revisitações do romantismo: entrevista com Michael Lowy

julho 6, 2011 às 22:50 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Existe uma relação entre o romantismo e a idéia de propriedade intelectual?

Francamente, eu ignoro a história do copyright, ou da idéia de propriedade intelectual, quando é que começou, se é mesmo no século XIX, ou antes – eu nunca trabalhei essa questão. O que o romantismo tem, efetivamente, é essa idéia do indivíduo singular, do indivíduo único, dessa originalidade singular do criador, do indivíduo enquanto criador, com efeito. Quanto a isso, acho que a gente pode apontar como aspecto essencial do romantismo. Agora, não sei se realmente se coloca em termos de propriedade, francamente eu não posso me pronunciar, não posso afirmar se a idéia de propriedade intelectual surge nessa época.

Esta idéia autoral é uma criação romântica?

Não, acredito que isso sempre existiu na história da cultura. Talvez o romantismo dê uma ênfase maior, torne essa idéia mais sistemática. Por isso a imagem do escritor, do artista, do poeta romântico como um solitário, um indivíduo à margem, um maldito; enfim, um exilado dentro da própria sociedade. Isso faz parte do romantismo, no sentido de que o romântico se sente alienado dentro da sociedade moderna, ele sente que os valores que essa sociedade começa a desenvolver não lhe dão mais espaço.
Agora, o romantismo é muito contraditório, às vezes até esquizofrênico, porque, por outro lado, ele levanta com muita força a questão da comunidade, dos laços comunitários, da comunidade orgânica, do indivíduo que pertence a um grupo, de amigos, de afinidades, a uma tribo, a uma religião, a uma etnia, a uma nação, das diversas variantes disso, enfim. Essa ênfase na comunidade é contra a sociedade atual, moderna, anônima, em que os indivíduos valem por si próprios.
O romântico descreve uma rua moderna em que os indivíduos andam e não se comunicam entre si, atuam como uma multidão anônima, como um pesadelo.  Então há uma certa tensão entre os dois elementos. Quero dizer, eles não são realmente contraditórios, porque esse indivíduo singular do romantismo, esse único, esse artista totalmente original, é o oposto do indivíduo da sociedade moderna, impessoal, anônimo, um átomo, sem face, sem identidade, perdido na multidão. E por outro lado, esse indivíduo romântico, isolado, sonha por desco brir uma comunidade onde ele possa se integrar, no mínimo uma comunidade de outros artistas. E a gente vê grupos, artistas que formam grupos e realizam obras conjuntas – e aí eu tenho a impressão que a questão do direito de propriedade um pouco se dilui nessas comunidades de artistas românticos, às vezes é um que escreve e outro que assina. Um pouco como ocorre com Mary e Percy Shelley e Byron, no exílio deles. Existe uma troca de autoria nos textos deles.

O sentido de comunidade que você encontra no olhar romântico é puramente nostálgico ou visa um projeto futuro?

No romantismo sempre existe uma nostalgia do passado, um sentimento trágico de que a modernidade está destruindo os valores em que se acredita, como por exemplo o amor, um tema que volta mil vezes na literatura romântica. O amor romântico que se enfrenta com as convenções, com o dinheiro, com a riqueza.
Enfim, com a sociedade moderna. Então há uma nostalgia do passado. Por exemplo, houve épocas em que o amor, supostamente, era algo que não se comprava, não se vendia, tinha autenticidade, o que obviamente é uma idealização do passado. É o amor cortês, dos trovadores medievais. E existe realmente esse aspecto de restauração do passado no romantismo.
Agora, outros românticos transformam, investem a nostalgia do passado numa esperança do futuro. São os românticos utópicos ou revolucionários. Rousseau, por exemplo, que é um dos fundadores do romantismo moderno. Existe nele esta idéia de que o amor é impossível na sociedade moderna, por causa das convenções sociais, das desigualdades. Então, há uma utopia implícita de uma sociedade em que não haveria mais essa hierarquia social, que as pessoas de origens diferentes poderiam se amar livremente. Em Rousseau, isto ainda não está colocado como um programa, mas é implícito em suas obras.

Octavio Paz, entre outros estudiosos, dizia que o romantismo não se encerrou no seu período áureo, mas transformou-se em outros movimentos, como o simbolismo e o surrealismo. Você concorda com ele?

Sim e não. Concordo inteiramente que o romantismo é um ciclo longo, como dizem os economistas, que começa em meados do século XVIII e vai até ao século XX. E acho que permanece ativo até hoje. Efetivamente, ele atravessa todos esses movimentos, o simbolismo, o surrealismo, a beat generation. Octavio Paz é um dos poucos que entendeu que o romantismo é uma das formas fundamentais da cultura moderna, que atravessa toda a história da cultura moderna, contra as visões tradicionais da história da literatura que terminam o romantismo em 1830 ou 1840. Ele percebeu muito bem essa vitalidade do romantismo e a sua presença em todos os momentos da cultura moderna.
Mas eu diria – e não sei se aí há uma diferença para o Octavio Paz, não lembro de memória o texto dele – que o romantismo tem uma matriz comum que atravessa todo esse processo histórico, com todas as modificações. Obviamente entre o romantismo do século XIX e o surrealismo há uma diferença enorme, mas há um fio de continuidade, um fio vermelho, uma espécie de matriz comum, eu diria. Se não me engano, Octavio Paz também vai nessa direção, também identifica esta continuidade.
O romantismo nasce como um protesto contra a civilização burguesa moderna, em nome de certos valores do passado. Valores culturais, éticos, religiosos. E esse elemento está presente desde seus pioneiros, como Rousseau, até os poetas do simbolismo e do surrealismo. A relação é evidente. Agora, dentro dessa proximidade, deste elemento de identidade, há diferenças claras. O simbolismo, por exemplo, era bastante religioso, enquanto o surrealismo faz profissão de fé de ateísmo. Boa parte do romantismo do século XIX é nacionalista, valoriza as culturas locais, enquanto o surrealismo é violentamente antinacional. As diferenças são evidentes, mas a continuidade existe. Inclusive os surrealistas consideravam-se um prolongamento do romantismo, tal como na famosa frase de Breton: “Nós somos a cauda do cometa romântico, mas somos uma cauda preênsil, como aquela do macaco”.

E você vê esta continuidade romântica presente até hoje? Como ela se relacionaria com o mundo pós-moderno?

Sou bastante cético quanto a esse conceito de pós-moderno. Existe uma corrente de pensamento pós-moderno, mas a sociedade não saiu ainda do século XVI. Estamos ainda vivendo a civilização burguesa, ou capitalista, que surgiu primeiro no século XVI, e se cristalizou no século XVIII com a Revolução Industrial. É claro que de formas diferentes, mas essencialmente ainda vivemos o mesmo mundo.
Mas gostaria de voltar para o surrealismo, para a questão de indivíduo e grupo, porque o surrealismo tem esse elemento de individualidade singular, que se afirma, se manifesta em sua especificidade psíquica, seu inconsciente, em sua libido. Ou seja, na singularidade total do indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, o surrealismo é uma comunidade, e o surrealista só pode se realizar, segundo Breton, através de uma atividade coletiva. E na atividade coletiva não existe mais autor, direito autoral, copyright nem se fala… Assim, há na essência deste romantismo que perdura uma quebra dessas idéias de propriedade intelectual. Esse duplo as-
pecto que aparentemente é tão contraditório no romantismo, não é tão contraditório assim.

A essência do romantismo seria então, mais que uma restauração, uma reinvenção?

O romantismo também é nostálgico, mas ele se transforma, há uma dialética. Não é uma simples volta ao passado, mas é uma retomada do passado em direção ao futuro. Isso é muito evidente dentro do surrealismo. Eles se interessam pela alquimia, pela cabala, pelas artes primitivas, pela cultura dos trovadores da Idade Média, pelas esculturas da Oceania, por tudo que é manifestação cultural pré-moderna. Eles só encontram autenticidade nessas formas, vão se inspirar nelas, mas obviamente não no sentido de tentar reproduzí-las, de voltar para trás, mas de usá-las como ponto de partida para inventar uma coisa nova.

O próprio Breton era um colecionador de máscaras hopi.

Exatamente. Essa fascinação pelo arcaico, pelo pré-moderno, vem da idéia de que o pré-moderno continha uma autenticidade que o moderno, ao transformar sua arte em mercadoria, perde. Então para ele há uma degradação. Quer dizer, uma boneca hopi é produzida como objeto de culto, sua beleza é compartilhada pela comunidade, enquanto as cópias são fabricadas para o turismo em massa, meramente uma mercadoria, um objeto sem aura…

E hoje, como você vê a idéia de uma arte compartilhada? A idéia do Creative Commons, por exemplo?

Eu francamente tenho pouca informação sobre isso. Quero dizer, o que tenho encontrado na minha prática como autor é mais a entrega da propriedade a um coletivo militante. Você entrega um livro, digamos, ao MST, para ele publicar. E você obviamente não pede direitos autorais. Abre mão de seus direitos por algo político, com que você se identifica. Eu vejo sentido nisso, o indivíduo que abdica de seu direito em favor de um movimento, de uma coletividade. Um movimento da sua política, um movimento social. Isso eu entendo melhor. Senão, essa idéia de Creative Commons me parece um pouco abstrata.
Essa questão é mais gritante em outras áreas, que não a da cultura. O direito de propriedade sobre a medicina, por exemplo. Há toda a briga dos genéricos, de quebrar o monopólio das grandes multinacionais farmacêuticas sobre a medicina. Essa é uma batalha de vida ou morte. Ganhar essa batalha é salvar milhões de vidas, e deixar as coisas como estão é deixar que essas pessoas continuem morrendo, não permitir o acesso ao medicamento.
Outro exemplo de briga, que eu acompanhei um pouco, é a questão das sementes. Através dos transgênicos, a Monsanto adquire o controle da propriedade, do copyright da semente. Com isso, passa a controlar todo o sistema de produção, o camponês é expropriado de sua semente. Uma coisa que nunca existiu na história da humanidade. Não poder cultivar as sementes da sua própria plantação, depender de uma multinacional para isso é uma degradação terrível. Esta é uma batalha fundamental no mundo em que estamos vivendo, a briga entre independência e monopolização.

Você falou sobre ceder os direitos em nome de uma ideologia. Não há uma dádiva nisso? E esta dádiva não contém armadilhas, o desejo de um retorno?

Marcel Mauss, um famoso antropólogo francês, escreveu um belo livro que se chama Ensaio sobre a dádiva, no qual ele analisa várias comunidades tribais indígenas em que ocorre esta prática. Há lá o potlatch, por exemplo. E nesta dádiva há sempre a idéia de retorno. Você faz uma doação e espera que o outro lhe dê alguma coisa em troca. Então não é uma troca formalizada, mas uma espécie de intercâmbio de dádivas que dá sentido à vida comunitária, às relações sociais, à cultura. É uma bela análise de como, no passado, existiram culturas, civilizações, baseadas na dádiva. O que pode ser terrível. Nestas culturas, você pode esmagar um rival através de uma dádiva tão grande que não possa ser retribuída, por exem-
plo. Não há motivo para idealizações. Mas é bem interessante. Esse tema é atual, e a prova disso é que existe hoje na França um grupo de pessoas que se auto-intitulam Movimento Anti-Utilitário das Ciências Sociais, que em francês cria as iniciais M.A.U.S.S. Então, esse movimento se inspira no trabalho de Mauss para pensar uma economia, uma sociedade, uma cultura utópica, digamos, baseada nesse tipo de relação, nas dádivas, nas relações não-utilitárias. É uma idéia bem interessante. E, no fundo, é uma idéia romântica. No sentido de
que você, na crítica da civilização utilitária, da mercadoria, do capitalismo, vai buscar uma inspiração no passado, nas culturas arcaicas. E através dessa cultura da dádiva, vai buscar alternativas, tentativas solidárias de construção de um novo mundo. Bem no espírito do romantismo utópico.

Nesse sentido, a dádiva continuaria criando uma idéia de vínculo…

Ela cria um vínculo, sim. Mas não é um vínculo formal, tem um elemento gratuito, como na graça divina. Segundo os teólogos, a graça divina é gratuita, sobretudo no caso dos jansenistas e dos franciscanos. Os católicos seguem uma concepção maior de intercâmbio, você faz uma boa ação, Deus lhe paga. A dádiva sempre está entre essas duas idéias, de gratuidade e intercâmbio, vínculo.

Isso me lembrou as famosas bicicletas brancas de Amsterdã. Não sei se você se lembra da história, mas no fim da década de 1960 as pessoas ligadas ao movimento Provos, na Holanda, começaram a deixar bicicletas na rua. A idéia era que quem quisesse poderia usá-las e, chegando onde queria, as soltasse na rua para o próximo que quisesse ou precisasse usar. Esta é uma idéia bem contracultural, e de uma contracultura européia, que trouxe uma tentativa de tradução concreta da dádiva para o mundo moderno. A contracultura traz grandes traços românticos, não?

Existem esses elementos românticos, sem dúvida. Maio de 68, por exemplo, é um movimento que possui fortes traços românticos. Por isso acredito que o romantismo  continua sendo um elemento presente na cultura moderna. Marx tem uma frase interessante, ele diz que a modernidade tem seus apólogos que elogiam o progresso e o desenvolvimento, e de outro lado tem os românticos que dizem o contrário, que tudo é declínio, decadência. E ele conclui dizendo que não concorda nem com um nem com outro, mas que, enquanto existir o capitalismo, vai existir essa crítica romântica como sombra dele. Que esta sombra vai segui-lo até o dia em que o capitalismo acabar. E é verdade. Esta crítica continua, esse protesto. E que deve se agarrar em alguma possibilidade, encontrar algum vínculo. Apoiar-se em alguma coisa que já existiu, como base.

Roberto Piva, um dos maiores poetas brasileiros vivos, costuma dizer que o comunismo nasceu da costela do capitalismo, quer dizer, nunca abdicou dos valores básicos de uma revolução industrial que configura o capitalismo moderno.

De fato, o socialismo real, tal como existiu na União Soviética e em outros países da Europa oriental, era essencialmente anti-romântico, acreditava piamente na modernidade industrial, no produtivismo, na tecnologia e no Estado moderno, administrativo, eficaz. Efetivamente, há uma continuidade do modelo anterior. Claro que há uma ruptura no sentido de que há uma expropriação da propriedade privada, mas o padrão civilizatório é o da modernidade, não o do romantismo.
Mas existe um socialismo romântico, que tem uma vertente anarquista, como em Fourier. E, sobretudo, em um autor que é pouco conhecido, mas que é o arquétipo do socialista romântico, que é Gustav Landaur, um judeu alemão revolucionário que chegou a ser comissário do povo para cultura na revolução dos conselhos da Baviera, em 1919. A revolução durou uma semana, foi derrotada, e ele foi assassinado pelo exército. É uma figura muito interessante, que tem uma crítica ao socialismo, à social democracia alemã, acusando-a de seguir o mesmo padrão do capitalismo.
Há um outro personagem muito interessante como exemplo de socialismo romântico, uma espécie de marxista libertário, a meio caminho entre o marxismo e o anarquismo, que é William Morris. Ele era um herdeiro da tradição romântica inglesa, um discípulo de Ruskin, que retoma toda essa crítica romântica à civilização industrial e, em um certo momento, descobre o socialismo. Ele se converte para o socialismo, continua com a sensibilidade romântica, e escreve aquela bela utopia de socialismo romântico que é Notícias de lugar nenhum, publicado no Brasil no ano passado. Um belíssimo livro. É um grande exemplo de um socialismo romântico. E o século XX está cheio desses exemplos, sempre um pouco à margem da vertente principal do socialismo.
Dá para seguir esta forma de pensamento, e possivelmente algumas experiências práticas também. O anarquismo espanhol, por exemplo, foi uma tentativa de colocar em prática uma visão romântica de socialismo. A idéia de comunidades, dos artesãos que se auto-organizam, é uma idéia muito próxima desta vertente.

Para finalizar, você acredita que é possível uma associação ou conciliação entre o socialismo e o romantismo? Você acha que esse encontro seria positivo?

Eu acho esse encontro indispensável. Quer dizer, acredito que para o socialismo ser humano, ele tem que se comparar esse momento romântico. É profundamente justa essa idéia de que a civilização moderna trouxe profundos avanços, mas ela destruiu muitos valores sociais, culturais, humanos, que nós devemos recuperar. Obviamente, sem voltar atrás, mas sob uma forma nova, reinventando-os. Essa idéia de reencontrar por uma forma nova o que foi perdido é fundamental para qualquer projeto de uma nova sociedade, de uma civilização solidária, para um socialismo do século XXI. Ao menos, esta é a minha aposta.

FONTE: Revista Azougue, 2006-2008.

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a neuroquímica dos Jacintos: como a vida urbana pode enlouquecer

junho 28, 2011 às 22:12 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Insani(ci)dade

Pesquisa mostra que o estresse estimula regiões do cérebro associadas à depressão, ansiedade e esquizofrenia em habitantes de centros urbanos. Próximo passo é estudar componentes específicos da cidade para descobrir o que causa esse comportamento cerebral.

Por: Sofia Moutinho

Insani(ci)dade

Moradores de cidades grandes e pessoas criadas em ambientes urbanos processam o estresse de modo particular e estão mais propensos a desenvolver certos distúrbios psiquiátricos. (fotos: Flickr/ Sekushy e Gabriela Medina; montagem: Sofia Moutinho)

Um estudo publicado na revista Nature desta semana mostra pela primeira vez que o ambiente urbano afeta o modo como nosso cérebro lida com o estresse e sugere que a vida nas cidades pode desencadear distúrbios como a ansiedade, a depressão e a esquizofrenia.

Conduzida por cientistas alemães, canadenses e ingleses, a pesquisa revela que, em situações de estresse, as pessoas que vivem ou foram criadas em grandes cidades apresentam um nível alto de atividade em duas regiões do cérebro que regulam as emoções, a amígdala e o córtex cingulado anterior.

Pessoas que vivem ou foram criadas em grandes cidades apresentam nível alto de atividade em regiões do cérebro que regulam as emoções

Para chegar à descoberta, os pesquisadores submeteram um grupo de adultos alemães sem histórico de doenças mentais a um teste de estresse. Os voluntários foram colocados dentro de máquinas de ressonância magnética, onde seus cérebros eram escaneados enquanto resolviam questões de matemática e lógica.

A velocidade e a dificuldade das tarefas eram adaptadas ao desempenho individual de cada participante por um programa de computador de modo a impor uma taxa de acertos menor que 40%. Para aumentar ainda mais o nível de estresse, os pesquisadores faziam críticas ao desempenho dos voluntários durante a experiência.

Os participantes que moravam em grandes cidades apresentaram alta atividade na amígdala, muito superior à observada nos voluntários moradores do campo e de cidades do interior. Já as pessoas que cresceram em grandes centros urbanos tiveram forte atividade no córtex cingulado anterior.

“Alterações na atividade da amígdala são associadas a transtornos de ansiedade, depressão e violência, enquanto que mudanças no córtex cingulado anterior já foram observadas em pacientes com esquizofrenia”, aponta um dos autores do estudo, o psiquiatra Andreas Meyer-Lindenberg da Universidade de Heidelberg, na Alemanha.

Ligações a esclarecer

O pesquisador não sabe ainda o que exatamente causa essa diferença na reação ao estresse entre os moradores da cidade e do campo e afirma que, em princípio, qualquer um dos  fatores relacionados à vida urbana – como a poluição, as aglomerações, o barulho e o ritmo de vida acelerado – poderia estar associado a ela.

Aglomeração urbana

A poluição, as aglomerações humanas, o barulho e o ritmo de vida acelerado nas cidades podem estar associados ao desenvolvimento de psicopatias. Mas, para provar essa relação, novos estudos precisam ser conduzidos. (foto: Flickr/ Ademir Batista dos Santos)

Independentemente dessas incertezas, estudos anteriores já haviam mostrado que moradores de cidades têm 21% mais de probabilidade de desenvolver ansiedade e 39% mais chance de desenvolver distúrbios de humor, como a depressão. Já a esquizofrenia seria duas vezes mais comum entre indivíduos criados em centros urbanos.

Ainda assim, Meyer-Lindenberg ressalta que são necessários mais estudos para esclarecer as ligações entre essas doenças e as alterações cerebrais identificadas em sua pesquisa. São necessários mais estudos para esclarecer as ligações entre as psicopatias e as alterações cerebrais identificadas na pesquisa. “Agora temos um alvo no cérebro para medir os efeitos do ambiente urbano e, em estudos próximos, poderemos olhar componentes específicos da cidade para descobrir o que causa essas mudanças cerebrais e como elas influenciam o aparecimento de psicopatias”, diz o psiquiatra.

Apesar de o estudo ter envolvido apenas voluntários alemães, ele acredita que seus resultados sejam válidos para outros países, inclusive para o Brasil. “Outras sociedades devem ser estudadas para ver se os resultados se aplicam a elas”, comenta. “Mas, se já verificamos esse efeito na Alemanha, onde a diferença entre campo e cidade não é tão forte, é muito provável que o efeito esteja presente em países onde essa diferença é mais proeminente.”

FONTE: Ciência Hoje On-line

um olhar profundo para a crise dos valores sociais: excelente entrevista de uma das mais importantes filósofas brasileiras

junho 22, 2011 às 7:41 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Revolucoes4b

Olgária Matos entre Direitos, Desejos e Utopia

Entrevistada pelo projeto Revoluções, filósofa vê em 1968 o momento em que a ideia de transformação social começou a mudar

Realizou-se no mês de maio, em São Paulo, uma experiência político-estética de rara atualidade. No instante em que ressurgem, no mundo árabe, os grandes movimentos de transformação social promovidos pela multidão, o projeto Revoluções debateu conceitualmente esta forma de mudar o mundo. Iniciado em abril, ele desdobrou-se em três outras atividades: o seminário Revoluções: uma política do sensível (20 e 21/5); a abertura de uma exposição de fotos organizada por Henrique Xavier, a partir de trabalho de Michel Löwy (21/5); e a instigante oficina Mídia e Revolução: culturas de vanguarda (22 e 24/5).

Muito mais que uma série de eventos, Revoluções – um projeto que Outras Palavras ajudou a conceber – é um convite a refletir. Por isso, produz, em certos momentos, diálogos e entrevistas, disponíveis em seu site. Autora, entre muitas outras obras, de As barricadas do desejo, sobre o Maio de 1968 francês, a filósofa Olgária Matos é uma participantes ativa destes momentos.

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O texto abaixo traz a síntese de uma destas conversas, mantida com a equipe de organizadores do seminário. No diálogo, ela falou sobre 1968 – abordando, em especial, seu papel na criação de novos projetos superação do capitalismo (que afloram mais intensamente hoje). Também abordou o sentido e atualidade da noção de direitos humanos, as armadilhas da libertação do corpo conjugada com aprisionamento do espírito e (com viés um tanto conservador…) as redes sociais e o mundo virtual. Ao final, expressou, a respeito da noção de Utopia, uma visão que vale a pena conhecer e discutir.

Projeto Revoluções: Por vezes, seus ensaios refletem as inquietações de uma geração que vivenciou e produziu uma transformação no modo de vida, com novas expectativas no campo do trabalho, da sexualidade ou na comunicação de ideias e ideais. Vivendo as “barricadas do desejo” das lutas de 1968, em que medida aquela pode se sentir representada pela atual luta pelos direitos humanos?

Olgária Matos: – O ano de 1968 foi emblemático por ter procedido à crítica das abstrações conceituais como a luta de classes, a dialética materialista, golpe de Estado como formas de emancipação, colocando no centro da questão o indivíduo.

