pós-colonialismo & negritude em língua portuguesa

junho 20, 2011 às 4:45 | Publicado em Uncategorized | 2 Comentários
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4negras

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BIBLIOGRAFIA TEÓRICA (parcial):

Ementa do minicurso.

MUNANGA, Kabenguele. Negritude: usos e sentidos. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. (trechos)

MARGARIDO, Alfredo. Alienação, independentismo, negritude, mulatismo e negrismo nas poesias africanas de expressão portuguesa. In: Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: A Regra do Jogo, 1980.

MARGARIDO, Alfredo. Poetas de São Tomé e Príncipe (Prefácio). In: Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: A Regra do Jogo, 1980.

OLIVEIRA FILHO, Jesiel Ferreira de. Hibridismo e poder na família nacional brasileira: o ‘caçador’ como emblema da miscigenação predatória. In: Anais Eletrônicos do III Seminário Nacional Literatura e Cultura. v.3. São Cristóvão: GELIC/UFS, 2011.

OUTROS TEXTOS TEÓRICOS PODEM SER ACESSADOS NESTA POSTAGEM, ASSIM COMO NESTA OUTRA. SEGUE ABAIXO ANTOLOGIA DOS POEMAS TRABALHADOS NO CURSO. OS POEMAS AFROBRASILEIROS PODEM SER ACESSADOS AQUI.

NEGRUME DA NOITE
(Composição : Paulinho do Reco)

O negrume da noite
Reluziu o dia
A beleza azeviche
Que a negritude criou

O negrume da noite
Reluziu o dia
O perfil azeviche
Que a negritude criou

Constitui um universo de beleza
Explorado pela raça negra
Por isso o negro lutou
O negro lutou
E acabou invejado
E se consagrou

Ilê, Ilê Aiye
Tu és o senhor
Dessa grande nação
E hoje os negros clamam
A benção, a benção, a benção

Odé Comorodé
Odé Arerê
Odé
Comorodé Odé
Odé Arerê

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LANGSTON HUGHES (tradução: Carlos Machado)

THE NEGRO SPEAKS OF RIVERS

I’ve known rivers:
I’ve known rivers ancient as the world and older than the flow of human blood in human [veins.
My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.

I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln went down to New Orleans, and I’ve   [seen its muddy bosom turn all golden in the sunset.

I’ve known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

O NEGRO FALA SOBRE RIOS

Conheço rios:
Conheço rios tão antigos quanto o mundo e mais velhos que o fluxo de sangue humano nas     veias humanas.]
Minha alma se tornou profunda como os rios.

Banhei-me no Eufrates quando eram jovens as auroras.
Construí minha cabana junto ao Congo e ele me cantou canções de ninar.

Olhei para o Nilo e acima dele levantei as pirâmides.
Ouvi o canto do Mississippi quando Abe Lincoln desceu até New Orleans e vi seu seio [lamacento tornar-se ouro, ao pôr-do-sol.

Conheço rios:
Antigos, cinzentos rios.

Minha alma se tornou profunda como os rios.

parks_hughes

******************************

FRANCISCO JOSÉ TENREIRO

FRAGMENTO DE BLUES
(A Langston Hughes)

Vem até mim
nesta noite de vendaval na Europa
pela voz solitária de um trompete
toda a melancolia das noites de Geórgia;
oh! mamie oh! mamie
embala o teu menino
oh! mamie oh! mamie
olha o mundo roubando o teu menino.

Vem até mim
ao cair da tristeza no meu coração
a tua voz de negrinha doce
quebrando-se ao som grave dum piano
tocando em Harlem:
– Oh! King Joe
King Joe
Joe Louis bateau Buddy Baer
E Harlem abriu-se num sorriso branco
Nestas noites de vendaval na Europa
Count Basie toca para mim
e ritmos negros da América
encharcam meu coração;
– ah! ritmos negros da América
encharcam meu coração!
E se ainda fico triste
Langston Hughes e Countee Cullen
Vêm até mim
Cantando o poema do novo dia
– ai! os negros não morrem
nem nunca morrerão!

…logo com eles quero cantar
logo com eles quero lutar
– ai! os negros não morrem nem
nem nunca morrerão!

CORAÇÃO EM ÁFRICA

Caminhos trilhados na Europa
de coração em África
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não.
Ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho:
Oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro blue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) —
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadeira eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama policroma da verdade do Negro
da inocência de Mac Gee) —
três linhas no jornal como um falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillen
de coração em África com a impetuosidade viril de I too am America
de coração em África com as árvores renascidas em todas estações nos belos poemas de [Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro conheceu e no mistério do Chaka-Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África,
de coração em África ao meio dia do dia de coração em África
com o Sol sentado nas delicias do zénite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros
amodorrando no próprio calor da reverberação os mosquitos da nocturna picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que tem a beleza das rodas de crianças com papagaios garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e mulatas
de olhos rubros como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop nos lábios
enquanto que à minha volta se sussurra olha o preto (que bom) olha
um negro (óptimo), olha um mulato (tanto faz)
olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho a brisa da tarde.
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e os pés trambolhos disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou as riscas
e o coração entristece a beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África
e chora fino na arritmia de um relójio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de homens negros escravos dos homens
e também aqueles de que ninguém fala e eu Negro não esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu coração
de uma só vez (oh orgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da metralha
e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da Terra
distribuirá o pão o vinho e o azeite pelos aliseos;
na esperança de que as entranhas hiantes de um menino antipoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela paleta viva de Rivera
e pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração em África.

NEGRO DE TODO O MUNDO

O som do gongue
ficou gritando no ar
que o negro tinha perdido.
Harlém! Harlém!
América!
Nas ruas de Harlém
os negros trocam a vida por navalhas!
América!
Nas ruas de Harlém
o sangue de negros e de brancos
está formando xadrez.
Harlém!
Bairro negro!
Ringue da vida!

Os poetas de Cabo Verde
estão cantando…

Cantando os homens
perdidos na pesca da baleia.
Cantando os homens
perdidos em aventuras da vida
espalhados por todo o mundo!

Em Lisboa?
Na América?
No Rio?
Sabe-se lá!…

— Escuta.
É a Morna…

Voz nostálgica do cabo-verdiano
chamando por seus irmãos!

Nos terrenos do fumo
os negros estão cantando.

Nos arranha-céus de New-York
os brancos macaqueando!

Nos terrenos da Virgínia
os negros estão dançando.

No show-boat do Mississípi
os brancos macaqueando!

Ah!
Nos estados do sul
os negros estão cantando!

A tua voz escurinha
está cantando
nos palcos de Paris.
Folies-Bergères.

Os brancos estão pagando
o teu corpo
a litros de champagne.
Folies-Bergères!

