2011-I: boas vindas

março 13, 2011 às 22:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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PERUGINO_Ingegno                revolta melanc

quebracabeça lusofono

Com esta postagem iniciamos nosso trabalho neste semestre letivo, a ser desenvolvido nas disciplinas Literatura Portuguesa II, que enfocará estudos sobre o barroco e sobre o romantismo-realismo português, e Literatura Portuguesa IV, na qual desenvolveremos estudos comparativos entre obras literárias lusófonas que tematizam as relações étnicorraciais. Para ter acesso a uma cópia pdf dos respectivos programas, clique nos links anteriores. Nas aulas inaugurais de amanhã, 14/03, serão distribuídas cópias impressas desses programas para que iniciemos a discussão das problemáticas que balizarão os cursos.

Dentre as novidades no nosso blogue, destaque-se a adição de dois blocos de links na barra de rolagem à direita, intitulados “AFRICANIDADES” e “RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS”. As hiperligações neles relacionadas possibilitam ampliar o suporte de textos, conteúdos e informações relevantes para as atividades na LitPort IV, assim como estabelecer pontes estratégicas com referentes culturais africanos e afro-brasileiros. Ao assumir feições cada vez mais sincréticas, o LUSOLEITURAS procura efetivar aquele “compromisso de alteridades” através do qual, conforme preconiza a crítica literária sãotomeense Inocência Mata, a lusofonia adquire um significado transculturador e intercomunicativo, capaz de superar as tortuosas heranças coloniais e abrir novos e polifônicos horizontes identitários.

A crescente importância desse impulso africanizante no campo das literaturas de língua portuguesa ficou patente durante a VI edição do prestigiado Fórum das Letras de Ouro Preto, evento sucedido em novembro de 2010, em paralelo ao IV Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Para essa edição foram convidados e homenageados alguns dos mais importantes escritores da África Lusófona, criando-se assim memoráveis oportunidades para a interação com um grande público e para ampliar a divulgação de suas obras. Na organização desse frutuoso encontro destacou-se a professora de literatura e escritora Guiomar de Grammont, autora também de um delicioso texto, “Ler devia ser proibido”, que se tornou referencial, nos últimos anos, para a discussão acerca da função da arte literária como instrumento desalienante e emancipador –- tema, aliás, crucial para os escritores barrocos e românticos. Incluído na bibliografia da LitPort II, esse texto já se encontra pendurado no LUSOLEITURAS, sendo recomendado para todos os letreiros e letreiras, bem como para tod@s @s amantes da liberdade, que frequentam este blogue. Clicando na foto de Guiomar, logo abaixo, você pode acessar o site do Fórum das Letras e saber um pouco mais sobre o impacto causado pelos escritores africanos na antiga, e barroquíssima, capital do Brasil.      

Guiomar degrammont

Finalizando, chamamos a atenção para o MUJIMBO-TWITTER, mais um canal internético de divulgação de materiais e questões referentes às temáticas que abrangem tanto os propósitos deste blogue quanto os interesses do professor-blogueiro que o gerencia.

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literatura e liberdade: caminhos que se cruzam

fevereiro 26, 2011 às 16:57 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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LER DEVIA SER PROIBIDO

Guiomar de Grammont

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

                                                                …

Ler pode tornar o homem perigosamente  humano.

[In: PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp.71-3]

Fonte: LÍNGUA E PALAVRAS

a psicanálise da escrita

novembro 20, 2010 às 17:17 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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psicanalise escrita

No artigo transcrito a seguir alguns fundamentos da teoria lacaniana são discutidos em articulação com os problemas de “escrita truncada” e de letramento não normativo que se mostram cada vez mais frequentes na formação dos estudantes brasileiros. Intercalando passagens mais significativas deste texto, inseri alguns poemas de Fernando Pessoa nos quais descentramentos psicanalíticos, representados através de discursos introspectivos marcados pela irrupção de imagens insconscientes, entrelaçam-se aos vários outros questionamentos à modernidade que caracterizam a obra deste autor português.

 

Escrita e angústia

Anna Rita Sartore

ar.sartore@uol.com.br

RESUMO: Por constatar-se uma severa dificuldade na produção textual, por parte de futuros alfabetizadores, buscou-se balizas na psicanálise, sobretudo nos estudos da inibição e angústia empreendidos por Freud e Lacan, que permitissem desenvolver uma investigação a respeito do que gera tal dificuldade. Sustenta-se a hipótese de que há um receio, por parte do sujeito, em desvelar-se através do suporte (escrita textual) e que ele convoque afetos, desde a inibição até a angústia como forma de proteção à aproximação do desejo. Discute-se o formato operacional vigente no trabalho com a literatura dentro das instituições escolares, e a possibilidade de efetuar uma aproximação com as obras consagradas que trafegue por uma via diversa daquela cognitiva. Propõe-se que uma abordagem que autorize o subjetivo resulta numa particular transferência e sublimação de forma que a leitura se configura em autoria podendo fazer, por acréscimo, efeito de relançamento na escritura.

Palavras-chave: educação, psicanálise, escrita


Diante da necessidade de produzir um texto, mesmo dentre alunos que dominam de forma razoável o idioma, é freqüente ocorrer imobilidade e o surgimento de indícios físicos (dor, transpiração, inquietude) que talvez não seja leviano chamar de sintoma, entendendo-o como significante, ou seja, como algo do inconsciente que se mostra. São episódios que na experiência docente se mostram muito habituais para que não haja algo mais do que o operacional envolvido no processo. Refletir sobre os embaraços da escritura cotidiana dos alunos através dos postulados da psicanálise evidencia que a formalização da escrita é animada por fenômenos da ordem do inconsciente e, portanto, submetida a toda a sorte de impedimentos que a representação de si provoca para o sujeito que a efetua.