Não mais o revolucionário profissional e obsessivo, investido da missão histórica de liberar toda a humanidade, pois nenhuma classe social fala pelo universal. Nesse sentido, a luta pelos direitos humanos hoje amplia a noção de direito que passa a abranger as questões subjetivas, além da luta contra todos os tipos de preconceito, sejam religiosos, de classe, de sexo ou gênero, de condições físicas e intelectuais.

Toda essa luta tem o sentido de suavizar as relações entre as pessoas, criando as condições do exercício do respeito, da confiança. Também a percepção da violência não só restrita às questões políticas traz para o debate os direitos dos animais e os da natureza, antes fora do debate institucional.

Projeto Revoluções: A história dos direitos humanos confunde-se com modificações de comportamentos nas relações culturais. Podemos reconhecer aqui o avanço da luta das mulheres, apoiada neste instrumento. De outro modo, há quem afirme que os direitos humanos são um instrumento de manipulação cultural, com valores originados numa cultura burguesa e europeia. Qual a sua posição sobre este paradoxo?

Olgária Matos: A ideia de direitos universais é parte da tradição da filosofia antiga — grega e estoica. Lembre-se que os cínicos, no século IV a.C., contestavam as fronteiras entre os povos que, segundo eles, criavam as rivalidades e as guerras, elaborando as primeiras reflexões sobre o cosmopolitismo. Na sequência, a visão cristã desenvolve a ideia de igualdade radical em dignidade, “todos somos irmãos” ou então, como o poeta John Donne escreveu no século XVII: “todos nós somos páginas de um mesmo livro espalhadas pelo mundo.”

Isto é, foi a luta pela igualdade universal abstrata – burguesa — que facultou a possibilidade de luta pelo direito à diferença, e não o contrário.

Projeto Revoluções: Um dos aspectos levantados por nosso curso remete diretamente aos conflitos de constituições culturais, sobretudo aquele entre a marca subjetiva do desejo e a composição de um todo social, com leis universalmente reconhecidas – em outras palavras, a cisão entre indivíduo e sociedade. Esta cisão colocaria em xeque um dos projetos mais antigos da vida social, isto é, a felicidade universalizada, ou ele amplia o campo de demandas e sua extensão?

Olgária Matos: Por sua natureza, a lei é “abstrata”, “impessoal”, e assim tem sua função reguladora da vida social. Como não poderia existir justiça “em si” – universal e abstrata – há sempre um além da lei que diz respeito aos “sentimentos morais”, a um “tato moral” – como o sentimento do pudor – que escapa à legislação.

Esse quantum afetivo é o que cabe ao magistrado prover para que a mais-valia afetiva do que está em jogo na lei possa efetivamente ser considerada. A felicidade é uma palavra indeterminada, mas que tem sentido crítico, uma vez que ela é o que obscuramente guia todas as ações que de uma maneira ou outra buscam o prazer. O pensamento antigo definiu a filosofia como a busca da justa vida e do bem viver que hoje, segundo Adorno, é uma “ciência esquecida”. Quer dizer, a aptidão para a felicidade é algo que se aprende, não se herda, ela exige toda uma educação. Os gregos, por exemplo, encontravam na scholé – no tempo liberado dos constrangimentos da autoconservação – a razão essencial da vida, pois viver nada mais é do que uma determinada maneira de nos utilizarmos do tempo finito que nos foi concedido. Os “cuidados de si” faziam parte do conhecimento da natureza e de nossa natureza, a fim de alcançarmos a “tranquilidade da alma”, uma das figuras da felicidade.

Mas se os gregos valorizavam a prudência, a moderação, a contenção das paixões – que nos fazem infelizes porque nunca determinam exatamente o que desejam – a modernidade valoriza o excesso, o descomedimento que para os antigos era sinônimo de perdição, de extravio, de infelicidade.

E, no mundo contemporâneo, a monotonia e o tédio se instalam no vazio deixado pelo desaparecimento da ideia de “autoconhecimento”’ e autoaprimoramento, e se abandonou para as coisas externas a possibilidade de ser feliz. Substituiu-se o “ser” pelo “ter”, o mercado ocupando o lugar de sucedâneo à busca da felicidade e a posse de bens materiais. Daí o vazio de tudo e a pobreza do mundo interior, atestada pela massificação do uso de drogas, obesidade mórbida, esportes radicais e demais mecanismos de colocar no exterior o que é do domínio subjetivo incontornável.

Projeto Revoluções: Das experiências culturais da segunda metade do século passado, é possível ressaltar um novo olhar sobre o corpo – não mais formado e preparado para as funções sociais “tradicionais” (basicamente, reproduzir e produzir), mas um espaço novo e aberto para a fruição de suas potencialidades. Entretanto, numa sociedade do espetáculo, em que os corpos devem se apresentar como “belos e saudáveis”, há quem afirme que as conquistas de liberdade foram deturpadas ou perdidas. Onde podemos localizar esta mudança?

Olgária Matos: Marcuse nos formulou bem essa questão. O século XX, para todos os fins do consumo, liberou os corpos mas reprimiu a vida do espírito ou, melhor, não liberou o espírito. O que significa que se tratou de uma pseudoliberação que acabou por se converter em uma nova forma de opressão. Se no passado a sexualidade era proibida de se realizar, hoje ela é obrigatória! O corpo – que é o que de mais íntimo possuímos – converteu-se em objeto de exposição (através da pornografia em geral veiculada pelo estilo publicitário) e de banalização. Piercings, tatuagens, nudez etc. são formas de exibição voltadas para si mesmas, já que não são signos distintivos de nenhuma identidade, mas são “comportamentos miméticos”, de massa. Todos copiam a todos sem reflexão, num desejo de identidade e de pertencimento buscados apenas no exterior. São pseudoidentidades e pseudopertencimentos, porque aquele que se tatua não o faz por uma escolha pessoal, mas porque um outro já o fez.

Seria preciso reinventar a ideia de felicidade para a ação não ser ativismo e não senso, mas autorreflexão, conhecimento e prazer neste conhecimento. Os corpos “belos e saudáveis” de hoje nada possuem em comum com aquela empatia do corpo e da alma, em que a beleza do espírito acaba por se revelar nos corpos precários e mortais. O fetichismo da juventude e o desejo de superação de si – os esportistas que sucumbem às drogas e às performances – nada poderiam ter em comum com a saúde do corpo e da alma, porque estas requerem filosofia!

Projeto Revoluções: Outro diagnóstico da contemporaneidade volta-se para o advento das redes sociais no mundo virtual. Nelas, os usuários encontram um espaço para expressar suas individualidades, seja em busca de relacionamentos, seja para divulgar suas ideias, ampliando as vias para a liberdade de expressão. Pensando em seu ensaio “A Identidade: um Estrangeiro em nós” (Discretas Esperanças – Reflexões filosóficas sobre o mundo Contemporâneo, 2006), é possível afirmar que tais manifestações na internet reforçam modelos de identificações que geram “patologias da comunicação”, como a intolerância e o dogmatismo que bloqueiam relações de alteridade? Ou seria este um meio a mais para reverter os laços sociais, configurando vias para a tolerância em uma recente cultura em que a virtualidade assume um papel central?

Olgária Matos: O virtual, as chamadas “amizades à distância”, atesta um “horror do contato”, o evitar a presença factual do outro que, por sua natureza, me contesta. Daí a tendência ao isolamento, ao narcisismo primário, regressivo, ao não contato com o outro, a dificuldade da generosidade e da gratidão, sem o que não há vida ética.

Projeto Revoluções: Um dos elementos possíveis resultantes da dinâmica entre desejo e direitos explode nas manifestações de violência, apresentadas não apenas na necessidade de reconhecimento de suas demandas, como também na instauração de forças paralelas que geram verdadeiros

“Estados dentro do Estado” (sejam as milícias paramilitares, sejam as organizações criminosas). No caso brasileiro, duas estratégias de contenção da violência estão constantemente nos noticiários: as Unidades de Polícia Pacificadoras , nas comunidades em que o tráfico era dominante, e a política de carceragem. Entre uma e outra experiência, podemos afirmar que o brasileiro está experimentando uma nova cultura de paz ou estamos reproduzindo um velho sistema de exclusão social?

Olgária Matos: Esta é uma questão difícil de começar a ser respondida, porque a lei no Brasil não parece ter a função de promover a paz social e a reparação de injustiças. Seja porque nossas leis por vezes parecem ter sido elaboradas para a pólis grega — e portanto não dão conta da violência da sociedade contemporânea –, seja porque não se compreende como ela é aplicada, e no final ela não cria coesão social, mas é vivida como sendo ela mesma violenta, arbitrária e geradora de injustiça. De onde a proliferação das organizações parapoliciais de extermínio etc.

Pode ser também que a ideia de que devamos ser mais compreensivos – complacentes – com os menores infratores, em vez de “conformá-los à boa sociedade”, esteja de fato entregando os jovens (que não têm a noção do limite do permitido e do interdito clara) à vida violenta e breve. Enfim, apesar de eu não me sentir à vontade para tratar de questões tão complexas – eu diria que é com os jovens que a lei deveria ser mais segura a fim de criar a ideia de autoridade legítima etc.

Mas que a mídia hoje tem um papel preponderante no mimetismo social não poderia ser minorado. A mídia impõe comportamentos e produz pensamentos imitados na sociedade. Que se pense o quanto a mídia responde pela conversão da política em espetáculo e as eleições em consumo de imagens de baixa qualidade e baixo padrão de comportamento ético e respeito recíproco ao adversário. A mídia polariza a política criando apenas o amor ou o ódio aos governantes,   o que pouco tem em comum com a inteligência da vida pública e de um espaço comum compartilhado. Cada vez mais proliferam os particularismos e desaparecem valores comuns admirados e respeitados por todos – ou que tendessem simbolicamente a isso.

A educação medíocre que se preconiza para a grande massa – sob a alegação de que a “verdadeira cultura lhe é inacessível” – exclui a maioria da “vida do espírito”, que retorna à condição de privilégio de uma elite, esta também cada vez mais precarizada, porque o fim do valor filosófico e existencial da cultura impõe o “naturalismo“ dos comportamentos e sua informalidade como a medida da vida em comum. Daí as diversas formas de incivilidade, desde o comportamento das pessoas no trânsito, passando pelo fim das “boas maneiras” no tratamento entre as pessoas, até das formas mais graves de negação do Outro, como na criminalidade. Pena que os mais pobres tenham chegado à “universidade”, no momento em que o “ensino superior” não é superior a nada, não passa de um segundo grau mal dado e malfeito.

Mas como a história é devir – ou inquietação permanente – há sempre o inesperado que pode nos dar boas surpresas. Esperemos que o Egito tenha realmente sua “primavera”, como os franceses tiveram duas, a da Comuna de Paris que este ano comemora 140 anos, e o maio de 68 e suas “barricadas do desejo”. Porque os egípcios já nos deram sua dimensão simbólica, protegendo o Museu – patrimônio de toda a humanidade – dos oportunistas e saqueadores. Pois pode ser que as utopias não mudem o mundo, mas são elas que nos põe a caminho.

FONTE: Outras Palavras

   angelus-novus(Paul Klee, “Angelus Novus”. Para um dos grandes inspiradores de Olgária Matos, o filósofo Walter Benjamin, este quadro pode ser interpretado como uma representação das dimensões caóticas da história humana. Saiba mais clicando na imagem)

para além da humanidade

junho 19, 2011 às 10:47 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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póshumano

Do humanismo ao pós-humano

Não é só o Poder Judiciário que enfrenta dificuldades com a multiplicação das formas possíveis para a família, graças à reprodução assistida. Com os avanços da tecnologia, em campos como a biologia molecular e a física atômica, os parâmetros tradicionalmente usados para entender o que são a humanidade, a vida, as máquinas e a ética já não têm a mesma solidez, segundo o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Se deixamos de entender o ser vivo como um organismo e passamos a pensá-lo em termos de código genético, já não estamos no mesmo registro.

No caso do ser humano, o sociólogo assinala que o que está em jogo são os próprios parâmetros do humanismo, sobre o qual se funda o direito em sua formulação moderna. Pesquisador dos impactos da tecnologia e das tecnociências sobre as relações sociais, ele diz que a legislação é convocada para avalizar os avanços trazidos pela tecnologia. Porém, é preciso enxergar as possibilidades técnicas não apenas na perspectiva das novidades que ela permite, mas também segundo as fronteiras que ela dissolve. Quando a distinção entre biológico e cibernético, matéria e vida, humano e não humano se tornam menos evidentes, é possível começar a produzir conceitos como "pós-humano" e "trans-humano", afirma.

Laymert Garcia dos Santos falou ao Valor por telefone. Para explicar suas teses, ele evoca autores como o filósofo francês Michel Foucault e a zoóloga e filósofa americana Donna Haraway, autora do "Manifesto Ciborgue", considerado um dos textos fundadores sobre as possibilidades, mas também os perigos, da aplicação de conhecimentos tecnológicos e científicos sobre a vida. A entrevista é de Diego Viana e publicada pelo jornal Valor, 17-06-2011. Eis a entrevista.

O avanço tecnológico permite várias transformações na estrutura familiar e nos métodos de reprodução, que as leis não contemplam. É possível adaptá-las ou é preciso reformular a maneira de pensar a legislação nos fundamentos?

As normas jurídicas foram pensadas para uma situação de reprodução humana que não corresponde às possibilidades técnicas que a biotecnologia oferece. O primeiro passo é a constatação do descompasso. O segundo é questionar se e como o direito dá conta da transformação. Pelo menos nos últimos 20 anos, a normatização jurídica corre atrás da aceleração tecnológica. O direito não normatiza o que acontece, ele é quase convocado pela tecnociência a validar aquilo que a biotecnologia propõe. O direito vai a reboque nesse processo. A biotecnologia vai criando situações de fato e colocando o direito na situação de ter de formular uma maneira para lidar com elas. A expectativa é que o direito avalize a transformação.

Avalizar, em vez de dar limites?

Hoje, há duas esferas que não admitem limites: o capital e a tecnociência. Esses dois parâmetros categóricos não são postos em questão e, pelo visto, não há nem o desejo de colocá-los em questão. O direito age, às vezes até limitando e normatizando, mas sempre dentro do pressuposto de que aquilo que é proposto pela biotecnologia é possível de fazer e, porque é possível de fazer, deve ser feito. A expectativa que se tem, tanto da tecnociência quanto do mercado, é de que, por meio da bioética, o processo seja legitimado. É aquilo que os americanos chamam de "slippery slope": uma espécie de deslizamento progressivo. Alguma coisa que, em tese, não seria aceitável ou permitido aos pouquinhos vai se tornando aceitável, à medida que se flexibiliza a norma.

Aí entra a questão das tecnociências, redescobri-las dentro de uma esfera política, e não estritamente jurídica ou econômica?

Buckminster Fuller, grande inventor americano do século XX, descobriu algo muito interessante. Ele disse que trocou a política pela tecnologia porque percebeu que era mais fácil transformar o entorno das pessoas e, com isso, mudar as pessoas, do que tentar diretamente mudar a cabeça delas. Se o entorno muda, muda a relação das pessoas com o entorno, então elas mudam. É o que a tecnociência faz. Hollis Frampton, cineasta americano, disse certa vez que os anos 1970 foram a era do sexo sem reprodução e os anos 1990 foram a era da reprodução sem sexo. Essa definição diz tudo. Quando passamos do sexo sem reprodução para a reprodução sem sexo, toda a questão da reprodução humana já é redefinida. Ela tem novos parâmetros. Como o direito lida com isso?

O que é posto em questão são parâmetros da ética entendida como dimensão do ethos, ou seja, dos costumes…

O fato de poder pular fronteiras tem grandes consequências. Por exemplo: quando a biotecnologia pode satisfazer o desejo de uma moça de 18 anos que acha que deve engravidar nos termos da Imaculada Conceição, é evidente que isso tem efeitos sobre o campo da religião. Os biotecnólogos não pensam no efeito que isso pode ter sobre outros campos. Penso também na grande mistura de pais e mães que a reprodução assistida permite. Ninguém se pergunta da incidência que isso tem sobre as relações de parentesco e a estrutura psíquica. Está acontecendo um embaralhamento, uma desconstrução de parâmetros humanistas. A própria noção de humano não obedece mais aos mesmos parâmetros. As noções com que pensávamos conceitos como o humano, o organismo, a moral, que regravam aquilo que era entendido ontologicamente e epistemologicamente como humano no mundo moderno, não se aplicam mais.

A tendência é positiva ou negativa?

É uma enorme discussão. Há pessoas que dizem que vai ser ótimo se o humano for aposentado, tem gente que não concorda e quer conservar valores humanistas, tem gente que acha que esses valores têm de ser reconstruídos em cima da noção de pós-humano ou de trans-humano. Donna Haraway, por exemplo, se descobre ciborgue, um organismo cibernético, não mais simplesmente uma espécie descendente do macaco. Ela se tornou um organismo que realiza as possibilidades da ciência de seu tempo.

Para ela, isso é libertador. É um caminho do feminismo, por exemplo.

Ela é um exemplo de quem afirma que não é possível olhar para trás, mas, por outro lado, ela diz: eu não quero ser programada pela cibernética da dominação – quero ser um ciborgue de oposição. Ou seja, aceita o paradigma de seu tempo, mas não aceita tudo que esse paradigma diz que é inescapável e deve ser desenhado em termos de programação.

O humanismo que está posto em questão é apontado na obra de Michel Foucault como tendo surgido no século XVIII, para substituir paradigmas mais antigos.

Foucault argumenta que um certo entendimento do que é o homem predominou durante um certo período e é historicamente datado. Essa forma está em desaparecimento, em prol de outra forma paradigmática. Acho que já estamos vivendo isso. A questão sobre como o direito lida com isso envolve também a questão de como as ciências humanas, sociologia, antropologia, psicologia, lidam com isso, e indica essa passagem. Se há alguém que pensou sobre isso, com palavras luminosas, foi Foucault, em "O Nascimento da Biopolítica". Ele mostrou como os processos de individuação de cada um atravessam uma série de escolhas, muitas vezes pensadas como individuais, mas na verdade programadas pela ordem do discurso. Isso inclui as modificações genéticas.

FONTE: IHU Online

a vida moderna e suas transformações radicais: qual o limite?

junho 15, 2011 às 21:56 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Uma geração de estranhos. Os seres humanos modernos não estão mais acostumados a viver na natureza: só conhecem a cidade.

Umberto Eco

Creio que Michel Serres tem a melhor cabeça filosófica que há na França hoje em dia. E como todo  bom filósofo, Serres é capaz de refletir sobre os temas atuais tão bem quanto sobre os fatos  históricos. Vou basear descaradamente esta coluna no esplêndido ensaio que Serres escreveu  no mês passado para o “Le Monde”, no qual nos alerta sobre questões relacionadas à juventude atual: os filhos de meus leitores jovens e os netos de nós mesmos, os velhos.

Para começar, a maioria desses filhos ou netos nunca viu um porco, uma vaca ou uma galinha – observação que me faz lembrar uma pesquisa feita há cerca de 30 anos nos Estados Unidos. Ela  mostrou que a maioria das crianças de Nova York achava que o leite, que elas viam em recipientes  sendo vendido nos supermercados, era um produto fabricado pelo homem, tal como a Coca-Cola.

Os seres  humanos modernos não estão mais acostumados a viver na natureza: só conhecem a cidade. Eu também  gostaria de assinalar que ao sair de férias, a maioria deles se hospeda no que o antropólogo  Marc Augé definiu como “não lugares”: espaços de circulação, consumo e comunicação  homogeneizados. As vilas dos resorts são impressionantemente parecidas, digamos, ao aeroporto  de Cingapura – cada um deles com uma natureza perfeitamente ordenada e limpa, árcade, totalmente  artificial.

Estamos no meio de uma das maiores revoluções antropológicas desde a Era Neolítica.  As crianças de hoje vivem em um mundo superpovoado, com uma expectativa de vida próxima dos 80  anos. E, por causa da crescente longevidade das gerações de seus pais e avós, têm menos  probabilidade de receber as suas heranças antes que estejam à beira da velhice. Uma pessoa nascida na Europa nos últimos 60 anos não conheceu a guerra. E, tendo se beneficiado  dos avanços da medicina, não sofreu tanto quanto seus antepassados. A geração de seus pais teve  filhos quando tinham mais idade do que a geração de meus pais teve. E seus pais, muito  possivelmente estão divorciados. Na escola, estudou ao lado de crianças de outras cores,  religiões e costumes.

Isso levou Serres a se perguntar quanto tempo mais os estudantes da França  cantarão a Marselhesa, que contém uma referência ao “sangue impuro” dos estrangeiros. Que obras essa pessoa pode desfrutar? E com quais ela consegue estabelecer uma conexão, já que  nunca conheceram a vida rústica, a vindima das uvas, as invasões militares, os monumentos aos  mortos, os estandartes perfurados por  balas inimigas ou a urgência vital da moralidade?  Seu pensamento foi formado por meios de comunicação que reduzem a permanência de um fato a uma  pequena frase e a imagens fugazes – fiéis ao senso comum dos lapsos de atenção de sete segundos – lembrando que as respostas dos programas de perguntas devem ser dadas em 15 segundos. E esses meios de comunicação lhe mostram coisas que não veria em sua vida cotidiana: corpos ensanguentados,  ruínas, devastação. “Ao chegar aos 12 anos de idade, os adultos já forçaram as crianças a serem  testemunhas de 20 mil assassinatos”, escreve Serres.  As crianças atuais são criadas com publicidades repletas de abreviações e palavras estrangeiras  que as fazem perder contato com sua língua materna.

A escola já não é mais um lugar de  aprendizado e, acostumadas aos computadores, elas vivem uma boa parte de sua existência no mundo  virtual. Ao escrever em seus aparelhos eletrônicos usam seus dedos indicadores ou polegares em  vez da mão toda. (E, além disso, estão totalmente consumidas pelo afã de desenvolver várias  tarefas ao mesmo tempo). Elas ficam sentadas, hipnotizadas pelo Facebook e pela Wikipedia, que, segundo Ferres, “não  estimulam os mesmos neurônios nem as mesmas zonas do córtex (cerebral)” que se estivessem lendo  um livro. Antes, os seres humanos viviam em um mundo conhecível, tangível. Esta geração existe em  um espaço virtual, que não estabelece distinção entre proximidade e distância.

Não comentarei as reflexões de Serres sobre como manejar as  novas demandas de educação. Mas sua  observação geral do tema engloba um período de revolução total não menos essencial que as eras  que levaram à invenção da escrita e, séculos depois, da imprensa. O problema é que a  tecnologia moderna muda a uma velocidade louca, escreve Serres, e “ao mesmo tempo o corpo se  transfigurou, o nascimento e a morte mudaram, bem como o sofrimento e a cura, as vocações, o  espaço, o meio ambiente e o estar no mundo”.

Por que não estávamos preparados para essa revolução? Serres chega à conclusão que talvez parte  da culpa deva ser atribuída aos filósofos, que, por natureza de sua profissão, deveriam prever  mudanças no conhecimento e na prática. E não fizeram o suficiente nesse sentido porque, como  estavam “envolvidos na política diariamente, não sentiram a chegada da contemporaneidade”.  Não sei se Serres está completamente certo, mas com certeza não está totalmente errado.

FONTE: Tribuna da Internet

por uma sociedade transindividual

junho 11, 2011 às 9:00 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Por uma sociedade convivial. Entrevista com Alain Caillé

Estamos em plena descivilização. E fica cada vez mais forte para muitos homens e mulheres do planeta a tentação de um retorno ao estado natural, isto é, a uma condição barbárica em que todos estão em guerra contra todos.