Londres-Paris-Madrid
na mala de viagens…

Só as canções longas
que estás soluçando
dizem da nossa tristeza e melancolia!

Se fosses branco
terias a pele queimada
das caldeiras dos navios
que te levam à aventura!

Se fosses branco
terias os pulmões cheios
de carvão descarregado
no cais de Liverpool!

Se fosses branco
quando jogas a vida
por um copo de whisky
terias o teu retrato no jornal!

Negro!
Na cidade da Baía
os negros
estão sacudindo os músculos

Ui!
Na cidade da Baía
os negros
estão fazendo macumba.

Oraxilá! Oraxilá!

Cidade branca da Baía.
Trezentas e tantas igrejas!
Baía…
Negra. Bem negra!
Cidade de Pai Santo.

Oraxilá! Oraxilá!

MÃOS

Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.
Mãos que na cera polida encontram o orgulho perdido do Benin.
Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro
e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:
plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim
e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.
Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,
mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva
para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres
adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças
o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.

Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra
o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.
Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.
Mãos correndo com o harmattan nuvens de gafanhotos livres
criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.
Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da ventura
e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária
e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!

Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.

Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas
Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização
Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos
Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados
Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens
Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:
Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!

Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!

Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é
dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.
Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã
criastes religião e arte, religião e amor.

Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!

CANÇÃO DO MESTIÇO

Mestiço

Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.

Mestiço!

E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição.

Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
– mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!
Mas eu não me danei…
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!…

Mestiço!

Quando amo a branca
sou branco…
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é…

CORPO MORENO

Se eu dissesse que o teu corpo moreno
tem o ritmo da cobra preta deslizando
mentia.
Mentia se comparasse o teu rosto fruto
ao das estátuas adormecidas das velhas civilizações de África
de olhos rasgados em sonhos de luar
e boca em segredos de amor.

Como a minha Ilha é o teu corpo mulato
tronco forte que dá
amorosamente ramos, folhas, flores e frutos
e há frutos na geografia do teu corpo.

Teu rosto de fruto
olhos oblíquos de safís
boca fresca de framboesa silvestre
és tu.

És tu minha Ilha e minha África
forte e desdenhosa dos que te falam à volta.

tenreiro

******************************

CRAVEIRINHA

QUANDO EU PENSO NA AMÉRICA – POEMA PARA DOREEN MARTIN (fragmento)

Na Mafalala quando eu penso na América
Não invejo os arranha-céus de Manhattan
Não me deslumbram as luzes da Broadway (…)
Na Mafalala quando eu penso na América
Um som de ‘spiritual’ geme no tal rio Mississipi
Um belo tiroteio desconsidera a vida de um transeunte (…)
Mas na história inconfundível
De Nova Orleães e Harlem
Estão lá Armstrong
Duke Ellington
Bessie Smith
Jessé Owens
Joe Louis
E Richard Wright.
E mais em toda a parte estão
Lá todos e também Ella Fitzgerald com suas vozes
Saltos
Murros e livros
A lembrar os velhos e as crianças nas machambas de algodão
E sem falta estão lá todos os negros do mundo nos ‘juke-box’
A tocar barato o que uma simples moeda quiser (…)

Mas lembrem-se que Jesse Owens foi aos Jogos Olímpicos
E contra todas as expectativas ganhou 4 medalhas de ouro
E sabem onde foi isso? Mesmo em Berlim.
Joe Louis na desforra bateu Max Schmmeling por K.O.
Armstrong dispara o trompete em cheio numa Coca-Cola
Duke Ellington faz o piano colaborar em todos os problemas
De jazz enquanto um prateado Cadillac obsceno atravessa
A ponte de Brooklin como se fosse um insulto (…)

Mas as crianças que nascem nos becos de Xipamanine
Ou nos irrespiráveis sótãos do Harlem (…)
Quando crescerem não se limitarão a cantar por cantar
Não subirão ao ringue pelo simples fato de serem pugilistas
Nem ganharão os 100 metros só por uma questão de atletismo (…)
E para já
Todos os membros da Klu-Klux-Klan
Sabem mais ou menos o que eu sinto na Mafalala
Quando eu penso na pobre e nua Marilyn
Milionária da América do Norte.

QUERO SER TAMBOR

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

ÁFRICA

Em meus lábios grossos fermenta
a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África
e meus ouvidos não levam ao coração seco
misturada com o sal dos pensamentos
a sintaxe anglo-latina de novas palavras.

Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos
a mística das suas missangas e da sua pólvora
a lógica das suas rajadas de metralhadora
e enchem-me de sons que não sinto
das canções das suas terras
que não conheço.

E dão-me
a única permitida grandeza dos seus heróis
a glória dos seus monumentos de pedra
a sedução dos seus pornográficos Rols-Royce
e a dádiva quotidiana das suas casas de passe.
Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos
e na minha boca diluem o abstracto
sabor da carne de hóstias em milionésimas
circunferências hipóteses católicas de pão.

E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo
vendem-me a sua desinfectante benção
a vergonha de uma certidão de filho de pai incógnito
uma educativa sessão de «strip-tease» e meio litro
de vinho tinto com graduação de álcool de branco
exacta só para negro
um gramofone de magaíza
um filme de heróis de carabina a vencer traiçoeiros
selvagens armados de penas e flechas
e o ósculo das suas balas e dos seus gases lacrimogéneos
civiliza o meu casto impudor africano.

Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço
em rodelas de latão em vez dos meus autênticos
mutovanas de chuva e da fecundidade das virgens
do ciúme e da colheita de amendoim novo.
E aprendo que os homens inventaram
a confortável cadeira eléctrica
a técnica de Buchenwald e as bombas V2
acenderam fogos de artifício nas pupilas
de ex-meninos vivos de Varsóvia
criaram Al Capone, Hollywood, Harlem
a seita Ku-Klux-Klan, Cato Mannor e Sharpeville
e emprenharam o pássaro que fez o choco
sobre os ninhos mornos de Hiroshima e Nagasaki
conheciam o segredo das parábolas de Charlie Chaplin
lêem Platão, Marx, Gandhi, Einstein e Jean-Paul Sartre
e sabem que Garcia Lorca não morreu mas foi assassinado
são os filhos dos santos que descobriram a Inquisição
perverteram de labaredas a crucificada nudez
da sua Joana D’Arc e agora vêm
arar os meus campos com charruas «made in Germany»
mas já não ouvem a subtil voz das árvores
nos ouvidos surdos do pasmo das turbinas
não lêem nos meus livros de nuvens
o sinal das cheias e das secas
e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos
extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas
as cores das flores do universo
e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta
instintos de asas em bando nas pistas do éter
infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos
a infinita côdea impalpável de um céu que não existe.
E no colo macio das ondas não adivinham os vermelhos
sulcos das quilhas negreiras e não sentem
como eu sinto o prenúncio mágico sob os transatlânticos
da cólera das catanas de ossos nos batuques do mar.
E no coração deles a grandeza do sentimento
é do tamanho cow-boy do nimbo dos átomos
desfolhados no duplo rodeo aéreo no Japão.

