revisitações do romantismo: entrevista com Michael Lowy

julho 6, 2011 às 22:50 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Existe uma relação entre o romantismo e a idéia de propriedade intelectual?

Francamente, eu ignoro a história do copyright, ou da idéia de propriedade intelectual, quando é que começou, se é mesmo no século XIX, ou antes – eu nunca trabalhei essa questão. O que o romantismo tem, efetivamente, é essa idéia do indivíduo singular, do indivíduo único, dessa originalidade singular do criador, do indivíduo enquanto criador, com efeito. Quanto a isso, acho que a gente pode apontar como aspecto essencial do romantismo. Agora, não sei se realmente se coloca em termos de propriedade, francamente eu não posso me pronunciar, não posso afirmar se a idéia de propriedade intelectual surge nessa época.

Esta idéia autoral é uma criação romântica?

Não, acredito que isso sempre existiu na história da cultura. Talvez o romantismo dê uma ênfase maior, torne essa idéia mais sistemática. Por isso a imagem do escritor, do artista, do poeta romântico como um solitário, um indivíduo à margem, um maldito; enfim, um exilado dentro da própria sociedade. Isso faz parte do romantismo, no sentido de que o romântico se sente alienado dentro da sociedade moderna, ele sente que os valores que essa sociedade começa a desenvolver não lhe dão mais espaço.
Agora, o romantismo é muito contraditório, às vezes até esquizofrênico, porque, por outro lado, ele levanta com muita força a questão da comunidade, dos laços comunitários, da comunidade orgânica, do indivíduo que pertence a um grupo, de amigos, de afinidades, a uma tribo, a uma religião, a uma etnia, a uma nação, das diversas variantes disso, enfim. Essa ênfase na comunidade é contra a sociedade atual, moderna, anônima, em que os indivíduos valem por si próprios.
O romântico descreve uma rua moderna em que os indivíduos andam e não se comunicam entre si, atuam como uma multidão anônima, como um pesadelo.  Então há uma certa tensão entre os dois elementos. Quero dizer, eles não são realmente contraditórios, porque esse indivíduo singular do romantismo, esse único, esse artista totalmente original, é o oposto do indivíduo da sociedade moderna, impessoal, anônimo, um átomo, sem face, sem identidade, perdido na multidão. E por outro lado, esse indivíduo romântico, isolado, sonha por desco brir uma comunidade onde ele possa se integrar, no mínimo uma comunidade de outros artistas. E a gente vê grupos, artistas que formam grupos e realizam obras conjuntas – e aí eu tenho a impressão que a questão do direito de propriedade um pouco se dilui nessas comunidades de artistas românticos, às vezes é um que escreve e outro que assina. Um pouco como ocorre com Mary e Percy Shelley e Byron, no exílio deles. Existe uma troca de autoria nos textos deles.

O sentido de comunidade que você encontra no olhar romântico é puramente nostálgico ou visa um projeto futuro?

No romantismo sempre existe uma nostalgia do passado, um sentimento trágico de que a modernidade está destruindo os valores em que se acredita, como por exemplo o amor, um tema que volta mil vezes na literatura romântica. O amor romântico que se enfrenta com as convenções, com o dinheiro, com a riqueza.
Enfim, com a sociedade moderna. Então há uma nostalgia do passado. Por exemplo, houve épocas em que o amor, supostamente, era algo que não se comprava, não se vendia, tinha autenticidade, o que obviamente é uma idealização do passado. É o amor cortês, dos trovadores medievais. E existe realmente esse aspecto de restauração do passado no romantismo.
Agora, outros românticos transformam, investem a nostalgia do passado numa esperança do futuro. São os românticos utópicos ou revolucionários. Rousseau, por exemplo, que é um dos fundadores do romantismo moderno. Existe nele esta idéia de que o amor é impossível na sociedade moderna, por causa das convenções sociais, das desigualdades. Então, há uma utopia implícita de uma sociedade em que não haveria mais essa hierarquia social, que as pessoas de origens diferentes poderiam se amar livremente. Em Rousseau, isto ainda não está colocado como um programa, mas é implícito em suas obras.

Octavio Paz, entre outros estudiosos, dizia que o romantismo não se encerrou no seu período áureo, mas transformou-se em outros movimentos, como o simbolismo e o surrealismo. Você concorda com ele?