Trata-se, portanto, dos questionamentos de uma professora de futuros alfabetizadores, intrigada com a recorrência do que se supõe que seja a angústia, afeto que resguarda o sujeito de uma excessiva aproximação com os significantes da ordem do inconsciente.

Um texto, em seus aspectos constituintes, conta para sua produção com o agenciamento de elementos vindo de duas instâncias, a saber: o consciente e o inconsciente. No que toca ao consciente, visto ser o idioma identificador comum a todos os componentes de um determinado grupo social, na frase, escrita ou falada, a estrutura é diacrônica, da categoria do ordinal, linear e implica numa ordem lógica e tende à significação. Entretanto, na linguagem há também envolvido o processo primário, que por sua vez, depende do funcionamento do inconsciente. Ele é sincrônico, simultâneo e não organizado. Nele há uma sintaxe, ou seja, uma multiplicidade de significantes, (elementos expressivos do discurso) que determinam – à revelia do sujeito – suas ações e palavras.

Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se…
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro…
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora…
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim…
Há uma interrupção lateral na minha consciência…
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par…
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois…
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem…
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir…

As naus seguiram,
Seguiram viagem não sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho…

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,
Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,
Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,
Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer,
Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.
E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão…

(continua)

[Álvaro de Campos. A CASA BRANCA NAU PRETA]

Os significantes no processo primário coabitam uma desordem aparente. Lacan (1985) chamou a esse estoque de significantes de lalangue (alíngua, como se convencionou traduzir). Nesta, as associações são singulares e constituem a trilha deixada pelas primeiras experiências constitutivas do sujeito. É por isso, afirma Lacan (op. cit.), que o inconsciente só pode mesmo estruturar-se como uma linguagem, e esta é sempre hipotética visto que guarda relação com aquilo que a sustenta, a saber: a lalangue.

Lalangue (alíngua), portanto, é produção original do sujeito e é nutrida por ligações incoerentes que caem no esquecimento e não entram no ciclo da simbolização. Freud (1996, vol. V) nomeou de "energia livre" no processo primário à forma desordenada e livre dessas associações, enquanto no processo secundário fala de uma "energia ligada".

O mecanismo do recalque, cujo objetivo é manter no inconsciente as idéias e representações ligadas às pulsões, está na própria disparidade dessas duas ordens que não cessam de se interpenetrar. Em virtude dos significantes do inconsciente serem agenciados no ato da escrita há, em todo o fenômeno linguageiro, o acionamento de afetos e de um corpo que ultrapassa o físico. Esse envolvimento pode resultar em inibição de escrita.

Em situação de sala de aula, evidenciam-se diferentes embaraços de escrita, desde aquela que não se dá por falta de estruturas simbólicas significativas para o sujeito até uma determinada recusa da escrita que pode se configurar em ato, no sentido psicanalítico do termo.

Pensando-se em tudo o que envolve a elaboração da linguagem desde o nascimento, fica evidente que a criança é capturada por ela e que, em uma pareia com o adulto, as palavras resultam carregadas de afetos. Dessa forma, a escritura, por mais volitiva que aspire ser, envolve significantes do processo primário. A presença deles pode resultar numa escrita que aparente falta de habilidade com o idioma. É possível que burilar e reescrever um texto sejam tarefas de destreza movidas pela tentativa de mitigar essas marcas, substituindo-as por significantes de convenção. Isso não significa que seja possível extirpar a alíngua do texto porque, obstinada, ela reincide.

Inúmero rio sem água — só gente e coisa,
Pavorosamente sem água!

Soam tambores longínquos no meu ouvido
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo

Helahoho! Helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta…
Ela cosia à tarde indeterminadamente…
A mesa onde jogavam os velhos,

Tudo misturado, tudo misturtado com os corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror

Helahoho! Helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração

(continua)

[Álvaro de Campos. ODE MARCIAL]

Uma ocorrência freqüente na escritura de alguns alunos é o evento de trechos confusos no texto. Propõe-se que a reincidência do aparecimento de intervalos ambíguos ou sem sentido não ocorre, como é atribuído, a parco domínio da língua. Julga-se que há neles deslocamentos e condensações, fruto de elaboração inconsciente, e que rompem com o acordo tácito que há em todo o idioma para torná-lo inteligível.

A rigor, qualquer forma de linguagem – dentre elas a escrita – é metafórica, não pelo uso exclusivo de figuras de linguagem, mas sim em seu cerne, porque se não há como o sujeito representar a si próprio, tudo o que acaba por afirmar ou escrever fica aquém ou além do que pretendia. A metáfora está dessa forma presente e funciona a cada instante na linguagem cotidiana. Entretanto, mesmo as metáforas e metonímias que não são usadas volitivamente como recurso lingüístico, ou seja, quando são decorrentes de manifestação do inconsciente na escrita, de modo geral, podem manter a inteligibilidade, sendo incorporadas à tessitura do texto. Quando isso não ocorre resulta em incoerência que se credita resultante da invasão imprópria da alíngua, em outras palavras, ou seja, o sujeito inclui significantes em lugares que o discurso não comporta. Em outras palavras, trata-se de um saber inconsciente que se desvela maciçamente, à revelia do sujeito, produzindo incoerência gerada por esses significantes alheios ao saber de convenção que se imiscuem no texto.

Na escola há critérios que pretendem medir o saber. Trata-se, nesse caso, de um "saber" no sentido geral de conhecimento. A inteligência está acoplada à forma como o sujeito domina a língua (saber consciente), mas também do acesso que tem ao saber sobre a lalangue (inconsciente). Assim, o domínio da língua é necessário para as operações intelectuais, porém insuficiente para elas; é preciso mais! Esse mais é a lalangue e o desejo, que constituem como diz Lacan (1998, p. 803) esse "saber que não se sabe", saber inconsciente, ponto de arranque para toda a ação do conhecimento.

