a mestiçagem na MPB: conciliações e contestações

maio 24, 2011 às 14:12 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A partir de nossas leituras de O ano em que Zumbi tomou o Rio e da bibliografia teórica do curso da LitPort 4, pudemos caracterizar elementos centrais para uma compreensão da complexa questão racial brasileira, bem como estabelecer relações entre essa temática, a da “cultura da violência” e o problema da colonialidade, mais especificamente da colonialidade do poder, se entendemos o racismo como um sistema simbólico que perpetua nas sociedades nacionais as divisões e desigualdades que estruturam as sociedades coloniais. No caso brasileiro, o preconceito racial, sobretudo quando exercido como inferiorização dos sujeitos não-brancos, manifesta-se de forma dissimulada, assumindo formulações frequentemente paradoxais, marcadas por uma sobrecarga de afetividade ou de paternalismo, ainda que essas formas se sustentem nos ideias e nos discursos derivados de uma noção de mestiçagem explícita ou implicitamente branqueadora e eurocêntrica. A este projeto alienante e assimilacionista podemos contrapor uma concepção contestadora e sincretizante da mestiçagem, a partir da qual se desenvolve um olhar crítico para as contradições nos convívios interraciais brasileiros e para os nossos mitos identitários “fusionistas”, crítica que propõe a renovação das relações interculturais no Brasil como saída para nossos impasses e conflitos, bem como uma incorporação efetiva das matrizes civilizacionais africanas e ameríndias à construção nacional brasileira.

De maneira a aprofundar essa reflexãao de forma dialógica, desenvolveremos até o final do curso leituras centradas em letras de canções da música popular, buscando identificar e discutir representações do imaginário da mestiçagem e os projetos identitários a que essas representações remetem. Além do corpus relacionado e “entubado” a seguir, recomendamos uma vista a esta postagem do MUJIMBO, que dá acesso ao download das canções aqui listadas e mais algumas.

   

AQUARELA DO BRASIL

Ary Barroso

Brasil, meu Brasil Brasileiro,
Meu mulato inzoneiro,
Vou cantar-te nos meus versos:
O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar;
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil!… Brasil!… Prá mim!… Prá mim!…

Ô, abre a cortina do passado;
Tira a mãe preta do cerrado;
Bota o rei congo no congado.
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória à luz da lua
Toda canção do meu amor.
Quero ver essa Dona caminhando
Pelos salões, arrastando
O seu vestido rendado.
Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Brasil, terra boa e gostosa
Da moreninha sestrosa
De olhar indiferente.
O Brasil, verde que dá
Para o mundo admirar.
O Brasil do meu amor,
Terra de Nosso Senhor.
Brasil!… Brasil! Prá mim … Prá mim!…

Esse coqueiro que dá coco,
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar.
Ô! Estas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar.
Ô! Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil Brasileiro,
Terra de samba e pandeiro.
Brasil!… Brasil!

***

 

MULATA ASSANHADA

Ataulfo Alves

Ô, mulata assanhada
Que passa com graça
Fazendo pirraça
Fingindo inocente
Tirando o sossego da gente!
Ah! Mulata se eu pudesse
E se meu dinheiro desse
Eu te dava sem pensar
Esta terra, este céu, este mar
E ela finge que não sabe
Que tem feitiço no olhar!
Ai, meu Deus, que bom seria
Se voltasse a escravidão
Eu pegava a escurinha
E prendia no meu coração!…
E depois a pretoria
Resolvia a questão!

***

 

CANTO DAS TRÊS RAÇAS

Mauro Duarte & Paulo César Pinheiro

Ninguém ouviu um soluçar de dor
No canto do Brasil.
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro e de lá cantou.
Negro entoou um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.
Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes.
Nada adiantou.
E de guerra em paz, de paz em guerra,
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar,
Canta de dor.
E ecoa noite e dia: é ensurdecedor.
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador…
Esse canto que devia ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor

***

 

A MÃO DA LIMPEZA

Gilberto Gil & Chico Buarque

O branco inventou que o negro
Quando não suja na entrada
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Vai sujar na saída, ê
Imagina só
Que mentira danada, ê
Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o negro penava, ê
Mesmo depois de abolida a escravidão
Negra é a mão
De quem faz a limpeza
Lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão
É a mão da pureza

Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão
Nos preparando a mesa
Limpando as manchas do mundo com água e sabão
Negra é a mão
De imaculada nobreza
Na verdade a mão escrava
Passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê
Imagina só
O que o branco sujava, ê
Imagina só
Eta branco sujão

***

 

IDENTIDADE

Jorge Aragão

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai…

Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade

***

 

SOU NEGRO

Getúlio Côrtes & Ed Wilson

dessa vida
nada cinema
não sei porque vocês têm tanto orgulho assim
você sempre me despreza
sei que sou negro
mas ninguém vai rir de mim
vê se entende
vê se ajuda
o meu caráter não está na minha cor
o que eu quero
não se iluda
o meu futuro é conseguir o seu amor.

