linguagem e identidade

setembro 23, 2010 às 23:30 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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andarilho

O HOMEM COMO PRISIONEIRO NO LABIRINTO DAS ESTRUTURAS CONCEITUAIS


O problema do significado da vida e do mundo não se apresenta à consciência como estruturas soltas e, sim, inseridas dentro de um contexto relacional[1]  que se articula para a formação do universo interior e exterior no continuum das relações de tempo e espaço. A construção dessas realidades significativas não é exatamente a tradução do que está aí, presente nas coisas, mas é aquilo que para cada um detém determinado sentido. Assim, as realidades (ens realis, ens rationis) possuem atualidade (temporalidade para a consciência) mediante o processo seletivo da ação intencional, gerando adaptação ou alienação.

Os signos e valores individuais ou sociais dão sentido à vida das pessoas e se constituem num corpo de verdades que determinam o seu agir, a sua postura frente ao mundo. Não podemos viver como homens sem raciocinar, e a verdade de cada um  induz a uma visão de mundo[2]. São lentes, pelas quais filtramos toda a compreensão da realidade. O próprio pensamento de identidade pessoal  nada mais é do que uma síntese dinâmica que agrega os diferentes aspectos mentais, formando a consciência do eu, como uma unidade própria que se projeta na dimensão espácio-temporal.

Em termos gerais, há diferentes modelos de subjetividade: o conceito de identidade pessoal como o resultado de todas as experiências passadas; a consciência moral calcada em juízos de valores; o sujeito epistemológico responsável pela formação das estruturas cognitivas e a dimensão social, manifesta pela consciência política. Esses modelos se articulam formando um  núcleo geral de conceitos que se intercomplementam num todo harmônico e pleno de significado. Quando isso acontece, se estabelece um elo de coerência entre as várias percepções da realidade e o eu realiza uma síntese dinâmica e satisfatória. Quando o sujeito deixa de realizar essa integração, surgem as contradições internas, como o resultado de uma visão fragmentada do mundo. O papel do sujeito nessa re/construção da realidade vai determinar a interação mental e os diferentes graus de adaptação social: “cooperação, competição, conflito, acomodação e assimilação[3]”. O perigo reside na cristalização de certas atitudes, na formação de estereótipos, isto é, uma conduta calcada em reproduções falsas, “(…) idéias ou imagens não logicamente fundamentadas[4]”. Via de regra, essas representações mentais são responsáveis por atitudes de cunho fundamentalista que geram exclusivismos no campo da religião, da política, do direito etc.

É impossível dizer quão longe o homem pode levar as suas próprias convicções. No testemunho da história, muitos mataram e morreram pelo que acreditavam serem verdades[5]. Com essa radicalização, o homem torna-se escravo do seu próprio discurso e dele se convence, tão sinceramente, que é capaz de dedicar uma vida inteira à consecução de suas idéias. A compreensão maniqueísta de dividir as coisas entre verdadeiro/falso ainda faz parte do cotidiano das pessoas, cria motivações, projetos de vida e uma decodificação de toda a realidade percebida. São juízos de valores que estão presentes nas mais diferentes manifestações da existência humana.

O homem está preso no labirinto de suas estruturas conceituais e nessa construção ideológica[6] investe a sua própria felicidade. Todo o processo de criação de estruturas conceituais que refletem a realidade dos valores e interesses, como a finalidade da existência, conduta legal etc., existe, porque o homem é um ser que produz significações. Segundo Heidegger:

Somente quando se encontrou a palavra para a coisa, é esta uma coisa; somente então é, uma vez que a palavra é o que proporciona o ser à coisa (…) Não falamos sobre aquilo que vemos, mas sim o contrário; vemos o que se fala sobre as coisas[7].

Também Voloshinov chega a afirmar que “sem signo não há ideologia[8]” e toda a ideologia é uma visão parcial da humanidade. Cria-se, assim, o que os lingüistas chamam de   campos de sentido porque traduzem a idéia de consciência individual, social e histórica. São referências que mostram  que 

Pessoas em todos os lugares continuam a inventar maneiras significativas de viver tomando a cultura familiar como base, isto é, a língua, a religião, os estilos de interação social, a comida, e assim por diante[9].

