revisitações do romantismo: entrevista com Michael Lowy

julho 6, 2011 às 22:50 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Existe uma relação entre o romantismo e a idéia de propriedade intelectual?

Francamente, eu ignoro a história do copyright, ou da idéia de propriedade intelectual, quando é que começou, se é mesmo no século XIX, ou antes – eu nunca trabalhei essa questão. O que o romantismo tem, efetivamente, é essa idéia do indivíduo singular, do indivíduo único, dessa originalidade singular do criador, do indivíduo enquanto criador, com efeito. Quanto a isso, acho que a gente pode apontar como aspecto essencial do romantismo. Agora, não sei se realmente se coloca em termos de propriedade, francamente eu não posso me pronunciar, não posso afirmar se a idéia de propriedade intelectual surge nessa época.

Esta idéia autoral é uma criação romântica?

Não, acredito que isso sempre existiu na história da cultura. Talvez o romantismo dê uma ênfase maior, torne essa idéia mais sistemática. Por isso a imagem do escritor, do artista, do poeta romântico como um solitário, um indivíduo à margem, um maldito; enfim, um exilado dentro da própria sociedade. Isso faz parte do romantismo, no sentido de que o romântico se sente alienado dentro da sociedade moderna, ele sente que os valores que essa sociedade começa a desenvolver não lhe dão mais espaço.
Agora, o romantismo é muito contraditório, às vezes até esquizofrênico, porque, por outro lado, ele levanta com muita força a questão da comunidade, dos laços comunitários, da comunidade orgânica, do indivíduo que pertence a um grupo, de amigos, de afinidades, a uma tribo, a uma religião, a uma etnia, a uma nação, das diversas variantes disso, enfim. Essa ênfase na comunidade é contra a sociedade atual, moderna, anônima, em que os indivíduos valem por si próprios.
O romântico descreve uma rua moderna em que os indivíduos andam e não se comunicam entre si, atuam como uma multidão anônima, como um pesadelo.  Então há uma certa tensão entre os dois elementos. Quero dizer, eles não são realmente contraditórios, porque esse indivíduo singular do romantismo, esse único, esse artista totalmente original, é o oposto do indivíduo da sociedade moderna, impessoal, anônimo, um átomo, sem face, sem identidade, perdido na multidão. E por outro lado, esse indivíduo romântico, isolado, sonha por desco brir uma comunidade onde ele possa se integrar, no mínimo uma comunidade de outros artistas. E a gente vê grupos, artistas que formam grupos e realizam obras conjuntas – e aí eu tenho a impressão que a questão do direito de propriedade um pouco se dilui nessas comunidades de artistas românticos, às vezes é um que escreve e outro que assina. Um pouco como ocorre com Mary e Percy Shelley e Byron, no exílio deles. Existe uma troca de autoria nos textos deles.

O sentido de comunidade que você encontra no olhar romântico é puramente nostálgico ou visa um projeto futuro?

No romantismo sempre existe uma nostalgia do passado, um sentimento trágico de que a modernidade está destruindo os valores em que se acredita, como por exemplo o amor, um tema que volta mil vezes na literatura romântica. O amor romântico que se enfrenta com as convenções, com o dinheiro, com a riqueza.
Enfim, com a sociedade moderna. Então há uma nostalgia do passado. Por exemplo, houve épocas em que o amor, supostamente, era algo que não se comprava, não se vendia, tinha autenticidade, o que obviamente é uma idealização do passado. É o amor cortês, dos trovadores medievais. E existe realmente esse aspecto de restauração do passado no romantismo.
Agora, outros românticos transformam, investem a nostalgia do passado numa esperança do futuro. São os românticos utópicos ou revolucionários. Rousseau, por exemplo, que é um dos fundadores do romantismo moderno. Existe nele esta idéia de que o amor é impossível na sociedade moderna, por causa das convenções sociais, das desigualdades. Então, há uma utopia implícita de uma sociedade em que não haveria mais essa hierarquia social, que as pessoas de origens diferentes poderiam se amar livremente. Em Rousseau, isto ainda não está colocado como um programa, mas é implícito em suas obras.

Octavio Paz, entre outros estudiosos, dizia que o romantismo não se encerrou no seu período áureo, mas transformou-se em outros movimentos, como o simbolismo e o surrealismo. Você concorda com ele?

Sim e não. Concordo inteiramente que o romantismo é um ciclo longo, como dizem os economistas, que começa em meados do século XVIII e vai até ao século XX. E acho que permanece ativo até hoje. Efetivamente, ele atravessa todos esses movimentos, o simbolismo, o surrealismo, a beat generation. Octavio Paz é um dos poucos que entendeu que o romantismo é uma das formas fundamentais da cultura moderna, que atravessa toda a história da cultura moderna, contra as visões tradicionais da história da literatura que terminam o romantismo em 1830 ou 1840. Ele percebeu muito bem essa vitalidade do romantismo e a sua presença em todos os momentos da cultura moderna.
Mas eu diria – e não sei se aí há uma diferença para o Octavio Paz, não lembro de memória o texto dele – que o romantismo tem uma matriz comum que atravessa todo esse processo histórico, com todas as modificações. Obviamente entre o romantismo do século XIX e o surrealismo há uma diferença enorme, mas há um fio de continuidade, um fio vermelho, uma espécie de matriz comum, eu diria. Se não me engano, Octavio Paz também vai nessa direção, também identifica esta continuidade.
O romantismo nasce como um protesto contra a civilização burguesa moderna, em nome de certos valores do passado. Valores culturais, éticos, religiosos. E esse elemento está presente desde seus pioneiros, como Rousseau, até os poetas do simbolismo e do surrealismo. A relação é evidente. Agora, dentro dessa proximidade, deste elemento de identidade, há diferenças claras. O simbolismo, por exemplo, era bastante religioso, enquanto o surrealismo faz profissão de fé de ateísmo. Boa parte do romantismo do século XIX é nacionalista, valoriza as culturas locais, enquanto o surrealismo é violentamente antinacional. As diferenças são evidentes, mas a continuidade existe. Inclusive os surrealistas consideravam-se um prolongamento do romantismo, tal como na famosa frase de Breton: “Nós somos a cauda do cometa romântico, mas somos uma cauda preênsil, como aquela do macaco”.

E você vê esta continuidade romântica presente até hoje? Como ela se relacionaria com o mundo pós-moderno?