Supõe-se, na escrita, a presença de um depoimento do próprio sujeito que a produz, visto que não é razoável imaginar uma produção cultural dessubjetivada, pois não há escrita asséptica e assujeitada. Toda a escritura, desde que envolve inevitavelmente o sujeito, é, em última análise, testemunho e por isso, escrever é, muitas vezes, ultrapassar um limiar perigoso. Não é de surpreender que haja tamanha resistência, por parte de alguns sujeitos em aproximar-se de uma introspecção e que o corpo se veja convocado a cavar trincheiras contra ela através da produção de sintoma.

GRANDES MISTÉRIOS HABITAM
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz

[Fernando Pessoa]

Quer nos detenhamos no sujeito que se esquiva da escrita, quer nos voltemos para aquele cuja geração dela é imperiosa, retornamos aos afetos "inibição, sintoma e angústia" envolvidos no ato de produzir ou no ato que também é abster-se de fazê-lo.

Numa aproximação entre a escrita textual e a escrita inconsciente, procura-se localizar o quê, de afetos amarrados a significantes e efeito deles, se mostra na produção da primeira. A inibição é um afeto que ocupa uma posição muito especial na economia psíquica e Lacan (2002) afirma que ela tem a ver com a natureza essencial desse perigo. O que se teme? Diz ele: a aproximação ao desejo.

A angústia é um sinal, remete a algo de outra ordem, ou seja, ela não representa a si própria. Dirá Lacan que quando o desejo se aproxima da efetivação, a angústia aparece porque aquele se avizinhou do gozo, que é insuportável.

Lacan, no seu seminário dez (2002), grafa os sucederes afetivos (inibição, sintoma e angústia) com os quais o sujeito se depara em sua aproximação ao desejo de tal forma que os três termos não se instalam no mesmo patamar, não são homogêneos e, em vista disso, os escreve em três linhas desniveladas. Aos espaços resultantes dessa disposição, ele atribui outros afetos.

Os termos escolhidos para esse gradiente dizem algo através de sua etimologia, que vai além e que ultrapassa o fenômeno. Lacan centra-se nisso: a referência do que se passa no afeto que atinge ao sujeito, está nas próprias palavras. Sobre a inibição, primeiro afeto do grafo, diz que, em sentido amplo, está na dimensão do movimento, mesmo que metafórico. No eixo do movimento, descendo para o sintoma, Lacan propõe a emoção. Em estado da emoção é possível pensar em um grau de imobilidade, em ineficácia do poderio da vontade. Ao chegar à perturbação, Lacan insiste que há uma distância respeitável entre ela e a emoção (lémotion et lémoi). Em émoi – perturbação – tem-se a queda de potência, enquanto na emoção temos a desordem, que muitas vezes é potencializadora da ação. A perturbação é o embaraço no seu grau máximo. Na perturb(ação) está-se diante de quem não sabe o que fazer; a possibilidade de atuação conveniente parece seqüestrada. O último termo, que Lacan propõe para a terceira coluna, é o embaraço. Utilizando-se novamente da etimologia realça o imbacare de onde provém o termo e que faz alusão à barra. É isso, afirma ele, que é vivido no embaraço, o sujeito investido da barra! Como barreiras à angústia, temos ainda o acting-out, e por fim há a passagem ao ato. No acting-out, há o teatral em jogo. Dentro do cenário analítico ou fora dele, é sempre um clichê que se reproduz em uma dimensão transferencial. Lacan se refere ao acting-out como uma "transferência selvagem" que contém, como se disse, um pedido de impossível verbalização. Como última forma de evitar a angústia, temos a passagem ao ato. Se o acting-out é uma posta em cena, a passagem ao ato é saída dela. Há o curto circuito da vida mental do sujeito, impelindo-o a uma ação vigorosa. Lacan delimitou-a dizendo que essa ação é uma retirada de cena na qual, como numa defenestração ou salto no vazio, o sujeito reduz-se a objeto excluído.

De volta ao cenário escolar, entende-se a emergência desses afetos, graduados por Lacan. Diante da solicitação de escrita, supõe-se testemunhar emoção, perturbação, impedimento, sintoma, e até acting-out.

Na escola também insurgem determinadas falas verbais que sugerem envolvimento de uma resignação gozosa, e que se mostra justamente em afirmações, tais como: eu não consigo pôr a idéia no papel; me dá um branco; eu sei para mim, mas não sei escrever, e outras. Essas falas, segundo Harari (1997) podem colar-se a um outro dizer oculto, a saber: o que se há de fazer, se sou assim? Disso parece resultar um acordo de impossibilidades entre sujeitos. Se de um lado essas falas desencadeiam a tentativa, por parte dos professores, de treinar modalidades de escrita com vistas a superar a inibição (como se o que inibisse a ação fosse falta de técnicas), por outro é o gozo pela linguagem que embute uma racionalização e que reduz a inibição a um modo de ser, e como tal, inquestionável.

Na escrita um traço de percepção pode emergir já que há um trabalho intenso para fazer a língua funcionar. Esta requer abstração, triagem, escolhas e esquecimentos necessários que se dão sem supressão total de traço. Se há problema nessas operações, haverá problemas que podem chegar a impedir a escritura. Se um tema para produção textual, cuja triagem esbarra em significantes que aproximem o sujeito daqueles que ele luta por afastar de si, algo, que precisa ficar suprimido, faz efeito de paralisia, o sujeito não pode escrever! O corpo-álibi se encarrega de fazer sintoma. Dessa forma, crê-se que os afetos, desde a inibição até a angústia, de fato sejam convocados e até se mostrem em sala de aula quando o sujeito é instado a produzir escrita.