Essas realidades formam o pano de fundo dos pensamentos e se constituem numa prisão sígnica[10]. O homem, sendo um ser de linguagem, não tem saída, está preso no mundo dos signos e também é um signo, porque produz relações de significação. A consciência de si mesmo passa a ser a internalização de significados ou, mais adequadamente, um inter-relacionamento contínuo de significados. Há significados de passado, apreendidos; significados em apreensão e passíveis de apreensão, o que é expresso na voz de Alberto Caeiro (pseudônimo de Fernando Pessoa) como: “tristes de nós que trazemos a alma vestida!”[11].

Cada ser humano possui a sua própria visão de mundo e esse referencial é tão importante que realiza a integração das várias funções do eu – produzindo um universo de significações. A perda desse quadro de referências corresponde à perda da auto-identidade, à perda da dimensão que o eu tem desses signos e de si mesmo, enquanto um ser para um processo dinâmico de recriação.

O referencial que caracteriza o ser de linguagem é tão importante quanto a vida racional, ele traduz o mundo e aprende mediante uma relação sincrônica e de dependência entre as estruturas conceituais e os novos aprendizados, os quais percorrem um caminho determinado, de reafirmação ou negação dos pressupostos já existentes. Se estamos seguros do lugar que ocupamos no contexto onde estamos inseridos,  mergulhando no passado, trazemos à tela da memória a nossa própria história. Isto só é possível, porque de alguma forma se dá o processo de revelação e  verificação do significado da nossa experiência pessoal. E essas experiências comuns de um lado aprisionam a realidade em relações sígnicas e de outro expressam a dimensão de transcendência, de processo de reconstrução das idéias. É a experiência de estar incluso, literalmente, numa relação ontológica, “idéias que não são auto-representações mas signos daquilo que é objetivamente outro que não a idéia no seu ser como representação privada[12]”.

No des/modelar  para modelar de novo, mesmo que o homem migre para um novo paradigma, libertar-se-á de uma estrutura-modelo para se tornar cativo de outra. Não há saída, não há forma de romper com o passado sem se abrigar em outras servidões. As nossas idéias nos definem, nos transformam e a luta pelo novo, pela mudança, é continuidade enquanto somos capturados em novos vínculos. Contudo, se é impossível a existência humana sem esse suporte, tal não pode ser absolutizado  com a promoção da cultura da intolerância, a ponto de se tornar difícil a convivência com outras percepções da realidade. Na sociedade pós-moderna, a cultura da intolerância está assumindo proporções perigosas; o divergente/diferente não só não é aceito, como se cria uma série de obstáculos à sua existência no convívio social[13].

O caminho da diversidade na unidade, do pluralismo, da inclusividade,  parece ser a única resposta aceitável. Saber conviver com pontos de vista discordantes   -   o embate das idéias  -  aprofunda ou derriba as nossas certezas parciais, provisórias e precárias[14]; isso só é possível quando não nos submetemos ao germe da radicalização.

REFERÊNCIAS

ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado, Rio de Janeiro: Graal, 1983.

ANSART, Pierre. Ideologias, conflitos e poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

ARENDT, Hannah. A Condição Humana, Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1995.

BONOMI, Andrea. Fenomenologia e Estruturalismo. São Paulo: Perspectiva, 1974.

BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo: Cultrix, 1973.

CARVALHO, Irene Mello. Introdução à psicologia das relações humanas. Rio de Janeiro: RGV, 1976.

Correio do Povo, Empresa Jornalística Caldas Júnior, Porto Alegre, 14.08.1999.

DEELY, John. Semiótica Básica. São Paulo: Ática, 1990.

EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: UNESP, 1997.

HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência Como Ideologia. Lisboa: Edições 70, 1968.

___. Consciência Moral e Agir Comunitário. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 1989.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. 5 ed. Petrópolis: Vozes, 1995.

___. Carta sobre o humanismo. Lisboa:  Guimarães, 1987.

LEPARGNEUR, Hubert. Esperança e Escatologia. São Paulo: Paulinas, 1974.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975.

MERLEAU-PONTY, apud  BONOMI, Andrea. Fenomenologia e estruturalismo. São Paulo: Perspectiva, 1974.

PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos. 7ª. Ed. Rio de Janeiro: 1995, p. 64.

