pós-colonialismo & negritude em língua portuguesa

junho 20, 2011 às 4:45 | Publicado em Uncategorized | 2 Comentários
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BIBLIOGRAFIA TEÓRICA (parcial):

Ementa do minicurso.

MUNANGA, Kabenguele. Negritude: usos e sentidos. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. (trechos)

MARGARIDO, Alfredo. Alienação, independentismo, negritude, mulatismo e negrismo nas poesias africanas de expressão portuguesa. In: Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: A Regra do Jogo, 1980.

MARGARIDO, Alfredo. Poetas de São Tomé e Príncipe (Prefácio). In: Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: A Regra do Jogo, 1980.

OLIVEIRA FILHO, Jesiel Ferreira de. Hibridismo e poder na família nacional brasileira: o ‘caçador’ como emblema da miscigenação predatória. In: Anais Eletrônicos do III Seminário Nacional Literatura e Cultura. v.3. São Cristóvão: GELIC/UFS, 2011.

OUTROS TEXTOS TEÓRICOS PODEM SER ACESSADOS NESTA POSTAGEM, ASSIM COMO NESTA OUTRA. SEGUE ABAIXO ANTOLOGIA DOS POEMAS TRABALHADOS NO CURSO. OS POEMAS AFROBRASILEIROS PODEM SER ACESSADOS AQUI.

NEGRUME DA NOITE
(Composição : Paulinho do Reco)

O negrume da noite
Reluziu o dia
A beleza azeviche
Que a negritude criou

O negrume da noite
Reluziu o dia
O perfil azeviche
Que a negritude criou

Constitui um universo de beleza
Explorado pela raça negra
Por isso o negro lutou
O negro lutou
E acabou invejado
E se consagrou

Ilê, Ilê Aiye
Tu és o senhor
Dessa grande nação
E hoje os negros clamam
A benção, a benção, a benção

Odé Comorodé
Odé Arerê
Odé
Comorodé Odé
Odé Arerê

******************************

LANGSTON HUGHES (tradução: Carlos Machado)

THE NEGRO SPEAKS OF RIVERS

I’ve known rivers:
I’ve known rivers ancient as the world and older than the flow of human blood in human [veins.
My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.

I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln went down to New Orleans, and I’ve   [seen its muddy bosom turn all golden in the sunset.

I’ve known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

O NEGRO FALA SOBRE RIOS

Conheço rios:
Conheço rios tão antigos quanto o mundo e mais velhos que o fluxo de sangue humano nas     veias humanas.]
Minha alma se tornou profunda como os rios.

Banhei-me no Eufrates quando eram jovens as auroras.
Construí minha cabana junto ao Congo e ele me cantou canções de ninar.

Olhei para o Nilo e acima dele levantei as pirâmides.
Ouvi o canto do Mississippi quando Abe Lincoln desceu até New Orleans e vi seu seio [lamacento tornar-se ouro, ao pôr-do-sol.

Conheço rios:
Antigos, cinzentos rios.

Minha alma se tornou profunda como os rios.

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******************************

FRANCISCO JOSÉ TENREIRO

FRAGMENTO DE BLUES
(A Langston Hughes)

Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompete
toda a melancolia das noites de Geórgia;
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh! mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.

Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
– Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateau Buddy Baer
E Harlem abriu-se num sorriso branco
Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração;
– ah! ritmos negros da América
encharcam meu coração!
E se ainda fico triste
Langston Hughes e Countee Cullen
Vêm até mim
Cantando o poema do novo dia
– ai! os negros não morrem
nem nunca morrerão!

…logo com eles quero cantar
logo com eles quero lutar
– ai! os negros não morrem nem
nem nunca morrerão!

CORAÇÃO EM ÁFRICA

Caminhos trilhados na Europa
de coração em África
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não.
Ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho:
Oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) —
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama policroma da verdade do Negro
da inocência de Mac Gee) —
três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillen
de coração em África com a impetuosidade viril de I too am America
de coração em África com as árvores renascidas em todas estações nos belos poemas de [Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do Chaka-Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África,
de coração em África ao meio dia do dia de coração em África
com o Sol sentado nas delicias do zénite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros
amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que tem a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas
de olhos rubros como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop nos lábios
enquanto que à minha volta se sussurra olha o preto (que bom) olha
um negro (óptimo), olha um mulato (tanto faz)
olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho a brisa da tarde.
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou as riscas
e o coração entristece a beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África
e chora fino na arritmia de um relójio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh orgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha
e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos aliseos;
na esperança de que as entranhas hiantes de um menino antipoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.

NEGRO DE TODO O MUNDO

O som do gongue
ficou gritando no ar
que o negro tinha perdido.
Harlém! Harlém!
América!
Nas ruas de Harlém
os negros trocam a vida por navalhas!
América!
Nas ruas de Harlém
o sangue de negros e de brancos
está formando xadrez.
Harlém!
Bairro negro!
Ringue da vida!

Os poetas de Cabo Verde
estão cantando…

Cantando os homens
perdidos na pesca da baleia.
Cantando os homens
perdidos em aventuras da vida
espalhados por todo o mundo!

Em Lisboa?
Na América?
No Rio?
Sabe-se lá!…

— Escuta.
É a Morna…

Voz nostálgica do cabo-verdiano
chamando por seus irmãos!

Nos terrenos do fumo
os negros estão cantando.

Nos arranha-céus de New-York
os brancos macaqueando!

Nos terrenos da Virgínia
os negros estão dançando.

No show-boat do Mississípi
os brancos macaqueando!

Ah!
Nos estados do sul
os negros estão cantando!

A tua voz escurinha
está cantando
nos palcos de Paris.
Folies-Bergères.

Os brancos estão pagando
o teu corpo
a litros de champagne.
Folies-Bergères!

Londres-Paris-Madrid
na mala de viagens…

Só as canções longas
que estás soluçando
dizem da nossa tristeza e melancolia!

Se fosses branco
terias a pele queimada
das caldeiras dos navios
que te levam à aventura!

Se fosses branco
terias os pulmões cheios
de carvão descarregado
no cais de Liverpool!

Se fosses branco
quando jogas a vida
por um copo de whisky
terias o teu retrato no jornal!

