antologia de poesia romântica portuguesa

maio 24, 2011 às 10:11 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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castelo pena

Parecendo, à primeira vista, uma versão modernizada de um castelo medieval, o exuberante Palácio da Pena, retratado na imagem acima, mistura de maneira ousada vários estilos arquitetônicos da antiguidade, formando assim uma admirável síntese de passados no presente que pode ser considerada como uma forte representação da nostalgia romântica em Portugal. Também nos poemas transcritos a seguir podemos observar a idealização do passado como procedimento estético de crítica às formas de degradação moral, de destruição de valores tradicionais e de desilusão que se articulam à consolidação da modernidade capitalista na Europa, idealização que, segundo Michel Lowy e Robert Sayre, serve de bandeira comum para as diversificadas manifestações da revolta romântica, especialmente no âmbito da produção literária.

garrett

  • Almeida GARRETT

QUANDO EU SONHAVA

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar…
Para quê? – Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava – mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia …

***

ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n’alma … quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho-
Em que paz tão serena a dormi!
Oh!, que doce era aquele sonhar …
Quem me veio, ai de mim!, despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela?, eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei …

***

BELA D’AMOR

Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o ‘splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na Primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai!, vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.

***

CASCAIS

Acabava ali a Terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
O mar que incessante brama…
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.

Aí, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Ervas e matos queimados,
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um Céu na Terra.

Ali sós no mundo, sós,
Santo Deus!, como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim,
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim,
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!

Os anjos aqueles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.

Ai!, sim, foi a trapos largos,
Longos, fundos que a bebi
Do prazer a taça – amargos
Depois… depois os senti
Os travos que ela deixou…
Mas como eu ninguém gozou.

Ninguém: que é preciso amar
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.

Ai, ai!, que pesados anos
Tardios depois vieram!
Oh!, que fatais desenganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a Terra!

Se o visse… não quero vê-lo
Aquele sítio encantado.
Certo estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado,
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!

Inda ali acaba a Terra,
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.

***

ESTES SÍTIOS!

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro…
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos …
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade…
Ai!, não, não… nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos…
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!

***

VOZ E AROMA

A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.

***

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  • António de CABEDO

CARTA A UM REGEDOR

Cidadão indispensável,
que regeis com tacto fino
o duvidoso destino
desta famosa nação: –
saúde a paz vos envio,
como fez Narciso a Eco
e depois mercê depreco
nesta humilde petição.

Vós que, sem ser estadista,
resolveis coisas do Estado,
e sois, em lance apertado,
dos governos assessor;
que desprezais por modéstia
a carta de conselheiro,
e persistis em… tendeiro…
algibebe… ou cortador;

Vós, que fazeis deputados
ao sabor do ministério –
e, quando o caso é mais sério,
até mesmo os inventais;
enchendo enfim esse templo
das cortes beneditinas,
que, ao menos, nas oficinas
dão que fazer aos jornais:

Ouvi-me, e sede benigno,
magistrado venerando,
que o tal posso, quero e mando
já lá vos chegou também.
E, sem mais palavreado,
vou tratar do meu assunto,
prometendo um bom presunto
se o negócio sair bem.

Tenho um filho, já crescido,
dum talento desmarcado!
O rapaz há-de dar brado,
se bom caminho seguir.
É pacato e mui sisudo
sem palrar de papagaio,
sempre, sempre, quando eu saio,
fica ele em casa… a dormir.

Abre um livro, e fecha-o logo,
pregando os olhos no tecto –
que o rapaz, como discreto,
medita mais do que lê.
A leitura, só, não basta:
o ler muito nada prova:
olhe esta geração nova!
olhe-se mesmo você!

Sim: você, da sua loja,
analfabeto chapado,
pode escolher a seu grado
um varão legislador;
você, do pobre cantinho
em que de sábio não timbra,
pode mais que uma Coimbra,
faz de repente um doutor!

Hoje custa achar emprego
para um moço bem-nascido:
o comércio está perdido;
a marinha nada vale;
no exército de terra
são bandas por toda a banda;
e qualquer arte demanda
jeito e gosto especial.

Por essas secretarias
reina justiça de moiro;
aos néscios oiro e mais oiro;
os outros… ouvem-lhe o som.
Além disso a inteligência
em breve lá se atrofia:
quem fez uma portaria
nunca mais faz nada bom!

