as ficções da independência brasileira

setembro 18, 2010 às 17:29 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Olá, segue abaixo uma boa sugestão de leitura especialmente para os estudantes da LitPort1 e para os participantes do curso O REVERSO DAS CARAVELAS

A invenção do 7 de Setembro

"Porque, quando consultamos os jornais de 1822, não há nenhuma referência ao que se passou nas margens do Ipiranga em 7 de setembro? Porque aquele episódio foi escolhido em detrimento de outros, quando sabe que, em 1822, a data tomada como marco da Independência foi o 12 de outubro, dia do aniversário de dom Pedro I e de sua aclamação como imperador?", pergunta Isabel Lustosa, historiadora da Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 07-09-2010.

Eis o artigo.

Quando se deu realmente a Independência do Brasil? Porque, quando consultamos os jornais de 1822, não há nenhuma referência ao que se passou nas margens do Ipiranga em 7 de setembro? Porque aquele episódio foi escolhido em detrimento de outros, quando sabe que, em 1822, a data tomada como marco da Independência foi o 12 de outubro, dia do aniversário de dom Pedro I e de sua aclamação como imperador? Essas e outras questões foram respondidas, em artigo de enorme valor acadêmico, porém pouco conhecido, publicado em 1995, pela historiadora Maria de Lourdes Viana Lyra, sócia titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Intrigada com o silêncio da documentação e das publicações do ano de 1822 sobre o 7 de setembro, Lourdes LyraPedro I teria lido às margens do Ipiranga no dia 7 só teriam chegado ao Rio de Janeiro em 22 de setembro. Outro é que o primeiro relato detalhado do episódio do Ipiranga só foi publicado em 1826, em momento de desprestígio do imperador diante dos brasileiros que tinham feito a Independência e que se indignaram com as bases do tratado assinado com Portugal. devassou essa história e estabeleceu ponto por ponto o processo e os interesses envolvidos na escolha do 7 de setembro como data da Independência. Um ponto que merece realce é que os documentos que supostamente dom

A Inglaterra, que representou junto à Corte do Rio de Janeiro seus próprios interesses e os da Coroa portuguesa, pressionara o imperador. Dom Pedro foi convencido a aceitar que, no tratado pelo qual Portugal reconhecia a nossa Independência, ao contrário de todos os documentos do ano de 1822 que a davam como uma conquista dos brasileiros, constasse que esta nos fora concedida por dom João VI. Este era também reconhecido como imperador do Brasil que abdicava de seus direitos ao trono em favor do filho e ao qual ainda tivemos de pagar vultosa indenização. O patente interesse de dom Pedro em conservar seus direitos à sucessão do trono de Portugal, que essa fórmula do tratado revelava, apontava no sentido de uma posterior reunificação dos dois reinos.

Um príncipe que se declarara constitucional, que desde o Fico (9 de janeiro de 1821) vinha sendo aclamado até pelos setores mais liberais, que rompera com Lisboa e convocara eleições para uma Assembleia Constituinte, tão amado que recebera da Câmara o título de Defensor Perpétuo do Brasil, fora pouco a pouco se convertendo num tirano. Primeiro, ao dissolver a Assembleia Constituinte, depois, pela forma violenta com que reprimiu a Confederação do Equador e, finalmente, pela assinatura do vergonhoso tratado.

É nesse contexto que a escolha do 7 de setembro como data da Independência ganha sentido. Segundo Lourdes Lyra, até então tinham sido consideradas as seguintes datas decisivas para o processo: o 9 de janeiro, dia do Fico; o 3 de maio, dia da inauguração da Assembleia Constituinte Brasileira; e o 12 de outubro, dia da Aclamação. Foi o esforço concentrado do Senado da Câmara (atual Câmara Municipal) do Rio de Janeiro, durante o mês de setembro de 1822, enviando mensagem à Câmaras das principais vilas do Brasil – num tempo em que eram as vilas e cidades as instâncias decisivas da política portuguesa -, que fez com que, na fórmula consagrada, constasse que dom Pedro fora feito imperador pela "unânime aclamação dos povos". Foi o apoio das Câmaras e de setores da elite e do povo do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais que deu forças ao príncipe para se contrapor às decisões de Lisboa.

Segundo bem demonstra Lourdes Lyra, a opção pelo 7 de setembro casava bem com a ideia de que a Independência fora obra exclusiva de dom Pedro e essa data foi estrategicamente escolhida para a assinatura do tratado de 1825. Foi a partir de então que começaram a surgir referências mais entusiásticas ao 7 de setembro no Diário Fluminense, que fazia as vezes de órgão oficial do governo, e, em 1826, esse dia foi incluído entre as datas festivas do Império. Essa obra in progress foi reforçada ainda naquele ano pela publicação do famoso relato do padre Belchior, a primeira descrição minuciosa dos fatos que se verificaram às margens do Ipiranga por uma testemunha ocular da História. Ao lado deste, dois outros relatos publicados bem mais tarde por membros do grupo que acompanhou dom Pedro a São Paulo passariam a ser a fonte privilegiada para o estudo da data.