Negro!
Na cidade da Baía
os negros
estão sacudindo os músculos

Ui!
Na cidade da Baía
os negros
estão fazendo macumba.

Oraxilá! Oraxilá!

Cidade branca da Baía.
Trezentas e tantas igrejas!
Baía…
Negra. Bem negra!
Cidade de Pai Santo.

Oraxilá! Oraxilá!

MÃOS

Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.
Mãos que na cera polida encontram o orgulho perdido do Benin.
Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro
e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:
plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim
e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.
Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,
mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva
para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres
adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças
o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.

Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra
o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.
Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.
Mãos correndo com o harmattan nuvens de gafanhotos livres
criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.
Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da ventura
e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária
e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!

Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.

Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas
Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização
Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos
Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados
Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens
Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:
Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!

Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!

Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é
dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.
Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã
criastes religião e arte, religião e amor.

Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!

CANÇÃO DO MESTIÇO

Mestiço

Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.

Mestiço!

E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição.

Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
– mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!
Mas eu não me danei…
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!…

Mestiço!

Quando amo a branca
sou branco…
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é…

CORPO MORENO

Se eu dissesse que o teu corpo moreno
tem o ritmo da cobra preta deslizando
mentia.
Mentia se comparasse o teu rosto fruto
ao das estátuas adormecidas das velhas civilizações de África
de olhos rasgados em sonhos de luar
e boca em segredos de amor.

Como a minha Ilha é o teu corpo mulato
tronco forte que dá
amorosamente ramos, folhas, flores e frutos
e há frutos na geografia do teu corpo.

Teu rosto de fruto
olhos oblíquos de safís
boca fresca de framboesa silvestre
és tu.

És tu minha Ilha e minha África
forte e desdenhosa dos que te falam à volta.

tenreiro

******************************

CRAVEIRINHA

QUANDO EU PENSO NA AMÉRICA – POEMA PARA DOREEN MARTIN (fragmento)

Na Mafalala quando eu penso na América
Não invejo os arranha-céus de Manhattan
Não me deslumbram as luzes da Broadway (…)
Na Mafalala quando eu penso na América
Um som de ‘spiritual’ geme no tal rio Mississipi
Um belo tiroteio desconsidera a vida de um transeunte (…)
Mas na história inconfundível
De Nova Orleães e Harlem
Estão lá Armstrong
Duke Ellington
Bessie Smith
Jessé Owens
Joe Louis
E Richard Wright.
E mais em toda a parte estão
Lá todos e também Ella Fitzgerald com suas vozes
Saltos
Murros e livros
A lembrar os velhos e as crianças nas machambas de algodão
E sem falta estão lá todos os negros do mundo nos ‘juke-box’
A tocar barato o que uma simples moeda quiser (…)

Mas lembrem-se que Jesse Owens foi aos Jogos Olímpicos
E contra todas as expectativas ganhou 4 medalhas de ouro
E sabem onde foi isso? Mesmo em Berlim.
Joe Louis na desforra bateu Max Schmmeling por K.O.
Armstrong dispara o trompete em cheio numa Coca-Cola
Duke Ellington faz o piano colaborar em todos os problemas
De jazz enquanto um prateado Cadillac obsceno atravessa
A ponte de Brooklin como se fosse um insulto (…)

Mas as crianças que nascem nos becos de Xipamanine
Ou nos irrespiráveis sótãos do Harlem (…)
Quando crescerem não se limitarão a cantar por cantar
Não subirão ao ringue pelo simples fato de serem pugilistas
Nem ganharão os 100 metros só por uma questão de atletismo (…)
E para já
Todos os membros da Klu-Klux-Klan
Sabem mais ou menos o que eu sinto na Mafalala
Quando eu penso na pobre e nua Marilyn
Milionária da América do Norte.

QUERO SER TAMBOR

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

ÁFRICA

Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rols-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de «strip-tease» e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do pasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meus povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.

AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE

Pai:
As maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no “écran” todo branco
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: – “Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.”

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Algezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o “Trinta-Diabos” de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de “bicicleta” à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no “xituto” Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen OSullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o “Cascabulho” para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face
e eu também Ee que musámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de se´´cuas ávidos sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza realgarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!

 

craveirinha

a criativa subjetividade do escravo

novembro 6, 2009 às 7:54 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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gloriosa_edEsp                                             pensador-bandeira

Iniciaremos hoje, na sala 106 do Bloco Didática 1, a partir das 13h, o mini-curso “Como funciona a cabeça de um escravo? Leituras de A gloriosa família”. Segue abaixo uma súmula das questões a serem levantadas ao longo dessa atividade.

Publicada em 1999, dois anos depois do laureamento do escritor angolano Pepetela com o Prêmio Camões, A gloriosa família é um nítido exemplar da vitalidade da produção literária oriunda dos países africanos lusófonos, uma produção cujo bem-sucedido arrojo experimental mobiliza recursos de ficcionalização histórica que são emblemáticos dos modos de intervenção escrita pós-coloniais. Ambientado em Luanda durante os sete anos da ocupação holandesa, entre 1641 e 1648, o romance é narrado por um escravo situado numa difusa posição “não visível e não oculta”, a partir da qual se inscreve uma mirada e um testemunho estratégicos sobre o principal entreposto da máquina escravista gerenciada pelo Império Português.

Obrigado a seguir a reboque de seu dono, o traficante flamengo Baltazar Van Dum, cumprindo uma sina de adereço semi-esquecido, este escravo pessoal representa um grau de objetificação do qual derivam imprevistos efeitos de visibilidade. Tido por mudo e retardado mental, esse indivíduo colocado na condição de bijuteria ambulante abre um estranho lugar de transparência para a discussão dos mecanismos de rasura simbólica e de reversão de valores que dinamizavam as relações de poder no mundo colonial, e que presentemente se atualizam nas diversas formas de expressão e de superação do preconceito racial.