Médicos ganharam muito;
mas esse ganho fez termo:
quando um homem jaz enfermo
é quando menos os quer.
Depois dos vários sistemas,
que todos por fim têm pata,
fica a morte mais barata
quando ela por si vier.

A mina da advocacia
teve bons exploradores,
que antigamente os doutores
não assinavam de cruz.
Mas agora a velha escola
tem dado tanto camelo!
bicho de borla e capelo
quase sempre foge à luz.

Feito rápido bosquejo
em que ‘inda tudo não digo,
há-de ser o meu amigo
não só patrono, juiz:
ajuíze, que isto é claro,
se acaso há mor embaraço
que um homem, sem ser ricaço,
ver-se pai neste pais!

Lá marcho direito ao ponto.
A gente às vezes acerta;
eu fiz uma descoberta,
que me não parece má:
para um moço delicado,
que põe mira no orçamento,
uma cadeira em S. Bento –
arranjo melhor… não há.

Levanta-se ao meio-dia;
vai almoçar ao Chiado;
vem às Cortes repimpado
em traquitana veloz:
chega à sala – traça a perna,
endireita o colarinho,
e escreve o seu bilhetinho
à menina dos bandós.

Nos interesses da Pátria,
sua filha em bom direito,
quando vota, diz: «Rejeito»,
ou diz: «Aprovo» também.
Não entrega o voto à sorte,
vai alternando as respostas;
e se acaso volta as costas,
é que não entendeu bem.

Tem sarau em certas noites
nas altas secretarias,
onde há chá, doces, fatias,
e até neve, de Verão.
Faz quase um conto por ano;
emprega quatro parentes;
e as damas, por entre dentes,
perguntam: «Já é barão?»

Eis aqui para meu filho
brilhantíssimo futuro;
e o negócio está seguro,
se aprouver ao regedor:
um gesto de tal potência
torna maus fados propícios,
pode mais que dez comícios
a trabalhar por vapor.

Ponho em vós minha esperança,
ponde em mim vosso cuidado;
criai-me este deputado,
e então mostrarei quem sou.
Esta empresa, em que martelo,
deixa-me a cabeça calva,
se a Pátria não fica salva,
fica salvo… um seu avô.

Acedereis, como espero,
ao meu instante pedido;
e por mim ficareis tido
grande herói entre os heróis.
Basta já d’impertinência;
não pouco tenho abusado.
Sou – vosso amigo e criado –
João Fernandes d’Anzóis.

***

revoluçaão (1)

  • Eduardo VIDAL

A IDEIA NOVA, É BOA!… EM QUE CONSISTE A IDEIA?…
Nova; mas nova em quê?… Na insânia que alardeia,
Na forma sem primor, no rasgo desonesto,
Na feia exposição, na chufa, no doesto,
No delírio falaz que pinta a humanidade
Em latíbulos vis de infame ebriedade,
Bebendo a corrupção nas taças sacrossantas?…
Ideia nova, em quê?… Se a perversão nos cantas,
Sagrando a lira d’ouro às saturnais lascivas;
Se no teu ideal só pairam essas divas
Que a miséria lançou nos antros enlodados,
Que novidade és tu? Que mundos ignorados
Pretendes cimentar repletos d’abundância? –
O que farás do amor – o que farás da infância?…
O que dirás às mães num límpido conselho?…
Onde tens o respeito às cãs do pobre velho
Que é pai, que é bom, que é triste, e em Deus inda confia?…
És noite e escuridão; negas a luz e o dia,
És o velho farsante, a deusa descambada.
Não ascendes ao belo; andas de escada em escada
A farejar o crime, e a delatar o vício.
Que sacerdócio é o teu? – Serves o baixo oficio
Do polícia que espreita, e agarra o que mal usa:
Votaste a Boa Hora em templo à tua musa.
Eu, que persisto há muito em crer no bem florente,
Que sou da reacção protervo impenitente,
Que adoro o Céu, a flor, a pálida beleza,
Os lírios da inocência, a vasta natureza,
E que sinto em minha alma uns estos de lirismo
Quando me agita, ó Deus, um vago panteísmo
Que me afaga, me enleva, e brando me sorri,
Mas que, em íntimo ardor, me leva a crer em ti;
Eu deixo caminhar a procissão judenga,
E adormeço de ouvir-lhe a chocha lengalenga

