cartografias das literaturas africanas

abril 27, 2011 às 10:57 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ipotesi n14 grifo

A recentemente lançada edição 14 da Revista Ipotesi, conceituada publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora, reúne uma série de artigos voltados para discussão teórica e crítica acerca da ficção africana, destacadamente dos textos produzidos por autor@s de língua portuguesa. Nesse conjunto encontra-se um artigo meu, intitulado O sexo da “raça”: identidade, escravidão e patriarcalismo em A gloriosa família, de Pepetela, texto no qual discuto as articulações históricas e simbólicas constituídas entre racismo e sexismo no âmbito das sociedades escravocratas lusófonas, articulações que se convertem numa “economia política da sexualidade”, conforme os termos de Osmundo Pinho, que desempenha um papel central na regulação de conflitos e diferenças nas sociedades lusófonas pós-coloniais. O processo de construção cultural dessa economia pode ser visibilizado através de um estudo genealógico do excelente romance de Pepetela A gloriosa família, tal como me propus a fazer no artigo em causa.

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pobreza e racismo no Brasil: dados recentes

abril 20, 2011 às 12:10 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Desigualdade racial se agrava no Brasil, diz relatório da UFRJ

Por outro lado, trabalho constata que pretos e pardos foram os mais beneficiados pelo estabelecimento do SUS

Wilson Tosta

O Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009-2010, lançado ontem na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta a persistência e o agravamento da desigualdade entre pretos e pardos, de um lado, e brancos. O trabalho, produzido pelo Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser) da UFRJ, mostra, por exemplo, que em 2008 quase metade das crianças afrodescendentes de 6 a 10 anos estava fora da série adequada, contra 40,4% das brancas. Na faixa de 11 a 14 anos, o porcentual de pretos e pardos atrasados subia para 62,3%.

Os resultados contrastam com avanços nos últimos 20 anos. A média de anos de estudo de afrodescendentes foi de 3,6 anos para 6,5 entre 1988 e 2008, e a taxa de crianças pretas e pardas na escola chegou a 97,7%. Mesmo assim, o avanço entre pretos e pardos foi menor. Na saúde, subiu a proporção de afrodescendentes mortas por causa da gravidez ou consequências. “Não quer dizer que as coisas estejam às mil maravilhas para os brancos, mas os pretos e pardos são os mais atingidos”, diz um dos coordenadores, o economista Marcelo Paixão.

Com 292 páginas, o trabalho é focado nas consequências da Constituição de 1988 e seus desdobramentos para os afrodescendentes. Para produzir o texto, os pesquisadores do Laeser recorreram a bases de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos Ministérios da Saúde e da Educação e do Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros. Foram abordados temas como Previdência, acesso ao sistema de saúde, assistência social e ensino.

O estudo constata que o estabelecimento do SUS beneficiou mais pretos e pardos (66,9% da sua população atendida em 2008) do que brancos (47,7%), mas a taxa de não cobertura (proporção dos que não conseguem atendimento) dos afrodescendentes foi de 27%, para 14% dos brancos. “A Constituição de 1988 não foi negativa para os afrodescendentes, mas, do ponto de vista de seu ideário, ainda é algo a ser realizado”, diz Paixão, reconhecendo que há brancos prejudicados, em menor proporção.

Em 2008

40,9%
das mulheres pretas e pardas nunca haviam feito mamografia, contra 22,9% das brancas

18,1%
das mulheres pretas e pardas nunca haviam feito papanicolau (13,2% entre as brancas)

Fonte: Portal Áfricas / Estadao.com.br

+++++ poesia barroca portuguesa

abril 19, 2011 às 0:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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vercial barroco

Clique na imagem e embriague-se de agudezas seiscentistas com certeza portuguesas!

poesia portuguesa de agudeza: antologia

abril 19, 2011 às 0:08 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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perola barroca lilas

Na imagem acima podem ser apreciadas algumas fieiras de pérolas barrocas lilases, também usadas na joalheria. A beleza estranha dessas jóias encontra sua correspondente textual na  intricada poesia barroca, arte feita de palavras retorcidas, sintaxes tortuosas e significações agudas, como pode ser conferido na breve antologia que segue abaixo, reunindo alguns textos de referência para nosso curso e nossas avaliações. A coletânea inicia-se com um famoso soneto maneirista de Luís de Camões, a sinalizar, tanto a nível temático quanto formal, a crise que abala os padrões de equilíbrio estético e intelectual do Renascimento, crise que desemboca na literatura diversificadamente engenhosa que, desde o trabalho sistematizador de Heinrich Wölfflin, tem sido demarcada e definida como barroca.

