desvalorização do magistério: mais uma das “invisíveis” guerras brasileiras

junho 25, 2011 às 21:45 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Professores, humilhação e resistência

Carreira mergulhou, há 25 anos, em ruína. Escola tornou-se o serviço público mais vulnerável. Mas eles jamais deixaram de lutar

Por Valerio Arcary*

Mais valem lágrimas de derrota do que a vergonha de não ter lutado.
Sabedoria popular brasileira

Qualquer avaliação honesta da situação das redes de ensino público estadual e municipal revela que a educação contemporânea no Brasil, infelizmente, não é satisfatória. Mesmo procurando encarar a situação dramática com a máxima sobriedade, é incontornável verificar que o quadro é desolador. A escolaridade média da população com 15 anos ou mais permanece inferior a oito anos, e é de quatro entre os 20% mais pobres, porém, é superior a dez entre os 20% mais ricos.[1] É verdade que o Brasil em 1980 era um país culturalmente primitivo que recém completava a transição histórica de uma sociedade rural. Mas, ainda assim, em trinta anos avançamos apenas três anos na escolaridade média.

São muitos, felizmente, os indicadores disponíveis para aferir a realidade educacional. Reconhecer as dificuldades tais como elas são é um primeiro passo para poder ter um diagnóstico aproximativo. A Unesco, por exemplo, realiza uma pesquisa que enfoca as habilidades dominadas pelos alunos de 15 anos, o que corresponde aos oitos anos do ensino fundamental.[2] O Pisa (Programa Internacional de avaliação de Estudantes) é um projeto de avaliação comparada. As informações são oficiais porque são os governos que devem oferecer os dados. A pesquisa considera os países membros da OCDE além da Argentina, Colômbia e Uruguai, entre outros, somando 57 países.

Em uma avaliação realizada em 2006, considerando as áreas de Leitura, Matemática e Ciências o Brasil apresentou desempenho muito abaixo da média.[3] No caso de Ciências, o Brasil teve mais de 40% dos estudantes situados no nível mais baixo de desempenho. Em Matemática, a posição do Brasil foi muito desfavorável, equiparando-se à da Colômbia e sendo melhor apenas que a da Tunísia ou Quirguistão. Em leitura, 40% dos estudantes avaliados no Brasil, assim como na Indonésia, México e Tailândia, mostram níveis de letramento equivalentes aos alunos que se encontram no meio da educação primária nos países da OCDE. Ficamos entre os dez países com pior desempenho.

As razões identificadas para esta crise são variadas. É verdade que problemas complexos têm muitas determinações. Entre os muitos processos que explicam a decadência do ensino público, um dos mais significativos, senão o mais devastador, foi a queda do salário médio docente a partir, sobretudo, dos anos oitenta. Tão grande foi a queda do salário dos professores que, em 2008, como medida de emergência, foi criado um piso nacional. Os professores das escolas públicas passaram a ter a garantia de não ganhar abaixo de R$ 950,00, somados aí o vencimento básico (salário) e as gratificações e vantagens. Se considerarmos como referência o rendimento médio real dos trabalhadores, apurado em dezembro de 2010 o valor foi de R$ 1.515,10.[4] Em outras palavras, o piso nacional é inferior, apesar da exigência mínima de uma escolaridade que precisa ser o dobro da escolaridade média nacional.

Já o salário médio nacional dos professores iniciantes na carreira com licenciatura plena e jornada de 40 horas semanais, incluindo as gratificações, antes dos descontos, foi  R$1.777,66 nas redes estaduais de ensino no início de 2010, segundo o Ministério da Educação. Importante considerar que o ensino primário foi municipalizado e incontáveis prefeituras remuneram muito menos. O melhor salário foi o do Distrito Federal, R$3.227,87. O do Rio Grande do Sul foi o quinto pior, R$1.269,56.[5] Pior que o Rio Grande do Sul estão somente a Paraíba com R$ 1.243,09, o Rio Grande do Norte com R$ 1.157,33, Goiás com R$ 1.084,00, e o lanterninha Pernambuco com R$ 1016,00. A pior média salarial do país corresponde, surpreendentemente, à região sul: R$ 1.477,28. No Nordeste era de R$ 1.560,73. No centro-oeste de R$ 2.235,59. No norte de R$ 2.109,68. No sudeste de R$ 1.697,41.

A média nacional estabelece o salário docente das redes estaduais em três salários mínimos e meio para contrato de 40 horas. Trinta anos atrás, ainda era possível ingressar na carreira em alguns Estados com salário equivalente a dez salários mínimos. Se fizermos comparações com os salários docentes de países em estágio de desenvolvimento equivalente ao brasileiro as conclusões serão igualmente escandalosas. Quando examinados os salários dos professores do ensino médio, em estudo da Unesco, sobre 31 países, há somente sete que pagam salários mais baixos do que o Brasil, em um total de 38.[6] Não deveria, portanto, surpreender ninguém que os professores se vejam obrigados a cumprir jornadas de trabalho esmagadoras, e que a overdose de trabalho comprometa o ensino e destrua a sua saúde.

O que é a degradação social de uma categoria? Na história do capitalismo, várias categorias passaram em diferentes momentos por elevação do seu estatuto profissional ou por destruição. Houve uma época no Brasil em que os “reis” da classe operária eram os ferramenteiros: nada tinha maior dignidade, porque eram aqueles que dominavam plenamente o trabalho no metal, conseguiam manipular as ferramentas mais complexas e consertar as máquinas. Séculos antes, na Europa, foram os marceneiros, os tapeceiros e na maioria das sociedades os mineiros foram bem pagos. Houve períodos históricos na Inglaterra – porque a aristocracia era pomposa – em que os alfaiates foram excepcionalmente bem remunerados. Na França, segundo alguns historiadores, os cozinheiros. Houve fases do capitalismo em que o estatuto do trabalho manual, associada a certas profissões, foi maior ou menor.