***

Antero_MANTA2

  • Antero de QUENTAL

POBRES

(a João de Deus)

I

Eu quisera saber, ricos, se quando
Sobre esses montes de ouro estais subidos,
Vedes mais perto o céu, ou mais um astro
Vos aparece, ou a fronte se vos banha
Com a luz do luar em mor dilúvio?
Se vos percebe o ouvido as harmonias
Vagas do espaço, à noite, mais distintas?
Se quando andais subidos nas grandezas

Sentis as brancas asas de algum anjo
Dar-vos sombra, ou vos roça pelos lábios
De outro mundo ideal místico beijo?
Se, através do prisma de brilhantes,
Vedes maior o Empíreo, e as grandes palmas
Sobre as mãos que as sustem mais luminosas,
E as legiões fantásticas mais belas?
E, se quando passais por entre as glórias,
O carro de triunfo de ouro e sândalo,
Na carreira que o leva não sei onde
Sobre as urzes da terra, borrifadas
Com o orvalho de sangue, ó homens fortes!
Corre mais do que o vôo dos espíritos?

Ah! vós vedes o mundo todo baço…
Pálido, estreito e triste… o vosso prisma
Não é vivo cristal, que o brilho aumenta,
É o metal mais denso! e tão escuro,
Que ainda a luz que vê um pobre cego
Luzir-lhe em sua noite, e a fantasia
Em mundos ideais lhe anda acendendo…
Esse sol de quem já não espera dia…

Ah! vós nem tendes essa luz de cegos!
Que! subir tanto… e estar cheio de frio!
Erguer-se… e cada vez trevas maiores!
Homens! que monte é esse que não deixa
Ver a aurora nos céus? qual é a altura
Que vela o sol em vez de ir-lhe ao encontro?
Que asas são essas, com que andais voando,
Que só às nuvens negras vos levantam?
Certo que deve ser o vosso monte
Algum poço bem fundo… ou vossos olhos
Têm então bem estranha catarata!

II

Há às vezes no céu, caindo a tarde,
Certas nuvens que segue o olhar do triste
Vagamente a cismar… há nuvens d’estas
Que o vestem de poesia e de esperança,
E lhe tiram o frio d’este inverno
E o enchem de esplendor e majestade…
Mais do que as vossas túnicas de púrpura!

Eu, às vezes, nas naves das igrejas
Lá quando desce a luz a alma sobe…
E entre as sombras perpassam as saudades…
E no seio de pedra tem o triste
Mil seios maternais… eu tenho visto
Branquejar, nos desvãos da nave obscura,
Como as nuvens da tarde desmaiadas,

Uns brancos véus de linho em frontes belas
De umas pálidas virgens cismadoras,
Que, em verdade, não há para cobrir-nos
A alma de mistério e de saudade
Gaze nenhuma assim! Vede, opulentos,
Como Deus, com olhar de amor, as veste
A elas, de uma luz de aurora mística,
De poesia, de unção e mais beleza
Que o véu tecido com o velo de ouro!

Os vossos cofres têm tesouros, certo,
Que um rei os invejara… Mas eu tenho
Às vezes visto o infante, em seio amado
De mãe, dormir coberto de um sorriso,
Tão guardado do mundo como a pérola
No fundo do seu golfo… e sei, ó ricos,
Que aquele abrigo aonde a mãe o fecha
 Entre braços e seio  é precioso,
Cerra um tesouro de mais alto preço
Que os tesouros que encerram vossos cofres!