A reportagem é de Marino Niola, publicada no jornal La Repubblica, 09-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A afirmação é do célebre sociólogo francês Alain Caillé (foto), autor do Manifesto do convivialismo e fundador, junto com Serge Latouche e Jacques Godbout, do Mauss, o Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais, inspirado no antropólogo Marcel Mauss, o autor do Ensaio sobre o dom, um texto que mudou a história das ciências humanas. E que deu aos três paladinos da economia gentil e do decrescimento o feliz apelido de os três mauss-queteiros.

Eis a entrevista.

Para o senhor, o problema de hoje é como reescrever o contrato social. Não mais em escala nacional, mas sim global.

É a questão fundamental. Depois dos totalitarismos do século XX, o que tornou popular a democracia foi o bem-estar generalizado permitido por um crescimento econômico impetuoso.

Como se a democracia tivesse fidelizado os cidadãos com a promessa da riqueza para todos.

Todas as grandes ideologias políticas, do liberalismo ao socialismo, se basearam em um pressuposto utilitarista, isto é, sobre a ideia de que a condição necessária para a paz social é um nível de vida suficiente para todos. O problema é que, no Ocidente e no Japão, o crescimento se deteve. O crescimento que existe é só nominal. Financeiro e imobiliário. Mas, para os trabalhadores e para a classe média, há 30 anos, o padrão de vida não aumentou. Ao contrário. E, para seus filhos, o horizonte é obscuro.

Em compensação, a Índia e a China têm taxas de crescimento vertiginosos. O futuro está lá?

O grande risco para esses países é que o seu crescimento também se detenha antes que a maioria da população tenha atingido um nível suficiente de vida e de liberdades democráticas. Sem falar dos custos ecológicos, sociais, da insuficiência de matérias-primas, dos riscos nucleares. Muitas hipotecas sobre uma perspectiva de desenvolvimento infinito.

Qual a saída?

A questão é se podemos fundamentar a democracia sobre algo estável e duradouro que não seja simplesmente o crescimento econômico. Mas sim um "estado econômico estacionário". Em equilíbrio.

Em outras palavras, o senhor propõe que se repensem os fundamentos simbólicos da democracia.

Sobretudo os econômicos. No fundo, a modernidade nasceu da ideia do contrato social, um conceito tirado diretamente da economia. A vida em sociedade tem a função de proteger os interesses individuais. Até a Declaração dos Direitos Humanos tem exatamente esses fundamentos. Devemos respeitar uns aos outros para criar uma esfera privada, em que cada um possa realizar sua própria renda.

O senhor quer dizer que a globalização corre o risco de dispensar essa ideia de democracia, fazendo-a implodir?

Certamente. É por isso que é preciso inventar uma democracia, digamos assim, antiutilitarista, desejável por si só, não por razões instrumentais, mas sim porque é a sociedade boa que permite uma vida boa. Eu chamo isso de Convivialismo. E o considero uma ideologia política totalmente a ser inventada, sobre as cinzas do socialismo e do liberalismo.

Em uma perspectiva convivialista na base da sociedade, estão o dom e o bem comum, não mais o interesse privado e o enriquecimento a qualquer custo. Não é uma utopia?

O dom está na própria origem do laço social, é o gesto primário que faz com que o indivíduo saia de si mesmo e o liga aos outros. E este momento fundador é incondicional, gratuito. Não por acaso todas as religiões nasçam de um dom feito ao deus. E que o deus retribui.

Na Itália, há os referendos sobre a água e a energia nuclear. Como o senhor votaria?

A água deve continuar sendo um bem comum, por isso eu votaria "sim". Sobre a energia nuclear, tempos atrás, eu era agnóstico, mas agora, assim como a maioria dos franceses, sou antinuclearista. Salientaria também o fato de que esses referendos oferecem a todos os cidadãos a oportunidade de se expressarem em primeira pessoa sobre temas tão vitais e é o sinal de que, quanto à democracia difundida, a Itália está mais à frente de outros países europeus. A questão dos bens comuns é o teste decisivo do estado de saúde de uma democracia. Onde não há outra lei para além da do mercado, não há lugar para os bens comuns, para aqueles bens compartilhados que pertencem à humanidade. Não podemos nos esquecer de que organizações como a ONU e a Unesco estavam todas baseadas na ideia de que o progresso passa através do acesso livre gratuito aos bens comuns.

O neoliberalismo faz passar as suas receitas econômico-sociais por necessidades objetivas – economia, racionalização, conveniência, concorrência.

A ideia neoliberal de que a força motriz essencial do ser humano é só a de maximizar prazeres, conforto e propriedades, em uma palavra utilidade, é pura ideologia, contrariada pelos fatos. O Homo não é só oeconomicus, e as relações entre indivíduos não são só mercantis.

A prova disso é a difusão sempre maior de comportamentos sem o objetivo do lucro. Dom, voluntariado, captação de fundos, organizações sem fins lucrativos, pessoas que dão seu tempo aos outros, além de dinheiro, solidariedade e até os seus próprios órgãos e o seu próprio sangue.

Hoje, uma das reações às desigualdades econômicas é justamente a das trocas gratuitas e dos serviços públicos. Mas só a construção de uma nova ética pode tornar possível a sociedade do Convivialismo. Uma paixão quase religiosa, um impulso das consciências como os que estavam por trás do nascimento do liberalismo ou do socialismo. Sem sonhos coletivos e grandes ideais, o novo não avança.

FONTE: IHU Online

a nova escravidão tecnológica

junho 1, 2011 às 21:33 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A ESCRAVIDÃO MODERNA É UMA MARAVILHA!

Por Mouzar Benedito.

Você está num bar ou restaurante, acompanhado de um amigo, de repente toca o celular dele. Ele atende, não é uma conversa qualquer, é trabalho. O diretor, gerente ou qualquer chefete dele dá ordens, pergunta algumas coisas e ele fica ali, meia hora “trabalhando” ao seu lado.

Isso está cada vez mais comum. Tem gente que se sente importante por receber da empresa que trabalha um telefone corporativo, “de graça”. E a partir daí o trabalho o acompanha 24 horas por dia. A jornada de trabalho, para esse pessoal chegado numa “modernidade” (nisso incluem-se as relações de trabalho) não é mais de 40 horas por semana. É de 168 horas. O sujeito tem que ficar 24 horas por dia com o aparelho ligado. Alguns têm também um troço no computador, que apita quando é chamado para trabalhar, seja de madrugada, depois de um dia estafante, seja num domingo na hora do almoço.

Há uns meses, um cara com quem marquei uma conversa num boteco apareceu com um laptop ligado. De vez em quando, parava a conversa e respondia a perguntas de um “superior” dele. Fiquei irritado. Ou vamos conversar ou você fica trabalhando aí que eu vou pra outro lugar. É uma chatice.

Outro cara que conheci falava maravilhas do laptop ligado à internet, porque nos fins de semana podia ir para a praia, ficar numa barraca tomando uma cerveja e… trabalhando. Respondi que acharia maravilha o contrário: você ficar no ambiente de trabalho tomando uma cerveja e paquerando. Mas para esse pessoal eu sou um anormal. A tecnologia é uma maravilha e temos que “aproveitá-la” o tempo todo. Só que quem tem aproveitado é o patrão. O celular da empresa e o laptop, nesses casos, são o instrumento da escravidão moderna.

Alguns perceberam isso, talvez tardiamente. Houve ações trabalhistas que chegaram ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), para cobrar horas extras sobre o tempo trabalhado com o celular, o pager e não sei que mais. O TST não aceitou as queixas. Esta semana decidiu que, como o empregado não perde a mobilidade trabalhando com o celular ou o pager nos horários que deveriam ser de folga, o trabalho executado por meio desses instrumentos de domínio (claro que o TST não usou esses termos), ele não tem direito a receber por horas adicionais de trabalho. Bem feito! Que continuem aceitando a escravidão moderna, sem rebeldia, sem nem sequer a alternativa de ir para um quilombo, pois esse pessoal, se for, é bem capaz de levar o celular institucional, o tal pager e o laptop em conexão com a empresa, como o cara que acha legal levar o laptop à praia.

Aliás, a tecnologia, que deveria ser libertadora do trabalho, tem tido esse efeito contrário. Imaginava-se que, com máquinas que executam trabalhos de centenas de pessoas, a carga de trabalho diminuiria radicalmente, sobrando mais tempo para a vida própria, a prática de atividades artísticas, esportivas, culturais e tudo que é agradável. Mas o que tem acontecido?

Dou o exemplo de uma multinacional que tem uma fábrica perto do bairro da Lapa,em São Paulo. Quandoconheci a empresa, há três décadas, ela tinha mais de 1.500 empregados nessa fábrica. Todos trabalhavam num ritmo normal e moravam em casas de classe média da região. Hoje, a empresa produz dezenas de vezes mais, lucra muito mais, e tem pouco mais de cem empregados, boa parte deles morando em favelas. Trabalham muito mais e ganham muito menos.

É isso: se uma máquina pode substituir vinte pessoas, o racional, humano, seria diminuir a carga de trabalho dos trabalhadores, de modo que pelo menos muitos deles mantenham os empregos. Mas o patrão faz o contrário: com cinco máquinas que fazem o trabalho de vinte pessoas cada, ele poderia demitir cem empregados, mantendo o mesmo tempo de trabalho. Se fosse um pouquinho ético, demitiria muito menos. Mas demite 150, e os que sobram têm que trabalhar num ritmo alucinante, sem descanso. O patrão sabe que esses empregados restantes se sujeitam para não perder o emprego, porque eles desempregaram muita gente que está disposta a qualquer coisa para ter um emprego novamente.

Agora há esses instrumentos de controle, com a complacência e até o elogio dos escravizados. Escravizados de luxo, mas escravizados.

Eu continuo com meu sonho anarquista, irrealizável: já que a máquina faz quase tudo por nós, deveríamos trabalhar apenas um dia por mês. Por exemplo: meu dia de trabalho seria o 15 de cada mês. No dia 14, eu passaria o dia inteiro me preparando física e psicologicamente. Quereria fazer um trabalho exemplar. E ao final desse dia me sentiria livre por um mês para viajar, fazer cursos, ler, escrever, cursar alguma coisa, pintar, bordar, cantar, brincar, namorar, assistir a quantos filmes quisesse, enfim, fazer tudo o que acho bom.

Mas isso é coisa de anarquista, não é? Uma anormalidade. O normal é trabalhar o dia inteiro, ir pra casa e continuar trabalhando na hora que o patrão quer, sendo chamado a qualquer momento e tendo que atender para não perder o emprego. Interrompa-se o jantar, interrompa-se o sexo, interrompa-se o filme ou futebol, interrompa-se a leitura… Trabalhe, trabalhe, trabalhe. O TST não vai criar caso.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças-feiras.

roteiro para o “kit romantismo”

junho 1, 2011 às 15:45 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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LITERATURA PORTUGUESA II – 2011.1
ATIVIDADE FINAL: ELABORAÇÃO DE UM “KIT ROMANTISMO”
Trabalho em dupla
Entrega: 11/07/2011

INTRODUÇÃO: Por que é importante discutir, em particular no âmbito da formação escolar contemporânea, a visão-de-mundo romântica?
· mínimo de 60 linhas
· textos de referência: LOWY e SAYRE; Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais (MEC)

TEXTOS PARA DISCUSSÃO:
· Selecionar e transcrever dois textos poéticos (poemas ou canções), de autores brasileiros ou portugueses, nos quais estejam representados estruturas e valores românticos. Justificar as escolhas (5-10 linhas).

· Selecionar uma cena, ou um tema, ou um elemento do romance A cidade e as serras, de Eça de Queirós, que possa ser considerado como representativo da crítica romântica à vida moderna. Justificar a escolha (5-10 linhas).

· Selecionar e transcrever uma matéria jornalística ou artigo de opinião, no qual sejam abordados e analisados aspectos negativos da vida contemporânea que possam ser relacionados ao aprofundamento da modernidade. Justificar a escolha (5-10 linhas).

OUTRAS SUGESTÕES (opcional):
Indicação de textos teóricos, filmes, sites e obras artísticas que contribuam para uma melhor compreensão da estética romântica e de suas articulações sócioculturais.

* * *

Clique na imagem abaixo para ter acesso a edições eletrônicas dos PCN:

pcn site mec

romantismo e crítica cultural: convergências

junho 1, 2011 às 10:18 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Convivialismo para mudar o mundo

Para além do liberalismo, do socialismo ou do comunismo, devemos inventar um convivialismo, uma convivialidade, dito em outras palavras, a arte de viver juntos mesmo nos opondo, mas sem nos massacrarmos e levando em conta a finitude e a fragilidade do mundo.

A análise é do sociólogo francês Alain Caillé, fundador do movimento antiutilitarista Mauss. O artigo que segue foi escrito pelo autor para o encontro A piene mani, sobre o dom, que ocorreu em Nápoles, na Itália, e publicado no jornal Il Manifesto, 31-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Bem antes da catástrofe de Fukushima tínhamos a sensação, mais ou menos confusa, de que a Terra não poderia sobreviver por muito tempo à corrida generalizada rumo a um crescimento infinito (como afirmavam inúmeros analistas e militantes altermundialistas). Agora temos a certeza de que isso é verdade.

Mas o que não sabemos é como organizar o mundo sobre outras bases. As grandes ideologias políticas da modernidade das quais somos os herdeiros – liberalismo, socialismo ou comunismo – já não estão mais à altura dos problemas que temos à nossa frente, sem falar do neoliberalismo.

Estes repousavam sobre o postulado de que o conflito entre os seres humanos seria resolvido pelo enriquecimento ininterrupto de todos e de cada um. Mas se isso não pode – ou não deve – mais ser o caso, o problema central político e ideológico da humanidade se coloca à nossa frente com toda a violência e a crueldade possíveis: como impedir a guerra de todos contra todos, preservando a democracia, se não for abandonada a perspectiva de um crescimento infinito? A democracia ainda era pensada em uma escala nacional, de uma só cultura ou de um só país. É preciso, hoje, imaginá-la em escala internacional ou intercultural.

Para além do liberalismo, do socialismo ou do comunismo, devemos, portanto, inventar um convivialismo, uma convivialidade, dito em outras palavras, a arte de viver juntos mesmo nos opondo, mas sem nos massacrarmos e levando em conta a finitude e a fragilidade do mundo. No respeito da decência comum, da civilidade, do espírito do dom e do bem comum.

Sob esse padrão, podem-se reunir múltiplas correntes de pensamento (ecologismo, democracia radical, antiutilitarismo, pós-materialismo, decrescimento, novos indicadores de riqueza, sobriedade voluntária etc.), às quais, para realmente pesarem sobre o curso do mundo e evitar as catástrofes anunciadas, só falta a consciência do fato de que o que elas têm em comum é mais importante do que aquilo que as separa.

Nessa perspectiva, contrariamente às certezas hoje onipresentes, parece então que os principais problemas que temos à nossa frente não são acima de tudo econômicos ou técnicos, mas sociais e éticos. É preciso ajudar tanto a sociedade, quanto a natureza, hoje abaladas, a se levantarem dos golpes que sofreram. E isso não será possível sem uma enorme revolta moral, universalizável, contra o curso atual do mundo.

FONTE: IHU Online

antologia de poesia romântica portuguesa

maio 24, 2011 às 10:11 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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castelo pena

Parecendo, à primeira vista, uma versão modernizada de um castelo medieval, o exuberante Palácio da Pena, retratado na imagem acima, mistura de maneira ousada vários estilos arquitetônicos da antiguidade, formando assim uma admirável síntese de passados no presente que pode ser considerada como uma forte representação da nostalgia romântica em Portugal. Também nos poemas transcritos a seguir podemos observar a idealização do passado como procedimento estético de crítica às formas de degradação moral, de destruição de valores tradicionais e de desilusão que se articulam à consolidação da modernidade capitalista na Europa, idealização que, segundo Michel Lowy e Robert Sayre, serve de bandeira comum para as diversificadas manifestações da revolta romântica, especialmente no âmbito da produção literária.

garrett

  • Almeida GARRETT

QUANDO EU SONHAVA

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar…
Para quê? – Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava – mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia …

***

ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n’alma … quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho-
Em que paz tão serena a dormi!
Oh!, que doce era aquele sonhar …
Quem me veio, ai de mim!, despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela?, eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei …

***

BELA D’AMOR

Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o ‘splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na Primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai!, vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.

***

CASCAIS

Acabava ali a Terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
O mar que incessante brama…
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.

Aí, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Ervas e matos queimados,
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um Céu na Terra.

Ali sós no mundo, sós,
Santo Deus!, como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim,
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim,
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!

Os anjos aqueles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.

Ai!, sim, foi a trapos largos,
Longos, fundos que a bebi
Do prazer a taça – amargos
Depois… depois os senti
Os travos que ela deixou…
Mas como eu ninguém gozou.

Ninguém: que é preciso amar
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.

Ai, ai!, que pesados anos
Tardios depois vieram!
Oh!, que fatais desenganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a Terra!

Se o visse… não quero vê-lo
Aquele sítio encantado.
Certo estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado,
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!

Inda ali acaba a Terra,
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.

***

ESTES SÍTIOS!

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro…
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos …
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade…
Ai!, não, não… nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos…
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!

***

VOZ E AROMA

A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.

***

grande%20porca

  • António de CABEDO

CARTA A UM REGEDOR

Cidadão indispensável,
que regeis com tacto fino
o duvidoso destino
desta famosa nação: –
saúde a paz vos envio,
como fez Narciso a Eco
e depois mercê depreco
nesta humilde petição.

Vós que, sem ser estadista,
resolveis coisas do Estado,
e sois, em lance apertado,
dos governos assessor;
que desprezais por modéstia
a carta de conselheiro,
e persistis em… tendeiro…
algibebe… ou cortador;

Vós, que fazeis deputados
ao sabor do ministério –
e, quando o caso é mais sério,
até mesmo os inventais;
enchendo enfim esse templo
das cortes beneditinas,
que, ao menos, nas oficinas
dão que fazer aos jornais:

Ouvi-me, e sede benigno,
magistrado venerando,
que o tal posso, quero e mando
já lá vos chegou também.
E, sem mais palavreado,
vou tratar do meu assunto,
prometendo um bom presunto
se o negócio sair bem.

Tenho um filho, já crescido,
dum talento desmarcado!
O rapaz há-de dar brado,
se bom caminho seguir.
É pacato e mui sisudo
sem palrar de papagaio,
sempre, sempre, quando eu saio,
fica ele em casa… a dormir.

Abre um livro, e fecha-o logo,
pregando os olhos no tecto –
que o rapaz, como discreto,
medita mais do que lê.
A leitura, só, não basta:
o ler muito nada prova:
olhe esta geração nova!
olhe-se mesmo você!

Sim: você, da sua loja,
analfabeto chapado,
pode escolher a seu grado
um varão legislador;
você, do pobre cantinho
em que de sábio não timbra,
pode mais que uma Coimbra,
faz de repente um doutor!

Hoje custa achar emprego
para um moço bem-nascido:
o comércio está perdido;
a marinha nada vale;
no exército de terra
são bandas por toda a banda;
e qualquer arte demanda
jeito e gosto especial.

Por essas secretarias
reina justiça de moiro;
aos néscios oiro e mais oiro;
os outros… ouvem-lhe o som.
Além disso a inteligência
em breve lá se atrofia:
quem fez uma portaria
nunca mais faz nada bom!

Médicos ganharam muito;
mas esse ganho fez termo:
quando um homem jaz enfermo
é quando menos os quer.
Depois dos vários sistemas,
que todos por fim têm pata,
fica a morte mais barata
quando ela por si vier.

A mina da advocacia
teve bons exploradores,
que antigamente os doutores
não assinavam de cruz.
Mas agora a velha escola
tem dado tanto camelo!
bicho de borla e capelo
quase sempre foge à luz.

Feito rápido bosquejo
em que ‘inda tudo não digo,
há-de ser o meu amigo
não só patrono, juiz:
ajuíze, que isto é claro,
se acaso há mor embaraço
que um homem, sem ser ricaço,
ver-se pai neste pais!

Lá marcho direito ao ponto.
A gente às vezes acerta;
eu fiz uma descoberta,
que me não parece má:
para um moço delicado,
que põe mira no orçamento,
uma cadeira em S. Bento –
arranjo melhor… não há.

Levanta-se ao meio-dia;
vai almoçar ao Chiado;
vem às Cortes repimpado
em traquitana veloz:
chega à sala – traça a perna,
endireita o colarinho,
e escreve o seu bilhetinho
à menina dos bandós.

Nos interesses da Pátria,
sua filha em bom direito,
quando vota, diz: «Rejeito»,
ou diz: «Aprovo» também.
Não entrega o voto à sorte,
vai alternando as respostas;
e se acaso volta as costas,
é que não entendeu bem.

Tem sarau em certas noites
nas altas secretarias,
onde há chá, doces, fatias,
e até neve, de Verão.
Faz quase um conto por ano;
emprega quatro parentes;
e as damas, por entre dentes,
perguntam: «Já é barão?»

Eis aqui para meu filho
brilhantíssimo futuro;
e o negócio está seguro,
se aprouver ao regedor:
um gesto de tal potência
torna maus fados propícios,
pode mais que dez comícios
a trabalhar por vapor.

Ponho em vós minha esperança,
ponde em mim vosso cuidado;
criai-me este deputado,
e então mostrarei quem sou.
Esta empresa, em que martelo,
deixa-me a cabeça calva,
se a Pátria não fica salva,
fica salvo… um seu avô.

Acedereis, como espero,
ao meu instante pedido;
e por mim ficareis tido
grande herói entre os heróis.
Basta já d’impertinência;
não pouco tenho abusado.
Sou – vosso amigo e criado –
João Fernandes d’Anzóis.

***

revoluçaão (1)

  • Eduardo VIDAL

A IDEIA NOVA, É BOA!… EM QUE CONSISTE A IDEIA?…
Nova; mas nova em quê?… Na insânia que alardeia,
Na forma sem primor, no rasgo desonesto,
Na feia exposição, na chufa, no doesto,
No delírio falaz que pinta a humanidade
Em latíbulos vis de infame ebriedade,
Bebendo a corrupção nas taças sacrossantas?…
Ideia nova, em quê?… Se a perversão nos cantas,
Sagrando a lira d’ouro às saturnais lascivas;
Se no teu ideal só pairam essas divas
Que a miséria lançou nos antros enlodados,
Que novidade és tu? Que mundos ignorados
Pretendes cimentar repletos d’abundância? –
O que farás do amor – o que farás da infância?…
O que dirás às mães num límpido conselho?…
Onde tens o respeito às cãs do pobre velho
Que é pai, que é bom, que é triste, e em Deus inda confia?…
És noite e escuridão; negas a luz e o dia,
És o velho farsante, a deusa descambada.
Não ascendes ao belo; andas de escada em escada
A farejar o crime, e a delatar o vício.
Que sacerdócio é o teu? – Serves o baixo oficio
Do polícia que espreita, e agarra o que mal usa:
Votaste a Boa Hora em templo à tua musa.
Eu, que persisto há muito em crer no bem florente,
Que sou da reacção protervo impenitente,
Que adoro o Céu, a flor, a pálida beleza,
Os lírios da inocência, a vasta natureza,
E que sinto em minha alma uns estos de lirismo
Quando me agita, ó Deus, um vago panteísmo
Que me afaga, me enleva, e brando me sorri,
Mas que, em íntimo ardor, me leva a crer em ti;
Eu deixo caminhar a procissão judenga,
E adormeço de ouvir-lhe a chocha lengalenga

***

Antero_MANTA2

  • Antero de QUENTAL

POBRES

(a João de Deus)

I

Eu quisera saber, ricos, se quando
Sobre esses montes de ouro estais subidos,
Vedes mais perto o céu, ou mais um astro
Vos aparece, ou a fronte se vos banha
Com a luz do luar em mor dilúvio?
Se vos percebe o ouvido as harmonias
Vagas do espaço, à noite, mais distintas?
Se quando andais subidos nas grandezas

Sentis as brancas asas de algum anjo
Dar-vos sombra, ou vos roça pelos lábios
De outro mundo ideal místico beijo?
Se, através do prisma de brilhantes,
Vedes maior o Empíreo, e as grandes palmas
Sobre as mãos que as sustem mais luminosas,
E as legiões fantásticas mais belas?
E, se quando passais por entre as glórias,
O carro de triunfo de ouro e sândalo,
Na carreira que o leva não sei onde
Sobre as urzes da terra, borrifadas
Com o orvalho de sangue, ó homens fortes!
Corre mais do que o vôo dos espíritos?