A carreira docente mergulhou nos últimos vinte e cinco anos numa profunda ruína. Há, com razão, um ressentimento social mais do que justo entre os professores. A escola pública entrou em decadência e a profissão foi, economicamente, desmoralizada, e socialmente desqualificada, inclusive, diante dos estudantes.

Os professores foram desqualificados diante da sociedade. O sindicalismo dos professores, uma das categorias mais organizadas e combativas, foi construído como resistência a essa destruição das condições materiais de vida. Reduzidos às condições de penúria, os professores se sentem vexados. Este processo foi uma das expressões da crise crônica do capitalismo. Depois do esgotamento da ditadura, simultaneamente à construção do regime democrático liberal, o capitalismo brasileiro parou de crescer, mergulhou numa longa estagnação. O Estado passou a ser, em primeiríssimo lugar, um instrumento para a acumulação de capital rentista. Isso significa que os serviços públicos foram completamente desqualificados.

Dentro dos serviços públicos, contudo, há diferenças de grau. As proporções têm importância: a segurança pública está ameaçada e a justiça continua muito lenta e inacessível, mas o Estado não deixou de construir mais e mais presídios, nem os salários do judiciário se desvalorizaram como os da educação; a saúde pública está em crise, mas isso não impediu que programas importantes, e relativamente caros, como variadas campanhas de vacinação, ou até a distribuição do coquetel para os soropositivos de HIV, fossem preservados. Entre todos os serviços, o mais vulnerável foi a educação, porque a sua privatização foi devastadora. Isso levou os professores a procurarem mecanismos de luta individual e coletiva para sobreviverem.

Há formas mais organizadas de resistência, como as greves, e formas mais atomizadas, como a abstenção ao trabalho. Não é um exagero dizer que o movimento sindical dos professores ensaiou quase todos os tipos de greves possíveis. Greves com e sem reposição de aulas. Greves de um dia e greves de duas, dez, quatorze, até vinte semanas. Greves com ocupação de prédios públicos. Greves com marchas.

Conhecemos, também, muitas e variadas formas de resistência individual: a migração das capitais dos Estados para o interior onde a vida é mais barata; os cursos de administração escolar para concursos de diretor e supervisor; transferências para outras funções, como cargos em delegacias de ensino e bibliotecas. E, também, a ausência. Tivemos taxas de absenteísmo, de falta ao trabalho, em alguns anos, inverossímeis.

Não obstante as desmoralizações individuais, o mais impressionante, se considerarmos futuro da educação brasileira, é valente resistência dos professores com suas lutas coletivas. Foram e permanecem uma inspiração para o povo brasileiro.


*Valerio Arcary,
é professor do IF/SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia), e doutor em História pela USP 


[1] Os dados sobre desigualdades sociais em educação mostram, por exemplo, que, enquanto os 20% mais ricos da população estudam em média 10,3 anos, os 20% mais pobres tem média de 4,7 anos, com diferença superior a cinco anos e meio de estudo entre ricos e pobres. Os dados indicam que os avanços têm sido ínfimos. Por exemplo, a média de anos de estudo da população de 15 anos ou mais de idade se elevou apenas de 7,0 anos em 2005 para 7,1 anos em 2006. Wegrzynovski, Ricardo Ainda vítima das iniqüidades
in
http://desafios2.ipea.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=3962

Consulta em 21/02/2011.

[2] Informações sobre o PISA podem ser procuradas em:

http://www.unesco.org/new/en/unesco/

Consulta em 21/02/2011

[3] O relatório citado organiza os dados de 2006, e estão disponíveis em:

http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001899/189923por.pdf

Consulta em 19/02/2011

[4] A pesquisa mensal do IBGE só é realizada em algumas regiões metropolitanas. Não há uma base de dados disponível para aferir o salário médio nacional.

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabalhoerendimento/pme_nova/pme_201012pubCompleta.pdf

Consulta em 19/02/2011

[5] Uma pesquisa completa sobre os salários iniciais em todos os Estados pode ser encontrada em estudo:

http://www.apeoc.org.br/extra/pesquisa.salarial.apeoc.pdf

Consulta em 14/02/2011

[6] http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/unesco.htm

FONTE: Outras Palavras

uma visão romântica sobre o #CódigoFlorestal & outras realidades brasileiras muito modernas

junho 1, 2011 às 16:54 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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CAROS AMIGOS entrevista Michael Löwy:

"A ‘flexibilização’ do código florestal é um bom exemplo desta avidez do lucro que ameaça levar à destruição da floresta Amazônica"

Por Débora Prado, 31/05/2011

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Nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, o sociólogo Michael Löwy vive em Paris desde 1969. Autor de diversos livros, é organizador do livro Revoluções (Boitempo, 2009), que inspirou a multi-exposição Revoluções, aberta ao público até 03/07, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Nesta entrevista ao site da Caros Amigos, ele avalia o potencial revolucionário de movimentos latino-americanos e das revoltas no mundo árabe, comenta a flexibilização do código florestal brasileiro, o assassinato de militantes do campo e as grandes obras hidrelétricas. Confira.

Caros Amigos – No projeto Revoluções, o sr. afirma que as revoluções nunca se repetem e, por mais que se possa aprender com as anteriores, sempre há um processo de inovação que é imprevisível. O sr. diria que há um processo de inovação na América Latina? Existe uma revolução bolivariana em curso?