Mas nos verdes caminhos oníricos do nosso desespero
perdoo-lhes a sua bela civilização à custa do sangue
ouro, marfim, améns
e bíceps do meus povo.

E ao som másculo dos tantãs tribais o Eros
do meu grito fecunda o húmus dos navios negreiros…
E ergo no equinócio da minha Terra
o moçambicano rubi do nosso mais belo canto xi-ronga
e na insólita brancura dos rins da plena Madrugada
a necessária carícia dos meus dedos selvagens
é a tácita harmonia de azagaias no cio das raças
belas como altivos falos de ouro
erectos no ventre nervoso da noite africana.

AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE

Pai:
As maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época de colheita
enquanto soltas já são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovacos suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

E agora
para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar
e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha
subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático
achando que não valia a pena fazer cara alegre
e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa
Ante os meus sócios Bucha e Estica no “écran” todo branco
e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão
e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene
enquanto tua voz serena profecia paternal: – “Zé:
quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém.”

Oh, Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Algezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.

Pai:
O Zé de cabelos crespos e aloirados
não sei como ou antes por tua culpa
o “Trinta-Diabos” de joelhos esfolados nos mergulhos
à Zamora nas balizas dos estádios descampados
avançado-centro de “bicicleta” à Leónidas no capim
mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas
embasbacado com as proezas do Circo Pagel
nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui
campeão de corridas no “xituto” Harley-Davidson
os fundilhos dos calções avermelhados nos montes
do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores
para salvar a rapariga Maureen OSullivan das mandíbulas
afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller
os bolsos cheios de tingolé da praia
as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã
do carro eléctrico e as mangas verdes com sal
sou eu, Pai, o “Cascabulho” para ti
e Sontinho para minha Mãe
todo maluco de medo das visões alucinantes
de Lon Chaney com muitas caras.

Pai:
Ainda me lembro bem do teu olhar
e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade
ou teus versos de improviso em loas à vida escuto
e também lágrimas na demência dos silêncios
em tuas pálpebras revejo nitidamente
eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos
dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura
na dimensão desmedida do meu amor por ti
meu belo algarvio bem moçambicano!

E choro-te
chorando-me mais agora que te conheço
a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois
dos carros na lenta procissão do nosso funeral
mas só Tu no caixão de funcionário aposentado
nos limites da vida
e na íris do meu olhar o teu lívido rosto
ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus
e na minha cabeça de mulatinho os últimos
afagos da tua mão trémula mas decidida sinto
naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central.

E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra
ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza
e nas abafadas noites dos nossos índicos verões
tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero
e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix
todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto
e de tanga na casa de madeira e zinco
da estrada do Zichacha onde eu nasci.

Pai:
Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem
mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios
e Tarzan agente disfarçado em África
e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face
e eu também Ee que musámos.
E alinhavadas palavras como se fossem versos
bandos de se´´cuas ávidos sangrando grãos de sol
no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção
para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços
agitados nas manhãs de bronzes
chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias
almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas
ancas sinuosas dos rios.

E nestes versos te escrevo, meu Pai
por enquanto escondidos teus póstumos projectos
mais belos no silêncio e mais fortes na espera
porque nascem e renascem no meu não cicatrizado
ronga-ibérico mas afro-puro coração.
E fica a tua prematura beleza realgarvia
quase revelada nesta carta elegia para ti
meu resgatado primeiro ex-português
número UM Craveirinha moçambicano!

 

craveirinha

antologia de poesia romântica portuguesa

maio 24, 2011 às 10:11 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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castelo pena

Parecendo, à primeira vista, uma versão modernizada de um castelo medieval, o exuberante Palácio da Pena, retratado na imagem acima, mistura de maneira ousada vários estilos arquitetônicos da antiguidade, formando assim uma admirável síntese de passados no presente que pode ser considerada como uma forte representação da nostalgia romântica em Portugal. Também nos poemas transcritos a seguir podemos observar a idealização do passado como procedimento estético de crítica às formas de degradação moral, de destruição de valores tradicionais e de desilusão que se articulam à consolidação da modernidade capitalista na Europa, idealização que, segundo Michel Lowy e Robert Sayre, serve de bandeira comum para as diversificadas manifestações da revolta romântica, especialmente no âmbito da produção literária.

garrett

  • Almeida GARRETT

QUANDO EU SONHAVA

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar…
Para quê? – Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava – mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia …

***

ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n’alma … quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho-
Em que paz tão serena a dormi!
Oh!, que doce era aquele sonhar …
Quem me veio, ai de mim!, despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela?, eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei …

***

BELA D’AMOR

Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o ‘splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na Primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai!, vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.

***

CASCAIS

Acabava ali a Terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
O mar que incessante brama…
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.

Aí, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Ervas e matos queimados,
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um Céu na Terra.

Ali sós no mundo, sós,
Santo Deus!, como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim,
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim,
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!

Os anjos aqueles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.

Ai!, sim, foi a trapos largos,
Longos, fundos que a bebi
Do prazer a taça – amargos
Depois… depois os senti
Os travos que ela deixou…
Mas como eu ninguém gozou.

Ninguém: que é preciso amar
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.

Ai, ai!, que pesados anos
Tardios depois vieram!
Oh!, que fatais desenganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a Terra!

Se o visse… não quero vê-lo
Aquele sítio encantado.
Certo estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado,
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!

Inda ali acaba a Terra,
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.

***

ESTES SÍTIOS!

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro…
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos …
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade…
Ai!, não, não… nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos…
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!

***

VOZ E AROMA

A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.

***

grande%20porca

  • António de CABEDO

CARTA A UM REGEDOR

Cidadão indispensável,
que regeis com tacto fino
o duvidoso destino
desta famosa nação: –
saúde a paz vos envio,
como fez Narciso a Eco
e depois mercê depreco
nesta humilde petição.

Vós que, sem ser estadista,
resolveis coisas do Estado,
e sois, em lance apertado,
dos governos assessor;
que desprezais por modéstia
a carta de conselheiro,
e persistis em… tendeiro…
algibebe… ou cortador;

Vós, que fazeis deputados
ao sabor do ministério –
e, quando o caso é mais sério,
até mesmo os inventais;
enchendo enfim esse templo
das cortes beneditinas,
que, ao menos, nas oficinas
dão que fazer aos jornais:

Ouvi-me, e sede benigno,
magistrado venerando,
que o tal posso, quero e mando
já lá vos chegou também.
E, sem mais palavreado,
vou tratar do meu assunto,
prometendo um bom presunto
se o negócio sair bem.