RECTOR, Mônica.; NEIVA, Eduardo. Comunicação na era pós-moderna. Petrópolis: Vozes, 1997.

RORTY, Richard. A Filosofia e o Espelho da Natureza. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica jurídica em crise. Porto Alegre: Ed. Do Advogado, 1999.

(Extraído do livro: SILVEIRA, José de Deus Luongo da. As várias faces do direito: uma crítica ao discurso jurídico tradicional. Londrina: UEL, 2001, p. 20/25).


[1] MERLEAU-PONTY, apud  BONOMI, Andrea. Fenomenologia e estruturalismo. São Paulo: Perspectiva, 1974,  p. 9.

[2] Weltanschaung.

[3] CARVALHO, Irene Mello. Introdução à psicologia das relações humanas. Rio de Janeiro: RGV, 1976, p. 49.

[4] Id., 1976, p. 46.

[5] Nietzsche, no entanto, rompe com a idéia de se imolar pela verdade, afirmando: “Morrer pela verdade. – Não nos deixaríamos queimar por nossas opiniões: não estamos tão seguros delas. Mas, talvez, por podermos ter nossas opiniões e podermos mudá-las.” (apud Candido. A Crise dos Paradigmas Modernos. 1995, p. 1 (http://www.hotnet.net/~candido/paradigmas.html).

[6] Gouldner descreve a ideologia como “o reino da exaltação do espírito, onde habitam o doutrinário, o dogmático, o apaixonado, o desumanizante, o falso, o irracional e, é claro, a consciência extremista.” In: The Dialectic of Ideology and Technology, London, 1976, p. 4 (apud EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: UNESP, 1997, p. 18).

[7] STRECK, Lenio Luiz. Hermenêutica jurídica em crise. Porto Alegre: Ed. Do Advogado, 1999, p. 175.

[8] EAGLETON, Terry. Ideologia. São Paulo: UNESP, 1997, p. 172.

[9] RECTOR, Mônica.; NEIVA, Eduardo. Comunicação na era pós-moderna. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 93.

[10] Para  Deely: “Ser um signo é uma forma de prisão a um outro, ao significado, o objeto que o signo não é mais que, todavia, representa e substitui.” (DEELY, John. Semiótica Básica. São Paulo: Ática, 1990, p. 54).

[11] PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos. 7ª. Ed. Rio de Janeiro: 1995, p. 64.

[12] Id. p. 29.

[13] Marcos Rolim: “Vivemos uma cultura de intolerância, de não aceitação das diferenças. Basta olhar os prédios e as ruas que não foram planejadas considerando os portadores de deficiência física. Os programas infantis são apresentados por loiros, os surdos não têm reconhecida sua linguagem, os homossexuais são ridicularizados, os soropositivos perdem empregos e os doentes mentais são condenados à incapacidade e periculosidade.” (In: A Assembléia combate ‘cultura da intolerância’, Correio do Povo, Empresa Jornalística Caldas Júnior, Porto Alegre, 14.08.1999, p. 7).

[14] As verdades absolutas podem ser admitidas num  plano metafísico e espiritual. No mundo fenomenológico não há verdades absolutas, caso contrário como poderíamos explicar os avanços da ciência (Vide KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975).

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um LUSOLEITURAS mais dialógico & polifônico

março 25, 2010 às 3:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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discursos