Michael Löwy – Existem hoje em dia na América Latina vários movimentos sócio-políticos com vocação revolucionária. O exemplo mais evidente é o Exercito Zapatista de Libertação Nacional, que mostrou uma notável capacidade de inovação, com várias iniciativas que tiveram repercussão internacional. Basta mencionar a Conferência Intergalactica de Chiapas em 1996, que foi o ponto de partida do movimento altermundialista. Outros movimentos com capacidade de inovação são os piqueteiros e as ocupaçôes de fabrica na Argentina, os movimentos indigenistas, em particular na região andina e o MST brasileiro. Existem também governos com um programa de ruptura com a oligarquia, com a dominação imperialista e com o neo-liberalismo, mas é cedo ainda para se falar em « revolução ». O exemplo mais interessante é no momento a Bolivia de Evo Morales ; o processo bolivariano da Venezuela com Chavez, e a « revolução cidadã » de Rafael Corrêa no Equador são mais contraditórios, com avanços e recuos.

Caros Amigos – As transformações no mundo árabe podem ser entendidas como o começo de uma revolução? Por que?

Sem dúvida assistimos na Tunísia e no Egito a uma autêntica revolução democrática e popular, derrubando regimes ditatoriais corruptos e opressores. É um belo exemplo de inovação, as formas de luta e de auto-organização são inéditas e inesperadas. Da capacidade dos trabalhadores, da juventude, das mulheres, de se organizarem de forma autônoma vai depender o futuro deste processo e o seu caráter revolucionário.

Caros Amigos – Como a comunidade europeia tem encarado as transformações no mundo árabe?

Os dirigentes da comunidade européia manifestaram perplexidade diante destes movimentos, já que tinham, ja ha muitos anos, propiciado apoio político, econômico e militar a estas ditaduras do mundo árabe. No momento, sua maior preocupação é impedir o afluxo de imigrantes da África do Norte na Europa, intensificando o controle policial nas fronteiras.

Caros Amigos– Em maio, é aniversário da Comuna de Paris. Como a Comuna influenciou a Europa? E a América Latina?

Precisaria de um livro inteiro para responder à esta pergunta… Todos os movimentos revolucionários do século 20, à começar pela Revolução Russa, foram influenciados pela Comuna de Paris. Hoje em dia se observa, na Europa e talvez em outros continentes, um interesse renovado pela Comuna de 1871, pelo seu caráter profundamente democrático, pluralista, libertário e internacionalista.

Caros Amigos – Nas últimas semanas, a proposta de flexibilização do código florestal causou polêmica no Brasil. Você avalia que seja possível promover uma exploração capitalista sustentável, como pregam os defensores do novo código?

Um “capitalismo sustentável” é tão provável como um crocodilo vegetariano… A lógica intrinsecamente perversa de expansão ilimitada e de acumulação infinita do capital conduz inevitavelmente à destruição do meio ambiente e à catástrofes ecológicas como o aquecimento global. A “flexibilização” do código florestal é um bom exemplo desta avidez do lucro que ameaça levar à destruição da floresta Amazônica, um desastre de proporções planetárias. São os mesmos que mataram Chico Mendes e Dorothea Stang, e mais recentemente o casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva: todo e qualquer obstáculo à exploraçâo/destruição da floresta tem de ser eliminado…

Caros Amigos – A preservação ambiental precisa ser colocada no centro das plataformas de transformações sociais? Por que?

Porque as condições de vida, a saúde e a própria sobrevivência da população depende de se preservar os equilíbrio ecológicos. Todo programa de transformação social ou de luta contra o neoliberalismo tem portanto de incluir a questão ecológica como um aspecto essencial. Se deixarmos que continue o « business as usual », dentro de dez, vinte ou trinta anos sofreremos as dramáticas consequências da mudança climática. De fato, desde ja se fazem sentir os primeiros efeitos do aquecimento global, com a ameaça da sequia que pesa sobre a Europa, a África e outros continentes. Por isto somos muitos a colocar como horizonte histórico da luta pela transformação social o ecosocialismo, a síntese dialética entre a revolução social e a ecologia.

Caros Amigos – O sr. avalia que Brasil tem priorizado grandes obras – como novas centrais nucleares e mega hidrelétricas – a agenda ambiental? Se sim, que riscos isto representa?

A energia hidrelétrica deve ser utilizada, mas não desta forma, com megaprojetos (Belo Monte!) a serviço da indústria de exportação de alumínio, destruindo imensas áreas de vegetação. É pena que o governo brasileiro, em vez destes projetos faraônicos – que vem da época da ditadura militar – de centrais nucleares e mega-hidrelétricas, com consequências ambientais profundamente negativas, não desenvolve as energias alternativas, eólica, solar. Não falta sol no Brasil, o pais poderia ser um dos pioneiros mundiais no campo da energia solar.

FONTE: Revista Caros Amigos

diferença linguística, preconceito e poder no Brasil

maio 28, 2011 às 22:21 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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A propósito da polêmica acerca do “livro que ensina a falar errado”, vale a pena conferir no vídeo abaixo, produzido pela Univesp TV, as certeiríssimas considerações do professor José Fiorin, autor de referência para a discussão das relações entre linguagem e poder. Na sequência, leia o posicionamento oficial adotado pela Associação Brasileira de Linguística (Abralin) sobre a questão.

Língua e Ignorância

Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICAABRALIN – vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.

Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.

O fato que, inicialmente, chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação linguística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania . Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português.

A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.

Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam. Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas "noscum" e "voscum", estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado "latim vulgar", originaram respectivamente as formas "conosco" e "convosco".< /FONT>

Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígi o que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o descon hecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.

Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser "corrompida" ou "assassinada", que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de "o livro" de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer "o livros". Assim também, de modo bastante generali zado, não se pronuncia mais o "r" final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o "r" final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) "vou comprá" para "comprar", mas apenas algumas variedades diriam ‘dô’ para ‘dor’. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos "vou comprá" precisamos escrever "vou comprar".  E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.

Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.

Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.