Sim e não. Concordo inteiramente que o romantismo é um ciclo longo, como dizem os economistas, que começa em meados do século XVIII e vai até ao século XX. E acho que permanece ativo até hoje. Efetivamente, ele atravessa todos esses movimentos, o simbolismo, o surrealismo, a beat generation. Octavio Paz é um dos poucos que entendeu que o romantismo é uma das formas fundamentais da cultura moderna, que atravessa toda a história da cultura moderna, contra as visões tradicionais da história da literatura que terminam o romantismo em 1830 ou 1840. Ele percebeu muito bem essa vitalidade do romantismo e a sua presença em todos os momentos da cultura moderna.
Mas eu diria – e não sei se aí há uma diferença para o Octavio Paz, não lembro de memória o texto dele – que o romantismo tem uma matriz comum que atravessa todo esse processo histórico, com todas as modificações. Obviamente entre o romantismo do século XIX e o surrealismo há uma diferença enorme, mas há um fio de continuidade, um fio vermelho, uma espécie de matriz comum, eu diria. Se não me engano, Octavio Paz também vai nessa direção, também identifica esta continuidade.
O romantismo nasce como um protesto contra a civilização burguesa moderna, em nome de certos valores do passado. Valores culturais, éticos, religiosos. E esse elemento está presente desde seus pioneiros, como Rousseau, até os poetas do simbolismo e do surrealismo. A relação é evidente. Agora, dentro dessa proximidade, deste elemento de identidade, há diferenças claras. O simbolismo, por exemplo, era bastante religioso, enquanto o surrealismo faz profissão de fé de ateísmo. Boa parte do romantismo do século XIX é nacionalista, valoriza as culturas locais, enquanto o surrealismo é violentamente antinacional. As diferenças são evidentes, mas a continuidade existe. Inclusive os surrealistas consideravam-se um prolongamento do romantismo, tal como na famosa frase de Breton: “Nós somos a cauda do cometa romântico, mas somos uma cauda preênsil, como aquela do macaco”.

E você vê esta continuidade romântica presente até hoje? Como ela se relacionaria com o mundo pós-moderno?

Sou bastante cético quanto a esse conceito de pós-moderno. Existe uma corrente de pensamento pós-moderno, mas a sociedade não saiu ainda do século XVI. Estamos ainda vivendo a civilização burguesa, ou capitalista, que surgiu primeiro no século XVI, e se cristalizou no século XVIII com a Revolução Industrial. É claro que de formas diferentes, mas essencialmente ainda vivemos o mesmo mundo.
Mas gostaria de voltar para o surrealismo, para a questão de indivíduo e grupo, porque o surrealismo tem esse elemento de individualidade singular, que se afirma, se manifesta em sua especificidade psíquica, seu inconsciente, em sua libido. Ou seja, na singularidade total do indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, o surrealismo é uma comunidade, e o surrealista só pode se realizar, segundo Breton, através de uma atividade coletiva. E na atividade coletiva não existe mais autor, direito autoral, copyright nem se fala… Assim, há na essência deste romantismo que perdura uma quebra dessas idéias de propriedade intelectual. Esse duplo as-
pecto que aparentemente é tão contraditório no romantismo, não é tão contraditório assim.

A essência do romantismo seria então, mais que uma restauração, uma reinvenção?

O romantismo também é nostálgico, mas ele se transforma, há uma dialética. Não é uma simples volta ao passado, mas é uma retomada do passado em direção ao futuro. Isso é muito evidente dentro do surrealismo. Eles se interessam pela alquimia, pela cabala, pelas artes primitivas, pela cultura dos trovadores da Idade Média, pelas esculturas da Oceania, por tudo que é manifestação cultural pré-moderna. Eles só encontram autenticidade nessas formas, vão se inspirar nelas, mas obviamente não no sentido de tentar reproduzí-las, de voltar para trás, mas de usá-las como ponto de partida para inventar uma coisa nova.

O próprio Breton era um colecionador de máscaras hopi.

Exatamente. Essa fascinação pelo arcaico, pelo pré-moderno, vem da idéia de que o pré-moderno continha uma autenticidade que o moderno, ao transformar sua arte em mercadoria, perde. Então para ele há uma degradação. Quer dizer, uma boneca hopi é produzida como objeto de culto, sua beleza é compartilhada pela comunidade, enquanto as cópias são fabricadas para o turismo em massa, meramente uma mercadoria, um objeto sem aura…

E hoje, como você vê a idéia de uma arte compartilhada? A idéia do Creative Commons, por exemplo?

Eu francamente tenho pouca informação sobre isso. Quero dizer, o que tenho encontrado na minha prática como autor é mais a entrega da propriedade a um coletivo militante. Você entrega um livro, digamos, ao MST, para ele publicar. E você obviamente não pede direitos autorais. Abre mão de seus direitos por algo político, com que você se identifica. Eu vejo sentido nisso, o indivíduo que abdica de seu direito em favor de um movimento, de uma coletividade. Um movimento da sua política, um movimento social. Isso eu entendo melhor. Senão, essa idéia de Creative Commons me parece um pouco abstrata.
Essa questão é mais gritante em outras áreas, que não a da cultura. O direito de propriedade sobre a medicina, por exemplo. Há toda a briga dos genéricos, de quebrar o monopólio das grandes multinacionais farmacêuticas sobre a medicina. Essa é uma batalha de vida ou morte. Ganhar essa batalha é salvar milhões de vidas, e deixar as coisas como estão é deixar que essas pessoas continuem morrendo, não permitir o acesso ao medicamento.
Outro exemplo de briga, que eu acompanhei um pouco, é a questão das sementes. Através dos transgênicos, a Monsanto adquire o controle da propriedade, do copyright da semente. Com isso, passa a controlar todo o sistema de produção, o camponês é expropriado de sua semente. Uma coisa que nunca existiu na história da humanidade. Não poder cultivar as sementes da sua própria plantação, depender de uma multinacional para isso é uma degradação terrível. Esta é uma batalha fundamental no mundo em que estamos vivendo, a briga entre independência e monopolização.