A ideia-chave para compreender o conceito de “dialogismo”, conforme este foi proposto pelo linguista e crítico literário russo Mikhail Bakhtin, é a de interação. Uma ideia que, entretanto, não deve ser desenvolvida de maneira ingênua, destacando apenas as trocas harmônicas entre sujeitos comunicantes, mas pondo em foco os processos de negociação do significado, de cruzamento de referentes culturais e de reinvenção da linguagem que atravessam todos os atos linguísticos. Nas práticas cotidianas da conversa, do bate-papo, da fofoca, da discussão, da interpelação etc, práticas tão características da cultura brasileira, as forças do dialogismo intervém a todo tempo, moldando decisivamente a construção identitária que fazemos dos outros e de nós mesmos. Por outro lado, é importante ressaltar que, para Bakhtin, o mais dialógico de todos os produtos das línguas humanas era o romance, o texto romanesco. Segundo William Cereja, se as gerações atuais perderam, em certa medida, a percepção imediata desse poder dialógico no texto literário, cabe aos professores de língua no ensino básico recolocá-lo em evidência e explorá-lo pedagogicamente, tendo em vista aprimorar nos estudantes tanto o domínio sobre as formas de expressão verbal como a capacidade para interpretar e/ou gerar sentidos – isto é, para exercer uma imaginação organizadora sobre os incontáveis elementos e linguagens com que construímos a realidade. Buscando cumprir com esses objetivos, Cereja recomenda um trabalho de cruzamento entre o texto literário e outros produtos estéticos mais populares, tais como a música e o cinema, realçando convergências e dissonâncias na maneira como temas semelhantes são abordados dialogicamente em distintas linguagens artísticas. Outra sugestão metodológica interessante é a de trabalhar com um corpus diacrônico de obras, colocando em interação épocas diferentes e abrindo espaços para articulações diretas com questões da nossa contemporaneidade.     

Além das propostas de Cereja, outro exemplo de aplicações didáticas do conceito de dialogismo no (árduo) trabalho de ensinar literatura pode ser conferido no artigo A literatura nas séries iniciais no Colégio Pedro II: dialogismo e estética na sala de aula (clique no título para acessá-lo), publicado na Revista Contemporânea de Educação da UFRJ, e composto pelas professoras Glória Tonácio e Patrícia Pacheco. No LUSOLEITURAS, além de algumas mudanças no lay-out para facilitar o acesso a sites úteis para pesquisas, incorporamos na barra direita do blogue uma janela para a conta Twitter em nome do MUJIMBO, o afroblogue-irmão-mais-velho do LUSOLEITURAS, e também uma enquete a ser periodicamente renovada. Concebido sob uma perspectiva polifônica que privilegia, no melhor espírito bakhtiniano, as conjugações entre vozes múltiplas e diferentes e a hibridização dos significados, o MUJIMBO está em fase de reestruturação, mas os valiosos conteúdos sobre as relações afro-luso-brasileiras — especialmente interessantes para @s estudantes da LitPort IV — continuam disponíveis no blogue, acrescentando-se outras referências através da twittagem, que pode ser monitorada aqui no LUSOLEITURAS. Para iniciar as enquetes, retomamos em termos diferentes o debate acerca das competências fundamentais que habilitam @ profissional das Letras para a excelência em seu trabalho. Confiram o painel de votação no lado direito do blogue, e dêem sua opinião.

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modelo de resumo: recordando

março 20, 2010 às 2:53 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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olhar humanistico Tornamos a chamar a atenção para o interessante artigo de uma Tríade de pesquisadoras da UNICAMP que também se propõem a repensar fundamentos das práticas pedagógicas nos cursos universitários (clique na imagem para lê-lo na íntegra). Especialmente para @s estudantes da LitPort 2, a discussão entabulada pelas autoras pode sugerir aplicações concretas para nossos futuros estudos acerca do caráter re-humanizante e emancipador da estética romântica. De imediato, para ambas as turmas, coloca-se a questão: até que ponto o trabalho pedagógico com o texto literário pode ser articulado às preocupações destacadas pelas autoras? Bom tema para desenvolver na seção de comentários desta postagem, né?

Atentar também para o uso adequado que as pesquisadoras fazem, na redação do resumo, dos operadores verbais característicos do estilo acadêmico de escrita, sem deixar, inclusive, de incorporar elementos coloquiais, assim confirmando as interfaces fluentes entre a língua do dia-a-dia e a objetividade requerida pelo discurso científico. Fluência já percebida por um dos mais ilustres escritores do Barroco português, Francisco Rodrigues Lôbo, que recomendava expressamente, para os amantes da linguagem, o “falar vulgarmente com propriedade”, competência bem definida numa barroquíssima metáfora registrada em uma de suas obras mais importantes, A Côrte na aldeia (1619): “assim como a melhor pintura é a que retrata com mais semelhança a obra da natureza,… assim a melhor escritura é a que retrata com mais semelhança a fala”, proclamava Lôbo. Clique na imagem abaixo e saiba mais sobre este escritor no site do Projecto Vercial. 

francisco_rodrigues_lobo


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