Maria José Foltran
Presidente da ABRALIN

Secretaria Abralin/Gestão UFPR 2009-2011

educar também precisa ser politizar

março 3, 2011 às 6:16 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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O título da matéria pode confundir, parecendo remeter a posturas que reclamam do suposto excesso de "ideologia" no ensino brasileiro, mas a pesquisa descrita abaixo aponta justamente para as formas de despolitização e de enfraquecimento da cidadania que, atualmente, prevalecem na formação escolar. Bom material, portanto, para refletir sobre o tipo de debate que é necessário estimular hoje nas salas de aula.

Mais educação, menos politização

Passeata dos caras-pintadas pelo impeachment do ex-presidente Collor, em 1992. Segundo estudo da USP, com o passar do tempo, a escolarização tem influenciado menos a participação política dos estudantes. (foto: Célio Azevedo/Agência Senado – CC BY-NC 2.0)

Mais educação, menos politização

Estudo da USP sugere que o retorno político proporcionado pela educação brasileira diminuiu nas últimas décadas. Com base em pesquisas de opinião e modelos matemáticos, cientistas relacionam a queda na qualidade do ensino com a falta de engajamento.

Por: Carolina Drago, 02/03/2011

O acesso do brasileiro à educação cresceu nos últimos 20 anos, mas a sua qualidade tem sido questionada. Como, afinal, avaliar se o ensino de um país está se revertendo em ganhos efetivos para a sua população? Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) criaram um modelo matemático para medir o retorno da nossa educação, em termos políticos, ao longo desse período.

“Como cientista político, eu tinha interesse em saber como a escolarização vinha influenciando, com o passar do tempo, o comportamento político de estudantes”, afirma Rogerio Schlegel, autor da tese ‘Educação e comportamento político: os retornos políticos decrescentes da educação brasileira recente’.

O ensino estaria progressivamente perdendo sua capacidade de diferenciar os cidadãos em termos de comportamento político

Como o título sugere, a conclusão principal do trabalho aponta para um cenário um tanto preocupante, mas que não chega a surpreender: a educação de hoje estaria capacitando menos os alunos em matéria de conhecimento e raciocínio do que a de tempos atrás. Com isso, o ensino também estaria progressivamente perdendo sua capacidade de diferenciar os cidadãos em termos de comportamento político.

Um exemplo: o ensino médio, faixa de escolarização que teve a maior taxa de expansão no período avaliado, sofreu, desde o fim dos anos 1980 até os anos 2000, a maior perda de retorno político.

Para chegar a conclusões como essa, Schlegel e colegas tomaram emprestado um conceito usado em economia, chamado retorno econômico da educação, e o adaptaram à política.

Para calcular o novo índice, contaram com a ajuda de um modelo estatístico, desenvolvido a partir dos dados coletados em quatro pesquisas nacionais de opinião, realizadas entre 1989 e 2006.

A mais recente delas, de 2006, foi conduzida pelo próprio grupo de pesquisa de Schlegel na USP, reproduzindo perguntas presentes nas três anteriores: de 1989, 1993 e 2002. “É muito difícil pesquisar no Brasil, por isso tivemos que recorrer a esse material já coletado anos antes”, comenta o pesquisador.

As perguntas escolhidas para integrar o questionário da pesquisa visavam avaliar sobretudo o quanto os cidadãos se engajam na política – mostrando interesse e se informando sobre o tema, tomando parte em manifestações e associações, como sindicatos, e votando, por exemplo – e o quanto apoiam os princípios democráticos, como a ideia de que todos devem participar do governo.

A partir das respostas e dos níveis de escolaridade dos entrevistados, os pesquisadores examinaram as diferenças no nível de engajamento político entre mais e menos escolarizados, comparando-as ao longo dos anos.

Democracia sob investigação

A análise revelou que, em 1993, um universitário tendia a ser 3,6 vezes mais interessado em política do que uma pessoa com o ensino fundamental incompleto. Já em 2006, esse número caíra para 1,6.

A escolarização tornou-se indiferente para a adesão à democracia

Em relação à filiação partidária e ao apoio à democracia, os resultados também mostraram queda na diferença de engajamento político entre os níveis de escolaridade. Além disso, revelaram que a escolarização tornou-se indiferente para a adesão a essa forma de governo.

Em 1989, por exemplo, uma pessoa com o 2º grau completo tinha 66% mais chance de preferir a democracia a qualquer outro sistema de governo, se comparada a alguém sem diploma do 1º grau. Na década passada, já não era possível diferenciar, em termos de preferência à democracia, duas pessoas com os mesmos perfis.

Por outro lado, independente da comparação entre escolaridades, a proporção de brasileiros que hoje apoiam a democracia cresceu desde o final dos anos 1980, quando houve a redemocratização após o regime militar iniciado em 1964.

Manifestação pelas ‘Diretas Já’
Manifestação na Câmara dos Deputados pelas ‘Diretas Já’, em 1984. A proporção de brasileiros que apoiam a democracia cresceu com a redemocratização, mas a adesão a essa forma de governo tem diminuído entre as pessoas com maior nível de escolaridade. (foto: Célio Azevedo/ Agência Senado – CC BY-NC 2.0)

Schlegel ressalta, no entanto, que esse aumento não indica que a preocupação com os princípios democráticos deva ser abandonada, pois ainda há alguns aspectos da democracia a serem melhorados. “Hoje, um em cada três brasileiros a considera indiferente ou diz preferir outra forma de governo”, justifica.

O pesquisador destaca ainda que o declínio do interesse político não ocorreu em todas as dimensões. “Em áreas como a mobilização a partir de abaixo-assinados, houve até aumento nesse retorno”, diz.

“Acreditamos que as formas tradicionais de participação política estejam perdendo importância, enquanto as menos hierarquizadas vêm ganhando prestígio.”