Ah! vós vedes o mundo todo baço…
Pálido, estreito e triste… o vosso prisma
Não é vivo cristal, que o brilho aumenta,
É o metal mais denso! e tão escuro,
Que ainda a luz que vê um pobre cego
Luzir-lhe em sua noite, e a fantasia
Em mundos ideais lhe anda acendendo…
Esse sol de quem já não espera dia…

Ah! vós nem tendes essa luz de cegos!
Que! subir tanto… e estar cheio de frio!
Erguer-se… e cada vez trevas maiores!
Homens! que monte é esse que não deixa
Ver a aurora nos céus? qual é a altura
Que vela o sol em vez de ir-lhe ao encontro?
Que asas são essas, com que andais voando,
Que só às nuvens negras vos levantam?
Certo que deve ser o vosso monte
Algum poço bem fundo… ou vossos olhos
Têm então bem estranha catarata!

II

Há às vezes no céu, caindo a tarde,
Certas nuvens que segue o olhar do triste
Vagamente a cismar… há nuvens d’estas
Que o vestem de poesia e de esperança,
E lhe tiram o frio d’este inverno
E o enchem de esplendor e majestade…
Mais do que as vossas túnicas de púrpura!

Eu, às vezes, nas naves das igrejas
Lá quando desce a luz a alma sobe…
E entre as sombras perpassam as saudades…
E no seio de pedra tem o triste
Mil seios maternais… eu tenho visto
Branquejar, nos desvãos da nave obscura,
Como as nuvens da tarde desmaiadas,

Uns brancos véus de linho em frontes belas
De umas pálidas virgens cismadoras,
Que, em verdade, não há para cobrir-nos
A alma de mistério e de saudade
Gaze nenhuma assim! Vede, opulentos,
Como Deus, com olhar de amor, as veste
A elas, de uma luz de aurora mística,
De poesia, de unção e mais beleza
Que o véu tecido com o velo de ouro!

Os vossos cofres têm tesouros, certo,
Que um rei os invejara… Mas eu tenho
Às vezes visto o infante, em seio amado
De mãe, dormir coberto de um sorriso,
Tão guardado do mundo como a pérola
No fundo do seu golfo… e sei, ó ricos,
Que aquele abrigo aonde a mãe o fecha
 Entre braços e seio  é precioso,
Cerra um tesouro de mais alto preço
Que os tesouros que encerram vossos cofres!

III

Levitas do MILHÃO! o vosso culto
Pode ter brilhos e esplendor de pompas…
Arrastar-se nas ruas da cidade
Como um manto de rei… e sob os arcos
De mármore passar, como em triunfo…
Ter colunas de pórfido luzente…
E ser o altar do vosso santuário
Como o templo Sol… cegar de luzes…
O vosso deus pode ser grande e altivo
Como Baal… o Deus que bebe sangue…
Mas o que nunca o vosso culto esplêndido
Há-de ter, como um véu para o sacrário,
A velar-lhe mistérios… é a poesia…

Esse mimo de amor… esses segredos…
O ingênuo sorriso da criança…
O olhar das mães, espelho de pureza…
A flor que medra na soidão das almas…
O branco lírio que, manhã e tarde,
Aos pés da Virgem, no oratório humilde,
Rega a donzela, em vaso pobrezinho!
Nunca a vossa cruz-de-ouro há-de dar sombra
Como a outra da Gólgota  o alívio,
Sombra que buscam almas magoadas 
Onde os citisos pálidos rebentam…
Consolações… saudade… e inda esperanças…

Podeis cavar… as minas são bem fundas…
Cavai mais fundo ainda… e já é o centro
Da terra, aí! Mas, onde, ó vós mineiros,
Por mais que profundeis não heis-de uma hora
Chegar mais… é ao coração…
E, entanto,
É lá a única mina de ouro puro!

IV

O coração! Potosi misterioso!
O grande rio de areais auríferos,
Que vem de umas nascentes ignoradas
Arrastando safiras em cada onda,
E depondo no leito finas pérolas!

O coração! É aí, ricos, a mina
Única digna de enterrar-se a vida,
Cavando sempre ali… sem ver mais nada…
Foi lá, como na areia o diamante,
Que Deus deixou cair da mão paterna
As esmeraldas do diadema humano…

O Sentimento vivo… a Ação radiante…
E a Idéia, o brilhante de mil faces!
Foi lá que esse Mineiro dos futuros
Encobertos andou co’os braços ambos
Metidos a buscar  mas quando um dia
Do fundo as mãos ergueu… o mundo, em pasmo,
Viu-lhe brilhar nas mãos… o Evangelho!
(1863)

***

locomotiva

  • GIRÃO (António Luís Ferreira)

VIVA O PROGRESSO!

Quando nas noites de cruéis insónias,
Papoilas colho pela nossa história
Nos feitos nunca feitos dos antigos,
Patetas tais lamento. – De que serve
O puro amor da Pátria não movido
Por luzente metal, mas alto, e grátis?
Que lucraram Cabrais, e os Albuquerques,
Em Diu os Castros, no Oriente os Gamas,
Senão morrer de fome, e andar às moscas?
Felizmente vai longe o tempo estulto
De ideias carunchosas d’honra e brio,
Que faziam girar estes e outros
Por solidões de nunca vistos mundos.
E houve quem louvasse estas carreiras,
Quem cantasse os heróis, e os descrevesse?
E há, oh, caso raro!, inda hoje em dia
Quem Andrade e Barros saboreie?
Eu por mim quando os leio o sono é certo.
De que livra saber que o Sol nascendo
No berço viu as lusitanas quinas;
Ou que iroso Neptuno escoucinhando
No mar se divertiu cos Palinuros?
Sempre nossos avós eram bem asnos
Em achar graça a ninharias destas!
Que delírio fatal deu causa a tanto?
Que modo de julgar o mundo e homens
Tão outros do que são como hoje os vemos
À luz etérea do imortal progresso!
O tal Gama que fez (haja franqueza)
Para ser cantado por Camões, o torto,
Num poema sem fim de insulsas trovas?
Fez ele porventura à pátria amada
Presente dalgum gás de novo invento?
Roubou por lá dinheiro aos Hotentotes?
Vendeu porção de terra aos estrangeiros
Pra melhor se arranjar quando voltasse?
Mas nada!… qual história!… o caso é outro,
Fez… (modernos barões, morrei de riso!)
Fez conhecido o lusitano nome!
Em vez de tanta glória, o barbas-d’alho
Dentuças d’elefante antes trouxesse,
Que servem pra marfim, pimenta, e cravo,
Como fazem por aí nos nossos dias.
Estes, sim, são heróis, pintos arranjam
Por finos estampados papelinhos,
Ou inocentes traficando em negros .
A honra, a probidade, a fama, a glória,
E que tais palavrões é fumo, é nada.
Quem troca por loureiros pão d’Avintes,
Ou tostados biscoitos? – E inda há parvos
Pregando sabichões que ter virtudes
É melhor capital do que ter loiras!
Viu-se sandice igual?! – O rumo é outro,
É pé-leve, mão pilha, e ser maroto,
Que esperto quer dizer, pois são sinónimos,
Na do progresso singular linguagem.
Que tempo tão feliz – que século d’oiro!

Salve, progresso tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
Do val que foi de pranto, e hoje é de rosas!

Nem tu, sexo gentil, ficaste isento
Desta moda seguir. – (Pasmai, vindouros,
Do lume vivo das modernas luzes!)
As Marílias cruéis têm vindo ao rego
A honra desprezando, inútil freio
Não posto às más paixões, posto à fortuna.
Isto, sim, que é pensar, ah! que inocência,
Que formosura ingénua e recatada
Ganhou por isso a vida! Avante, belas!
Que o viver é gozar, e os fins são tudo.
Teatros, o vestido, o baile e a festa,
Dinheiro custam, não se dão de graça.

Amor, essa paixão que aos próprios deuses
Faria tresloucar, e andar em brasa,
Está posta em leilão, a lanço em praça.
Ó tempos, ó costumes semibárbaros,
Em que amar era andar atrás das moças
A chorar, a grunhir e a fazer versos;
Ou ir de ponto em branco, mata-moiros,
Deixar-se esquartejar por dama ingrata!
As nossas vestais hoje, em vendo as c’roas,
Rendido o coração, dão corpo e alma.
Os tolos Quixotões desconheceram
Que a mulher é mulher; e o oiro é tudo.
Mas isto é pouco ainda, ‘inda devemos
Mais ao progresso que eu adoro, e sigo.
Era dantes mulher traste de luxo
Sem valer um ceitil, cinco réis cegos;
Hoje há pai que põe preço à própria filha,
Marido que hipoteca a linda esposa,
E quem por um cavalo ou por dez libras
A ditoso rival a amada entregue.
Que moda tão feliz, se o preço abaixa!
Progresso, salve, tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
De vai que foi de pranto, e hoje é de rosas!

***

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  • João de LEMOS

A LUA DE LONDRES

É noite. O astro saudoso
rompe a custo um plúmbeo céu,
tolda-lhe o rosto formoso
alvacento, húmido véu,
traz perdida a cor de prata,
nas águas não se retrata,
não beija no campo a flor,
não traz cortejo de estrelas,
não fala de amor às belas,
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos
onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
das praias de além do mar?
Foi na terra tua amada,
nessa terra tão banhada
por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
na pátria dos meus amores,
pátria do meu coração!

Oh! que foi!… Deixaste o brilho
nos montes de Portugal,
lá onde nasce o tomilho,
onde há fontes de cristal;
lá onde viceja a rosa,
onde a leve mariposa
se espaneja à luz do Sol;
lá onde Deus concedera
que em noite de Primavera
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas
talvez há pouco o país
onde do bosque as madeixas
já têm um flóreo matiz;
amaste do ar a doçura,
do azul e formosura,
das águas o suspirar.
Como hás-de agora entre gelos
dardejar teus raios belos,
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
do Mondego os salgueirais;
quem andou por Tejo acima,
por cima dos seus cristais;
quem foi ao meu pátrio Douro
sobre fina areia de ouro
raios de prata esparzir
não pode amar outra terra
nem sob o céu de Inglaterra
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
tens aqui; mas Deus igual
não quis dar-lhe essa lindeza
do teu e meu Portugal.
Aqui, a indústria e as artes;
além, de todas as partes,
a natureza sem véu;
aqui, ouro e pedrarias,
ruas mil, mil arcarias;
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
estátuas, praças sem fim
retalham, cobrem o solo,
mas não me encantam a mim.
Na minha pátria, uma aldeia,
por noites de lua cheia,
é tão bela e tão feliz!…
Amo as casinhas da serra
coa Lua da minha terra,
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
padecemos igual dor;
temos a mesma saudade,
sentimos o mesmo amor.
Em Portugal, o teu rosto
de riso e luz é composto;
aqui, triste e sem clarão.
Eu, lá, sinto-me contente;
aqui, lembrança pungente
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
voltemos aos puros céus.
Leva-me, ó Lua, contigo,
preso num raio dos teus.
Voltemos ambos, voltemos,
que nem eu nem tu podemos
aqui ser quais Deus nos fez;
terás brilho, eu terei vida,
eu já livre e tu despida
das nuvens do céu inglês.

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modernidade & religião: novas (ou velhas?) perspectivas

dezembro 5, 2010 às 23:52 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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simpson da vinci

Como a religião pode acomodar-se no âmbito da onipresente razão científica que estrutura o pensamento moderno? Segundo o teólogo John Spong, é preciso renovar-se as concepções acerca da natureza do divino numa direção “não teísta”, perspectiva que apresenta interessantes semelhanças com a concepção camoniana de Deus, conforme a análise de António Saraiva. Outro instigante viés comparativo seria entre o deus pós-moderno de Spong e o deus imanente e naturalista tantas vezes figurado na poesia de Alberto Caeiro.

 

Um Deus não teísta. Um novo cristianismo para a pós-modernidade

Se o cristianismo quiser continuar falando ao mundo pós-moderno, terá que fazer isso com base em ideias e palavras radicalmente novas. Mudança ou irrelevância, enfim, é essa alternativa: embora a tarefa seja imensa, embora pareça ambiciosa, a reformulação de toda a fé cristã será cada vez mais o seu único caminho de sobrevivência.

A reportagem é de Claudia Fanti, publicada na revista Adista, 29-11-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Esse é uma questão que se tornou central na pesquisa teológica mais avançada, como indica por exemplo a Agenda Latino-Americana 2011, dedicada ao tema "Espiritualidade sem mito. Uma outra religião é possível". E que foi corajosamente abordada em livros que se tornaram pedras angulares nesse ainda breve percurso, como o publicado na Bélgica no ano 2000 e publicado em italiano em 2009 por iniciativa da Massari Editora, pelo jesuíta belga Roger Lenaers, "Il sogno di Nabucodonosor o la fine di una Chiesa medievale": uma tentativa de traduzir a mensagem cristã em uma linguagem em que o homem e a mulher modernos possam se reconhecer.

Ou então o que surgiu em 2002, do teólogo e bispo episcopaliano John Shelby Spong, "A New Christianity for a New World: Why Traditional Faith Is Dying and How a New Faith Is Being Born", que a mesma editora Massari decidiu apresentar ao público italiano, com o título "Un cristianesimo nuovo per un mondo nuovo. Perché muore la fede tradizionale e come ne nasce una nuova" (368 páginas).

Assim, a editora Massari mostra uma atenção confirmada também pela recente publicação do livro de Gumersindo Lorenzo Salas, "Una fede incredibile nel secolo XXI. Il mito del cristianesimo ecclesiastico" (224 páginas, introdução de Giovanni Franzoni).

O livro de Spong é a tentativa de oferecer uma visão do cristianismo "tão radicalmente reformulada que possa viver neste novo mundo audaz" e "tão global que, em comparação, a Reforma do século XVI parecerá uma brincadeira de crianças", mas que permaneça, apesar disso, ligada à "experiência que deu origem a essa fé-tradição há mais de 2 mil anos".

Não por acaso o autor se professa como "um alegre, apaixonado, convicto crente na realidade de Deus": "Acredito que Deus é real e que eu vivo profunda e significativamente em relação com essa divina realidade. Proclamou Jesus como meu Senhor. Acredito que ele mediou Deus de um modo poderoso e único na história da humanidade e em mim".

Porém, acrescenta, "não defino Deus como um ser sobrenatural. Não acredito em uma divindade que pode ajudar uma nação a vencer uma guerra, intervir para curar a doença de uma pessoa querida, permitir que uma equipe esportiva em particular vença a sua adversária".

"Além do teísmo, mas não além de Deus"

Segundo Spong, o Deus entendido teisticamente como "um ser com poder sobrenatural, que habita fora deste mundo e que invade o mundo periodicamente para realizar a sua divina vontade", um ser com poderes milagrosos a ser suplicado, obedecido e comprazido, diante do qual devemos nos prostrar como um escravo diante do patrão, está hoje morrendo, se já não estiver morto.

Embora as autoridades eclesiásticas prefiram continuar o jogo do "faz de conta", gritando sempre mais forte as antigas formulações, o Deus teísta, como "explicação do que era até agora inexplicável", está desaparecendo do nosso horizonte, empurrado sempre mais para as margens por meio de cada nova descoberta científica.

E aos seres humanos, que haviam se confiado com sucesso a essa divindade, durante séculos, para enfrentar a consciência da finitude e da insignificância humana, se encontram agora novamente diante do trauma da solidão e da perda de significado.

Porém, como evidencia Spong, se o teísmo, como descrição humana de Deus, morre, não é óbvio que Deus também deva morrer. Isto é, não é óbvio que a única alternativa ao teísmo seja o ateísmo (ou um insignificante deísmo: isto é, a afirmação de um Deus tão além da vida deste mundo que torna impossível qualquer relação com o divino): "A nossa sempre maior autoconsciência não poderia nos permitir entrar em relação com aquilo sobre o qual o nosso ser está fundamentado, que é mais do que somos, mas que também faz parte daquilo que somos?".

Assim, a nova maturidade que nos é pedida, traduzindo-se na dolorosa, assustadora renúncia a "um ser sobrenatural que nos sirva de genitor, que nos cuide, nos vigie e nos proteja", abre caminho para uma nova busca: a de "uma transcendência que entra na nossa vida, mas que nos chama para além dos limites da nossa humanidade, para um ser externo, mas para o Fundamento de todo o ser", para a compreensão de um Deus que "pode ser aproximado, experimentado, apresentado de modo radicalmente diferente".

A pergunta diante da qual nos encontramos torna-se: "Existe uma realidade que concordamos em chamar com a palavra de Deus, cujo rosto pode estar escondido, mas cujos efeitos posso ver?". E Spong não se isenta à tentativa de dar uma resposta: "Deus é a fonte última da vida. Venera-se Deus vivendo plenamente, compartilhando profundamente". E ainda: "Deus é a fonte última do amor. Adora-se esse Deus amando generosamente, difundindo amor com delicadeza, doando amor sem se deter para avaliar o custo".

E por fim: "Deus é o Ser, e veneramos esse Deus tendo a coragem de ser tudo aquilo que podemos ser", indo além "do modo de sobreviver fechados em nós mesmos, ao qual a vida humana está tão profundamente atrelada". "Hoje, eu vivo – escreve Spong – na convicção de que não estou separado desse Deus. (…). A alteridade vem ao meu encontro. A transcendência me chama. Deus me abraça". E, portanto, "Deus não está morto. Verdadeiramente entramos em Deus. Somos portadores de Deus, cocriadores, encarnação daquilo que Deus é".

O cristianismo do futuro

O autor também não renuncia à tentativa de responder a uma outra pergunta crucial, da qual depende o próprio futuro do cristianismo: "É possível ser capaz de contar a história de Cristo deixando de lado a concepção teísta de Deus?". Renunciando ao retrato terreno do Deus teísta em forma humana, enfim, restaria algo de Jesus? Para Spong, permaneceria uma vida humana que, "apesar disso", torna "conhecível, visível e fascinante o Fundamento de todo ser": "alguém que esteve mais profunda e plenamente vivo do que qualquer outro que eu jamais encontrei", alguém que "rompe os limites" e permite "superar as barreiras humanas e alcançar a divindade que a sua vida revela", que "revela a fonte do amor e depois nos chama a nela entrar".

E, por fim, como será a Igreja no mundo pós-teísta, uma vez que o culto não terá mais o objetivo de confessar os nossos pecados a um "paterno juiz", nem de contar com o poder das orações comunitárias para dirigir o curso da história do mundo, nem de purificar as crianças por meio do batismo "da humanidade caída na qual nascemos", nem de "reatualizar liturgicamente o divino sacrifício realizado para assegurar o nosso resgate de uma suposta condição desesperada de pecado original"?

Se uma nova humanidade "depende da nossa capacidade de irmos além da nossa mentalidade egocêntrica de sobrevivência", um dos objetivos da nova Igreja será o de organizar a vida de culto de modo a encorajar o amor desinteressado pelos outros.

E esse será o motivo pelo qual Jesus continuará estando no centro da nossa liturgia "como fúlgido exemplo de quem conseguiu viver plenamente, amar sem limites e ser tudo o que ele foi capaz de ser".

Do mesmo modo, a Igreja do futuro se dedicará à expansão do Reino de Deus, agindo com determinação não por um programa religioso, mas pelo programa da vida, da vida em abundância para todos, não impondo sua própria verdade a ninguém, mas vivendo só "para aumentar o amor que está presente na vida".

FONTE: IHU Online

prova de litport3: exercício

dezembro 2, 2010 às 14:48 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Selecione DOIS dentre os poemas listados abaixos e comente cada um deles (mínimo de 10 linhas), considerando a pertinência das proposições feitas a seguir às transcrições e discutindo elementos textuais ou teóricos que confirmem, ou não, as interpretações sugeridas.

 

1.      APOSTILA  [Álvaro de Campos]

Aproveitar o tempo! 
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite? 
Aproveitar o tempo! 
Nenhum dia sem linha… 
O trabalho honesto e superior… 
O trabalho à Virgílio, à Milton… 
Mas é tão difícil ser honesto ou superior! 
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo! 
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos – 
Para com eles juntar os cubos ajustados 
Que fazem gravuras certas na história 
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)… 
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões, 
E os pensamentos em dominó, igual contra igual, 
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos – 
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um acto indefinido nem factício…

Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…

Aproveitar o tempo! 
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro. 
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto. 
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste. 
Aproveitar o tempo! 
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos. 
Aproveitei-os ou não? 
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo 
No comboio suburbano, 
Chegaste a interessar-te por mim? 
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter? 
Qual foi a vida que houve nisto?

Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo! 
Ah, deixem-me não aproveitar nada! 
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!… 
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa, 
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
O pião do garoto, que vai a parar, 

E estremece, no mesmo movimento que o da terra, 
E oscila, no mesmo movimento que o da alma, 
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

a)    Observa-se neste poema uma crítica à racionalidade moderna, focalizando especialmente a ideia de que a dedicação intensiva ao trabalho e à produção são capazes de conduzir os sujeitos a um grau superior de realização e de auto-conhecimento. Para o eu-lírico, a fé religiosa é o melhor caminho para garantir essa realização.

 b)    Apesar da insistência anafórica em se pautar pelos ritmos da modernidade (“Aproveitar o tempo!”), o trabalho introspectivo feito pelo eu-lírico também aponta caminhos alternativos para a satisfação de suas carências, dentre os quais podemos destacar:

 i)              a reconstrução de sua subjetividade através da linguagem literária, processo que denomina de “verbalismo”;

ii)             a reconstrução de sua humanidade através de um eventual relacionamento amoroso, tal como é sugerido na quinta estrofe;

iii)            a recuperação de autenticidade existencial através de um retorno simbólico à visão-de-mundo infantil, tal como é sugerido na última estrofe.

 

2.      GLOSAS  [Fernando Pessoa]

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.

O vento vão, que as folhas vãs enroda,

Figura o nosso esforço e o nosso estado.

O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita

A possibilidade erma e infinita

De onde o real emerge inutilmente,

E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.

Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo

Suposto, o Fado que chamamos Deus

Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.

Uma coisa é uma cara contraída

E a outra uma água com um leve sal.

E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,

E, renovando o curso, nasce e morre

Nos horizontes do que contemplamos.

Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,

Jazemos o instinto e a ciência.

E o sol parado nunca percorreu

Os doze signos que não há no céu.

a)    Predomina neste poema uma concepção anti-humanista do sujeito, perante a qual a noção de autonomia pessoal que caracteriza o sujeito iluminista é tomada como uma ilusão.

 b)    Para o eu-lírico, o “Fado” que governa a vida dos indivíduos está em conflito constante com impulsos oriundos do inconsciente psíquico, impulsos que fazem aflorar o lado maléfico das pessoas.

  

 3.      NÃO MEU, NÃO MEU É QUANTO ESCREVO. 

A quem o devo?

De quem sou o arauto nado?

Por que, enganado,

Julguei ser meu o que era meu?

Que outro mo deu?

Mas, seja como for, se a sorte

For eu ser morte

De uma outra vida que em mim vive,

Eu, o que estive

Em ilusão toda esta vida

Aparecida,

Sou grato Ao que do pó que sou

Me levantou.