Se desejar conhecer mais detidamente questões teóricas e estéticas relativas ao “procedimento retórico-poético da agudeza como efeito que especifica a poesia lírica seiscentista de  Portugal”, além da excelente dissertação de Thiago Saltarelli, As poéticas seiscentistas e a obra de Dom Francisco Manuel de Melo, que estamos discutindo em classe, você também pode conferir a tese de doutoramento de Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, intitulada Poesia de Agudeza em Portugal, trabalho defendido na UNICAMP, em 2004, e que contou na banca de arguição com o eminente professor e pesquisador da arte engenhosa,  João Adolfo Hansen.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

[Luís Vaz de Camões]

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Vede-me de si mesmo o tempo conta
E para dar-se pede a conta tempo,
que quem gastou sem conta tanto tempo;
como o dar sem tempo tanta conta.

Não quer louvar o tempo, tempo em conta,
Porque conta não faz de dar ao tempo,
Em que só para conta havia tempo,
Se na conta do tempo, houvesse conta.

Mas que conta dar a quem não tem tempo
em que tempo [andava] quem não tem conta
a quem sem conta vive falta tempo.

Vejo-me sem ter tempo e sem ter conta
Sabendo que ei de dar conta do tempo
E que se há de chegar tempo da conta.

[Anônimo, Códice 13.217, in: Cancioneiros do século XVI e XVIII]

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Será brando o rigor, firme a mudança,
humilde a presunção, vária a firmeza,
fraco o valor, cobarde a fortaleza,
triste o prazer, discreta a confiança;

Terá a ingratidão firme lembrança,
será rude o saber, sábia a rudeza,
lhana a ficção, sofística a lhaneza,
áspero o amor, benigna a esquivança;

Será merecimento a indignidade,
defeito a perfeição, culpa a defensa,
intrépido o temor, dura a piedade,

Delito a obrigação, favor a ofensa,
verdadeira a traição, falsa a verdade
antes que vosso amor meu peito vença.

[Sóror Violante do Céu]

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“A uma ausência”

Vida que não acaba de acabar-se,
Chegando já de vós a despedir-se,
Ou deixa, por sentida, de sentir-se,
Ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
Pois chega já de vós a dividir-se,
Ou procura, vivendo, consumir-se,
Ou pretende, matando, eternizar-se.

O certo é, Senhor, que não fenece,
Antes no que padece se reporta,
Por que não se limite o que padece.

Mas viver entre lágrimas, que importa
Se vida que entre ausência permanece
É só viva ao pesar, ao gosto morta?

[Sóror Violante do Céu]

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“Ao Padre António Vieira, pregando do nascimento de N. Senhora no Convento da Rosa”

(Silva)

Aspirar a louvar o incompreensível,
E fundar o desejo no impossível;
Reduzir a palavras os espantos,
Detrimento será de excessos tantos;
Dizer, do muito, pouco,
Dar o juízo a créditos de louco;
Querer encarecer-vos,
Eleger os caminhos de ofender-vos;
Louvar diminuindo,
Subir louvando e abaixar subindo;
Deixar também, cobarde, de louvar-vos,
Será mui claro indício de ignorar-vos;
Fazer a tanto impulso resistência,
Por o conhecimento em contingência;

Delirar por louvar o mais perfeito,
Achar a perfeição no que é defeito;
Empreender aplaudir tal subtileza,
Livrar todo o valor na mesma empresa.
Errar exagerando,
Ganhar perdendo e acertar errando.
Siga pois o melhor indigna Musa
E deponha os excessos de confusa,
Que, para acreditar-se,
Basta, basta o valor de aventurar-se;
E para vos livrar de detrimento,
Ser vossa a obra e meu o pensamento.
Pois não fica o valor aniquilado,
Sendo meu o louvor, vós o louvado,
Porque somos os dois, no inteligível,
Eu ignorante e vós incompreensível.