Por um ensino de qualidade

O estudo de Schlegel é um dos primeiros a avaliar a qualidade da educação a partir do engajamento político por ela proporcionado. “Enquanto educadores vêm discutindo os ganhos pedagógicos da educação e economistas, seus ganhos econômicos, nós demos um passo além ao promover essa discussão sobre seu retorno político”, defende o pesquisador.

Sala de aula
Após avaliar a qualidade da educação a partir do engajamento político por ela proporcionado, os pesquisadores da USP pretendem agora identificar se esse comportamento é mais influenciado pelo título escolar em si ou pela capacidade cognitiva adquirida na escola. (foto: Pål Berge – CC BY 2.0)

“Sabemos que está havendo ganho, mas ele é menor do que já houve no passado. A educação deve ser para todos, sim, mas é ainda mais importante que ela tenha qualidade, para que possa produzir todos os efeitos benéficos esperados”, alerta.

Focado nisso, o pesquisador agora pretende desenvolver um modelo capaz de medir o quanto uma pessoa é capacitada cognitivamente pela escola para, então, identificar de onde vem a maior influência para o retorno político: do título escolar ou da cognição?

“Essa seria mais uma estratégia para avaliar se a escola está realmente capacitando menos os seus alunos”, conclui Schlegel.

FONTE: Ciência Hoje

um herói brasileiro na árdua luta pela educação libertadora

novembro 29, 2009 às 9:04 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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paulofeire2

Declarada a anistia ao educador Paulo Freire

Comissão de Anistia do Ministério da Justiça também pediu desculpas pelos atos cometidos pelo Estado.

Em julgamento nesta quinta-feira, 26, durante o Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, foi declarada a anistia do educador Paulo Freire. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que analisou o requerimento feito pela viúva Ana Maria Freire, em 2007, sob a ótica da perseguição política sofrida pelo educador à época da ditadura, também pediu desculpas pelos atos criminosos cometidos pelo Estado.

"Esse pedido de perdão se estende a cada brasileiro que, ainda hoje, não sabe ler sua própria língua", disse o relator do processo, Edson Pistori. Para ele, a perseguição a Paulo Freire pela ditadura se traduz no impedimento à alfabetização de milhares de cidadãos e, principalmente, à conscientização de cada um deles sobre a própria condição social.

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, em 1921, e morreu em São Paulo, em 1997. Ficou conhecido pelo empenho em ensinar os mais pobres e se tornou uma inspiração para gerações de professores. Freire desenvolveu um método inovador de alfabetização, a partir de suas primeiras experiências, em 1963, quando ensinou 300 cortadores de cana a ler e a escrever em 45 dias. O educador sofreu perseguição do regime militar (1964-1985), ficou preso por 70 dias e foi exilado por 16 anos, considerado traidor.

Em 1967, durante o exílio, no Chile, escreveu o primeiro livro, Educação como Prática da Liberdade. Em 1968, publicou uma de suas obras mais conhecidas, Pedagogia do Oprimido. Freire retornou ao Brasil em 1980, com a anistia que permitiu o retorno dos exilados, e foi nomeado secretário de educação da cidade de São Paulo, cargo que exerceu até 1991.

"Resolvi fazer o requerimento para resgatar a cidadania de meu marido e atestar que ele é um verdadeiro brasileiro. Assim como muitos, ele lutou por um Brasil mais bonito e mais justo", disse Ana Maria Freire. A reparação econômica concedida pela comissão de anistia à viúva de Paulo Freire será de 480 salários mínimos, não excedendo o teto estipulado de R$ 100 mil, pagos em parcela única.

Comissão

A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça existe desde 2002. Até agora, 64 mil requerimentos com pedido de anistia foram protocolados. Destes, 47 mil foram julgados – 30 mil deferidos, 12 mil dos quais com reparação econômica, além do pedido oficial de desculpas do Estado.

Para revelar à população de todo o país os fatos arbitrários praticados durante o regime militar e pedir desculpas, publicamente, às pessoas que resistiram à ditadura e sofreram os atos de violação dos direitos humanos feitos pelo Estado, a comissão criou a Caravana da Anistia. Desde 2008, o projeto visitou 16 estados e está na 31ª edição. Mais de 500 processos já foram julgados.

O projeto é realizado por meio de parceria entre a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, o Instituto Paulo Freire, o Ministério da Educação, as comissões de educação da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), a Associação dos Juízes para a Democracia, o Instituto Catarinense de Aprendizagem e Educação Infantil (Icae), o Movimento dos Sem-Terra (MST), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e a Associação Brasileira de Ensino do Direito (Abedi).

No Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, que será encerrado nesta sexta-feira, 27, há também uma exposição fotográfica sobre Paulo Freire.

(FONTE: Jornal da Ciência; Portal do MEC)

vazio moderno, depressão, carnaval & engajamento

novembro 2, 2009 às 13:07 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Segue abaixo um excelente texto midiático para estimular uma reflexão acerca dos efeitos extra-literários e contemporâneos daquela condição simultânea de multiplicação e esvaziamento que, para Leyla Perrone-Moisés, configurou a produção poética de Fernando Pessoa. Aliás, conforme o próprio poeta diagnosticou acerca dos indivíduos de seu (nosso) tempo:

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.
Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal.
Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco.
Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.

[In: PESSOA, Fernando. Aforismos e afins. Edição e prefácio Richard Zenith. Tradução Manuela Rocha. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p.12.]

 

Maria Rita Kehl: “O vazio é nossa condição básica”

Tatiana Mendonça, 26 de outubro de 2009, Revista Muito, ATARDE online

A aceleração da vida cotidiana, que dispensa devaneios, pausas, reflexões e ineficiências – e nos faz crer que nunca estamos aproveitando o tempo como deveríamos –, torna nossa experiência mais pobre e contribui para fazer da depressão o principal sintoma social da atualidade. É nisso que acredita a doutora em psicanálise Maria Rita Kehl, 57, que lançou este ano o livro O tempo e o cão – a atualidade das depressões. No último dia 16, ela esteve em Salvador participando do ciclo de debates Fronteiras Braskem do Pensamento e falou à Muito sobre a doença.