(E me fez nuvem um momento

De pensamento.)

(Ao de quem sou, erguido pó,

Símbolo só.)

 [Fernando Pessoa]

 a)    O conjunto de negativas e de interrogações que iniciam este poema propõem um questionamento agudo da racionalidade cartesiana pressuposta nas concepções clássicas do sujeito, colocando em foco uma perspectiva niilista sobre a existência humana.

 b)    Neste poema a imagem cristã da criação do homem é retomada sob uma perspectiva que põe em destaque a concepção do “eu” como uma entidade essencialmente discursiva.   

a estranha felicidade moderna

novembro 21, 2010 às 23:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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bussola

Mais um boa entrevista que se embasa na teoria lacaniana, especialmente nos conceitos de “simbólico” e de “gozo”, para desenvolver questões cruciais relacionadas à desorientação dos sujeitos modernos.

 

“A bússola do sujeito muda seu norte”

Homo automaticus. Novos enlaces entre gozo e saber é o tema que inspirou a entrevista a seguir, concedida por e-mail pelo psicanalista Alfredo Jerusalinsky à IHU On-Line, adiantando aspectos do ninicurso que irá ministrar em 23-05-2007 no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? Para Jerusalinsky, se até pouco tempo “o sujeito se orientava na procura de um outro para decidir seu destino face àquilo que a sociedade demandava dele, hoje – na pós-modernidade – ele anda na incessante procura de um objeto que venha lhe garantir um gozo da máxima intensidade”. Dito de outro modo, explica ele, “se o problema central de todo sujeito antes era como se representar no discurso social, hoje sua bússola sofreu a torção para o encontro com a satisfação de suas demandas corporais”.

Por: IHU Online

Jerusalinsky é psicanalista, mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e doutor em Educação e Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP). Além disso, é membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre e da Association Lacaniènne Internationale. Nas Notícias Diárias do sítio do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), www.unisinos.br/ihu, Jerusalinsky concedeu a entrevista Borat, Babel e A Rainha e suas relações, analisando esses três filmes, bem como Pequena Miss Sunshine. De sua vasta bibliografia, destacamos: La formación del psicoanalista (Editora Nueva Visión: Buenos Aires, 1989); Psicanálise e desenvolvimento Infantil (2ª ed. Artes e Ofícios: Porto Alegre, 1998); Para entender al Niño, Claves psicoanalíticas (Ediciones ABYA-YALA: Quito, 2003) e Quem fala na língua? Sobre as psicopatologias da fala (Editora Ágalma: Bahia, 2004).

IHU On-Line – Em entrevista concedida ao nosso site em 09-03-2007, o senhor fala que a queda de crenças como “a união faz a força, a liberdade de um acaba onde começa a do outro, a felicidade está no amor (que necessariamente passa pelo outro)” nos deixa desorientados. Como esse desencantamento se relaciona com a autonomia do sujeito na pós-modernidade?
Alfredo Jerusalinsky –
A bússola do sujeito muda seu norte. Se até pouco tempo ele se orientava na procura de um outro para decidir seu destino face àquilo que a sociedade demandava dele, hoje – na pós-modernidade – ele anda na incessante procura de um objeto que venha lhe garantir um gozo da máxima intensidade. Dito de outro modo, se o problema central de todo sujeito antes era como se representar no discurso social, hoje sua bússola sofreu a torção para o encontro com a satisfação de suas demandas corporais. A demanda social passou para um segundo lugar. De tal modo – no que se refere à autonomia – que ele mesmo perfaz seu próprio nome sem que o nome recebido do Outro tenha maior valor.

Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
— Os quatro ventos do místico ar da civilização
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – Como o senhor define o homo automaticus? Quais são os pontos de aproximação e as diferenças com o homo sapiens?
Alfredo Jerusalinsky –
Se situarmos o homo sapiens como aquele primata que deu esse passo fundamental para o domínio da linguagem, recalcando suas pulsões a serviço de uma aliança fraterna ordenada por um saber simbólico sobre o gozo, teremos que nos perguntar quais serão os efeitos da perda de consistência desse gozo simbólico quando se coloca no trono um gozo real. Quando o gozo se situa na ordem simbólica, isso significa que não é necessário experimentar para saber: a linguagem nos assegura um saber que, na medida em que ele provém de uma memória da espécie armazenada nos signos lingüísticos (memória que costumamos designar como “cultura”), poupa a cada um de passar pela experiência. Até as crianças mais pequenas sabem disso: quando a mãe lhes oferece uma comida nova, elas podem responder que não gostam, apesar de nunca tê-la experimentado. A ordem simbólica ancorada na linguagem nos permite deduzir o lugar e o valor das coisas e dos outros sem nunca tê-los visto ou tocado. É assim que podemos saber que algo falta, sem termos registro de que é. Tais são as razões desse “homo” para merecer no nome de “sapiens”.

Quando se dá prevalência ao corpo como coisa a ser satisfeita – ou também como coisa a ser privada de satisfação –, são seus automatismos que passam a ocupar o centro da cena. Seja pela prevalência de um prazer absoluto, seja pelo martírio da privação, o corpo se torna protagonista e, então, seus automatismos passam a comandar a vida do sujeito. Este se torna escravo, paradoxalmente, dos artifícios que inventa (sejam científicos ou religiosos) para se desembaraçar da responsabilidade sobre seu destino. Na medida em que o saber já não está mais no sujeito, mas no artifício automático que ele mesmo criou (trate-se de suas descobertas neuroquímicas, da informática, dos artefatos eróticos ou dos sistemas dogmáticos de crenças ou cosmogonias), ele passa a merecer o nome de homo automaticus. A robótica aplicada como complemento corporal é um dos paradigmas desse conceito que acabo de propor, e, como é bem sabido, ela nos apresenta uma série interminável de problemas éticos.

IHU On-Line – E quais seriam os possíveis enlaces entre gozo e saber nesse homo automaticus?
Alfredo Jerusalinsky –
Como acabo de afirmar, nesse homo automaticus, o que parece destinado a tomar o comando das coisas hoje em dia, o saber consiste numa repetição fechada que assegure um gozo real. Se é esse gozo que se procura, nada melhor, então, que reduzir tudo a uma engenhoca ou a um dogma, ambos garantindo uma repetição sempre igual e automática. Deve-se notar que, ultimamente, há importantes tentativas de reconciliação entre a religião e a ciência. Tentativas que se fundamentam nesse acordo estratégico de elevar os automatismos ao lugar de comando (embora os automatismos propostos não sejam da mesma natureza). Pelo seu lado, o fundamentalismo aposta seu saber na repetição automática das escrituras sacralizadas pelo homo sapiens. Ocorre que este último vivia com tantas dúvidas que precisou colocar em algum lugar a esperança de alguma verdade indiscutível. Se a religião, pelo seu lado, o fez nas sagradas escrituras, Descartes  a situou no pensamento: “cogito ergo sum”, o que, paradoxalmente, cancelou sua “dúvida sistemática”.

Na medida em que o paradigma cartesiano colocou como núcleo do pensamento moderno o suposto de que todo saber é transformável em conhecimento (o que quer dizer, dotado de parâmetros que permitem materializá-lo calculá-lo), os saberes se transformaram em pequenas certezas. Habitamos num mar delas, tão pequenas que não alcançam para nos dar certeza de nada. Por isso, passamos a gozar de uma ilusão vasta e generalizada de saber o que, em verdade, ignoramos.

GLOSAS

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.
O vento vão, que as folhas vãs enroda,
Figura o nosso esforço e o nosso estado.
O dado e o feito, ambos os dá o Fado.

Sereno, acima de ti mesmo, fita
A possibilidade erma e infinita
De onde o real emerge inutilmente,
E cala, e só para pensares sente.

Nem o bem nem o mal define o mundo.
Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo
Suposto, o Fado que chamamos Deus
Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.
Uma coisa é uma cara contraída
E a outra uma água com um leve sal.
E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

Doze signos do céu o Sol percorre,
E, renovando o curso, nasce e morre
Nos horizontes do que contemplamos.
Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência,
Jazemos o instinto e a ciência.
E o sol parado nunca percorreu
Os doze signos que não há no céu.

[Fernando Pessoa]

IHU On-Line – Se progresso é um sinônimo para felicidade, podemos dizer que o saber virou sinônimo de gozo? Por quê?
Alfredo Jerusalinsky –
Um momento! Eu não disse que progresso seja realmente um sinônimo para a felicidade. Eu referi que essa é uma crença própria da modernidade. Mutatis mutandis, hoje tal crença se deslocou para a suposição de que o gozo seja sinônimo de felicidade. É difícil saber por que aconteceu tal coisa. Podemos formular algumas hipóteses: a ciência evoluiu de tal modo na modernidade que facilitou a crença de que os aproveitamentos tecnológicos de suas descobertas poderiam assegurar aos humanos que nada lhes faltaria. Outra hipótese na mesma trilha: a confiança cega na razão como fonte exclusiva de verdade levou a um reducionismo logicista (em termos euclidianos) do pensamento, o que teve como conseqüência uma ilusão de domínio total do mundo em que vivemos. Talvez se trate simplesmente de um retorno do corpo mesmo ao centro da cena, depois de ter sofrido séculos de recalque e repressão.

IHU On-Line – Quais são as principais conseqüências da hiperacionalização realizada em diversas instâncias da vida pós-moderna e de que modo o gozo e o saber estão imbricados nesse otimismo teórico ilimitado tão característico de nossos dias?
Alfredo Jerusalinsky –
Que a razão conduz à felicidade é uma ilusão que rapidamente se desmancha. Basta perguntar a um casal, quando estoura uma briga entre os parceiros, se lhes serve, a cada um deles, ter razão. Certamente não é por essa via que vão se reconciliar. O mesmo acontece nas mais amplas relações sociais. Quando a razão destrói os mitos em que se alicerça a consistência simbólica de uma determinada cultura, aparece aí um tipo de verdade que, por lançar ao centro da cena o real recalcado, provoca efeitos arrasadores nesse conjunto social. Rapidamente, então, se fabricam novos messianismos, para substituir, na sua função de recalque, os horrores revelados na queda das antigas crenças destituídas pelo hiper-racionalismo.

SE QUISEREM QUE EU TENHA UM MISTICISMO, ESTÁ BEM, TENHO-O.
Sou místico, mas só com o corpo.
A minha alma é simples e não pensa.

O meu misticismo é não querer saber.
É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.
Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição

[Alberto Caeiro]

IHU On-Line – Como e por que a ilusão de autonomia absoluta inclina as pessoas a uma ética individualista? Corremos o risco de nos tornarmos uma sociedade de indivíduos e pensar a autonomia apenas como um sinônimo de individualismo?
Alfredo Jerusalinsky –
Sua pergunta é interessante porque ela mesma afirma a existência desse risco. Estou de acordo. Porém, cabe assinalar pelo menos duas questões. A primeira é sobre o conceito de ética. Se colocamos a ética como “o sujeito se fazer responsável das conseqüências que seu ato tem para o outro” (citando Jacques Lacan) – definição que eu faço minha –, como poderíamos falar em ética tratando-se do individualismo? Devemos atentar aqui ao fato que o termo “individualismo” é portador de um “ismo”, o que quer dizer que cada vez que houver um conflito entre o indivíduo e o conjunto social haverá tomada de partido pelo indivíduo. Tratar-se-ia, então, de uma sociedade em permanente erosão. Eis aqui a segunda questão: colocando em jogo o princípio de o sujeito se responsabilizar pelas conseqüências do ato sobre o outro, não estaríamos garantindo o respeito do indivíduo, sem necessidade de tomar partido? Devemos reconhecer, contudo, que as paixões humanas não são tão ponderadas.

IHU On-Line – Que patologias psicológicas podem surgir dessa postura egóica assumida pelas pessoas atualmente?
Alfredo Jerusalinsky –
Novamente, você assinala um ponto importante, a saber, a dilatação do ego. Essa, precisamente, é uma das características da paranóia : tudo o que acontece em volta o sujeito imagina que está dedicado a ele. Seja como beneficiário ou prejudicado, o sujeito contemporâneo se coloca como credor de um gozo inusitado, e, ao mesmo tempo, como ameaçado pelo gozo do outro. Assim é que coloca grades pontudas ao redor de sua moradia, situa seu corpo como inimigo que deve ser controlado por medicações que eliminem suas ameaças e anseia entrar em corporações que o protejam. Esse fundo paranóide, com que o sujeito hoje em dia se sociabiliza, costuma tomar diversas formas: a hipocondria generalizada (alguém que saiba me defender das ameaças vindas do corpo), formas obsessivas (a delimitação minuciosa dos espaços), defesas histéricas (como as da ciência: “nada tenho a ver com o desejo”), a bulimia (devorar o mundo inteiro para me constituir numa totalidade na qual não falta nada), a toxicomania (como resistência a depender do outro), a anorexia (ser nada para impedir o registro de que algo falta), e uma intensa fobia do semelhante (sob formas de racismo, xenofobia, guerras santas etc.)

OPIÁRIO

                        Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

(…)

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

(leia na íntegra)

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – Nessa mesma entrevista ao nosso site, o senhor afirma que a população do planeta todo se sente hoje politicamente mal representada. Como entender essa má representação frente à autonomia do sujeito em escolher seus representantes? Por outro lado, como podemos compreender a apatia política presente em boa parte dos eleitores no mundo afora?
Alfredo Jerusalinsky –
Quando se fala em representação de um sujeito por outro, em seguida tropeçamos num problema grave: sempre haverá uma distância entre o desejo do representado e a interpretação que, desse desejo, fará o representante. Esse mal-entendido inevitável, porém, fica amortecido quando o representante, pelo fato de reconhecê-lo, consulta incessantemente o representado. A maior dificuldade surge quando o representante, uma vez eleito, acredita encarnar, ele mesmo, o desejo de seu representado, o que quer disser que ele confunde seu desejo e sua própria satisfação com a de seu representado. Passa então a gozar da legitimação de qualquer forma de sua satisfação pessoal (chamada vulgarmente de corrupção ou abuso de poder), acreditando que, com isso, seu representado ficará feliz ou, ao menos, indiferente. Essa é a filosofia dos reis: eles acreditam que seu luxo e magnificência, que sua festa, constitui a felicidade de seu representado. Isso se chama “gozo do outro”. Simplesmente nos sentimos mal representados porque estão gozando de nós. Ocorre que os representantes, de um modo geral, levam demasiado a sério a sua própria autonomia: se tornam autônomos de qualquer versão do Outro social.

FONTE: Revista IHU On-Line

pessoa voando

paradoxos do individualismo moderno

novembro 21, 2010 às 22:06 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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individualismo1

Conforme tem sido insistententemente colocado ao longo de nosso curso na LitPort3, a discussão da representação dos descentramentos modernos na poesia de Fernando Pessoa desenvolve-se de maneira mais produtiva, tanto no âmbito teórico quanto pedagógico, quando é diretamente articulada aos problemas psicossociais que marcam a nossa contemporaneidade, tal como é sugerido pela “transcrição mixada” do artigo a seguir:

 

A subjetividade humana na sociedade de indivíduos. Entrevista especial com Benilton Bezerra

Na manhã do terceiro dia do Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? Uma platéia atenta assistiu à conferência O futuro da autonomia e a construção de uma sociedade de indivíduos. Uma leitura psicanalítica, conduzida pelo professor Benilton Bezerra Jr., da UERJ. Em sua brilhante explanação, Bezerra falou sobre o impacto da autonomia e do individualismo na subjetividade humana. Para ele, nós vivemos, hoje, uma situação paradoxal. “Livramo-nos da pressão da tradição, no desejo de sermos autônomos. Afirmamo-nos como indivíduos quando colocamos a tradição em segundo plano”. No entanto, paradoxalmente, “somos escravos de modelos que nos ensinam como devemos agir para sermos indivíduos mais auto-suficientes e vencedores em nossas atividades diárias”. “Ser indivíduo é seguir um modelo que nos é imposto”, explica o palestrante, ao constatar que hoje o individualismo vive uma exacerbação, uma vez que a modernidade inventou que cada sujeito se constrói a si próprio.

DEPUS A MÁSCARA E VI-ME AO ESPELHO. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.

[Álvaro de Campos]

Ao abordar o tema do Simpósio em geral, Bezerra esclareceu que a autonomia é uma das facetas do individualismo. “Ela nos transformou em autônomos de forma que tudo na vida se torna opção individual. Paradoxalmente, nunca uma cultura teve tão forte a experiência da desassistência. Há sempre um expert em tudo. Nossa existência se tornou banalidade.”

O “Terceiro” indivíduo, o elemento poderoso em nossa vida, que tinha um poder inquestionável, tornou-se “líquido”, utilizando a terminologia de Zygmunt Baumann. “E é isso o que possibilita a exacerbação da autonomia. Desaparece o impossível, a noção do limite. Hoje o assombro diante das coisas é cada vez menor”, esclarece o professor da UERJ.

Ao descrever a sociedade da imagem, Benilton Bezerra afirmou que “hoje importa muito mais parecer ser alguma coisa. Vivemos na sociedade da imagem, do espetáculo, da exibição. Temos que estar sempre sorrindo, sempre felizes, sempre bem, passando essa imagem de bem-estar e felicidade”.

SÁBIO É O QUE SE CONTENTA COM O ESPETÁCULO DO MUNDO,
                E ao beber nem recorda
                Que já bebeu na vida,
                Para quem tudo e novo
                E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúveis,
                Ele sabe que a vida
                Passa por ele e tanto
                Corta a flor como a ele
                De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
                Que o seu sabor orgíaco
                Apague o gosto às horas,
                Como a uma voz chorando
                O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
                E apenas desejando
                Num desejo mal tido
                Que a abominável onda
                O não molhe tão cedo.

[Ricardo Reis]

O professor explicou também o conceito de subjetividade somática, pelo qual cada vez mais tendemos em radicar em nosso corpo a nossa individualidade. “Vemos uma proliferação de modificações corporais. Esse fenômeno cultural mostra a necessidade do ser humano de ser singular.” Outro conceito importante trazido pelo professor Benilton Bezerra Jr. é o da cultura do sujeito cerebral, que está emergindo em nossos dias. “Tendemos a pensar nossa subjetividade orientada pelo cérebro, que passa a ser o sujeito de nossas ações”.

Confira, a seguir, uma entrevista especial realizada pela redação da IHU On-Line com o professor Benilton, logo após sua conferência no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?

IHU On-Line – O senhor pode descrever um pouco a situação paradoxal em que vivem os indivíduos da sociedade contemporânea?

Benilton Bezerra Jr. – Esse paradoxo pode ser descrito de duas maneiras. Uma primeira em relação ao individualismo e uma segunda em relação à autonomia. Em relação ao individualismo, o paradoxo consiste no fato de que o valor do indivíduo e do individualismo surgir no momento em que as pessoas começaram a se desvencilhar das marcas e das determinações da tradição, da religião, da família. O indivíduo propriamente dito surge na modernidade, como alguém que se funda, se constitui a si próprio na sua trajetória pessoal durante a vida. Você faz aquilo em que irá se reconhecer como sendo seu. Na origem, o individualismo é uma tomada de posição, uma abertura de possibilidade para que o sujeito confronte a tradição, a determinação. O paradoxal hoje é que isso, que antes era algo subversivo em relação à realidade social prévia, virou a norma, a ideologia dominante. Todo mundo precisa ser indivíduo e ser singular. É uma obrigação, não é mais uma conquista. Com isso, temos essa situação paradoxal de que o indivíduo que se constituiria por contraste à tradição é agora instado a se construir conforme a tradição do individualismo. Trocamos uma servidão por outra. A diferença é que, antigamente, você era filiado inequivocamente a coisas que tinham uma dimensão simbólica muito mais ampla. Hoje em dia, esse individualismo não se constrói pela adesão a algum valor mais alto. Não são ideais; são modelos. Não são princípios em relação aos quais você se mede; são modelos que você tem que repetir.

Do lado da autonomia, o paradoxo consiste no fato de que, com o desenvolvimento do individualismo e da radicalidade da crítica moderna a todas as determinações sobre os indivíduos, hoje em dia, vivemos uma cultura na qual, de fato, as pessoas se sentem cada vez menos submetidas, de maneira superior a sua vontade, a princípios, normas, valores, etiquetas e ideais. Todos nós somos mais autônomos do que nunca para fazermos as nossas escolhas. Tudo depende das escolhas que fazemos. Isso aparentemente faz com que devêssemos nos sentir mais autônomos, mais capazes de decidir. Mas curiosamente – aí é que está o paradoxo – numa cultura onde todo mundo é autônomo, a grande parte das pessoas se sente desassistida, precisando da assistência de alguém que diga o que deve fazer, qual é a escolha certa. Aí entram os experts em tudo, com o “discurso competente”, que explicam à mãe se ela deve ou não dar comida de sal “na marra”, ou se deixa o filho escolher, explicam que tipo de roupa é adequada para suas pretensões sociais, que tipo de música se deve escutar. Isso causa uma espécie de enfraquecimento de algo fundamental na vida de todo mundo que é a possibilidade de sentir a marca pessoal nas escolhas.  Nós nos sentimos instados por uma força anônima, que nos conduz a querer fazer as coisas certas, adequadas.

IHU On-Line – O que caracteriza a exacerbação do individualismo e quais as conseqüências disso para a subjetividade dos indivíduos?

Benilton Bezerra Jr. – Esse fenômeno tem a ver com o fato de o indivíduo dispensar qualquer referência a um estatuto simbólico de uma força transcendente, da política, ou da religião. O sujeito tenta acreditar que pode viver plenamente no plano puro da imanência do cotidiano, das escolhas feitas a cada momento. Essa exacerbação tem um efeito muito importante entre muitos: é o fato de que isso modificou bastante os nossos ideais de felicidade, de realização pessoal. O que antes – na modernidade e na pré-modernidade – era medido com a referência a certos padrões e expectativas vinculadas a itens simbólicos, hoje está cada vez mais vinculado à posse, à conquista e à fruição de objetos. Esse individualismo levado ao extremo faz com que o sujeito se veja sempre numa espécie de luta incessante para poder se reafirmar, não pela filiação a algo maior do que ele, mas pela posse contínua de bens que têm uma insígnia fálica, com uma obsolescência social e psicológica muito rápida. Você compra qualquer coisa e aquilo, em pouco tempo, está obsoleto. É a busca por qualquer coisa que nos dê socialmente a imagem de sucesso. Por isso, essa adesão frenética a dietas e todo esse cultivo do corpo.

TENS VONTADE DE COMPRAR
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.

[Álvaro de Campos]

IHU On-Line – O senhor fala em uma outra forma de sociabilidade humana. Como seria essa nova sociabilidade, essa outra forma do ser humano?

Benilton Bezerra Jr. – Um dos traços dessa nova sociabilidade é a importância cada vez maior concedida à corporeidade, à dimensão somática da existência pessoal, nas trocas entre as pessoas. Por exemplo, a questão da imagem do corpo vem sendo cada vez mais importante em detrimento das características psicológicas e dos valores. É a moralização crescente dos atributos físicos. Outro traço dessa nova sociabilidade é o que alguns autores chamam de biosociabilidade: o fato de que, nessa mesma esteira da importância do corpo, temos a construção de identidades a partir de itens que são referidos ao corpo. Outro aspecto dessa nova forma de subjetivação é o lugar dos objetos na vida do sujeito em relação a si próprio e em relação ao outro. Os objetos passam a ser uma parte importante da construção da própria identidade. E também numa sociedade e numa cultura onde todos estão numa luta incessante pela posse de objetos que não são para todos, o outro passa, cada vez menos, a ser visto como semelhante e cada vez mais a ser, das duas, uma: ou um espelho, no qual eu fico me reconhecendo, ou um rival, que disputa comigo a posse daqueles bens que são escassos.