Você falou sobre ceder os direitos em nome de uma ideologia. Não há uma dádiva nisso? E esta dádiva não contém armadilhas, o desejo de um retorno?

Marcel Mauss, um famoso antropólogo francês, escreveu um belo livro que se chama Ensaio sobre a dádiva, no qual ele analisa várias comunidades tribais indígenas em que ocorre esta prática. Há lá o potlatch, por exemplo. E nesta dádiva há sempre a idéia de retorno. Você faz uma doação e espera que o outro lhe dê alguma coisa em troca. Então não é uma troca formalizada, mas uma espécie de intercâmbio de dádivas que dá sentido à vida comunitária, às relações sociais, à cultura. É uma bela análise de como, no passado, existiram culturas, civilizações, baseadas na dádiva. O que pode ser terrível. Nestas culturas, você pode esmagar um rival através de uma dádiva tão grande que não possa ser retribuída, por exem-
plo. Não há motivo para idealizações. Mas é bem interessante. Esse tema é atual, e a prova disso é que existe hoje na França um grupo de pessoas que se auto-intitulam Movimento Anti-Utilitário das Ciências Sociais, que em francês cria as iniciais M.A.U.S.S. Então, esse movimento se inspira no trabalho de Mauss para pensar uma economia, uma sociedade, uma cultura utópica, digamos, baseada nesse tipo de relação, nas dádivas, nas relações não-utilitárias. É uma idéia bem interessante. E, no fundo, é uma idéia romântica. No sentido de
que você, na crítica da civilização utilitária, da mercadoria, do capitalismo, vai buscar uma inspiração no passado, nas culturas arcaicas. E através dessa cultura da dádiva, vai buscar alternativas, tentativas solidárias de construção de um novo mundo. Bem no espírito do romantismo utópico.

Nesse sentido, a dádiva continuaria criando uma idéia de vínculo…

Ela cria um vínculo, sim. Mas não é um vínculo formal, tem um elemento gratuito, como na graça divina. Segundo os teólogos, a graça divina é gratuita, sobretudo no caso dos jansenistas e dos franciscanos. Os católicos seguem uma concepção maior de intercâmbio, você faz uma boa ação, Deus lhe paga. A dádiva sempre está entre essas duas idéias, de gratuidade e intercâmbio, vínculo.

Isso me lembrou as famosas bicicletas brancas de Amsterdã. Não sei se você se lembra da história, mas no fim da década de 1960 as pessoas ligadas ao movimento Provos, na Holanda, começaram a deixar bicicletas na rua. A idéia era que quem quisesse poderia usá-las e, chegando onde queria, as soltasse na rua para o próximo que quisesse ou precisasse usar. Esta é uma idéia bem contracultural, e de uma contracultura européia, que trouxe uma tentativa de tradução concreta da dádiva para o mundo moderno. A contracultura traz grandes traços românticos, não?

Existem esses elementos românticos, sem dúvida. Maio de 68, por exemplo, é um movimento que possui fortes traços românticos. Por isso acredito que o romantismo  continua sendo um elemento presente na cultura moderna. Marx tem uma frase interessante, ele diz que a modernidade tem seus apólogos que elogiam o progresso e o desenvolvimento, e de outro lado tem os românticos que dizem o contrário, que tudo é declínio, decadência. E ele conclui dizendo que não concorda nem com um nem com outro, mas que, enquanto existir o capitalismo, vai existir essa crítica romântica como sombra dele. Que esta sombra vai segui-lo até o dia em que o capitalismo acabar. E é verdade. Esta crítica continua, esse protesto. E que deve se agarrar em alguma possibilidade, encontrar algum vínculo. Apoiar-se em alguma coisa que já existiu, como base.

Roberto Piva, um dos maiores poetas brasileiros vivos, costuma dizer que o comunismo nasceu da costela do capitalismo, quer dizer, nunca abdicou dos valores básicos de uma revolução industrial que configura o capitalismo moderno.