III

Levitas do MILHÃO! o vosso culto
Pode ter brilhos e esplendor de pompas…
Arrastar-se nas ruas da cidade
Como um manto de rei… e sob os arcos
De mármore passar, como em triunfo…
Ter colunas de pórfido luzente…
E ser o altar do vosso santuário
Como o templo Sol… cegar de luzes…
O vosso deus pode ser grande e altivo
Como Baal… o Deus que bebe sangue…
Mas o que nunca o vosso culto esplêndido
Há-de ter, como um véu para o sacrário,
A velar-lhe mistérios… é a poesia…

Esse mimo de amor… esses segredos…
O ingênuo sorriso da criança…
O olhar das mães, espelho de pureza…
A flor que medra na soidão das almas…
O branco lírio que, manhã e tarde,
Aos pés da Virgem, no oratório humilde,
Rega a donzela, em vaso pobrezinho!
Nunca a vossa cruz-de-ouro há-de dar sombra
Como a outra da Gólgota  o alívio,
Sombra que buscam almas magoadas 
Onde os citisos pálidos rebentam…
Consolações… saudade… e inda esperanças…

Podeis cavar… as minas são bem fundas…
Cavai mais fundo ainda… e já é o centro
Da terra, aí! Mas, onde, ó vós mineiros,
Por mais que profundeis não heis-de uma hora
Chegar mais… é ao coração…
E, entanto,
É lá a única mina de ouro puro!

IV

O coração! Potosi misterioso!
O grande rio de areais auríferos,
Que vem de umas nascentes ignoradas
Arrastando safiras em cada onda,
E depondo no leito finas pérolas!

O coração! É aí, ricos, a mina
Única digna de enterrar-se a vida,
Cavando sempre ali… sem ver mais nada…
Foi lá, como na areia o diamante,
Que Deus deixou cair da mão paterna
As esmeraldas do diadema humano…

O Sentimento vivo… a Ação radiante…
E a Idéia, o brilhante de mil faces!
Foi lá que esse Mineiro dos futuros
Encobertos andou co’os braços ambos
Metidos a buscar  mas quando um dia
Do fundo as mãos ergueu… o mundo, em pasmo,
Viu-lhe brilhar nas mãos… o Evangelho!
(1863)

***

locomotiva

  • GIRÃO (António Luís Ferreira)

VIVA O PROGRESSO!

Quando nas noites de cruéis insónias,
Papoilas colho pela nossa história
Nos feitos nunca feitos dos antigos,
Patetas tais lamento. – De que serve
O puro amor da Pátria não movido
Por luzente metal, mas alto, e grátis?
Que lucraram Cabrais, e os Albuquerques,
Em Diu os Castros, no Oriente os Gamas,
Senão morrer de fome, e andar às moscas?
Felizmente vai longe o tempo estulto
De ideias carunchosas d’honra e brio,
Que faziam girar estes e outros
Por solidões de nunca vistos mundos.
E houve quem louvasse estas carreiras,
Quem cantasse os heróis, e os descrevesse?
E há, oh, caso raro!, inda hoje em dia
Quem Andrade e Barros saboreie?
Eu por mim quando os leio o sono é certo.
De que livra saber que o Sol nascendo
No berço viu as lusitanas quinas;
Ou que iroso Neptuno escoucinhando
No mar se divertiu cos Palinuros?
Sempre nossos avós eram bem asnos
Em achar graça a ninharias destas!
Que delírio fatal deu causa a tanto?
Que modo de julgar o mundo e homens
Tão outros do que são como hoje os vemos
À luz etérea do imortal progresso!
O tal Gama que fez (haja franqueza)
Para ser cantado por Camões, o torto,
Num poema sem fim de insulsas trovas?
Fez ele porventura à pátria amada
Presente dalgum gás de novo invento?
Roubou por lá dinheiro aos Hotentotes?
Vendeu porção de terra aos estrangeiros
Pra melhor se arranjar quando voltasse?
Mas nada!… qual história!… o caso é outro,
Fez… (modernos barões, morrei de riso!)
Fez conhecido o lusitano nome!
Em vez de tanta glória, o barbas-d’alho
Dentuças d’elefante antes trouxesse,
Que servem pra marfim, pimenta, e cravo,
Como fazem por aí nos nossos dias.
Estes, sim, são heróis, pintos arranjam
Por finos estampados papelinhos,
Ou inocentes traficando em negros .
A honra, a probidade, a fama, a glória,
E que tais palavrões é fumo, é nada.
Quem troca por loureiros pão d’Avintes,
Ou tostados biscoitos? – E inda há parvos
Pregando sabichões que ter virtudes
É melhor capital do que ter loiras!
Viu-se sandice igual?! – O rumo é outro,
É pé-leve, mão pilha, e ser maroto,
Que esperto quer dizer, pois são sinónimos,
Na do progresso singular linguagem.
Que tempo tão feliz – que século d’oiro!

