um olhar profundo para a crise dos valores sociais: excelente entrevista de uma das mais importantes filósofas brasileiras

junho 22, 2011 às 7:41 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , ,

Revolucoes4b

Olgária Matos entre Direitos, Desejos e Utopia

Entrevistada pelo projeto Revoluções, filósofa vê em 1968 o momento em que a ideia de transformação social começou a mudar

Realizou-se no mês de maio, em São Paulo, uma experiência político-estética de rara atualidade. No instante em que ressurgem, no mundo árabe, os grandes movimentos de transformação social promovidos pela multidão, o projeto Revoluções debateu conceitualmente esta forma de mudar o mundo. Iniciado em abril, ele desdobrou-se em três outras atividades: o seminário Revoluções: uma política do sensível (20 e 21/5); a abertura de uma exposição de fotos organizada por Henrique Xavier, a partir de trabalho de Michel Löwy (21/5); e a instigante oficina Mídia e Revolução: culturas de vanguarda (22 e 24/5).

Muito mais que uma série de eventos, Revoluções – um projeto que Outras Palavras ajudou a conceber – é um convite a refletir. Por isso, produz, em certos momentos, diálogos e entrevistas, disponíveis em seu site. Autora, entre muitas outras obras, de As barricadas do desejo, sobre o Maio de 1968 francês, a filósofa Olgária Matos é uma participantes ativa destes momentos.

olgariamatos 

O texto abaixo traz a síntese de uma destas conversas, mantida com a equipe de organizadores do seminário. No diálogo, ela falou sobre 1968 – abordando, em especial, seu papel na criação de novos projetos superação do capitalismo (que afloram mais intensamente hoje). Também abordou o sentido e atualidade da noção de direitos humanos, as armadilhas da libertação do corpo conjugada com aprisionamento do espírito e (com viés um tanto conservador…) as redes sociais e o mundo virtual. Ao final, expressou, a respeito da noção de Utopia, uma visão que vale a pena conhecer e discutir.

Projeto Revoluções: Por vezes, seus ensaios refletem as inquietações de uma geração que vivenciou e produziu uma transformação no modo de vida, com novas expectativas no campo do trabalho, da sexualidade ou na comunicação de ideias e ideais. Vivendo as “barricadas do desejo” das lutas de 1968, em que medida aquela pode se sentir representada pela atual luta pelos direitos humanos?

Olgária Matos: – O ano de 1968 foi emblemático por ter procedido à crítica das abstrações conceituais como a luta de classes, a dialética materialista, golpe de Estado como formas de emancipação, colocando no centro da questão o indivíduo.

Não mais o revolucionário profissional e obsessivo, investido da missão histórica de liberar toda a humanidade, pois nenhuma classe social fala pelo universal. Nesse sentido, a luta pelos direitos humanos hoje amplia a noção de direito que passa a abranger as questões subjetivas, além da luta contra todos os tipos de preconceito, sejam religiosos, de classe, de sexo ou gênero, de condições físicas e intelectuais.

Toda essa luta tem o sentido de suavizar as relações entre as pessoas, criando as condições do exercício do respeito, da confiança. Também a percepção da violência não só restrita às questões políticas traz para o debate os direitos dos animais e os da natureza, antes fora do debate institucional.

Projeto Revoluções: A história dos direitos humanos confunde-se com modificações de comportamentos nas relações culturais. Podemos reconhecer aqui o avanço da luta das mulheres, apoiada neste instrumento. De outro modo, há quem afirme que os direitos humanos são um instrumento de manipulação cultural, com valores originados numa cultura burguesa e europeia. Qual a sua posição sobre este paradoxo?

Olgária Matos: A ideia de direitos universais é parte da tradição da filosofia antiga — grega e estoica. Lembre-se que os cínicos, no século IV a.C., contestavam as fronteiras entre os povos que, segundo eles, criavam as rivalidades e as guerras, elaborando as primeiras reflexões sobre o cosmopolitismo. Na sequência, a visão cristã desenvolve a ideia de igualdade radical em dignidade, “todos somos irmãos” ou então, como o poeta John Donne escreveu no século XVII: “todos nós somos páginas de um mesmo livro espalhadas pelo mundo.”

Isto é, foi a luta pela igualdade universal abstrata – burguesa — que facultou a possibilidade de luta pelo direito à diferença, e não o contrário.

Projeto Revoluções: Um dos aspectos levantados por nosso curso remete diretamente aos conflitos de constituições culturais, sobretudo aquele entre a marca subjetiva do desejo e a composição de um todo social, com leis universalmente reconhecidas – em outras palavras, a cisão entre indivíduo e sociedade. Esta cisão colocaria em xeque um dos projetos mais antigos da vida social, isto é, a felicidade universalizada, ou ele amplia o campo de demandas e sua extensão?

Olgária Matos: Por sua natureza, a lei é “abstrata”, “impessoal”, e assim tem sua função reguladora da vida social. Como não poderia existir justiça “em si” – universal e abstrata – há sempre um além da lei que diz respeito aos “sentimentos morais”, a um “tato moral” – como o sentimento do pudor – que escapa à legislação.

Esse quantum afetivo é o que cabe ao magistrado prover para que a mais-valia afetiva do que está em jogo na lei possa efetivamente ser considerada. A felicidade é uma palavra indeterminada, mas que tem sentido crítico, uma vez que ela é o que obscuramente guia todas as ações que de uma maneira ou outra buscam o prazer. O pensamento antigo definiu a filosofia como a busca da justa vida e do bem viver que hoje, segundo Adorno, é uma “ciência esquecida”. Quer dizer, a aptidão para a felicidade é algo que se aprende, não se herda, ela exige toda uma educação. Os gregos, por exemplo, encontravam na scholé – no tempo liberado dos constrangimentos da autoconservação – a razão essencial da vida, pois viver nada mais é do que uma determinada maneira de nos utilizarmos do tempo finito que nos foi concedido. Os “cuidados de si” faziam parte do conhecimento da natureza e de nossa natureza, a fim de alcançarmos a “tranquilidade da alma”, uma das figuras da felicidade.

Mas se os gregos valorizavam a prudência, a moderação, a contenção das paixões – que nos fazem infelizes porque nunca determinam exatamente o que desejam – a modernidade valoriza o excesso, o descomedimento que para os antigos era sinônimo de perdição, de extravio, de infelicidade.

E, no mundo contemporâneo, a monotonia e o tédio se instalam no vazio deixado pelo desaparecimento da ideia de “autoconhecimento”’ e autoaprimoramento, e se abandonou para as coisas externas a possibilidade de ser feliz. Substituiu-se o “ser” pelo “ter”, o mercado ocupando o lugar de sucedâneo à busca da felicidade e a posse de bens materiais. Daí o vazio de tudo e a pobreza do mundo interior, atestada pela massificação do uso de drogas, obesidade mórbida, esportes radicais e demais mecanismos de colocar no exterior o que é do domínio subjetivo incontornável.

Projeto Revoluções: Das experiências culturais da segunda metade do século passado, é possível ressaltar um novo olhar sobre o corpo – não mais formado e preparado para as funções sociais “tradicionais” (basicamente, reproduzir e produzir), mas um espaço novo e aberto para a fruição de suas potencialidades. Entretanto, numa sociedade do espetáculo, em que os corpos devem se apresentar como “belos e saudáveis”, há quem afirme que as conquistas de liberdade foram deturpadas ou perdidas. Onde podemos localizar esta mudança?

Olgária Matos: Marcuse nos formulou bem essa questão. O século XX, para todos os fins do consumo, liberou os corpos mas reprimiu a vida do espírito ou, melhor, não liberou o espírito. O que significa que se tratou de uma pseudoliberação que acabou por se converter em uma nova forma de opressão. Se no passado a sexualidade era proibida de se realizar, hoje ela é obrigatória! O corpo – que é o que de mais íntimo possuímos – converteu-se em objeto de exposição (através da pornografia em geral veiculada pelo estilo publicitário) e de banalização. Piercings, tatuagens, nudez etc. são formas de exibição voltadas para si mesmas, já que não são signos distintivos de nenhuma identidade, mas são “comportamentos miméticos”, de massa. Todos copiam a todos sem reflexão, num desejo de identidade e de pertencimento buscados apenas no exterior. São pseudoidentidades e pseudopertencimentos, porque aquele que se tatua não o faz por uma escolha pessoal, mas porque um outro já o fez.

Seria preciso reinventar a ideia de felicidade para a ação não ser ativismo e não senso, mas autorreflexão, conhecimento e prazer neste conhecimento. Os corpos “belos e saudáveis” de hoje nada possuem em comum com aquela empatia do corpo e da alma, em que a beleza do espírito acaba por se revelar nos corpos precários e mortais. O fetichismo da juventude e o desejo de superação de si – os esportistas que sucumbem às drogas e às performances – nada poderiam ter em comum com a saúde do corpo e da alma, porque estas requerem filosofia!

Projeto Revoluções: Outro diagnóstico da contemporaneidade volta-se para o advento das redes sociais no mundo virtual. Nelas, os usuários encontram um espaço para expressar suas individualidades, seja em busca de relacionamentos, seja para divulgar suas ideias, ampliando as vias para a liberdade de expressão. Pensando em seu ensaio “A Identidade: um Estrangeiro em nós” (Discretas Esperanças – Reflexões filosóficas sobre o mundo Contemporâneo, 2006), é possível afirmar que tais manifestações na internet reforçam modelos de identificações que geram “patologias da comunicação”, como a intolerância e o dogmatismo que bloqueiam relações de alteridade? Ou seria este um meio a mais para reverter os laços sociais, configurando vias para a tolerância em uma recente cultura em que a virtualidade assume um papel central?

Olgária Matos: O virtual, as chamadas “amizades à distância”, atesta um “horror do contato”, o evitar a presença factual do outro que, por sua natureza, me contesta. Daí a tendência ao isolamento, ao narcisismo primário, regressivo, ao não contato com o outro, a dificuldade da generosidade e da gratidão, sem o que não há vida ética.

Projeto Revoluções: Um dos elementos possíveis resultantes da dinâmica entre desejo e direitos explode nas manifestações de violência, apresentadas não apenas na necessidade de reconhecimento de suas demandas, como também na instauração de forças paralelas que geram verdadeiros

“Estados dentro do Estado” (sejam as milícias paramilitares, sejam as organizações criminosas). No caso brasileiro, duas estratégias de contenção da violência estão constantemente nos noticiários: as Unidades de Polícia Pacificadoras , nas comunidades em que o tráfico era dominante, e a política de carceragem. Entre uma e outra experiência, podemos afirmar que o brasileiro está experimentando uma nova cultura de paz ou estamos reproduzindo um velho sistema de exclusão social?

Olgária Matos: Esta é uma questão difícil de começar a ser respondida, porque a lei no Brasil não parece ter a função de promover a paz social e a reparação de injustiças. Seja porque nossas leis por vezes parecem ter sido elaboradas para a pólis grega — e portanto não dão conta da violência da sociedade contemporânea –, seja porque não se compreende como ela é aplicada, e no final ela não cria coesão social, mas é vivida como sendo ela mesma violenta, arbitrária e geradora de injustiça. De onde a proliferação das organizações parapoliciais de extermínio etc.

Pode ser também que a ideia de que devamos ser mais compreensivos – complacentes – com os menores infratores, em vez de “conformá-los à boa sociedade”, esteja de fato entregando os jovens (que não têm a noção do limite do permitido e do interdito clara) à vida violenta e breve. Enfim, apesar de eu não me sentir à vontade para tratar de questões tão complexas – eu diria que é com os jovens que a lei deveria ser mais segura a fim de criar a ideia de autoridade legítima etc.

Mas que a mídia hoje tem um papel preponderante no mimetismo social não poderia ser minorado. A mídia impõe comportamentos e produz pensamentos imitados na sociedade. Que se pense o quanto a mídia responde pela conversão da política em espetáculo e as eleições em consumo de imagens de baixa qualidade e baixo padrão de comportamento ético e respeito recíproco ao adversário. A mídia polariza a política criando apenas o amor ou o ódio aos governantes,   o que pouco tem em comum com a inteligência da vida pública e de um espaço comum compartilhado. Cada vez mais proliferam os particularismos e desaparecem valores comuns admirados e respeitados por todos – ou que tendessem simbolicamente a isso.

A educação medíocre que se preconiza para a grande massa – sob a alegação de que a “verdadeira cultura lhe é inacessível” – exclui a maioria da “vida do espírito”, que retorna à condição de privilégio de uma elite, esta também cada vez mais precarizada, porque o fim do valor filosófico e existencial da cultura impõe o “naturalismo“ dos comportamentos e sua informalidade como a medida da vida em comum. Daí as diversas formas de incivilidade, desde o comportamento das pessoas no trânsito, passando pelo fim das “boas maneiras” no tratamento entre as pessoas, até das formas mais graves de negação do Outro, como na criminalidade. Pena que os mais pobres tenham chegado à “universidade”, no momento em que o “ensino superior” não é superior a nada, não passa de um segundo grau mal dado e malfeito.

Mas como a história é devir – ou inquietação permanente – há sempre o inesperado que pode nos dar boas surpresas. Esperemos que o Egito tenha realmente sua “primavera”, como os franceses tiveram duas, a da Comuna de Paris que este ano comemora 140 anos, e o maio de 68 e suas “barricadas do desejo”. Porque os egípcios já nos deram sua dimensão simbólica, protegendo o Museu – patrimônio de toda a humanidade – dos oportunistas e saqueadores. Pois pode ser que as utopias não mudem o mundo, mas são elas que nos põe a caminho.

FONTE: Outras Palavras

   angelus-novus(Paul Klee, “Angelus Novus”. Para um dos grandes inspiradores de Olgária Matos, o filósofo Walter Benjamin, este quadro pode ser interpretado como uma representação das dimensões caóticas da história humana. Saiba mais clicando na imagem)

o “problema do branco” cada vez mais em destaque

junho 21, 2011 às 17:04 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , ,

 

Brasil atualiza o racismo por não discutir “branquitude”

Por Glenda Almeida

Nos debates sobre raças e racismo pouco se fala sobre "branquitude". E foi a partir desta constatação que a pedagoga e professora de educação infantil, Luciana Alves, demonstrou que ações afirmativas, como a lei sobre ensino da cultura africana, só fazem sentido se forem realizadas em ambiente de reflexão e reconstrução sobre o "ser branco".

O tema "miscigenação" é muito falado no Brasil, mas o que se esconde por trás desse discurso é uma cultura que atualiza o racismo. A escola se apresenta como instituição discriminatória, onde o assunto "branquitude" é pouquíssimo discutido nos debates sobre raça. Essa situação colabora para que o branco se sinta superior e em posição de neutralidade a respeito do tema, fazendo perpetuar a "positividade da brancura" e os estereótipos negativados do "ser negro".

Para realizar seu estudo Significados de ser branco – a brancura no corpo e para além dele, orientado pela Professora Marília Pinto de Carvalho, Luciana entrevistou 10 professores de ensino básico, sendo 4 autodeclarados brancos e 6 negros, a fim de saber o que pensavam sobre "o que é ser branco no Brasil". O estudo foi apresentado na Faculdade de Educação (FE) da USP. A pesquisadora conta que os professores foram selecionados para o trabalho quando participavam de um curso sobre a Lei 10639/2003, que obriga o ensino de cultura e história africana e afro-brasileira nas escolas.

Metade branca

No Brasil, cerca de 50% da população se autodeclara branca, denunciando que no País onde existe um discurso sobre a mistura de raças ainda há motivos que levam as pessoas a se declararem brancas, mesmo sendo provenientes de família mestiça. De acordo com Luciana, esses motivos estão relacionados aos "significados de ser branco, para além da cor da pele". Esses significados são um conjunto de características atribuídas culturalmente às pessoas que se reconhecem e são reconhecidas em suas comunidades como brancos.