De fato, o socialismo real, tal como existiu na União Soviética e em outros países da Europa oriental, era essencialmente anti-romântico, acreditava piamente na modernidade industrial, no produtivismo, na tecnologia e no Estado moderno, administrativo, eficaz. Efetivamente, há uma continuidade do modelo anterior. Claro que há uma ruptura no sentido de que há uma expropriação da propriedade privada, mas o padrão civilizatório é o da modernidade, não o do romantismo.
Mas existe um socialismo romântico, que tem uma vertente anarquista, como em Fourier. E, sobretudo, em um autor que é pouco conhecido, mas que é o arquétipo do socialista romântico, que é Gustav Landaur, um judeu alemão revolucionário que chegou a ser comissário do povo para cultura na revolução dos conselhos da Baviera, em 1919. A revolução durou uma semana, foi derrotada, e ele foi assassinado pelo exército. É uma figura muito interessante, que tem uma crítica ao socialismo, à social democracia alemã, acusando-a de seguir o mesmo padrão do capitalismo.
Há um outro personagem muito interessante como exemplo de socialismo romântico, uma espécie de marxista libertário, a meio caminho entre o marxismo e o anarquismo, que é William Morris. Ele era um herdeiro da tradição romântica inglesa, um discípulo de Ruskin, que retoma toda essa crítica romântica à civilização industrial e, em um certo momento, descobre o socialismo. Ele se converte para o socialismo, continua com a sensibilidade romântica, e escreve aquela bela utopia de socialismo romântico que é Notícias de lugar nenhum, publicado no Brasil no ano passado. Um belíssimo livro. É um grande exemplo de um socialismo romântico. E o século XX está cheio desses exemplos, sempre um pouco à margem da vertente principal do socialismo.
Dá para seguir esta forma de pensamento, e possivelmente algumas experiências práticas também. O anarquismo espanhol, por exemplo, foi uma tentativa de colocar em prática uma visão romântica de socialismo. A idéia de comunidades, dos artesãos que se auto-organizam, é uma idéia muito próxima desta vertente.

Para finalizar, você acredita que é possível uma associação ou conciliação entre o socialismo e o romantismo? Você acha que esse encontro seria positivo?

Eu acho esse encontro indispensável. Quer dizer, acredito que para o socialismo ser humano, ele tem que se comparar esse momento romântico. É profundamente justa essa idéia de que a civilização moderna trouxe profundos avanços, mas ela destruiu muitos valores sociais, culturais, humanos, que nós devemos recuperar. Obviamente, sem voltar atrás, mas sob uma forma nova, reinventando-os. Essa idéia de reencontrar por uma forma nova o que foi perdido é fundamental para qualquer projeto de uma nova sociedade, de uma civilização solidária, para um socialismo do século XXI. Ao menos, esta é a minha aposta.

FONTE: Revista Azougue, 2006-2008.

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por uma sociedade transindividual

junho 11, 2011 às 9:00 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Por uma sociedade convivial. Entrevista com Alain Caillé

Estamos em plena descivilização. E fica cada vez mais forte para muitos homens e mulheres do planeta a tentação de um retorno ao estado natural, isto é, a uma condição barbárica em que todos estão em guerra contra todos.

A reportagem é de Marino Niola, publicada no jornal La Repubblica, 09-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A afirmação é do célebre sociólogo francês Alain Caillé (foto), autor do Manifesto do convivialismo e fundador, junto com Serge Latouche e Jacques Godbout, do Mauss, o Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais, inspirado no antropólogo Marcel Mauss, o autor do Ensaio sobre o dom, um texto que mudou a história das ciências humanas. E que deu aos três paladinos da economia gentil e do decrescimento o feliz apelido de os três mauss-queteiros.

Eis a entrevista.

Para o senhor, o problema de hoje é como reescrever o contrato social. Não mais em escala nacional, mas sim global.

É a questão fundamental. Depois dos totalitarismos do século XX, o que tornou popular a democracia foi o bem-estar generalizado permitido por um crescimento econômico impetuoso.

Como se a democracia tivesse fidelizado os cidadãos com a promessa da riqueza para todos.

Todas as grandes ideologias políticas, do liberalismo ao socialismo, se basearam em um pressuposto utilitarista, isto é, sobre a ideia de que a condição necessária para a paz social é um nível de vida suficiente para todos. O problema é que, no Ocidente e no Japão, o crescimento se deteve. O crescimento que existe é só nominal. Financeiro e imobiliário. Mas, para os trabalhadores e para a classe média, há 30 anos, o padrão de vida não aumentou. Ao contrário. E, para seus filhos, o horizonte é obscuro.

Em compensação, a Índia e a China têm taxas de crescimento vertiginosos. O futuro está lá?

O grande risco para esses países é que o seu crescimento também se detenha antes que a maioria da população tenha atingido um nível suficiente de vida e de liberdades democráticas. Sem falar dos custos ecológicos, sociais, da insuficiência de matérias-primas, dos riscos nucleares. Muitas hipotecas sobre uma perspectiva de desenvolvimento infinito.

Qual a saída?

A questão é se podemos fundamentar a democracia sobre algo estável e duradouro que não seja simplesmente o crescimento econômico. Mas sim um "estado econômico estacionário". Em equilíbrio.

Em outras palavras, o senhor propõe que se repensem os fundamentos simbólicos da democracia.