Tenho um filho, já crescido,
dum talento desmarcado!
O rapaz há-de dar brado,
se bom caminho seguir.
É pacato e mui sisudo
sem palrar de papagaio,
sempre, sempre, quando eu saio,
fica ele em casa… a dormir.

Abre um livro, e fecha-o logo,
pregando os olhos no tecto –
que o rapaz, como discreto,
medita mais do que lê.
A leitura, só, não basta:
o ler muito nada prova:
olhe esta geração nova!
olhe-se mesmo você!

Sim: você, da sua loja,
analfabeto chapado,
pode escolher a seu grado
um varão legislador;
você, do pobre cantinho
em que de sábio não timbra,
pode mais que uma Coimbra,
faz de repente um doutor!

Hoje custa achar emprego
para um moço bem-nascido:
o comércio está perdido;
a marinha nada vale;
no exército de terra
são bandas por toda a banda;
e qualquer arte demanda
jeito e gosto especial.

Por essas secretarias
reina justiça de moiro;
aos néscios oiro e mais oiro;
os outros… ouvem-lhe o som.
Além disso a inteligência
em breve lá se atrofia:
quem fez uma portaria
nunca mais faz nada bom!

Médicos ganharam muito;
mas esse ganho fez termo:
quando um homem jaz enfermo
é quando menos os quer.
Depois dos vários sistemas,
que todos por fim têm pata,
fica a morte mais barata
quando ela por si vier.

A mina da advocacia
teve bons exploradores,
que antigamente os doutores
não assinavam de cruz.
Mas agora a velha escola
tem dado tanto camelo!
bicho de borla e capelo
quase sempre foge à luz.

Feito rápido bosquejo
em que ‘inda tudo não digo,
há-de ser o meu amigo
não só patrono, juiz:
ajuíze, que isto é claro,
se acaso há mor embaraço
que um homem, sem ser ricaço,
ver-se pai neste pais!

Lá marcho direito ao ponto.
A gente às vezes acerta;
eu fiz uma descoberta,
que me não parece má:
para um moço delicado,
que põe mira no orçamento,
uma cadeira em S. Bento –
arranjo melhor… não há.

Levanta-se ao meio-dia;
vai almoçar ao Chiado;
vem às Cortes repimpado
em traquitana veloz:
chega à sala – traça a perna,
endireita o colarinho,
e escreve o seu bilhetinho
à menina dos bandós.

Nos interesses da Pátria,
sua filha em bom direito,
quando vota, diz: «Rejeito»,
ou diz: «Aprovo» também.
Não entrega o voto à sorte,
vai alternando as respostas;
e se acaso volta as costas,
é que não entendeu bem.

Tem sarau em certas noites
nas altas secretarias,
onde há chá, doces, fatias,
e até neve, de Verão.
Faz quase um conto por ano;
emprega quatro parentes;
e as damas, por entre dentes,
perguntam: «Já é barão?»

Eis aqui para meu filho
brilhantíssimo futuro;
e o negócio está seguro,
se aprouver ao regedor:
um gesto de tal potência
torna maus fados propícios,
pode mais que dez comícios
a trabalhar por vapor.

Ponho em vós minha esperança,
ponde em mim vosso cuidado;
criai-me este deputado,
e então mostrarei quem sou.
Esta empresa, em que martelo,
deixa-me a cabeça calva,
se a Pátria não fica salva,
fica salvo… um seu avô.

Acedereis, como espero,
ao meu instante pedido;
e por mim ficareis tido
grande herói entre os heróis.
Basta já d’impertinência;
não pouco tenho abusado.
Sou – vosso amigo e criado –
João Fernandes d’Anzóis.

***

revoluçaão (1)

  • Eduardo VIDAL

A IDEIA NOVA, É BOA!… EM QUE CONSISTE A IDEIA?…
Nova; mas nova em quê?… Na insânia que alardeia,
Na forma sem primor, no rasgo desonesto,
Na feia exposição, na chufa, no doesto,
No delírio falaz que pinta a humanidade
Em latíbulos vis de infame ebriedade,
Bebendo a corrupção nas taças sacrossantas?…
Ideia nova, em quê?… Se a perversão nos cantas,
Sagrando a lira d’ouro às saturnais lascivas;
Se no teu ideal só pairam essas divas
Que a miséria lançou nos antros enlodados,
Que novidade és tu? Que mundos ignorados
Pretendes cimentar repletos d’abundância? –
O que farás do amor – o que farás da infância?…
O que dirás às mães num límpido conselho?…
Onde tens o respeito às cãs do pobre velho
Que é pai, que é bom, que é triste, e em Deus inda confia?…
És noite e escuridão; negas a luz e o dia,
És o velho farsante, a deusa descambada.
Não ascendes ao belo; andas de escada em escada
A farejar o crime, e a delatar o vício.
Que sacerdócio é o teu? – Serves o baixo oficio
Do polícia que espreita, e agarra o que mal usa:
Votaste a Boa Hora em templo à tua musa.
Eu, que persisto há muito em crer no bem florente,
Que sou da reacção protervo impenitente,
Que adoro o Céu, a flor, a pálida beleza,
Os lírios da inocência, a vasta natureza,
E que sinto em minha alma uns estos de lirismo
Quando me agita, ó Deus, um vago panteísmo
Que me afaga, me enleva, e brando me sorri,
Mas que, em íntimo ardor, me leva a crer em ti;
Eu deixo caminhar a procissão judenga,
E adormeço de ouvir-lhe a chocha lengalenga

***

Antero_MANTA2

  • Antero de QUENTAL

POBRES

(a João de Deus)

I

Eu quisera saber, ricos, se quando
Sobre esses montes de ouro estais subidos,
Vedes mais perto o céu, ou mais um astro
Vos aparece, ou a fronte se vos banha
Com a luz do luar em mor dilúvio?
Se vos percebe o ouvido as harmonias
Vagas do espaço, à noite, mais distintas?
Se quando andais subidos nas grandezas

Sentis as brancas asas de algum anjo
Dar-vos sombra, ou vos roça pelos lábios
De outro mundo ideal místico beijo?
Se, através do prisma de brilhantes,
Vedes maior o Empíreo, e as grandes palmas
Sobre as mãos que as sustem mais luminosas,
E as legiões fantásticas mais belas?
E, se quando passais por entre as glórias,
O carro de triunfo de ouro e sândalo,
Na carreira que o leva não sei onde
Sobre as urzes da terra, borrifadas
Com o orvalho de sangue, ó homens fortes!
Corre mais do que o vôo dos espíritos?