A leitura e a escrita são produções culturais e os conhecimentos psicanalíticos alertam para o caráter sublimador das obras artísticas, além de seu caráter de testemunho do sujeito, mesmo que inconsciente. Há nisso uma decorrência dos conhecimentos psicanalíticos que pode servir de norte para a escola, a saber: há algo de nós no discurso do outro, e por isso os textos literários podem gerar desejo de escritura, ou desejo de desejo de escrever. Trata-se da possível transferência com a literatura, que se constitui, dessa forma, numa notável ferramenta escolar de aproximação com o idioma.

Se a produção de texto literário é fruto de sublimação e depoimento de si, a leitura também pode sê-lo. Distante de esperar que ela gere comportamentos denominados terapêuticos, pode-se almejar que atue no sujeito por uma via que não a volitiva. Em outras palavras, que através dela se dê uma tal transferência que além de encaminhar o sujeito ao simbólico, como meio de resolução de conflito, ainda o dote de tal destreza com os significantes do idioma que lhe seja possível mitigar as marcas do inconsciente que surgem como significantes embaraçosos em sua escrita e substituí-los por aqueles de convenção.

Há elementos constituintes de uma obra consagrada que atingem o sujeito por uma via não cognitiva. Mesmo que se admita que esses elementos não sejam facilmente capturáveis (porque há de singular no circuito), eles se mostram como "pegadas" no texto e é possível operar a partir deles.

HOUVE UM RITMO NO MEU SONO.
Quando acordei o perdi.
Por que saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi ?

Não sei que era o que não era.
Sei que suave me embalou,
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou.

Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar,
Mas não morreu:  dura ainda
No que me faz não pensar.

[Fernando Pessoa]

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
— Dos que bóiam nas banheiras —
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro…

E o da criança loura?

[Fernando Pessoa. TOMAMOS A VILA DEPOIS DE UM INTENSO BOMBARDEAMENTO]

Um dos equívocos das práticas escolares com a literatura é de vetar caminhos alternativos e singulares, e o outro é pretender que a obra seja apreendida pela via cognitiva, cuja aferição fica a cargo do professor, por toda a sorte de meios. Se a forma de escutar produz efeitos na narrativa, a forma de aproximar o sujeito de uma obra produz efeito na leitura dela. O que se tem seqüestrado na leitura dentro da escola é a possibilidade de suspender certezas porque se soterra, na obra, o que há de inconciliável, dicotômico e universal e que funciona para que se instaure uma autoria da leitura. Fundando-se esta, como resultado de uma experiência compartilhada que se dá por meio de desencontro, enigma e velamento, ela orbita precisamente em torno de tudo aquilo que é desautorizado pelas práticas escolares na sua faina de a tudo higienizar.

Desde que, por constituição, uma obra está instalada inevitavelmente entre a realidade e a ficção, lembra Willemart que os fantasmas deixam na ficção, tal qual no sonho narrado "índices de sua presença como condensações, as estranhezas, os lapsos, as homofonias" (1997, p. 102). Propõe-se que alguns desses índices podem ser supostos e que são as pistas a serem relançadas fazendo enigma. A vantagem de um enigma é que ele autoriza o percurso singular dos diferentes sujeitos, até mesmo se o ponto de chegada for relativamente consensual.

Assim, trata-se de trabalhar com a literatura evitando solicitar interpretações de texto que busquem capturar intenções do autor ou da obra através de questões pouco significativas. Os enigmas centram-se na literalidade do texto, promovem retorno a ele para que o aluno ultrapasse o nível parafrástico de leitura e se engaje numa leitura-autoria, cuja fruição permita a captura de conhecimentos que trafeguem por via diferente daquela cognitiva.

Crê-se que a inibição para escritura, e os sintomas decorrentes dessa dificuldade, não podem ser atribuídos a déficit de aprendizagem no percurso escolar. Propõe-se que fatores subjetivos são desencadeados por possibilidades de desvelamento do sujeito do inconsciente através da formalização de representações que ocorrem na escrita. Entretanto, a aproximação com a literatura, de valor, pode dotar os alunos de destreza com os significantes do idioma para, com eles, camuflar aqueles que fazem efeito de inibição.

Nos recintos escolares é sempre na trilha de atribuir a dificuldade de produção textual dos alunos a algum déficit com idioma que viceja a preleção recorrente que afirma: quem lê muito, escreve melhor! Questiona-se se é possível fazer uma amarra tão decisiva entre os dois eventos; parece temerário! Entretanto, se não é possível afirmar que a leitura freqüente garanta a desenvoltura da escrita é razoável dizer que dentre aqueles que escrevem com fluência, encontraremos muitos leitores assíduos.

Os professores revelam surpresa, quando não indignação, pelo fato de os alunos não serem seduzidos pelas obras que lhe são caras ou simplesmente quando estes não mostram desejo de ler. Admitindo-se que ao menos parte dos professores são efetivamente animados pelo desejo de ler e levando-se em conta que Freud afirma que o aluno é atingido pelo inconsciente do professor, questiona-se o que houve com o desejo do professor que deveria gerar desejo de desejo no aluno.

Não há espaço para o inconsciente do professor. Sua subjetividade é esmagada por métodos uniformizantes que são produtos de consumo de validade cada vez menor e que pelo apagamento do subjetivo que pregam, suprimem, de reboque, a possibilidade de franquear criação. Sentindo-se dessa forma desabilitado, não é de estranhar que o professor se renda e opte por colocar em prática técnicas homogeneizantes, nas quais o singular é proscrito.