Sobretudo os econômicos. No fundo, a modernidade nasceu da ideia do contrato social, um conceito tirado diretamente da economia. A vida em sociedade tem a função de proteger os interesses individuais. Até a Declaração dos Direitos Humanos tem exatamente esses fundamentos. Devemos respeitar uns aos outros para criar uma esfera privada, em que cada um possa realizar sua própria renda.

O senhor quer dizer que a globalização corre o risco de dispensar essa ideia de democracia, fazendo-a implodir?

Certamente. É por isso que é preciso inventar uma democracia, digamos assim, antiutilitarista, desejável por si só, não por razões instrumentais, mas sim porque é a sociedade boa que permite uma vida boa. Eu chamo isso de Convivialismo. E o considero uma ideologia política totalmente a ser inventada, sobre as cinzas do socialismo e do liberalismo.

Em uma perspectiva convivialista na base da sociedade, estão o dom e o bem comum, não mais o interesse privado e o enriquecimento a qualquer custo. Não é uma utopia?

O dom está na própria origem do laço social, é o gesto primário que faz com que o indivíduo saia de si mesmo e o liga aos outros. E este momento fundador é incondicional, gratuito. Não por acaso todas as religiões nasçam de um dom feito ao deus. E que o deus retribui.

Na Itália, há os referendos sobre a água e a energia nuclear. Como o senhor votaria?

A água deve continuar sendo um bem comum, por isso eu votaria "sim". Sobre a energia nuclear, tempos atrás, eu era agnóstico, mas agora, assim como a maioria dos franceses, sou antinuclearista. Salientaria também o fato de que esses referendos oferecem a todos os cidadãos a oportunidade de se expressarem em primeira pessoa sobre temas tão vitais e é o sinal de que, quanto à democracia difundida, a Itália está mais à frente de outros países europeus. A questão dos bens comuns é o teste decisivo do estado de saúde de uma democracia. Onde não há outra lei para além da do mercado, não há lugar para os bens comuns, para aqueles bens compartilhados que pertencem à humanidade. Não podemos nos esquecer de que organizações como a ONU e a Unesco estavam todas baseadas na ideia de que o progresso passa através do acesso livre gratuito aos bens comuns.

O neoliberalismo faz passar as suas receitas econômico-sociais por necessidades objetivas – economia, racionalização, conveniência, concorrência.

A ideia neoliberal de que a força motriz essencial do ser humano é só a de maximizar prazeres, conforto e propriedades, em uma palavra utilidade, é pura ideologia, contrariada pelos fatos. O Homo não é só oeconomicus, e as relações entre indivíduos não são só mercantis.

A prova disso é a difusão sempre maior de comportamentos sem o objetivo do lucro. Dom, voluntariado, captação de fundos, organizações sem fins lucrativos, pessoas que dão seu tempo aos outros, além de dinheiro, solidariedade e até os seus próprios órgãos e o seu próprio sangue.

Hoje, uma das reações às desigualdades econômicas é justamente a das trocas gratuitas e dos serviços públicos. Mas só a construção de uma nova ética pode tornar possível a sociedade do Convivialismo. Uma paixão quase religiosa, um impulso das consciências como os que estavam por trás do nascimento do liberalismo ou do socialismo. Sem sonhos coletivos e grandes ideais, o novo não avança.

FONTE: IHU Online

a nova escravidão tecnológica

junho 1, 2011 às 21:33 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A ESCRAVIDÃO MODERNA É UMA MARAVILHA!

Por Mouzar Benedito.

Você está num bar ou restaurante, acompanhado de um amigo, de repente toca o celular dele. Ele atende, não é uma conversa qualquer, é trabalho. O diretor, gerente ou qualquer chefete dele dá ordens, pergunta algumas coisas e ele fica ali, meia hora “trabalhando” ao seu lado.

Isso está cada vez mais comum. Tem gente que se sente importante por receber da empresa que trabalha um telefone corporativo, “de graça”. E a partir daí o trabalho o acompanha 24 horas por dia. A jornada de trabalho, para esse pessoal chegado numa “modernidade” (nisso incluem-se as relações de trabalho) não é mais de 40 horas por semana. É de 168 horas. O sujeito tem que ficar 24 horas por dia com o aparelho ligado. Alguns têm também um troço no computador, que apita quando é chamado para trabalhar, seja de madrugada, depois de um dia estafante, seja num domingo na hora do almoço.

Há uns meses, um cara com quem marquei uma conversa num boteco apareceu com um laptop ligado. De vez em quando, parava a conversa e respondia a perguntas de um “superior” dele. Fiquei irritado. Ou vamos conversar ou você fica trabalhando aí que eu vou pra outro lugar. É uma chatice.

Outro cara que conheci falava maravilhas do laptop ligado à internet, porque nos fins de semana podia ir para a praia, ficar numa barraca tomando uma cerveja e… trabalhando. Respondi que acharia maravilha o contrário: você ficar no ambiente de trabalho tomando uma cerveja e paquerando. Mas para esse pessoal eu sou um anormal. A tecnologia é uma maravilha e temos que “aproveitá-la” o tempo todo. Só que quem tem aproveitado é o patrão. O celular da empresa e o laptop, nesses casos, são o instrumento da escravidão moderna.