Sou bastante cético quanto a esse conceito de pós-moderno. Existe uma corrente de pensamento pós-moderno, mas a sociedade não saiu ainda do século XVI. Estamos ainda vivendo a civilização burguesa, ou capitalista, que surgiu primeiro no século XVI, e se cristalizou no século XVIII com a Revolução Industrial. É claro que de formas diferentes, mas essencialmente ainda vivemos o mesmo mundo.
Mas gostaria de voltar para o surrealismo, para a questão de indivíduo e grupo, porque o surrealismo tem esse elemento de individualidade singular, que se afirma, se manifesta em sua especificidade psíquica, seu inconsciente, em sua libido. Ou seja, na singularidade total do indivíduo. Mas, ao mesmo tempo, o surrealismo é uma comunidade, e o surrealista só pode se realizar, segundo Breton, através de uma atividade coletiva. E na atividade coletiva não existe mais autor, direito autoral, copyright nem se fala… Assim, há na essência deste romantismo que perdura uma quebra dessas idéias de propriedade intelectual. Esse duplo as-
pecto que aparentemente é tão contraditório no romantismo, não é tão contraditório assim.

A essência do romantismo seria então, mais que uma restauração, uma reinvenção?

O romantismo também é nostálgico, mas ele se transforma, há uma dialética. Não é uma simples volta ao passado, mas é uma retomada do passado em direção ao futuro. Isso é muito evidente dentro do surrealismo. Eles se interessam pela alquimia, pela cabala, pelas artes primitivas, pela cultura dos trovadores da Idade Média, pelas esculturas da Oceania, por tudo que é manifestação cultural pré-moderna. Eles só encontram autenticidade nessas formas, vão se inspirar nelas, mas obviamente não no sentido de tentar reproduzí-las, de voltar para trás, mas de usá-las como ponto de partida para inventar uma coisa nova.

O próprio Breton era um colecionador de máscaras hopi.

Exatamente. Essa fascinação pelo arcaico, pelo pré-moderno, vem da idéia de que o pré-moderno continha uma autenticidade que o moderno, ao transformar sua arte em mercadoria, perde. Então para ele há uma degradação. Quer dizer, uma boneca hopi é produzida como objeto de culto, sua beleza é compartilhada pela comunidade, enquanto as cópias são fabricadas para o turismo em massa, meramente uma mercadoria, um objeto sem aura…

E hoje, como você vê a idéia de uma arte compartilhada? A idéia do Creative Commons, por exemplo?

Eu francamente tenho pouca informação sobre isso. Quero dizer, o que tenho encontrado na minha prática como autor é mais a entrega da propriedade a um coletivo militante. Você entrega um livro, digamos, ao MST, para ele publicar. E você obviamente não pede direitos autorais. Abre mão de seus direitos por algo político, com que você se identifica. Eu vejo sentido nisso, o indivíduo que abdica de seu direito em favor de um movimento, de uma coletividade. Um movimento da sua política, um movimento social. Isso eu entendo melhor. Senão, essa idéia de Creative Commons me parece um pouco abstrata.
Essa questão é mais gritante em outras áreas, que não a da cultura. O direito de propriedade sobre a medicina, por exemplo. Há toda a briga dos genéricos, de quebrar o monopólio das grandes multinacionais farmacêuticas sobre a medicina. Essa é uma batalha de vida ou morte. Ganhar essa batalha é salvar milhões de vidas, e deixar as coisas como estão é deixar que essas pessoas continuem morrendo, não permitir o acesso ao medicamento.
Outro exemplo de briga, que eu acompanhei um pouco, é a questão das sementes. Através dos transgênicos, a Monsanto adquire o controle da propriedade, do copyright da semente. Com isso, passa a controlar todo o sistema de produção, o camponês é expropriado de sua semente. Uma coisa que nunca existiu na história da humanidade. Não poder cultivar as sementes da sua própria plantação, depender de uma multinacional para isso é uma degradação terrível. Esta é uma batalha fundamental no mundo em que estamos vivendo, a briga entre independência e monopolização.

Você falou sobre ceder os direitos em nome de uma ideologia. Não há uma dádiva nisso? E esta dádiva não contém armadilhas, o desejo de um retorno?

Marcel Mauss, um famoso antropólogo francês, escreveu um belo livro que se chama Ensaio sobre a dádiva, no qual ele analisa várias comunidades tribais indígenas em que ocorre esta prática. Há lá o potlatch, por exemplo. E nesta dádiva há sempre a idéia de retorno. Você faz uma doação e espera que o outro lhe dê alguma coisa em troca. Então não é uma troca formalizada, mas uma espécie de intercâmbio de dádivas que dá sentido à vida comunitária, às relações sociais, à cultura. É uma bela análise de como, no passado, existiram culturas, civilizações, baseadas na dádiva. O que pode ser terrível. Nestas culturas, você pode esmagar um rival através de uma dádiva tão grande que não possa ser retribuída, por exem-
plo. Não há motivo para idealizações. Mas é bem interessante. Esse tema é atual, e a prova disso é que existe hoje na França um grupo de pessoas que se auto-intitulam Movimento Anti-Utilitário das Ciências Sociais, que em francês cria as iniciais M.A.U.S.S. Então, esse movimento se inspira no trabalho de Mauss para pensar uma economia, uma sociedade, uma cultura utópica, digamos, baseada nesse tipo de relação, nas dádivas, nas relações não-utilitárias. É uma idéia bem interessante. E, no fundo, é uma idéia romântica. No sentido de
que você, na crítica da civilização utilitária, da mercadoria, do capitalismo, vai buscar uma inspiração no passado, nas culturas arcaicas. E através dessa cultura da dádiva, vai buscar alternativas, tentativas solidárias de construção de um novo mundo. Bem no espírito do romantismo utópico.

Nesse sentido, a dádiva continuaria criando uma idéia de vínculo…

Ela cria um vínculo, sim. Mas não é um vínculo formal, tem um elemento gratuito, como na graça divina. Segundo os teólogos, a graça divina é gratuita, sobretudo no caso dos jansenistas e dos franciscanos. Os católicos seguem uma concepção maior de intercâmbio, você faz uma boa ação, Deus lhe paga. A dádiva sempre está entre essas duas idéias, de gratuidade e intercâmbio, vínculo.

Isso me lembrou as famosas bicicletas brancas de Amsterdã. Não sei se você se lembra da história, mas no fim da década de 1960 as pessoas ligadas ao movimento Provos, na Holanda, começaram a deixar bicicletas na rua. A idéia era que quem quisesse poderia usá-las e, chegando onde queria, as soltasse na rua para o próximo que quisesse ou precisasse usar. Esta é uma idéia bem contracultural, e de uma contracultura européia, que trouxe uma tentativa de tradução concreta da dádiva para o mundo moderno. A contracultura traz grandes traços românticos, não?

Existem esses elementos românticos, sem dúvida. Maio de 68, por exemplo, é um movimento que possui fortes traços românticos. Por isso acredito que o romantismo  continua sendo um elemento presente na cultura moderna. Marx tem uma frase interessante, ele diz que a modernidade tem seus apólogos que elogiam o progresso e o desenvolvimento, e de outro lado tem os românticos que dizem o contrário, que tudo é declínio, decadência. E ele conclui dizendo que não concorda nem com um nem com outro, mas que, enquanto existir o capitalismo, vai existir essa crítica romântica como sombra dele. Que esta sombra vai segui-lo até o dia em que o capitalismo acabar. E é verdade. Esta crítica continua, esse protesto. E que deve se agarrar em alguma possibilidade, encontrar algum vínculo. Apoiar-se em alguma coisa que já existiu, como base.