"Ser branco é não ser negro", disse um dos entrevistados. Tal resposta evidencia que o significado de ser negro geralmente já é construído como o contrário de ser branco. Por causa dessa mentalidade, é muito comum perceber no dia-a-dia situações em que "ser negro" é relacionado a características negativas. Em contra partida, o que é associado à brancura são valores positivos, socialmente estimados. A inteligência, a castidade, a beleza, a riqueza, a erudição e a limpeza, por exemplo, seriam características de um "negro de alma branca", expressão utilizada por um dos professores entrevistados.

Nas entrevistas, o que ficou claro nas falas dos negros, além da tal positividade da brancura, foi a sensação de medo, insegurança, opressão e desconfiança. Isso confirma a imagem do branco como potencialmente opressor para os negros, construída e atualizada ao decorrer da história.

As respostas dos professores brancos sobre "ser negro" geralmente recorriam aos estereótipos muito bem fixados no imaginário popular. Quando falavam de suas infâncias, lembrando momentos em que presenciaram situações de discriminação, evidenciavam que desde aquela época esses estereótipos, criticados por eles atualmente, já estavam sendo construídos.

Essa construção coloca a "brancura" como padrão, como norma, e é essa padronização a principal responsável pela atualização do racismo no Brasil, segundo a pesquisa. "As memórias dos professores revelam a neutralidade de sua pertença racial, indicando que ser branco é não ter que refletir sobre esse dado", constata a pesquisadora.

Nas Escolas

O racismo ainda existe e permeia o cotidiano do brasileiro e, nas escolas, não é diferente. Segundo Luciana, a melhor forma de não atualizar a discriminação nas salas de aula é colocar o tema "branquitude" em pauta. "É preciso entender que os brancos também formam um grupo racial que defende seus interesses, e acabam se beneficiando, direta ou indiretamente com o racismo", diz a pesquisadora. Ela acredita que deve haver no ambiente escolar oportunidades de se discutir e questionar a adesão à ideia de superioridade da brancura. "É aí que entra a formação adequada dos professores, como aposta para que a idealização branca deixe de ser objeto de desejo para negros e brancos, pois ela pressupõe hierarquia", descreve a pesquisadora. Nas salas de aula, a brancura ainda é construída como referência de humanidade, onde "o branco é sempre o melhor exemplo".

FONTE: Portal Geledés

a vida moderna e suas transformações radicais: qual o limite?

junho 15, 2011 às 21:56 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , ,

Uma geração de estranhos. Os seres humanos modernos não estão mais acostumados a viver na natureza: só conhecem a cidade.

Umberto Eco

Creio que Michel Serres tem a melhor cabeça filosófica que há na França hoje em dia. E como todo  bom filósofo, Serres é capaz de refletir sobre os temas atuais tão bem quanto sobre os fatos  históricos. Vou basear descaradamente esta coluna no esplêndido ensaio que Serres escreveu  no mês passado para o “Le Monde”, no qual nos alerta sobre questões relacionadas à juventude atual: os filhos de meus leitores jovens e os netos de nós mesmos, os velhos.

Para começar, a maioria desses filhos ou netos nunca viu um porco, uma vaca ou uma galinha – observação que me faz lembrar uma pesquisa feita há cerca de 30 anos nos Estados Unidos. Ela  mostrou que a maioria das crianças de Nova York achava que o leite, que elas viam em recipientes  sendo vendido nos supermercados, era um produto fabricado pelo homem, tal como a Coca-Cola.

Os seres  humanos modernos não estão mais acostumados a viver na natureza: só conhecem a cidade. Eu também  gostaria de assinalar que ao sair de férias, a maioria deles se hospeda no que o antropólogo  Marc Augé definiu como “não lugares”: espaços de circulação, consumo e comunicação  homogeneizados. As vilas dos resorts são impressionantemente parecidas, digamos, ao aeroporto  de Cingapura – cada um deles com uma natureza perfeitamente ordenada e limpa, árcade, totalmente  artificial.

Estamos no meio de uma das maiores revoluções antropológicas desde a Era Neolítica.  As crianças de hoje vivem em um mundo superpovoado, com uma expectativa de vida próxima dos 80  anos. E, por causa da crescente longevidade das gerações de seus pais e avós, têm menos  probabilidade de receber as suas heranças antes que estejam à beira da velhice. Uma pessoa nascida na Europa nos últimos 60 anos não conheceu a guerra. E, tendo se beneficiado  dos avanços da medicina, não sofreu tanto quanto seus antepassados. A geração de seus pais teve  filhos quando tinham mais idade do que a geração de meus pais teve. E seus pais, muito  possivelmente estão divorciados. Na escola, estudou ao lado de crianças de outras cores,  religiões e costumes.

Isso levou Serres a se perguntar quanto tempo mais os estudantes da França  cantarão a Marselhesa, que contém uma referência ao “sangue impuro” dos estrangeiros. Que obras essa pessoa pode desfrutar? E com quais ela consegue estabelecer uma conexão, já que  nunca conheceram a vida rústica, a vindima das uvas, as invasões militares, os monumentos aos  mortos, os estandartes perfurados por  balas inimigas ou a urgência vital da moralidade?  Seu pensamento foi formado por meios de comunicação que reduzem a permanência de um fato a uma  pequena frase e a imagens fugazes – fiéis ao senso comum dos lapsos de atenção de sete segundos – lembrando que as respostas dos programas de perguntas devem ser dadas em 15 segundos. E esses meios de comunicação lhe mostram coisas que não veria em sua vida cotidiana: corpos ensanguentados,  ruínas, devastação. “Ao chegar aos 12 anos de idade, os adultos já forçaram as crianças a serem  testemunhas de 20 mil assassinatos”, escreve Serres.  As crianças atuais são criadas com publicidades repletas de abreviações e palavras estrangeiras  que as fazem perder contato com sua língua materna.

A escola já não é mais um lugar de  aprendizado e, acostumadas aos computadores, elas vivem uma boa parte de sua existência no mundo  virtual. Ao escrever em seus aparelhos eletrônicos usam seus dedos indicadores ou polegares em  vez da mão toda. (E, além disso, estão totalmente consumidas pelo afã de desenvolver várias  tarefas ao mesmo tempo). Elas ficam sentadas, hipnotizadas pelo Facebook e pela Wikipedia, que, segundo Ferres, “não  estimulam os mesmos neurônios nem as mesmas zonas do córtex (cerebral)” que se estivessem lendo  um livro. Antes, os seres humanos viviam em um mundo conhecível, tangível. Esta geração existe em  um espaço virtual, que não estabelece distinção entre proximidade e distância.

Não comentarei as reflexões de Serres sobre como manejar as  novas demandas de educação. Mas sua  observação geral do tema engloba um período de revolução total não menos essencial que as eras  que levaram à invenção da escrita e, séculos depois, da imprensa. O problema é que a  tecnologia moderna muda a uma velocidade louca, escreve Serres, e “ao mesmo tempo o corpo se  transfigurou, o nascimento e a morte mudaram, bem como o sofrimento e a cura, as vocações, o  espaço, o meio ambiente e o estar no mundo”.

Por que não estávamos preparados para essa revolução? Serres chega à conclusão que talvez parte  da culpa deva ser atribuída aos filósofos, que, por natureza de sua profissão, deveriam prever  mudanças no conhecimento e na prática. E não fizeram o suficiente nesse sentido porque, como  estavam “envolvidos na política diariamente, não sentiram a chegada da contemporaneidade”.  Não sei se Serres está completamente certo, mas com certeza não está totalmente errado.

FONTE: Tribuna da Internet

roteiro para o kit antirracista

junho 6, 2011 às 9:42 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , ,

 

LITERATURA PORTUGUESA IV – 2011.1
ATIVIDADE FINAL: ELABORAÇÃO DE UM KIT ANTIRRACISMO
Trabalho em dupla
Entrega: 11/07/2011

INTRODUÇÃO:
Por que é importante discutir, em particular no âmbito da formação escolar contemporânea, a questão racial brasileira e nossas matrizes culturais africanas? (mínimo de 60 linhas)

TEXTOS PARA DISCUSSÃO:
•    Selecionar e transcrever uma canção e dois poemas de autores lusófonos, a partir dos quais seja possível desenvolver questões relacionadas à representação do racismo ou das identidades raciais. Justificar as escolhas (10-20 linhas).

•    Selecionar e transcrever uma matéria jornalística ou artigo de opinião no qual sejam abordadas e analisadas questões relacionadas ao racismo brasileiro, ou aos problemas enfrentados pelas identidades “não-brancas” no Brasil ou em outros países lusófonos (10-20 linhas).

OUTRAS SUGESTÕES (opcional):
Indicação de textos teóricos, filmes, sites e obras artísticas que contribuam para uma melhor compreensão dos temas abordados nos objetos selecionados.

Recomendamos visitar, neste blogue, as postagens “literatura e educação afro-brasileiras: alguns pontos cardeais”, “antologia de poesia do negro” e “pós-colonialismo & negritude em língua portuguesa”, tendo em vista acessar fontes primárias de pesquisa.

paradoxos do individualismo moderno

novembro 21, 2010 às 22:06 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

individualismo1

Conforme tem sido insistententemente colocado ao longo de nosso curso na LitPort3, a discussão da representação dos descentramentos modernos na poesia de Fernando Pessoa desenvolve-se de maneira mais produtiva, tanto no âmbito teórico quanto pedagógico, quando é diretamente articulada aos problemas psicossociais que marcam a nossa contemporaneidade, tal como é sugerido pela “transcrição mixada” do artigo a seguir:

 

A subjetividade humana na sociedade de indivíduos. Entrevista especial com Benilton Bezerra

Na manhã do terceiro dia do Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? Uma platéia atenta assistiu à conferência O futuro da autonomia e a construção de uma sociedade de indivíduos. Uma leitura psicanalítica, conduzida pelo professor Benilton Bezerra Jr., da UERJ. Em sua brilhante explanação, Bezerra falou sobre o impacto da autonomia e do individualismo na subjetividade humana. Para ele, nós vivemos, hoje, uma situação paradoxal. “Livramo-nos da pressão da tradição, no desejo de sermos autônomos. Afirmamo-nos como indivíduos quando colocamos a tradição em segundo plano”. No entanto, paradoxalmente, “somos escravos de modelos que nos ensinam como devemos agir para sermos indivíduos mais auto-suficientes e vencedores em nossas atividades diárias”. “Ser indivíduo é seguir um modelo que nos é imposto”, explica o palestrante, ao constatar que hoje o individualismo vive uma exacerbação, uma vez que a modernidade inventou que cada sujeito se constrói a si próprio.

DEPUS A MÁSCARA E VI-ME AO ESPELHO. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.

[Álvaro de Campos]

Ao abordar o tema do Simpósio em geral, Bezerra esclareceu que a autonomia é uma das facetas do individualismo. “Ela nos transformou em autônomos de forma que tudo na vida se torna opção individual. Paradoxalmente, nunca uma cultura teve tão forte a experiência da desassistência. Há sempre um expert em tudo. Nossa existência se tornou banalidade.”

O “Terceiro” indivíduo, o elemento poderoso em nossa vida, que tinha um poder inquestionável, tornou-se “líquido”, utilizando a terminologia de Zygmunt Baumann. “E é isso o que possibilita a exacerbação da autonomia. Desaparece o impossível, a noção do limite. Hoje o assombro diante das coisas é cada vez menor”, esclarece o professor da UERJ.

Ao descrever a sociedade da imagem, Benilton Bezerra afirmou que “hoje importa muito mais parecer ser alguma coisa. Vivemos na sociedade da imagem, do espetáculo, da exibição. Temos que estar sempre sorrindo, sempre felizes, sempre bem, passando essa imagem de bem-estar e felicidade”.

SÁBIO É O QUE SE CONTENTA COM O ESPETÁCULO DO MUNDO,
                E ao beber nem recorda
                Que já bebeu na vida,
                Para quem tudo e novo
                E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúveis,
                Ele sabe que a vida
                Passa por ele e tanto
                Corta a flor como a ele
                De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
                Que o seu sabor orgíaco
                Apague o gosto às horas,
                Como a uma voz chorando
                O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
                E apenas desejando
                Num desejo mal tido
                Que a abominável onda
                O não molhe tão cedo.

[Ricardo Reis]

O professor explicou também o conceito de subjetividade somática, pelo qual cada vez mais tendemos em radicar em nosso corpo a nossa individualidade. “Vemos uma proliferação de modificações corporais. Esse fenômeno cultural mostra a necessidade do ser humano de ser singular.” Outro conceito importante trazido pelo professor Benilton Bezerra Jr. é o da cultura do sujeito cerebral, que está emergindo em nossos dias. “Tendemos a pensar nossa subjetividade orientada pelo cérebro, que passa a ser o sujeito de nossas ações”.

Confira, a seguir, uma entrevista especial realizada pela redação da IHU On-Line com o professor Benilton, logo após sua conferência no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?

IHU On-Line – O senhor pode descrever um pouco a situação paradoxal em que vivem os indivíduos da sociedade contemporânea?

Benilton Bezerra Jr. – Esse paradoxo pode ser descrito de duas maneiras. Uma primeira em relação ao individualismo e uma segunda em relação à autonomia. Em relação ao individualismo, o paradoxo consiste no fato de que o valor do indivíduo e do individualismo surgir no momento em que as pessoas começaram a se desvencilhar das marcas e das determinações da tradição, da religião, da família. O indivíduo propriamente dito surge na modernidade, como alguém que se funda, se constitui a si próprio na sua trajetória pessoal durante a vida. Você faz aquilo em que irá se reconhecer como sendo seu. Na origem, o individualismo é uma tomada de posição, uma abertura de possibilidade para que o sujeito confronte a tradição, a determinação. O paradoxal hoje é que isso, que antes era algo subversivo em relação à realidade social prévia, virou a norma, a ideologia dominante. Todo mundo precisa ser indivíduo e ser singular. É uma obrigação, não é mais uma conquista. Com isso, temos essa situação paradoxal de que o indivíduo que se constituiria por contraste à tradição é agora instado a se construir conforme a tradição do individualismo. Trocamos uma servidão por outra. A diferença é que, antigamente, você era filiado inequivocamente a coisas que tinham uma dimensão simbólica muito mais ampla. Hoje em dia, esse individualismo não se constrói pela adesão a algum valor mais alto. Não são ideais; são modelos. Não são princípios em relação aos quais você se mede; são modelos que você tem que repetir.

Do lado da autonomia, o paradoxo consiste no fato de que, com o desenvolvimento do individualismo e da radicalidade da crítica moderna a todas as determinações sobre os indivíduos, hoje em dia, vivemos uma cultura na qual, de fato, as pessoas se sentem cada vez menos submetidas, de maneira superior a sua vontade, a princípios, normas, valores, etiquetas e ideais. Todos nós somos mais autônomos do que nunca para fazermos as nossas escolhas. Tudo depende das escolhas que fazemos. Isso aparentemente faz com que devêssemos nos sentir mais autônomos, mais capazes de decidir. Mas curiosamente – aí é que está o paradoxo – numa cultura onde todo mundo é autônomo, a grande parte das pessoas se sente desassistida, precisando da assistência de alguém que diga o que deve fazer, qual é a escolha certa. Aí entram os experts em tudo, com o “discurso competente”, que explicam à mãe se ela deve ou não dar comida de sal “na marra”, ou se deixa o filho escolher, explicam que tipo de roupa é adequada para suas pretensões sociais, que tipo de música se deve escutar. Isso causa uma espécie de enfraquecimento de algo fundamental na vida de todo mundo que é a possibilidade de sentir a marca pessoal nas escolhas.  Nós nos sentimos instados por uma força anônima, que nos conduz a querer fazer as coisas certas, adequadas.