Alguns perceberam isso, talvez tardiamente. Houve ações trabalhistas que chegaram ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), para cobrar horas extras sobre o tempo trabalhado com o celular, o pager e não sei que mais. O TST não aceitou as queixas. Esta semana decidiu que, como o empregado não perde a mobilidade trabalhando com o celular ou o pager nos horários que deveriam ser de folga, o trabalho executado por meio desses instrumentos de domínio (claro que o TST não usou esses termos), ele não tem direito a receber por horas adicionais de trabalho. Bem feito! Que continuem aceitando a escravidão moderna, sem rebeldia, sem nem sequer a alternativa de ir para um quilombo, pois esse pessoal, se for, é bem capaz de levar o celular institucional, o tal pager e o laptop em conexão com a empresa, como o cara que acha legal levar o laptop à praia.

Aliás, a tecnologia, que deveria ser libertadora do trabalho, tem tido esse efeito contrário. Imaginava-se que, com máquinas que executam trabalhos de centenas de pessoas, a carga de trabalho diminuiria radicalmente, sobrando mais tempo para a vida própria, a prática de atividades artísticas, esportivas, culturais e tudo que é agradável. Mas o que tem acontecido?

Dou o exemplo de uma multinacional que tem uma fábrica perto do bairro da Lapa,em São Paulo. Quandoconheci a empresa, há três décadas, ela tinha mais de 1.500 empregados nessa fábrica. Todos trabalhavam num ritmo normal e moravam em casas de classe média da região. Hoje, a empresa produz dezenas de vezes mais, lucra muito mais, e tem pouco mais de cem empregados, boa parte deles morando em favelas. Trabalham muito mais e ganham muito menos.

É isso: se uma máquina pode substituir vinte pessoas, o racional, humano, seria diminuir a carga de trabalho dos trabalhadores, de modo que pelo menos muitos deles mantenham os empregos. Mas o patrão faz o contrário: com cinco máquinas que fazem o trabalho de vinte pessoas cada, ele poderia demitir cem empregados, mantendo o mesmo tempo de trabalho. Se fosse um pouquinho ético, demitiria muito menos. Mas demite 150, e os que sobram têm que trabalhar num ritmo alucinante, sem descanso. O patrão sabe que esses empregados restantes se sujeitam para não perder o emprego, porque eles desempregaram muita gente que está disposta a qualquer coisa para ter um emprego novamente.

Agora há esses instrumentos de controle, com a complacência e até o elogio dos escravizados. Escravizados de luxo, mas escravizados.

Eu continuo com meu sonho anarquista, irrealizável: já que a máquina faz quase tudo por nós, deveríamos trabalhar apenas um dia por mês. Por exemplo: meu dia de trabalho seria o 15 de cada mês. No dia 14, eu passaria o dia inteiro me preparando física e psicologicamente. Quereria fazer um trabalho exemplar. E ao final desse dia me sentiria livre por um mês para viajar, fazer cursos, ler, escrever, cursar alguma coisa, pintar, bordar, cantar, brincar, namorar, assistir a quantos filmes quisesse, enfim, fazer tudo o que acho bom.

Mas isso é coisa de anarquista, não é? Uma anormalidade. O normal é trabalhar o dia inteiro, ir pra casa e continuar trabalhando na hora que o patrão quer, sendo chamado a qualquer momento e tendo que atender para não perder o emprego. Interrompa-se o jantar, interrompa-se o sexo, interrompa-se o filme ou futebol, interrompa-se a leitura… Trabalhe, trabalhe, trabalhe. O TST não vai criar caso.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras.

uma visão romântica sobre o #CódigoFlorestal & outras realidades brasileiras muito modernas

junho 1, 2011 às 16:54 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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CAROS AMIGOS entrevista Michael Löwy:

"A ‘flexibilização’ do código florestal é um bom exemplo desta avidez do lucro que ameaça levar à destruição da floresta Amazônica"

Por Débora Prado, 31/05/2011

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Nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, o sociólogo Michael Löwy vive em Paris desde 1969. Autor de diversos livros, é organizador do livro Revoluções (Boitempo, 2009), que inspirou a multi-exposição Revoluções, aberta ao público até 03/07, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Nesta entrevista ao site da Caros Amigos, ele avalia o potencial revolucionário de movimentos latino-americanos e das revoltas no mundo árabe, comenta a flexibilização do código florestal brasileiro, o assassinato de militantes do campo e as grandes obras hidrelétricas. Confira.

Caros Amigos – No projeto Revoluções, o sr. afirma que as revoluções nunca se repetem e, por mais que se possa aprender com as anteriores, sempre há um processo de inovação que é imprevisível. O sr. diria que há um processo de inovação na América Latina? Existe uma revolução bolivariana em curso?