Ah! vós vedes o mundo todo baço…
Pálido, estreito e triste… o vosso prisma
Não é vivo cristal, que o brilho aumenta,
É o metal mais denso! e tão escuro,
Que ainda a luz que vê um pobre cego
Luzir-lhe em sua noite, e a fantasia
Em mundos ideais lhe anda acendendo…
Esse sol de quem já não espera dia…

Ah! vós nem tendes essa luz de cegos!
Que! subir tanto… e estar cheio de frio!
Erguer-se… e cada vez trevas maiores!
Homens! que monte é esse que não deixa
Ver a aurora nos céus? qual é a altura
Que vela o sol em vez de ir-lhe ao encontro?
Que asas são essas, com que andais voando,
Que só às nuvens negras vos levantam?
Certo que deve ser o vosso monte
Algum poço bem fundo… ou vossos olhos
Têm então bem estranha catarata!

II

Há às vezes no céu, caindo a tarde,
Certas nuvens que segue o olhar do triste
Vagamente a cismar… há nuvens d’estas
Que o vestem de poesia e de esperança,
E lhe tiram o frio d’este inverno
E o enchem de esplendor e majestade…
Mais do que as vossas túnicas de púrpura!

Eu, às vezes, nas naves das igrejas
Lá quando desce a luz a alma sobe…
E entre as sombras perpassam as saudades…
E no seio de pedra tem o triste
Mil seios maternais… eu tenho visto
Branquejar, nos desvãos da nave obscura,
Como as nuvens da tarde desmaiadas,

Uns brancos véus de linho em frontes belas
De umas pálidas virgens cismadoras,
Que, em verdade, não há para cobrir-nos
A alma de mistério e de saudade
Gaze nenhuma assim! Vede, opulentos,
Como Deus, com olhar de amor, as veste
A elas, de uma luz de aurora mística,
De poesia, de unção e mais beleza
Que o véu tecido com o velo de ouro!

Os vossos cofres têm tesouros, certo,
Que um rei os invejara… Mas eu tenho
Às vezes visto o infante, em seio amado
De mãe, dormir coberto de um sorriso,
Tão guardado do mundo como a pérola
No fundo do seu golfo… e sei, ó ricos,
Que aquele abrigo aonde a mãe o fecha
 Entre braços e seio  é precioso,
Cerra um tesouro de mais alto preço
Que os tesouros que encerram vossos cofres!

III

Levitas do MILHÃO! o vosso culto
Pode ter brilhos e esplendor de pompas…
Arrastar-se nas ruas da cidade
Como um manto de rei… e sob os arcos
De mármore passar, como em triunfo…
Ter colunas de pórfido luzente…
E ser o altar do vosso santuário
Como o templo Sol… cegar de luzes…
O vosso deus pode ser grande e altivo
Como Baal… o Deus que bebe sangue…
Mas o que nunca o vosso culto esplêndido
Há-de ter, como um véu para o sacrário,
A velar-lhe mistérios… é a poesia…

Esse mimo de amor… esses segredos…
O ingênuo sorriso da criança…
O olhar das mães, espelho de pureza…
A flor que medra na soidão das almas…
O branco lírio que, manhã e tarde,
Aos pés da Virgem, no oratório humilde,
Rega a donzela, em vaso pobrezinho!
Nunca a vossa cruz-de-ouro há-de dar sombra
Como a outra da Gólgota  o alívio,
Sombra que buscam almas magoadas 
Onde os citisos pálidos rebentam…
Consolações… saudade… e inda esperanças…

Podeis cavar… as minas são bem fundas…
Cavai mais fundo ainda… e já é o centro
Da terra, aí! Mas, onde, ó vós mineiros,
Por mais que profundeis não heis-de uma hora
Chegar mais… é ao coração…
E, entanto,
É lá a única mina de ouro puro!

IV

O coração! Potosi misterioso!
O grande rio de areais auríferos,
Que vem de umas nascentes ignoradas
Arrastando safiras em cada onda,
E depondo no leito finas pérolas!

O coração! É aí, ricos, a mina
Única digna de enterrar-se a vida,
Cavando sempre ali… sem ver mais nada…
Foi lá, como na areia o diamante,
Que Deus deixou cair da mão paterna
As esmeraldas do diadema humano…

O Sentimento vivo… a Ação radiante…
E a Idéia, o brilhante de mil faces!
Foi lá que esse Mineiro dos futuros
Encobertos andou co’os braços ambos
Metidos a buscar  mas quando um dia
Do fundo as mãos ergueu… o mundo, em pasmo,
Viu-lhe brilhar nas mãos… o Evangelho!
(1863)

***

locomotiva

  • GIRÃO (António Luís Ferreira)

VIVA O PROGRESSO!

Quando nas noites de cruéis insónias,
Papoilas colho pela nossa história
Nos feitos nunca feitos dos antigos,
Patetas tais lamento. – De que serve
O puro amor da Pátria não movido
Por luzente metal, mas alto, e grátis?
Que lucraram Cabrais, e os Albuquerques,
Em Diu os Castros, no Oriente os Gamas,
Senão morrer de fome, e andar às moscas?
Felizmente vai longe o tempo estulto
De ideias carunchosas d’honra e brio,
Que faziam girar estes e outros
Por solidões de nunca vistos mundos.
E houve quem louvasse estas carreiras,
Quem cantasse os heróis, e os descrevesse?
E há, oh, caso raro!, inda hoje em dia
Quem Andrade e Barros saboreie?
Eu por mim quando os leio o sono é certo.
De que livra saber que o Sol nascendo
No berço viu as lusitanas quinas;
Ou que iroso Neptuno escoucinhando
No mar se divertiu cos Palinuros?
Sempre nossos avós eram bem asnos
Em achar graça a ninharias destas!
Que delírio fatal deu causa a tanto?
Que modo de julgar o mundo e homens
Tão outros do que são como hoje os vemos
À luz etérea do imortal progresso!
O tal Gama que fez (haja franqueza)
Para ser cantado por Camões, o torto,
Num poema sem fim de insulsas trovas?
Fez ele porventura à pátria amada
Presente dalgum gás de novo invento?
Roubou por lá dinheiro aos Hotentotes?
Vendeu porção de terra aos estrangeiros
Pra melhor se arranjar quando voltasse?
Mas nada!… qual história!… o caso é outro,
Fez… (modernos barões, morrei de riso!)
Fez conhecido o lusitano nome!
Em vez de tanta glória, o barbas-d’alho
Dentuças d’elefante antes trouxesse,
Que servem pra marfim, pimenta, e cravo,
Como fazem por aí nos nossos dias.
Estes, sim, são heróis, pintos arranjam
Por finos estampados papelinhos,
Ou inocentes traficando em negros .
A honra, a probidade, a fama, a glória,
E que tais palavrões é fumo, é nada.
Quem troca por loureiros pão d’Avintes,
Ou tostados biscoitos? – E inda há parvos
Pregando sabichões que ter virtudes
É melhor capital do que ter loiras!
Viu-se sandice igual?! – O rumo é outro,
É pé-leve, mão pilha, e ser maroto,
Que esperto quer dizer, pois são sinónimos,
Na do progresso singular linguagem.
Que tempo tão feliz – que século d’oiro!