IHU On-Line – O que caracteriza a exacerbação do individualismo e quais as conseqüências disso para a subjetividade dos indivíduos?

Benilton Bezerra Jr. – Esse fenômeno tem a ver com o fato de o indivíduo dispensar qualquer referência a um estatuto simbólico de uma força transcendente, da política, ou da religião. O sujeito tenta acreditar que pode viver plenamente no plano puro da imanência do cotidiano, das escolhas feitas a cada momento. Essa exacerbação tem um efeito muito importante entre muitos: é o fato de que isso modificou bastante os nossos ideais de felicidade, de realização pessoal. O que antes – na modernidade e na pré-modernidade – era medido com a referência a certos padrões e expectativas vinculadas a itens simbólicos, hoje está cada vez mais vinculado à posse, à conquista e à fruição de objetos. Esse individualismo levado ao extremo faz com que o sujeito se veja sempre numa espécie de luta incessante para poder se reafirmar, não pela filiação a algo maior do que ele, mas pela posse contínua de bens que têm uma insígnia fálica, com uma obsolescência social e psicológica muito rápida. Você compra qualquer coisa e aquilo, em pouco tempo, está obsoleto. É a busca por qualquer coisa que nos dê socialmente a imagem de sucesso. Por isso, essa adesão frenética a dietas e todo esse cultivo do corpo.

TENS VONTADE DE COMPRAR
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – O senhor fala em uma outra forma de sociabilidade humana. Como seria essa nova sociabilidade, essa outra forma do ser humano?

Benilton Bezerra Jr. – Um dos traços dessa nova sociabilidade é a importância cada vez maior concedida à corporeidade, à dimensão somática da existência pessoal, nas trocas entre as pessoas. Por exemplo, a questão da imagem do corpo vem sendo cada vez mais importante em detrimento das características psicológicas e dos valores. É a moralização crescente dos atributos físicos. Outro traço dessa nova sociabilidade é o que alguns autores chamam de biosociabilidade: o fato de que, nessa mesma esteira da importância do corpo, temos a construção de identidades a partir de itens que são referidos ao corpo. Outro aspecto dessa nova forma de subjetivação é o lugar dos objetos na vida do sujeito em relação a si próprio e em relação ao outro. Os objetos passam a ser uma parte importante da construção da própria identidade. E também numa sociedade e numa cultura onde todos estão numa luta incessante pela posse de objetos que não são para todos, o outro passa, cada vez menos, a ser visto como semelhante e cada vez mais a ser, das duas, uma: ou um espelho, no qual eu fico me reconhecendo, ou um rival, que disputa comigo a posse daqueles bens que são escassos.

IHU On-Line – Qual é o futuro de uma sociedade assim?

Benilton Bezerra Jr. – Não podemos dizer, porque acontecem mudanças na história que são imprevisíveis. Ninguém previu a queda do muro de Berlim em 1989. Ela precipitou mudanças, da mesma forma que ninguém previu a invenção da internet e ela está mudando também a nossa vida social. O que podemos dizer é que, quaisquer que sejam as mudanças profundas que aconteçam, nós podemos, pelo menos, apostar na idéia de reconquistar a atividade política no sentido mais amplo da palavra: a política entendida como o engajamento na reflexão e na ação que visa a construção de existências pessoais e coletivas mais desejáveis no futuro. É o exercício de imaginar cenários mais desejáveis no futuro do que o presente, tanto no plano pessoal quanto no plano coletivo.   

IHU On-Line – Onde fica, nessa sociedade individualista, a solidariedade, a fraternidade e os valores cristãos?

Benilton Bezerra Jr. – O que pode alavancar uma ação que permita o pensamento crítico e o uso consensuado das tecnologias é a presença, no imaginário social e na prática subjetiva, de certos valores que transcendem esse plano da imanência do uso dos objetos, da fruição, das sensações. Esse é o desafio não só do cristianismo, mas do budismo e do pensamento político laico, que também perdeu suas referências. A grande política, a política laica, mesmo atéia do século XVIII para cá, é herdeira dessa transcendência religiosa. O cristianismo foi o primeiro movimento humano a inventar essa idéia de que todos são iguais. E isso está na base do pensamento democrático. O desafio do cristianismo hoje é conseguir estar à altura desse tipo de questão e como responder a esse desafio mantendo algum equilíbrio com a necessidade de auto-preservação da instituição Igreja, com suas regras.  

IHU On-Line – Se não são mais os mesmos ideais e sonhos que unem os seres humanos, o que nos une e faz de nós seres iguais?

Benilton Bezerra Jr. – A verdade verdadeira é que nós não somos iguais. Somos todos muito diferentes.

IHU On-Line – Então, hoje o que assemelha os seres humanos é a preocupação com os próprios interesses individuais?

Benilton Bezerra Jr. – É, o que torna todo mundo incapaz de compartilhar de horizontes coletivos. O que pode reabrir a possibilidade de compartilharmos horizontes coletivos é, por exemplo, a salvação do Planeta. De fato, nunca houve antes o reconhecimento de que, ou agimos em comunhão para salvar a Terra, ou vamos acabar com ela. Isso é recente. Não é papo de “verde”, de um grupelho de pessoas. É uma questão fundamental, pois está no centro da possibilidade da gente prosseguir vivendo.   

IHU On-Line – O senhor poderia explicar a cultura do sujeito cerebral? Qual sua relação com a subjetividade humana?

Benilton Bezerra Jr. – O termo “sujeito cerebral” foi criado por um colega do Instituto Max Planck, de Berlim, Fernando Vidal. Aparece também sob outras designações, como “homem cerebral” e “homem neuronal”. São várias formas de apontar para uma realidade antropológica, que é essa em que, cada vez mais, as pessoas vão identificando-se com o próprio cérebro. Ou seja, o cérebro vai se tornando não apenas um órgão corporal. Ele passa a ser pensado e sentido como a sede da nossa identidade. Eu não sou mais uma pessoa que tem um cérebro. Eu sou um cérebro que me faz pela experiência de ser uma pessoa. Isso se expressa em várias dimensões. Há uma dimensão teórica que tenta fazer do cérebro o denominador comum dos fenômenos mentais, sociais, antropológicos, etc. O cérebro passa a ser uma espécie de personagem, um ator social. O que atribuíamos ao sujeito, passa a ser atribuído ao cérebro. De forma prática, isso se expressa pela quantidade cada vez maior de intervenções biológicas na subjetividade, sobretudo medicações, e também com a introdução de novas tecnologias de intervenção.  

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho à Virgílio, à Milton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)…
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um acto indefinido nem factício…

Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?

(continua)

[Álvaro de Campos. APOSTILA]

IHU On-Line – Como o senhor avalia os temas discutidos no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?

Benilton Bezerra Jr. – Esse é o tipo de iniciativa que precisa ser reduplicada e difundida ao máximo. É disso que sentimos falta: poder juntar essas pessoas para discutir questões comuns e que transcendem às competências específicas de cada grupo.

FONTE: IHU Online, 25/5/2007

fernando_pessoa3

LitPort I, avaliação 1

setembro 10, 2010 às 11:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , ,

3raças_Winton-graffiti

Entrega: quarta-feira, 22/09

Apresente um texto poético, de autoria portuguesa (preferencialmente) ou brasileira, no qual sejam tematizadas matrizes e tradições culturais lusitanas, ou as relações entre estas e os traços identitários brasileiros. A apresentação deve incluir: transcrição integral do texto; resumo do tema da obra e de suas características formais; indicação de fonte bibliográfica. Comente o texto selecionado (30 linhas) levando em consideração as duas citações transcritas abaixo:

A) Como é contada a narrativa da cultura nacional? (…) Em primeiro lugar, há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem uma série de estórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação. Como membros de tal “comunidade imaginada”, nos vemos, no olho de nossa mente, como compartilhando dessa narrativa. (HALL, p. 51-52)

B) Como tornar o Brasil um país moderno se somos produtos de uma tradição que complica nosso acesso à modernidade? (GOMES, p. 2)

LitPort III, avaliação 1

setembro 10, 2010 às 10:45 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

Mirror_MAGRITTE

 

Entrega: sexta-feira, 29/09

Selecione um poema da obra de Fernando Pessoa e analise-o destacando temas e procedimentos através dos quais sejam nele produzidas representações da subjetividade e dos descentramentos modernos. Escolha pelo menos uma das citações transcritas abaixo para ser diretamente articulada à sua análise do poema.

A) “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza”. (MERCER apud HALL, p. 9)

B) Desde o simbolismo, e acentuando-se com os modernismos, a subjetividade tem vindo a ser entendida como a possibilidade que o escritor tem de interpretar a vida e o mundo enquanto idioleto de autor, visto que os aspectos subjetivos do texto literário já não dizem respeito apenas à vontade, ao entendimento e à razão de um indivíduo, o autor. (CABRAL, p. 2)

reiniciando: 2010.II

agosto 19, 2010 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , ,

reiniciar

D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

9-2-1934

[Fernando PESSOA.In: Mensagem

Com o poema acima, no qual se entrecruzam duas importantes figuras literárias e históricas portuguesas das quais muito falaremos nas próximas semanas, o rei-poeta D. Dinis e o poeta-rei Fernando Pessoa, o blogue LUSOLEITURAS dá as boas-vindas aos estudantes matriculados este semestre nos cursos de Literatura Portuguesa 1 e Literatura Portuguesa 3 oferecidos pelo Departamento de Letras da UFS-Itabaiana. Como já foi afirmado presencialmente, este espaço virtual propõe-se a ser uma continuidade de nosso trabalho em sala de aula, principalmente um lugar de referência para as necessárias pesquisas, leituras e diálogos que dinamizam a evolução de nossos saberes e competências no estudo das literaturas de língua portuguesa. Estudo que, metaforicamente, também define para todos nós um “oceano por achar” e desbravar, tendo em vista o aprimoramento de nossas competências como intérpretes e criadores de ideias e textos.

Para ambos os cursos, nosso texto teórico de referência é o cada vez mais famoso A identidade cultural na pós-modernidade, obra de divulgação de conceitos básicos dos estudos culturais contemporâneos assinada pelo crítico jamaico-britânico Stuart Hall. Justamente por se tratar de um texto com tão importante repercussão entre as mais diversas disciplinas da área das ciências humanas e das artes, é mais do que recomendável a leitura integral do livro, embora nossa discussão se concentre nos capítulos I e III, na LitPort1, e I e II, na LitPort3.  Além dos muitos exemplares existentes na biblioteca e das cópias disponíveis na xerox do campus, uma versão eletrônica integral pode ser baixada da riquíssima biblioteca on line do curso de Letras da Universidade de São Paulo.

Para @s estudantes da LitPort1, a leitura de Hall deve ser, de imediato, diretamente articulada com a do artigo de Renato Gomes Que faremos com esta tradição? Ou: relíquias da Casa Velha (clique ao lado para lê-lo no site da revista Semear), texto que apresenta alguns parâmetros fundamentais para a problematização de referentes e produtos culturais portugueses. Aos estudantes da LitPort3, recomendamos que as descrições de Stuart Hall sobre as configurações assumidas pelas subjetividades modernas sejam desde já acompanhadas pela leitura da obra diversificada de Pessoa, facilmente acessível através do ARQUIVO PESSOA. Novamente, boas vindas e bom trabalho.

SELEÇÃO DE VOLUNTÁRIOS PARA INICIAÇÃO CIENTÍFICA

julho 15, 2010 às 23:53 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , ,

ProjetoUFS color2

Projeto PICVOL 2010-2011

LEITURAS TRIANGULARES:

memória colonial, mestiçagem e relações étnicorraciais em literaturas lusófonas

Requisitos:

· interesse por um estudo culturalista das literaturas brasileira, portuguesa e angolana;

· MUITA disposição para a leitura de textos ficcionais e teóricos!

· estar regularmente matriculado em curso de graduação da UFS e ter média geral ponderada (MGP) maior ou igual a 7,0;

· não possuir outro tipo de atividade (a exemplo de estágio e monitoria) na UFS, nem estar recebendo outra modalidade de bolsa

COORDENADOR: Prof. Jesiel Oliveira (Departamento de Letras de Itabaiana)

Candidat(as)os devem marcar entrevista enviando um email para jesielf@yahoo.com.br até o dia 19/07. Da mensagem deverá constar uma breve apresentação justificando o interesse nesta pesquisa. Para maiores informações sobre o projeto, clique AQUI.

“Jornada de África”: um roteiro de leitura

julho 2, 2010 às 1:31 | Publicado em Uncategorized | 3 Comentários
Tags: , , , , , ,

jornada de africa_alegre      manuel_alegre1       jornada jeronimo

Muitos são os tempos, os espaços e as possibilidades interpretativas que se entrecruzam no romance de Manuel Alegre que esteve em foco durante o curso de Literatura Portuguesa IV deste semestre. Tal como sugere-se desde a titulação desta obra, que dialoga intertextualmente com a crônica sobre a batalha do Alcácer-Quibir publicada por Jerônimo de Mendonça em 1607 (clique no link à esquerda para saber mais), a reconstrução ficcional do cenário da guerra independentista angolana serve para mobilizar um amplo trabalho de revisão crítica do passado — ou de  anamnese, nos termos de Margarida Calafate Ribeiro –- cujo foco são as relações entre os resultados políticos e culturais do colonialismo português e o fracasso do ideal civilizacional que serviu de legitimador para os “descobrimentos” e para a expansão imperial lusitana. No desenrolar do enredo do romance, esse trabalho anamnésico é dinamizado pelo entrelaçamento entre representações simultaneístas de lugares e de memórias históricas, formações discursivas polifônicas e reflexões metaliterárias, constituindo um painel no qual os percursos trilhados pelo alferes Sebastião também abrem questionamentos cruciais sobre a identidade nacional portuguesa, conforme sintetiza Ribeiro:

Ao longo destes primeiros contatos com o mundo da Guerra Colonial a escrita da história presente de Sebastião vai sendo feita com elementos que sucessivamente o descentram e simultaneamente se cruzam com fragmentos de uma história colectiva presente e passada, cujos sinais Sebastião vai decifrando até compor um puzzle que vai identificando esse tempo ambíguo e absurdo com o tempo do malogrado desastre do Alcácer-Quibir. Desde a partida que Sebastião estava inquieto com esses elementos do passado que entravam no seu presente como se a ele pertencessem: são os nomes de seus companheiros, as viagens, os desembarques, os discursos manipulados com resquíscios de guerra santa na reunião de oficiais, o ritmo da guerra ou as ‘misteriosas coincidências’ que vão tornando a sua história não uma história actual, mas a reescrita de uma história onde o passado permanentemente se presentifica e em que a perda do reino por Sebastião-rei é transferida para uma perda de si mesmo (RIBEIRO, Uma história de regressos, p.349).  

No MUJIMBO, blogue afro-irmão do LUSOLEITURAS, estão disponíveis mais informações sobre este enigmático romance e os variados contexto que através dele se articulam, dê um saltinho lá clicando AQUI, ou AQUI, ou AQUI, ou AQUI… Boa jornada!! No prosseguimento da leitura do romance, atentar para os capítulos que estão destacados na lista abaixo, capítulos nos quais a reflexão literária empreendida por Manuel Alegre alcança seus momentos mais intensamente significativos.   