Michael Löwy – Existem hoje em dia na América Latina vários movimentos sócio-políticos com vocação revolucionária. O exemplo mais evidente é o Exercito Zapatista de Libertação Nacional, que mostrou uma notável capacidade de inovação, com várias iniciativas que tiveram repercussão internacional. Basta mencionar a Conferência Intergalactica de Chiapas em 1996, que foi o ponto de partida do movimento altermundialista. Outros movimentos com capacidade de inovação são os piqueteiros e as ocupaçôes de fabrica na Argentina, os movimentos indigenistas, em particular na região andina e o MST brasileiro. Existem também governos com um programa de ruptura com a oligarquia, com a dominação imperialista e com o neo-liberalismo, mas é cedo ainda para se falar em « revolução ». O exemplo mais interessante é no momento a Bolivia de Evo Morales ; o processo bolivariano da Venezuela com Chavez, e a « revolução cidadã » de Rafael Corrêa no Equador são mais contraditórios, com avanços e recuos.

Caros Amigos – As transformações no mundo árabe podem ser entendidas como o começo de uma revolução? Por que?

Sem dúvida assistimos na Tunísia e no Egito a uma autêntica revolução democrática e popular, derrubando regimes ditatoriais corruptos e opressores. É um belo exemplo de inovação, as formas de luta e de auto-organização são inéditas e inesperadas. Da capacidade dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, de se organizarem de forma autônoma vai depender o futuro deste processo e o seu caráter revolucionário.

Caros Amigos – Como a comunidade europeia tem encarado as transformações no mundo árabe?

Os dirigentes da comunidade européia manifestaram perplexidade diante destes movimentos, já que tinham, ja ha muitos anos, propiciado apoio político, econômico e militar a estas ditaduras do mundo árabe. No momento, sua maior preocupação é impedir o afluxo de imigrantes da África do Norte na Europa, intensificando o controle policial nas fronteiras.

Caros Amigos– Em maio, é aniversário da Comuna de Paris. Como a Comuna influenciou a Europa? E a América Latina?

Precisaria de um livro inteiro para responder à esta pergunta… Todos os movimentos revolucionários do século 20, à começar pela Revolução Russa, foram influenciados pela Comuna de Paris. Hoje em dia se observa, na Europa e talvez em outros continentes, um interesse renovado pela Comuna de 1871, pelo seu caráter profundamente democrático, pluralista, libertário e internacionalista.

Caros Amigos – Nas últimas semanas, a proposta de flexibilização do código florestal causou polêmica no Brasil. Você avalia que seja possível promover uma exploração capitalista sustentável, como pregam os defensores do novo código?

Um “capitalismo sustentável” é tão provável como um crocodilo vegetariano… A lógica intrinsecamente perversa de expansão ilimitada e de acumulação infinita do capital conduz inevitavelmente à destruição do meio ambiente e à catástrofes ecológicas como o aquecimento global. A “flexibilização” do código florestal é um bom exemplo desta avidez do lucro que ameaça levar à destruição da floresta Amazônica, um desastre de proporções planetárias. São os mesmos que mataram Chico Mendes e Dorothea Stang, e mais recentemente o casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva: todo e qualquer obstáculo à exploraçâo/destruição da floresta tem de ser eliminado…

Caros Amigos – A preservação ambiental precisa ser colocada no centro das plataformas de transformações sociais? Por que?

Porque as condições de vida, a saúde e a própria sobrevivência da população depende de se preservar os equilíbrio ecológicos. Todo programa de transformação social ou de luta contra o neoliberalismo tem portanto de incluir a questão ecológica como um aspecto essencial. Se deixarmos que continue o « business as usual », dentro de dez, vinte ou trinta anos sofreremos as dramáticas consequências da mudança climática. De fato, desde ja se fazem sentir os primeiros efeitos do aquecimento global, com a ameaça da sequia que pesa sobre a Europa, a África e outros continentes. Por isto somos muitos a colocar como horizonte histórico da luta pela transformação social o ecosocialismo, a síntese dialética entre a revolução social e a ecologia.

Caros Amigos – O sr. avalia que Brasil tem priorizado grandes obras – como novas centrais nucleares e mega hidrelétricas – a agenda ambiental? Se sim, que riscos isto representa?

A energia hidrelétrica deve ser utilizada, mas não desta forma, com megaprojetos (Belo Monte!) a serviço da indústria de exportação de alumínio, destruindo imensas áreas de vegetação. É pena que o governo brasileiro, em vez destes projetos faraônicos – que vem da época da ditadura militar – de centrais nucleares e mega-hidrelétricas, com consequências ambientais profundamente negativas, não desenvolve as energias alternativas, eólica, solar. Não falta sol no Brasil, o pais poderia ser um dos pioneiros mundiais no campo da energia solar.

FONTE: Revista Caros Amigos

para pensar o descentramento sócio-histórico

setembro 23, 2010 às 22:41 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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O capitalismo e a aceleração do tempo

Na manhã de ontem, terça-feira, foi realizada a conferência com José Antonio Zamora sobre “Temporalidade capitalista, exploração da vida humana e tempo messiânico”. No segundo dia do XI Simpósio Internacional IHU: o (des) governo biopolítico da vida humana, Zamora afirmou que seu aporte no evento seria em torno do tema da temporalidade capitalista.