O coroamento da obra se deveria ao Visconde de Cairu, intelectual respeitado que se conservou sempre aos pés do trono. Em sua História do Brasil, publicada em partes entre 1827 e 1830, Cairu afirma que a Independência do Brasil foi "obra espontânea e única" de dom Pedro, que a tinha proclamado "estando fora da Corte, sem ministros e conselheiros de Estado, sem solicitação e moral força de requerimento dos povos". Estava entronizado o mito do herói salvador, e postos na sombra os outros protagonistas, como José Bonifácio, Gonçalves Ledo e os membros de todas as Câmaras que impulsionaram e sustentaram o príncipe em suas decisões. Sem esse poderoso elenco de coadjuvantes, ao contrário do que afirma Cairu, não teria ocorrido a Independência.

É interessante como símbolos forjados a partir de circunstâncias fortuitas se podem transformar com o tempo. Prova de que na memorabilia pátria menos que os fatos importam o peso que a tradição lhes imprimiu. Foi assim, durante todo o Império com a Constituição de 1824. O gesto de sua criação – ela foi outorgada, e não resultou da deliberação de uma Assembleia – não impediu que ela fosse respeitada e sacramentada até muito depois da deposição de dom Pedro I. O mesmo se deu com o 7 de setembro. A data impôs-se sobre as demais, hoje esquecidas, e continuou a ser festejada com o mesmo entusiasmo depois da abdicação, em 7 de abril de 1831, e bem depois de proclamada a República.

FONTE: IHU Online

literatura pós-colonial: memória, cultura e diferença

setembro 2, 2010 às 22:44 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Poeticas_Maravilhoso2

Segue abaixo uma listagem de links que dão acesso aos textos ficcionais que serão trabalhados no curso:

 

ALEGRE, Manuel. Lusíada exilado. In: Praça da canção; O canto e as armas. 2.ed. Lisboa: D. Quixote, 2003.

Nem batalhas nem paz: obscura guerra.
Dói-me um país neste país que levo.
Sou este povo que a si mesmo se desterra
meu nome são três sílabas de trevo.

Há nevoeiro em mim. Dentro de abril dezembro.
Quem nunca fui é um grito na memória.
E há um naufrágio em mim se de quem fui me lembro
há uma história por contar na minha história.

Trago no rosto a marca do chicote.
Cicatrizes as minha condecorações.
Nas minhas mãos é que é verdade D. Quixote
trago na boca um verso de Camões.

Sou este camponês que foi ao mar
lavrou as ondas e mondou a espuma
e andou achando como a vindimar
terra plantada sobre o vento e a bruma.

Sou este marinheiro que ficou em terra
lavrando a mágoa como se lavrar
não fosse mais do que a perdida guerra
entre o não ser na terra e o ser no mar.

Eu que parti e que fiquei sempre presente
eu que tudo mandava e nunca fui senhor
eu que ficando estive sempre ausente
eu que fui marinheiro sendo lavrador.

Eu que fiz Portugal e que o perdi
em cada porto onde plantei o meu sinal.
Eu que fui descobrir e nunca descobri
que o porto por achar ficava em Portugal.

Eu que matei roubei eu que não minto
se vos disser que fui pirata e ladrão.
Eu que fui como Fernão Mendes Pinto
o diabo e o deus da minha peregrinação.

Eu que só tive restos e migalhas
e vi cobiça onde diziam haver fé.
Eu que reguei de sangue os campos das batalhas
onde morria sem saber porquê.

Eu que fundei Lisboa e ando a perdê-la em cada
viagem. (Pátria-Penélope bordando à espera.)
Eu que já fui Ulisses. (Ai do lusíada:
roubaram-lhe Lisboa e a primavera.)

Eu que trago no corpo a marca do chicote
eu que trago na boca um verso de Camões
eu é que sou capaz de ser o D. Quixote
que nunca mais confunda moinhos e ladrões.

* * *

Eu que fiz tudo e nunca tive nada
eu que trago nas mãos o meu país
eu que sou esta árvore arrancada
este lusíada sem pátria em Paris.

Eu que não tenho o mar nem Portugal.
(E foi meu sangue o vinho meu suor o pão.)
Eu que só tenho as lágrimas de sal
que me deixou el-rei Sebastião.

Nem o Gama nem os doze de Inglaterra
O herói sou eu: aqui sem pão nem glória
Eu camponês no mar e marinheiro em terra
todo o mundo e ninguém. Sou eu que faço a história.

Quem foi que fez de mim este estrangeiro
este sem pátria a quem a pátria dói
Eu que fui camponês poeta marinheiro
eu que fiz Portugal quero saber quem foi.

Lusíada exilado. (E em Portugal: muralhas.)
Se eu agora morresse sabia por quê.
Venham tormentas e punhais. Quero batalhas.
Eu que sou Portugal quero viver de pé.

(visite o MUJIMBO e ouça este poema recitado por Manuel Alegre)

 

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Que país é este?. In: Que país é este?. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

para Raymundo Faoro

                Puedo decir que nos han traicionado? No. Que todos fueron buenos? Tampoco. Pero allí está una buena voluntad, sin duda y sobretodo, el ser así.

