens]

a) No trecho transcrito de Os Lusíadas, podemos observar um dos momentos em que Camões busca justificar a expansão marítima através da curiosidade pelo outro, especialmente pelos povos africanos.

b) No poema de Drummond, propõe-se que o expansionismo civilizador pode basear-se num tipo de humanismo que não recaia na “incapacidade de sair de si mesmo para se identificar com o Outro”. (SARAIVA, Introdução, p.20)

c) Podemos considerar que a representação do elemento líquido na estrofe camoniana destacada expressa aquele sentimento de “panerotismo” apontado por Saraiva, o qual é entendido como força oposta ao impulso objetificador resultante da “tendência dominadora” ocidental.

d) Ainda que de maneira sutil, podemos identificar representações de um ideário religioso no poema de Drummond (exemplifique).

drummond estátua

dialogando com Camões

dezembro 3, 2010 às 12:24 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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folha de poesia_camoes1

Aos estudantes da LitPort1 recomenda-se uma visita demorada à postagem dedicada a Camões no blogue português FOLHA DE POESIA (clique nas imagens). Além de informação variada sobre a biografia desse poeta e sobre o impacto cultural de sua obra, encontramos nessa postagem uma ampla antologia de poesias portuguesas e brasileiras que retomam ideias e questões trabalhadas na obra camoniana.

folha de poesia_camoes2

prova de litport3: exercício

dezembro 2, 2010 às 14:48 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Selecione DOIS dentre os poemas listados abaixos e comente cada um deles (mínimo de 10 linhas), considerando a pertinência das proposições feitas a seguir às transcrições e discutindo elementos textuais ou teóricos que confirmem, ou não, as interpretações sugeridas.

 

1.      APOSTILA  [Álvaro de Campos]

Aproveitar o tempo! 
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? 
Aproveitar o tempo! 
Nenhum dia sem linha… 
O trabalho honesto e superior… 
O trabalho à Virgílio, à Milton… 
Mas é tão difícil ser honesto ou superior! 
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo! 
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos – 
Para com eles juntar os cubos ajustados 
Que fazem gravuras certas na história 
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)… 
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, 
E os pensamentos em dominó, igual contra igual, 
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos – 
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um acto indefinido nem factício…

Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…

Aproveitar o tempo! 
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. 
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. 
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. 
Aproveitar o tempo! 
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. 
Aproveitei-os ou não? 
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo 
No comboio suburbano, 
Chegaste a interessar-te por mim? 
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? 
Qual foi a vida que houve nisto?

Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo! 
Ah, deixem-me não aproveitar nada! 
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!… 
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, 
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
O pião do garoto, que vai a parar, 

E estremece, no mesmo movimento que o da terra, 
E oscila, no mesmo movimento que o da alma, 
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

a)    Observa-se neste poema uma crítica à racionalidade moderna, focalizando especialmente a ideia de que a dedicação intensiva ao trabalho e à produção são capazes de conduzir os sujeitos a um grau superior de realização e de auto-conhecimento. Para o eu-lírico, a fé religiosa é o melhor caminho para garantir essa realização.

 b)    Apesar da insistência anafórica em se pautar pelos ritmos da modernidade (“Aproveitar o tempo!”), o trabalho introspectivo feito pelo eu-lírico também aponta caminhos alternativos para a satisfação de suas carências, dentre os quais podemos destacar:

 i)              a reconstrução de sua subjetividade através da linguagem literária, processo que denomina de “verbalismo”;

ii)             a reconstrução de sua humanidade através de um eventual relacionamento amoroso, tal como é sugerido na quinta estrofe;

iii)            a recuperação de autenticidade existencial através de um retorno simbólico à visão-de-mundo infantil, tal como é sugerido na última estrofe.

 

2.      GLOSAS  [Fernando Pessoa]

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.

O vento vão, que as folhas vãs enroda,

Figura o nosso esforço e o nosso estado.

O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita

A possibilidade erma e infinita

De onde o real emerge inutilmente,

E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.

Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo

Suposto, o Fado que chamamos Deus

Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.

Uma coisa é uma cara contraída

E a outra uma água com um leve sal.

E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,

E, renovando o curso, nasce e morre

Nos horizontes do que contemplamos.

Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,

Jazemos o instinto e a ciência.

E o sol parado nunca percorreu

Os doze signos que não há no céu.

a)    Predomina neste poema uma concepção anti-humanista do sujeito, perante a qual a noção de autonomia pessoal que caracteriza o sujeito iluminista é tomada como uma ilusão.

 b)    Para o eu-lírico, o “Fado” que governa a vida dos indivíduos está em conflito constante com impulsos oriundos do inconsciente psíquico, impulsos que fazem aflorar o lado maléfico das pessoas.

  

 3.      NÃO MEU, NÃO MEU É QUANTO ESCREVO. 

A quem o devo?

De quem sou o arauto nado?

Por que, enganado,

Julguei ser meu o que era meu?

Que outro mo deu?

Mas, seja como for, se a sorte

For eu ser morte

De uma outra vida que em mim vive,

Eu, o que estive

Em ilusão toda esta vida

Aparecida,

Sou grato Ao que do pó que sou

Me levantou.

(E me fez nuvem um momento

De pensamento.)

(Ao de quem sou, erguido pó,

Símbolo só.)

 [Fernando Pessoa]

 a)    O conjunto de negativas e de interrogações que iniciam este poema propõem um questionamento agudo da racionalidade cartesiana pressuposta nas concepções clássicas do sujeito, colocando em foco uma perspectiva niilista sobre a existência humana.

 b)    Neste poema a imagem cristã da criação do homem é retomada sob uma perspectiva que põe em destaque a concepção do “eu” como uma entidade essencialmente discursiva.   


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