 

capítulo 1: INTRODUÇÃO      {“Não ao escrever-se desvivendo”}

capítulo 2: TRAVESSIA ATLÂNTICA / ENCONTRO COM BÁRBARA      {“Há muito que a tribo não tem senão uma vida vidinha”}

capítulo 3: CHEGADA EM ANGOLA / MORTE DE LEANDRO

capítulo 4: LUTO POR LEANDRO       {“É preciso ser contra isto para ser por isto”}

capítulo 5: RETRATOS DA GUERRA

capítulo 6: ENCONTRO COM O COMANDANTE

capítulo 7: ENCONTRO COM OS CENTURIÕES / DEBATE SOBRE O ALFERES ROBLES

capítulo 8: AULA DO CAPITÃO GARCIA / DISCURSO LUSOTROPICAL      {“Há sempre um homem de fé para nos livrar das penas do inferno. Mesmo que por vezes tenha de nos queimar o corpo”}

capítulo 9: A REPRESSÃO EM PORTUGAL / ENCONTRO COM O ESCRITOR      {“Sou um sebastianista do avesso”… “quem não Alcácer, não alcança”}

capítulo 10: A MORTAL ROTINA DA GUERRA

capítulo 11: NOTICIÁRIO COLONIAL

capítulo 12: A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR      {“Ir à guerra ou não ir, eis a questão. O social sobrepõe-se ao individual”}

capítulo 13: O ESCRITOR E O CORONEL

capítulo 14: LÁZARO EM ANGOLA

capítulo 15: ENCONTRO COM MALDONADO / AS MENSAGENS DE PANZO DA GLÓRIA      {“A guerra não existe, um dia vais ver que nunca existiu”}

capítulo 16: SEBASTIANISMO E ANTI-SEBASTIANISMO / MORTE DE MALDONADO      {“se te chamas Sebastião não te esqueças que és um Sebastião anti-sebastianista e anticolonialista”}

capítulo 17: A EMBOSCADA DE DOMINGOS DA LUTA

capítulo 18: NOTICIÁRIO COLONIAL

capítulo 19 : A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR

capítulo 20 : A MORTAL ROTINA DA GUERRA

capítulo 21: REENCONTRO COM BÁRBARA / AMORES LUSOTROPICAIS      {“A nossa cultura é uma cultura de mestiçagem”… “Aquela cativa que me tem cativo”}

capítulo 22: AMPUTAÇÃO DE JORGE DE ALBUQUERQUE / CONFISSÕES DE BÁRBARA

capítulo 23: PARTIDA DE SEBASTIÃO

capítulo 24: SEBASTIÃO EM NAMBUANGONGO

capítulo 25: SEBASTIÃO X DOMINGO DA LUTA      {“Trinta e Nove sempre a fazer perguntas, Domingos sem paciência para lhe responder, está farto de lhe explicar que o inimigo não é o branco, a cor da pele não interessa, o inimigo é o colonialismo, Trinta e Nove quer saber a cor que tem o colonialismo”}

capítulo 26: HORRORES DA GUERRA COLONIAL / CARTA DE BÁRBARA / IDENTIDADES DIVIDIDAS      {“Assim, ao longo dos séculos, o objectivo da política de integração multurracial tem consistido em reger, a partir de sofismas, as relações entre grupos étnicos e sociais em conflito”}

capítulo 27: HORRORES DA GUERRA COLONIAL: A ORELHA CORTADA

capítulo 28: SEBASTIÃO INDIGNADO

capítulo 29: A REPRESSÃO EM ANGOLA

capítulo 30: A CONSPIRAÇÃO DE ALCÁCER-QUIBIR

capítulo 31: QUESTIONAMENTOS NACIONALISTAS      {“o racismo de muita gente que se desforra aqui das frustrações vividas em Portugal, qualquer analfabeto branco sente-se superior a um preto licenciado”}

capítulo 32: BÁRBARA EM PARIS      {“Tenho dono”}

capítulo 33: REENCONTRO COM O POETA      {“Portugal fez-se para fora, não sei se conseguirá regressar, ou melhor, não sei se voltará, se é que se pode voltar de uma viagem assim”… “Talvez o Quinto Império seja afinal o fim de todos os impérios. O Grande Império do Avesso, o Anti-Império”}

capítulo 34: BÁRBARA EM PARIS

capítulo 35 : SEBASTIÃO x DOMINGOS DA LUTA: O ENCONTRO FINAL      {“Ele é que já não faz o que a escrita quer. Talvez seja a guerra tão pouco programada e tão imprevisível”}

panfleto anticolonial(panfleto do movimento anti-colonial português)

d sebastiao 

(D. Sebastião)

o Brasil como nação luso-africana: sincretismos & assimetrias

abril 4, 2010 às 1:01 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , ,

rotas afrolusobras2

As versões tradicionais acerca da formação identitária brasileira tendem a realçar o protagonismo dos portugueses e a posição hegemônica alcançada pela cultura desse povo durante o período colonial, a qual acaba por se sobrepor aos valores das diversas sociedades indígenas nativas do território, definindo assim uma matriz ibérica, ou lusitana, para a cultura brasileira, matriz cujas principais e duradouras influências se manifestam na língua, na religião e nos modelos políticos que organizam a sociedade. Apesar da atitude “amnésica” que a maioria dos brasileiros mantém com relação às heranças lusitanas, elas de fato são bastante profundas, sendo interessante, ou perturbante, observar como essas heranças foram abrasileiradas e são hoje imaginadas como invenção original nossa. Dê um salto no MUJIMBO e confira alguns elementos básicos da cultura portuguesa, procurando refletir sobre a maneira como esses elementos se reinserem e são ressignificados nas práticas e ideários do povo brasileiro.

A realidade, entretanto, sempre foi mais complexa, ou mais sincrética, do que as definições oficiais acerca da história cultural do Brasil. Desde os primeiros momentos da construção colonial, também constitui-se uma matriz africana para a futura brasilidade, forjada pelos aportes diversificados de saberes, artes, linguagens e sentimentos trazidos pelos milhões de africanos para cá transplantados à força, e que aqui se refazem identitariamente, entrecruzando seus referentes aos europeus e ameríndios. No ensaio “O colono preto como fator da civilização brasileira”, trabalho pioneiro do pesquisador baiano Manoel Querino, começa-se o desmonte dos esforços da historiografia oficial para apagar o papel do negro africano como co-colonizador do Brasil, abrindo caminhos que encontrarão uma decisiva síntese intelectual e ideológica no livro Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, obra que pode ser considerada como um texto fundador do imaginário moderno sobre a mestiçagem afro-luso-brasileira. Persiste nela, entretanto, uma perspectiva domesticadora para o valor das heranças africanas, tidas como complementares às matrizes portuguesas, e de restritas funções civilizacionais.

A partir do discurso luso-tropicalista freyriano, consolidou-se uma imagem identitária brasileira na qual os elementos culturais africanos adquirem positividade na medida em que se restrinjam a influenciar apenas alguns setores da vida, tais como as relações sentimentais e sexuais, o misticismo religioso, os costumes cotidianos e as artes e festas populares. Em sua dimensão sociológica, esse sistema possibilita aos sujeitos afrodescendentes integrarem-se aparentemente sem discriminação, e mesmo usufruindo de altos graus de intimidade em seus convívios com os sujeitos europeizados, desde que não contestem a hierarquia civilizacional vigente e reproduzam os “bons” estereótipos, como o do negro trabalhador e humilde, da mulata sensual e “alisada”, da criada devotada e submissa, do “negão” companheiro e esportista. Essas formas parciais e simbólicas de integração, no entanto, não impediram que gravíssimas assimetrias sócio-econômicas se instalassem entre os segmentos mais claros e mais escuros da população brasileira, conforme repetidas pesquisas têm demonstrado, apontando mesmo para diferenças entre a qualidade de vida desses grupos mais acentuadas do que as produzidas por sistemas discriminatórios explícitos, como o apartheid sul-africano. 

olhares negros

 

 

 

 

Esse complexo processo transculturador, ou hibridizante, foi às vezes metaforizado como um “cadinho de raças”, do qual resultou, por uma espécie de fusão bio-cultural, o tipo que chamamos de “moreno”, tido como correspondente à manifestação mais completa, ou harmônica, ou objetiva do sujeito brasileiro. Nas interações sociais efetivas, contudo, a morenidade representa um tipo de “brancura tropical”, cujos modelos estéticos, psicológicos e culturais estruturam-se de acordo com padrões eurocêntricos, dinâmica simbólica que termina por naturalizar as situações de exclusão, de sub-cidadania e de super-exposição à violência que afligem à população afrodescendente.

exterminio juv negra

Entre a assimilação controlada e a purgação desejável, as imagens da africanidade e da negrura encontram-se quase sempre rasuradas ou marcadas por conotações negativas, primitivistas e animalizantes, como discute a professora e pesquisadora de literatura afro-brasileira Maria Nazareth Fonseca em um dos seus ensaios. Quais relações podem ser estabelecidas entre as formas de negociação das heranças africanas no imaginário brasileiro e o conceito de “imaginação do centro” proposto por Margarida Calafate Ribeiro para a discussão dos processos configuradores da identidade portuguesa? 

as linguagens de Pessoa & as diferenças linguísticas luso-brasileiras

novembro 19, 2009 às 17:45 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

 

estas a percber2

Segue abaixo um interessante artigo que tanto aprofunda algumas das questões discutidas na última aula da LitPort 3 sobre a poética pessoana, especificando procedimentos linguísticos que a caracterizam, quanto levanta questões muito úteis para a reflexão que estamos desenvolvendo na LitPort 1 acerca dos intercâmbios e desencontros identitários entre Brasil e Portugal. De quebra, clicando na imagem acima você pode visitar o blogue ESTÁS A PERCEBER? e acessar um ótimo glossário que explicita as grandes diferenças lexicais e semânticas entre o português da terra de Fernando Pessoa e a língua que falamos aqui no Brasil.   

O acordo ortográfico e a saudade de nós mesmos

Heron Moura

O recente acordo ortográfico com os países de língua portuguesa despertou sensações já adormecidas em relação a Portugal. A reforma é percebida como algo que vai aproximar o Brasil do país que nos colonizou; mudanças de ortografia são vistas como um meio de superar o oceano que nos separa (curiosamente, uma mesma sensação não se impõe em relação aos países africanos de fala portuguesa).

Há um sentimento disperso de que algo que se perdeu no passado pode de novo ser encontrado – uma identidade luso-brasileira. Muitas pessoas crêem firmemente que, com o acordo, o português de Portugal vai ficar mais parecido com o português que se fala aqui – como se as letras e os acentos tivessem um estranho poder sobre a articulação das palavras.
É um sonho de volta às origens, de recuperação de uma identidade perdida. Perdemos o trema, mas em compensação o nosso pai, Portugal, está mais próximo de nós. Toda essa emoção não revela também o desejo de dominar o nosso pai, controlando a sua forma de falar?

Na verdade, a reforma ortográfica é um fato político, e não um acontecimento lingüístico. As diferentes línguas (do Brasil, de Portugal e dos países africanos que falam o português) continuarão seus caminhos distintos. Em especial, o português de Portugal soará cada vez mais estranho para nós, brasileiros. A nossa língua, o português do Brasil, evolui num sentido diferente do português europeu. A gramática deles não é a nossa, o léxico muda muito, a forma de articular as palavras é diferente. Ainda nos compreendemos mutuamente, é claro, mas não é certo que essa inter-comunicação possa durar para sempre. Temos que aceitar essa perda de identidade; o Brasil é suficientemente adulto para não precisar de pai. Fica o afeto, mas já acabou a identificação. Portugal é um importante aliado político, mas isso basta.

Nossa separação de Portugal é intensa, profunda. Por exemplo, a literatura produzida aqui é radicalmente diferente da produzida lá. E isso não apenas em função de valores culturais e estéticos discrepantes. A poesia da língua é diferente.

A literatura que se faz lá explora recursos lingüísticos distintos do que exploramos aqui. Quem aprecia a literatura portuguesa o faz percebendo a diferença lingüística da que se faz no Brasil. A poesia da língua é outra.

Mas a literatura tem o poder de evocar uma identidade subliminar, secreta. Ao ler uma frase literária de um bom autor português, sentimos saudades de nós mesmos. Lamento que toda essa celeuma em torno da reforma ortográfica não tenha tocado na questão da identidade literária de nossos países.

Nunca nenhum escritor brasileiro jamais poderia ter escrito como Fernando Pessoa. Não por razões espirituais ou culturais, mas simplesmente porque ele utiliza um material (a língua de Portugal!) que não está disponível para os brasileiros, assim como a nossa língua não está ao dispor dos autores portugueses.

Vou dar exemplos de prosa dessa poesia da língua que Fernando Pessoa constrói com maestria. Os trechos são do Livro do Desassossego.

“Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica”.

A poesia da língua aí consiste em o poeta usar, artisticamente, um recurso próprio do português de Portugal: a nominalização de tempos verbais compostos (“o ter chegado tarde para almoçar”), que transforma uma marcação de tempo num substantivo. O que acontece vira uma coisa, um ser, que afeta a vida do poeta. E também, requinte do português continental, a nominalização de tempos verbais com infinitivo flexionado: “o terem-se acabado os fósforos”. Há toda uma poesia secreta no infinitivo flexionado!

Vou agora mostrar um segundo tipo de poesia da língua: “Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas.”

Fernando Pessoa usa compulsivamente a estrutura Adjetivo + Substantivo + Adjetivo, como em “a pouca luz fria” e “vago azul branco”. Isso dá um ritmo ligeiramente entorpecente à sua escrita, e o permite trazer à tona o mais imperceptível traço de um adjetivo. É claro que no português do Brasil usamos também a anteposição de adjetivos, com efeitos semânticos importantes (como em “pobre homem” x “homem pobre”), mas nem de longe essa construção é tão comum como no português de Portugal: a tríade “vago”, “azul” e “branco” soa muito bem em Portugal. No Brasil, seria pedante e artificial. Só esse tipo de construção já marca claramente a fala literária de Pessoa (e de todos seus heterônimos!). “Breve sombra escura de uma árvore citadina”.

Um último exemplo de construção dessa poesia da língua (mas há vários outros): “Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles”. Ah, como a literatura de Fernando Pessoa é arquitetada sobre esses pronomes anafóricos (“deles”), nessas retomadas de uma palavra anterior, numa circularidade que permite remoer a metafísica de cada coisa, para uma eterna “consciência de mim”. Outra mostra desse vício dos pronomes anafóricos (que retomam uma palavra citada antes): “Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir”. Que prazer lingüístico tem o poeta de retomar o passado com o pronome oblíquo “o”, ainda que não deseje reviver o passado!

Escolhi três tipos de construções que marcam a língua de Fernando Pessoa como uma linguagem diferente da nossa. Nenhum brasileiro escreveria assim, e se o fizesse, soaria extemporâneo. O português de Portugal gera outra poesia da língua, que nos é alheia.
No entanto, ao ler o Livro de Desassossego, sobre a vida mesquinha do funcionário Bernardo Soares, herói só em sonho (”Quantos Césares fui, mas não dos reais”), nos apropriamos dessa linguagem estranha como se fosse nossa. A literatura alheia se torna nossa; a vida alheia se funde a nós mesmos. O português de Portugal volta a ser o português de nossa boca.

Tudo o que o acordo ortográfico não poderá fazer, é realizável através da literatura. Não é na ortografia que está a vida, mas na fusão de som e sentido. Quando lemos oLivro do Desassossego, temos saudades de nós mesmos. E o Bernardo Soares da Rua dos Douradores está bem aqui, na Mauro Ramos ou na Conselheiro Mafra. Essa mesma melancolia tão distante e tão próxima.