No encontro de hoje nos concentraremos em revisitar os profundos, ainda que institucionalmente esmaecidos, laços geo-histórico-culturais entre o Brasil e Angola. Será também apresentado um breve panorama das teorias contemporâneas sobre o racismo e seus efeitos reificadores sobre a subjetividade negra. No final do encontro, serão apresentados trechos do filme Quanto Vale ou É Por Quilo?, de Sérgio Bianchi. Para saber mais sobre esse filme, clique na imagem abaixo.

quanto vale

literatura e libertação cultural

novembro 5, 2009 às 7:08 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Especialmente para os inscritos no mini-curso “Como funciona a cabeça de um escravo?”, confiram abaixo um belo e instrutivo panorama sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, no qual se destacam a importância da arte literária na renovação das sociedades africanas contemporâneas e as expectativas políticas, culturais e econômicas acerca da crescente incremento nas relações entre o Brasil e o continente onde nasceu a humanidade.

Por uma nova leitura da África
por Luciana Lana – UOL, 04-NOV-2009

Escritores anseiam por difundir a cultura de seus países e desfazer o estereótipo de um "continente exótico"

Reprodução

São 53 nações pobres, devastadas por décadas de guerra. Mas que apresentam um surpreendente "renascimento", traduzido em crescimento econômico, avanço em processos de democratização e maior inserção internacional. Considerada um "escândalo geológico" por guardar em seu subsolo a maioria absoluta dos recursos minerais globais, a África é alvo do interesse e da cobiça de um número crescente de potências econômicas. Só que ainda enfrenta o preconceito, a discriminação, não tendo se livrado da imagem de uma terra exótica, primitiva, miserável e incapaz de se reconstruir por conta própria.

Todo esse mar de contradições que circunda os 30 milhões de quilômetros quadrados do continente africano (22,5% das terras do globo) basta para indicar que é preciso conhecer melhor o que se passa por lá. As diferentes Áfricas, suas culturas, seus idiomas, as histórias de suas nações, suas potencialidades, os caminhos para o desenvolvimento de suas sociedades merecem atenção e pesquisa, para a qual a literatura originada no próprio continente tem farto material a oferecer.

A despeito da precariedade de vida, dos altos índices de analfabetismo, dos traumas ainda sofridos por anos de conflitos armados e demais adversidades, uma legião crescente de escritores de origem africana se revela, contando a história do continente em poesias, romances, contos, que, ainda hoje, reafirmam a diversidade e trazem a marca da resistência cultural. A literatura teve papel fundamental nos processos de independência política dos países africanos.

A considerar especificamente as colônias portuguesas foram intelectuais como Agostinho Neto (Angola), Jorge Barbosa (Cabo Verde), José Craveirinha (Moçambique), Marcelino dos Santos (Moçambique), José Luandino Vieira (Angola), entre outros, que se desviaram da chamada literatura colonial – alienada, feita por autores exógenos e transpassada de preconceitos – para lançar escritos carregados de sentimento nacional, consciência e indignação. "Os poetas foram os primeiros grandes líderes revolucionários na África.

Primeiro, nós escrevemos poemas com palavras de libertação, como o "É preciso plantar" (de 1953, finalizado com os versos "É preciso plantar / pelos caminhos da liberdade / a nova árvore / da Independência Nacional"); depois, muitos de nós partimos para a luta armada", conta Marcelino dos Santos, hoje com 79 anos.

À época, ele assinava seus escritos com os pseudônimos Kalungano e Lilinho Micaia. Foi fundador da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e, após a independência, em 1975, se tornou primeiro Ministro da Planificação e Desenvolvimento.

Uma boa explicação ele dá para o crescimento da língua portuguesa nas colônias e a adoção do idioma pelos escritores nos movimentos de libertação: "Nós queríamos integrar o continente. A nossa poesia dava conta de problemas que eram comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo dificultavam a difusão das nossas ideias libertárias."

O uso da língua portuguesa pela grande parte dos escritores nas ex-colônias de Portugal é motivo de polêmica até os dias atuais. É bem verdade que a expansão da língua se deu às custas de vários idiomas, que simplesmente desapareceram. Moçambique, por exemplo, contava com mais de 20 idiomas.

Em Angola, a língua portuguesa confrontou-se, em especial, com o quimbundo, que até os colonos portugueses eram obrigados a aprender. Mas houve uma "apropriação" e uma "nacionalização" da língua portuguesa por parte dos africanos. Para José Luandino Vieira, o português representou um "troféu de guerra". Após a independência de Angola, ele defendeu que esse fosse o idioma oficial do país.

Há também o registro de que o escritor Luís Bernardo Honwana, natural de Maputo, militante da Frelimo e autor do livro de contos "Nós Matamos o Cão Tinhoso", tenha respondido "a língua portuguesa é nossa também", ao ser questionado, pela plateia de uma palestra que proferiu na Universidade de Minnesota, Estados Unidos, em 1979, "por que, após a independência, os escritores de Moçambique não abandonavam a língua do colonizador?". De fato, vencidas as lutas de independência, a literatura na África ganha um tom de orgulho e a "nacionalização" da língua portuguesa pode ser observada pelo uso que vários escritores fazem de neologismos e termos de idiomas locais misturados às palavras em português. A língua foi reinventada – e, diga-se, continua a ser assim na literatura contemporânea do continente.

"Nós queríamos integrar o continente. A nossa poesia dava conta de problemas que eram comuns a toda África. Adotar a língua portuguesa foi uma estratégia, já que a pluralidade de idiomas e o enorme analfabetismo dificultavam a difusão das nossas idéias libertárias"
Marcelino dos Santos

Com suas nações independentes, os escritores passaram a defender de forma muito intensa a cultura africana e afirmar a diversidade. Era importante definir posição nas sociedades pós-coloniais. E o fizeram com extrema criatividade e liberdade, rompendo com os padrões europeus e com as normas cultas, abusando de misturas que reafirmavam suas identidades.

O negro, antes sofredor, passava a protagonizar com heroísmo. É dessa fase, por exemplo, o romance "Mayombe", de Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, que foi militante do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e é hoje um dos maiores escritores angolanos, com 16 romances publicados desde 1973. "Mayombe" foi o terceiro. Escrito entre 1970 e 1971, foi lançado em 1980, contando a história de um grupo de guerrilheiros do MPLA , em ação numa floresta, na região de Cabinda, distante da capital Luanda. Os personagens são nomeados com alcunhas de guerra – Comandante Sem Medo e Comissário Político são os principais, os heróis na grande epopeia. A guerrilha é louvada já na dedicatória: "Aos guerrilheiros do "Mayombe", que ousaram desafiar os deuses."