Ora, se é preciso resgatar a permissão para que o subjetivo seja levado em conta, quem consente isso ao professor?

Só um professor que autoriza seu subjetivo, pode suportá-lo (nos dois sentidos) no seu aluno. Nesse ponto acredita-se que não seja algo muito diverso do que precisa acontecer para que se dê um analista. Disse Lacan1 "um analista não se autoriza senão por si mesmo e por alguns outros".

Ter ciência dos fundamentos da psicanálise basta para autorizar-se? Não! Sem passar pela situação de análise, a teoria permanece apenas um conhecimento que, por si só, não impede que o sujeito veja o outro através de sua imagem e semelhança e que o ouça através de seus próprios significantes. Entretanto, os postulados psicanalíticos podem servir de fiadores para que o professor autorize suas dúvidas nos fazeres pedagógicos que ignoram o subjetivo.

Essa é uma primeira e importante contribuição da psicanálise para educação, a saber, abrir possibilidade de dúvidas nas certezas sustentadas pelas ciências pedagógicas vigentes. Se, autorizado pela dúvida, o professor puder olhar para dificuldade de seu aluno retirando dela a pecha de déficit lingüístico, ou seja, descolando-se deste significante de carência, pode encarar de forma menos persecutória a inibição do aluno para escrever e fazer um uso, que se julga mais efetivo, dos instrumentos culturais disponíveis para os fazeres escolares.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BLANCHOT, M. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

FREUD, S. Obras Completas. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HARARI R. Seminário a Angústia de Lacan: uma introdução. Porto Alegre: Artes e Ofícios Editora, 1997.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

_________ Seminário livro 5, As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

_________ Seminário livro 7, A Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

_________ Seminário livro 8, A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

_________ Seminário livro 10, A angústia. Publicação não comercial Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2002.

_________ Seminário livro 11, Quatro conceitos fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.

__________ Seminário livro 20, Mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985

__________ Seminário livro 17, O avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

__________ Seminário livro 21, Nomes do pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

LAJONQUIÈRE, L. Dos "erros" e em especial daquele de renunciar à educação.In: Estilos da clínica: revista sobre a infância com problemas. Ano II número 2, 2º semestre. São Paulo: USP, 1997.

WILLEMART, P. A pequena letra em teoria literária: a literatura subvertendo as teorias de Lacan e Saussure. São Paulo: Annablume, 1997.

1 Lacan, J. Os nomes do Pai.(2005) Classe de 09/04/74.

 

REFERÊNCIA: SARTORE, Anna Rita. Escrita e angústia. In: Anais do 6 Colóquio do LEPSI – Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas e Educacionais sobre a Infância: Psicanálise, educação e transmissão. São Paulo: USP, 2006.

leitura no Brasil, questão nacional

novembro 4, 2010 às 18:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Por que o brasileiro lê poruco Super interessante outubro [Curiosidades] Por que o brasileiro lê pouco?
Fiquemos com a resposta da maior autoridade no mundo, a UNESCO. Para o setor da ONU que cuida de educação e cultura, só há leitura onde: 1) ler é uma tradição nacional, 2) o hábito de ler vem de casa e 3) são formados novos leitores. O problema é antigo: muitos brasileiros foram do analfabetismo à TV sem passar na biblioteca. Para piorar, especialistas culpam a escola pela falta de leitores. ” Os professores costumam indicar clássicos do século 19, maravilhosos, mas que não são adequados a um jovem de 15 anos”, diz Zoara Failla, do Instituto Pró Livro. “Apresentado só a obras que considera chatas, ele não busca mais o livro depois que sai do colégio.” Muitos educadores defendem que o Brasil poderia adotar o esquema anglo-saxão, em que os clássicos são um pouco mais próximos, dos anos 50 e 60, e há menos livros, que são analisados a fundo. mas aí teria de mudar o vestibular, e isso já é outra história.
Raphael Soeiro – Revista Super Interessante – edição 284 – novembro 2010
Leia outras reportgens sobre Hábitos de Leitura no Brasil e No Mundo.
FONTE: Blog Ebooks Grátis

escrita, oralidade, imagem e inteligência: quem dá mais?

abril 6, 2010 às 14:38 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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dialogismo conflito

Alguns leitores do site da agência de notícias Carta Maior, de onde foi transcrito o artigo abaixo, posicionaram-se criticamente em relação às considerações de Luís Carlos Lopes sobre a maneira como a falta de hábitos de leitura entre os brasileiros, principalmente os mais jovens, estaria gerando um vazio intelectual nas pessoas e empobrecendo-lhes a criatividade. E você, o que acha dessas questões?

Língua, conhecimento e crítica

Com exceção das elites mais cultas e politizadas, os jovens que já ‘estudaram’ em escolas fortemente atingidas pela força dos meios de comunicação do tempo presente tendem a pensar o mundo com muitas imagens e poucas letras, pior ainda, com pouquíssimas idéias.

Luís Carlos Lopes, Carta Maior, 24/03/2010

Volta e meia aparecem nas mídias os erros crassos de alunos nos vestibulares. Normalmente, eles são coletados nas redações e se referem ao uso da língua e ao domínio de conhecimentos básicos e especializados. A chacota e a estupefação substituem um exame mais sério do problema. Ora, eles deveriam saber, se não sabem é porque são “burros”, isto é, incapazes de aprender, tal como animais! Este modo de ver e comunicar o que ocorre, encontrável em múltiplas fontes, é levado ao paroxismo e serve de explicação absolutamente falsa, derivada de preconceitos típicos visíveis na sociedade brasileira. As redações geniais e os textos sem erros apreciáveis jamais são midiatizados. Um desavisado pode imaginar que todos os estudantes sofrem da mesma dificuldade, o que é um absurdo lógico. Espetaculariza-se o erro, talvez, para esconder os acertos.