(Publicado no Diário Catarinense, em 7 de fevereiro de 2009).

fernando_pessoa oculos

teorias da pessoa em Pessoa

novembro 1, 2009 às 8:35 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

 

leyla_perrone_ortografia pessoa2w

Na maioria das redações foi expresso o desejo de que o    curso da LitPort3 finalizasse com um aprofundamento dos  estudos pessoanos procurando contemplar dois tópicos: as  teorias da subjetividade que se relacionam com a poesia  desse poeta português e a questão da heteronímia. Para  atingir esses objetivos e agregarmos conteúdos tendo em  vista a segunda avaliação, vamos nos dedicar à leitura & discussão de O Vácuo-Pessoa, um competente ensaio de Leyla Perrone-Moisés (ao lado) no qual se propõe uma perspectiva interpretativa para a obra pessoana baseada nas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Para baixar uma cópia PDF desse texto, clique AQUI (numa conexão de banda-larga, o download levará cerca de 10 minutos). Também há cópia impressa disponível na xerox do campus.

a literatura como espelho trincado do “eu”

outubro 23, 2009 às 16:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , ,

pessoa olhos

A propósito das relações entre literatura, subjetividade e cultura nos contextos modernos, discute Eunice Cabral no E-Dicionário de Termos Literários:

A universalidade do sujeito individual corresponde ao dualismo espírito (alma)  / corpo na medida em que só o espiritual é universal. A espiritualidade apontada toma também a designação de racionalidade enquanto razão centrada no sujeito. Deste modo, a subjectividade adquire um valor supremo, facto cultural que tem vindo a ser criticado. Com antecessores como Marx, Nietzsche e Heidegger até contemporâneos como Bataille, Lacan, Foucault e Derrida, todos acusam a razão (vector organizativo das sociedades ocidentais), que é fundada na subjectividade universal e que é erigida como um absoluto. As obras destes autores, sendo em si muito diferentes, são estratégias para superar o positivismo da razão. (…)

De um modo mais restrito, a subjectividade, manifesta no texto literário, acompanhou o processo de descrédito já mencionado. No início da época moderna, foi encarada como um princípio libertador, fonte de confessionalismo, que se desenvolveu nas literaturas românticas mas, progressivamente, o seu impacto tem vindo a diluir-se. Desde o simbolismo, e acentuando-se com os modernismos, a subjectividade tem vindo a ser entendida como a possibilidade que o escritor tem de interpretar a vida e o mundo enquanto idiolecto de autor, visto que os aspectos subjectivos do texto literário já não dizem respeito apenas à vontade, ao entendimento e à razão de um indivíduo, o autor. Estes valores tornaram-se relativos (porque insuficientes) à luz das várias desconstruções de finais do século XIX, a de Freud, a de Marx, a de Nietzsche. Deste modo, a subjectividade tornou-se sinónimo de “impoder” pela transgressão desindividualizada. O não poder atribuído à subjectividade é uma forma de resistência ao totalitarismo da realidade, que o escritor pode optar por rejeitar. (clique AQUI e leia o verbete “subjectividade” na íntegra)

É importante notar as convergências existentes entre esta discussão e as propostas de Stuart Hall acerca dos “descentramentos”, ou das “desconstruções”, do sujeito moderno que são realizados pelos saberes filosóficos e científicos surgidos entre fins do século XIX e o início do XX. Uma referência ao descentramento operado pela teoria da linguagem de Ferdinand de Saussurre, por exemplo, pode ser identificado na noção de “idiolecto do autor”, apontada por Eunice Cabral como definidora do tipo de escrita literária que caracteriza as obras modernistas. Na poesia de Fernando Pessoa, esse idioleto, ou essa dimensão simultaneamente anônima e intimista da expressão artística moderna, representa-se principalmente naquela produção deste autor que costuma ser lida sob perspectivas esotéricas ou espiritualistas, a exemplo do famoso soneto número XIII do conjunto poemático de “Passos da cruz”:

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido…

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido…

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou…

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser…
Já viram Deus as minhas sensações…

fernando_pessoa tri

Alternativamente às interpretações místicas, podemos propor que o “rei desconhecido” é uma imagem metafórica para o caráter semi-determinista das linguagens humanas, conforme este é analisado por Hall:

Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. (…) Falar [ou escrever em] uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa lingua e em nossos sistemas culturais.

Já do ponto de vista da crítica marxista, a imagem do rei também serviria de metáfora  para o determinismo materialista da história humana, isto é, para a preponderância dos fatores econômicos e sociais na definição de nossos destinos e de nossas personalidades. Embora distintas nas suas implicações filosóficas, ambas as propostas interpretativas aqui destacadas põem em causa a natureza supostamente autônoma do sujeito moderno, tal como era preconizada pelo Iluminismo. A poesia de Pessoa traça a imagem de um eu-vassalo, dividido entre a condição de flanêur desorientado e a de “massa de manobra”, de elemento aprisionado entre as engrenagens das multidões urbanas, conforme vislumbrou Charles Baudelaire em poemas como “As Multidões” (leia uma boa análise deste poema feita por uma estudante de Letras AQUI). Nesse sentido, o “outro e anómalo sentido” a que se refere Pessoa no poema acima pretende justamente traduzir essas experiências de diluição e de alienação que se tornam caracterizantes da condição moderna.

Por sua vez, ainda com relação ao poema XIII, é crucial observar como essa experiência alienante pode rapidamente se converter em formas de sublimação e de superação das angústias modernas. A força que inconscientemente divide a voz lírica pode ser concebida como as fantasias subconscientes que, segundo Freud, fragmentam a subjetividade, fantasias que abrem novas, e por vezes transgressivas, possibilidades de identificação, capazes de libertar o indivíduo do contexto que o oprime social e psicologicamente. Essa terceira linha interpretativa está em aparente contradição com as duas outras sugeridas, mas perceba-se que a coexistência de juízos e sentimentos contrários é uma marca essencial tanto da lírica moderna quanto da poesia heteronômica de Fernando Pessoa. Dar conta dessa multiplicidade ambígua e polivalente é um dos principais desafios que se colocam para os leitores contemporâneos desses textos. Capacidade igualmente necessária para apreciar a produção literária pós-moderna que retoma a problemática da divisão e do descentramento das subjetividades, conforme pode-se ler no famoso poema “Traduzir-se”, do brasileiro Ferreira Gullar:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

 

Assista acima a bela versão de Adriana Calcanhoto, cantada numa tonalidade quase lusitana, para este poema. Aproveite o relax para organizar idéias tendo em vista responder sinteticamente à questão: quais os recursos estéticos mobilizados pela poesia de Fernando Pessoa para “traduzir” as novas subjetividades geradas pela modernidade?

a literatura como instrumento de leitura do “jogo de identidades”

outubro 23, 2009 às 12:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

 

Num livro seminal para os estudos literários no Brasil, o crítico Antonio Candido afirma, a propósito do trabalho de leitura e interpretação do texto ficcional, que este não pode se limitar “a indicar a ordenação das partes, o ritmo da composição, as constantes do estilo, as imagens, fontes, influências”. Para Candido, a caracterização estética constitui procedimentos auxiliares para um trabalho maior, que consiste em “analisar a visão que a obra exprime do homem, a posição em face dos temas, através dos quais se manifestam o espírito ou a sociedade”. É portanto imprescindível para a aquisição de genuína competência na discussão ou na exploração pedagógica da literatura observar, como enfatiza Candido, que um “poema revela sentimentos, idéias, experiências;  um romance revela isto mesmo, com mais amplitude e menos concentração.  Um e outro valem, todavia, não por copiar a vida, como pensaria, no limite, um crítico não-literário; nem por criar uma expressão sem conteúdo, como pensaria, também no limite, um formalista radical.  Valem porque inventam uma vida nova, segundo a organização formal, tanto quanto possível nova, que a imaginação imprime ao seu objeto”. [In: Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). “Introdução”.]

livro fios

Reconstruir essas relações, ou essa tessitura, entre expressão formal e conteúdo existencial, entre texto imaginativo e mundo real, tem solicitado das várias gerações de pesquisadores da literatura a adoção de perspectivas e métodos também diversificados. No que diz respeito à abordagem das questões identitárias e culturalistas, vem se destacando a importância de um olhar interpretativo capaz de identificar a representação de valores fundacionais das sociedades, ou as maneiras como heranças e tradições culturais são tematizadas no texto literário. Algumas indicações valiosas para esses estudos encontram-se sintetizados no artigo de Heloisa Toller GOMES “Questões coloniais e pós coloniais no tratamento (literário) da etnicidade”, disponível AQUI.

Brasil & Portugal: polêmicas & ressentimentos

outubro 18, 2009 às 10:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , , ,

Como se pode observar no artigo abaixo do jornalista Clóvis Rossi, novamente os incidentes entre brasileiros e portugueses fazem emergir diversas imagens identitárias que refletem, sobretudo quando buscamos lê-las em seus reversos, os traumas não-resolvidos do passado colonial. Um ótimo exercício para @s estudantes da LitPort1 seria compor uma breve redação discutindo a polêmica em causa e posicionando-se quanto a ela. Que motivos teriam os brasileiros para cultivar tanto rancor em relação ao povo que, alegadamente, nos “descobriu”? Como entender a postura portuguesa de repúdio a esses sentimentos?

piadas-portugues

Brasileiros e portugueses, nada a ver

Clóvis Rossi, Folha de São Paulo, 14/10/2009

O comentário sobre a irritação dos portugueses com um vídeo gravado pela atriz Maitê Proença para o “Saia Justa”, do canal a cabo GNT, provocou um tsunami de correspondência, recorde absoluto neste mês e meio em que a “Janela” está aberta. Sou, portanto, obrigado a voltar a ele. (leia AQUI o primeiro artigo de Rossi sobre essa questão)

Primeiro, um esclarecimento: o que mais doeu nos portugueses foi o fato de Maitê ter cuspido em uma fonte do Mosteiro dos Jerónimos, patrimônio da humanidade.

Escreve, por exemplo, José Elias, português e fotógrafo de patrimônio histórico e cultural: “Este sim [cuspir na fonte] é talvez o acto mais ofensivo para os portugueses. A degradação e o desrespeito para com os nossos símbolos nacionais. Poderá ser apenas um edifício, é verdade, mas desculpem lá termos alguma estima por ele”.

Está perfeitamente desculpado, José Elias.

E também peço desculpas por ter omitido esse aspecto na “Janela” de ontem. É uma questão de diferença de sensibilidade: os brasileiros estamos tão arqui-acostumados a ver monumentos cuspidos, escarrados, urinados etc, que não nos chocamos mais com isso.

No meu caso, sou dos que não sacralizam monumentos, mas deveria ter percebido que outras pessoas, de qualquer nacionalidade, inclusive brasileiros, podem ter outra sensibilidade – provavelmente mais adequada que a minha. Ou, como escreve outro leitor português, Eduardo Miguel Sequeira, “piadas, nós entendemos, cuspir em monumentos é outra conversa”.

Nem todo português ou descendente aceita tão tranquilamente as piadas que os brasileiros fazemos abusivamente em relação aos portugueses, do que dá testemunho a jornalista Cristina Silva Rosa, da Agência Lusa de notícias: “Sou filha de portugueses, cresci ouvindo que os portugueses são burros e ficava sempre muito triste e chateada com isso. Quando ouvi os comentários da sra. Maitê, lembrei-me dos tempos de colégio Sion, em São Paulo, em que tinha de aturar as piadas maldosas dos meus colegas de turma sobre os patrícios”, reclama. “Acho que devemos respeitar para sermos respeitados”. (assista o VÍDEO de Maitê Proença em Portugal)

Reforça Carlos Costa Rodrigues, que começa afirmando com toda a razão que “não temos [os portugueses] medo do ridículo. Temos medo sim, da falta de criatividade”, que é um dos grandes pecados do vídeo.

Acrescenta: “Concordo também consigo que o português é extremamente sensível aos comentários que fazem (sejam de brasileiros ou não), mas quem conhece a história de Portugal perceberá que nos últimos séculos fomos ‘achincalhados’ muitas vezes por outros povos (Invasões Espanholas e Francesas, Ultimato Inglês, Guerra Colonial em África) e aquilo que sempre ficou, foi o nosso orgulho (…). No fundo, adoramos ser portugueses. E quando nos juntamos em prol de uma causa, viramos uma família enorme, em que a orientação sexual, a religião, a militância partidária e outros tantos factores de distinção deixam de fazer sentido. Quando defendemos um dos ‘nossos’ ou a ‘nossa’ memória colectiva’ viramos animais irracionais”.

Pena que parte da correspondência tenha sido xingamento puro, em vez de argumentos. É desgraçadamente uma característica usual na internet. Mas o que sobrou de comentários inteligentes daria para escrever um verdadeiro tratado sobre a relação brasileiros/portugueses, ao rés-do-chão, não institucionalmente entre os dois países, que goza de excelente saúde.

Como tratado não cabe aqui, algumas pinceladas apenas sobre o poço de mágoa que há de parte a parte.

João Passos, descendente de brasileiros, casado há 20 anos com brasileira, acha que “o Brasil sofre da síndrome da vergonha das origens. O processo de independência fomentou-o e tornou-se vox populi que se o Brasil é como é se deve à colonização portuguesa; antes tivesse sido colonizado pela Holanda ou Inglaterra, mais inteligentes com certeza”.

Há ataques mais agudos, como o de Bruno Filipe para quem “a única coisa a que os portugueses são sensíveis em relação aos brasileiros é á extrema falsidade que se percebe nos seus rostos. Os brasileiros são em geral um povo falso. (…) O Brasil para a maior parte de nós portugueses e diria mesmo para a maior parte do mundo ocidental não passa de um país de miséria, criminalidade e de 3º mundo, que tenta, tenta, tenta mas nunca consegue chegar a lado nenhum, nem nunca conseguirá pela sua falta de auto-estima e princípios básicos civilizacionais”.

Pensa que é opinião isolada de algum português preconceituoso? Então, leia o seguinte trecho da coluna de Clara Ferreira Alves, no respeitado semanário “Expresso”, publicada dia 9 passado, a propósito da atribuição ao Brasil dos Jogos Olímpicos de 2016:

“Expeditos cariocas hão-de arranjar modo de saltar o muro e vender mais droga, assaltar mais turista, trocar mais tiro e limpar o sebo a mais bope [se alguém souber o que essa expressão significa, favor me contar]. Vender-se-á mais samba e bossa nova, mais cocada na praia, mais pastelinho em Copacabana, mais mulata em hotel, mais criança para tarado”.

Bom, ainda há a imagem da brasileira em geral como prostituta. Escreve, por exemplo, Carlos Matias: “Existe, sim, esse preconceito em relação às brasileiras. Acontece que aqui a prostituição está repleta de brasileiras. A prostituição tem sotaque brasileiro. É um facto. Temos culpa disso?

Contra-ataca Cintia Rubly: “Como brasileira que reside em Lisboa há três anos, será que também devo começar a exigir um pedido de desculpas de cada português que me trata como prostituta pelo simples fato de ser brasileira? E não falo só por mim, falo por todas as brasileiras que são diariamente discriminadas e nada acontece. O que a Maitê fala no vídeo não é nada perto das coisas que nós, brasileiras e brasileiros, ouvimos na terrinha’.

Pelo jeito, o tal de acordo ortográfico é absolutamente insuficiente para que brasileiros e portugueses falem a mesma língua.

piada brasileiro

identidade & alteridade: inscrições abertas & algumas considerações teóricas & pedagógicas

outubro 16, 2009 às 17:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , , , , ,

alteridade

O que realmente distingue os seres humanos uns dos outros? As características físicas ou os estilos de vida, os valores culturais? De acordo com o que podemos chamar de perspectiva essencialista sobre as identidades, esses valores estariam impregnados no “sangue” ou na “alma” dos indivíduos que compõem cada povo, como resultado dos séculos de convívio endogâmico e de manutenção dos costumes tradicionais, costumes estabelecidos através dos mitos fundadores. Para a perspectiva historicista (também denominada antropológica, ou construcionista, ou pós-moderna), esses valores estão continuamente sendo negociados no interior das sociedades, processo que se dá em correlação direta com as tensões políticas e econômicas que afetam a estas, bem como com o desenvolvimento de novos conhecimentos e interpretações sobre a realidade humana.