IHU On-Line – Qual é o futuro de uma sociedade assim?

Benilton Bezerra Jr. – Não podemos dizer, porque acontecem mudanças na história que são imprevisíveis. Ninguém previu a queda do muro de Berlim em 1989. Ela precipitou mudanças, da mesma forma que ninguém previu a invenção da internet e ela está mudando também a nossa vida social. O que podemos dizer é que, quaisquer que sejam as mudanças profundas que aconteçam, nós podemos, pelo menos, apostar na idéia de reconquistar a atividade política no sentido mais amplo da palavra: a política entendida como o engajamento na reflexão e na ação que visa a construção de existências pessoais e coletivas mais desejáveis no futuro. É o exercício de imaginar cenários mais desejáveis no futuro do que o presente, tanto no plano pessoal quanto no plano coletivo.   

IHU On-Line – Onde fica, nessa sociedade individualista, a solidariedade, a fraternidade e os valores cristãos?

Benilton Bezerra Jr. – O que pode alavancar uma ação que permita o pensamento crítico e o uso consensuado das tecnologias é a presença, no imaginário social e na prática subjetiva, de certos valores que transcendem esse plano da imanência do uso dos objetos, da fruição, das sensações. Esse é o desafio não só do cristianismo, mas do budismo e do pensamento político laico, que também perdeu suas referências. A grande política, a política laica, mesmo atéia do século XVIII para cá, é herdeira dessa transcendência religiosa. O cristianismo foi o primeiro movimento humano a inventar essa idéia de que todos são iguais. E isso está na base do pensamento democrático. O desafio do cristianismo hoje é conseguir estar à altura desse tipo de questão e como responder a esse desafio mantendo algum equilíbrio com a necessidade de auto-preservação da instituição Igreja, com suas regras.  

IHU On-Line – Se não são mais os mesmos ideais e sonhos que unem os seres humanos, o que nos une e faz de nós seres iguais?

Benilton Bezerra Jr. – A verdade verdadeira é que nós não somos iguais. Somos todos muito diferentes.

IHU On-Line – Então, hoje o que assemelha os seres humanos é a preocupação com os próprios interesses individuais?

Benilton Bezerra Jr. – É, o que torna todo mundo incapaz de compartilhar de horizontes coletivos. O que pode reabrir a possibilidade de compartilharmos horizontes coletivos é, por exemplo, a salvação do Planeta. De fato, nunca houve antes o reconhecimento de que, ou agimos em comunhão para salvar a Terra, ou vamos acabar com ela. Isso é recente. Não é papo de “verde”, de um grupelho de pessoas. É uma questão fundamental, pois está no centro da possibilidade da gente prosseguir vivendo.   

IHU On-Line – O senhor poderia explicar a cultura do sujeito cerebral? Qual sua relação com a subjetividade humana?

Benilton Bezerra Jr. – O termo “sujeito cerebral” foi criado por um colega do Instituto Max Planck, de Berlim, Fernando Vidal. Aparece também sob outras designações, como “homem cerebral” e “homem neuronal”. São várias formas de apontar para uma realidade antropológica, que é essa em que, cada vez mais, as pessoas vão identificando-se com o próprio cérebro. Ou seja, o cérebro vai se tornando não apenas um órgão corporal. Ele passa a ser pensado e sentido como a sede da nossa identidade. Eu não sou mais uma pessoa que tem um cérebro. Eu sou um cérebro que me faz pela experiência de ser uma pessoa. Isso se expressa em várias dimensões. Há uma dimensão teórica que tenta fazer do cérebro o denominador comum dos fenômenos mentais, sociais, antropológicos, etc. O cérebro passa a ser uma espécie de personagem, um ator social. O que atribuíamos ao sujeito, passa a ser atribuído ao cérebro. De forma prática, isso se expressa pela quantidade cada vez maior de intervenções biológicas na subjetividade, sobretudo medicações, e também com a introdução de novas tecnologias de intervenção.  

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho à Virgílio, à Milton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)…
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça…
Não ter um acto indefinido nem factício…

Não ter um movimento desconforme com propósitos…
Boas maneiras da alma…
Elegância de persistir…

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?

(continua)

[Álvaro de Campos. APOSTILA]

IHU On-Line – Como o senhor avalia os temas discutidos no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?

Benilton Bezerra Jr. – Esse é o tipo de iniciativa que precisa ser reduplicada e difundida ao máximo. É disso que sentimos falta: poder juntar essas pessoas para discutir questões comuns e que transcendem às competências específicas de cada grupo.

FONTE: IHU Online, 25/5/2007

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as bissemias camonianas e a crise dos valores medievais

outubro 27, 2010 às 18:24 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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LOURENÇO, Eduardo. Camões e o tempo ou a razão oscilante. In: Poesia e metafísica. Lisboa: Sá da Costa, 1983.

Gil Vicente e a crise do mundo medieval: um teatro desconcertante

outubro 23, 2010 às 1:23 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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tragicomico

Os links abaixo dão acesso a nossa bibliografia básica para discutirmos a relação entre os fatores constitutivos da modernidade e a temática literária do “desconcerto do mundo”, enfocando primeiramente um famoso texto do teatro vicentino no qual a ficcionalização mítica da origem de Portugal articula-se a um debate sobre a degradação nos valores éticos medievais suscitada pelo capitalismo emergente e pelo impulso colonizador.

VICENTE, Gil. Auto da Lusitânia (cena entre Todo Mundo e Ninguém).

EYLER, Flávia Schlee. Gil Vicente e o mundo em desconcerto. In: Semear. n.8. Rio de Janeiro: Instituto Camões; PUC-Rio; Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

TEYSSIER, Paul. Gil Vicente: o autor e a obra. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1982.

TEYSSIER, Paul. Interpretação do Auto da Lusitânia. In: Temas vicentinos: actas/Colóquio em torno da obra de Gil Vicente; Teatro da Cornucópia. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.

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Pessoa por Pessoa

outubro 8, 2010 às 10:21 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Princípios do [Sensacionismo]

Princípios do [Sensacionismo]

1. Todo o objecto é uma sensação nossa.

2. Toda a arte é a conversão duma sensação em objecto.

3. Portanto, toda a arte é a conversão duma sensação numa outra sensação.

5 sentidos

Sensacionismo. [Vida moderna]

O capítulo sobre a relação entre a arte moderna e a vida moderna.

1. Toda a época civilizacional gira em torno a um princípio que define tal época e lhe dá os seus característicos típicos e predominantes. Podem outros elementos, ou vindos de outras épocas anteriores, ou surgidos, a par desse, citado, elemento típico, dentro da mesma época, caracterizá-la também, para uma análise ou deficiente, ou assintética; mas resultará de um escrúpulo mais exacto de analisar que uma época é sempre definível, e em justiça o é, por um característico predominante, que é o que lhe grava o estigma da sua tipicidade.

A época moderna, tomando esta frase no sentido usual de abranger um período que date, aproximadamente, da revolução francesa e venha até aos nossos dias, resume-se tipicamente na acção de um fenómeno principal. Esse fenómeno é a passagem do elemento comercial e industrial da vida para a primeira plana da existência social mercê do acréscimo da vida científica, das invenções e aperfeiçoamentos constantes da ciência. Assim, a nossa época é a época da ciência positiva, isto é, da ciência desenvolvida em todos os seus ramos aplicáveis à prática, e do desenvolvimento dessa própria aplicação. As ciências não directamente, mas indirectamente aplicáveis à prática, como as matemáticas, pouco avanço tiveram — relativamente às outras — nos nossos tempos, e o que sofreram, tipicamente, menos tem sido um avanço, que uma crítica tendente a destruí-las. Basta que se recorde os trabalhos do matemático Poincaré, para que se note bem qual a orientação positiva da nossa época, que às ciências matemáticas, ou procura aluí-las, ou reduzi-las a positivas pela redução delas a meras hipóteses utilizáveis, pragmaticamente certas apenas.

Os progressos da ciência e da aplicação da ciência dominam toda a época moderna e dão-lhe o tipo civilizacional. Vejamos qual tem sido, de todas as maneiras, mas cingindo-nos ao principal, o resultado de ser esta a época da ciência.

Na esfera nacional o resultado do aumento da ciência foi 1) o aumento espantoso das facilidades de comunicação e de transporte; 2) o aumento, espantoso também, das indústrias e da actividade comercial; 3) o aumento, não menos notável, do mero conteúdo mental da experiência humana, pelo próprio progresso da ciência, entendendo não só a ciência positiva, mas as ciências históricas e outras, cuja investigação foi também beneficiada, não só pelo geral aumento de facilidades, como pela maior ânsia de cultura que elas trouxeram, pela especialização crescente de misteres (intelectuais como os outros) e pela atenção que aos estados eminentes mais merece a dotação atinente à realização de tais estudos.

Estes três elementos, evidentemente, não existem separados senão na análise que os separa; na realidade formam um todo harmónico e interagem constante e negativamente.

Qual foi o resultado que estes três elementos trouxeram à modalidade da civilização? Da sua convergência esse resultado facilmente se deduz. Traduz-se pela palavra internacionalismo, ou pela sua sinónima cosmopolitismo.

A maior facilidade das comunicações tornou fácil, e por fácil, constante, a flutuação de populações, as viagens, as relações comerciais, a emigração, a acção comercial e industrial de importadores e exportadores Esta, por sua vez, tornou maior a própria facilidade de transportes, que a gerara no auge que atingiu. Fatalmente, pois, que o ponto de apoio da mentalidade moderna passou gradualmente a estar naquela parte da vida social que intimamente se relaciona com, e necessariamente se desenvolve por, uma crescente facilidade de comunicações, e esse ponto é a vida comercial, no que vida internacional de exportação e importação. E o acréscimo de vida industrial, que por o aumento das condições científicas paralelamente se dava, maior tornava a actividade comercial que naturalmente a prolonga. Resultou a mentalidade essencialmente comercialista e industrialista das sociedades modernas, com os característicos que, em todo o tempo, corresponderam e foram o resultado de tal vida: o amor ao luxo, a degradação do senso moral pela predominância do instinto mercantil, a indiferença aos fins elevados nas questões sociais e políticas, etc. Mas sobre este ponto passo de leve agora, porque ele não é um resultado internacional, mas individual, das condições modernas da civilização.

Resultou, disse, um internacionalismo como fórmula típica das sociedades modernas nas suas relações umas com outras. Esta palavra internacionalismo que significa? Que o sentimento nacional decai, dada a maior necessidade de relacionar-se com o estrangeiro, e dado, também, o golpe que nesse sentimento vibra, por sua natureza, o instinto comercialista; que cada nação, à parte isso, passou a ser mais rica dentro de si própria, passou a resumir em si tudo quanto é típico das outras nações, que a vida de cada cidade da Europa (por exemplo) passou a conter em si elementos típicos da vida de todas as outras cidades, não só da Europa, mas de todo o mundo — isto quer pela presença em todas as colónias de naturais dessas outras nações, quer pelas constantes relações comerciais e intelectuais com essas, quer pela diária informação jornalística, espectacular, cinematográfica. ( . . . )

No campo individual os resultados foram de ordem idêntica. A mentalidade comercialista em todos os tempos produziu determinados resultados: o aumento do amor ao luxo, o enfraquecimento do senso moral, a moleza social até certo ponto… E, assim como para a formação desta mentalidade contribuiu o internacionalismo acima descrito, para a formação desse nacionalismo não menos e não diferentemente contribuiu esta mentalidade, frutos ambos da mesma causa triplamente agente, e que já se mencionou, quando se iniciou este estudo.

O curioso e notável é que a mentalidade criada por esta acção da era das máquinas sobre o indivíduo, no que indivíduo, coincide com o que, em outras épocas, é a mentalidade da decadência. E este tipo mental, em que o laço social fraqueja, em que o amor do luxo toma aumento, em que o individualismo se torna nítido e forte, contém com efeito todos os característicos da obscura coisa a que se tem chamado Decadência. Apenas a causação é, nos dois casos, diversa. Quando, na antiguidade, este tipo mental aparecia, e era de feito o tipo mental das decadências, ele resultava, não do aparecimento de um novo factor na vida social, senão do enfraquecimento e perturbação dos velhos factores. Assim, para nos determos apenas no exemplo maior e mais típico, a decadência de Roma não resultou senão da perturbação social produzida pela política do imperialismo, sempre mortal para uma nação, porque um ponto há em que o dominado excede as forças do dominador, e ele nunca sabe parar nesse ponto, tão certo resulta do dominar, como do coçar e comer do prolóquio, que tudo está no começar. Mas a política do imperialismo não foi senão um produto da própria política típica de Roma no auge do seu prestígio, nem foi, ela, um elemento novo, senão na proporção em que trouxe elementos novos. O mesmo se não dá com a era das máquinas na nossa civilização. O internacionalismo, por certo, estava criado com as descobertas dos portugueses, o espalhamento de cultura da renascença italiana, e o princípio das invenções (propriamente tais), como a pólvora, a imprensa, que vieram dar começo à facilidade da vida de relação entre as nações da Europa.

Assim, a era das máquinas produziu, nos indivíduos da Europa, um individualismo excessivo, uma ânsia feroz de viver em toda a extensão a vida individual, um abandono correspondente e concomitante, resultante do senso moral, das prisões

da religião, dos chamados preconceitos que haviam sido a base da vida nos séculos anteriores.

Adentro da vida das nações, encarando agora, não já os indivíduos, nem as nações na relação entre umas e outras, mas cada uma adentro de si, como sociedade, outro foi o fenómeno resultante. Ele foi a crescente separação de classes. O fenómeno industrial alargou o intervalo natural entre o capital e o trabalho; o aumento de cultura alargou o intervalo entre o povo de educação e a aristocracia do pensamento; e o acréscimo constante da democracia, inevitavelmente produzido pela criação de proletariados cada vez mais hábeis e conscientes, veio pôr de pé todas as reacções tradicionalistas e aristocráticas contra esse acréscimo.

fernando-pessoa

[Os Fundamentos do Sensacionismo]

Quando em Março de 1915 surgiu em Lisboa a revista Orpheu, foi-lhe feito, pela gente que representa entre nós aquilo a que em outros países se chama a crítica, um acolhimento adverso e escandaloso. O resultado foi, como se sabe, que essa revista constituiu um sucesso de livraria. A mesma ordem de manifestações acolheu o aparecimento do segundo número, salvo que determinadas peças literárias, que esse número continha levaram a um auge de indignação dispersa a adversa opinião popular a seu respeito.

Orpheu passou para as revistas de ano, e para os acasos das conversas particulares. Um incidente pitoresco, acontecido com um dos jornais de Lisboa, veio ornamentar de escândalo político o êxito esplêndido da revista.

Algumas pessoas porém terá havido que pensassem decentemente sobre o assunto. Certas curiosidades civilizadas, emergindo de entre o nosso meio de carbonários e de gatunos políticos, quiseram deveras saber a que vinha esta revista. Não podiam acreditar que fosse uma pura blague, por isso que lhe sentiam demasiada força para ser isso apenas. Mas os seus cérebros, desacostumados ainda às manifestações originais e europeias da literatura, não podiam, ao mesmo tempo, julgar inteiramente séria essa tentativa.

Urgia, pois, que àquela parte do público ledor que manifestou, ainda que só para si própria, este interesse, os sensacionistas dessem a satisfação de uma explicação integral. Este livro visa a esse fim. Nele procuraremos expor o que seja, em toda a sua opulenta complexidade, o movimento sensacionista português.

O que é, pois, o sensacionismo?

Os Fundamentos do Sensacionismo

1. — O Sensacionismo difere de todas as atitudes literárias em ser aberto, e não restrito. Ao passo que todas as escolas literárias partem de um certo número de princípios, assentam sobre determinadas bases, o Sensacionismo não assenta sobre base nenhuma. Qualquer escola literária ou artística acha que a arte deve ser determinada coisa; o sensacionismo acha que a arte não deve ser determinada coisa.

Assim, ao passo que qualquer corrente literária tem, em gera!, por típico excluir as outras, o Sensacionismo tem por típico admitir as outras todas. Assim, é inimigo de todas, por isso que todas são limitadas. O Sensacionismo a todas aceita, com a condição de não aceitar nenhuma separadamente.

O Sensacionismo é assim porque, para o Sensacionista, cada ideia, cada sensação a exprimir tem de ser expressa de uma maneira diferente daquela que exprime outra. Há regras, porém, dentro das quais essa ideia ou sensação tem, basilarmente, que ser expressa? Sem dúvida que as há, e elas são as regras fundamentais da arte. São três:

1.ª — Toda a arte é criação, e está portanto subordinada ao princípio fundamental de toda a criação: criar um todo objectivo, para o que é preciso criar um todo parecido com os todos que há na Natureza — isto é, um todo em que haja a precisa harmonia entre o todo e as partes componentes, não harmonia feita e exterior, mas harmonia interna e orgânica. Um poema é um animal, disse Aristóteles; e assim é. Um poema é um ente vivo. Só um ocultista, é claro, é que pode compreender o sentido dessa expressão, nem é permissível, talvez, explicá-la muito detalhadamente, ou mais do que o nada que já se disse.

2.ª — Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à coisa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar. Há ideias vulgares e ideias elevadas, há sensações simples e sensações complexas; e há criaturas que só têm ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes têm ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a expressão Não há para a arte critério exterior. O fim da arte não é ser compreensível, porque a arte não é a propaganda política ou imoral.

3.ª — A arte não tem, para o artista, fim social. Tem, sim, um destino social, mas o artista nunca sabe qual ele é, porque a Natureza o oculta no labirinto dos seus desígnios. Eu explico melhor. O artista deve escrever, pintar, esculpir, sem olhar a outra coisa que ao que escreve, pinta, ou esculpe. Deve escrever sem olhar para fora de si. Por isso a arte não deve ser, propositadamente, moral nem imoral. É tão vergonhoso fazer arte moral como fazer arte imoral. Ambas as [coisas] implicam que o artista desceu a preocupar-se com a gente de lá fora. Tão inferior é, neste ponto, um sermonário católico como um triste Wilde ou d’Annunzio, sempre com a preocupação de irritar a plateia. Irritar é um modo de agradar. Todas as criaturas que gostam de mulheres sabem isso, e eu também sei.

A arte tem, porém, um resultado social, mas isso é com a Natureza e não com o poeta ou o pintor. A Natureza produz determinado artista para um fim que esse próprio artista desconhece, pela simples razão que ele não é a Natureza. Quanto mais ele queira dar um fim à sua arte, mais ele se afasta do verdadeiro fim dela — que ele não sabe qual é, mas que a Natureza escondeu dentro dele, no mistério da sua personalidade espontânea, da sua inspiração instintiva. Todo o artista que dá à sua arte um fim extra-artístico é um infame. É, além disso, um degenerado no pior dos sentidos que a palavra não tem. É, além disso e por isso, um anti-social. A maneira de o artista colaborar utilmente na vida da sociedade a que pertence — é não colaborar nela.

Assim lhe ordenou a Natureza que fizesse, quando o criou artista, e não político ou comerciante.

O bom funcionamento de qualquer sociedade depende, como até alguns jornalistas já sabem, da perfeita divisão de trabalho quando o membro de um grupo do trabalho social procura acrescentar ao seu trabalho como tal membro elementos pertencentes ao trabalho de outros. Quando o artista procura dar um fim extra-artístico à sua arte, dá um fim extra-artístico à sua personalidade, e a Natureza, que o criou artista, não quis isso.

A indiferença para com a Pátria, para com a Religião, para com as chamadas virtudes cívicas e os apetrechos mentais do instinto gregário são não úteis, mas absolutamente deveres do Artista. Se isto é amoral, a culpa é da Natureza que o mandou criar beleza e não pregar a alguém.

Quanto mais instintivamente se fizer essa divisão do trabalho social, mais perfeito será o funcionamento da sociedade, porque, sendo instintiva essa divisão, maior revela ser o estado de espontânea adaptação da sociedade à vida que tem que viver. Por isso o artista deve eliminar de si cuidadosamente todas as coisas psíquicas que não pertencem à arte.

É perfeitamente lógico que um artista pregue a Decadência na sua arte, e, se for político, pregue a Vida e a Força na sua política. É , mesmo, assim que deve ser. Não se admite que um artista escreva poemas patrióticos, como não se admite que um político escreva artigos anti-patrióticos.

Qual, porém, a relação que existe entre o modo de escrever que, perante o público e os «críticos», tem tipificado o Sensacionismo e esta tese que expomos? Se o Sensacionismo é esta coisa liberal, ampla, acolhedora, que apontámos, em que é que não é errado (porque o não é) chamar Sensacionismo, considerar como tipicamente Sensacionista, essa corrente estranha a que pertencem a maioria das composições de Orpheu, os livros de Sá-Carneiro, excepto Princípio, e outras composições análogas?

É muito simples.

Dissemos que um dos princípios sobre que assentava o Sensacionismo — mau grado, é claro, ele não assentar em princípio nenhum — é o da expressão ser condicionada pela emoção a exprimir. Dissemos que cada ideia, pela sua virtualidade íntima, pela sua simplicidade ou índole complexa, impõe que se exprima de modo símplice ou complexo. Esta tese — que é a verdadeira tese artística — abrange e admite todas as espécies de expressões, desde a mais simples quadra popular, que só podia ser expressa nessa linguagem e seria mais mal expressa se fosse expressa em linguagem mais complexa, até ao mais avançado desarticulamento de linguagem lógica que se encontra nas páginas de Orpheu. Acontece que a geração a que pertencemos — mercê de razões civilizacionais que seria tão ocioso, como prolixo, estar a expor — traz consigo uma riqueza de sensação, uma complexidade de emoção, uma tenuidade e intercruzamento de vibração intelectual, que nenhuma outra geração nasceu possuindo. Veja-se. Sobre uma vida social agitada, directamente como intelectualmente, pelas complexas consequências da irrupção para a prática das ideias da Revolução Francesa, veio cair todo o complexo e confuso estado social resultante da proliferação sempre crescente das indústrias, do enxamear cada vez mais intenso das actividades comerciais modernas. O aumento das facilidades de transporte, o exagero das possibilidades do conforto e da vantagem, o acréscimo vertiginoso dos meios de diversão e de passatempo — todas essas circunstâncias, combinadas, entrepenetradas, agindo quotidianamente, criaram, definiram, um tipo de civilização em que a emoção, a inteligência, a vontade, participam da rapidez, da instabilidade e da violência das manifestações propriamente, diariamente típicas do estádio civilizacional. Em cada homem moderno há um neurasténico que tem que trabalhar. A tensão nervosa tornou-se um estado normal na maioria dos incluídos na marcha das coisas públicas e sociais. A hiper-excitação passou a ser regra.

O aumento das comunicações internacionalizou facilmente isto tudo, com o auxílio que trouxe o aumento da cultura e da capacidade de cultura, que é outra coisa, e mais importante para o caso. De modo que esse estado de espírito, que, de per si, parece que devia caracterizar apenas os países no auge da vida industrial e comercial, foi parar a outros, mais apagados e quietos, e de um lado da Europa ao outro uma rede de nervos define o estado das almas nesta Hora de fogo e de treva.