Roberto Piva, um dos maiores poetas brasileiros vivos, costuma dizer que o comunismo nasceu da costela do capitalismo, quer dizer, nunca abdicou dos valores básicos de uma revolução industrial que configura o capitalismo moderno.

De fato, o socialismo real, tal como existiu na União Soviética e em outros países da Europa oriental, era essencialmente anti-romântico, acreditava piamente na modernidade industrial, no produtivismo, na tecnologia e no Estado moderno, administrativo, eficaz. Efetivamente, há uma continuidade do modelo anterior. Claro que há uma ruptura no sentido de que há uma expropriação da propriedade privada, mas o padrão civilizatório é o da modernidade, não o do romantismo.
Mas existe um socialismo romântico, que tem uma vertente anarquista, como em Fourier. E, sobretudo, em um autor que é pouco conhecido, mas que é o arquétipo do socialista romântico, que é Gustav Landaur, um judeu alemão revolucionário que chegou a ser comissário do povo para cultura na revolução dos conselhos da Baviera, em 1919. A revolução durou uma semana, foi derrotada, e ele foi assassinado pelo exército. É uma figura muito interessante, que tem uma crítica ao socialismo, à social democracia alemã, acusando-a de seguir o mesmo padrão do capitalismo.
Há um outro personagem muito interessante como exemplo de socialismo romântico, uma espécie de marxista libertário, a meio caminho entre o marxismo e o anarquismo, que é William Morris. Ele era um herdeiro da tradição romântica inglesa, um discípulo de Ruskin, que retoma toda essa crítica romântica à civilização industrial e, em um certo momento, descobre o socialismo. Ele se converte para o socialismo, continua com a sensibilidade romântica, e escreve aquela bela utopia de socialismo romântico que é Notícias de lugar nenhum, publicado no Brasil no ano passado. Um belíssimo livro. É um grande exemplo de um socialismo romântico. E o século XX está cheio desses exemplos, sempre um pouco à margem da vertente principal do socialismo.
Dá para seguir esta forma de pensamento, e possivelmente algumas experiências práticas também. O anarquismo espanhol, por exemplo, foi uma tentativa de colocar em prática uma visão romântica de socialismo. A idéia de comunidades, dos artesãos que se auto-organizam, é uma idéia muito próxima desta vertente.

Para finalizar, você acredita que é possível uma associação ou conciliação entre o socialismo e o romantismo? Você acha que esse encontro seria positivo?

Eu acho esse encontro indispensável. Quer dizer, acredito que para o socialismo ser humano, ele tem que se comparar esse momento romântico. É profundamente justa essa idéia de que a civilização moderna trouxe profundos avanços, mas ela destruiu muitos valores sociais, culturais, humanos, que nós devemos recuperar. Obviamente, sem voltar atrás, mas sob uma forma nova, reinventando-os. Essa idéia de reencontrar por uma forma nova o que foi perdido é fundamental para qualquer projeto de uma nova sociedade, de uma civilização solidária, para um socialismo do século XXI. Ao menos, esta é a minha aposta.

FONTE: Revista Azougue, 2006-2008.

roteiro para o “kit romantismo”

junho 1, 2011 às 15:45 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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LITERATURA PORTUGUESA II – 2011.1
ATIVIDADE FINAL: ELABORAÇÃO DE UM “KIT ROMANTISMO”
Trabalho em dupla
Entrega: 11/07/2011

INTRODUÇÃO: Por que é importante discutir, em particular no âmbito da formação escolar contemporânea, a visão-de-mundo romântica?
· mínimo de 60 linhas
· textos de referência: LOWY e SAYRE; Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais (MEC)

TEXTOS PARA DISCUSSÃO:
· Selecionar e transcrever dois textos poéticos (poemas ou canções), de autores brasileiros ou portugueses, nos quais estejam representados estruturas e valores românticos. Justificar as escolhas (5-10 linhas).

· Selecionar uma cena, ou um tema, ou um elemento do romance A cidade e as serras, de Eça de Queirós, que possa ser considerado como representativo da crítica romântica à vida moderna. Justificar a escolha (5-10 linhas).

· Selecionar e transcrever uma matéria jornalística ou artigo de opinião, no qual sejam abordados e analisados aspectos negativos da vida contemporânea que possam ser relacionados ao aprofundamento da modernidade. Justificar a escolha (5-10 linhas).

OUTRAS SUGESTÕES (opcional):
Indicação de textos teóricos, filmes, sites e obras artísticas que contribuam para uma melhor compreensão da estética romântica e de suas articulações sócioculturais.

* * *

Clique na imagem abaixo para ter acesso a edições eletrônicas dos PCN:

pcn site mec

romantismo e crítica cultural: convergências

junho 1, 2011 às 10:18 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Convivialismo para mudar o mundo

Para além do liberalismo, do socialismo ou do comunismo, devemos inventar um convivialismo, uma convivialidade, dito em outras palavras, a arte de viver juntos mesmo nos opondo, mas sem nos massacrarmos e levando em conta a finitude e a fragilidade do mundo.

A análise é do sociólogo francês Alain Caillé, fundador do movimento antiutilitarista Mauss. O artigo que segue foi escrito pelo autor para o encontro A piene mani, sobre o dom, que ocorreu em Nápoles, na Itália, e publicado no jornal Il Manifesto, 31-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Bem antes da catástrofe de Fukushima tínhamos a sensação, mais ou menos confusa, de que a Terra não poderia sobreviver por muito tempo à corrida generalizada rumo a um crescimento infinito (como afirmavam inúmeros analistas e militantes altermundialistas). Agora temos a certeza de que isso é verdade.

Mas o que não sabemos é como organizar o mundo sobre outras bases. As grandes ideologias políticas da modernidade das quais somos os herdeiros – liberalismo, socialismo ou comunismo – já não estão mais à altura dos problemas que temos à nossa frente, sem falar do neoliberalismo.

Estes repousavam sobre o postulado de que o conflito entre os seres humanos seria resolvido pelo enriquecimento ininterrupto de todos e de cada um. Mas se isso não pode – ou não deve – mais ser o caso, o problema central político e ideológico da humanidade se coloca à nossa frente com toda a violência e a crueldade possíveis: como impedir a guerra de todos contra todos, preservando a democracia, se não for abandonada a perspectiva de um crescimento infinito? A democracia ainda era pensada em uma escala nacional, de uma só cultura ou de um só país. É preciso, hoje, imaginá-la em escala internacional ou intercultural.