No âmbito da Era Moderna –- vale dizer, dos acontecimentos sucedidos nos últimos 500 anos –- a intensificação dos contatos e das trocas entre as mais diversas comunidades torna cada vez mais complexo e problemático a produção de identidades estáveis, questão que também repercute fortemente na estabilidade das estruturas de poder, pondo em xeque diversos tipos de privilégios e barreiras. Em suas dimensões psicológicas e subjetivistas, os processos de identificação vivenciados por cada pessoa abrangem, presentemente, uma gama variada de composições de comportamentos, crenças e gostos, gerando indivíduos multifacetados, sujeitos a transições radicais de personalidade e a crises de orientação. No plano das artes, a complexidade alcançada pelo “jogo das identidades” (Stuart HALL. A identidade cultural na pós-modernidade) expressa-se nos diversificados impulsos de questionamento dos cânones, de renovação formal, de deslocamento temático, de vanguardismo e experimentalismo, de radicalização criativa e de abertura sincrética que vão redefinir as noções de beleza, e do próprio sentido do fazer artístico, ao longo do século XX. Conforme sintetiza Hall, “à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente”.

Em meio à “géleia geral” (ouça a canção de Gilberto Gil com este título no MUJIMBO) que configura as identidades pós-modernas, a qual significado efetivo palavras como diferença ou alteridade podem remeter? Para o professor Francisco Ferreira Lima, retomando conceitos elaborados pelo antropólogo argelino Francis Affergan, a alteridade consiste numa forma de relação intersubjetiva, ou intercultural, que leva os indivíduos a questionarem os fundamentos de suas certezas,de seus critérios de normalidade, estimulando assim a criatividade para a busca de novos projetos existenciais e de novas modalidades de vida coletiva. Contudo, a experiência transformadora da alteridade tende a ser reprimida, segundo Lima, pelo impulso de diferenciação, que tende a menosprezar e desumanizar os valores do Outro que destoem dos padrões fixados pela tradição. Para saber mais sobre esses conceitos, leia o artigo de Francisco Lima, “De Caminha a Mendes Pinto: Brasil, Extremo Oriente e outras maravilhas”, disponível em português na edição eletrônica da Revista de Filologia Románica da Universidade Complutense Madrid. (para ler outros textos de LIMA, consulte o MUJIMBO)

Para os objetivos de nossos cursos, o que o jogo das identidades põe em causa é a aquisição de competências teóricas e interpretativas que possibilitem aos graduandos caracterizar e analisar imagens identitárias representadas em textos artístico-literários, bem como avaliar, no campo das artes verbais, os efeitos estéticos das transformações culturais modernas. Na LitPort 1, merece destaque, entre outros fatores que compõem as visões-de-mundo renascentista e barroca, o estudo das transformações relacionadas à elaboração das ideologias que legitimaram o processo colonial e a hierarquização dos povos em “raças”, tomando-se principalmente o texto de Os lusíadas como objeto desse estudo.

Para a LitPort 3, cabe examinar a repercussão, na poética de Fernando Pessoa, da Revolução Industrial e da crise da racionalidade ocidental gerada pelo que Hall chama de “grandes descentramentos”. A primeira fonte desses descentramentos, segundo Hall, foi a reflexão marxista, que se opôs à idéia liberal-iluminista de autonomia humana fundada no individualismo egocêntrico ou num abstrato livre-arbítrio, voltada apenas para a realização pessoal. Pelo novo ponto de vista proposto por Karl Marx, podemos considerar que as identidades são sempre produtos coletivos e interacionais, fortemente dependentes das condições materiais, ou sócio-históricas, nas quais são engendradas. A alteridade, assim, reporta-se às forças que induzem à superação da sociedade capitalista, criticando-a ou formulando alternativas utópicas para esta.

O segundo descentramento deriva das conclusões de Sigmund Freud acerca da natureza polimórfica e dividida da psiquê humana. Em paralelo à assimilação das regras de convívio social e das imposições da luta pela sobrevivência, cada sujeito lida com uma pluralidade de desejos nos quais, para Freud e Jacques Lacan, se entrelaçam as lembranças da infância e os diversos tipos de “espelhamentos”, ou de projeções identificadoras, que formaram a personalidade. Reorganizados na lógica do “inconsciente”, esses desejos alimentam conflitos psicológicos e morais cada vez mais intricados nos sujeitos modernos, conflitos que se expressam através de comportamentos obsessivos, neuroses, fragmentações e multiplicações do “eu”. A alteridade fica assim instalada no cerne do próprio aparelho psíquico, resultando da coexistência entre as racionalizações conscientes e o fantasiamento inconsciente com que elaboramos nossas narrativas identitárias pessoais e coletivas.

Retomando as teses de Michel Lowy e Robert Sayre (cf. Revolta e melancolia – o romantismo na contramão da modernidade, Vozes, 1995), podemos considerar que o Romantismo, o Realismo e os vários Neo-Realismos expressam os principais efeitos estéticos do descentramento marxista. Para a literatura Modernista, por sua vez, as influências preponderantes derivam do descentramento freudiano e, também, daquele descentramento linguístico que foi promovido pelo trabalho de Ferdinand de Saussurre. Encaradas como sistemas de remissão, através dos quais são gerados, partilhados e recombinados os símbolos que articulam primariamente experiência sensível e pensamento, as línguas desempenham funções básicas na reprodução da realidade e na construção da auto-consciência. Pode-se assim conceber, sob uma ótica logocêntrica, que os processos de estruturação de sentidos que compõem nossas identidades organizam-se como uma espécie de gramática, proposição que coloca em evidência a dimensão discursiva, ou a dimensão narrativa, que é constitutiva dos sujeitos. Uma dimensão marcada pela ambiguidade, pela instabilidade, pelo deslizamento e entrecruzamento dos referentes, como atestam as pesquisas da filosofia pós-estruturalista, renovadoras do pensamento saussureano, pesquisas que fornecem subsídios fundamentais para a formulação teórica do caráter transitivo e “multimodulado” (HALL, op. cit.) do sujeito pós-moderno.

Na poesia de Fernando Pessoa, isto é, nos diversos jogos fonéticos, sintáticos e semânticos com que este escritor procurou traduzir sua subjetividade fragmentada, encontram-se formulados artisticamente os muitos impasses gerados pela exaustão da razão discursiva, pela incapacidade da reflexão científica para superar o materialismo mecanicista e oferecer respostas aos muitos enigmas e mistérios que perpassam o desenrolar efetivo das vidas humanas. A alteridade, nessa poesia, representa-se através de imagens paradoxais, das quais se desdobram ecos, reflexos, sombras, duplicidades, diálogos fantasmáticos, cisões introspectivas, tal como pode ser observado no poema “Brilha uma voz na noute” (ou “A voz de Deus”), ou “Sopra demais o vento” (versos que foram musicados pelo neo-fadista Camané e pelo brasileiro Jardel Caetano), ou no famoso “Autopsicografia”, que aborda a consciência da alteridade interna ao sujeito moderno como dramaturgia íntima, como “fingimento”. Se a alteridade, como sugere Francisco Lima, traduz uma experiência da vertigem identitária, é então sobre ela que escreve Pessoa quando desenvolve as metáforas do abismo, remetendo à percepção da falta de significado estável para a existência; da máscara, que põe em evidência as contradições que se acumulam à medida em que envelhecemos. Mas é sobretudo pelo jogo das heteronímias, é através dessa polifonia  cultivada como estilo, que se expressa a perspectiva mais radical de Pessoa quanto à experiência da alteridade moderna, concebida como um trabalho constante de reescrita, ou de ficcionalização, de si mesmo, isto é, de articulação entre diversas e distintas narrativas pessoais.

 

gepiadde logo

Outro importante momento para aprofundarmos nossa reflexão sobre a alteridade será proporcionado pelo III FÓRUM IDENTIDADES E ALTERIDADES, promoção do GEPIADDE (Grupo de Estudos e Pesquisas Identidades e Alteridades: Diferenças e Desigualdades na Educação) a ocorrer entre 11 a 13 de novembro de 2009 no Campus Itabaiana da UFS, versando sobre o tema: “EDUCAÇÃO, DIVERSIDADE E QUESTÕES DE GÊNERO”. O evento contará com uma grande oferta de mini-cursos relacionados à temática da identidade e está aceitando inscrições para apresentação de comunicações até o dia 31/10. Necessita-se também de voluntários para trabalhar como monitores, os interessados devem entrar em contato comigo assim que possível. No período do Fórum, as aulas nas LitPort 1 e 3 serão suspensas para acompanharmos as atividades. Informem-se e participem!

exercício 1, LitPort3

outubro 7, 2009 às 17:25 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

 

Diz Leyla Perrone-Moisés, famosa pesquisadora da obra de Fernando Pessoa, que todo trabalho sobre este autor “é uma indagação sobre a identidade” [In: Fernando Pessoa: aquém do eu, além do outro]. O grande valor da poesia de FP para esse questionamento reside na maneira como, através dela, se representam algumas das experiências inaugurais de deslocamento e de fragmentação da subjetividade que levarão à transição da relativa estabilidade do sujeito sociológico para a condição instável, dividida e plurifacetada que caracteriza o sujeito pós-moderno. Conforme ressalta Stuart Hall, citando Kobena Mercer, "a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza". Analise e discuta os poemas de Pessoa transcritos abaixo considerando as questões acima referidas, o contexto histórico-cultural da modernidade européia e os “grandes descentramentos” descritos por Hall no capítulo Nascimento e Morte do Sujeito Moderno.

 

hall close

Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!…

A ciência, uma fada
Num conto de louco…
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!

Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!

(4-11-1914)

         * * *

Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala

Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…

(5-6-1917)

       * * *

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

[…]

(Álvaro de CAMPOS, “Ode Triunfal”. 6-1914)

pessoas

a identidade como construção

outubro 2, 2009 às 10:51 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

Nas redações, foram muitos @s estudantes da LitPort 1 que expressaram seu desejo de adotar métodos pedagógicos de matriz construtivista, quando começarem a trabalhar como professor@s. Sob essa perspectiva, é interessante ler abaixo um trecho de artigo assinado pelo professor de história Mozart Linhares da Silva, da Universidade de Santa Cruz do Sul, no qual se desenvolve brevemente uma perspectiva processual, contextual e transitiva acerca das identificações pessoais e coletivas. As citações de Stuart Hall feitas pelo prof. Mozart referem-se à obra que estamos discutindo em classe. Caso deseje ler o artigo na íntegra, clique AQUI.

construtivismo

Essencialismo e Construtivismo Identitário

De modo geral as abordagens acerca das identidades, sobretudo acerca das identidades culturais, podem ser consideradas a partir de duas perspectivas: uma essencialista e a outra a construtivista. Para os essencialistas, pautados na tradição clássica, as identidades são consideradas fatos, entidades e dados dotados de objetividade na sociedade. Segundo Semprini, “Sua existência, sua homogeneidade interna, sua especificidade cultural seriam um fato, aceito como tal e pouco suscetível de evolução. Assim, os negros, os índios ou as demais minorias, são considerados como as peças imóveis do mosaico social” (Semprini, 1999, p. 90-91). Não é difícil perceber que esta concepção de identidade enquanto uma essência permite a justificativas de situações sociais e legitima o status quo, criando ainda, as condições para a resistência às mudanças sociais. Os essencialistas utilizam vários mecanismos para justificar a objetividade identitária, entre os quais vale mencionar a etnia e a herança história, ou mesmo genealógica. Entendem que a cultura é algo que pode ser carregado na bagagem como um conjunto de valores e tradições monolíticas reproduzíveis em qualquer espaço-tempo. Vale lembrar ainda que os defensores do essencialismo hoje procuram legitimar sua posição utilizando-se da chamada autoridade científica pautada no controverso “essencialismo genético”, segundo o qual “cada grupo humano está condicionado definitivamente quanto à inteligência e em seu potencial de mobilidade social conforme seu patrimônio genético” (Semprini, 1999, p. 91). (Para uma crítica às teorias raciais e a própria categoria raça ver, entre outros: Gold, 1999, Darmon e Cavalli-Sforza, 2003).

Ao contrário dos essencialistas, os construtivistas pensam as identidades do ponto de vista histórico considerando as escolhas políticas, econômicas e ainda as relações de poder. Isso porque “toda identidade é fundada sobre uma exclusão (o que não se é ou o que não se deve ser) e, nesse sentido, é um efeito do poder” (Hall, 2003, p. 85). A dinâmica que embala as relações sociais é considerada um fator primordial para entendermos que as identidades não são fixas, objetivas e perenes. Elas são, isso sim, dinâmicas e em permanente construção. Identidades são, numa palavra, híbridas. Não é possível a pureza quando se está em movimento, se está vivo. Segundo Stuart Hall (2003, p. 83), “As comunidades migrantes trazem as marcas da diáspora, da ‘hibridização’ e da différance em sua própria constituição. Sua integração vertical a suas tradições de origem coexiste como vínculos laterais estabelecidos com outras ‘comunidades’ de interesse, prática e aspirações, reais ou simbólicas”. É preciso concordar com Enoch Powell (Apud. Hall, 2003, p. 78) para quem, “a vida das nações, não menos que a dos homens [sic], é vivida em grande parte na mente”. Sendo a nação, na realidade, uma forma imagética que tende a homogeneizar os traços constitutivos da identidade, é evidente, a primeira vista, que a nação se funda na igualdade. Como alerta Hall (2003, p. 78), “Ao contrário do que se supõe, os discursos da nação não refletem um estado unificado já alcançado. Seu intuito é forjar ou construir uma forma unificada de identificação a partir das muitas diferenças de classe, gênero, região, religião ou localidade, que na verdade atravessam a nação”. Na realidade, o discurso identitário nacional se constitui como sistema assimilacionista e nas palavra de Bauman, “o propósito das pressões pela assimilação era despojar os ‘outros’ de sua ‘alteridade’: torná-los indistinguíveis do resto do corpo da nação, digeri-los completamente e dissolver sua idiossincrasia no composto uniforme da identidade nacional” (2003, p. 85).

Enfim, a postura construtivista percebe a identidade como uma construção que implica numa diversidade de fatores que merecem atenção sobretudo pela sua complexidade. Imaginar que as identidades são concretas e fixas é desconsiderar a complexidades das relações em que as narrativas identitárias são construídas.

Segundo o construtivismo então, as identidades não são essências, não são entidades ou dados objetivos mas sim construções plásticas, móveis, fluidas e dinâmicas. É na dinâmica da hybris que podemos apreender o fenômeno identitário e não na pureza ou na herança. É na produção de espaços intervalares que podemos vislumbrar a criatividade identitária, espaços de contato em que as culturas friccionam e iniciam novas experiências. (continue a ler)

cresce a importância da qualificação para a docência

outubro 1, 2009 às 19:27 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , ,

JC e-mail 3857, de 28 de Setembro de 2009

Programa oferece mais de 20 mil bolsas para valorização de professores

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) lança a segunda edição do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid)

Criado com a finalidade de valorizar o magistério e apoiar estudantes de licenciatura plena das instituições federais e estaduais de educação superior, o programa oferece em 2009 mais de 20 mil bolsas para aprimorar a formação docente e contribuir para elevação do padrão de qualidade da educação básica.