***

 

BLACK IS BEAUTIFUL

Marcos Valle & Paulo Sergio Valle

Hoje cedo, na rua do Ouvidor
Quantos brancos horríveis eu vi
Eu quero um homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui
Que se integre no meu sangue europeu
Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful
Hoje a noite amante negro eu vou
Vou enfeitar o meu corpo no seu
Eu quero este homem de cor
Um deus negro do Congo ou daqui
Que se integre no meu sangue europeu
Black is beautiful, black is beautiful
Black beauty so peaceful
I wanna a black I wanna a beautiful

***

 

combat - mundo livre s.a

O AFRICANO E O ARIANO

Fred 04, Apolo 9 & Mundo Livre S/A

Há quatro séculos a alma africana tem sido um motor
da inquietação, da resistência, da transgressão
O negro sempre quis sair do gueto,
fugir da opressão fazendo história,
ganhando o mundo com estilo!
E é assim que a alma africana sobrevive
com brilho e vigor em todo o "novo continente".
O africano foi levado pra sofrer no norte e gerou,
entre outras coisas, o jazz, o blues, Gospel, soul,
R & B, funk, rock and roll, rap, hip hop
No centro, o suor africano fomentou o mambo, o ska ,
o calypso, a rumba, o reggae, dub, ragga,
o merengue e a lambada, dancehall e muito mais
Mas é o ariano que ignora o africano
ou é o africano que ignora o ariano?
E ao sul, a inquietude negra fez nascer,
entre outros beats, o bumba, o maracatu,
o afoxé, o xote, o choro, o samba,
o baião, o coco, a embolada.
Entre outros, os Jacksons e os Ferreiras,
os Gonzagas e os Pixinguinhas,
as Lias, os Silvas e os Moreiras
A alma africana sempre esteve no olho do furacão
Dendê no bacalhau, legítima e generosa transgressão
É Dr. Dre e é maracatu
É hip hop e é mestre Salú
Mas é o ariano que ignora o africano
ou é o africano que ignora o ariano?

***

 

MINHA ALMA (A PAZ QUE EU NÂO QUERO)

Marcelo Yuka (O Rappa)

A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
(Sêgo! Sêgo! Sêgo! Sêgo!)
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
(Medo! Medo! Medo! Medo!)

As vezes eu falo com a vida,
As vezes é ela quem diz:

"Qual a paz que eu não quero conservar,
Prá tentar ser feliz?"

As grades do condomínio
São prá trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão

Me abrace e me dê um beijo,
Faça um filho comigo!
Mas não me deixe sentar na poltrona
No dia de domingo, domingo!

Procurando novas drogas de aluguel
Neste vídeo coagido…
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir
É pela paz que eu não quero seguir admitindo

***

 

DECLARAÇÂO DE GUERRA

MV Bill

Hei mãe, acorda que o terror vai começar
Coloca a janta, pode ser a última sopa
Se eu não voltar, sorria
Vou em busca da alegria
Vou incentivando o ódio (quem diria)

É tudo pela salvação
Em nome da razão
Acenda a vela
É o código da rebelião

Os generais nem imaginam nosso plano
Pensam que é mais um engano
Jesus está voltando

Os pretos estão do lado de cá
São soldados mascarados aliados ao pppomar
Os diretores forjam as fugas
Tensão nas celas, bueiros, são verdadeiros sangue sugas

Libere a fuga diretor! solte os detentos
Pelados pelas rua escura, sem lamentos
A nossa tropa só tem doido,
Resto, lixo, bicho, praga
Vou jogar mais vinho na sua área

São pessoas que vivem na amargura
Não nos resta mais ternura
A batalha vai ser dura