A fala de políticos oriundos das camadas populares é objeto do mesmo tratamento. Seus erros de concordância, de acordo com a norma culta da língua, são muito freqüentes e servem para armar os que odeiam os pobres e não fazem qualquer esforço para compreendê-los. A imprecisão vocabular, o uso de comparações estapafúrdias e conceitos inadequados são tratados como sinônimo de incapacidade e de falta de inteligência. Se alguém não sabe se comunicar, tal como a elite branca e letrada, também não saberá governar! Isto significaria uma tragédia para o país. Curiosamente, é comum que os acusadores sejam portadores dos mesmos problemas dos acusados. Repetem como papagaios o que ouviram em algum espaço social ou nas mídias, reafirmando práticas odiosas de discriminação racial e social. Esquecem que já viveram situações onde os governantes eram letrados e se diziam poliglotas e nada disso impediu a corrupção e a tomada de medidas contra os trabalhadores.
O fato de ser formalmente letrado não exclui a possibilidade de ‘errar’ no português culto e muito pior do que isto demonstrar incrível incapacidade de compreensão de rudimentos básicos das ciências e das artes eruditas e populares. O porte de diplomas pode ser uma arma de distinção, usada para a ascensão social e para a manutenção de empregos e de privilégios. Entretanto, isto não garante o domínio da norma culta da língua e nem mesmo do conhecimento especializado que é objeto da diplomação. Não são poucos os falantes do ‘javanês’ completamente e corretamente portadores das láureas formais dos canudos de papel. É possível chegar ao grau máximo – o doutorado – sem que se tenha um grau mínimo de verdadeiro saber. Sem deixar de lembrar, que o conhecimento acadêmico jamais substituirá àquele vivenciado por cada um, o que os distingue do ponto de vista humano, para o bem e para o mal. Nenhuma academia pode garantir a humanidade positiva de cada um de seus alunos.

Obviamente, não há santidade no desconhecimento lingüístico e na ignorância técnica, científica e artística. Na política, ninguém é santo por pouco saber. Todavia, muito pior do que a inexistência do domínio dos elementos básicos do conhecimento acumulado pela humanidade é o ato de vendê-la aos interesses do capital. Uma frase capenga com erros de construção gramatical consiste em um erro social praticado por um indivíduo que teve problemas para estudar desde sua infância. Trata-se de um problema político, contra o qual não se devem medir esforços para impedir que se repita melancolicamente no mesmo país. O que dizer dos que estudaram, dos doutores que se omitem, dos que se calam frente a qualquer iniqüidade, dos que aceitam a guerra, a fome e a miséria como fatos naturais e inelutáveis, dos corruptos diplomados na ladroagem oficial e oficiosa.

A simples leitura dos comentários dos leitores das grandes mídias indica, em profusão, a existência do mesmo problema. Na era da Internet, surgiram novas formas de comunicação escrita usadas por anônimos que adoram comentar o que lêem e, mais ainda, o que vêem, na forma de imagens fixas e em movimento. Há uma forte vontade pública de se dizer o que se pensa, mesmo que o espaço seja pequeno e a prosa seja igualmente limitada. Os leitores superaram o espaço das antigas cartas mandadas para os jornais. Eles participam em uma espécie de fórum eletrônico, onde comentam o que outros escreveram. Nas mídias de menor alcance social, como nesta onde escrevo, a tendência é a de existir um maior cuidado. Todavia, os mesmos problemas também se repetem.

Em vários programas e sítios ditos de ‘relacionamento social’, podem-se captar tendências formais de uso da língua e domínio de conteúdo especializado ou de amplo interesse público escritos do mesmo modo de sempre. Obviamente, que existem inúmeras variações e exceções. Parte-se do princípio que são os jovens os seus principais usuários, certamente, isto não é inteiramente verdadeiro. É difícil mensurar com maior precisão as faixas etárias, a origem, posição social e o local de acesso dos envolvidos. Aparentemente, esta forma de comunicação é usada principalmente pelo público adolescente e por pessoas com menos de trinta anos. Entretanto, o acesso é possível a qualquer um que possa usar um computador no sentido de tempo e de meios materiais disponíveis.

As dificuldades hegemônicas de uso da língua e de domínio dos demais conhecimentos humanos consistem em um problema político a ser enfrentado. A melhoria do nível geral de acesso ao saber possibilitaria a construção de pessoas mais dificilmente domesticáveis e, conseqüentemente, mais aptas para a construção de uma verdadeira cidadania. Em todo o mundo, quem foi capaz de ampliar e diversificar a instrução das multidões foi o sistema público de ensino. Sem ele, fica difícil imaginar que a educação seja algo além do que uma simples mercadoria ou um simulacro do verdadeiro saber. O problema é que a educação isoladamente não faz milagres. Não adianta, ter escolas com salários de fome para seus professores e com alunos que vivem em condições precárias de vida que os impossibilitam aprender. Uma política educacional, para não ser demagógica, deve considerar todos os problemas que enfrentam os entes que dela participam.