O Pibid pretende elevar a qualidade das ações acadêmicas voltadas à formação inicial de professores nos cursos de licenciatura das instituições públicas de educação superior. Assim como inserir os licenciandos no cotidiano de escolas da rede pública por meio de estágios, promovendo então uma maior integração entre educação superior e educação básica.

Bolsas

São quatro modalidades de concessão de bolsas: bolsistas de iniciação à docência, para estudantes dos cursos de licenciatura plena, no valor de R$ 350. Bolsistas de supervisão, para professores das escolas públicas estaduais ou municipais, no valor R$ 600. E bolsistas coordenadores institucionais de projeto e coordenadores de área de conhecimento, para docentes das instituições federais e estaduais, no valor de R$ 1,2 mil.

Podem apresentar proposta, as instituições públicas de educação superior, federais e estaduais, que possuam cursos de licenciatura plena legalmente constituídos, que tenham sua sede e administração no país e que participam de programas estratégicos do MEC como o Enade, o Reuni e os de valorização do magistério, como o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica, o ProLind, o ProCampo e formação de professores para comunidades quilombolas.

Experiências

Juntamente com a valorização do professor como um profissional da educação, o Pibid pretende promover inserção dos alunos de licenciatura nas escolas. Além dos tradicionais cursos para professores de disciplinas como química ou física, o programa também contempla cursos como licenciaturas interculturais para formação de professores indígenas ou em educação do campo e para comunidades quilombolas, por exemplo.

As inscrições para o Pibid 2009 vão até o dia 9 de novembro. Esclarecimentos e informações adicionais sobre o conteúdo do edital e o preenchimento do Formulário de Proposta on line poderão ser obtidos pelo e-mail pibid2009@capes.gov.br ou pelo telefone 0800-616161, na opção 7 mestrado e doutorado, onde é possível obter informações de todos os programas da Capes.

O edital do Pibid 2009 está disponível em: http://www.capes.gov.br/editais/abertos/3185-programa-institucional-de-bolsa-de-iniciacao-a-docencia-pibid

(Informações da Assessoria de Imprensa da Capes)

FONTE: Jornal da Ciência

voltando às apresentações

setembro 20, 2009 às 8:43 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , ,

Olá para tod@s. Nossa aula de quarta-feira, dia 23/09, está CONFIRMADA. Devem, portanto, se apresentar nesse dia as equipes 4 & 5 das turmas de LitPort1 e LitPort3.

O encontro de 25/9, sexta-feira, está suspenso devido a minha participação no II Congresso Baiano de Pesquisadores Negros (CBPN II), a realizar-se na Universidade Estadual de Feira de Santana.

saiba mais sobre o congresso

memórias & polêmicas da lusofonia

setembro 10, 2009 às 0:36 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , , ,

A comunidade de países de língua portuguesa: A base lingüística e material

Por Fernando Augusto de Albuquerque Mourão

Diante de um mundo onde se registram fortes tendências à supranacionalidade, o uso do português em diferentes regiões do planeta, surge como um elemento unificador das posições de cada estado lusofalante nas suas inserções, não excludentes, em outros espaços regionais.

Entre as perspectivas de globalização e de regionalização – mormente de natureza econômica – surgem perspectivas culturais, em que o uso da língua tem um papel fundamental, levando-se em conta, como limite, a percepção catastrófica de Samuel Huntington de que o mundo de hoje, flutuante, tende, no futuro, para conflitos envolvendo civilizações ao contrário do que pensa Francis Fukuyama ao anunciar o fim da história, reanunciando a paz kantiana.

O ensino e uso da língua constituem, outrossim, um dos temas centrais da diplomacia cultural, instrumento de política externa e tema que tem sido aproveitado por vários países, como a França e a Turquia, ora como forma de resistência, ora como meio de preservar ou até de aumentar o prestígio internacional. No caso da França, é curioso assinalar que as literaturas africanas em língua francesa, que foram um fator de resistência por parte dos africanos no recém passado colonial, são hoje apresentadas como pertencentes ao conceito amplo da francofonia. Sabendo-se que os estados nacionais africanos são na maior parte dos casos, o resultado de uma divisão imperial consolidada na chamada Conferência ou Congresso de Berlim (1894-1895), e, realisticamente, prevista pela alínea 7 do preâmbulo da Carta da Organização da Unidade Africana (1963) numa clara opção pelo clássico princípio do uti possidetis juris, é natural que continuassem a utilizar a ex-língua imperial como língua oficial, tendo em vista vários motivos, entre eles, o da unidade nacional.

A França lança mão de vários mecanismos institucionais, entre eles, a Alliance Française, utilizando a língua não só como instrumento de cultura, mas também como instrumento político, consolidando um espaço importante. A Turquia, por sua vez, vem fazendo algo semelhante ao divulgar sua língua em todo o espaço turcófono que se estende até a fronteira com a China, “criando condições para transformar a Turquia num elo entre a Europa e a Ásia Central”.

As aproximações através do uso da língua portuguesa não excluem o estudo e ensino das línguas nacionais africanas em espaços plurinacionais que, possivelmente, ultrapassadas a fase do processo da paz e da transição democrática, estarão sensíveis ao tema do federalismo – mormente em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique – um tema universal, que, por razões históricas, não se registra no arcabouço institucional português. Este tema, que certamente surgirá no futuro, mas como desdobramento de situação substantiva, a ser tratado a curto prazo, poderá levar a fragmentações indesejáveis. A evolução desta temática tangencia o princípio da tolerância envolvendo não só os atores internos, como os atores externos.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em boa hora impulsionada pelo Embaixador José Aparecido de Oliveira, encontra no patrimônio comum da língua portuguesa nas suas variantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, Moçambique e São Tomé e Príncipe, uma base na diferença, mas, principalmente nas expectativas do futuro, permitindo através de um vocabulário de 300-400 mil palavras o acesso à sociedade industrial.

A dinâmica da língua portuguesa:

O português, a exemplo das línguas impostas no espaço colonial, foi também uma língua glotocida, sobretudo no espaço americano. Apresenta, ademais, uma característica fundamental: trata-se de um idioma que demonstrou e demonstra vitalidade, sendo capaz de incorporar as variantes do vocabulário africano e ameríndio. Vários autores registraram a influência de vocábulos africanos, entre eles Antônio Houaiss , Celso Cunha e Lindley Cintra ou ainda dicionaristas como Laudelino Freire. Em relação aos vocábulos ameríndios, podem-se citar mais especificamente Antenor Nascentes , Antônio Geraldo da Cunha e Joaquim Mattoso Câmara Jr.

O português, no passado, contribuiu para a formação da chamada língua de comércio, da qual Celso Cunha tratou ao estudar os crioulos de influência portuguesa. Este eminente filólogo demonstrou, também, o seu desenvolvimento nos séculos XVI, XVII e XVIII, a que ele chama de protocrioulos, seja na Ásia , seja na África , seja na América. Ao preparar glossários de escritores africanos de língua portuguesa, tarefa que em boa parte das vezes levei a cabo com a colaboração dos autores dessas obras, verifiquei que, em alguns casos, vocábulos em línguas africanas haviam sido aportuguesados por alguns autores e, em alguns outros, essa influência se estendia à sintaxe.

Além dessa plasticidade do português, registra-se, no Brasil, a persistência, em práticas religiosas, de línguas africanas dos espaços sudanês e bantu, como por exemplo, o candomblé. Nos quilombos, onde se aglutinaram escravos falantes de várias línguas africanas, a sintaxe portuguesa foi-lhes parcialmente incorporada. Influências africanas em relação ao português do Brasil foram objeto de estudo de vários autores, entre os quais podemos citar Renato Mendonça e Yeda Pessoa de Castro. O privilegiamento da contribuição sudanesa sobre a participação bantu na cultura brasileira – que se deve a vários fatores históricos de que já tratei em outras ocasiões – resulta numa aparente desproporção entre as duas línguas. O universo da contribuição bantu à cultura brasileira constitui um campo a ser estudado prioritariamente como elemento de investigação entre as relações do Brasil com a África Austral.

O estudo minucioso das línguas africanas e dos linguajares africanos no Brasil deverá constituir um alvo prioritário das ciências da linguagem. Não é mais aceitável apenas a pesquisa etimológica; urge uma investigação de fatos linguageiros mais amplos. Quanto aos linguajares africanos ou de origem africana, utilizando várias línguas africanas – o que é natural, uma vez que os escravos eram cuidadosamente divididos para se evitar uma potencial formação de grupos coesos –, alguns estudos têm destacado o processo de formação dessas línguas. Gerhard Kubik, etnólogo da Universidade de Viena, com experiência de campo tanto em países africanos como no Brasil, escreveu vários trabalhos sobre o tema , o qual ultimamente passou a ser tratado pela Professora Margarida Maria Taddoni Petter, com a colaboração do Professor Emílio Bonvini.

Numa época em que os países se dividem entre os que detêm o saber tecnológico e os que não têm acesso a esse saber; num mundo em que, portanto, a tecnologia é um divisor de águas – como o foram a religião e a civilização no passado –, convém realizar projetos de pesquisa sobre a influência africana no campo das técnicas agrícolas e mineralógicas, campo em que os africanos tiveram no Brasil uma contribuição digna de registro.


No que tange às influências técnicas do Brasil em relação à costa africana ocidental, pode-se lembrar a ressonância da arquitetura colonial portuguesa, já adaptada ao Brasil, presente no Brazilian Quarter, em Lagos, em Porto Novo e em outras cidades africanas. Constatam-se influências lingüísticas ligadas à tecnologia da construção, pela presença dos artesãos, ex-escravos que se tornaram o embrião da formação das burguesias locais no final do século passado.

Manifestando sua condição de língua dinâmica, o português não só incorporou, como já dissemos, centenas de vocábulos de origem africana e ameríndia, como serviu aparentemente de suporte sintático às línguas criadas nos quilombos do Brasil colonial, além da sua contribuição à formação do protocrioulo ou crioulos portugueses. O português, no plano horizontal, apresenta variantes na acentuação e no léxico (estas decorrentes não só os regionalismos, como ainda da persistência de arcaísmos). O processo da unificação da norma culta necessita tanto do Acordo Ortográfico, como de um amplo esforço no campo do ensino e aprendizado da língua portuguesa.

A importância da língua portuguesa:

Somente com uma língua de cultura, como diria o insigne filólogo e lexicógrafo Antônio Houaiss, se podem estudar disciplinas como Física, Química, História Natural e Filosofia. No planeta, hoje, contam-se cerca de 10 mil línguas; dessas, porém, classificam-se como língua de cultura ampla não mais de meia centena. Ou seja: apenas essas poucas línguas – que congregam um vocabulário de aproximadamente 400 mil palavras, com uma tradição literária e gráfica muitas vezes bimilenar – podem ensejar a transição de uma sociedade industrial para um estádio posterior, de sociedade pós-industrial. A transição para a Terceira Revolução Industrial acontecerá apenas nos países em que o nível educacional permite a seus nacionais a compreensão da complexidade do mundo moderno. O repto é considerável, e o combate ao analfabetismo é conditio sine qua non para a solução dos problemas dos países em desenvolvimento.

Nota-se, então, que o conhecimento do português – também uma língua de cultura, de importante cabedal vocabular – se mostra essencial, para o seu pleno desenvolvimento econômico. O bom conhecimento lingüístico permitirá, ademais, o incremento do intercâmbio comercial e científico entre os países lusofalantes. Este é, a propósito, um dos objetivos fulcrais da formação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

O português é hoje a sétima língua mais falada do mundo – o francês ocupa a oitava posição – e a terceira língua mais falada no Ocidente, além de ser a língua oficial de várias organizações internacionais. Cabe aos países lusofalantes empreender esforços para que a língua portuguesa seja adotada como língua de trabalho nas organizações internacionais, papel que a criação de uma Comunidade de Países de Língua Portuguesa poderá reforçar.

Entre as perspectivas de regionalização e de globalização – mormente de natureza econômica – surgem perspectivas culturais, em que o uso das línguas tem um papel fundamental, até porque os espaços regionais não são excludentes. A língua tem o papel de liame, aproximando culturas, algumas de natureza tridimensional, como é o caso da cultura brasileira, e dando substantividade a espaços localizados em três continentes, para não falar de presenças históricas.

As percepções relativas ao espaço de língua portuguesa, com exceção de situações limite como a da redução da importância do português no caso de uma opção exclusiva pela Europa – tese pessimista –, ou então a do recrudescimento da língua pela presença em novos espaços, como por exemplo, em Luxemburgo em que, no final do milênio, a população lusofalante tende a ultrapassar a população francófona – tese otimista –, incorporam várias vertentes em relação à norma culta do português europeu: português de Angola, do Brasil, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique e de São Tomé e Príncipe.

Como língua de cultura, com um vocabulário amplo, o português é falado e escrito como língua materna em Portugal e no Brasil, nos países africanos que conquistaram as suas independências nacionais nos anos 70. É em português que se exprimem expoentes das correntes literárias nacionalistas. Em África, o português, cujo ensino tem sido uma das preocupações dos governos pós-independências, pode ser considerado no futuro uma língua nacional, tal como as línguas africanas que, na medida em que passam a ser estudadas, certamente também irão ocupar o espaço que lhes é devido.

Para ler o texto completo no site da Casa das Áfricas, clique AQUI.

novas leituras brasileiras da subjetividade poética de Pessoa

setembro 9, 2009 às 10:34 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , ,

poesia fp 1931

Fernando Pessoa, por Madalena Vaz-Pinto


Poesia (1931-1935 e não datada), de Fernando PESSOA. Editora Companhia das Letras, 2009, 648 páginas.

A editora Companhia das Letras lançou há poucos meses o terceiro volume da poesia de Fernando Pessoa ortônimo a partir da edição portuguesa da Assírio & Alvim. Reúne-se aqui a poesia escrita entre 1931 e 1935, além da poesia não datada. A pesquisa realizada pelos integrantes do Espólio de Fernando Pessoa – em que se inclui a brasileira Cleonice Berardinelli, professora emérita de literatura portuguesa – tem sido da maior importância, não só por dar a conhecer uma quantidade significativa de novos textos, como pelas edições críticas e correções de versões anteriores dos textos de Pessoa. Trata-se de uma atividade que, além de um conhecimento profundo da obra do poeta exige dedicação e perseverança, dada a precariedade de muitos textos, escritos nos mais diferentes tipos de papéis e com uma caligrafia muitas vezes difícil de entender.

Só da poesia ortônima são mais se 350 poemas. Se somarmos a este número a poesia dos heterônimos e textos em prosa, fica-se diante de uma produção que impressiona, e que nos leva a concluir que Pessoa, nem sempre hábil para publicar seus textos, parecia não duvidar de seu valor, guardando na mítica arca tudo o que escrevia. Sobre a poesia que agora se publica, uma questão se coloca de início: é a presença de Pessoa na poesia ortônima distinta da dos heterônimos? Existiria aí um sujeito lírico diferente?

Os 123 inéditos incluídos neste volume fazem parte do grupo dos não datados e, como dizem as organizadoras no posfácio, “apresentam um grau de acabamento menor”, muitos apresentando lacunas, o que dificulta sua leitura e diminui o prazer da fruição. Entre os completos, na maioria poemas curtos, versos de cinco e sete sílabas, característico da poesia ortônima, destaca-se o poema dedicado a Baudelaire: “As podridões geram flores/ Bem o sei, ó alma doente/ Ó exilado dos amores/ Espírito do poente.” Outro poema sobressai, pelo tom anticlerical e jocoso: “Há um método infalível/ Conquanto pareça incrível/ De sempre ter a verdade/ É ouvir um padre ou frade./ O critério não é vário: É sempre certo – o contrário.” Em contraste com este tom leve temos num outro poema o aflorar de questões metafísicas que assombravam o ortônimo “novelo virado para dentro” como se definiu: “Se a ciência não nos pode consolar,/ Não busquemos consolo.// Não peçamos à fé que seja certa/ Mas só que seja nossa.” Por último destaca-se “O último cisne”, um dos mais extensos dados a conhecer nesta edição, e que lembra o poema Pauís, ainda muito próximo do tom simbolista, com suas imagens vagas e frases alongadas.