Eu avisei que a guerra era inevitável
Pra quem tá na condição desfavorável

Subestimaram, pagaram pra ver, e tão vendo
Ignoraram a nossa coragem, tão morrendo

A violência não fui eu que inventei
Somos condenados a serviços de um rei

Chega de ouvir esse discurso social
Chega de ouvir a lenga lenga racial

Sou animal sou (sou), sou canibal sou (sou), eu sou letal
O verbo que populariza o mal

Vão tirando a fantasia de artista
Não tem mais carnaval
Acabou o show pra turista
Que venham vários pagodeiros e sambistas
A luta é o coração de um guerreiro ativista

Convoque os índios, convoque os canibais
Convoque os sonhos, dos nossos ancestrais

Vou invadir mais um hospício
Vivemos bem no precipício (que que isso)
Quero mais guerrilheiros pra esta noite
Vida longa para os pretos, fim do açoite
Vou maquinar mais homicídio para esse dia

Fim de vida aos brancos, da covardia
São Benedito por favor nos proteja
Tragam todos os fiéis que estão orando da igreja
Sem terra, sem teto, sem nada nos dentes
Sem fama, sem grana, sem luz, sem parentes

Se foi torturado – siga-me
Se tá rebelado – siga-me
Se tiver bolado – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me
Se cair seus dentes – siga-me
Se for estuprada – siga-me
Se o nome for maria – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me

Eu vou pedir mais orações aos crentes
A guerra é turva, e deus necessita estar com a gente
São meia noite o black-out é geral
Sirenes, apitos, breu total

Ficou pra trás a nossa dor
Lá no passado que restava todo amor
Uma criança pede o fim da guerra
Entre vermelhos e terceiros

Me lembra que somos brasileiros
Mais ideologia, menos conflitos
Não façam de nós mais um grupo de risco

O alemão não apita na favela
Confira você mesmo, e olhe pela sua janela
Fale seu partido preciso saber !
Pmdb, pt , satã ou tc ?

Se for de esquerda, não me contemplou
Se for de direita, me ignorou
Se for de bandido é um caso a pensar
Vou me filiar preciso arriscar

Adestrador prepare os cães, não dê comida,
Avise aos lobos que a pele é branca e a carne é viva

Fazendeiro não há mais tempo pra remorso
Vamos transformar seu paraíso em destroços

A luta é racial
A luta é social
Mais ninguém se espanta
Porque a guerra é santa

É preta, marrom, mestiça e branca
E quem não decidir em que lado está, vira planta

Eu sou ateu, protestante, sou judeu
Eu sou maçon, rosa cruz, e fariseu zulu

Eu sou a luz do universo em desencanto
Não sou mais nada só a voz do catalão

Levei 500 anos para entender esse país
Se querem me entender eu só queria ser feliz!

Maria dê veneno pra rainha sua patroa
Volte pro QG com as jóias da coroa
Agora cai por terra toda arrogância
Vamos celebrar viva a voz da ignorância

Deus vai perdoar , deus vai entender
Deus vai lhe ajudar, chega de padecer
De um lado humanos, do outro, humanos
Todos armados então são desumanos

Falam que a briga não nos leva a nada
O mar não tem cabelo, quem se afoga nada
Não dá pra exigir de quem não come nada
Aqui o seu diploma não vale de nada

Nós não somos nada
Nós não temos nada
Branco camarada, largue a espada

Acabou o desafio, não pode pensar
Imagino deve ser difícil aceitar
Essa guerra que já foi vencida
Solte suas armas e comece a despedida
Abaixe a cabeça, faça o último pedido
Peça qualquer coisa menos ser meu amigo
Não, não faz sentido
Sou herói, e o bandido?
A sirene tá gritando
Perigo

Os pretos que vão te julgar
Você tá na bola
E então comece a chorar
Devolva meu samba, a nossa cultura
A capoeira, o axé e a vida das pessoas que moram na rua
A história foi queimada ofendida
A morte é o fim, a guerra é a vida
Durante muito tempo eu vi o mundo girar
De braços cruzados esperando a morte chegar
Foi o despertar comece a sua prece
Dessa vez é vai ou racha
Ou dá ou desce

Se perdeu o juízo – siga-me
Tá no prejuízo – siga-me
Não quer ser escravo – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me
Já matou tarado – siga-me
Se perdeu o seu emprego – siga-me
Se foi derrotado – siga-me
Ham siga-me, ham siga-me

 

branconegro

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