"Mayombe" é considerado um romance épico. O próprio isolamento do grupo na floresta é condição favorável para o desenho de uma utopia. O romance, no entanto, embute também as primeiras críticas ao movimento, ao sistema e ao que já se previa para o país após a independência.

De modo geral, passado o efeito da vitória nas lutas de libertação, a literatura africana cai na dura realidade do pós-colonialismo. E é múltipla a produção literária nesse período, em que não há mais otimismo e o sonho da transformação dá lugar à consciência crítica. Alguns autores recorrem ao passado – em romances históricos – para explicar as mazelas do presente. Também é frequente a crítica irônica. Em Angola, Manoel Rui lançou, em 1982, a novela satírica "Quem me dera ser onda", denunciando a burocracia e a corrupção, em paródias do cotidiano. O livro tem como protagonista um porco que habita o apartamento de uma família, causando transtornos. É uma crítica irônica à estrutura social pós independência, ao mimetismo dos novos ricos e ao populismo político.

Pepetela, por sua vez, lançou "O cão e os caluandas" (1985), também usando de certa ironia ao abordar a desagregação cultural, social e política. Ele fez de Luanda o microcosmo, por onde passeia um cão, revelando, em fragmentos, as vivências dos moradores da capital angolana.

No mesmo ano (1985), Pepetela lançou também "Yaka" – dessa vez recorrendo a aspectos históricos e retratando Benguela, sua cidade natal. "Yaka" é a estátua que acompanha cem anos da colonização. Em 1989, publicou "Lueji: O Nascimento de Um Império", também pontuado pela história (são retratados dois momentos separados por 400 anos). Em 1992, Pepetela manifesta de forma mais direta sua indignação pelo que se sucedeu à independência com "Geração da Utopia" – em que o próprio título adianta a temática.

Ainda que com uma colonização bastante diferente, Cabo Verde apresenta essas mesmas fases em sua literatura. O aspecto épico fica evidente na poesia de João Varela (que também assinava como João Vário e Timótio Tio Tofe), autor de "O Primeiro Livro de Notcha", publicado em 1975.

A ironia aparece na obra de Germano de Almeida, que em 1989 publicou "O meu poeta", considerado o primeiro romance nacional. Com humor e sarcasmo, Germano satiriza a realidade de Moçambique após a independência.

Na Guiné-Bissau, a crítica vem em tom um pouco mais mordaz na obra de Abdulai Sila, que inaugurou a prosa no país, com "Eterna paixão" (1994). Nesse romance, é através de um personagem afro-americano que o autor mostra o decepcionante quadro do pós-colonialismo. Um ano depois, ele publicou "A Última Tragédia", com referência ao período colonial. E, em 97, lançou "Místida", uma metáfora em que os protagonistas perdem a memória, o dom da palavra, a visão, num quadro de decadência e aniquilação paralelo ao vivido à época. Nesse mesmo ano (1997), Filinto de Barros, que havia sido dirigente do PAI GC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) e ministro na Guiné, publicou o romance "Kikia Macho", onde usa o aspecto mítico para falar da desesperança.

Maturidade e reconhecimento

O desenvolvimento da arte – e da produção – literária na África teve e tem características próprias em cada região e em cada país, sobretudo em função da colonização e da língua. Mas é fato que num período relativamente curto – desde a descolonização europeia, 1957, até os dias atuais – houve um grande amadurecimento em quase todo o continente. E o que surpreende é ter se dado num contexto de guerras civis e caos social – o pano de fundo da maior parte das obras literárias do continente ainda hoje.

Alguns dos primeiros autores são as estrelas da literatura contemporânea – o que permite, pelo conjunto de suas obras, uma análise da evolução do fazer literário. É o caso de Pepetela – cujo primeiro livro foi escrito em 1973 (antes até da independência de Angola) e o 16o romance – "O Quase Fim do Mundo" – foi lançado no ano passado. Nesse meio tempo, Pepetela se aventurou até no estilo policial, com "Jaime Bunda, Agente Secreto" (2001) e "Jaime Bunda e a Morte do Americano" (2002). O autor diz que o estilo foi apenas um pretexto para mais uma vez descrever – com humor e crítica – a sociedade angolana: "o policial (o anti-herói Jaime Bunda, paródia de James Bond) entra em todos os lados, em todos as classes e meios sociais".

Nestes dois livros, a crítica social e política já se refere ao neocolonialismo americano. Em 2005, com "Predadores", o autor denuncia as novas elites e o ambiente político que as favorece. Segundo o autor, "As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros e as que têm dinheiro não se interessam pela literatura."

Ainda que não tenham começado lá no período colonial, outros tantos autores despontaram no final da década de 80, com obras de tal qualidade, que rapidamente mereceram o reconhecimento internacional. É o caso dos angolanos José Eduardo Agualusa e Ana Paula Tavares, e do moçambicano Mia Couto. O primeiro soma mais de vinte publicações desde 1989 – são romances, novelas, poesias, contos e guias, que renderam ao autor uma grande coleção de prêmios – o primeiro deles (Prêmio Revelação Sonangol) tendo sido concedido já para o seu primeiro romance, "A Conjura".

A poetisa Ana Paula Tavares inaugura sua obra com "Ritos de Passagem". Depois passeia por contos e, em coautoria com Manoel Jorge Marmelo, publica o romance "Os Olhos do Homem Que Chorava no Rio" (2005). Seu último lançamento foi "Crônicas Para Amantes Desesperados" (2007).

Mia Couto estreou em 1983, com o livro de poemas "Raiz do Orvalho"; depois partiu para contos e, em 1992, lançou seu primeiro romance, "Terra Sonâmbula". Recebeu, entre outros, o prêmio Virgílio Ferreira – um dos mais importantes prêmios literários de Portugal – pelo conjunto de sua obra, em 1999.

Estes fazem parte de um grupo pequeno (mas crescente) de autores que têm suas obras publicadas fora de seus países – e, quase sempre, traduzidas para vários idiomas. Os prêmios literários que conquistam repercutem e fazem despontar novos talentos.