[Sóror Violante do Céu]

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“A umas saudades”

Saudades de meu bem, que noite e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabardes-me a vida com tormento,
Mais lisonja será que tirania.

Mas, quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria.

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo.

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

[António Barbosa Bacelar]

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“A uma ausência”

Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem, que me entretém, me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado;
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio;
No mor risco me anima á confiança;
Do que menos se espera estou mais certo.

Mas se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.

[António Barbosa Bacelar]

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“À variedade do mundo”

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c’o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C’o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora…
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

[António Barbosa Bacelar]

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Esse jasmim, que arminhos desacata,
Essa aurora, que nácares aviva,
Essa fonte, que aljôfares deriva,
Essa rosa, que púrpuras desata:

Troca em cinza voraz lustrosa prata,
Brota em pranto cruel púrpura viva,
Profana em turvo pez prata nativa,
Muda em luto infeliz tersa escarlata.

Jasmim na alvura foi, na luz Aurora,
Fonte na graça, rosa no atributo,
Essa heróica deidade, que em luz repousa.

Porém fora melhor que assim não fora,
Pois a ser cinza, pranto, barro e luto,
Nasceu jasmim, Aurora, fonte, rosa.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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“A fonte das lágrimas”

De essa pura fonte, fonte aceita
Digna de vista ser por ser vistosa,
Que quando mais murmura mais deleita
De muda penha filha sonorosa.

Que o gosto enfeitiça, o prado enfeita,
E quando branda mais, mais poderosa,
Contrários vence, oposições sujeita,
Pois ferve fria, pois se ri chorosa.

Vês tanta prata, vês aljofar tanto!
Pois sabe Bela, doce, e linda es bela
Do ouvido suspensão, da vida encanto,

Que ou ela vive em mim, ou vivo eu nela,
Ela é lagrimas toda, eu tudo pranto
Eu de amor fonte, fonte de amor ela.

[Anônimo, Códice 13.219, in: Biblioteca Nacional de Lisboa]

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Saudades de meu bem, que noite, e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabares-me a vida com tormento,
Mais lisonja será, que tirania:

Mas quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria:

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo;

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto, com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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Copiar todo o esplendor da natureza
É o que atrevidamente a arte procura!
Em vão se cansa a idea, a mão se apura
Que impossíveis não cabem na destreza.

[Vira-se] já com menos estranheza
O poder dividir-se a fermosura
Que corpo há se imite na pintura
Aonde é toda espírito a beleza.

Que importa que se empenhe o entendimento
Para uma perfeição quase infinita
Impossível será que ache igualdade.

Ceda o pincel de tão ousado intento
Pois se o que se compreende só se imita,
[Que] nega a semelhança a Divindade.

[Anônimo, Códice 13.219, in: Cancioneiros do século XVI e XVIII]

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Baixel de confusão em mares de ânsia,
Edifício caduco em vil terreno,
Rosa murchada já no campo ameno,
Berço trocado em tumba desd’a infância;

Fraqueza sustentada em arrogância,
Néctar suave em campo de veneno,
Escura noite em lúcido sereno,
Sereia alegre em triste consonância,

Viração lisonjeira em vento forte,
Riqueza falsa em venturosa mina,
Estrela errante em fementido norte;

Verdade que o engano contamina,
Triunfo no temor, troféu da morte
É nossa vida vã, nossa ruína.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. 

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

[Gregório de Matos]

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Anjo no nome, Angélica na cara
Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

[Gregório de Matos]

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“Buscando a Cristo”

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos;
Que, para receber-me, estais abertos
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados,
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me.
A vós, sangue vertido para ungir-me.
A vós, cabeça baixa p´ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me.
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

[Gregório de Matos]

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“A Jesus Cristo Nosso Senhor”

Pequei, Senhor; mas não por que hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido:
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a ; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

[Gregório de Matos]

espelho barroco

agudeza e plurissignificação: interfaces estéticas

abril 18, 2011 às 23:21 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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alegoria velho-jovem