Se isto tudo tivesse acontecido numa época de bases assentes, o resultado seria de menor relevo. Mas acontece num período em que se sofre ainda da dissolução de antigos regimes, em que a morte tocou o princípio monárquico, em que o gusano da crítica esboroou de todo o edifício da fé religiosa. Foi mais longe, mais tarde, o efeito do espírito crítico: como era fatal que acontecesse, ele virou-se sobre os ídolos que mal erguera, as forças defensoras das ideias antigas tomaram-no como arma contra as ideias novas. E, assim, à confiança na ciência, que caracterizara o período darwinista do século ido, à atitude positiva em que cristalizara a mentalidade coeva das descobertas, a cada dia feitas, da física e da química e da biologia, seguiu-se uma crítica a essas próprias ideias, um inquérito sobre as bases em que essas novas fórmulas assentavam. Perguntou-se que maior razão para a certeza teria a metafísica da ciência do que a metafísica da crença: a resposta foi a atitude pragmatista, a atitude neo-espiritualista, as inúmeras formas de atitudes religiosas, desde o neocomtismo católico ao neotomismo da mesma seita, desde a filosofia religiosa de um Ritschl à de um ou outro low ou broad churchman na Inglaterra teológica e pseudo-racionalista. O desenvolvimento da sociologia, que, embora ainda não seja uma ciência, é já, contudo, tanto uma armazenagem de factos como uma direcção do espírito científico, veio aluir mais a segurança dos cientistas das duas gerações anteriores. O papel social das religiões, a (pelo menos aparente) absurdez dos lemas fraternitários e igualitários, passaram a ser assunto de dúvida. A rapidez, a precipitação da época coloriam tudo. É, assim, difícil, cada vez mais difícil, se tornava descortinar, através da poeira da literatura e da ciência das colunas de jornais, quais as forças eternas operando, quais os homens dignos de guiar hoje, quais as permanências, as seriedades, os esteios e os apoios.

De modo que chegámos a uma época singular, em que nos aparecem todos os característicos de uma decadência, conjugados com todos os característicos de uma vida intensa e progressiva. A moral familiar e social desceu ao nível da decadência do império romano.

O mercantilismo político, a dissolução nacional chegou ao fundo. Mas, com isto tudo, progrediam as indústrias, multiplicava-se o comércio, a ciência continuava descobrindo, dia a dia os confortos aumentavam e as complexidades da vida se tornavam mais complexas. Só, como distintivo de uma decadência, um fenómeno inequívoco havia — o abaixamento no nível dos homens representativos. Ninguém, na literatura, no nível dos grandes românticos, ou mesmo dos mestres realistas. Na arte, idêntica penúria. Na política, o mesmo. E assim em tudo. Na própria ciência, tão inferior no seu nível, então típica do século, o mesmo desnivelamento, o mesmo desgaste na superioridade dos homens condutores.

Assim, cada um de nós nasceu doente de toda esta complexidade. Em cada alma giram os volantes de todas as fábricas do mundo, em cada alma passam todos os comboios do globo, todas as grandes avenidas de todas as grandes cidades acabam em cada uma das nossas almas. Todas as questões sociais, todas as perturbações políticas, por pouco que com elas nos preocupemos, entram no nosso organismo psíquico, no ar que respiramos psiquicamente, passam para o nosso sangue espiritual, passam a ser, inquietamente, nossas como qualquer coisa que seja nossa.

Qual a arte que deve corresponder a este estado de civilização?

Vimos já que o papel da arte é de, ao mesmo tempo, interpretar e opor-se à realidade social sua coeva. (This must have been well determined before).

Como interpretar esta época, opondo-se-lhe.

Três maneiras são possíveis.

Podemos dividir os característicos da época actual em três grupos, como vimos. Temos a decadência proveniente da falência de todos os ideais passados e mesmo recentes. Temos a intensidade, a febre, a actividade turbulenta da vida moderna. Temos, finalmente, a riqueza inédita de emoções, de ideias, de febres e de delírios que a Hora europeia nos traz.

A arte moderna deve portanto:

1) ou cultivar serenamente o sentimento decadente, escrupulizando em todas as coisas que são características da decadência — a imitação dos clássicos, a limpidez da linguagem, a cura excessiva da forma, características da impotência de criar;

2) ou, fazendo por vibrar com toda a beleza do contemporâneo, com toda a onda de máquinas, comércios, indústrias (…)

FONTE: Arquivo Pessoa

para pensar o descentramento sócio-histórico

setembro 23, 2010 às 22:41 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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O capitalismo e a aceleração do tempo

Na manhã de ontem, terça-feira, foi realizada a conferência com José Antonio Zamora sobre “Temporalidade capitalista, exploração da vida humana e tempo messiânico”. No segundo dia do XI Simpósio Internacional IHU: o (des) governo biopolítico da vida humana, Zamora afirmou que seu aporte no evento seria em torno do tema da temporalidade capitalista.

Ele iniciou sua fala considerando que o tempo se converteu numa categoria chave para compreender importantes fenômenos culturais e sociais atuais. O filósofo explicou que a modernidade capitalista produziu um novo regime temporal, uma “temporalização do tempo”, em que o tempo tornou-se “uma questão política”. E acrescentou que a marca do novo regime temporal capitalista é o imperativo da aceleração. “O tempo se converte num fator de medida de valor”, na lógica da competitividade. E que toda a forma de governamentalidade está associada ao tempo.

Uma afirmação importante para a compreensão do tema apresentado por Zamora é a de que “o capitalismo estabelece uma relação entre as necessidades humanas e sua satisfação”.

E é daí que o palestrante entrou na discussão sobre o conceito de benefício. “O benefício não é seguro, nem fácil de ser alcançado. Só se obtém benefício lutando permanentemente por maximização. E a produção de riqueza material não assegura benefício. Este, portanto, torna-se um fator relacional”. Zamora explicou que no capitalismo não se pode romper o ciclo de acumulação de benefício. E para ter crescimento econômico é preciso produzir mais. O problema que aparece aqui? Segundo ele, a desigualdade social.

“O capital vive um presente eterno”, disse Zamora. E se produzimos mais, já que a produção não tem limites, precisamos consumir mais. Para ele, essa nova realidade de aceleração instiga ao comportamento instantâneo, em que os fatos não “penetram” mais nas pessoas. Esse sistema cria consumistas adaptados a essa aceleração e a esse regime capitalista. “É uma exigência sistêmica”, dispara Zamora. E a aceleração só se converte em imperativo graças ao capitalismo. O filósofo explicou ainda que as formas de governamentalidade são indissociáveis do sistema capitalista e que “temos hoje um regime empresarial que rege a vida dos indivíduos”. Neste novo cenário, a inflexibilidade torna o sujeito “não empregável”. “É indispensável o uso eficiente, por parte dos indivíduos, dos recursos temporais”, afirma Zamora. E explica que para manter o imperativo da aceleração, tudo o que é obstáculo deve ser eliminado, por exemplo, todas as formas de estabilidade. Com a ajuda de quem? Das tecnologias! “Me sinto culpado por deixar a tecnologia invadir minha vida, minha casa, minha família”, confessa.

“Novas formas de comunicação ajudam a manter o imperativo da aceleração. Vivemos em permanente estresse”, segue Zamora em sua fala. E ele completa: “o trabalhador ideal é aquele que se auto-explora. Sem precisar interferência externa”.

O professor encerra sua fala argumentando que “no capitalismo não há descanso. Nosso horizonte é o trabalho e o círculo infinito de produção e consumo”. Para Zamora, o tempo rígido do regime fabril é um obstáculo à aceleração. “O tempo na era digital é instantâneo, simultâneo. É um tempo atemporal, onde o efêmero e o eterno acontecem juntos. A eliminação da sequência seria o equivalente à eternidade”, pontuou.

FONTE: IHU On-line, 15/09/2010

* * *

O PÓ QUE FICA DAS VELOCIDADES QUE JÁ NÃO SE VÊEM!
O do metálico dos êmbolos,
O furor uterino das válvulas lá por dentro —
O sangue dando em baque ao ataque dos excêntricos.

Minhas sensações
Protoplasma da humanidade matemática do futuro!

Eia-la-ho! Hó-oo-o!

Oh lá, saltos e pulos com o meu pensamento todo
Pula bola de mim — a mágica biológica que eu sou!
O cérebro servo de leis, os nervos movidos por normas
Por normas compostas em tratados de psiquiatras

[Álvaro de Campos]

* * *

A PARTIDA

E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (…)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a todas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (…)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas…
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora…
Ave atque vale, ó prodigioso Universo…
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (…)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(…)
(E até à aterissage final do meu aero (…) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (…)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino

[Álvaro de Campos]

* * *

HEIA O QUÊ? HEIA O PORQUÊ? HEIA P’RA ONDE?
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.

Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?

Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu

(quando parte o último comboio?)

[Álvaro de Campos]

homens relogios

LitPort I, avaliação 1

setembro 10, 2010 às 11:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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3raças_Winton-graffiti

Entrega: quarta-feira, 22/09

Apresente um texto poético, de autoria portuguesa (preferencialmente) ou brasileira, no qual sejam tematizadas matrizes e tradições culturais lusitanas, ou as relações entre estas e os traços identitários brasileiros. A apresentação deve incluir: transcrição integral do texto; resumo do tema da obra e de suas características formais; indicação de fonte bibliográfica. Comente o texto selecionado (30 linhas) levando em consideração as duas citações transcritas abaixo:

A) Como é contada a narrativa da cultura nacional? (…) Em primeiro lugar, há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem uma série de estórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação. Como membros de tal “comunidade imaginada”, nos vemos, no olho de nossa mente, como compartilhando dessa narrativa. (HALL, p. 51-52)

B) Como tornar o Brasil um país moderno se somos produtos de uma tradição que complica nosso acesso à modernidade? (GOMES, p. 2)

LitPort III, avaliação 1

setembro 10, 2010 às 10:45 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Mirror_MAGRITTE

 

Entrega: sexta-feira, 29/09

Selecione um poema da obra de Fernando Pessoa e analise-o destacando temas e procedimentos através dos quais sejam nele produzidas representações da subjetividade e dos descentramentos modernos. Escolha pelo menos uma das citações transcritas abaixo para ser diretamente articulada à sua análise do poema.

A) “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza”. (MERCER apud HALL, p. 9)

B) Desde o simbolismo, e acentuando-se com os modernismos, a subjetividade tem vindo a ser entendida como a possibilidade que o escritor tem de interpretar a vida e o mundo enquanto idioleto de autor, visto que os aspectos subjetivos do texto literário já não dizem respeito apenas à vontade, ao entendimento e à razão de um indivíduo, o autor. (CABRAL, p. 2)

tempos MODERNOS & NOVOS prazos

maio 14, 2010 às 11:23 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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temposmodernos HOJE NO MINI-AUDITÓRIO tempos-modernos1             

                                        19-20:30h 

modern3

modern-times-poster-starring-charles-chaplin         modern times jap     modern2

ATENÇÃO:

A PROVA PODERÁ SER

ENTREGUE ATÉ O DIA

21/05!

re-caracterizando o Barroco

maio 9, 2010 às 12:26 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Agudeza_y_arte_de_ingenio

Um pequeno esquema para ajudar-nos a sistematizar alguns conceitos e questões trabalhadas desde o início do curso. Compare o esquema proposto abaixo com as versões disponíveis nos sites de vestibulares: o que há de diferente? alguma coisa se modificou em sua forma de encarar as qualidades geralmente atribuídas à estética barroca? Fundamental, também, é buscar poemas nos quais seja possível visualizar as diversas dimensões e figurações dos elementos relacionados a seguir.

esquema barroco

baroque-wedges_49 (sapato barroco)

enveredando pelas mãos duplas do Barroco: roteiros de pesquisa

março 20, 2010 às 2:10 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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ABRIL-Editorial_n3  Tal como demonstra a mais recente edição da Revista Abril, publicação do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana (NEPA) da Universidade Federal Fluminense, o Barroco é uma força estética e ideológica ainda cheia de vitalidade na produção literária portuguesa contemporânea (clique na imagem para acessar a revista). Os malabarismos semânticos da agudeza, os caprichos sintáticos do engenho e a intricada melopéia com que vibra toda escrita barroca continuam a servir como recursos expressivos dos mais valiosos para traduzir verbalmente as transformações nas consciências humanas que se sucedem e se complexificam desde o advento da Modernidade. Buscando fundamentos para compreender a constituição da estética barroca, na LitPort 2 @s estudantes foram organizad@s em Tríades que se dedicarão, nas próximas semanas, à pesquisa e à leitura de textos que subsidiem as discussões em classe e a elaboração de um relatório correspondente à segunda nota da disciplina nesta unidade. A relação dos temas distribuídos entre as Tríades e outras instruções referentes a essa atividade podem ser acessados AQUI.

hansen vieira

Já quem quiser uma versão eletrônica das “Agudezas seiscentistas” de João Adolfo HANSEN (posando ao lado com António Vieira), texto que nos abrirá caminhos para o Barroco Ibérico em nossas próximas aulas, visite o site da Revista Letras, da Universidade Federal de Santa Maria. Recomenda-se a navegação nessa tradicional revista que alterna, assim como saudavelmente entrelaça, edições dedicadas aos estudos linguísticos e literários — irmãos siamesíssimos, paridos das multiformes entranhas da linguagem.

vazio moderno, depressão, carnaval & engajamento

novembro 2, 2009 às 13:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Segue abaixo um excelente texto midiático para estimular uma reflexão acerca dos efeitos extra-literários e contemporâneos daquela condição simultânea de multiplicação e esvaziamento que, para Leyla Perrone-Moisés, configurou a produção poética de Fernando Pessoa. Aliás, conforme o próprio poeta diagnosticou acerca dos indivíduos de seu (nosso) tempo:

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.
Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.
Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.
Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.

[In: PESSOA, Fernando. Aforismos e afins. Edição e prefácio Richard Zenith. Tradução Manuela Rocha. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.12.]

 

Maria Rita Kehl: “O vazio é nossa condição básica”

Tatiana Mendonça, 26 de outubro de 2009, Revista Muito, ATARDE online

A aceleração da vida cotidiana, que dispensa devaneios, pausas, reflexões e ineficiências – e nos faz crer que nunca estamos aproveitando o tempo como deveríamos –, torna nossa experiência mais pobre e contribui para fazer da depressão o principal sintoma social da atualidade. É nisso que acredita a doutora em psicanálise Maria Rita Kehl, 57, que lançou este ano o livro O tempo e o cão – a atualidade das depressões. No último dia 16, ela esteve em Salvador participando do ciclo de debates Fronteiras Braskem do Pensamento e falou à Muito sobre a doença.

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Li que a senhora não acompanhava pacientes depressivos, preferia encaminhá-los para outros analistas. O que a fez mudar de ideia? Logo no começo da minha clínica, atendi duas pessoas que se suicidaram com pouquíssimo tempo de análise. Isso para o analista é arrasador, de certa forma me senti responsável. Então achei que precisava aprender mais. Depois, me dei conta de que essas pessoas nem eram deprimidas, mas ainda assim, durante muito tempo, não atendi depressivos… Mas aí aconteciam casos de pessoas que, ao longo da análise, ficavam deprimidas e eu, com o amadurecimento, fui aprendendo a lidar. Fiquei muito interessada em saber o que elas tinham a dizer.

O que leva a senhora a afirmar que a depressão é o “principal sintoma social do nosso tempo”? Primeiro, sintoma social é algo que desafia as condições da vida de determinada época. A histeria das mulheres foi o sintoma social do século 19, por desafiar tudo que se pretendia da mulher no momento em que se formava a chamada família burguesa, em que a mulher era o centro do lar, e o homem, o empreendedor. Hoje é a depressão que desafia a norma contemporânea da euforia, da festa, que recusa os convites para fazer o tempo render na forma de felicidade, alegria, gozo. A outra razão é que a depressão cresce de forma epidêmica. Segundo dados da OMS, será a doença mais comum do mundo em 2030. E isso acontece de certa forma na contramão, já que hoje somos mais livres sexual e moralmente; cada um pode de alguma maneira escolher seu destino; há grandes conquistas da saúde, se pode viver mais e melhor até bem mais tarde.

Mas esse crescimento em certa medida não vem de muita gente dizer, por qualquer coisa, que está deprimida? Você tem toda razão. Justamente porque a regra social é que as pessoas sejam felizes, elas não sabem o que fazer com as tristezas normais da vida, principalmente o adolescente. Quando ele se deprime, se sente o último dos seres humanos, não têm coragem nem de buscar apoio nos amigos. Um colega psicanalista, orientador de um grande colégio em São Paulo, me contou que em um ano atendeu 40 adolescentes que tinham diversas razões para estar meio tristes. E ele perguntou a todos: ‘Você já conversou com algum amigo sobre isso?‘. Dos 40, só um tinha conversado. Ou seja, essa rede de apoio não funciona na hora da tristeza. Aí os caras vão para os remédios. Para divulgar o antidepressivo, a indústria farmacêutica divulga também a doença, e aí coloca lá nos folhetinhos: ’Você pode estar deprimido, mas depressão tem cura. Veja aqui os sintomas’. Aí a pessoa já chega dizendo para o médico que está deprimida, e o médico, até por precaução, vai lá e dá o remédio, o que enviesa as estatísticas. É muito raro um psiquiatra com tempo para ouvir e saber o que está acontecendo de verdade com o paciente.

Se a depressão é uma “recusa à festa“, uma súplica de que exista um “tempo de compreensão“ que a correria da vida nos roubou, há algum valor na doença? A depressão tem uma via de conhecimento do psiquismo que o próprio depressivo ignora. Talvez o trabalho de análise consista em fazer com que ele tire benefícios disso. Outro valor é que o depressivo é menos seduzido pela publicidade, pelo consumismo. Ele não está tão encantado por essa ideia de que a vida é um caminho de acumular grana, objetos, acha tudo isso um pouco chato… E o depressivo também conhece mais o vazio, que pode ser uma condição muito interessante do trabalho psíquico. Se ele fica só com o vazio, é terrível, mas se ele suporta o vazio, pode vir a construir outra via, talvez mais verdadeira. Na palestra, eu brinquei: vou dar uma má notícia, a vida não tem sentido. E é isso, a gente é que dá sentido à vida. O vazio é nossa condição básica. A gente não sabe de nada. A única coisa que a gente tem ao nascer é uma certa garantia de que as pessoas que nos conceberam nos amam. E olhe lá… Às vezes elas não nos amam, nos conceberam por acaso, são confusas… Em cima do vazio é que a gente acrescenta muita coisa. Então o depressivo pode fazer um percurso menos iludido, menos alienado de si mesmo.

O que não quer dizer que ele não deva ser tratado, claro. Sim, evidente, a análise é fundamental. Tem gente que passa a vida inteira dentro de um quarto, é horrível. Pode até se medicar, não vai pular pela janela, mas se acostuma a passar a vida meio em branco. E a vida é uma só.

Como relacionar a depressão à obrigação de ser feliz, especialmente numa cidade vendida como a “terra da felicidade“? Não sei dizer se Salvador tem mais gente deprimida que outros lugares, mas é evidente que o pior lugar para você estar deprimido é numa cidade onde não há muito espaço de recolhimento. É numa cidade que te convida para fora. Não estou fazendo uma crítica, essa é uma característica importantíssima de Salvador. Um deprimido num lugar triste pode ficar mais sombrio, mas ele não se sente tão esquisito. Aqui ou no Rio de Janeiro, o cara se sente muito inadequado. Por outro lado, numa cidade onde o turismo é uma fonte de renda importante, acontece que os próprios habitantes começam a desempenhar o papel que os turistas esperam dele. Então, às vezes, me parece que se começa a perder certa autenticidade. Vi Ó Paí, ó e achei que parecia uma propaganda da Bahiatursa, todo mundo se comportando como um clichê. E, no fim, a coisa não é assim, aparece tudo que isso mascara… Então isso é complicado não só para os depressivos, mas para os introspectivos, os “intelectuais“. Passei um Carnaval aqui com uns amigos e adorei. Não o trio elétrico. O trio elétrico é um congestionamento de caminhão com luta de classes dentro, um horror. O roteiro afro que achei lindo. Mas alguns amigos vão embora no Carnaval porque dizem que fica insuportável… As cidades de grande apelo turístico talvez estejam levando a sério demais o clichê e não deem muito lugar à diferença.

Não quero participar do coro dos contentes, mas a alegria também não é uma característica nossa? Sim. Meu companheiro mora em Paris, todo ano vou visitá-lo, e você vê o contraste. O tom é mais triste mesmo. Eles dizem: ’Ah, você é brasileira, por isso que você é sorridente’. Não vou fazer sociologia e explicar por que isso acontece, mas somos uma sociedade mais alegre, mesmo tendo de conviver com miséria, injustiça, desigualdade, exclusão aberrante. Talvez seja uma sociedade que não está inteira tomada pela competitividade capitalista. As pessoas ainda se encontram para jogar conversa fora, para tocar uma música. Foi boa essa pergunta para diferenciar uma alegria que caracteriza nossa sociedade dessa euforia do mundo capitalista. A disponibilidade das pessoas para o mercado depende de elas acreditarem que cada objeto a mais que comprarem lhes dará mais euforia.

A senhora critica o uso indiscriminado de antidepressivos, mas eles são realmente dispensáveis no tratamento? Deixo isso a critério de um psiquiatra em quem confie. Quando uma pessoa começa a faltar à análise e liga dizendo que não consegue sair da cama, digo que ela deve ir ao psiquiatra. Não sou xiita. Não há entre os psicanalistas uma ideia de que o medicamento vá atrapalhar o trabalho. Mas muita gente vai ao psiquiatra e o ouve dizer que análise é uma bobagem, que o remédio é suficiente. E não é. Recebo pacientes que dizem: ’Me medico há 10 anos e não sinto tristeza, mas também não sinto mais nada’. Eles procuram análise sabendo que vão ter de passar por uns buracos de novo… E agora já há pesquisas dos próprios laboratórios que mostram que o antidepressivo depois de algum tempo perde a eficácia. No começo, ele faz uma diferença grande. Você fala: ’Nossa, não estou mais sentindo aquela vontade de morrer’. Mas se o tratamento for só esse, e não elaborar o que causou a depressão, tem pouca eficácia.

Os sintomas expostos nos tais folhetos são bem abrangentes, todo mundo pode se identificar com alguns deles. Como saber que uma pessoa está realmente deprimida e deve procurar ajuda? No geral, quem sofre sabe. Os folhetos não são para a pessoa procurar ajuda, mas para dizer que ela precisa ser medicada… Além do meu trabalho no consultório, atendo pessoas da Escola Nacional de Formação de Lideranças do MST. Como elas têm renda muito baixa, é muito comum encontrar pessoas que estão se medicando há anos, por conta de uma orientação apressada do médico. Estive num assentamento e fiquei hospedada na casa de uma senhora. Ela tinha pouco mais de 60 anos e me contou que tomava antidepressivo desde os 28 anos, quando a filha dela nasceu. Ela ficou “deprimida“, foi procurar remédio e a partir daí nunca mais saiu disso.

Hoje as crianças ricas e de classe média têm agendas cheias. É alarmista dizer que assim os pais estão criando sujeitos mais propensos à depressão?É alarmista se você disser que todas as crianças vão ser depressivas. O que tem aí, antes de mais nada, é que as pessoas estão muito confusas sobre o que é ser um bom pai e uma boa mãe. E isso tem a ver com a influência da publicidade, que nos faz crer que o melhor que você pode fazer para o seu filho é lhe dar muitas coisas, inclusive lhe dedicar todo seu tempo livre. No fim de semana, os pais acham que têm de promover muita diversão, e na segunda estão exaustos! A isso se acrescenta a ideia de que desde cedo você tem de preparar seu filho para o mercado de trabalho. Então é aula disso, curso daquilo… Vai se criando uma infância em que a criança não tem a experiência fundamental de estar entregue a si mesma, tendo que inventar como preencher seu tempo. Elas não conhecem o vazio, no bom sentido do vazio, que é quando a criança começa a “inventar arte“, como diziam os mais velhos. Isso é a fonte da vitalidade infantil, da criatividade, da imaginação, é algo que vale para o resto da vida. Saber que eu posso criar algo sobre o vazio é a potência humana. A sensação de que eu não posso criar nada sobre o vazio, de que preciso de alguém para preenchê-lo para mim, é o começo de uma situação depressiva. Então o bom pai e a boa mãe são pessoas que amparam, amam e educam seus filhos, impõem limites. E aí digo como mãe: uma das coisas mais difíceis é saber que tem horas que seu filho vai te odiar, vai dizer ’eu sou infeliz por sua causa’, e ainda assim você vai ter de bancar um limite que achou importante, para que a criança saiba que seus atos têm consequências.