São muito poucas as editoras nos países africanos e o preço dos livros quase sempre inviáveis para a população local. "As pessoas que têm vontade de ler não têm dinheiro para comprar os livros e as que têm dinheiro não se interessam pela literatura", comenta Pepetela, contando que os escritores que publicam só em Angola vendem em torno de 2 mil exemplares, enquanto ele, publicando em Portugal, chega a vender mais de 20 mil.

Os livros também não circulam no próprio continente africano, nem mesmo entre os países da mesma língua. Escritores de diferentes nações pouco se conhecem – quase sempre são apresentados quando participam de eventos de literatura no exterior.

Foi assim, em novembro, na quarta edição da Fliporto (Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas), em Pernambuco, que teve a diáspora negra como tema e reuniu nomes importantes da literatura dos países lusófonos, além de acadêmicos e pesquisadores.

"Não há dinheiro que financie a arte literária na África. Não há condições de promovermos intercâmbio. Quase não são realizados eventos de literatura e, por isso, nós, escritores, pouco nos conhecemos. Não há recursos para que um escritor viaje a outro país africano para apresentar seu trabalho ou participar de um seminário. Em outras artes – na música, por exemplo – há mais incentivos; os artistas se movimentam mais e divulgam mais seus trabalhos", comentou Paulina Chiziane, considerada a primeira romancista de Moçambique e um dos grandes destaques na Fliporto.

Ao final do evento, emocionada, ela acrescentou: "É muito difícil o nosso acesso à literatura estrangeira. Os livros só nos chegam através do Brasil ou de Portugal e são muito caros. Então, a gente vem aprender como é a literatura do país que está ao nosso lado aqui, num encontro como esse, que às vezes acontece também na Europa. Mas aqui no Brasil é diferente. Aqui, hoje, eu aprendi que se pode fazer festa da literatura. Isso para mim é novo – esse conceito. Um ambiente onde se fala de cultura de forma cultural – é uma experiência nova para mim."

Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique – "Balada do Amor ao Vento" (1990), em que narra um amor proibido. Depois, em 1993, ela lançou "Ventos do Apocalipse", mostrando a situação da mulher durante a guerra.

"O Sétimo Juramento", seu terceiro livro, narra a história de um combatente que recorre à feitiçaria para resolver questões profissionais. "Em Niketche: uma história de poligamia" (2002), ela fala de uma prática tradicional em algumas regiões do país.

"Eu abordo assuntos polêmicos, como a poligamia, que, mesmo combatida pela Igreja e pelo sistema, agora, está a se restabelecer. Em Moçambique, há, praticamente, duas religiões: no sul e no interior, a cristã; no litoral e no Norte, a mulçumana. Os portugueses levaram a monogamia para o sul, enquanto os mulçumanos praticam a poligamia no norte. A religião define os costumes", diz Paulina.

Seu último romance – "O Alegre Canto da Perdiz" (2008) – aborda o racismo entre os próprios africanos – uma mãe negra tem filhos mestiços para "aliviar o negro de sua pele, como quem alivia as roupas de luto".

Com extrema modéstia, Paulina ainda não se acostumou com o título de romancista e diz que os livros surgiram do prazer de fazer breves anotações diárias. A modéstia é também característica da escritora Dina Salústio, autora de "A Louca de Serrano" (1998), primeiro romance de autoria feminina em Cabo Verde: "sou apenas uma mulher que escreve umas coisas".

Assim como Paulina, Dina – também em poesias e contos – retrata o universo feminino, "para mostrar o meu reconhecimento às mulheres caboverdianas que trabalham duro, que carregam água, que trabalham a terra, que têm obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume (…). Falo das mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm nenhum meio de vida escrito; falo da prostituta… Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher".

Outro aspecto em comum entre as duas escritoras é aproximarem seus textos do realismo mágico (a característica que ficou destacada na obra do colombiano Gabriel Garcia Márquez). Dina cria uma Serrano mítica – aldeia onde a vida cotidiana beira o absurdo, com seres de "estranhos costumes", animais que nunca se mexem, pedras com miolo mole e mulheres estéreis que engravidavam por milagre. A louca, assim como outras personagens femininas do livro, denuncia a violência e as privações a que são submetidas as mulheres em Serrano, como também na sociedade caboverdiana.

Para Paulina o seu "realismo mágico" nada mais é do que a própria realidade que vive, repleta de magias e mistérios. "O Sétimo Juramento" trata da feitiçaria. As pessoas da Europa não compreendem muito bem o que é isso. Me perguntavam se era um realismo mágico da América Latina. Eu não sei o que é o realismo mágico da América Latina. O que eu coloquei no livro foi a realidade da minha região", comentou, durante a Fliporto.

O evento contou ainda com outra grande revelação da literatura lusófona – o jovem Onjdaki, que, aos 31 anos, já tem 12 livros publicados, entre contos, poesias e romances.

O escritor – que também é sociólogo e roteirista – nasceu em Luanda e em sua obra, quase sempre traz a memória da infância. Ele justifica: "A experiência da infância é, em geral, muito forte." Através de uma lente de lirismo, Ondjaki vai mostrando a dura realidade de seu país na década de 80. "Eu não faço uma análise crítica do regime; até poderia, mas preferi o olhar das crianças, dizendo com inocência e imparcialidade, o que estava a se passar", explica o autor de "Bom Dia, Camaradas", romance lançado em 2001 e escrito quase que em apenas dois meses. "Um editor me perguntou se eu tinha algo sobre a independência e o período posterior. Eu respondi que sim e entreguei o livro dois meses depois."

Ondjaki é frequentemente questionado sobre o caráter autobiográfico de seus escritos e ele responde que "todo autor passa sua experiência pessoal para o livro". Diz que Luanda é uma cidade que se presta muito à ficção – "todo dia tem uma boa história, um bom mundo para contar" – mas que também há muitas "cidades inventadas" em seus textos.

Representando a Guiné-Bissau, participou da Fliporto o poeta e jornalistaTony Tcheka , lançando "Guiné, Sabura Que Dói", onde, com extrema elegância, ele aponta a destruição sofrida em seu país. O poeta menciona a fome, a criança que não tem tempo para a infância, a guerra e, principalmente, a força da mulher guineense. Essa é também a temática de seu "Noites de Insônia na Terra Adormecida" (1987).