Para além do liberalismo, do socialismo ou do comunismo, devemos, portanto, inventar um convivialismo, uma convivialidade, dito em outras palavras, a arte de viver juntos mesmo nos opondo, mas sem nos massacrarmos e levando em conta a finitude e a fragilidade do mundo. No respeito da decência comum, da civilidade, do espírito do dom e do bem comum.

Sob esse padrão, podem-se reunir múltiplas correntes de pensamento (ecologismo, democracia radical, antiutilitarismo, pós-materialismo, decrescimento, novos indicadores de riqueza, sobriedade voluntária etc.), às quais, para realmente pesarem sobre o curso do mundo e evitar as catástrofes anunciadas, só falta a consciência do fato de que o que elas têm em comum é mais importante do que aquilo que as separa.

Nessa perspectiva, contrariamente às certezas hoje onipresentes, parece então que os principais problemas que temos à nossa frente não são acima de tudo econômicos ou técnicos, mas sociais e éticos. É preciso ajudar tanto a sociedade, quanto a natureza, hoje abaladas, a se levantarem dos golpes que sofreram. E isso não será possível sem uma enorme revolta moral, universalizável, contra o curso atual do mundo.

FONTE: IHU Online

#CódigoFlorestal: bom motivo para alguém tornar-se revoltadamente romântico no Brasil contemporâneo

maio 31, 2011 às 0:57 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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natureza morta angeli

Você está por dentro da polêmica acerca da nova regulamentação para as florestas brasileiras que está em votaçãono Congresso Nacional? Sabia que é muito provável que o seu alheamento no presente sobre esse assunto implique num futuro bastante melancólico para seus filhos? AQUI você encontra uma síntese das opiniões de vários especialistas científicos sobre o assunto. Por outro lado, é fundamental também levar em consideração o ponto de vista marcadamente romântico que a psicanalista Maria Rita Kehl sugere, bastante afinado com uma visão “organicista” sobre as relações entre as pessoas e o meio-ambiente.

RESERVAS AMBIENTAIS, RESERVAS DO IMAGINÁRIO

30/05/2011, 17:51

Caros,

o assunto do Código Florestal não sai de minha cabeça. Mando pro Blog da Boitempo um artigo que escrevi em 1989 e que me parece mais atual do que nunca.

***

– Doutor, eu gostaria que o senhor me explicasse prá que serve uma Onça-Pintada?

A pergunta foi dirigida a meu irmão, ardente defensor das causas ambientalistas, pelo barbeiro da cidadezinha do interior onde mora. O cara, exaltado, foi além:

– Uma Onça-Pintada não serve para nada, doutor. Só prá comer o gado de uns pobres sitiantes. Não entendo por que esse pessoal da cidade faz tanto barulho quando se mata uma Onça. Se uma Onça-Pintada não tem mesmo serventia nenhuma neste mundo, o que dizer de uma reserva ecológica inteira? São terras preciosas pro plantio, ou para empreendimentos turísticos, ou para a implantação de pólos industriais, são milhões de reais – ou de dólares – convertidosem quê? Emmato, doutor.

Mato e bicho do mato. Que serventia tem gastar tanto espaço e dinheiro preservando mato?

Nenhuma, eu diria. Colocadas as coisas nesses termos, os termos dos nossos tempos neoliberais, uma reserva ecológica não serve mesmo pra nada. Não dá lucro, não movimenta o mercado, não se compra nem se vende. Uma inutilidade. Mas tento pensar o contrário – o que seria de nós, num planeta que só refletisse a nossa cara, a cara do homem e de sua civilização?

Suponhamos que o problema dos recursos naturais, das chuvas, do clima, se resolvesse em laboratório e num futuro de ficção científica o homem não precisasse mais preservar nem mesmo a Amazônia – a ciência nos forneceria o necessário à vida, ainda que a terra inteira estivesse urbanizada, ou desertificada, tanto faz. Neste caso, a inutilidade da Onça-Pintada, dos Gorilas, do Boto, dos Golfinhos e todo o seu ecossistema estaria mais do que provada.

Danem-se os bichos e suas exigências tão antifuncionais, nós somos os reis da criação. Viveremos muito bem com galinhas de granja, verduras de estufa e gado sintético. Um mundo mais limpo. Mais asfaltado. O clima regulado por satélites. Não vai ser bom?

Mas, instintivamente, esta idéia nos provoca horror.

Não é racional, o horror. Talvez chegue mesmo o dia em que a humanidade não precise da natureza em estado bruto para sobreviver. No entanto, acho que não poderemos sobreviver sem ela. As reservas naturais, mesmo para quem nunca saiu de um apartamento na Avenida Paulista, são reservas do nosso imaginário.

Mesmo quem nunca pisou na Antártida ou na Amazônia sabe que habita um planeta onde vivem Araras e Pinguins, onde existem grandes florestas e grandes geleiras, onde nem tudo tem a cara da nossa civilização. Precisamos das reservas naturais como reservas de mistério, de desconhecido, reservas para nosso fascínio e nosso medo. Reservas de escuridão. Já pensaram que a escuridão total, completa, de uma noite sem lua e sem estrelas, é quase uma desconhecida para a maioria de nós? Reservas de silêncio, como no deserto. Reservas de cheiros estranhos, que nos remetem a um mundo sem humanidade, o mundo das nossas origens perdidas no tempo. Reservas de memória, da memória da espécie, impossível de se guardar no computador. Reservas para o inconsciente.

Reservas de humildade, onde devemos ser lembrados da insignificância de nossa condição no universo. Reservas de instintos, de pulsões, de fúria, de desamparo. Nós não seríamos humanos se não existissem as grandes reservas naturais.

***

Maria Rita Kehl é psicanalista, doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo, poeta e ensaísta. É autora de vários livros, entre os quais se destacam Videologias – Ensaios sobre televisão (Boitempo, 2004), escrito em parceria com Eugênio Bucci, e O tempo e o cão (Boitempo, 2009), ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Não-Ficção 2010. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, sempre na primeira segunda-feira do mês.

dicas românticas

maio 31, 2011 às 0:25 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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esquema romantismo

alienação_HOUAISS 3

Para entender melhor o conceito marxista de alienação, e a maneira como esse conceito se articula, presentemente, com o problema do consumismo e com a crise ecológica,  uma boa referência é o vídeo “A História das Coisas”, cuja versão dublada para o português pode ser assistida aqui embaixo:

antologia de poesia romântica portuguesa

maio 24, 2011 às 10:11 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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castelo pena

Parecendo, à primeira vista, uma versão modernizada de um castelo medieval, o exuberante Palácio da Pena, retratado na imagem acima, mistura de maneira ousada vários estilos arquitetônicos da antiguidade, formando assim uma admirável síntese de passados no presente que pode ser considerada como uma forte representação da nostalgia romântica em Portugal. Também nos poemas transcritos a seguir podemos observar a idealização do passado como procedimento estético de crítica às formas de degradação moral, de destruição de valores tradicionais e de desilusão que se articulam à consolidação da modernidade capitalista na Europa, idealização que, segundo Michel Lowy e Robert Sayre, serve de bandeira comum para as diversificadas manifestações da revolta romântica, especialmente no âmbito da produção literária.