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Foto: Thiago Teixeira | Ag. A TARDE

Li que a senhora não acompanhava pacientes depressivos, preferia encaminhá-los para outros analistas. O que a fez mudar de ideia? Logo no começo da minha clínica, atendi duas pessoas que se suicidaram com pouquíssimo tempo de análise. Isso para o analista é arrasador, de certa forma me senti responsável. Então achei que precisava aprender mais. Depois, me dei conta de que essas pessoas nem eram deprimidas, mas ainda assim, durante muito tempo, não atendi depressivos… Mas aí aconteciam casos de pessoas que, ao longo da análise, ficavam deprimidas e eu, com o amadurecimento, fui aprendendo a lidar. Fiquei muito interessada em saber o que elas tinham a dizer.

O que leva a senhora a afirmar que a depressão é o “principal sintoma social do nosso tempo”? Primeiro, sintoma social é algo que desafia as condições da vida de determinada época. A histeria das mulheres foi o sintoma social do século 19, por desafiar tudo que se pretendia da mulher no momento em que se formava a chamada família burguesa, em que a mulher era o centro do lar, e o homem, o empreendedor. Hoje é a depressão que desafia a norma contemporânea da euforia, da festa, que recusa os convites para fazer o tempo render na forma de felicidade, alegria, gozo. A outra razão é que a depressão cresce de forma epidêmica. Segundo dados da OMS, será a doença mais comum do mundo em 2030. E isso acontece de certa forma na contramão, já que hoje somos mais livres sexual e moralmente; cada um pode de alguma maneira escolher seu destino; há grandes conquistas da saúde, se pode viver mais e melhor até bem mais tarde.

Mas esse crescimento em certa medida não vem de muita gente dizer, por qualquer coisa, que está deprimida? Você tem toda razão. Justamente porque a regra social é que as pessoas sejam felizes, elas não sabem o que fazer com as tristezas normais da vida, principalmente o adolescente. Quando ele se deprime, se sente o último dos seres humanos, não têm coragem nem de buscar apoio nos amigos. Um colega psicanalista, orientador de um grande colégio em São Paulo, me contou que em um ano atendeu 40 adolescentes que tinham diversas razões para estar meio tristes. E ele perguntou a todos: ‘Você já conversou com algum amigo sobre isso?‘. Dos 40, só um tinha conversado. Ou seja, essa rede de apoio não funciona na hora da tristeza. Aí os caras vão para os remédios. Para divulgar o antidepressivo, a indústria farmacêutica divulga também a doença, e aí coloca lá nos folhetinhos: ’Você pode estar deprimido, mas depressão tem cura. Veja aqui os sintomas’. Aí a pessoa já chega dizendo para o médico que está deprimida, e o médico, até por precaução, vai lá e dá o remédio, o que enviesa as estatísticas. É muito raro um psiquiatra com tempo para ouvir e saber o que está acontecendo de verdade com o paciente.

Se a depressão é uma “recusa à festa“, uma súplica de que exista um “tempo de compreensão“ que a correria da vida nos roubou, há algum valor na doença? A depressão tem uma via de conhecimento do psiquismo que o próprio depressivo ignora. Talvez o trabalho de análise consista em fazer com que ele tire benefícios disso. Outro valor é que o depressivo é menos seduzido pela publicidade, pelo consumismo. Ele não está tão encantado por essa ideia de que a vida é um caminho de acumular grana, objetos, acha tudo isso um pouco chato… E o depressivo também conhece mais o vazio, que pode ser uma condição muito interessante do trabalho psíquico. Se ele fica só com o vazio, é terrível, mas se ele suporta o vazio, pode vir a construir outra via, talvez mais verdadeira. Na palestra, eu brinquei: vou dar uma má notícia, a vida não tem sentido. E é isso, a gente é que dá sentido à vida. O vazio é nossa condição básica. A gente não sabe de nada. A única coisa que a gente tem ao nascer é uma certa garantia de que as pessoas que nos conceberam nos amam. E olhe lá… Às vezes elas não nos amam, nos conceberam por acaso, são confusas… Em cima do vazio é que a gente acrescenta muita coisa. Então o depressivo pode fazer um percurso menos iludido, menos alienado de si mesmo.

O que não quer dizer que ele não deva ser tratado, claro. Sim, evidente, a análise é fundamental. Tem gente que passa a vida inteira dentro de um quarto, é horrível. Pode até se medicar, não vai pular pela janela, mas se acostuma a passar a vida meio em branco. E a vida é uma só.

Como relacionar a depressão à obrigação de ser feliz, especialmente numa cidade vendida como a “terra da felicidade“? Não sei dizer se Salvador tem mais gente deprimida que outros lugares, mas é evidente que o pior lugar para você estar deprimido é numa cidade onde não há muito espaço de recolhimento. É numa cidade que te convida para fora. Não estou fazendo uma crítica, essa é uma característica importantíssima de Salvador. Um deprimido num lugar triste pode ficar mais sombrio, mas ele não se sente tão esquisito. Aqui ou no Rio de Janeiro, o cara se sente muito inadequado. Por outro lado, numa cidade onde o turismo é uma fonte de renda importante, acontece que os próprios habitantes começam a desempenhar o papel que os turistas esperam dele. Então, às vezes, me parece que se começa a perder certa autenticidade. Vi Ó Paí, ó e achei que parecia uma propaganda da Bahiatursa, todo mundo se comportando como um clichê. E, no fim, a coisa não é assim, aparece tudo que isso mascara… Então isso é complicado não só para os depressivos, mas para os introspectivos, os “intelectuais“. Passei um Carnaval aqui com uns amigos e adorei. Não o trio elétrico. O trio elétrico é um congestionamento de caminhão com luta de classes dentro, um horror. O roteiro afro que achei lindo. Mas alguns amigos vão embora no Carnaval porque dizem que fica insuportável… As cidades de grande apelo turístico talvez estejam levando a sério demais o clichê e não deem muito lugar à diferença.