Uma observação deve ser feita sobre a dificuldade para a localização dos poemas inéditos: o leitor curioso tem de recorrer primeiro às notas finais para identificá-los e, só depois, a partir dos títulos ou primeiros versos, localizá-los no índice. No corpus do texto, apesar de notas com variantes textuais e datas, nada existe que os identifique, o que poderia ser acrescentado em uma próxima edição.

A novidade formal da poética de Pessoa, com a criação dos heterônimos, cada um deles com temas, estilo e dicção próprios, constitui um desafio para os estudos literários. Como ler estes textos? Separadamente, como se cada um constituísse um poema autônomo? Mas como ignorar que todos remetem para um mesmo autor? Uma subjetividade poética que se apresenta plural e descentrada, aponta indubitavelmente para a crise do sujeito cartesiano, uno e idêntico a si, certo da propriedade do seu pensamento. As diferenças virão por conta da forma como se ler essa crise, sintetizada nas palavras fragmentação e multiplicidade. São duas noções, dois conceitos, pode-se dizer, que determinam as principais interpretações da poética de Fernando Pessoa. Uma leitura a partir da fragmentação tende a ver a poesia de Pessoa como uma solução. Pessoa fragmentou-se em várias vozes pela impossibilidade de se manter uno, em um mundo dividido onde não existe mais lugar para narrativas absolutas. Já a leitura pelo viés da multiplicidade, vê nos heterônimos a concretização de uma possibilidade, a possibilidade do sujeito, finalmente, assumir a pluralidade que lhe é intrínseca. Estaríamos então diante de uma escrita de afirmação, uma das mais potentes do mundo ocidental moderno.

Em qualquer destas hipóteses, a poesia ortônima levanta problemas por ser aquela que o poeta assinou com o seu nome: Fernando Pessoa. A tentação é retirá-la do conjunto de que fazem parte os heterônimos – Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, para citar os mais importantes – e entendê-la como uma subjetividade, senão una, pelo menos não tão mascarada. Entretanto, é justamente aí que encontramos dois poemas, verdadeiras artes poéticas, em que Pessoa expõe as bases em que assenta sua poesia. No poema “Autopsicografia”, pode ler-se na primeira estrofe: “O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.” No poema “Isto”, escrito depois, Pessoa parece responder aos que criticavam seu assumido fingimento, reiterando seu entendimento do que fosse escrever: “Dizem que finjo ou minto/ Tudo que escrevo. Não./ Eu simplesmente sinto com a imaginação./ Não uso o coração.” E, na última estrofe: “Por isso escrevo em meio/ Do que não está ao pé,/ Livre do meu enleio,/ Sério do que não é./ Sentir, sinta quem lê.”

O poeta é um fingidor, assume Pessoa, mas de que tipo de fingimento se trata? Trata-se de um fingimento estético, não ético, extra-moral, portanto, e que se realiza pelo uso da linguagem. Através dela opera-se uma alterização, um tornar-se outro, como dizia Rimbaud, o que no caso de Pessoa acontece tanto com o ortônimo como com os heterônimos. Por isso as sensações, noção central na poesia de Pessoa, são meta-físicas, formas de devir-outro, como se o poeta quisesse experimentar essa potência infinita de se outrar, pela linguagem. Separar a poesia ortônima do conjunto formado pelos heterônimos não nos leva a um lugar mais seguro, simplesmente porque ortônimo e heterônimos fazem parte do mesmo processo generalizado de ficcionalização.

Madalena Vaz-Pinto é diretora do Centro de Estudos do Real Gabinete Português de Leitura

FONTE: Suplemento Prosa & Verso, O Globo, 24/08/2009

modernidade & identidade no Portugal contemporâneo

setembro 3, 2009 às 21:47 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , ,

Miguel Vale de Almeida diz que radicais tentaram apropriar-se das questões identitárias de igualdade

PÚBLICO, 29.08.2009 – 19h41
Miguel Vale de Almeida, candidato a deputado pelo PS e fundador do BE, afirmou hoje que sectores radicais tentaram apropriar-se das questões identitárias de igualdade e condenou a divisão “histórica” entre revolução e democracia liberal.

Sétimo da lista de candidatos a deputados socialistas por Lisboa, Miguel Vale de Almeida participou na última sessão do Campus da JS, na Praia de Santa Cruz, que antecede o comício de rentrèe política do PS.

Numa sessão em que também intervieram a comissária para a Igualdade e Cidadania, Elza Pais, e a actriz Inês Medeiros (terceira da lista do PS por Lisboa), Miguel Vale de Almeida fez várias críticas aos métodos de actuação política dos sectores radicais, embora sem nunca relacionar directamente essas mesmas críticas com a actuação do Bloco de Esquerda.

“Está na hora de fazermos uma mudança na vida política, que passe por acabar com a divisão histórica entre a revolução e a democracia liberal. É uma coisa de velhos, de outra geração e já não há pachorra. Esse tipo de complexos mina a nossa política de esquerda de uma forma terrível, porque afecta a forma como se lida com as questões da igualdade”, defendeu Miguel Vale de Almeida perante uma plateia de jovens socialistas.

Antropólogo, professor universitário e homossexual assumido, Miguel Vale de Almeida referiu-se ao seu passado político logo após o 25 de Abril na União de Estudantes Comunistas (UEC) – que abandonou pouco depois, discordando da primazia absoluta e quase exclusiva que o PCP concedia às questões da igualdade sócio económica, secundarizando as restantes -, mas também ao período mais recente quando, enquanto membro da Política XXI, fundou o Bloco de Esquerda.

Na sua intervenção, Miguel Vale de Almeida lamentou o atraso histórico que Portugal teve na defesa das questões identitárias de igualdade, que começaram a ser defendidas por sectores políticos mais radicais.

No entanto, segundo o docente universitário, estas questões da igualdade, para além das relacionadas com as desigualdades sócio económicas, “não se aguentaram com a força desejada nestes segmentos mais radicais, sendo também secundarizadas nos momentos de maior tensão política”.

“Quando as questões da igualdade começam a ser defendidas por outras pessoas que não as do costume, ou quando as pessoas que as defendem já não o fazem dentro de um determinado chapéu-de-chuva político, aí o caldo fica entornado. Começa a ver-se que, de facto, havia uma tentativa de apropriação de agendas por alguns sectores políticos”, acusou.

Miguel Vale de Almeida defendeu um ideal de modernidade cosmopolita, em que um canalizador se pode assumir “gay”, exemplo que a actriz Inês Medeiros depois pegou, mas para falar sobre um ideal de “liberdade para amar”.

Inês Medeiros relacionou a sua perspectiva de liberdade com a coragem (citando Péricles da Grécia Antiga), exortando os jovens socialistas a estarem vigilantes e a assumirem sempre as suas posições com clareza.

Elza Pais, candidata a deputada do PS pelo círculo de Viseu, defendeu que nas próximas eleições legislativas está em jogo “uma escolha entre o progresso ou o retrocesso”.

“Há que terminar com as discriminações que ainda persistem, não só ao nível da lei, mas também no plano prático. Ainda identificamos discriminações de género, de orientação sexual, com as minorias étnicas ou com os imigrantes”, apontou a comissária para as questões da Igualdade e da Cidadania.

mujimbando: rotas luso-angolo-brasileiras para leituras das identidades

setembro 3, 2009 às 20:22 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , , , ,

mujimbo rosa-dos-textos

O blogue LUSOLEITURAS tem um irmão mais velho, o blogue MUJIMBO, que pus no ar no ano passado, para subsidiar cursos que ministrei nas universidades Federal e do Estado da Bahia. Tal como esclareço na Descrição desse blogue, pretende-se nele construir um ponto de vista africanista & angolanizado para as questões lusófonas. Principalmente para os estudantes da LitPort 1, o MUJIMBO oferece um conjunto diversificado de referências úteis para aprofundar os temas desta disciplina. Clicando nos links você será remetid@ para uma postagem do MUJIMBO na qual é possível acessar o texto “Você tem cultura?”, do antropólogo brasileiro Roberto  DaMatta, leitura especialmente interessante para decidir até que ponto é sociologicamente correto falar em “baixa” & “alta” cultura, em culturas “primitivas” & “desenvolvidas”. Também recomendáveis & disponíveis são “Eu e o outro”, do escritor angolano Manuel Rui, & “O entrelugar do discurso latino-americano”, do crítico brasileiro Silviano Santiago, textos que, se valendo de perspectivas & expressões distintas, problematizam as relações entre cultura, identidade & memória colonial.

Para quem desejar ampliar a navegação no MUJIMBO, recomenda-se, como disse, a leitura da Descrição &, de seguida, acessar todas as postagens, que estão ordenadas de forma progressiva & remetem a percursos variados para o conhecimento das literaturas & culturas lusófonas. Fiel às suas matrizes africanas, há também muita música no MUJIMBO, muitas canções que confirmam o enorme poder de tradução da música popular para as significações & os problemas centrais dos imaginários tropicas.

identidades: o individual, o cultural, o nacional & Stuart Hall

setembro 3, 2009 às 18:56 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , , ,

Nas duas últimas postagens penduramos exemplos de textos midiáticos & literários que podem servir de apoio para as discussões relacionadas aos temas introdutórios de nossas apresentações. Tanto na abordagem neurofisiologista de Marcelo Gleiser quanto na leitura estético-documentarista de Roberta Franco, enfatiza-se a importância em compreender as identidades como sistemas simbólicos. Ao nível pessoal, esses sistemas constituem-se pelas memórias individuais; ao nível coletivo, pela partilha de valores culturais.

Cultura pode ser muito sintetica & genericamente entendida como todo tipo de ação & reflexão humana sobre a realidade; uma realidade, por sua vez, continuamente recriada pela própria cultura. Sob um ponto de vista social e evolucionista, as culturas são estratégias de adaptação, são as estruturas materiais & imaginárias a partir das quais as comunidades humanas se organizam, se especificam & se desenvolvem historicamente. Conforme discute Stuart Hall no capítulo 3 de A identidade cultural na pós-modernidade, uma das melhores maneiras para se enxergar essas estruturas imaginárias é pela leitura das narrativas identitárias nacionais, daquelas estórias circuladas e retransmitidas cujos significados conectam “nossas vidas cotidianas com um destino nacional que preexiste a nós e continua existindo após a nossa morte” (HALL , 2006, p. 53).  Assim, em última instância, toda identidade se materializa como aquilo que Michel Foucault chamaria de uma “formação discursiva“. Para quem desejar saber mais sobre o livro de Hall, vale a pena conferir alguns bons exemplos de resenhas do mesmo, escritas por Dennis de Oliveira,   Jacqueline Ramos & por um Autor Desconhecido que pendurou a sua no sítio da Usina das Letras. Uma quarta resenha, mais detalhada e composta com esmero, é assinada pela letreira Genny Xavier, & pode ser acessada em seu blogue Baú de Guardados. Uma leitura cuidadosa desse panorama de resenhas, além de oferecer mais nitidez para um conceito-chave em nossos cursos, proporciona uma valiosa experiência de familizarização com os diversos estilos que compõem a escrita acadêmica. Com qual deles você mais se identifica?

Abaixo, uma bela foto de Stuart Hall:

stuarthall tricolor

“Diversidade – Identidade”, por Roberta Franco

setembro 3, 2009 às 1:30 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , , , , ,

“O eu no cérebro”, por Marcelo Gleiser, & pensamentos à deriva, em Fernando Pessoa

setembro 2, 2009 às 16:34 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Tags: , ,

CEREBRO

“No caso de cérebros humanos, de longe os mais sofisticados do reino animal, uma outra função essencial é exercida: o senso de individualidade”

Marcelo Gleiser é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA). Artigo publicado na “Folha de SP”, 30/8:

Nosso cérebro, tal qual o de tantos outros animais, exerce funções bem corriqueiras, como a de manter o funcionamento do corpo, as batidas cardíacas, a digestão, e a respiração, atividades que não precisam de concentração para serem feitas. Podemos dizer que são executadas pela parte do cérebro que trabalha como uma espécie de piloto automático, o “cruise control” da mente.

No caso de cérebros humanos, de longe os mais sofisticados do reino animal, uma outra função essencial é exercida: o senso de individualidade, de você saber quem você é, de como você se encaixa na sociedade e no mundo.Os cientistas estão aprendendo cada vez mais sobre como o cérebro humano mantêm o senso individual de ser ele mesmo – um senso misterioso desde os primórdios da humanidade, às vezes chamado de alma.

Neurocientistas estudam corriqueiramente a atividade cerebral, com a ajuda de instrumentos sofisticados como a PET (tomografia por emissão de pósitrons) e a fMRI (imagem por ressonância magnética funcional), que medem o fluxo sanguíneo: quanto maior o número de neurônios ativos, mais oxigenação é necessária e maior é o sinal registrado.

O que surpreendeu os cientistas foi o nível de atividade quando os cérebros dos pacientes estavam em “repouso”, ou seja, quando não estavam focados em alguma tarefa explícita, como fazer um cálculo, escrever ou ouvir música. É nesses momentos que temos nossos devaneios diurnos, quando o pensamento parece ir à deriva, comandado por si mesmo.

Quem já tentou meditar sabe o quanto é difícil “calar a mente”, acalmar a atividade incessante do cérebro. Esse estado, uma espécie de modo de atividade cerebral de fundo (ACF, para simplificar do inglês “default mode network”), parece ter características semelhantes em todos os indivíduos saudáveis, mesmo que individualmente existam diferenças.

O foco de ação ocorre principalmente na região divisória entre os dois hemisférios cerebrais e no córtex frontal e posterior. O interessante é que, quando o indivíduo exerce uma atividade intelectual, como memorizar uma lista de palavras, essa atividade de fundo diminui.

Mas, quando o indivíduo relembra memórias pessoais, ou tenta decidir entre escolhas alternativas de procedimento, o nível de ACF aumenta acima dos valores em repouso.

Juntas, as regiões de córtex frontal e posterior, engajadas em manter a ACF, parecem criar o nosso senso de quem somos, de como nos colocamos no mundo e de como procedemos como indivíduos diante de diversos desafios e escolhas alternativas. Possivelmente, esse modo de funcionamento representa o centro de operações da mente humana.

Neurocientistas vêm investigando conexões entre a ACF e patologias psiquiátricas, da esquizofrenia à síndrome de estresse pós-traumático. Em um estudo com 115 esquizofrênicos e 130 pessoas saudáveis, realizado por Vince Calhoun e seus colaboradores da Universidade do Novo México, alguns dos processos relativos à ACF jamais “desligavam”, dificultando que eles conseguissem se concentrar em tarefas comuns.

Outro estudo, com mulheres que sofreram traumas na infância, indicou falhas na conectividade entre os vários subprocessos da ACF. É sabido que pacientes com esse tipo de síndrome traumática podem perder o senso de identidade por um certo período de tempo.

Aparentemente, a ACF vai criando ligações e desconectando outras conforme a criança vai crescendo. Nosso senso de quem somos vai mudando até a idade adulta, quando fica mais rígido. Ao menos para a maioria das pessoas.

(Fonte: Jornal da Ciência)


fernando boiam pensamentos

Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

Fernando Pessoa (4-8-1930)


Entries e comentários feeds.