garrett

  • Almeida GARRETT

QUANDO EU SONHAVA

Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via;
E era assim que me fugia,
Apenas eu despertava,
Essa imagem fugidia
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto,
Agora a vejo fixar…
Para quê? – Quando era vaga,
Uma ideia, um pensamento,
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento,
Uma quimera, um vão sonho,
Eu sonhava – mas vivia:
Prazer não sabia o que era,
Mas dor, não na conhecia …

***

ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar – como eu amo! –
Quem mo pôs aqui n’alma … quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… – foi um sonho-
Em que paz tão serena a dormi!
Oh!, que doce era aquele sonhar …
Quem me veio, ai de mim!, despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela?, eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei …

***

BELA D’AMOR

Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o ‘splendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na Primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai!, vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.

***

CASCAIS

Acabava ali a Terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre os negros penedos
Só deixa viver mesquinho
Triste pinheiro maninho.

E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados,
O mar que incessante brama…
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza.

Aí, na quebra do monte,
Entre uns juncos mal medrados,
Seco o rio, seca a fonte,
Ervas e matos queimados,
Aí nessa bruta serra,
Aí foi um Céu na Terra.

Ali sós no mundo, sós,
Santo Deus!, como vivemos!
Como éramos tudo nós
E de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida
De tudo o mais esquecida!

Que longos beijos sem fim,
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim,
Como eu tinha nela tudo,
Minha alma em sua razão,
Meu sangue em seu coração!

Os anjos aqueles dias
Contaram na eternidade:
Que essas horas fugidias,
Séculos na intensidade,
Por milénios marca Deus
Quando as dá aos que são seus.

Ai!, sim, foi a trapos largos,
Longos, fundos que a bebi
Do prazer a taça – amargos
Depois… depois os senti
Os travos que ela deixou…
Mas como eu ninguém gozou.

Ninguém: que é preciso amar
Como eu amei – ser amado
Como eu fui; dar, e tomar
Do outro ser a quem se há dado,
Toda a razão, toda a vida
Que em nós se anula perdida.

Ai, ai!, que pesados anos
Tardios depois vieram!
Oh!, que fatais desenganos,
Ramo a ramo, a desfizeram
A minha choça na serra,
Lá onde se acaba a Terra!

Se o visse… não quero vê-lo
Aquele sítio encantado.
Certo estou não conhecê-lo,
Tão outro estará mudado,
Mudado como eu, como ela,
Que a vejo sem conhecê-la!

Inda ali acaba a Terra,
Mas já o céu não começa;
Que aquela visão da serra
Sumiu-se na treva espessa,
E deixou nua a bruteza
Dessa agreste natureza.

***

ESTES SÍTIOS!

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro…
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos …
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade…
Ai!, não, não… nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos…
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!

***

VOZ E AROMA

A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.

***

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  • António de CABEDO

CARTA A UM REGEDOR

Cidadão indispensável,
que regeis com tacto fino
o duvidoso destino
desta famosa nação: –
saúde a paz vos envio,
como fez Narciso a Eco
e depois mercê depreco
nesta humilde petição.

Vós que, sem ser estadista,
resolveis coisas do Estado,
e sois, em lance apertado,
dos governos assessor;
que desprezais por modéstia
a carta de conselheiro,
e persistis em… tendeiro…
algibebe… ou cortador;

Vós, que fazeis deputados
ao sabor do ministério –
e, quando o caso é mais sério,
até mesmo os inventais;
enchendo enfim esse templo
das cortes beneditinas,
que, ao menos, nas oficinas
dão que fazer aos jornais:

Ouvi-me, e sede benigno,
magistrado venerando,
que o tal posso, quero e mando
já lá vos chegou também.
E, sem mais palavreado,
vou tratar do meu assunto,
prometendo um bom presunto
se o negócio sair bem.

Tenho um filho, já crescido,
dum talento desmarcado!
O rapaz há-de dar brado,
se bom caminho seguir.
É pacato e mui sisudo
sem palrar de papagaio,
sempre, sempre, quando eu saio,
fica ele em casa… a dormir.

Abre um livro, e fecha-o logo,
pregando os olhos no tecto –
que o rapaz, como discreto,
medita mais do que lê.
A leitura, só, não basta:
o ler muito nada prova:
olhe esta geração nova!
olhe-se mesmo você!

Sim: você, da sua loja,
analfabeto chapado,
pode escolher a seu grado
um varão legislador;
você, do pobre cantinho
em que de sábio não timbra,
pode mais que uma Coimbra,
faz de repente um doutor!

Hoje custa achar emprego
para um moço bem-nascido:
o comércio está perdido;
a marinha nada vale;
no exército de terra
são bandas por toda a banda;
e qualquer arte demanda
jeito e gosto especial.

Por essas secretarias
reina justiça de moiro;
aos néscios oiro e mais oiro;
os outros… ouvem-lhe o som.
Além disso a inteligência
em breve lá se atrofia:
quem fez uma portaria
nunca mais faz nada bom!

Médicos ganharam muito;
mas esse ganho fez termo:
quando um homem jaz enfermo
é quando menos os quer.
Depois dos vários sistemas,
que todos por fim têm pata,
fica a morte mais barata
quando ela por si vier.

A mina da advocacia
teve bons exploradores,
que antigamente os doutores
não assinavam de cruz.
Mas agora a velha escola
tem dado tanto camelo!
bicho de borla e capelo
quase sempre foge à luz.

Feito rápido bosquejo
em que ‘inda tudo não digo,
há-de ser o meu amigo
não só patrono, juiz:
ajuíze, que isto é claro,
se acaso há mor embaraço
que um homem, sem ser ricaço,
ver-se pai neste pais!

Lá marcho direito ao ponto.
A gente às vezes acerta;
eu fiz uma descoberta,
que me não parece má:
para um moço delicado,
que põe mira no orçamento,
uma cadeira em S. Bento –
arranjo melhor… não há.

Levanta-se ao meio-dia;
vai almoçar ao Chiado;
vem às Cortes repimpado
em traquitana veloz:
chega à sala – traça a perna,
endireita o colarinho,
e escreve o seu bilhetinho
à menina dos bandós.

Nos interesses da Pátria,
sua filha em bom direito,
quando vota, diz: «Rejeito»,
ou diz: «Aprovo» também.
Não entrega o voto à sorte,
vai alternando as respostas;
e se acaso volta as costas,
é que não entendeu bem.

Tem sarau em certas noites
nas altas secretarias,
onde há chá, doces, fatias,
e até neve, de Verão.
Faz quase um conto por ano;
emprega quatro parentes;
e as damas, por entre dentes,
perguntam: «Já é barão?»