Salve, progresso tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
Do val que foi de pranto, e hoje é de rosas!

Nem tu, sexo gentil, ficaste isento
Desta moda seguir. – (Pasmai, vindouros,
Do lume vivo das modernas luzes!)
As Marílias cruéis têm vindo ao rego
A honra desprezando, inútil freio
Não posto às más paixões, posto à fortuna.
Isto, sim, que é pensar, ah! que inocência,
Que formosura ingénua e recatada
Ganhou por isso a vida! Avante, belas!
Que o viver é gozar, e os fins são tudo.
Teatros, o vestido, o baile e a festa,
Dinheiro custam, não se dão de graça.

Amor, essa paixão que aos próprios deuses
Faria tresloucar, e andar em brasa,
Está posta em leilão, a lanço em praça.
Ó tempos, ó costumes semibárbaros,
Em que amar era andar atrás das moças
A chorar, a grunhir e a fazer versos;
Ou ir de ponto em branco, mata-moiros,
Deixar-se esquartejar por dama ingrata!
As nossas vestais hoje, em vendo as c’roas,
Rendido o coração, dão corpo e alma.
Os tolos Quixotões desconheceram
Que a mulher é mulher; e o oiro é tudo.
Mas isto é pouco ainda, ‘inda devemos
Mais ao progresso que eu adoro, e sigo.
Era dantes mulher traste de luxo
Sem valer um ceitil, cinco réis cegos;
Hoje há pai que põe preço à própria filha,
Marido que hipoteca a linda esposa,
E quem por um cavalo ou por dez libras
A ditoso rival a amada entregue.
Que moda tão feliz, se o preço abaixa!
Progresso, salve, tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
De vai que foi de pranto, e hoje é de rosas!

***

the_smoke_at_widnes_the_midlands

  • João de LEMOS

A LUA DE LONDRES

É noite. O astro saudoso
rompe a custo um plúmbeo céu,
tolda-lhe o rosto formoso
alvacento, húmido véu,
traz perdida a cor de prata,
nas águas não se retrata,
não beija no campo a flor,
não traz cortejo de estrelas,
não fala de amor às belas,
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos
onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
das praias de além do mar?
Foi na terra tua amada,
nessa terra tão banhada
por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
na pátria dos meus amores,
pátria do meu coração!

Oh! que foi!… Deixaste o brilho
nos montes de Portugal,
lá onde nasce o tomilho,
onde há fontes de cristal;
lá onde viceja a rosa,
onde a leve mariposa
se espaneja à luz do Sol;
lá onde Deus concedera
que em noite de Primavera
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas
talvez há pouco o país
onde do bosque as madeixas
já têm um flóreo matiz;
amaste do ar a doçura,
do azul e formosura,
das águas o suspirar.
Como hás-de agora entre gelos
dardejar teus raios belos,
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
do Mondego os salgueirais;
quem andou por Tejo acima,
por cima dos seus cristais;
quem foi ao meu pátrio Douro
sobre fina areia de ouro
raios de prata esparzir
não pode amar outra terra
nem sob o céu de Inglaterra
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
tens aqui; mas Deus igual
não quis dar-lhe essa lindeza
do teu e meu Portugal.
Aqui, a indústria e as artes;
além, de todas as partes,
a natureza sem véu;
aqui, ouro e pedrarias,
ruas mil, mil arcarias;
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
estátuas, praças sem fim
retalham, cobrem o solo,
mas não me encantam a mim.
Na minha pátria, uma aldeia,
por noites de lua cheia,
é tão bela e tão feliz!…
Amo as casinhas da serra
coa Lua da minha terra,
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
padecemos igual dor;
temos a mesma saudade,
sentimos o mesmo amor.
Em Portugal, o teu rosto
de riso e luz é composto;
aqui, triste e sem clarão.
Eu, lá, sinto-me contente;
aqui, lembrança pungente
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
voltemos aos puros céus.
Leva-me, ó Lua, contigo,
preso num raio dos teus.
Voltemos ambos, voltemos,
que nem eu nem tu podemos
aqui ser quais Deus nos fez;
terás brilho, eu terei vida,
eu já livre e tu despida
das nuvens do céu inglês.

PENA1

agudezas antológicas

maio 5, 2011 às 2:04 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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trança cabelos_JERONIMO                um peito cruel_BACELAR

Bons exemplos da aplicação do procedimento cultista da “disseminação e recolha”, de acordo com a terminologia proposta pelo crítico Dâmaso Alonso (cf. SALTARELLI, p.96), os recortes poéticos acima destacados integram a coletânea Poesia seiscentista: Fênix renascida & Postilhão de Apolo, organizada por Alcir Pécora, e que pode ser folheada online no Google Livros, dando também acesso à instrutiva “Introdução” que João Hansen elaborou para esta obra. Na sequência, seguem transcrições de outros poemas trabalhados em classe e mais alguns de leitura sugerida, tendo em vista a avaliação que realizaremos semana que vem. No final desta postagem, apreciem uma reprodução de “Fogo”, mais uma das perturbantes agudezas visuais criadas pelo grande pintor barroco Giuseppe Arcimboldo.

Mil anos há que busco a minha estrela
E os Fados dizem que ma têm guardada;
Levantei-me de noite e madrugada,
Por mais que madruguei, não pude vê-la.

Já não espero haver alcance dela
Senão depois da vida rematada,
Que deve estar nos céus tão remontada
Que só lá poderei gozá-la e tê-la.

Pensamentos, desejos, esperança,
Não vos canseis em vão, não movais guerra,
Façamos entre os mais üa mudança:

Para me procurar vida segura
Deixemos tudo aquilo que há na terra,
Vamos para onde temos a ventura.

[Francisco Rodrigues Lobo]

**********************************************

Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
Eu não sei se serei quem dantes era.

[Francisco Rodrigues Lobo]

**********************************************

Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano deus Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.

Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.

Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.

Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para quem de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.

[Sóror Violante do Céu]

**********************************************

Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.

[Sóror Violante do Céu]

**********************************************

Estou a ser triste tão acostumado,
O prazer de tal sorte me enfastia,
Que só quem me entristece me alivia,
Quem me quer divertir me dá cuidado.

Assim o largo mal me tem mudado,
Que se não fosse triste morreria,
Fujo como da morte da alegria,
Entre penas só me acho descansado.