"Eu falo da Guiné. De suas esperanças e desesperanças. E dedico o livro à mulher guineense. A mulher é a pedra angular para manter a família na Guiné. Ela é chefe de família numa sociedade machista. E ela é quem trava a prostituição, o consumo de drogas; evita a desagregação familiar e social. A sua ação tem resultados imediatos. Ela produz, vende e leva alimento para casa. No livro eu mostro isso. Não só destaco a beleza física e espiritual da mulher, mas a luta que ela trava, porque é duplamente explorada – pela sociedade e pelos seus próprios homens, os maridos. Também falo sobre as crianças. Em "Noites de Insônia na Terra Adormecida", procurei tratar de valores universais".

Tony Tcheka foi coordenador das primeiras e maiores antologias poéticas da Guiné-Bissau "Mantenhas Para Quem Luta", "Momentos Primeiros da Construção", "Antologia da Poesia Moderna Guineense" e "Ecos do Pranto" – todas com poesias em crioulo.

"Mantenhas Para Quem Luta" foi editada, logo após a independência, pelo Conselho Nacional de Cultura, reunindo poesias de um grupo de 14 jovens identificados com o movimento de libertação nacional, que ficaram conhecidos como "os meninos da hora do Pindjiguiti. "Pindjiguiti é um porto de Bissau, onde foram reprimidos estivadores e marinheiros que estavam a protestar por menos horas de trabalho e melhores salários. Houve confronto e eles foram baleados por soldados portugueses", explica.

Segundo Tcheka, nas duas primeiras antologias buscou-se poemas que abordassem, basicamente, a luta pela libertação; já na Antologia da Poesia Moderna houve uma mistura de temas e já existia maior preocupação com o estilo literário – "era uma poesia mais adulta e menos engajada, do ponto de vista ideológico". "Ecos do Pranto", por sua vez, é uma reunião de poemas que tem a criança como tema.

Tcheka explica que a razão das antologias era não haver dinheiro para publicar as obras de cada autor em separado – "então nós fazíamos esses pactos de publicação conjunta. Depois, com financiamento da União Europeia, é que foram editadas sete ou oito obras individuais. Foi a primeira oportunidade para os autores da Guiné".

Ele comenta também uma das características mais presentes na literatura africana – a oralidade: "O hábito de escrever é natural. Nós costumamos dizer que escrevemos e publicamos todos os dias. Isso porque temos como costume os encontros em que se contam estórias tradicionais, fábulas, contos infantis, cada qual com sua própria linguagem e formas de expressão. E essa é uma forma de ‘editar’. Na Guiné, esses encontros são chamados de Djumbai e sempre há um orador, um trovador. É uma tradição antiga que foi preservada e ajuda a manter as pessoas num espaço de convívio, de troca de experiências; ajuda a manter viva a criatividade artística. Esses encontros resistiram à modernidade.

É uma forma de editar adaptada às circunstâncias – já que quase não temos editoras. As pessoas perguntam aos autores se têm trabalhos publicados e, sem querer, nós respondemos ‘tenho sim, publiquei esse poema no evento tal, esse outro naquele dia…’.

Ou seja, os djumbai são momentos editoriais. Nossas sociedades não perderam a sua identidade graças à oralidade." E complementa: "O hábito de escrever é natural. Nós escrevemos e publicamos todos os dias no djumbai, encontros em que se contam histórias tradicionais, fábulas, contos infantis. Essa é uma forma de editar"

Tcheka comenta que na Guiné existem atualmente duas editoras pertencentes a dois escritores e elas publicam quase que exclusivamente os livros deles. "Não há política editorial e nenhum incentivo a autores e editores. Também faltam livrarias."

Entre 75 e 80, no entanto, ele comenta que houve maior apoio e muitos sarais culturais eram realizados nas casas de cultura e bibliotecas, "que, antes, só conheciam autores portugueses". Segundo o escritor, a Guiné-Bissau foi uma das colônias portuguesas que melhor se organizou na década de 60. Ele diz que a luta pela independência foi considerada um "ato de cultura" e que foi uma luta bem conduzida do ponto de vista político. "Depois, então, é que nós vivemos onze anos de guerra – uma epopeia que não encontra correspondência política ou econômica.

O país está em fase de estagnação com enormes prejuízos. Embora haja democracia, pluripartidarismo, a situação é catastrófica. As diferenças sociais são enormes, a educação fica em segundo plano, o país está na rota do narcotráfico. Nossa esperança é a criação de um programa para autodeterminação dos povos africanos. Vamos crer que a eleição do presidente americano possa contribuir para isso."

NA BERLINDA
Continente africano ocupa um novo lugar no cenário internacional

Um século de colonização europeia, seguido de algumas décadas de guerra. Essa é em resumo a história da África, fundamentalmente um continente enfraquecido, dominado e prostrado diante dos interesses internacionais, como costuma afirmar Carlos Moore, doutor em ciências humanas e um dos maiores especialistas em assuntos da América Latina e África.

O território africano foi dividido entre países da Europa ocidental na Conferência de Berlim, em 1885, sem que quaisquer questões étnicas e culturais tivessem sido consideradas. O Egito foi o primeiro país a conquistar sua independência em 1922; depois, África do Sul e Etiópia, nos anos 1940. A descolonização foi favorecida pela Segunda Guerra Mundial e se intensificou a partir dos anos 1960.

A independência, no entanto, não trouxe a liberdade e autonomia almejadas pelos povos africanos – "O processo de independência foi minado por relações neocolonialistas: a maioria esmagadora de líderes que chegaram ao poder já estava corrompida e entregue aos interesses hegemônicos mundiais. Tratava-se de elites coniventes com os interesses imperialistas e hegemônicos da Europa Ocidental, dos Estados Unidos e do Japão", aponta Moore.

Vencedores nos movimentos de libertação, vários líderes nacionalistas assumiram o poder em seus países logo após a independência e proclamaram uma África federativa, com um governo central. Entre esses líderes estavam os presidentes de Gana, Kwame Nkrumah; da Guiné, Sekou Touré; do Mali, Modibo Keita; do Congo Brazzaville, Alphonse Massamba Débat; da Tanzânia, Julius Nyerere; seguidos por Amílcar Cabral, na GuinéBissau; Nelson Mandela, na África do Sul; e Tomas Sankara, em Burkina Faso. "Esses líderes foram derrubados com sangrentos golpes de Estado. Em menos de trinta anos, 38 dirigentes africanos foram assassinados em circunstâncias ainda não elucidadas." Segundo Moore, em lugar destes dirigentes nacionalistas e pan-africanos é que ocuparam o poder os atuais governos, "colocados pelos países do Ocidente".