Não quero participar do coro dos contentes, mas a alegria também não é uma característica nossa? Sim. Meu companheiro mora em Paris, todo ano vou visitá-lo, e você vê o contraste. O tom é mais triste mesmo. Eles dizem: ’Ah, você é brasileira, por isso que você é sorridente’. Não vou fazer sociologia e explicar por que isso acontece, mas somos uma sociedade mais alegre, mesmo tendo de conviver com miséria, injustiça, desigualdade, exclusão aberrante. Talvez seja uma sociedade que não está inteira tomada pela competitividade capitalista. As pessoas ainda se encontram para jogar conversa fora, para tocar uma música. Foi boa essa pergunta para diferenciar uma alegria que caracteriza nossa sociedade dessa euforia do mundo capitalista. A disponibilidade das pessoas para o mercado depende de elas acreditarem que cada objeto a mais que comprarem lhes dará mais euforia.

A senhora critica o uso indiscriminado de antidepressivos, mas eles são realmente dispensáveis no tratamento? Deixo isso a critério de um psiquiatra em quem confie. Quando uma pessoa começa a faltar à análise e liga dizendo que não consegue sair da cama, digo que ela deve ir ao psiquiatra. Não sou xiita. Não há entre os psicanalistas uma ideia de que o medicamento vá atrapalhar o trabalho. Mas muita gente vai ao psiquiatra e o ouve dizer que análise é uma bobagem, que o remédio é suficiente. E não é. Recebo pacientes que dizem: ’Me medico há 10 anos e não sinto tristeza, mas também não sinto mais nada’. Eles procuram análise sabendo que vão ter de passar por uns buracos de novo… E agora já há pesquisas dos próprios laboratórios que mostram que o antidepressivo depois de algum tempo perde a eficácia. No começo, ele faz uma diferença grande. Você fala: ’Nossa, não estou mais sentindo aquela vontade de morrer’. Mas se o tratamento for só esse, e não elaborar o que causou a depressão, tem pouca eficácia.

Os sintomas expostos nos tais folhetos são bem abrangentes, todo mundo pode se identificar com alguns deles. Como saber que uma pessoa está realmente deprimida e deve procurar ajuda? No geral, quem sofre sabe. Os folhetos não são para a pessoa procurar ajuda, mas para dizer que ela precisa ser medicada… Além do meu trabalho no consultório, atendo pessoas da Escola Nacional de Formação de Lideranças do MST. Como elas têm renda muito baixa, é muito comum encontrar pessoas que estão se medicando há anos, por conta de uma orientação apressada do médico. Estive num assentamento e fiquei hospedada na casa de uma senhora. Ela tinha pouco mais de 60 anos e me contou que tomava antidepressivo desde os 28 anos, quando a filha dela nasceu. Ela ficou “deprimida“, foi procurar remédio e a partir daí nunca mais saiu disso.

Hoje as crianças ricas e de classe média têm agendas cheias. É alarmista dizer que assim os pais estão criando sujeitos mais propensos à depressão?É alarmista se você disser que todas as crianças vão ser depressivas. O que tem aí, antes de mais nada, é que as pessoas estão muito confusas sobre o que é ser um bom pai e uma boa mãe. E isso tem a ver com a influência da publicidade, que nos faz crer que o melhor que você pode fazer para o seu filho é lhe dar muitas coisas, inclusive lhe dedicar todo seu tempo livre. No fim de semana, os pais acham que têm de promover muita diversão, e na segunda estão exaustos! A isso se acrescenta a ideia de que desde cedo você tem de preparar seu filho para o mercado de trabalho. Então é aula disso, curso daquilo… Vai se criando uma infância em que a criança não tem a experiência fundamental de estar entregue a si mesma, tendo que inventar como preencher seu tempo. Elas não conhecem o vazio, no bom sentido do vazio, que é quando a criança começa a “inventar arte“, como diziam os mais velhos. Isso é a fonte da vitalidade infantil, da criatividade, da imaginação, é algo que vale para o resto da vida. Saber que eu posso criar algo sobre o vazio é a potência humana. A sensação de que eu não posso criar nada sobre o vazio, de que preciso de alguém para preenchê-lo para mim, é o começo de uma situação depressiva. Então o bom pai e a boa mãe são pessoas que amparam, amam e educam seus filhos, impõem limites. E aí digo como mãe: uma das coisas mais difíceis é saber que tem horas que seu filho vai te odiar, vai dizer ’eu sou infeliz por sua causa’, e ainda assim você vai ter de bancar um limite que achou importante, para que a criança saiba que seus atos têm consequências.

A senhora defende que o sentimento de pertencimento a determinada ação política, comunidade, tradição, nos livra de um sofrimento maior e nos ajuda a dar sentido à vida. Essa reflexão foi motivada pela sua aproximação com o MST? Não, talvez meu trabalho no MST seja consequência disso. Não é por bondade ou heroísmo, mas saber a que mundo você pertence, que ideais compartilha com a sua geração, nos dá sentido, nos ajuda a seguir em frente. Pertenço a uma geração que teve 20 anos da vida marcados pela ditadura, com o lado negro e o lado interessante disso, que foi a união dos movimentos de esquerda, o interesse pela vida pública. Tudo isso faz parte da minha experiência. Não devemos ficar presos ao passado, mas vejo com preocupação a pressa que os brasileiros tiveram em apagar essa memória. Isso nos impede de reconhecer coisas que ainda não foram sanadas. O Brasil é o único país da América Latina em que a violência policial cresceu após o fim da ditadura. Nossa polícia ainda tortura e assassina.