A vida em tanto mal tenho segura,
Pois na minha tristeza só consiste,
Que não pode faltar-me eternamente:

Ninguém teve em ser triste maior ventura!
Que hei de viver eterno de ser triste,
E só posso morrer de ser contente.

[António Barbosa Bacelar]

**********************************************

Glória do amor, que breve que feneces!
Pena do amor, que larga te dilatas!
Que largamente um coração maltratas!
Com quanta brevidade desvaneces!

Gosto fingido no melhor pereces,
Verdadeiro tormento sempre matas,
Se te concedes, logo te recatas,
Se te apoderas, nunca te enterneces!

Pena cruel, que a alma me traspassas!
Glória caduca, que tão pouco aturas!
Quem poderá emendar tantas desgraças!

Quem tivera num ser sempre as venturas!
És doce de passar, por isso passas;
És dura de sofrer, por isso duras.

[Francisco de Vasconcelos]

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“Triste Bahia”

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

[Gregório de Matos]

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Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.

Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.

Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.

[Gregório de Matos]

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“Falando com Deus”

Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce;
Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.

[Jerônimo Baía]

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Se sois riqueza, como estais despido?
Se Omnipotente, como desprezado?
Se rei, como de espinhos coroado?
Se forte, como estais enfraquecido?

Se luz, como a luz tendes perdida?
Se sol divino, como eclipsado?
Se Verbo, como é que estais calado?
Se vida, como estais amortecido?

Se Deus? estais como homem nessa Cruz?
Se homem? como dais a um ladrão,
Com tão grande poder, posse dos céus?

Ah, que sois Deus e Homem, bom Jesus!
Morrendo por Adão enquanto Adão,
E redimindo Adão enquanto Deus.

[Frei António das Chagas]

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“Cidra, Ciúme”

É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vê-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.

[Sóror Maria do Céu]

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“Mortal doença”

Na febre do amor-próprio estou ardendo,
No frio da tibieza tiritando,
No fastio ao bem desfalecendo,
Na sezão do meu mal delirando,
Na fraqueza do ser, vou falecendo,
Na inchação da soberba arrebentado,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Na dureza do peito atormentada,
Na sede dos alívios consumida,
No sono da preguiça amadornada,
No desmaio à razão amortecida,
Nos temores da morte trespassada,
No soluço do pranto esmorecida,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

Na dor de ver-me assim, vou desfazendo,
Nos sintomas do mal descoroçoando,
Na sezão de meu dano estou tremendo
No ris como da doença imaginando,
No fervor de querer-me enardecendo,
Na tristeza de ver-me sufocando,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.
Vou ao pasmo do mal emudecendo,
À sombra da vontade vou cegando,
Aos gritos do delito emouquecendo,
No tempo sobre tempo caducando,
Nos erros do caminho entorpecendo,
Na maligna da culpa agonizando,
Já morro, já feneço, já termino,
Vão-me chamar o Médico Divino.

[Sóror Maria do Céu]

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“À fragilidade da vida humana”

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em vesúvios incendido
Foi zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que é rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

[Francisco de Vasconcelos]

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(“Fogo”, ARCIMBOLDO)arcimboldo10

+++++ poesia barroca portuguesa

abril 19, 2011 às 0:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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vercial barroco

Clique na imagem e embriague-se de agudezas seiscentistas com certeza portuguesas!

poesia portuguesa de agudeza: antologia

abril 19, 2011 às 0:08 | Publicado em Uncategorized | 1 Comentário
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perola barroca lilas

Na imagem acima podem ser apreciadas algumas fieiras de pérolas barrocas lilases, também usadas na joalheria. A beleza estranha dessas jóias encontra sua correspondente textual na  intricada poesia barroca, arte feita de palavras retorcidas, sintaxes tortuosas e significações agudas, como pode ser conferido na breve antologia que segue abaixo, reunindo alguns textos de referência para nosso curso e nossas avaliações. A coletânea inicia-se com um famoso soneto maneirista de Luís de Camões, a sinalizar, tanto a nível temático quanto formal, a crise que abala os padrões de equilíbrio estético e intelectual do Renascimento, crise que desemboca na literatura diversificadamente engenhosa que, desde o trabalho sistematizador de Heinrich Wölfflin, tem sido demarcada e definida como barroca.

Se desejar conhecer mais detidamente questões teóricas e estéticas relativas ao “procedimento retórico-poético da agudeza como efeito que especifica a poesia lírica seiscentista de  Portugal”, além da excelente dissertação de Thiago Saltarelli, As poéticas seiscentistas e a obra de Dom Francisco Manuel de Melo, que estamos discutindo em classe, você também pode conferir a tese de doutoramento de Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, intitulada Poesia de Agudeza em Portugal, trabalho defendido na UNICAMP, em 2004, e que contou na banca de arguição com o eminente professor e pesquisador da arte engenhosa,  João Adolfo Hansen.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.

[Luís Vaz de Camões]

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Vede-me de si mesmo o tempo conta
E para dar-se pede a conta tempo,
que quem gastou sem conta tanto tempo;
como o dar sem tempo tanta conta.

Não quer louvar o tempo, tempo em conta,
Porque conta não faz de dar ao tempo,
Em que só para conta havia tempo,
Se na conta do tempo, houvesse conta.

Mas que conta dar a quem não tem tempo
em que tempo [andava] quem não tem conta
a quem sem conta vive falta tempo.

Vejo-me sem ter tempo e sem ter conta
Sabendo que ei de dar conta do tempo
E que se há de chegar tempo da conta.

[Anônimo, Códice 13.217, in: Cancioneiros do século XVI e XVIII]

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Será brando o rigor, firme a mudança,
humilde a presunção, vária a firmeza,
fraco o valor, cobarde a fortaleza,
triste o prazer, discreta a confiança;

Terá a ingratidão firme lembrança,
será rude o saber, sábia a rudeza,
lhana a ficção, sofística a lhaneza,
áspero o amor, benigna a esquivança;

Será merecimento a indignidade,
defeito a perfeição, culpa a defensa,
intrépido o temor, dura a piedade,

Delito a obrigação, favor a ofensa,
verdadeira a traição, falsa a verdade
antes que vosso amor meu peito vença.

[Sóror Violante do Céu]

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“A uma ausência”

Vida que não acaba de acabar-se,
Chegando já de vós a despedir-se,
Ou deixa, por sentida, de sentir-se,
Ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
Pois chega já de vós a dividir-se,
Ou procura, vivendo, consumir-se,
Ou pretende, matando, eternizar-se.

O certo é, Senhor, que não fenece,
Antes no que padece se reporta,
Por que não se limite o que padece.

Mas viver entre lágrimas, que importa
Se vida que entre ausência permanece
É só viva ao pesar, ao gosto morta?