Sob esse ponto de vista, as elites e o poder dominante são os grandes fatores de atraso no desenvolvimento social das nações africanas, pois trabalham para manter o sistema desigual, exploratório, que os favorece. A opinião de Moore é compartilhada por outros estudiosos da evolução do continente que, no entanto, apontam um momento de transição e um avanço gradual nos processos de democratização dos regimes políticos, sem destacar o risco de que "novos arranjos entre elites locais e internacionais não tragam a autonomia decisória nem o desenvolvimento sustentável ao continente", como destaca José Flavio Sombra Saraiva, diretor geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI). "As economias no continente cresceram em tono de 5,6% por ano, desde o início da década. Apesar das crises políticas – na Guiné, Zimbábue, Darfur – há um processo positivo de democratização. O número de países africanos com conflitos armados caiu de 13 para 5, nos últimos seis anos", aponta Saraiva em pesquisa que desenvolve desde 1982.

No subsolo africano estão concentrados os principais minerais estratégicos para a indústria de alta tecnologia. Os 53 países são basicamente exportadores de petróleo, ouro, diamante, tungstênio, urânio e cobre. Mas só participam de 2% do comércio mundial e têm 1% da produção industrial do mundo.

Dona de 66% do diamante, 58% do ouro, 45% do cobalto, 17% do manganês, 15% da bauxita, 15% do zinco e 15% do petróleo – segundo as pesquisas do IBRI -, não é à toa que a África despertou a cobiça de outras potências emergentes, como a China, que lá desembarcou desde 1990, e também a Coreia do Sul, Índia, Turquia, Irã. "A África está no centro de uma concorrência fortíssima de interesses de todas as partes do globo; na berlinda da cena internacional contemporânea", afirma Saraiva.

Mas a imagem estereotipada de um continente exótico e primitivo é ainda prevalecente em todo o mundo – e favorece a exploração. A desinformação e o desprezo das sociedades de diferentes países em relação aos povos africanos contribuem para o enfraquecimento político das suas nações e é motivo de indignação entre os que têm consciência dessa realidade.

"A cooperação internacional virou uma indústria, tal como a indústria armamentista. É revoltante o cinismo da política internacional assim como a ignorância das sociedades no mundo inteiro. Projetos injustificáveis são feitos e só aumentam o déficit dos países africanos. Há forte entrave a produtos africanos pela política protecionista dos países do Ocidente, que pegam a matéria-prima da África, transformam e vão vender seus produtos para o mercado africano. Vamos crer que, finalmente, esse estrondo que sofreu o neoliberalismo traga uma reflexão e novas premissas – as do FMI estão em questão. O mercado não pode ser um altar inquestionável", defende Tony Tcheka.

Brasil – parceiro ou explorador

Em seus quatro primeiros anos de governo, o presidente Lula visitou mais de quinze países em sete viagens à África, o que resultou em acordos bilaterais e projetos de cooperação. A política do Brasil para África, no entanto, ainda tem muito a avançar. "O silêncio sobre o que acontece na África no debate político, nas universidades e na imprensa é indício do desinteresse generalizado pelo outro lado do Atlântico", reclama Flávio Saraiva. Ele defende a colocação do Brasil, com uma política externa voltada para a África, em posição de liderança num projeto cooperativo do Sul, reorientando o eixo diplomático e retomando um modelo de inserção internacional voltado para o desenvolvimento sustentável – mais produtivista e menos financista.

Carlos Moore, por sua vez, faz uma avaliação bastante objetiva da relação BrasilÁfrica: para ele está claro que há no Brasil um setor de ponta na economia, interessado em ter acesso às matérias-primas e ao mercado africano – crescente e excelente para escoamento de produtos manufaturados. Há também, segundo Moore, as elites eurocêntricas e europeizadas, admiradoras dos métodos norte-americanos, que não consideram a África como parceira a se respeitar, mas como continente provedor de escravos, digno de ser explorado e humilhado.

Essas elites têm, em suas mãos, os meios de comunicação e forjam imagens distorcidas que podem permitir que a opinião pública e a sociedade civil se mostrem omissas e coniventes com a exploração na África. "São forças conservadoras, tradicionalmente negrofóbicas, que herdaram um desprezo para com o continente africano que as cega ao ponto de se oporem ao desenvolvimento de relações econômicas entre suas empresas e os países africanos, embora essas relações favoreçam às suas próprias economias", disse o professor em entrevista ao Jornal Ìrohìn, em 2007.

A política africana que o Governo Lula pretende estabelecer junto a um conjunto de empresas brasileiras, para Moore, representa os interesses de grupos com uma visão bem mais ampla do que essas elites retrógradas que desprezam o continente. Entretanto, há uma forte tendência de o país repetir na África a relação neocolonial que outras potências já estão adotando. "Os chineses não estão nem um pouco preocupados se os trabalhadores empregados estão protegidos sindicalmente ou não. Eles estão simplesmente interessados em dispor de uma força de trabalho mais barata e se apropriar dos recursos do continente, pagando o menos possível."

A pressão da sociedade civil é, na opinião de Moore, a única forma de garantir que as empresas brasileiras atuantes no continente africano cumpram um código de conduta ética e evitem relações neoimperialistas.

Mas, para isso, a sociedade civil precisa de informação sobre a África e – conforme escreveu Flávio Saraiva – "as escolas continuam afônicas de estórias da África; as tragédias e genocídios ganham a cor espetacular das telas televisivas, enquanto as experiências de estabilização e crescimento econômico assim como as iniciativas políticas de redução da pobreza e das doenças endêmicas na África são silenciadas".