Eis aqui para meu filho
brilhantíssimo futuro;
e o negócio está seguro,
se aprouver ao regedor:
um gesto de tal potência
torna maus fados propícios,
pode mais que dez comícios
a trabalhar por vapor.

Ponho em vós minha esperança,
ponde em mim vosso cuidado;
criai-me este deputado,
e então mostrarei quem sou.
Esta empresa, em que martelo,
deixa-me a cabeça calva,
se a Pátria não fica salva,
fica salvo… um seu avô.

Acedereis, como espero,
ao meu instante pedido;
e por mim ficareis tido
grande herói entre os heróis.
Basta já d’impertinência;
não pouco tenho abusado.
Sou – vosso amigo e criado –
João Fernandes d’Anzóis.

***

revoluçaão (1)

  • Eduardo VIDAL

A IDEIA NOVA, É BOA!… EM QUE CONSISTE A IDEIA?…
Nova; mas nova em quê?… Na insânia que alardeia,
Na forma sem primor, no rasgo desonesto,
Na feia exposição, na chufa, no doesto,
No delírio falaz que pinta a humanidade
Em latíbulos vis de infame ebriedade,
Bebendo a corrupção nas taças sacrossantas?…
Ideia nova, em quê?… Se a perversão nos cantas,
Sagrando a lira d’ouro às saturnais lascivas;
Se no teu ideal só pairam essas divas
Que a miséria lançou nos antros enlodados,
Que novidade és tu? Que mundos ignorados
Pretendes cimentar repletos d’abundância? –
O que farás do amor – o que farás da infância?…
O que dirás às mães num límpido conselho?…
Onde tens o respeito às cãs do pobre velho
Que é pai, que é bom, que é triste, e em Deus inda confia?…
És noite e escuridão; negas a luz e o dia,
És o velho farsante, a deusa descambada.
Não ascendes ao belo; andas de escada em escada
A farejar o crime, e a delatar o vício.
Que sacerdócio é o teu? – Serves o baixo oficio
Do polícia que espreita, e agarra o que mal usa:
Votaste a Boa Hora em templo à tua musa.
Eu, que persisto há muito em crer no bem florente,
Que sou da reacção protervo impenitente,
Que adoro o Céu, a flor, a pálida beleza,
Os lírios da inocência, a vasta natureza,
E que sinto em minha alma uns estos de lirismo
Quando me agita, ó Deus, um vago panteísmo
Que me afaga, me enleva, e brando me sorri,
Mas que, em íntimo ardor, me leva a crer em ti;
Eu deixo caminhar a procissão judenga,
E adormeço de ouvir-lhe a chocha lengalenga

***

Antero_MANTA2

  • Antero de QUENTAL

POBRES

(a João de Deus)

I

Eu quisera saber, ricos, se quando
Sobre esses montes de ouro estais subidos,
Vedes mais perto o céu, ou mais um astro
Vos aparece, ou a fronte se vos banha
Com a luz do luar em mor dilúvio?
Se vos percebe o ouvido as harmonias
Vagas do espaço, à noite, mais distintas?
Se quando andais subidos nas grandezas

Sentis as brancas asas de algum anjo
Dar-vos sombra, ou vos roça pelos lábios
De outro mundo ideal místico beijo?
Se, através do prisma de brilhantes,
Vedes maior o Empíreo, e as grandes palmas
Sobre as mãos que as sustem mais luminosas,
E as legiões fantásticas mais belas?
E, se quando passais por entre as glórias,
O carro de triunfo de ouro e sândalo,
Na carreira que o leva não sei onde
Sobre as urzes da terra, borrifadas
Com o orvalho de sangue, ó homens fortes!
Corre mais do que o vôo dos espíritos?

Ah! vós vedes o mundo todo baço…
Pálido, estreito e triste… o vosso prisma
Não é vivo cristal, que o brilho aumenta,
É o metal mais denso! e tão escuro,
Que ainda a luz que vê um pobre cego
Luzir-lhe em sua noite, e a fantasia
Em mundos ideais lhe anda acendendo…
Esse sol de quem já não espera dia…

Ah! vós nem tendes essa luz de cegos!
Que! subir tanto… e estar cheio de frio!
Erguer-se… e cada vez trevas maiores!
Homens! que monte é esse que não deixa
Ver a aurora nos céus? qual é a altura
Que vela o sol em vez de ir-lhe ao encontro?
Que asas são essas, com que andais voando,
Que só às nuvens negras vos levantam?
Certo que deve ser o vosso monte
Algum poço bem fundo… ou vossos olhos
Têm então bem estranha catarata!

II

Há às vezes no céu, caindo a tarde,
Certas nuvens que segue o olhar do triste
Vagamente a cismar… há nuvens d’estas
Que o vestem de poesia e de esperança,
E lhe tiram o frio d’este inverno
E o enchem de esplendor e majestade…
Mais do que as vossas túnicas de púrpura!

Eu, às vezes, nas naves das igrejas
Lá quando desce a luz a alma sobe…
E entre as sombras perpassam as saudades…
E no seio de pedra tem o triste
Mil seios maternais… eu tenho visto
Branquejar, nos desvãos da nave obscura,
Como as nuvens da tarde desmaiadas,

Uns brancos véus de linho em frontes belas
De umas pálidas virgens cismadoras,
Que, em verdade, não há para cobrir-nos
A alma de mistério e de saudade
Gaze nenhuma assim! Vede, opulentos,
Como Deus, com olhar de amor, as veste
A elas, de uma luz de aurora mística,
De poesia, de unção e mais beleza
Que o véu tecido com o velo de ouro!

Os vossos cofres têm tesouros, certo,
Que um rei os invejara… Mas eu tenho
Às vezes visto o infante, em seio amado
De mãe, dormir coberto de um sorriso,
Tão guardado do mundo como a pérola
No fundo do seu golfo… e sei, ó ricos,
Que aquele abrigo aonde a mãe o fecha
 Entre braços e seio  é precioso,
Cerra um tesouro de mais alto preço
Que os tesouros que encerram vossos cofres!

III

Levitas do MILHÃO! o vosso culto
Pode ter brilhos e esplendor de pompas…
Arrastar-se nas ruas da cidade
Como um manto de rei… e sob os arcos
De mármore passar, como em triunfo…
Ter colunas de pórfido luzente…
E ser o altar do vosso santuário
Como o templo Sol… cegar de luzes…
O vosso deus pode ser grande e altivo
Como Baal… o Deus que bebe sangue…
Mas o que nunca o vosso culto esplêndido
Há-de ter, como um véu para o sacrário,
A velar-lhe mistérios… é a poesia…

Esse mimo de amor… esses segredos…
O ingênuo sorriso da criança…
O olhar das mães, espelho de pureza…
A flor que medra na soidão das almas…
O branco lírio que, manhã e tarde,
Aos pés da Virgem, no oratório humilde,
Rega a donzela, em vaso pobrezinho!
Nunca a vossa cruz-de-ouro há-de dar sombra
Como a outra da Gólgota  o alívio,
Sombra que buscam almas magoadas 
Onde os citisos pálidos rebentam…
Consolações… saudade… e inda esperanças…

Podeis cavar… as minas são bem fundas…
Cavai mais fundo ainda… e já é o centro
Da terra, aí! Mas, onde, ó vós mineiros,
Por mais que profundeis não heis-de uma hora
Chegar mais… é ao coração…
E, entanto,
É lá a única mina de ouro puro!