[Sóror Violante do Céu]

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“Ao Padre António Vieira, pregando do nascimento de N. Senhora no Convento da Rosa”

(Silva)

Aspirar a louvar o incompreensível,
E fundar o desejo no impossível;
Reduzir a palavras os espantos,
Detrimento será de excessos tantos;
Dizer, do muito, pouco,
Dar o juízo a créditos de louco;
Querer encarecer-vos,
Eleger os caminhos de ofender-vos;
Louvar diminuindo,
Subir louvando e abaixar subindo;
Deixar também, cobarde, de louvar-vos,
Será mui claro indício de ignorar-vos;
Fazer a tanto impulso resistência,
Por o conhecimento em contingência;

Delirar por louvar o mais perfeito,
Achar a perfeição no que é defeito;
Empreender aplaudir tal subtileza,
Livrar todo o valor na mesma empresa.
Errar exagerando,
Ganhar perdendo e acertar errando.
Siga pois o melhor indigna Musa
E deponha os excessos de confusa,
Que, para acreditar-se,
Basta, basta o valor de aventurar-se;
E para vos livrar de detrimento,
Ser vossa a obra e meu o pensamento.
Pois não fica o valor aniquilado,
Sendo meu o louvor, vós o louvado,
Porque somos os dois, no inteligível,
Eu ignorante e vós incompreensível.

[Sóror Violante do Céu]

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“A umas saudades”

Saudades de meu bem, que noite e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabardes-me a vida com tormento,
Mais lisonja será que tirania.

Mas, quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria.

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo.

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

[António Barbosa Bacelar]

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“A uma ausência”

Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem, que me entretém, me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado;
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio;
No mor risco me anima á confiança;
Do que menos se espera estou mais certo.

Mas se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.

[António Barbosa Bacelar]

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“À variedade do mundo”

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c’o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C’o grãozinho na boca ao ninho üa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora…
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

[António Barbosa Bacelar]

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Esse jasmim, que arminhos desacata,
Essa aurora, que nácares aviva,
Essa fonte, que aljôfares deriva,
Essa rosa, que púrpuras desata:

Troca em cinza voraz lustrosa prata,
Brota em pranto cruel púrpura viva,
Profana em turvo pez prata nativa,
Muda em luto infeliz tersa escarlata.

Jasmim na alvura foi, na luz Aurora,
Fonte na graça, rosa no atributo,
Essa heróica deidade, que em luz repousa.

Porém fora melhor que assim não fora,
Pois a ser cinza, pranto, barro e luto,
Nasceu jasmim, Aurora, fonte, rosa.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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“A fonte das lágrimas”

De essa pura fonte, fonte aceita
Digna de vista ser por ser vistosa,
Que quando mais murmura mais deleita
De muda penha filha sonorosa.

Que o gosto enfeitiça, o prado enfeita,
E quando branda mais, mais poderosa,
Contrários vence, oposições sujeita,
Pois ferve fria, pois se ri chorosa.

Vês tanta prata, vês aljofar tanto!
Pois sabe Bela, doce, e linda es bela
Do ouvido suspensão, da vida encanto,

Que ou ela vive em mim, ou vivo eu nela,
Ela é lagrimas toda, eu tudo pranto
Eu de amor fonte, fonte de amor ela.

[Anônimo, Códice 13.219, in: Biblioteca Nacional de Lisboa]

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Saudades de meu bem, que noite, e dia
A alma atormentais, se é vosso intento
Acabares-me a vida com tormento,
Mais lisonja será, que tirania:

Mas quando me matar vossa porfia,
De morrer tenho tal contentamento,
Que em me matando vosso sentimento,
Me há-de ressuscitar minha alegria:

Porém matai-me embora, que pretendo
Satisfazer com mortes repetidas
O que à beleza sua estou devendo;

Vidas me dai para tirar-me vidas,
Que ao grande gosto, com que as for perdendo
Serão todas as mortes bem devidas.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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Copiar todo o esplendor da natureza
É o que atrevidamente a arte procura!
Em vão se cansa a idea, a mão se apura
Que impossíveis não cabem na destreza.

[Vira-se] já com menos estranheza
O poder dividir-se a fermosura
Que corpo há se imite na pintura
Aonde é toda espírito a beleza.

Que importa que se empenhe o entendimento
Para uma perfeição quase infinita
Impossível será que ache igualdade.

Ceda o pincel de tão ousado intento
Pois se o que se compreende só se imita,
[Que] nega a semelhança a Divindade.

[Anônimo, Códice 13.219, in: Cancioneiros do século XVI e XVIII]

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Baixel de confusão em mares de ânsia,
Edifício caduco em vil terreno,
Rosa murchada já no campo ameno,
Berço trocado em tumba desd’a infância;

Fraqueza sustentada em arrogância,
Néctar suave em campo de veneno,
Escura noite em lúcido sereno,
Sereia alegre em triste consonância,

Viração lisonjeira em vento forte,
Riqueza falsa em venturosa mina,
Estrela errante em fementido norte;

Verdade que o engano contamina,
Triunfo no temor, troféu da morte
É nossa vida vã, nossa ruína.

[Anônimo, in: A Fênix Renascida ou obras dos melhores engenhos portugueses]

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Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. 

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

[Gregório de Matos]

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Anjo no nome, Angélica na cara
Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

[Gregório de Matos]

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“Buscando a Cristo”

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos;
Que, para receber-me, estais abertos
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados,
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me.
A vós, sangue vertido para ungir-me.
A vós, cabeça baixa p´ra chamar-me.

A vós, lado patente, quero unir-me.
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

[Gregório de Matos]

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“A Jesus Cristo Nosso Senhor”

Pequei, Senhor; mas não por que hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido:
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado

Se uma ovelha perdida, e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a ; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

[Gregório de Matos]

espelho barroco

LitPort I, avaliação 1

setembro 10, 2010 às 11:02 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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3raças_Winton-graffiti

Entrega: quarta-feira, 22/09

Apresente um texto poético, de autoria portuguesa (preferencialmente) ou brasileira, no qual sejam tematizadas matrizes e tradições culturais lusitanas, ou as relações entre estas e os traços identitários brasileiros. A apresentação deve incluir: transcrição integral do texto; resumo do tema da obra e de suas características formais; indicação de fonte bibliográfica. Comente o texto selecionado (30 linhas) levando em consideração as duas citações transcritas abaixo:

A) Como é contada a narrativa da cultura nacional? (…) Em primeiro lugar, há a narrativa da nação, tal como é contada e recontada nas histórias e nas literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Essas fornecem uma série de estórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação. Como membros de tal “comunidade imaginada”, nos vemos, no olho de nossa mente, como compartilhando dessa narrativa. (HALL, p. 51-52)

B) Como tornar o Brasil um país moderno se somos produtos de uma tradição que complica nosso acesso à modernidade? (GOMES, p. 2)


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