CÉSAR VALLEJO

Fragmento 1

Uma coisa é um país,
           outra um ajuntamento.
           Uma coisa é um país,
           outra um regimento.
           Uma coisa é um país,
           outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
                                – e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maior em tudo
                                    – discursando rios e pretensão.

           Uma coisa é um país,
           outra um fingimento.

           Uma coisa é um país,
           outra um monumento.

           Uma coisa é um país,
           outra o aviltamento.

Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
                                 e ler anais
como anal
                   animal
                               hiena patética
                                                       na merda nacional?

Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
                                 procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?

             Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
             nacionais, como qualquer santo barroco a rebuscar
             no mofo dos papiros, no bolor
             das pias batismais, no bodum das vestes reais
             a ver o que se salvou com o tempo
             e ao mesmo tempo
                              – nos trai.

Fragmento 2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
Há 500 anos queimamos árvores e hereges,
Há 500 anos estupramos livros e mulheres,
Há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
    que o futuro a Deus pertence,
    que Deus nasceu na Bahia,
    que São Jorge é guerreiro,
    que do amanhã ninguém sabe,
    que conosco ninguém pode,
    que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
    não somos nada violentos,
    quem espera sempre alcança
    e quem não chora não mama
    ou quem tem padrinho vivo
    não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
    este é o país do futuro,
    antes tarde do que nunca,
    mais vale quem Deus ajuda
    e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
    somos raposas verdes
    colhendo uvas com os olhos,

    semeamos promessa e vento
    com tempestades na boca,

    sonhamos a paz na Suécia
    com suíças militares,

    vendemos siris na estrada
    e papagaios em Haias

    senzalamos casas-grandes
    e sobradamos mocambos,

    bebemos cachaça e brahma
    joaquim silvério e derrama,

    a polícia nos dispersa
    e o futebol nos conclama,

    cantamos salve-rainhas
    e salve-se quem puder,

    pois Jesus Cristo nos mata
    num carnaval de mulatas

Este é um país de síndicos em geral,
Este é um país de cínicos em geral,
Este é um país de civis e generais.

Este é o país do descontínuo
onde nada congemina,
e somos índios perdidos
na eletrônica oficina.

Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina,

o salário que nos come
e nossa sede canina,

a esperança que emparedam
e a nossa fé em ruína,

nada nada congemina:
a placidez desses santos
e nossa dor peregrina,

e nesse mundo às avessas
– a cor da noite é obsclara
e a claridez vespertina.

(continua…)

 

ANDRADE, Oswald de. Manifesto antropófago. In: A utopia antropofágica. São Paulo: Globo, 1990.

ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. São Paulo: Globo, 1990.

 

ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memória de um sargento de milícias. 31.ed. São Paulo: Editora Ática, 2006.

 

MACEDO, Joaquim Manuel de. Pai-Raiol. O feiticeiro. In: As vítimas-algozes. Quadros da escravidão. 4.ed. Porto Alegre: Zouk, 2005.

 

RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

o reverso das caravelas: bibliografia on line

setembro 2, 2010 às 12:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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 rosaventos1

A partir de amanhã estará disponível uma pasta na xerox do campus de Itabaiana contendo cópias dos principais textos do curso. O acesso à bibliografia básica (exceto os ensaios de Eneida Cunha) pode também ser efetuado através dos links abaixo.

GOMES, Heloísa Toller. Crítica pós-colonial em questão. In: Revista Z Cultural. n. 1. ano III. Rio de Janeiro: Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ, 2006. p. 1-12.

CANDAU, Vera Maria Ferrão, OLIVEIRA, Luiz Fernandes de. Pedagogia decolonial e educação antirracista e intercultural no Brasil. In: Educação em Revista. v. 26. n. 1. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG, abr. 2010. p.15-40.

TEIXEIRA, Anísio. Valores proclamados e valores reais nas instituições escolares brasileiras. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.37, n.86, abr./jun. 1962. p.59-79.

CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem (caracterização das Memórias de um sargento de milícias). In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. n.8. São Paulo: USP, 1970. p. 67-89.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Visibilidade e ocultação da diferença. Imagens do negro na cultura brasileira. In: FONSECA (org.). Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

OLIVEIRA FILHO, Jesiel Ferreira de. Leituras triangulares: racismo e alienação em literaturas lusófonas. In: Anais do Seminário Nacional Literatura e Cultura. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2009.

diogocouto_naufragio2

uma introdução à crítica pós-colonial

setembro 1, 2010 às 1:50 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Para conhecer a proposta do curso O REVERSO DAS CARAVELAS, clique AQUI. Na abertura do curso exibiremos o filme Queimada, de Gillo Pontecorvo. Obra cercada de muita polêmica, talvez a única unanimidade quanto a ela seja a impactante beleza de sua trilha sonora, composta pelo magistral Ennio Morricone. Confira abaixo a sequência de abertura. Ou leia uma breve resenha do filme AQUI.


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