Pessoa_POMAR

Salário de professor da escola pública cresceu 53% em cinco anos, aponta MEC

outubro 23, 2009 às 12:28 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Amanda Cieglinski, 17 de Outubro de 2009, Agência Brasil

Brasília – Levantamento divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) aponta que a média salarial dos professores de escolas públicas da educação básica no Brasil cresceu de R$ 994 para R$ 1.527 entre 2003 e 2008, um aumento de 53% em cinco anos. Entretanto, as distorções permanecem: enquanto um professor de Pernambuco recebeu em 2008 um salário médio de R$ 982, no Distrito Federal a média chega a R$ 3.360. Os valores foram calculados para uma jornada de 40 horas semanais.
Para a secretária de Educação Básica do MEC, Maria do Pilar Lacerda, as disparidades salariais pesam na decisão de um jovem sobre seguir ou não a carreira. Hoje, uma das maiores dificuldades do magistério é atrair novos talentos. Mas ela defende que a criação de um piso nacional para professores traz uma nova perspectiva para futuras gerações.
“Os jovens querem uma boa carreira em termos financeiros, mas também um bom ambiente de trabalho. Nós achamos que o que mais seduzirá os jovens para essa carreira se tivermos uma educação de qualidade”, defende.
O estudo mostra ainda que a diferença entre o salário dos docentes e de outros profissionais com o mesmo nível de formação (ensino superior pelo menos incompleto) tem diminuído. Em 2003, trabalhadores que não eram docentes ganhavam 1,86 vez melhor do que os educadores. Em 2008, a diferença caiu para 1,53.
Para o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Roberto Leão, os valores divulgados pelo MEC não condizem com a realidade. “Eu acho um absurdo, não sei de onde o ministério tirou esses dados. Eles não batem com a realidade do professor brasileiro. Para você ter uma idéia, eu tenho 30 anos de magistério e ganho R$ 2,5 mil”, disse. A CNTE pretende divulgar uma resposta oficial sobre essa pesquisa após analisar os dados.
“Houve alguma leitura equivocada da pesquisa ou uma metodologia incorreta, porque na prática não é assim”, defendeu.

modernidade & identidade no Portugal contemporâneo

setembro 3, 2009 às 21:47 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Miguel Vale de Almeida diz que radicais tentaram apropriar-se das questões identitárias de igualdade

PÚBLICO, 29.08.2009 – 19h41
Miguel Vale de Almeida, candidato a deputado pelo PS e fundador do BE, afirmou hoje que sectores radicais tentaram apropriar-se das questões identitárias de igualdade e condenou a divisão “histórica” entre revolução e democracia liberal.

Sétimo da lista de candidatos a deputados socialistas por Lisboa, Miguel Vale de Almeida participou na última sessão do Campus da JS, na Praia de Santa Cruz, que antecede o comício de rentrèe política do PS.

Numa sessão em que também intervieram a comissária para a Igualdade e Cidadania, Elza Pais, e a actriz Inês Medeiros (terceira da lista do PS por Lisboa), Miguel Vale de Almeida fez várias críticas aos métodos de actuação política dos sectores radicais, embora sem nunca relacionar directamente essas mesmas críticas com a actuação do Bloco de Esquerda.

“Está na hora de fazermos uma mudança na vida política, que passe por acabar com a divisão histórica entre a revolução e a democracia liberal. É uma coisa de velhos, de outra geração e já não há pachorra. Esse tipo de complexos mina a nossa política de esquerda de uma forma terrível, porque afecta a forma como se lida com as questões da igualdade”, defendeu Miguel Vale de Almeida perante uma plateia de jovens socialistas.

Antropólogo, professor universitário e homossexual assumido, Miguel Vale de Almeida referiu-se ao seu passado político logo após o 25 de Abril na União de Estudantes Comunistas (UEC) – que abandonou pouco depois, discordando da primazia absoluta e quase exclusiva que o PCP concedia às questões da igualdade sócio económica, secundarizando as restantes -, mas também ao período mais recente quando, enquanto membro da Política XXI, fundou o Bloco de Esquerda.

Na sua intervenção, Miguel Vale de Almeida lamentou o atraso histórico que Portugal teve na defesa das questões identitárias de igualdade, que começaram a ser defendidas por sectores políticos mais radicais.

No entanto, segundo o docente universitário, estas questões da igualdade, para além das relacionadas com as desigualdades sócio económicas, “não se aguentaram com a força desejada nestes segmentos mais radicais, sendo também secundarizadas nos momentos de maior tensão política”.

“Quando as questões da igualdade começam a ser defendidas por outras pessoas que não as do costume, ou quando as pessoas que as defendem já não o fazem dentro de um determinado chapéu-de-chuva político, aí o caldo fica entornado. Começa a ver-se que, de facto, havia uma tentativa de apropriação de agendas por alguns sectores políticos”, acusou.

Miguel Vale de Almeida defendeu um ideal de modernidade cosmopolita, em que um canalizador se pode assumir “gay”, exemplo que a actriz Inês Medeiros depois pegou, mas para falar sobre um ideal de “liberdade para amar”.

Inês Medeiros relacionou a sua perspectiva de liberdade com a coragem (citando Péricles da Grécia Antiga), exortando os jovens socialistas a estarem vigilantes e a assumirem sempre as suas posições com clareza.

Elza Pais, candidata a deputada do PS pelo círculo de Viseu, defendeu que nas próximas eleições legislativas está em jogo “uma escolha entre o progresso ou o retrocesso”.

“Há que terminar com as discriminações que ainda persistem, não só ao nível da lei, mas também no plano prático. Ainda identificamos discriminações de género, de orientação sexual, com as minorias étnicas ou com os imigrantes”, apontou a comissária para as questões da Igualdade e da Cidadania.


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