Quantas narrativas e quantos sentidos se entrecruzam na imagem acima? Nela, encontram-se habilmente reinscritos o excesso semântico e a poder de articulação entre elementos heterogêneos que caracterizam a estética seiscentista da agudeza, e suas diversificadas expressões barrocas. Interessante notar que as principais tendências da pintura barroca, no século XVII, preferiam investir numa figuração realista, cujo polimorfismo derivava de engenhosas sutilezas pictóricas, engendradas especialmente por composições entre tons claros e escuros, como se pode observar no famoso quadro “Davi e Golias”, de Caravaggio, reproduzido a seguir:

davi   Nas artes verbais, por sua vez, fonemas, palavras e sintaxes são embaralhadas de maneira caprichosa, forçando a conjugação entre significantes desproporcionais e descontínuos, de maneira a gerar efeitos de significação surpreendentes e imagens multifacetadas, como bem se lê num dos poemas do poeta barroco luso-brasileiro Bernardo Vieira Ravasco, irmão do Padre Antonio Vieira, texto também analisado por João Adolfo Hansen, no ensaio Agudezas seiscentistas, disponível AQUI:

Iris parlero, abril organizado
Ramillete de plumas con sentido,
Hybla con habla, irracional florido
Primavera con pies, jardín alado

E aí? Dá para dizer que este poema, ou esta representação barroca, “retrata” um papagaio?

papagaio

Toda linguagem literária produz imagens altamente dinâmicas, imagens moldáveis e remontáveis pela ação direta dos nossos processos imaginativos. É interessante notar que mesmo uma imagem cinematográfica, ou uma pintura, acabam se mostrando representações mais fixas e impositivas do que as figurações com que visualizamos intimamente os personagens de um romance, as paisagens de um conto, as emoções traduzidas num soneto. No caso da literatura barroca, o leitor é sempre conduzido a experiências intensivas de decodificação estética e de construção polifônica dos sentidos.

9 passos para o ensino da história negra nas escolas

abril 13, 2011 às 22:50 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ensino_afro

A História do Brasil finalmente incluiu a história de nossas negras raízes no currículo escolar. Sem deixar para trás, claro, a origem portuguesa e a indígena, o conteúdo tem de abordar a vinda involuntária dos africanos. Isso por que, em 2003, o que já deveria ser um direito virou lei. A obrigatoriedade do tema "História e Cultura Afro-brasileira e Africana" existe desde que foi aprovada a lei 10.639. A partir da sanção dessa lei, as instituições de ensino brasileiras passaram a ter de implementar o ensino da cultura africana, da luta do povo negro no país e de toda a história afro-brasileira nas áreas social, econômica e política. O conteúdo deve ser ministrado nas aulas de história e, claro, em todo o currículo escolar, como nas disciplinas de artes plásticas, literatura e música. E isso em TODAS as escolas de Ensino Fundamental e Médio das redes pública e privada.

Para se adequar à lei, cabe às escolas encontrar um modo de redesenhar as aulas para encaixar os conteúdos exigidos. Um exemplo de que isso é possível acontece no Colégio Friburgo, em São paulo. A coordenadora do Ensino Fundamental, Eni Spimpolo, conta que os resultados vão além do simples aprendizado da matéria. "Mostrando que a mistura do povo brasileiro foi feita por vários povos através dos tempos, conseguimos comparar diversas culturas, valorizá-las, promover o respeito a elas e derrubar preconceitos", conta.

Veja a seguir como as instituições de ensino podem superar as dificuldades para implantar – de verdade! – as exigências da lei em seus currículos e como você, pai, pode, e deve, contribuir nesse processo:

1. Qual o objetivo da lei 10.639?

"Para qualquer pessoa se afirmar como ser humano ela tem de conhecer um pouco da sua identidade, das suas origens, da sua história", diz Kabengele Munanga, professor de Sociologia da USP e vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da instituição. No Brasil, os afro-brasileiros representam 51% da população, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) de 2009. A intenção da lei 10.639 é contribuir para a superação dos preconceitos e atitudes discriminatórias por meio de práticas pedagógicas de qualidade, que incluam o estudo da influência africana na cultura nacional.
2. Quais são as dificuldades de aplicação da lei 10.639?
Segundo o professor Eduardo de Assis Duarte, a não adequação à lei está relacionada, basicamente, a três fatores: despreparo e desconhecimento dos professores com relação ao tema; pouco material de estudos produzido sobre a história e cultura dos afro-brasileiros no Brasil; preconceito de algumas instituições. "Quando a escola quer fazer, ela faz, inventa formas de suprir as carências", afirma o coordenador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para facilitar a implementação da lei 10.639, o Ministério da Educação (MEC) está criando políticas e programas voltados para ações de reconhecimento e valorização da diversidade sociocultural.
3. O material didático brasileiro já está de acordo com a lei?
Para Kabenguele Munanga, professor de sociologia da USP e vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da instituição, os livros didáticos, no Brasil, ainda não têm uma orientação que realmente contemple as raízes africanas do país. A professora de língua portuguesa Débora Adão, da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Vila Ursolina, de São Paulo, concorda: "Alguns livros até mencionam piadas preconceituosas (leia acima medidas do MEC para combater esse tipo de abordagem), o que merece toda a atenção dos pais. Ainda assim, a vice-diretora do Colégio Sidarta, Maria Aparecida Schleier acredita que é possível encontrar materiais didáticos de qualidade e aproveitá-los em benefício dos alunos. "Os conteúdos sobre cultura e história afro-brasileira de alguns livros são bons, mas servem apenas como pontos de apoio". Ela conta que os alunos aprendem muito com atividades que vão além do conteúdo dos livros. "A música é uma ótima forma de memorizar conteúdos e, nestas aulas, passamos cantos afro-brasileiros e indígenas para os alunos".

4. De quem é a responsabilidade pelo cumprimento da lei?
Segundo o MEC (Ministério da Educação), em 2004, o CNE (Conselho Nacional de Educação) estabeleceu que a responsabilidade de regulamentar e desenvolver as diretrizes previstas pela lei 10.639 é dos Conselhos de Educação Municipais, Estaduais e do Distrito Federal. Além disso, cada sistema deve fazer o controle das unidades da sua rede de ensino encaminhando um relatório de atividades ao MEC, à SEPPIR (Secretaria de Política de Promoção da Igualdade Racial) e ao CNE (Conselho Nacional de Educação) anualmente. Os gestores de ensino nas escolas devem incentivar pais e professores a discutir as bases curriculares dos projetos pedagógicos das escolas levando em conta as temáticas previstas pela lei. Também é recomendado que as escolas procurem formas de pedir financiamento para Ministério da Educação, prevendo, por exemplo, a disponibilidade de obras para qualificar os projetos pedagógicos da instituição de ensino.

