prova de litport3: exercício

dezembro 2, 2010 às 14:48 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Selecione DOIS dentre os poemas listados abaixos e comente cada um deles (mínimo de 10 linhas), considerando a pertinência das proposições feitas a seguir às transcrições e discutindo elementos textuais ou teóricos que confirmem, ou não, as interpretações sugeridas.

 

1.      APOSTILA  [Álvaro de Campos]

Aproveitar o tempo! 
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? 
Aproveitar o tempo! 
Nenhum dia sem linha… 
O trabalho honesto e superior… 
O trabalho à Virgílio, à Milton… 
Mas é tão difícil ser honesto ou superior! 
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo! 
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos – 
Para com eles juntar os cubos ajustados 
Que fazem gravuras certas na história 
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)… 
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, 
E os pensamentos em dominó, igual contra igual, 
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos – 
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um acto indefinido nem factício…

Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…

Aproveitar o tempo! 
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. 
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. 
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. 
Aproveitar o tempo! 
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. 
Aproveitei-os ou não? 
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo 
No comboio suburbano, 
Chegaste a interessar-te por mim? 
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? 
Qual foi a vida que houve nisto?

Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo! 
Ah, deixem-me não aproveitar nada! 
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!… 
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, 
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
O pião do garoto, que vai a parar, 

E estremece, no mesmo movimento que o da terra, 
E oscila, no mesmo movimento que o da alma, 
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

a)    Observa-se neste poema uma crítica à racionalidade moderna, focalizando especialmente a ideia de que a dedicação intensiva ao trabalho e à produção são capazes de conduzir os sujeitos a um grau superior de realização e de auto-conhecimento. Para o eu-lírico, a fé religiosa é o melhor caminho para garantir essa realização.

 b)    Apesar da insistência anafórica em se pautar pelos ritmos da modernidade (“Aproveitar o tempo!”), o trabalho introspectivo feito pelo eu-lírico também aponta caminhos alternativos para a satisfação de suas carências, dentre os quais podemos destacar:

 i)              a reconstrução de sua subjetividade através da linguagem literária, processo que denomina de “verbalismo”;

ii)             a reconstrução de sua humanidade através de um eventual relacionamento amoroso, tal como é sugerido na quinta estrofe;

iii)            a recuperação de autenticidade existencial através de um retorno simbólico à visão-de-mundo infantil, tal como é sugerido na última estrofe.

 

2.      GLOSAS  [Fernando Pessoa]

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.

O vento vão, que as folhas vãs enroda,

Figura o nosso esforço e o nosso estado.

O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita

A possibilidade erma e infinita

De onde o real emerge inutilmente,

E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.

Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo

Suposto, o Fado que chamamos Deus

Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.

Uma coisa é uma cara contraída

E a outra uma água com um leve sal.

E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,

E, renovando o curso, nasce e morre

Nos horizontes do que contemplamos.

Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,

Jazemos o instinto e a ciência.

E o sol parado nunca percorreu

Os doze signos que não há no céu.

a)    Predomina neste poema uma concepção anti-humanista do sujeito, perante a qual a noção de autonomia pessoal que caracteriza o sujeito iluminista é tomada como uma ilusão.

 b)    Para o eu-lírico, o “Fado” que governa a vida dos indivíduos está em conflito constante com impulsos oriundos do inconsciente psíquico, impulsos que fazem aflorar o lado maléfico das pessoas.

  

 3.      NÃO MEU, NÃO MEU É QUANTO ESCREVO. 

A quem o devo?

De quem sou o arauto nado?

Por que, enganado,

Julguei ser meu o que era meu?

Que outro mo deu?

Mas, seja como for, se a sorte

For eu ser morte

De uma outra vida que em mim vive,

Eu, o que estive

Em ilusão toda esta vida

Aparecida,

Sou grato Ao que do pó que sou

Me levantou.

(E me fez nuvem um momento

De pensamento.)

(Ao de quem sou, erguido pó,

Símbolo só.)

 [Fernando Pessoa]

 a)    O conjunto de negativas e de interrogações que iniciam este poema propõem um questionamento agudo da racionalidade cartesiana pressuposta nas concepções clássicas do sujeito, colocando em foco uma perspectiva niilista sobre a existência humana.

 b)    Neste poema a imagem cristã da criação do homem é retomada sob uma perspectiva que põe em destaque a concepção do “eu” como uma entidade essencialmente discursiva.   

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