No Brasil contemporâneo, atingiu-se ao que alguns críticos chamam de videoesfera, isto é, o predomínio de uma comunicação feita por meio de imagens, inclusive as relativas às palavras, produzidas, ouvidas e lidas nos artefatos do tempo presente. A chegada a esta era foi muito rápida, tendo atropelado a escala, vivida em outros países, da grafoesfera. Passou-se para a imagem, sem se ter bem vivenciado a palavra escrita, sempre reduzida a pequenos círculos sociais. Um dos sintomas disto é o fato de haver no país a publicação anual de centenas de livros, em sua maioria, em pequenas edições, muitas vezes, alcançando não mais do que 1000 exemplares. O número dos que escrevem vem se aproximando velozmente da quantidade real de leitores. Estes, em muitos casos, jamais conheceram o livro, como objeto essencial de suas vidas. Os livros que mais vendem são os escritos por personas midiáticas e/ou os que forem amplamente publicizados nas grandes mídias, vendidos como se fossem pastas de dente ou sabonetes. Não importa a qualidade do produto e, sim, a publicidade e a sintonia com as modas e outras ligações com o espírito de época.

A era da videoesfera reforçou a velha oralidade, onde quase tudo é resolvido por meio da fala, com uma intervenção mínima da palavra escrita. Por isso, a escrita reaproximou-se da fala. Neste cenário, não é difícil compreender a inexistência de qualquer respeito à norma culta da língua. Aliás, esta é um problema porque impede qualquer modernização simplificadora que capture mais leitores e escritores. Foi construída para uma pequena minoria, desconsiderando a necessidade de se instruir às maiorias. O mesmo mecanismo permite compreender o recuo, fortemente preconceituoso, à tradição e aos sensos comuns primários que se postam contra qualquer conhecimento técnico, científico e artístico mais complexo.

Os jovens são muito afetados por todo este processo, porque já ‘estudaram’ em escolas que foram fortemente atingidas pela força dos meios de comunicação do tempo presente. Com exceção das elites mais cultas e politizadas, eles tendem a pensar o mundo com muitas imagens e poucas letras, pior ainda, com pouquíssimas idéias.

Luís Carlos Lopes é professor e autor do livro "Tv, poder e substância: a espiral da intriga", dentre outros.

o que significa “saber ler”?

dezembro 7, 2009 às 8:14 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Analfabetismo Funcional

32% dos brasileiros com ensino superior não são plenamente alfabetizados

Pesquisa indica que educação básica melhorou, mas qualidade dos cursos universitários pode estar caindo

Danilo Venticinque, revista ÉPOCA, 04-DEZ-2009

AVANÇO
A universalização do ensino básico diminuiu o analfabetismo funcional. Agora, é preciso melhorar a qualidade da leitura

Se você consegue ler e interpretar um texto como este, você faz parte de uma elite no Brasil: o seleto grupo dos plenamente alfabetizados. Segundo a pesquisa Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgada pelo Ibope nesta semana, apenas 25% da população brasileira se enquadra nesta categoria – e o número não deve crescer tão cedo.

Realizada desde 2001, a pesquisa avalia a capacidade de leitura de textos e aplicação de operações matemáticas básicas de brasileiros entre 15 e 64 anos. Neste ano, foram entrevistadas 2.000 pessoas em regiões rurais e urbanas de todo o país.

Ao contrário da alfabetização básica (capacidade de entender textos curtos), que cresceu 9% desde 2007, a alfabetização plena parece estar fora do alcance do sistema educacional brasileiro. Essa contradição aparece no estudo com um misto de boas e más notícias: por um lado, a porcentagem de analfabetos funcionais no país chegou ao seu menor patamar da história (28%). Por outro, o número de brasileiros plenamente alfabetizados não só deixou de crescer como caiu 3% em relação a 2007. Desde o início da década, o índice permanece estagnado, apesar dos avanços em todos os outros níveis de alfabetização.

De acordo com o relatório da Inaf, o problema atinge até as universidades: 32% dos brasileiros com ensino superior completo ou incompleto não podem ser considerados plenamente alfabetizados. "O número é assustador", afirma a pesquisadora Vera Masagão, uma das coordenadoras do estudo. "Ele mostra que, com a popularização do ensino superior, a qualidade pode estar caindo."

Na teoria, o ensino médio completo bastaria para que qualquer pessoa fosse capaz de compreender e interpretar textos longos. Na prática, menos da metade dos alunos comprovaram essas capacidades. "Isso tem a ver com a qualidade da escola, que é insuficiente e não garante um aprendizado mínimo", diz Vera.

Ela afirma que, caso as tendências atuais se mantenham, o analfabetismo funcional deve continuar a cair de forma acentuada – principalmente entre pessoas de baixa renda, que antes não tinham acesso nem mesmo ao ensino fundamental. Para diminuir o abismo entre a alfabetização básica e a plena, no entanto, o acesso não é o bastante: é preciso investir na qualidade.

Os quatro níveis de alfabetização, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional:

Analfabetismo

Não conseguem realizar tarefas simples que envolvem a leitura, embora consigam ler números familiares (telefones, preços, etc.).

Alfabetismo rudimentar

São capazes de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares (como um anúncio ou pequena carta), ler e escrever números usuais e realizar operações simples, como manusear dinheiro para o pagamentos. São considerados analfabetos funcionais.

Alfabetismo básico

Leem e compreendem textos de média extensão, localizam informações mesmo que seja necessário realizar pequenas inferências e resolvem problemas envolvendo uma sequência simples de operações. No entanto, mostram limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de etapas ou relações.

Alfabetismo pleno

Conseguem compreender e interpretar textos longos, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Quanto à matemática, resolvem problemas que exigem maior planejamento e controle, envolvendo percentuais, proporções e cálculo de área, além de interpretar tabelas, mapas e gráficos.