IV

O coração! Potosi misterioso!
O grande rio de areais auríferos,
Que vem de umas nascentes ignoradas
Arrastando safiras em cada onda,
E depondo no leito finas pérolas!

O coração! É aí, ricos, a mina
Única digna de enterrar-se a vida,
Cavando sempre ali… sem ver mais nada…
Foi lá, como na areia o diamante,
Que Deus deixou cair da mão paterna
As esmeraldas do diadema humano…

O Sentimento vivo… a Ação radiante…
E a Idéia, o brilhante de mil faces!
Foi lá que esse Mineiro dos futuros
Encobertos andou co’os braços ambos
Metidos a buscar  mas quando um dia
Do fundo as mãos ergueu… o mundo, em pasmo,
Viu-lhe brilhar nas mãos… o Evangelho!
(1863)

***

locomotiva

  • GIRÃO (António Luís Ferreira)

VIVA O PROGRESSO!

Quando nas noites de cruéis insónias,
Papoilas colho pela nossa história
Nos feitos nunca feitos dos antigos,
Patetas tais lamento. – De que serve
O puro amor da Pátria não movido
Por luzente metal, mas alto, e grátis?
Que lucraram Cabrais, e os Albuquerques,
Em Diu os Castros, no Oriente os Gamas,
Senão morrer de fome, e andar às moscas?
Felizmente vai longe o tempo estulto
De ideias carunchosas d’honra e brio,
Que faziam girar estes e outros
Por solidões de nunca vistos mundos.
E houve quem louvasse estas carreiras,
Quem cantasse os heróis, e os descrevesse?
E há, oh, caso raro!, inda hoje em dia
Quem Andrade e Barros saboreie?
Eu por mim quando os leio o sono é certo.
De que livra saber que o Sol nascendo
No berço viu as lusitanas quinas;
Ou que iroso Neptuno escoucinhando
No mar se divertiu cos Palinuros?
Sempre nossos avós eram bem asnos
Em achar graça a ninharias destas!
Que delírio fatal deu causa a tanto?
Que modo de julgar o mundo e homens
Tão outros do que são como hoje os vemos
À luz etérea do imortal progresso!
O tal Gama que fez (haja franqueza)
Para ser cantado por Camões, o torto,
Num poema sem fim de insulsas trovas?
Fez ele porventura à pátria amada
Presente dalgum gás de novo invento?
Roubou por lá dinheiro aos Hotentotes?
Vendeu porção de terra aos estrangeiros
Pra melhor se arranjar quando voltasse?
Mas nada!… qual história!… o caso é outro,
Fez… (modernos barões, morrei de riso!)
Fez conhecido o lusitano nome!
Em vez de tanta glória, o barbas-d’alho
Dentuças d’elefante antes trouxesse,
Que servem pra marfim, pimenta, e cravo,
Como fazem por aí nos nossos dias.
Estes, sim, são heróis, pintos arranjam
Por finos estampados papelinhos,
Ou inocentes traficando em negros .
A honra, a probidade, a fama, a glória,
E que tais palavrões é fumo, é nada.
Quem troca por loureiros pão d’Avintes,
Ou tostados biscoitos? – E inda há parvos
Pregando sabichões que ter virtudes
É melhor capital do que ter loiras!
Viu-se sandice igual?! – O rumo é outro,
É pé-leve, mão pilha, e ser maroto,
Que esperto quer dizer, pois são sinónimos,
Na do progresso singular linguagem.
Que tempo tão feliz – que século d’oiro!

Salve, progresso tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
Do val que foi de pranto, e hoje é de rosas!

Nem tu, sexo gentil, ficaste isento
Desta moda seguir. – (Pasmai, vindouros,
Do lume vivo das modernas luzes!)
As Marílias cruéis têm vindo ao rego
A honra desprezando, inútil freio
Não posto às más paixões, posto à fortuna.
Isto, sim, que é pensar, ah! que inocência,
Que formosura ingénua e recatada
Ganhou por isso a vida! Avante, belas!
Que o viver é gozar, e os fins são tudo.
Teatros, o vestido, o baile e a festa,
Dinheiro custam, não se dão de graça.

Amor, essa paixão que aos próprios deuses
Faria tresloucar, e andar em brasa,
Está posta em leilão, a lanço em praça.
Ó tempos, ó costumes semibárbaros,
Em que amar era andar atrás das moças
A chorar, a grunhir e a fazer versos;
Ou ir de ponto em branco, mata-moiros,
Deixar-se esquartejar por dama ingrata!
As nossas vestais hoje, em vendo as c’roas,
Rendido o coração, dão corpo e alma.
Os tolos Quixotões desconheceram
Que a mulher é mulher; e o oiro é tudo.
Mas isto é pouco ainda, ‘inda devemos
Mais ao progresso que eu adoro, e sigo.
Era dantes mulher traste de luxo
Sem valer um ceitil, cinco réis cegos;
Hoje há pai que põe preço à própria filha,
Marido que hipoteca a linda esposa,
E quem por um cavalo ou por dez libras
A ditoso rival a amada entregue.
Que moda tão feliz, se o preço abaixa!
Progresso, salve, tutelar e amigo,
Que o fel adoças, que os espinhos cortas
De vai que foi de pranto, e hoje é de rosas!

***

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  • João de LEMOS

A LUA DE LONDRES

É noite. O astro saudoso
rompe a custo um plúmbeo céu,
tolda-lhe o rosto formoso
alvacento, húmido véu,
traz perdida a cor de prata,
nas águas não se retrata,
não beija no campo a flor,
não traz cortejo de estrelas,
não fala de amor às belas,
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos
onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
das praias de além do mar?
Foi na terra tua amada,
nessa terra tão banhada
por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
na pátria dos meus amores,
pátria do meu coração!