5. Como exigir a aplicação da lei na escola do seu filho?
A lei 10.639 não estabelece prazo para a implementação de suas diretrizes em 100% dos municípios brasileiros. Mas fique atento, pois existe, sim, uma determinação prevista no Plano Nacional de Implementação para que certas metas sejam cumpridas até 2015.O Texto do Plano está disponível no Portal MEC . Uma forma de exigir que a lei seja cumprida é participar do Conselho Escolar – a representação dos pais nesse espaço é garantida pela legislação Educacional do Brasil – e elaborar, junto com os professores e gestores de ensino, o projeto pedagógico da escola. "O pai precisa ter ciência do que a escola está ensinando para o seu filho. Hoje em dia, os meios de comunicação, como e-mail e sites, ajudam a fazer isso", afirma a diretora pedagógica do Colégio Vértice, Ana Maria Gouveia Bertoni.
6. Como preparar os professores para cumprir a lei 10.639?
Uma das estratégias do MEC (Ministério da Educação) é a formação presencial e à distância de professores sobre o tema, através de cursos. Segundo Débora Adão, professora da Escola Estadual Vila Ursolina, de São Paulo, os professores precisam estar abertos para buscar informação em vários lugares, não apenas nos livros. "Uma dica muito importante é partir de questões que estão próximas dos alunos. Os professores devem conhecer a realidade dos estudantes para trabalhar o tema. O aluno precisa voltar para casa e ter o que contar, tem que levar essas questões para a família naturalmente", diz. Foi o que fez Adriana Santos da Silva, diretora da Escola Estadual Doutor Victor de Britto, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ela procurou por conta própria cursos de especialização sobre a história e cultura afro-brasileira oferecidos pelo MEC. "Fiz dois cursos a distância que foram maravilhosos. O MEC oportuniza, mas os professores também têm que ir atrás". Com o conteúdo aprendido, Adriana desenvolveu projetos na escola onde trabalha. "Comecei a abordar o tema pela identidade cultural local, tentando quebrar aquele tabu de que no Rio Grande do Sul só tem loiros", conta a diretora.Com a visibilidade nacional que a escola ganhou pela boa implantação da lei 10.639, foi possível garantir um tempo específico à carga horária na instituição de ensino para a produção de estudos e atividades sobre o tema. "A Secretaria da Educação do Estado permitiu isso facilmente porque viu o trabalho que estamos fazendo na escola", comemora Adriana Santos da Silva.
7. Como os alunos podem participar?
No processo de aprendizado, vale pedir para os alunos trazerem suas dúvidas sobre as diferenças étnicas e culturais que os cercam. As perguntas podem ser elaboradas com os pais, em casa, e trazidas para a sala de aula depois. "Se queremos trabalhar a arte da cultura negra nas aulas, pedimos para os alunos trazerem informações a respeito", diz Eni Spimpolo, coordenadora do Ensino Fundamental do Colégio Friburgo. Eni conta que o Colégio tem muitos alunos negros e que, também por isso, a intenção é fazer com que os preconceitos com relação às diferenças sejam derrubados através de estudos, de pesquisas, da convivência e do respeito.
8. Como você pode colaborar?
           A família tem muito a contribuir com o principal objetivo da lei 10.639: a superação dos preconceitos e atitudes discriminatórias entre os brasileiros. Afinal, o aluno deve ser estimulado em casa a conversar sobre o que foi aprendido na escola. Comentar e valorizar os temas estudados facilita o aprendizado e é por isso que a participação dos pais é fundamental. A especialista em relações raciais na educação na Universidade de Santa Cruz, em Ilhéus, Bahia, Rachel de Oliveira, recomenda que os pais colaborem, inclusive, com sugestões de conteúdo para as aulas. "Se o pai tiver conteúdo sobre o tema, deve passá-lo à escola para incentivar a abordagem dentro do currículo da instituição".

9. Para vivenciar e aprender

        Experiências fora da sala de aula são formas diferentes de abordar a cultura e história afro-brasileira. Confira os museus recomendados pelos especialistas para fazer parte deste aprendizado.

– Museu Afro Brasil: além de exposições itinerantes, o público pode ter verdadeiras aulas de história e cultura afro-brasileira e africana em um acervo permanente que conta com mais de quatro mil obras. "A maioria do público atendido aqui é de escolas públicas. As visitas monitoradas são temáticas para agregar a teoria à prática em sala de aula", diz Tainá Carvalho, membro do Núcleo de Educação do museu. "Esse é um museu de história e memória, então toda mediação é feita com intuito de quebra de estereótipos para o aluno perceber a real influencia do negro na formação Brasil". As escolas que quiserem levar seus alunos ao museu podem agendar visitas monitoradas. A entrada é gratuita. Museu Afro Brasil – Av. Pedro Álvares Cabral, s/n – Parque Ibirapuera , Portão 10 , São Paulo/SP – Telefone: (11) 3320-8900 | Terça-feira a Domingo das 10h às 17h | Entrada gratuita. museu@museudalinguaportuguesa.org.br

– Museu da Língua Portuguesa: a influência africana na formação do povo brasileiro é mostrada de uma maneira didática e curiosa: através da origem das palavras da nossa língua. Bumbum, batuque, banguela, berimbau, dengo, chuchu, canjica, tanga são algumas das palavras que usamos no nosso cotidiano e têm origem nas línguas africanas trazidas ao Brasil pelos escravos negros nos século 16. A entrada é gratuita aos sábados e as escolas podem agendar visitas monitoradas Museu da Língua Portuguesa – Estação da Luz Praça da Luz, s/nºCentro, São Paulo/SP Telefone: (11) 3326-0775 | Terça-feira a Domingo das 10h às 17h | Ingresso: R$ 6 (inteira adulto); R$ 3 (meia estudante) – crianças até 10 anos não pagam. Entrada gratuita aos sábados. http://www.museudalinguaportuguesa.org.br

Fonte: Educar para crescer / Portal Geledés

 


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