"Penso, muitas vezes, em Angola e no Brasil como dois irmãos separados durante a infância. Quando um dia se reencontram, o irmão rico ignora o pobre; o pobre, pelo contrário, conhece tudo sobre o rico, as suas vitórias e os seus dramas, e incomoda-o a ignorância do irmão."
José Eduardo Agualusa

BEM ALÉM DA ORTOGRAFIA
Artistas e intelectuais defendem projetos de integração mais amplos entre os países de língua portuguesa, sobretudo entre o Brasil e África lusófona

O Brasil precisa conhecer a África. Essa é uma reclamação feita em coro nos países da África lusófona. "Nós compartilhamos alguma identidade. A língua é uma ponte que pode nos ajudar a consolidar essas nossas identidades. Pode haver uma articulação oficial entre os países, mas eu acredito que a integração deveria ser motivada através da cultura", defende Tony Tcheka.

A mesma opinião é do escritor Ondjaki, que, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, há dois anos, sugeriu que fossem realizados "encontros regulares, diálogos culturais, ao menos um encontro anual, reunindo os oito países que falam português como língua oficial, com a participação de escritores, pintores, músicos…"

Ondjaki identifica o surgimento de uma geração nova de artistas trabalhando, em diferentes áreas, o conceito de uma África moderna. "Nós recusamos a compaixão para com o continente africano; recusamos a visão exótica, idiótica, que fazem, às vezes, da nossa literatura. E apostamos em uma modernidade africana, que tenha uma expressão livre."

José Eduardo Agualusa, sócio no Brasil da editora Língua Geral, que só publica autores dos países lusófonos, é outro a reforçar essa ideia e sugerir, de forma direta, medidas que podem facilitar o intercâmbio cultural entre o Brasil e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop): "eliminação de taxas alfandegárias sobre livros, discos, filmes e outros produtos culturais; apoio à edição de livros de autores brasileiros nos Palop e de africanos no Brasil; oferta de bolsas de criação artística para escritores residentes e prêmios, em diferentes áreas, para trabalhos de aproximação entre os povos; criação de um "passaporte lusófono"; apoio à criação de meios de comunicação que se proponham a estabelecer pontes culturais entre os países de língua portuguesa". Essas foram algumas das ideias que o escritor apresentou no Fórum Brasil África – Política, Cooperação e Comércio, realizado em Fortaleza, há cinco anos.

Na ocasião, Agualusa emocionou o público, ao discursar: "Penso, muitas vezes, em Angola e no Brasil como dois irmãos separados durante a infância. Um partiu para terras distantes e prosperou. O outro ficou na aldeia natal, mas foi seguindo sempre, através dos jornais, através das televisões, o destino do irmão. Quando um dia se reencontram, o irmão rico ignora o pobre; o pobre, pelo contrário, conhece tudo sobre o rico, as suas vitórias e os seus dramas, e incomoda-o a ignorância do irmão."

Para os escritores, o acordo ortográfico foi importante, mas de muito pouco alcance para a integração almejada. "O que inviabiliza a leitura dos livros são os preços, quase sempre muito altos por conta dos impostos praticados entre os países", pondera Ondjaki.

Fora os artistas e intelectuais, alguns empresários também já atentam para a importância da integração entre o Brasil e a África lusófona, sobretudo no que diz respeito à educação e à transferência de conhecimentos. Há um ano, o economista Nei Cardim, Vice-Presidente do Conselho Federal de Economia, coordenou a participação brasileira no VII Encontro de Economistas de Língua Portuguesa, realizado em Maputo, Moçambique. De volta ao Brasil, após o evento, ele defendeu: "O grande avanço conseguido pelo Brasil nos diversos campos do conhecimento deve ser colocado à disposição dos africanos".

FONTE: O Educacionista, 04/11.

mini-curso de literatura angolana

novembro 1, 2009 às 22:05 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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gloriosa extensão cultura

Dando suporte ao mini-curso que ministrarei durante a VI SEMEX, seguem-se uma série de links que remetem a alguns dos textos a serem discutidos em nossos encontros. Esta atividade tem como principal objetivo veicular conteúdos e referências bibliográficas úteis para as aplicações da Lei 11645 baseadas no trabalho com a criativa e questionadora literatura angolana contemporânea. No âmbito dos objetivos da Lei, esses textos se mostram especialmente interessantes para a releitura dos processos formadores da sociedade brasileira, possibilitando o estudo contrastivo de dinâmicas estratégicas como as relações de poder escravagistas e a mestiçagem.

A partir do dia 5/11 estará disponível na xerox do campus de Itabaiana uma pasta contendo diversos textos que abordam a temática do curso sobre os pontos de vista histórico, literário e culturalista. O programa completo pode ser acessado AQUI.

Apesar da carga horária sintética, o curso se empenhará em ampliar nossos conhecimentos acerca da realidade angolana, também reconstituindo e explicitando os profundos laços geo-histórico-culturais que irmanam esta nação africana ao Brasil. Uma pioneira visão sistêmica acerca dessas relações pode ser lida na introdução de Luanda, “ilha” crioula, livro assinado pelo literato angolano Mário António Fernandes de Oliveira. Para acessar este texto, clique AQUI

No romance que discutiremos, A gloriosa família, publicado em 1998, ressaltam-se formas inventivas de representação literária dos efeitos do racismo sobre a subjetividade do negro e do valor cultural da oralidade. No intuito de embasar a exploração desses temas, recomenda-se a leitura dos textos listados abaixo:

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Visibilidade e ocultação da diferença: imagens de negro na cultura brasileira. In: FONSECA (org.). Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p.87-115.

OLIVEIRA FILHO, Jesiel Ferreira de. Narrando em silêncio: resistência e ressignificação em A gloriosa família. Feira de Santana: Seminário Dias de África, 2003.

RUI, Manuel. Eu e o outro — o invasor ou em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto. (Comunicação apresentada no Encontro Perfil da Literatura Negra. São Paulo, 23/05/1985).

ROCHA, Roberto Ferreira da. Resgate de vozes distantes: A gloriosa família. In: Metamorfoses. v.1. Rio de Janeiro: Editora Cosmos; Cátedra Jorge de Sena para Estudos Literários Luso-Afro-Brasileiros (UFRJ), 2000. p.172-178.

Muita informação sobre Angola e a literatura do país pode ser obtida navegando-se pelo MUJIMBO, o blogue-irmão do LUSOLEITURAS. Para visitá-lo, clique AQUI e pesquise pela palavra-chave “Angola”.

BOAS LEITURAS & até sexta-feira.

angola brasil


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