Salve, progresso tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
Do val que foi de pranto, e hoje é de rosas!

Nem tu, sexo gentil, ficaste isento
Desta moda seguir. – (Pasmai, vindouros,
Do lume vivo das modernas luzes!)
As Marílias cruéis têm vindo ao rego
A honra desprezando, inútil freio
Não posto às más paixões, posto à fortuna.
Isto, sim, que é pensar, ah! que inocência,
Que formosura ingénua e recatada
Ganhou por isso a vida! Avante, belas!
Que o viver é gozar, e os fins são tudo.
Teatros, o vestido, o baile e a festa,
Dinheiro custam, não se dão de graça.

Amor, essa paixão que aos próprios deuses
Faria tresloucar, e andar em brasa,
Está posta em leilão, a lanço em praça.
Ó tempos, ó costumes semibárbaros,
Em que amar era andar atrás das moças
A chorar, a grunhir e a fazer versos;
Ou ir de ponto em branco, mata-moiros,
Deixar-se esquartejar por dama ingrata!
As nossas vestais hoje, em vendo as c’roas,
Rendido o coração, dão corpo e alma.
Os tolos Quixotões desconheceram
Que a mulher é mulher; e o oiro é tudo.
Mas isto é pouco ainda, ‘inda devemos
Mais ao progresso que eu adoro, e sigo.
Era dantes mulher traste de luxo
Sem valer um ceitil, cinco réis cegos;
Hoje há pai que põe preço à própria filha,
Marido que hipoteca a linda esposa,
E quem por um cavalo ou por dez libras
A ditoso rival a amada entregue.
Que moda tão feliz, se o preço abaixa!
Progresso, salve, tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
De vai que foi de pranto, e hoje é de rosas!

***

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  • João de LEMOS

A LUA DE LONDRES

É noite. O astro saudoso
rompe a custo um plúmbeo céu,
tolda-lhe o rosto formoso
alvacento, húmido véu,
traz perdida a cor de prata,
nas águas não se retrata,
não beija no campo a flor,
não traz cortejo de estrelas,
não fala de amor às belas,
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos
onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
das praias de além do mar?
Foi na terra tua amada,
nessa terra tão banhada
por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
na pátria dos meus amores,
pátria do meu coração!

Oh! que foi!… Deixaste o brilho
nos montes de Portugal,
lá onde nasce o tomilho,
onde há fontes de cristal;
lá onde viceja a rosa,
onde a leve mariposa
se espaneja à luz do Sol;
lá onde Deus concedera
que em noite de Primavera
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas
talvez há pouco o país
onde do bosque as madeixas
já têm um flóreo matiz;
amaste do ar a doçura,
do azul e formosura,
das águas o suspirar.
Como hás-de agora entre gelos
dardejar teus raios belos,
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
do Mondego os salgueirais;
quem andou por Tejo acima,
por cima dos seus cristais;
quem foi ao meu pátrio Douro
sobre fina areia de ouro
raios de prata esparzir
não pode amar outra terra
nem sob o céu de Inglaterra
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
tens aqui; mas Deus igual
não quis dar-lhe essa lindeza
do teu e meu Portugal.
Aqui, a indústria e as artes;
além, de todas as partes,
a natureza sem véu;
aqui, ouro e pedrarias,
ruas mil, mil arcarias;
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
estátuas, praças sem fim
retalham, cobrem o solo,
mas não me encantam a mim.
Na minha pátria, uma aldeia,
por noites de lua cheia,
é tão bela e tão feliz!…
Amo as casinhas da serra
coa Lua da minha terra,
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
padecemos igual dor;
temos a mesma saudade,
sentimos o mesmo amor.
Em Portugal, o teu rosto
de riso e luz é composto;
aqui, triste e sem clarão.
Eu, lá, sinto-me contente;
aqui, lembrança pungente
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
voltemos aos puros céus.
Leva-me, ó Lua, contigo,
preso num raio dos teus.
Voltemos ambos, voltemos,
que nem eu nem tu podemos
aqui ser quais Deus nos fez;
terás brilho, eu terei vida,
eu já livre e tu despida
das nuvens do céu inglês.

PENA1

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