(FONTE: O Educacionista)

educação brasileira: problemas & perspectivas

dezembro 3, 2009 às 6:23 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ranking eduk BR

O descaso secular tanto dos governantes quanto da sociedade civil brasileira com a qualidade da educação coloca atualmente o país numa situação paradoxal. O vigoro crescimento econômico observado nos últimos anos tende a sustentar grandes expectativas de desenvolvimento e de distribuição de riqueza. Mas será possível consumar tais expectativas se não se resolverem os graves problemas de qualificação técnica d@s trabalhadores que presentemente são diagnosticados? Como aumentar a produtividade e, a partir daí, reivindicar melhores salários quando os indicadores apontam para deficiências básicas na escolarização d@s jovens brasileiros? Que papel cabe ao licenciado, futur@ educador, na reflexão e na ação que objetive superar essa situação? Para quem quiser um panorama sucinto acerca dos desafios que se apresentam, recomenda-se a leitura do Boletim Educação no Brasil: Saindo da Inércia?, elaborado pela Fundação Lemann e disponível para download (clique na imagem ou nos títulos linkados). O recorte inserido acima merece atenção especial dos profissionais de Letras, colocando em destaque a quantas anda a capacidade para a interpretação de textos entre os jovens. Recorde-se que não há melhor material para estimular e treinar essa capacidade do que o sempre polissêmico texto literário.  

leitura & identidade nacional

setembro 9, 2009 às 9:37 | Publicado em Uncategorized | 2 Comentários
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Brasileiro ainda lê pouco,

constata estudo da Câmara do Livro

08-SET-2009

Luiz Augusto Gollo
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro – Uma análise mais detalhada da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou aos membros da Câmara Brasileira do Livro (CBL), reunidos hoje (8) durante a 19ª Convenção Nacional, no Rio de Janeiro, que 40,7% das famílias adquirem algum tipo de material de leitura. É um percentual baixo, sobretudo se revistas e jornais estão incluídos na despesa, e mais grave ainda se for considerado outro dado revelador: gasta-se praticamente a mesma quantia em cópias e em originais de livros técnicos e didáticos.

“O preço do livro no Brasil não justifica mais o baixo índice de consumo”, afirma Rosely Boschini, presidente da Câmara. “As editoras estão buscando muitas maneiras de oferecer um produto com a mesma qualidade e mais acessível. Seria interessante o Estado transmitir aos educadores a necessidade de despertar nos alunos o gosto pela leitura”.

O estudo divulgado na convenção foi feito a pedido de oito entidades atuantes no mercado editorial, quase todas presentes à entrevista que se seguiu ao lançamento, a cargo do seu coordenador, Kaizô Iwakami Beltrão, pesquisador do IBGE e consultor. De início, ele destacou que os dados são os mais recentes disponíveis e que nova pesquisa, em andamento agora, poderá refletir uma nova realidade.

“É uma coleta de informações em 50 mil domicílios e, a princípio, mostra que maior renda e maior escolaridade estão também ligadas a maior índice de leitura. Mas isso não quer dizer que quem ganha mais ou estudou mais lê mais livros, o consumo quase sempre se refere a livros didáticos, revistas e jornais, e não a literatura”.

Na realidade, os índices mais altos de aquisição de material de leitura se relacionam a lares com estudantes, onde têm relativo destaque despesas com revistas, jornais, livros didáticos, fotocópias, livros técnicos e livros não didáticos. Mas o total não passou de 0,6% da renda familiar no ano, enquanto somaram quase 2% no período os gastos com TV, vídeo, som e microcomputador.

“É preciso difundir nas crianças não o hábito da leitura, mas sim o gosto pela leitura”, defende João Carneiro, presidente da Câmara Riograndense do Livro, que põe por terra outro mito: o de que a professora é quem desperta a criança para a leitura. “Está comprovado, por diversos estudos, que é a mãe quem primeiro incentiva a leitura. É a cultura de ler, contar histórias para o filho, antes mesmo de ele ser alfabetizado. Isto é marcante no gosto futuro pela leitura”.

O cruzamento de inúmeros indicadores da pesquisa do IBGE, na elaboração do estudo encomendado pela Câmara Brasileira do Livro, permite conclusões aparentemente óbvias, que, entretanto, traduzem realidades surpreendentes. É o caso, por exemplo, da comparação de gastos anuais da família média em 2002/2003 com vários itens contabilizados: material de leitura, R$ 110,00; tv/vídeo/som/micro, R$ 400,00; telefonia celular, R$ 180,00; e lazer fora de casa, R$ 125. “Na época, é importante lembrar, o salário mínimo era R$ 200,00”, ressalta Kaizô Iwakami Beltrão.

Rosely Boschini aplaude ideias como o Vale Cultura, mas enfatiza a necessidade de muitas parcerias entre Estado, iniciativa privada e família como a maneira mais rápida e eficaz de recuperar o terreno perdido pelo mercado do livro. E exemplifica: “O Rio de Janeiro tem, talvez, três mil bancas de jornais, o mesmo número de livrarias que existem no país. É preciso resgatar o papel da livraria, o ambiente do livro. Sabe que as pessoas só frequentam bibliotecas enquanto são estudantes? Depois não vão mais”, lamenta.

João Carneiro adianta a questão: “A leitura não é apresentada como uma coisa prazerosa, é uma obrigação escolar. Isso tem de mudar, para alcançarmos um nível como o da França, onde a literatura é agregador cultural do país, os escritores franceses são a própria França no mundo”.

A pesquisa coordenada por Kaizô Iwakami Beltrão para a Câmara Brasileira do Livro foi encomendada pelas seguintes entidades: Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), Associação Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro (AEL-RJ), Associação Nacional de Livrarias (ANL), Câmara Riograndense do Livro (CRL), Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e Instituto Pró-Livro (IPL). Foi consultora do trabalho a médica Milena Piraccini, livreira da Livraria Leonardo da Vinci, diretora da ANL e da AEL-RJ.

FONTE: O Educacionista

librarian_arcimboldo_1566

Giuseppe ARCIMBOLDO, “O bibliotecário”, 1566.


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