Ele iniciou sua fala considerando que o tempo se converteu numa categoria chave para compreender importantes fenômenos culturais e sociais atuais. O filósofo explicou que a modernidade capitalista produziu um novo regime temporal, uma “temporalização do tempo”, em que o tempo tornou-se “uma questão política”. E acrescentou que a marca do novo regime temporal capitalista é o imperativo da aceleração. “O tempo se converte num fator de medida de valor”, na lógica da competitividade. E que toda a forma de governamentalidade está associada ao tempo.

Uma afirmação importante para a compreensão do tema apresentado por Zamora é a de que “o capitalismo estabelece uma relação entre as necessidades humanas e sua satisfação”.

E é daí que o palestrante entrou na discussão sobre o conceito de benefício. “O benefício não é seguro, nem fácil de ser alcançado. Só se obtém benefício lutando permanentemente por maximização. E a produção de riqueza material não assegura benefício. Este, portanto, torna-se um fator relacional”. Zamora explicou que no capitalismo não se pode romper o ciclo de acumulação de benefício. E para ter crescimento econômico é preciso produzir mais. O problema que aparece aqui? Segundo ele, a desigualdade social.

“O capital vive um presente eterno”, disse Zamora. E se produzimos mais, já que a produção não tem limites, precisamos consumir mais. Para ele, essa nova realidade de aceleração instiga ao comportamento instantâneo, em que os fatos não “penetram” mais nas pessoas. Esse sistema cria consumistas adaptados a essa aceleração e a esse regime capitalista. “É uma exigência sistêmica”, dispara Zamora. E a aceleração só se converte em imperativo graças ao capitalismo. O filósofo explicou ainda que as formas de governamentalidade são indissociáveis do sistema capitalista e que “temos hoje um regime empresarial que rege a vida dos indivíduos”. Neste novo cenário, a inflexibilidade torna o sujeito “não empregável”. “É indispensável o uso eficiente, por parte dos indivíduos, dos recursos temporais”, afirma Zamora. E explica que para manter o imperativo da aceleração, tudo o que é obstáculo deve ser eliminado, por exemplo, todas as formas de estabilidade. Com a ajuda de quem? Das tecnologias! “Me sinto culpado por deixar a tecnologia invadir minha vida, minha casa, minha família”, confessa.

“Novas formas de comunicação ajudam a manter o imperativo da aceleração. Vivemos em permanente estresse”, segue Zamora em sua fala. E ele completa: “o trabalhador ideal é aquele que se auto-explora. Sem precisar interferência externa”.

O professor encerra sua fala argumentando que “no capitalismo não há descanso. Nosso horizonte é o trabalho e o círculo infinito de produção e consumo”. Para Zamora, o tempo rígido do regime fabril é um obstáculo à aceleração. “O tempo na era digital é instantâneo, simultâneo. É um tempo atemporal, onde o efêmero e o eterno acontecem juntos. A eliminação da sequência seria o equivalente à eternidade”, pontuou.

FONTE: IHU On-line, 15/09/2010

* * *

O PÓ QUE FICA DAS VELOCIDADES QUE JÁ NÃO SE VÊEM!
O do metálico dos êmbolos,
O furor uterino das válvulas lá por dentro —
O sangue dando em baque ao ataque dos excêntricos.

Minhas sensações
Protoplasma da humanidade matemática do futuro!

Eia-la-ho! Hó-oo-o!

Oh lá, saltos e pulos com o meu pensamento todo
Pula bola de mim — a mágica biológica que eu sou!
O cérebro servo de leis, os nervos movidos por normas
Por normas compostas em tratados de psiquiatras

[Álvaro de Campos]

* * *

A PARTIDA

E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (…)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a todas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (…)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas…
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora…
Ave atque vale, ó prodigioso Universo…
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (…)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(…)
(E até à aterissage final do meu aero (…) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (…)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino

[Álvaro de Campos]

* * *

HEIA O QUÊ? HEIA O PORQUÊ? HEIA P’RA ONDE?
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.

Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?

Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu

(quando parte o último comboio?)

[Álvaro de Campos]

homens relogios

re-caracterizando o Barroco

maio 9, 2010 às 12:26 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Agudeza_y_arte_de_ingenio

Um pequeno esquema para ajudar-nos a sistematizar alguns conceitos e questões trabalhadas desde o início do curso. Compare o esquema proposto abaixo com as versões disponíveis nos sites de vestibulares: o que há de diferente? alguma coisa se modificou em sua forma de encarar as qualidades geralmente atribuídas à estética barroca? Fundamental, também, é buscar poemas nos quais seja possível visualizar as diversas dimensões e figurações dos elementos relacionados a seguir.

esquema barroco

baroque-wedges_49 (sapato barroco)


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