A senhora defende que o sentimento de pertencimento a determinada ação política, comunidade, tradição, nos livra de um sofrimento maior e nos ajuda a dar sentido à vida. Essa reflexão foi motivada pela sua aproximação com o MST? Não, talvez meu trabalho no MST seja consequência disso. Não é por bondade ou heroísmo, mas saber a que mundo você pertence, que ideais compartilha com a sua geração, nos dá sentido, nos ajuda a seguir em frente. Pertenço a uma geração que teve 20 anos da vida marcados pela ditadura, com o lado negro e o lado interessante disso, que foi a união dos movimentos de esquerda, o interesse pela vida pública. Tudo isso faz parte da minha experiência. Não devemos ficar presos ao passado, mas vejo com preocupação a pressa que os brasileiros tiveram em apagar essa memória. Isso nos impede de reconhecer coisas que ainda não foram sanadas. O Brasil é o único país da América Latina em que a violência policial cresceu após o fim da ditadura. Nossa polícia ainda tortura e assassina.

Pessoa_POMAR

teorias da pessoa em Pessoa

novembro 1, 2009 às 8:35 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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leyla_perrone_ortografia pessoa2w

Na maioria das redações foi expresso o desejo de que o    curso da LitPort3 finalizasse com um aprofundamento dos  estudos pessoanos procurando contemplar dois tópicos: as  teorias da subjetividade que se relacionam com a poesia  desse poeta português e a questão da heteronímia. Para  atingir esses objetivos e agregarmos conteúdos tendo em  vista a segunda avaliação, vamos nos dedicar à leitura & discussão de O Vácuo-Pessoa, um competente ensaio de Leyla Perrone-Moisés (ao lado) no qual se propõe uma perspectiva interpretativa para a obra pessoana baseada nas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Para baixar uma cópia PDF desse texto, clique AQUI (numa conexão de banda-larga, o download levará cerca de 10 minutos). Também há cópia impressa disponível na xerox do campus.

a literatura como espelho trincado do “eu”

outubro 23, 2009 às 16:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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pessoa olhos

A propósito das relações entre literatura, subjetividade e cultura nos contextos modernos, discute Eunice Cabral no E-Dicionário de Termos Literários:

A universalidade do sujeito individual corresponde ao dualismo espírito (alma)  / corpo na medida em que só o espiritual é universal. A espiritualidade apontada toma também a designação de racionalidade enquanto razão centrada no sujeito. Deste modo, a subjectividade adquire um valor supremo, facto cultural que tem vindo a ser criticado. Com antecessores como Marx, Nietzsche e Heidegger até contemporâneos como Bataille, Lacan, Foucault e Derrida, todos acusam a razão (vector organizativo das sociedades ocidentais), que é fundada na subjectividade universal e que é erigida como um absoluto. As obras destes autores, sendo em si muito diferentes, são estratégias para superar o positivismo da razão. (…)

De um modo mais restrito, a subjectividade, manifesta no texto literário, acompanhou o processo de descrédito já mencionado. No início da época moderna, foi encarada como um princípio libertador, fonte de confessionalismo, que se desenvolveu nas literaturas românticas mas, progressivamente, o seu impacto tem vindo a diluir-se. Desde o simbolismo, e acentuando-se com os modernismos, a subjectividade tem vindo a ser entendida como a possibilidade que o escritor tem de interpretar a vida e o mundo enquanto idiolecto de autor, visto que os aspectos subjectivos do texto literário já não dizem respeito apenas à vontade, ao entendimento e à razão de um indivíduo, o autor. Estes valores tornaram-se relativos (porque insuficientes) à luz das várias desconstruções de finais do século XIX, a de Freud, a de Marx, a de Nietzsche. Deste modo, a subjectividade tornou-se sinónimo de “impoder” pela transgressão desindividualizada. O não poder atribuído à subjectividade é uma forma de resistência ao totalitarismo da realidade, que o escritor pode optar por rejeitar. (clique AQUI e leia o verbete “subjectividade” na íntegra)

É importante notar as convergências existentes entre esta discussão e as propostas de Stuart Hall acerca dos “descentramentos”, ou das “desconstruções”, do sujeito moderno que são realizados pelos saberes filosóficos e científicos surgidos entre fins do século XIX e o início do XX. Uma referência ao descentramento operado pela teoria da linguagem de Ferdinand de Saussurre, por exemplo, pode ser identificado na noção de “idiolecto do autor”, apontada por Eunice Cabral como definidora do tipo de escrita literária que caracteriza as obras modernistas. Na poesia de Fernando Pessoa, esse idioleto, ou essa dimensão simultaneamente anônima e intimista da expressão artística moderna, representa-se principalmente naquela produção deste autor que costuma ser lida sob perspectivas esotéricas ou espiritualistas, a exemplo do famoso soneto número XIII do conjunto poemático de “Passos da cruz”:

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido…

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido…

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou…

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser…
Já viram Deus as minhas sensações…

fernando_pessoa tri

Alternativamente às interpretações místicas, podemos propor que o “rei desconhecido” é uma imagem metafórica para o caráter semi-determinista das linguagens humanas, conforme este é analisado por Hall:

Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. (…) Falar [ou escrever em] uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa lingua e em nossos sistemas culturais.

Já do ponto de vista da crítica marxista, a imagem do rei também serviria de metáfora  para o determinismo materialista da história humana, isto é, para a preponderância dos fatores econômicos e sociais na definição de nossos destinos e de nossas personalidades. Embora distintas nas suas implicações filosóficas, ambas as propostas interpretativas aqui destacadas põem em causa a natureza supostamente autônoma do sujeito moderno, tal como era preconizada pelo Iluminismo. A poesia de Pessoa traça a imagem de um eu-vassalo, dividido entre a condição de flanêur desorientado e a de “massa de manobra”, de elemento aprisionado entre as engrenagens das multidões urbanas, conforme vislumbrou Charles Baudelaire em poemas como “As Multidões” (leia uma boa análise deste poema feita por uma estudante de Letras AQUI). Nesse sentido, o “outro e anómalo sentido” a que se refere Pessoa no poema acima pretende justamente traduzir essas experiências de diluição e de alienação que se tornam caracterizantes da condição moderna.

Por sua vez, ainda com relação ao poema XIII, é crucial observar como essa experiência alienante pode rapidamente se converter em formas de sublimação e de superação das angústias modernas. A força que inconscientemente divide a voz lírica pode ser concebida como as fantasias subconscientes que, segundo Freud, fragmentam a subjetividade, fantasias que abrem novas, e por vezes transgressivas, possibilidades de identificação, capazes de libertar o indivíduo do contexto que o oprime social e psicologicamente. Essa terceira linha interpretativa está em aparente contradição com as duas outras sugeridas, mas perceba-se que a coexistência de juízos e sentimentos contrários é uma marca essencial tanto da lírica moderna quanto da poesia heteronômica de Fernando Pessoa. Dar conta dessa multiplicidade ambígua e polivalente é um dos principais desafios que se colocam para os leitores contemporâneos desses textos. Capacidade igualmente necessária para apreciar a produção literária pós-moderna que retoma a problemática da divisão e do descentramento das subjetividades, conforme pode-se ler no famoso poema “Traduzir-se”, do brasileiro Ferreira Gullar:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

 

Assista acima a bela versão de Adriana Calcanhoto, cantada numa tonalidade quase lusitana, para este poema. Aproveite o relax para organizar idéias tendo em vista responder sinteticamente à questão: quais os recursos estéticos mobilizados pela poesia de Fernando Pessoa para “traduzir” as novas subjetividades geradas pela modernidade?

PROVA adiada, REDAÇÃO mantida: orientações

outubro 18, 2009 às 2:25 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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persistencia da memoria_DALI 

(“A persistência da memória”, Salvador DALI, 1931)

De maneira a ganharmos mais um dia de aula para discutirmos os textos, nossas provas, tanto na LitPort1 quanto na LitPort3, ficam adiadas para o dia 30/10, data na qual, impreterivelmente, também devem ser entregues os relatórios das apresentações. Igualmente inadiável é a entrega da segunda redação no dia 23/10. Recordo que o tema da mesma é uma avaliação pessoal, feita por cada estudante, do conjunto das apresentações, devendo também ser feitas as indicações, seguidas de justificativa, do tema que mais interessou ao/à estudante e da equipe que, em sua opinião, melhor se apresentou. A redação deve ter duas (2) páginas, sendo precedida apenas de um cabeçalho com a identificação do/da estudante, data e título da redação. Preferencialmente, encaminhem a redação, em documento Word, para o meu email.

É recomendável estar consultando o blogue com assiduidade pois novas postagens com dicas e sugestões de leituras se tornarão mais frequentes nesses próximos dias, especialmente a partir do próximo final de semana. Desde já, para @s estudantes da LitPort3, fica para reflexão um poema de Álvaro de Campos que coloca em foco as percepções contraditórias quanto à passagem do tempo que afetam aos sujeitos modernos. Algumas dicas importantes para analisar este poema podem ser obtidas no texto “Álvaro de Campos e a definição de um sujeito na vida moderna”, de Ana Lúcia Teixeira, disponível para download AQUI.

 

ADIAMENTO

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico…
Esta espécie de alma…
                                Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…
(14-4-1928)

horoscopo campos(mapa astral de Álvaro de Campos traçado por Fernando Pessoa)

identidade & alteridade: inscrições abertas & algumas considerações teóricas & pedagógicas

outubro 16, 2009 às 17:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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alteridade

O que realmente distingue os seres humanos uns dos outros? As características físicas ou os estilos de vida, os valores culturais? De acordo com o que podemos chamar de perspectiva essencialista sobre as identidades, esses valores estariam impregnados no “sangue” ou na “alma” dos indivíduos que compõem cada povo, como resultado dos séculos de convívio endogâmico e de manutenção dos costumes tradicionais, costumes estabelecidos através dos mitos fundadores. Para a perspectiva historicista (também denominada antropológica, ou construcionista, ou pós-moderna), esses valores estão continuamente sendo negociados no interior das sociedades, processo que se dá em correlação direta com as tensões políticas e econômicas que afetam a estas, bem como com o desenvolvimento de novos conhecimentos e interpretações sobre a realidade humana.

No âmbito da Era Moderna –- vale dizer, dos acontecimentos sucedidos nos últimos 500 anos –- a intensificação dos contatos e das trocas entre as mais diversas comunidades torna cada vez mais complexo e problemático a produção de identidades estáveis, questão que também repercute fortemente na estabilidade das estruturas de poder, pondo em xeque diversos tipos de privilégios e barreiras. Em suas dimensões psicológicas e subjetivistas, os processos de identificação vivenciados por cada pessoa abrangem, presentemente, uma gama variada de composições de comportamentos, crenças e gostos, gerando indivíduos multifacetados, sujeitos a transições radicais de personalidade e a crises de orientação. No plano das artes, a complexidade alcançada pelo “jogo das identidades” (Stuart HALL. A identidade cultural na pós-modernidade) expressa-se nos diversificados impulsos de questionamento dos cânones, de renovação formal, de deslocamento temático, de vanguardismo e experimentalismo, de radicalização criativa e de abertura sincrética que vão redefinir as noções de beleza, e do próprio sentido do fazer artístico, ao longo do século XX. Conforme sintetiza Hall, “à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente”.

Em meio à “géleia geral” (ouça a canção de Gilberto Gil com este título no MUJIMBO) que configura as identidades pós-modernas, a qual significado efetivo palavras como diferença ou alteridade podem remeter? Para o professor Francisco Ferreira Lima, retomando conceitos elaborados pelo antropólogo argelino Francis Affergan, a alteridade consiste numa forma de relação intersubjetiva, ou intercultural, que leva os indivíduos a questionarem os fundamentos de suas certezas,de seus critérios de normalidade, estimulando assim a criatividade para a busca de novos projetos existenciais e de novas modalidades de vida coletiva. Contudo, a experiência transformadora da alteridade tende a ser reprimida, segundo Lima, pelo impulso de diferenciação, que tende a menosprezar e desumanizar os valores do Outro que destoem dos padrões fixados pela tradição. Para saber mais sobre esses conceitos, leia o artigo de Francisco Lima, “De Caminha a Mendes Pinto: Brasil, Extremo Oriente e outras maravilhas”, disponível em português na edição eletrônica da Revista de Filologia Románica da Universidade Complutense Madrid. (para ler outros textos de LIMA, consulte o MUJIMBO)

Para os objetivos de nossos cursos, o que o jogo das identidades põe em causa é a aquisição de competências teóricas e interpretativas que possibilitem aos graduandos caracterizar e analisar imagens identitárias representadas em textos artístico-literários, bem como avaliar, no campo das artes verbais, os efeitos estéticos das transformações culturais modernas. Na LitPort 1, merece destaque, entre outros fatores que compõem as visões-de-mundo renascentista e barroca, o estudo das transformações relacionadas à elaboração das ideologias que legitimaram o processo colonial e a hierarquização dos povos em “raças”, tomando-se principalmente o texto de Os lusíadas como objeto desse estudo.

Para a LitPort 3, cabe examinar a repercussão, na poética de Fernando Pessoa, da Revolução Industrial e da crise da racionalidade ocidental gerada pelo que Hall chama de “grandes descentramentos”. A primeira fonte desses descentramentos, segundo Hall, foi a reflexão marxista, que se opôs à idéia liberal-iluminista de autonomia humana fundada no individualismo egocêntrico ou num abstrato livre-arbítrio, voltada apenas para a realização pessoal. Pelo novo ponto de vista proposto por Karl Marx, podemos considerar que as identidades são sempre produtos coletivos e interacionais, fortemente dependentes das condições materiais, ou sócio-históricas, nas quais são engendradas. A alteridade, assim, reporta-se às forças que induzem à superação da sociedade capitalista, criticando-a ou formulando alternativas utópicas para esta.

O segundo descentramento deriva das conclusões de Sigmund Freud acerca da natureza polimórfica e dividida da psiquê humana. Em paralelo à assimilação das regras de convívio social e das imposições da luta pela sobrevivência, cada sujeito lida com uma pluralidade de desejos nos quais, para Freud e Jacques Lacan, se entrelaçam as lembranças da infância e os diversos tipos de “espelhamentos”, ou de projeções identificadoras, que formaram a personalidade. Reorganizados na lógica do “inconsciente”, esses desejos alimentam conflitos psicológicos e morais cada vez mais intricados nos sujeitos modernos, conflitos que se expressam através de comportamentos obsessivos, neuroses, fragmentações e multiplicações do “eu”. A alteridade fica assim instalada no cerne do próprio aparelho psíquico, resultando da coexistência entre as racionalizações conscientes e o fantasiamento inconsciente com que elaboramos nossas narrativas identitárias pessoais e coletivas.

Retomando as teses de Michel Lowy e Robert Sayre (cf. Revolta e melancolia – o romantismo na contramão da modernidade, Vozes, 1995), podemos considerar que o Romantismo, o Realismo e os vários Neo-Realismos expressam os principais efeitos estéticos do descentramento marxista. Para a literatura Modernista, por sua vez, as influências preponderantes derivam do descentramento freudiano e, também, daquele descentramento linguístico que foi promovido pelo trabalho de Ferdinand de Saussurre. Encaradas como sistemas de remissão, através dos quais são gerados, partilhados e recombinados os símbolos que articulam primariamente experiência sensível e pensamento, as línguas desempenham funções básicas na reprodução da realidade e na construção da auto-consciência. Pode-se assim conceber, sob uma ótica logocêntrica, que os processos de estruturação de sentidos que compõem nossas identidades organizam-se como uma espécie de gramática, proposição que coloca em evidência a dimensão discursiva, ou a dimensão narrativa, que é constitutiva dos sujeitos. Uma dimensão marcada pela ambiguidade, pela instabilidade, pelo deslizamento e entrecruzamento dos referentes, como atestam as pesquisas da filosofia pós-estruturalista, renovadoras do pensamento saussureano, pesquisas que fornecem subsídios fundamentais para a formulação teórica do caráter transitivo e “multimodulado” (HALL, op. cit.) do sujeito pós-moderno.

Na poesia de Fernando Pessoa, isto é, nos diversos jogos fonéticos, sintáticos e semânticos com que este escritor procurou traduzir sua subjetividade fragmentada, encontram-se formulados artisticamente os muitos impasses gerados pela exaustão da razão discursiva, pela incapacidade da reflexão científica para superar o materialismo mecanicista e oferecer respostas aos muitos enigmas e mistérios que perpassam o desenrolar efetivo das vidas humanas. A alteridade, nessa poesia, representa-se através de imagens paradoxais, das quais se desdobram ecos, reflexos, sombras, duplicidades, diálogos fantasmáticos, cisões introspectivas, tal como pode ser observado no poema “Brilha uma voz na noute” (ou “A voz de Deus”), ou “Sopra demais o vento” (versos que foram musicados pelo neo-fadista Camané e pelo brasileiro Jardel Caetano), ou no famoso “Autopsicografia”, que aborda a consciência da alteridade interna ao sujeito moderno como dramaturgia íntima, como “fingimento”. Se a alteridade, como sugere Francisco Lima, traduz uma experiência da vertigem identitária, é então sobre ela que escreve Pessoa quando desenvolve as metáforas do abismo, remetendo à percepção da falta de significado estável para a existência; da máscara, que põe em evidência as contradições que se acumulam à medida em que envelhecemos. Mas é sobretudo pelo jogo das heteronímias, é através dessa polifonia  cultivada como estilo, que se expressa a perspectiva mais radical de Pessoa quanto à experiência da alteridade moderna, concebida como um trabalho constante de reescrita, ou de ficcionalização, de si mesmo, isto é, de articulação entre diversas e distintas narrativas pessoais.

 

gepiadde logo

Outro importante momento para aprofundarmos nossa reflexão sobre a alteridade será proporcionado pelo III FÓRUM IDENTIDADES E ALTERIDADES, promoção do GEPIADDE (Grupo de Estudos e Pesquisas Identidades e Alteridades: Diferenças e Desigualdades na Educação) a ocorrer entre 11 a 13 de novembro de 2009 no Campus Itabaiana da UFS, versando sobre o tema: “EDUCAÇÃO, DIVERSIDADE E QUESTÕES DE GÊNERO”. O evento contará com uma grande oferta de mini-cursos relacionados à temática da identidade e está aceitando inscrições para apresentação de comunicações até o dia 31/10. Necessita-se também de voluntários para trabalhar como monitores, os interessados devem entrar em contato comigo assim que possível. No período do Fórum, as aulas nas LitPort 1 e 3 serão suspensas para acompanharmos as atividades. Informem-se e participem!

exercício 1, LitPort3

outubro 7, 2009 às 17:25 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Diz Leyla Perrone-Moisés, famosa pesquisadora da obra de Fernando Pessoa, que todo trabalho sobre este autor “é uma indagação sobre a identidade” [In: Fernando Pessoa: aquém do eu, além do outro]. O grande valor da poesia de FP para esse questionamento reside na maneira como, através dela, se representam algumas das experiências inaugurais de deslocamento e de fragmentação da subjetividade que levarão à transição da relativa estabilidade do sujeito sociológico para a condição instável, dividida e plurifacetada que caracteriza o sujeito pós-moderno. Conforme ressalta Stuart Hall, citando Kobena Mercer, "a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza". Analise e discuta os poemas de Pessoa transcritos abaixo considerando as questões acima referidas, o contexto histórico-cultural da modernidade européia e os “grandes descentramentos” descritos por Hall no capítulo Nascimento e Morte do Sujeito Moderno.

 

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Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!…

A ciência, uma fada
Num conto de louco…
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!

Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!

(4-11-1914)

         * * *

Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou: não me iguala

Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me destes o sentimento de um rumo,
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus atos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou entre quê e os fatos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…

(5-6-1917)

       * * *

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

[…]

(Álvaro de CAMPOS, “Ode Triunfal”. 6-1914)

pessoas

modernidade & identidade no Portugal contemporâneo

setembro 3, 2009 às 21:47 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Miguel Vale de Almeida diz que radicais tentaram apropriar-se das questões identitárias de igualdade

PÚBLICO, 29.08.2009 – 19h41
Miguel Vale de Almeida, candidato a deputado pelo PS e fundador do BE, afirmou hoje que sectores radicais tentaram apropriar-se das questões identitárias de igualdade e condenou a divisão “histórica” entre revolução e democracia liberal.

Sétimo da lista de candidatos a deputados socialistas por Lisboa, Miguel Vale de Almeida participou na última sessão do Campus da JS, na Praia de Santa Cruz, que antecede o comício de rentrèe política do PS.

Numa sessão em que também intervieram a comissária para a Igualdade e Cidadania, Elza Pais, e a actriz Inês Medeiros (terceira da lista do PS por Lisboa), Miguel Vale de Almeida fez várias críticas aos métodos de actuação política dos sectores radicais, embora sem nunca relacionar directamente essas mesmas críticas com a actuação do Bloco de Esquerda.

“Está na hora de fazermos uma mudança na vida política, que passe por acabar com a divisão histórica entre a revolução e a democracia liberal. É uma coisa de velhos, de outra geração e já não há pachorra. Esse tipo de complexos mina a nossa política de esquerda de uma forma terrível, porque afecta a forma como se lida com as questões da igualdade”, defendeu Miguel Vale de Almeida perante uma plateia de jovens socialistas.

Antropólogo, professor universitário e homossexual assumido, Miguel Vale de Almeida referiu-se ao seu passado político logo após o 25 de Abril na União de Estudantes Comunistas (UEC) – que abandonou pouco depois, discordando da primazia absoluta e quase exclusiva que o PCP concedia às questões da igualdade sócio económica, secundarizando as restantes -, mas também ao período mais recente quando, enquanto membro da Política XXI, fundou o Bloco de Esquerda.

Na sua intervenção, Miguel Vale de Almeida lamentou o atraso histórico que Portugal teve na defesa das questões identitárias de igualdade, que começaram a ser defendidas por sectores políticos mais radicais.

No entanto, segundo o docente universitário, estas questões da igualdade, para além das relacionadas com as desigualdades sócio económicas, “não se aguentaram com a força desejada nestes segmentos mais radicais, sendo também secundarizadas nos momentos de maior tensão política”.

“Quando as questões da igualdade começam a ser defendidas por outras pessoas que não as do costume, ou quando as pessoas que as defendem já não o fazem dentro de um determinado chapéu-de-chuva político, aí o caldo fica entornado. Começa a ver-se que, de facto, havia uma tentativa de apropriação de agendas por alguns sectores políticos”, acusou.

Miguel Vale de Almeida defendeu um ideal de modernidade cosmopolita, em que um canalizador se pode assumir “gay”, exemplo que a actriz Inês Medeiros depois pegou, mas para falar sobre um ideal de “liberdade para amar”.

Inês Medeiros relacionou a sua perspectiva de liberdade com a coragem (citando Péricles da Grécia Antiga), exortando os jovens socialistas a estarem vigilantes e a assumirem sempre as suas posições com clareza.

Elza Pais, candidata a deputada do PS pelo círculo de Viseu, defendeu que nas próximas eleições legislativas está em jogo “uma escolha entre o progresso ou o retrocesso”.

“Há que terminar com as discriminações que ainda persistem, não só ao nível da lei, mas também no plano prático. Ainda identificamos discriminações de género, de orientação sexual, com as minorias étnicas ou com os imigrantes”, apontou a comissária para as questões da Igualdade e da Cidadania.


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