Oh! que foi!… Deixaste o brilho
nos montes de Portugal,
lá onde nasce o tomilho,
onde há fontes de cristal;
lá onde viceja a rosa,
onde a leve mariposa
se espaneja à luz do Sol;
lá onde Deus concedera
que em noite de Primavera
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas
talvez há pouco o país
onde do bosque as madeixas
já têm um flóreo matiz;
amaste do ar a doçura,
do azul e formosura,
das águas o suspirar.
Como hás-de agora entre gelos
dardejar teus raios belos,
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
do Mondego os salgueirais;
quem andou por Tejo acima,
por cima dos seus cristais;
quem foi ao meu pátrio Douro
sobre fina areia de ouro
raios de prata esparzir
não pode amar outra terra
nem sob o céu de Inglaterra
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
tens aqui; mas Deus igual
não quis dar-lhe essa lindeza
do teu e meu Portugal.
Aqui, a indústria e as artes;
além, de todas as partes,
a natureza sem véu;
aqui, ouro e pedrarias,
ruas mil, mil arcarias;
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
estátuas, praças sem fim
retalham, cobrem o solo,
mas não me encantam a mim.
Na minha pátria, uma aldeia,
por noites de lua cheia,
é tão bela e tão feliz!…
Amo as casinhas da serra
coa Lua da minha terra,
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
padecemos igual dor;
temos a mesma saudade,
sentimos o mesmo amor.
Em Portugal, o teu rosto
de riso e luz é composto;
aqui, triste e sem clarão.
Eu, lá, sinto-me contente;
aqui, lembrança pungente
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
voltemos aos puros céus.
Leva-me, ó Lua, contigo,
preso num raio dos teus.
Voltemos ambos, voltemos,
que nem eu nem tu podemos
aqui ser quais Deus nos fez;
terás brilho, eu terei vida,
eu já livre e tu despida
das nuvens do céu inglês.

PENA1

2011-I: boas vindas

março 13, 2011 às 22:39 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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PERUGINO_Ingegno                revolta melanc

quebracabeça lusofono

Com esta postagem iniciamos nosso trabalho neste semestre letivo, a ser desenvolvido nas disciplinas Literatura Portuguesa II, que enfocará estudos sobre o barroco e sobre o romantismo-realismo português, e Literatura Portuguesa IV, na qual desenvolveremos estudos comparativos entre obras literárias lusófonas que tematizam as relações étnicorraciais. Para ter acesso a uma cópia pdf dos respectivos programas, clique nos links anteriores. Nas aulas inaugurais de amanhã, 14/03, serão distribuídas cópias impressas desses programas para que iniciemos a discussão das problemáticas que balizarão os cursos.

Dentre as novidades no nosso blogue, destaque-se a adição de dois blocos de links na barra de rolagem à direita, intitulados “AFRICANIDADES” e “RELAÇÕES ÉTNICORRACIAIS”. As hiperligações neles relacionadas possibilitam ampliar o suporte de textos, conteúdos e informações relevantes para as atividades na LitPort IV, assim como estabelecer pontes estratégicas com referentes culturais africanos e afro-brasileiros. Ao assumir feições cada vez mais sincréticas, o LUSOLEITURAS procura efetivar aquele “compromisso de alteridades” através do qual, conforme preconiza a crítica literária sãotomeense Inocência Mata, a lusofonia adquire um significado transculturador e intercomunicativo, capaz de superar as tortuosas heranças coloniais e abrir novos e polifônicos horizontes identitários.

A crescente importância desse impulso africanizante no campo das literaturas de língua portuguesa ficou patente durante a VI edição do prestigiado Fórum das Letras de Ouro Preto, evento sucedido em novembro de 2010, em paralelo ao IV Encontro de Professores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Para essa edição foram convidados e homenageados alguns dos mais importantes escritores da África Lusófona, criando-se assim memoráveis oportunidades para a interação com um grande público e para ampliar a divulgação de suas obras. Na organização desse frutuoso encontro destacou-se a professora de literatura e escritora Guiomar de Grammont, autora também de um delicioso texto, “Ler devia ser proibido”, que se tornou referencial, nos últimos anos, para a discussão acerca da função da arte literária como instrumento desalienante e emancipador –- tema, aliás, crucial para os escritores barrocos e românticos. Incluído na bibliografia da LitPort II, esse texto já se encontra pendurado no LUSOLEITURAS, sendo recomendado para todos os letreiros e letreiras, bem como para tod@s @s amantes da liberdade, que frequentam este blogue. Clicando na foto de Guiomar, logo abaixo, você pode acessar o site do Fórum das Letras e saber um pouco mais sobre o impacto causado pelos escritores africanos na antiga, e barroquíssima, capital do Brasil.      

Guiomar degrammont

Finalizando, chamamos a atenção para o MUJIMBO-TWITTER, mais um canal internético de divulgação de materiais e questões referentes às temáticas que abrangem tanto os propósitos deste blogue quanto os interesses do professor-blogueiro que o gerencia.

twitter

confirmação de aulas extras na litport 2

julho 4, 2010 às 14:54 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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AULA EXTRA

SEGUNDA-FEIRA, DAS 19:30 ÀS 22:30

tempos MODERNOS & NOVOS prazos

maio 14, 2010 às 11:23 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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temposmodernos HOJE NO MINI-AUDITÓRIO tempos-modernos1             

                                        19-20:30h 

modern3

modern-times-poster-starring-charles-chaplin         modern times jap     modern2

ATENÇÃO:

A PROVA PODERÁ SER

ENTREGUE ATÉ O DIA

21/05!

modelo de resumo: recordando

março 20, 2010 às 2:53 | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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olhar humanistico Tornamos a chamar a atenção para o interessante artigo de uma Tríade de pesquisadoras da UNICAMP que também se propõem a repensar fundamentos das práticas pedagógicas nos cursos universitários (clique na imagem para lê-lo na íntegra). Especialmente para @s estudantes da LitPort 2, a discussão entabulada pelas autoras pode sugerir aplicações concretas para nossos futuros estudos acerca do caráter re-humanizante e emancipador da estética romântica. De imediato, para ambas as turmas, coloca-se a questão: até que ponto o trabalho pedagógico com o texto literário pode ser articulado às preocupações destacadas pelas autoras? Bom tema para desenvolver na seção de comentários desta postagem, né?

Atentar também para o uso adequado que as pesquisadoras fazem, na redação do resumo, dos operadores verbais característicos do estilo acadêmico de escrita, sem deixar, inclusive, de incorporar elementos coloquiais, assim confirmando as interfaces fluentes entre a língua do dia-a-dia e a objetividade requerida pelo discurso científico. Fluência já percebida por um dos mais ilustres escritores do Barroco português, Francisco Rodrigues Lôbo, que recomendava expressamente, para os amantes da linguagem, o “falar vulgarmente com propriedade”, competência bem definida numa barroquíssima metáfora registrada em uma de suas obras mais importantes, A Côrte na aldeia (1619): “assim como a melhor pintura é a que retrata com mais semelhança a obra da natureza,… assim a melhor escritura é a que retrata com mais semelhança a fala”, proclamava Lôbo. Clique na imagem abaixo e saiba mais sobre este escritor no site do Projecto Vercial. 

francisco_rodrigues_lobo


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